sábado, julho 09, 2016

(DL) «Contos de cães e maus lobos» de Valter Hugo Mãe

Houve um tempo em que subscrevi a opinião de José Saramago em como Valter Hugo Mãe iria ser um dos grandes romancistas da literatura portuguesa.  É que os três primeiros títulos que dele li - «o remorso de baltazar serapião», «o apocalipse dos trabalhadores» e «a máquina de fazer espanhóis» - foram-me entusiasmando progressivamente como leitor, adivinhando-lhe bitolas de qualidade ainda mais exigentes em função do seu amadurecimento como pessoa e autor.
Não é por ter feito da Islândia o espaço ficcional nos dois romances seguintes, que me dececionei com eles. Afinal esse até é dos países mais bonitos, que conheci. Mas é que, à custa de querer tornar-se universal nos temas, Valter Hugo Mãe tem perdido a especificidade geográfica lusa de criar ficções com muita ligação crítica à nossa realidade.
O seu livro de contos do ano passado vem avalizado com o prefácio de Mia Couto e com o contributo de diversos artistas plásticos, mas não ilude uma evidência: tratando-se de textos que se leem bastante agradavelmente, estão longe de constituir Contos com maiúscula, daqueles que garantem ao autor o elogio irrefutável de quem encontra no género uma qualidade superlativa.
Tendo só lido os seis primeiros dos onze contos do livro, o primeiro é o que mais me agradou até agora. Em «A Menina que carregava bocadinhos» há a denúncia de relações muito desiguais entre a classe dos patrões e a dos assalariados. Na destes últimos está a menina contratada aos nove anos para servir de criada numa casa senhorial “em troca de sopa e de um colchão estreito”.
Conhecemos bem o quanto andou próxima da escravatura clandestina o relacionamento de gerações sucessivas de empregadas domésticas com quem se julgava a praticar ato de caridade ao resgatá-las da miséria provinciana para lhes dar alguns laivos do “esplendor” citadino.
Na história de Valter Hugo Mãe a menina vai crescendo até arriscar a sua definitiva libertação.
O outro conto que se distingue dos restantes, quanto à imaginação, é o de «A princesa com alma de galinha» por partir de um pressuposto subversivo: a princesa herdeira do trono a todos escandaliza ao aspirar à carreira de enfermeira. Mas determinada a seguir essa opção, mesmo arriscando-se ao internamento num colégio de rígida disciplina, consegue tomar ao seu cuidado os ovos de um pássaro desaparecido, chocando-os até deles saírem avezinhas graciosas e agradecidas, porque logo sensibilizam a corte ao esvoaçarem para o ombro da princesa como sinal da esperança.
Nos outros contos temos uma mãe que perdeu um filho, que desaparecera no mar e passa a ver nos muitos jarros de água, que acumula a presença simbólica do desaparecido até quase convencer-se da sua efetiva recuperação.
O «Querido Monstro» tem a ver com os amigos secretos de um miúdo . Um é o monstro triste que ele procura fazer rir com cócegas. O outro um velho lobo com pouca vontade para se mexer. É quando conhece uma nova colega de escola, que esses amigos deixam de fazer sentido na sua existência.
«O Rosto» tem a ver com o filho de um guarda florestal, que se habituou a descortinar os mais variados matizes da paisagem vista da colina onde cresceu. Mas na escola a professora convence-a da possibilidade de descobrir o mesmo tipo de diversidade nos rostos daqueles com quem se cruza.
Fiquei-me na história do «rapaz que habitava os livros», história de amor pela literatura concluída com a verdadeira felicidade de dentro deles conseguir finalmente viver.

sexta-feira, julho 08, 2016

(S) Seconda Pratica: «Contar, Cantar»

Um dos espetáculos mais memoráveis deste verão acabado de se iniciar foi o que o Ensemble Seconda Pratica nos ofereceu há uma semana em Palmela e onde demonstrou de que é feita a sua pesquisa sobre os cantos do trabalho inseridos nos cancioneiros dos séculos XVI e XVII e/ou que perduraram no imaginário coletivo de sucessivas gerações.
Ainda muito jovens, os nove elementos, entre cantores e instrumentistas, optaram por uma vertente da música antiga, que se dissocia plenamente da que costumamos ouvir com mais agrado dessa mesma época por corresponderem aos cantos de folia praticados nas cortes e nos palácios da nobreza.
Na conversa subsequente ao espetáculo, a que não faltou o trabalho de encenação de Sara de Castro, os artistas portugueses ou o argentino cujo castelhano era bastante fácil de entender (há ainda quem proviesse da Grécia ou do Japão), explicaram a fundamentação do seu ambicioso projeto, que irá agora procurar interligações possíveis com o cante alentejano.
O clip que aqui se linka corresponde a um extrato da sua presença no influente Festival de Ambronay em 2014, que constituiu importante cartão de visita para ganharem merecido reconhecimento internacional.
Estou convencido que , se foi esta a primeira vez que conheci o seu trabalho, o futuro trar-nos-á novas e estimulantes propostas deste ensemble.



