sábado, abril 08, 2017

(DL) «Os Idólatras» de Maria Judite de Carvalho (3)

Com este texto conclui-se a evocação de um dos muitos livros de contos, que a escritora Maria Judite de Carvalho publicou entre 1959 e 1995, embora até 2002 tenham surgido outros de teatro, poemas ou crónicas.
São muitos os apreciadores da escritora que lamentam o esquecimento da sua obra, passados menos de vinte anos sobre a sua morte.
Pelos exemplos, que ficam dos textos aqui sujeitos a sinopse, conclui-se quanto a escritora execrava a injustiça, estando subjacente a crítica aos valores suscitados pelo capitalismo.
No entanto, os seus personagens são solitários demasiado frágeis para contrariarem as ameaças de que são alvo, vendo-se amiúde confrontados com a sua irremediável solidão.
No caso de «Os Idólatras», os contos são situados num futuro indeterminado, onde os amanhãs cantantes não surgiram e os piores efeitos distópicos ganharam angustiante relevância.
Gretchen
A filha de uns velhos endinheirados aguarda a vez numa sala de espera. Trata-se de comprar cápsulas de rejuvenescimento elaboradas com os corpos de crianças mortas de fome ou em cenários de guerra.
Os clientes daquele consultório esperam, assim, adiar a morte por mais uns meses, por mais uns anos. Move-os o interesse egoísta de viverem um derradeiro amor, assistirem ao casamento de algum filho ou outras razões, que consideram suficientemente fortes para não demonstrarem qualquer escrúpulo quanto à forma hedionda como garantem a sua satisfação.
A Estranha Deformação Física
Começou por acontecer em países distantes. Homens com uma deformação física peculiar viam-se assassinados por familiares e vizinhos.
Um dia aconteceu a Ivo essas dores inquietantes, prenunciadoras do nascimento das suas asas de anjo.
Ciente do desenlace que o espera, quer pelo menos evitar que a morte lhe seja dada por quem amou ou simpatizou. Por isso parte estrada forte, decidido a entregar-se ao desenlace já longe de onde morou.
A Cidade do Exito
A senhora Bruce tem noventa anos e a única casa térrea da cidade. A toda a volta cresceram os mais modernos dos arranha-céus.
Olhando gulosamente para os projetos, que possam crescer nesse terreno, os investidores imobiliários da zona assediam-na sem cessar, propondo-lhe excelentes negócios, se ela aceitar vender-lhes a modesta propriedade.  Os mais insistentes são o dono de um hotel e o de um centro comercial, seus vizinhos, ambos apostados em ampliarem a área dos seus edifícios.
Ela a ambos sobrevive, durando até aos 115 anos. Mas ainda mal está a exalar o último sopro de vida e já a casa está a ser destruída para, no dia seguinte, nada restar de um tempo há muito esquecido.

quinta-feira, abril 06, 2017

(SE) Reconstruirmo-nos, reescrevermo-nos

Rosa Montero diz que passamos a vida a mentirmo-nos: aquilo que hoje recordamos da infância é diferente do que dela resgataremos daqui a vinte anos. Se temos irmãos, aquilo que partilhámos é diferente na versão de uns ou de outros. No fundo inventamo-nos a nós mesmos, porque a identidade do que somos é a da biografia tal qual a vamos reconstruindo. Seletiva, recalcando o que nos comprometeu ou fez sofrer, empolando o quanto nela nos causou momentâneo orgulho. No fundo somos escritores de um romance, que nos tem por protagonistas, convidando-nos toda a vida a escrevê-lo, a reescrevê-lo. E se esse contínuo labor é o que há de mais aproximado à descoberta da paixão, acrescida da vantagem de dispensar a outra pessoa, pode concluir-se o quão narcísico é o ofício do escritor.
Reconhece-o a autora espanhola: se quando vivemos o deslumbramento da paixão temos o ser amado incrustado em obsessão do nosso pensar, acordando e adormecendo sempre no mesmo cogitar, a criação de um romance mergulha o autor na mesma alienação. Num e noutro caso anseia-se pelo prodígio, pelo êxtase da perfeição. Mesmo que o saibamos inacessível.
Os árabes costumavam negar a simetria absoluta dos seus palácios com algo de imperfeito para não ofenderem deus, o único a quem esse inatingível se fazia tangível. Estulta precaução, porque o que hoje nos agrada, amanhã será visto como limitado. Não é por acaso que João de Melo ande a reescrever os seus romances, outrora incensados e merecedores de teses de doutoramento. A lucidez do crepúsculo ter-lhe-á dado consciência do quanto lhe falhara na excessiva claridade dos anos pretéritos. Se estamos fadados para escrever contra a morte, a reescrita vem, afinal, como o corolário do que se quis viver  e se não viveu.