(I) O verdadeiro e o falso Altruísmo

Quem já esqueceu as palavras de Isabel Jonet, quando participou num programa televisivo em que estava em causa a questão da pobreza? O que ela revelou foi algo que tem sido abordado pela filosofia, nomeadamente por Daniel Batson, como tratando-se de um falso altruísmo caracterizado por estar-se aparentemente a fazer o bem, mas na expetativa de se recolherem dividendos dessa ação ostentada para  sociedade como se fosse completamente desinteressada. Seja na expectativa de se ser compensado dentro de uma perspetiva religiosa, seja na da criação de um sucesso social, estamos bem servidos de exemplos de quem anda a «brincar à caridadezinha» como José Barata Moura cantava há quarenta anos.
O altruísmo pode ser entendido como o contrário do egoísmo, mas as fronteiras que os opõem são muitas vezes assaz ambíguas. O próprio Arthur Schopenhauer, que teorizou sobre o egoísmo, entendendo-o como a característica, que mais une o ser humano e os outros animais, personificou ele próprio essa ambiguidade ao interessar-se bastante sobre o budismo. Ora, que pensamento cosmogónico melhor assenta numa solidariedade orgânica entre todos os seres vivos?
A própria lógica do tudo para mim e nada para os outros é desmentida no próprio reino animal, onde é conhecido o que sucede quando uma alcateia é ameaçada por um predador, havendo sempre um dos elementos do grupo, que se deixa ficar para trás, a fim de, com o seu sacrifício, facilitar a salvação dos demais.
Há nesse gesto a compreensão de uma interdependência, que fortalece a existência de cada um dos seus elementos dentro de um grupo, por muito que essa diluição no coletivo seja sentido pelos egoístas como uma ameaça ao seu ego. O altruísmo será, pois, a explosão da bolha egocêntrica, que tende a isolar o indivíduo na defesa do seu exclusivo interesse.
Um bom exemplo dessa generosidade para com os outros ocorre com o altruísmo materno simbolizado no amor maternal. À partida uma mãe dedica ao filho o exclusivo do seu amor com o máximo despojamento dos seus próprios interesses. O verdadeiro desafio social reside em conseguir transformar esse genuíno altruísmo cingido a um beneficiário desse sentimento em algo que se extravasa para outrem.  Mas o próprio reino animal dá-nos uma similitude dessa dificuldade nas leoas, que alimentam as suas crias e quiçá as sobrinhas, mas já com alguma renitência em relação a estas.
Voltando à responsável pelo Banco Alimentar um dos melhores exemplos literários de alguém que se lhe assemelha quase caricaturalmente é aquela personagem de Proust a quem a criada traz deliciosos croissants, logo gulosamente devorados enquanto lê no jornal a notícia do naufrágio do «Lusitânia» e todas as mortes aí verificadas. Conta Proust que ela ter-se-á então sentido triplamente feliz, porque ao prazer das suas pupilas gustativas acrescentava-se a compaixão com todas essas vítimas e o comprazimento de se ter sentido a salvo de tal tragédia. De ter acontecido a outrem que não ela.
A verdadeira satisfação do altruísta reside em sentir a alegria interior de praticar o bem, limitando-se a ser uma «boa pessoa», sem procurar noutrem o reconhecimento dessa condição. É fazê-lo, de facto, desinteressadamente por ser essa a melhor forma de contribuir para a evolução coletiva no sentido dessa tal interdependência sem a qual estaremos perdidos na solidão, no sinistro cada um por si...

quinta-feira, julho 07, 2016

(DL) À descoberta de J.D. Salinger (3ª parte)

«Peixe torcido no Connecticut» surgiu, pela primeira vez publicado na revista «The New Yorker» em março de 1948 e é elucidativo quanto à visão do autor sobre a classe média suburbana, que começava a tornar-se dominante na imposição dos seus valores ao conjunto da sociedade americana do pós-guerra. É que, se outrora tinham imperado os sentimentos generosos da solidariedade, agora a anfitriã da casa, onde tudo se passa, revela-se egoísta, maledicente e até perversa na forma como trata a empregada.
O conto começa com Mary Jane a visitar Eloise, quando os compromissos profissionais a levam a passar perto da casa da amiga  com quem partilhara o quarto no tempo em que ambas tinham frequentado a Universidade.  A intenção teria sido a licenciatura em enfermeiras mas nem uma nem outra tinham concluídos os estudos até alcançarem o respetivo diploma.
Nas horas seguintes, entre cigarros e muitos whiskies, partilham recordações com o fio condutor a ser conduzido pela anfitriã. Ela recorda colegas e professoras para  as quais não poupa as palavras maledicentes e, já muito bebida, recorda Walt, aquele a quem verdadeiramente amara, e morto numa explosão acidental durante a guerra.
Quanto a Lew, também militar, a opinião não é a mais complacente: fizera-lhe crer que lera e adorara os livros de Jane Austen e afinal só passara os olhos por um romance onde quatro tipos haviam protagonizado uma tragédia no Alaska. Depressa a ilusão de uma conjugalidade feliz se lhe desfizera...
Durante esse longo conciliábulo etílico aparece Ramona, a filha de Eloise que, além de quase cega, faz-se sempre acompanhar de um amigo imaginário, primeiro Jimmy, depois Mickey, quando aquele  “morre” atropelado em frente à casa.
Numa história exclusivamente protagonizada por mulheres, existe uma similitude entre esse amigo imaginário de Ramona e o culto mantido por Eloise a Walt, esse namorado só idolatrado nas qualidades, quando visto à distancia da sua recriação mental.
Com Mary Jane a curar a bebedeira no sofá a criada negra, Grace, vem pedir à patroa para que lhe permita a estadia do marido no seu quarto durante a noite, porque a tempestade não lhe permitirá regressar à cidade, mas Eloise dá então uma prova insofismável do carácter, que já lhe adivinhávamos: “A minha casa não é um hotel!”.
Ao ver a amiga acordar, ela, porventura confundida com o tipo de pessoa em que se tornara, pergunta-lhe: “eu era boa rapariga, não era?”
Quando a história foi publicada os produtores de Hollywood assediaram Salinger para que lhes permitisse a adaptação ao cinema. Face ao valor generoso oferecido o autor aceitou, mas depressa se dissociou da redação do argumento ao vê-lo transfigurado para obedecer aos cânones vigentes nos filmes de então. E, surpreendentemente, esse «My Foolish Heart» de Mark Robson até ganhou dois Óscares no ano seguinte, um para Susan Hayward como atriz e o outro para a canção-tema.
Para Salinger a experiência serviu-lhe de lição: nunca mais permitiu que obra sua fosse sujeita aos mesmos tratos de polé.

(DIM) «Dia de cólera» de Carl Dreyer (1943)

O que terá levado Carl Dreyer a rodar este filme, quando vivia sob a Ocupação nazi? A metáfora ao poder discricionário do invasor foi tão óbvia que, temendo represálias, o realizador logo atravessou o estreito de Øresund, deixando-se ficar como refugiado em terras suecas até ver Copenhaga libertada.
Logo na primeira legenda fica enunciada essa conjuntura política: “Dia de cólera, a negra noite cobrirá os confins da Terra e o Sol dará lugar às trevas”. Estamos, porém, em 1623, quando Marthe Herlofs é acusada de bruxaria e procura esconder-se em casa de Anne, a jovem esposa do pastor Absalon. Amiga da mãe dela, que já morrera na fogueira, tenta agora que a rapariga interceda junto do marido, que tem um ascendente carismático sobre os demais juízes da cidade.
Os perseguidores acabam por encontra-la ali e levam-na para ser martirizada até confessar o seu pacto com o demónio. Quando se apanha a sós com Absalon, Marthe tenta salvar-se mediante a chantagem, ameaçando denunciar Anne, acaso ele a não salve, mas acaba por morrer na fogueira, prometendo a morte próxima para os que a terão acusado e condenado.
Em casa Anne é alvo do ódio da sogra, que está decidida a livrar-se da sua presença. Ora ela facilita-lhe a vida ao enamorar-se do enteado, o jovem Martin, que acaba de regressar a casa depois de morosa ausência. Retribuída nessa paixão, Anne entrega-se descuidadamente a ela sem adivinhar o quanto isso se lhe revelará fatal.
Numa noite de grande tempestade, Absalon é chamado para acompanhar os últimos momentos de vida do pastor Laurentius, que lembra, no seu estertor, as palavras de Marthe na fogueira. E, já no regresso a casa, Absalon sente a morte a tocar-lhe a pele a coberto da ventania, contra que investe.
Por essa altura estava Anne deitada no peito de Martin a imaginar o quanto poderiam ser felizes se ela enviuvasse. Mas ele relativiza-lhe as palavras, que não passam da manifestação de um sonho irrealizável.
Apanhando-se a sós com Absalon, Marthe confessa já ter-lhe desejado a morte dele milhentas vezes, ademais agora que tem o amor de Martin para usufruir. Siderado o velho pastor cai morto no chão.
Claro que há muito que adivinhamos para onde evoluirá a história: acusada pela sogra e sentindo o enteado afastar-se dela com horror, Anne confessa à cabeceira do morto, que fez, de facto, um pacto com o diabo e é uma bruxa merecedora do castigo.
Bastante austero no seu preto-e-branco, o filme de Dreyer, quase sempre rodado em interiores,  testemunha uma época de grande desespero por quem acreditava na possibilidade de Hitler ter razão, quando prometia um império por mais mil anos.
Afinal dois anos depois o seu cadáver carbonizava num bunker de Berlim. Depois de assassinar tanta gente nos crematórios de Auschwitz Birkenau, ele próprio reduzir-se-ia a pouco mais do que cinzas…
Quase três quartos de século decorridos desde a sua concretização o filme de Dreyer vale pela estética irrepreensível e pela demonstração de que, depois de anos de trevas, haverá sempre uma janela aberta, une fenêtre éclairée!