(DL) «Os Idólatras» de Maria Judite de Carvalho (2)

Prosseguindo a abordagem dos treze contos,  que integram «Os Idólatras», podemos concluir que a temática da ficção científica e a solidão dos protagonistas são uma constante em todos eles. Para a escritora o futuro pintava-se de cores sombrias, com as possibilidades distópicas a sobreporem-se às que coincidiriam com um acesso mais facilitado à felicidade.
Os Dias da Cor de Longe
Aos 14 anos Mia vive muito sozinha. A família considera-a atarantada, na escola passa por puritana e a verdadeira liberdade acontece, quando se fecha à chave no quarto e escreve no diário os seus diálogos com seres alienígenas com quem comunica semanalmente, à hora certa, todos os domingos.
Convidada por eles a juntar-se-lhes, desaparece sem deixar rasto. Procuram-na no rio, que se vê da sua janela. Mas ninguém se lembra de ir vasculhar no céu…
O Ponto Móvel
Numa quinta do futuro, em que quase todo o trabalho é feito por robôs, o proprietário encontra quinze moedas romanas, que levam a mulher a formular a hipótese de estarem a morar sobre uma antiga povoação. É quanto basta para dele se apossar a estranha obsessão de a devolver à luz do dia: põe a escavadora a abrir uma gigantesca cratera, ansioso por libertar as vozes que as terras tenham soterrado…
As Mãos Ignorantes
Num futuro em que tudo parece organizado para que as pessoas dividam o tempo entre a produção e o descanso, já não há quem escreva, leia ou produza obras artísticas. Resta uma biblioteca no centro da Europa e uma cidade-museu algures no continente americano.
Um casal, recentemente formado graças à colaboração de um programa informático, vive na sua quietude até ele ir de férias à biblioteca e ela ao museu.
Uma noite, para dissipar o tédio, ela contorna as horas de descanso e põe-se a moldar um boneco em barro. Ele, que se entretivera com um livro sobre bruxas e feitiçaria, logo vê na obra da mulher a prova de estar com a sua vida ameaçada e comanda  uma turba ululante para perseguir e matar a «feiticeira».
Estão Todos Lá Fora?
Um homem está quase a ser entregue à multidão furiosa, que o culpa de ter assassinado Vana, Marcus e Steve, respetivamente os idolatrados heróis televisivos dos homens, das mulheres e das crianças. Mas ele não poderia imaginar que o gesto de destruir a televisão, quando os três estavam no ecrã, teria tão funestas consequências. É que limitara-se a reagir com raiva contra a alienação da mulher e do filho a respeito dessas imagens televisivas, que os levara respetivamente para um hospital psiquiátrico e para uma casa de correção.
Estranha essa interação entre a realidade televisiva e as dos seus indefesos espectadores…
O Robô
Jerónimo Gil decide suicidar-se com comprimidos apesar de não ter motivo aparente para o fazer. Ficando em coma durante várias semanas, regressa a casa sem se conseguir libertar do mal-estar. Por isso decide visitar os pais na aldeia natal, mas logo conclui da imprudência de regressar onde, em tempos, terá sido feliz. É que, sendo o mesmo, já não sente o que vê da mesma maneira. Acaba por regressar às rotinas quotidianas, mas até quando?