quarta-feira, julho 06, 2016

(S) A nova identidade de Antony

Não sendo o rock, e muito menos a pop, o tipo de música, que mais me atrai, tenho de reconhecer o meu interesse no percurso que Antony Hegarty tem feito para conseguir um maior impacto para as suas causas. Agora, já sob a identidade de Anhoni, a intenção política, social e ecológica do que canta acentua-se até por trazer consigo a estranheza da sua nova identidade transgénero.
A estética, assumidamente mais comercial tem essa intenção de servir de cavalo de Tróia ao que dizem os versos de protesto contra esta versão capitalista onde nem Obama se safa, porque agravou muitos dos perigos já conhecidos para o futuro da Humanidade.
Nas pausas dos seus concertos, Anohni anda envolvido em protestos simbólicos: quando o «Expresso» o entrevistou por mail estava a participar numa caminhada contra uma mina de urânio na Austrália, que ameaça o povo aborígene.



(LA) Vade retro, Michael Sandel!

Michael Sandel anda a converter-se na grande estrela da Filosofia Política norte-americana.
 «Justice», o seu recente best seller, utiliza muitos dos temas abordados na suas aulas em Harvard. E esse sucesso decorre da capacidade para transmitir as ideias aos leigos, sem os tiques de muitos dos seus colegas, que «complexificam» propositadamente o discurso na expetativa de ganharem estatuto tanto mais convincente, quanto menos se consigam fazer entender.
À partida comecei por olhá-lo com muito interesse, ao vê-lo defender que a sociedade deverá organizar-se em torno de valores morais como a solidariedade ou o altruísmo. É que a neutralidade ética invocada pelo pensamento liberal - no que isso significa nos EUA -, decorrente do desejado alheamento do Estado relativamente à preferência religiosa dos cidadãos, dispensá-lo-ia assim de promover os valores cívicos relacionados com a defesa do interesse coletivo.  Ora Sandel defende que o Estado deve incitar os cidadãos a tornarem-se melhores pessoas, validando essa tese em função de três grandes grupos de razões éticas.
O primeiro assenta no utilitarismo segundo o qual contam prioritariamente as consequências positivas ou negativas do que fazemos, independentemente das intenções ou grandes princípios, que nos tenham motivado.
O segundo, kantiano, secundariza as consequências, porque faz prevalecer as intenções, sobretudo a satisfação do principio de nunca tratar alguém como uma mera alavanca para chegar a algum lado.
O terceiro, aristotélico, desvaloriza intenções e consequências, porque realça o que a pessoa é verdadeiramente: meiga ou cruel, generosa ou egoísta, etc. Aristóteles afirmava que o importante era cada um cultivar em si a virtude.
Sandel considera que as nossas intuições morais tendem a contrariar as razões utilitaristas e kantianas. Perante a população, disposta a linchar um inocente, estaríamos disponíveis para lhe colocar o laço ao pescoço como sugeririam as primeiras? Ou recusaríamos a utilização da mentira face a quem nos viesse perguntar sobre o paradeiro de um amigo escondido em nossa casa, como seria a opção dos defensores das segundas?
Por isso Sandel é um entusiasta das razões aristotélicas, contrariando Rawls, que sempre defendeu a primazia do Justo sobre o Bem. Para ele é o Bem que deve sempre estar no topo das nossas prioridades.
Mas o que é o Justo e o Bem?
O Justo diz respeito à nossa relação com os outros que devemos construir na perspetiva do almejado equilíbrio. O Bem é mais pessoal, porque constitui o estilo a adotarmos para termos uma «boa vida»: hedonista ou ascética, nómada ou sedentária, individualista ou orientada para o bem coletivo.
Sandel pega nesta distinção para defender que as ideias do Bem ou da «boa vida» devem inspirar os nossos conceitos sobre o que é Justo. A Justiça seria, então, a expressão de uma preocupação com o bem comum.
Ora, nesta altura em que o individualismo é apontado como o responsável pelos males de toda a sociedade, a ideia de bem comum é o critério mais sedutor do que significa Justiça.
É aqui que os propósitos de Sandel se tornam mais equívocos, senão mesmo mais perigosos: é que enquanto Rawls apontava a imposição estatal de uma determinada conceção do que seria uma «vida boa» como coerciva e ilegítima por se aproximar das tentações totalitárias, ele recusa o relativismo do bem e enquadra-o num formato conservador de valores. Não nos podemos, assim, surpreender que tome posições indefensáveis contra o direito a abortar ou de casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Às vezes ideias muito aparatosas, embrulhadas sob a aparência de grande modernidade, escondem em si os conceitos mais retrógrados.
Vade retro, Sandel!

terça-feira, julho 05, 2016

(C) A Juno já está na órbita de Júpiter

Enquanto vamos acompanhando as vicissitudes da política internacional, feita de atentados aqui ou acolá, e de inquietações sobre imprevisibilidades afinal concretizadas (o Brexit, por exemplo), está a esta hora a colocar-se na órbita de Júpiter uma nova sonda, Juno que, durante um ano, irá procurar respostas para algumas das perguntas suscitadas pelo maior dos planetas do Sistema Solar: tem núcleo ou é uma gigantesca bola gasosa? Terá um oceano de hidrogénio em estado líquido? Como se formam as suas esplêndidas auroras boreais?
A NASA promete-nos imagens de notável resolução, que nos revelará o planeta como nunca o vimos até aqui e até arrisca avançar com mais algumas explicações consistentes sobre a formação destes sistemas planetários a rodarem em torno de uma estrela.
É natural que não sejam muitos os que se interessarão pelas sucessivas fases da missão, mas a Juno promete-nos notícias auspiciosas nos próximos meses...

(S) O injustiçado Wilhelm Friedemann Bach

Os últimos vinte anos de vida do segundo filho de J. S. Bach (e o primeiro varão!) terão sido carregados com grandes angústias e provações. É que, apesar de ter sido o filho preferido do grande compositor, que nele depositou as melhores esperanças quanto à continuidade da expressão do seu talento, Wilhelm viu-se desempregado quando tinha 54 anos e levou esses anos crepusculares a viver dos poucos concertos que conseguia dar como cravista e organista (apesar de ter sido reconhecido um dos mais talentosos do seu tempo), da venda dos preciosos manuscritos do pai e dos escassos alunos que conseguia angariar.
Johann Sebastian tinha por ele tanta esperança, que foi com a intenção de lhe servir de manual de formação, que começou a redigir o seu famoso «Cravo Bem Temperado».
Nos anos de juventude Wilhelm até correspondeu ao que dele se esperava sendo contratado como organista da igreja de Santa Sofia em Dresden. Depois de transitar para a igreja de Santa Maria em Halle em 1746, a sua queda no abismo sucedeu quando foi convidado para essa mesma função em Darmstadt em 1762 e se veria despedido por descurar os seus deveres. O relacionamento com quem o contratava revelava-se buliçoso, acabando ele por sentir-se a parte mais fraca de uma relação desigual.
Falecido em 1750, o pai já não lhe poderia servir de amparo, pelo que Wilhelm viveu com tantas dificuldades que, em desespero de causa, até procurou fazer passar como suas, algumas das obras do progenitor.
E, no entanto, como se comprova no exemplo aqui linkado de um dos seus Adagios e Fugas, até era compositor meritório, que dispensava bem esse tipo de subterfúgio.

domingo, julho 03, 2016

(LA) «Retour à Reims» de Didier Eribon

A situação francesa não pode deixar indiferente quem se situa politicamente à esquerda e, como é o meu caso, possui familiares muito próximos em Paris e Bordéus cujo futuro justifica pertinente apreensão.
O terrorismo é um dos fatores influentes por estes dias mas o seu sucesso ou insucesso muito deve, no imediato, a uma política ativa de segurança, muito embora ambígua no respeito pelos direitos individuais do cidadão comum.
Mas, a longo prazo, a forma de a ele responder tem tudo a ver com as políticas seguidas pelo governo, desde a estratégia macroeconómica até à que incide mais diretamente no bem-estar dos cidadãos. E a verdade é esta: quanto maior o sucesso dessas opções para gerarem emprego e crescimento mais bem sucedida será a integração, que impedirá os jovens da segunda ou terceira geração de emigrantes de se alistarem em seitas e grupos terroristas.
A frustração atual reside no facto de existir um governo supostamente de esquerda que, em vez de resolver os problemas, antes os está a agravar como se constata com o grande movimento grevista dos últimos meses, quando foram frequentes as greves e manifestações invariavelmente sacudidas por violentos embates entre a polícia de choque e alguns dos participantes em tais protestos. Ainda tendo na memória os acontecimentos de maio de 1968, podemo-nos interrogar se estamos à beira de uma nova ameaça de guerra civil.
Para Didier Eribon, colunista frequente do «Libération» ou do «L’Obs», essa hipótese não se coloca apesar do ambiente de «revolta social» contra uma Lei do Trabalho indigna de um governo, que se autodesigna de socialista, mas consegue ultrapassar a extrema-direita no seu extremismo antilaboral já que a própria Marine le Pen pronunciou-se contra tal legislação destinada a precarizar o vínculo entre empregados e patrões e acabar com os contratos coletivos por setor.
Filósofo e professor universitário, Eribon lembra que, muito embora haja quem o queira esquecer, a luta de classes existe e está a manifestar-se.
Nesse sentido ele questiona-se quanto a uma eventual vitória da Frente Nacional, porque nem sequer ela conseguirá pôr cobro ao descontentamento dos assalariados com uma situação contra a qual não hesitarão em combatê-la. O teste de fogo, que a extrema-direita eventualmente passará, servirá para dela se voltarem a dissociar os que a ela aderiram vindos da esquerda, até mesmo da comunista, condenados a rapidamente desiludirem-se com a inconsistência de um discurso político apenas baseado no ódio aos emigrantes.
Quando se constatar - como já se vislumbra nas cidades já geridas pela Frente Nacional - que não têm soluções para uma boa gestão coletiva e até se revelam pródigos em enredarem-se na corrupção mais primária, as manifestações agora convocadas pelos sindicatos mais à esquerda só engrossarão em protestos mais veementes.
Eribon aborda muitos dos elementos, que estão na origem da crise atual, no seu livro autobiográfico «Retour à Reims», publicado em 2009, onde mistura momentos da sua biografia, com análise sociológica.
Filho de um operário e de uma empregada doméstica a dificuldade sentida em progredir socialmente decorreu de uma França organizada em classes muito rígidas, que o levou a omitir essas origens para progredir nos meios académicos parisienses.
Envergonhado, sentiu-se «refugiado de classe» e «trânsfuga de si mesmo», reinventando-se a partir de uma dolorosa rutura com a família. Sobretudo por se descobrir homossexual, o que o tornou inaceitável para o meio onde nasceu. Daí a dupla estigmatização perante essa homofobia do seu meio familiar, mas também como racismo anti operário da burguesia onde, como universitário, se pretendia enquadrar.
O romance cobre um largo período, desde os anos 50 até à França de hoje, sendo óbvia a correlação entre o fracasso da esquerda e a ascensão da Frente Nacional.
Ao reorientar os socialistas para uma tendência neoliberal e reformista, Mitterrand traiu os seus objetivos e os dos que pretendia representar.  Como nos podemos admirar de os ver agora entregues à xenofobia, à islamofobia, ao nacionalismo e a uma visão estéril de um Estado-Providência como ele já não pode voltar a ser?
Eribon constata isso mesmo na mãe e no irmão com quem o reencontro é tenso devido às divergências ideológicas, que os passaram a dividir. E, no entanto, a cidade de Reims foi considerada até há pouco tempo um feudo seguro dos comunistas! Hoje passou a ser o de uma extrema-direita alimentada à custa de um insano discurso de ódio.
Para Didier Eribon os problemas estão muito para além da Lei do Trabalho, que tem trazido multidões para as ruas. Têm a ver não só com o futuro da França, mas também da própria Europa. Se a esquerda não conseguir reorientar a sua ação para o apoio aos que socialmente são mais desfavorecidos, a luta internacional entre assalariados e patrões será desvirtuada pela que não faz nenhum sentido: a dos trabalhadores contra emigrantes.
«Retour à Reims» constitui um manual muito útil para melhor compreender os tempos presentes.

(DIM) «Malvado Zaroff» de Ernest B. Schoedsack e Irving Pichel (1932)

Ado Kyrou afiançou que se o marquês de Sade visse este filme aceitaria de bom grado ser o inspirador da história forjada pelos argumentistas, mesmo que outros críticos o tenham contestado pela sua infantilidade. Mas muitos outros declararam-no perfeito na eficácia narrativa e visual do que se pretendia mostrar. É que, apesar das aparências - o mar calmo, o ambiente elegante do jantar no Castelo - a inquietação torna-se incontornável a partir dos primeiros fotogramas.
No início conhecemos Bob Rainsford, um célebre caçador de feras, a viajar num iate junto a uma costa aprazível, mas subitamente palco do inesperado naufrágio.
Acolhido com simpatia pelo Conde Zaroff, Bob pode aí conhecer os tártaros, que lhe servem de criados, os inquietantes cães e dois hóspedes, também eles vítimas da mesma fatalidade: Martin e Eve Trowbridge.
Nessa mesma noite, depois do jantar, Eve procura Bob no seu quarto para lhe pedir ajuda a encontrar o irmão, entretanto desaparecido. Mas já Zaroff e os criados trazem de volta ao castelo o cadáver do rapaz.
É a altura da explicação para o que ali se passa: entusiasmado pelas caçadas, Zaroff fez dos náufragos, que ali têm a desdita de aportar (depois de atraídos à traiçoeira costa!), as suas presas. O desafio, que lhes colocava era simples: ao princípio da noite deixava-os fugir para a floresta e, se não fossem descobertos até ao nascer do sol, teriam a salvação garantida. O que até então nunca tinha acontecido.
Convidado a juntar-se a esse singular passatempo, Bob indigna-se com a proposta e torna-se ele próprio presa, juntamente com Eve, na noite seguinte.
Quase conseguem chegar incólumes ao nascer do dia, quando Bob é arrastado por uma torrente, ficando Eve à mercê de Zaroff, que a assedia para a entrega à sua libido, única forma de se salvar.
Já se aguarda pelo pior dos desenlaces, quando Bob irrompe em cena, resgata Eve do seu agressor, que entrega às garras dos próprios cães.
Há grandeza nesta cena final, quando Zaroff aceita desportivamente a derrota, porque o resultado da caçada demonstrou não ser ele o mais forte. Mas há também o paradoxo de Bob ter começado por recusar a oferta de Zaroff, e acabar por lhe cumprir as execradas regras, matando-o e libertando-se a si e a Eve.
Os realizadores acentuam a faceta demoníaca do protagonista  através de grandes planos e recorrem aos personagens como elementos visuais, como se se tratassem de peças num tabuleiro de xadrez e em que os movimentos e o estatuto corresponderiam aos poderes que se lhes reconheciam.
Leslie Banks, ator mais teatral do que cinematográfico, compõe um Zaroff sóbrio e dominador na sua provável impotência, acicatada pela presença da bela Eve, composição interpretada por Fay Wray, que seria a protagonista de «Kimg Kong» no ano seguinte. Quanto a Joel McCrea, enquanto Bob Rainsford, ilustra na perfeição a hipocrisia das boas consciências.

sábado, julho 02, 2016

(LA) «Femmes d’homosexuels célèbres» de Michel Larivière

Um livro com este título, capa e tema arrisca-se a ser atirado para o lote dos que contêm preconceitos homofóbicos à partida, mas trata-se precisamente do contrário: porque as sociedades do seu tempo não aceitavam as relações amorosas entre pessoas do mesmo sexo, muitos homossexuais célebres casaram com mulheres desconhecedoras dessa sua opção secreta, tornando-as desnecessariamente infelizes.
Ao abrirmos a primeira página Michel Larivière confirma-o: “na época da perseguição (…) a maioria dos homossexuais assumiram a aparência heterossexual para não serem condenados ao opróbrio.”
Até agora pouco soubemos dessas mulheres, que lhes serviram de alibis e muito sofreram com a situação. Entre as dezasseis evocadas só uma pareceu feliz com o casamento: Christiane Vulpius, a conjugue de Goethe. Nos seus escritos pessoais ele explicou a receita para esse entendimento cúmplice: “é verdade que tive relações com rapazes, mas preteria-os de bom grado pelas raparigas. É que, quando me cansavam, eu podia sempre servir-me delas como se fossem rapazes.”.
Madeleine, a mulher de André Gide, até agradecia que ele não a procurasse no leito, tal o terror nela suscitado pelo sexo. Por isso o casal aparentou uma vida social sem sobressaltos até que, em 1916, ela indignou-se  com o que leu numa das cartas dele: a evidência das suas aventuras pedófilas. Isso levou-a a queimar as  cartas dos vinte anos anteriores, razão para, entristecido, ele lamentar o que considerou “uma terrível perda para a literatura”. Mas, mesmo depois, André e Madeleine, que até eram primos, mantiveram uma cumplicidade fraternal e doméstica, semelhante à verificada entre Louis Aragon e Elsa Triolet, sempre inseparáveis.
Com Mathilde, mulher de Verlaine, o caso é mais complicado: transtornado amiúde pelo absinto e pela paixão assolapada por Rimbaud, o poeta quase a matou por estrangulamento e atirou o bebé de ambos com apenas três meses contra uma parede. No entanto, durante muito tempo ela não quisera ver os indícios de uma conjugalidade anormal apesar dos artigos da imprensa alusivos a essa ligação amorosa.
Byron foi um dos exemplos mais detestáveis: casou com Anne Isabelle Milbanke para salvaguardar a imagem e aproveitar-se dos rendimentos dela, que, na noite de núpcias, foi abandonada numa casa sinistra e vazia onde lhe serviram uma ceia já fria. Ao estranhar a situação, o poeta foi muito explicito: “detesto dormir com uma mulher!”.
Por seu lado há quem se revele implacável na vingança por se ter sentido ludibriada: Isabelle, mulher de Eduardo II de Inglaterra, liderou um exército contra ele, capturou-o e fê-lo morrer com um espeto em brasa espetado no ânus.
Essas relações equívocas decorreram da amálgama empreendida pela moral judaico-cristã de três conceitos diferenciados na Antiguidade: o amor, o sexo e o casamento. Para Larivière entre os sentimentos de desejo e a instituição familiar são possíveis todas as combinações, com o casamento a revelar-se mais complexo do que o contrato matrimonial que o enquadra.

sexta-feira, julho 01, 2016

(DL) «Paraíso Virtual» de Nick Sagan

É singular que, quando se trata de imaginar o futuro da Humanidade, os escritores são muito mais tentados a imaginar distopias do que Utopias.
Questão de mercado? Aparentemente os potenciais leitores estão bem mais carecidos de fazer a catarse dos seus medos do que deixarem-se embalar por sociedades ideais resultantes das transformações que tenham ajudado a promover no seu dia-a-dia.
Nick Sagan viu vertido para português o segundo volume de uma trilogia dedicada ao que seria a Terra num contexto de quase total extermínio por causa de um poderoso vírus, o Ep Negra e que só contaria com vinte sobreviventes entre os humanos e os clones produzidos num laboratório ultrassofisticado. O título: «Idlewild».
Surgem assim duas fações principais: na Baviera, em Nymphemburgo, existe uma comunidade matriarcal, constituída por duas sobreviventes do cataclismo - Vashti e Champanhe - e seis clones por elas criadas.
No Egito, Isaac prefere viver com os filhos, todos humanos, muito mais sensíveis às variações do flagelo e por isso condenados à ingestão de medicamentos. Para educa-los ele preferiu uma vertente religiosa baseada nos antigos sufis islâmicos.
À parte de uma e outra comunidade vivem Pandora, que é a faz-tudo, que tudo repara e reconstrói, e Halloween, que se ausentara para a solidão norte-americana, depois de matar Mercurio, que enlouquecera e pusera em perigo a sobrevivência da espécie. Acrescenta-se-lhes Malachi, uma espécie de programa de sotware, aparentado com o HAL de «2001, Odisseia no Espaço».
Enquanto leitores vamos acompanhando a deriva narcísica de Penny, uma das «filhas» de Vashti e Champanhe, que não se contentaria com menos do que incondicional idolatria dos demais, nem que fosse à custa da compra dos seus afetos. Como não consegue - bem pelo contrário! - é ela queminstiga Duque, o clone secreto criado por Halloween, a imitarem Mercurio, tentando destruir todos os que ainda sobrevivem à custa de explosões e envenenamentos. Uma vez mais será Halween a fazer o papel de salvador.
Como é típico do desenvolvimento das narrativas vindas da terra do Tio Sam, os maus da fita quase levam a sua avante até que, in extremis, são travados e eliminados. É o que acontece nesta história da autoria do filho de Carl Sagan, que nunca me conseguiu verdadeiramente convencer da sua valia. No género da Ficção Cientifica existem propostas bem mais aliciantes...