quarta-feira, abril 05, 2017

(C) A guerra pela água na Ásia Central

Muitas das guerras vindouras terão por causa a falta de água para o fornecimento de energia nas barragens ou para as culturas agrícolas necessárias à alimentação das populações.
A História ensina-nos que, nos anos anteriores à Revolução Francesa, uma seca terrível reduziu drasticamente a produção dos campos franceses, e a queda da monarquia mais não foi do que o seu lógico corolário.
Sabemos, igualmente, que a intenção de Israel em manter a posse ou o controle dos territórios ocupados desde 1967 tem por objetivo o acesso aos aquíferos imprescindíveis ao sucesso da sua agricultura.
As próprias revoltas no Magreb nos últimos anos, e que resultaram na queda de Moubarak, Ben Ali ou Khadafi também tiveram na falta de água uma boa parte do seu combustível.
O documentário do alemão Arno Trümper sobre a forte probabilidade de surgirem guerras na Ásia Central, provocadas pela seca prolongada nalgumas das suas vastas regiões, alerta para uma situação explosiva, que tanto pode ficar ali circunscrita como extravasar para o resto da Eurásia. Não esqueçamos que o provável terrorista do atentado desta semana em São Petersburgo veio de um destes novos países, resultantes da implosão da antiga União Soviética.
Os crimes ecológicos cometidos nestas vastas estepes tiveram ainda origem na época em que Estaline mandava em Moscovo: o mar Aral é o trágico exemplo de como o homem pode precipitar a destruição de toda uma florescente paisagem ao julgar-se mandatado para dela explorar os recursos existentes numa exclusiva lógica economicista.
A cidade de Aralsk que o documentário começa por visitar, transformou-se numa cidade fantasma onde só restam vestígios escassos do tempo em que existia ali uma sólida indústria pesqueira e naval. O que resta do desaparecido lago de água salgada de há setenta anos fica a 50 quilómetros de distância, depois de atravessado um  deserto onde nada poderá voltar a crescer, tão contaminado está o solo com os produtos químicos usados intensivamente nas entretanto falidas explorações  de algodão.
Nesta altura existe uma guerra ainda não declarada, mas iminente entre o Tadjiquistão, que quer utilizar os recursos hídricos provenientes dos glaciares dos montes Pamir para alimentar uma barragem hidroelétrica capaz de lhe garantir autonomia energética, e o Uzbequistão que, a montante, carece dessa mesma água para a sua agricultura.
Ambos tutelados por ditadores, que passaram lestamente da antiga burocracia comunista para o exercício autoritário, mas desideologizado do exercício do poder, é a própria lógica nacionalista a justificar que se faça do outro o inimigo de estimação como forma de contenção do descontentamento intramuros.
A batalha pela água na Ásia Central está a servir de pretexto para que regimes impopulares se procurem perenizar...

(DIM) «Aquele querido mês de agosto» de Miguel Gomes

Em abril é natural que o Cineclube Gandaia dedique as sessões das quintas-feiras à noite ao cinema português, enquanto testemunha do que se tornou o país na sequência da Revolução dos Cravos.
O primeiro título a exibir é «Aquele Querido Mês de Agosto» de Miguel Gomes, que nos dá a conhecer a realidade das aldeias beirãs quando o verão propicia o regresso efémero dos emigrantes e, com eles, multiplicam-se os bailaricos, as procissões e os espetáculos de música popular. O título remete para um êxito de Dino Meira, que foi um dos maiores expoentes do tipo de canção, que se veio a designar como «pimba».
Rodado nos verões de 2006 e 2007 nos concelhos de Arganil e de Oliveira do Hospital, não se encontram muitas ressonâncias do clima político então existente no país, quando se agudizava o conflito entre os que apostavam no crescimento através de grandes projetos de desenvolvimento (novo aeroporto, TGV, etc.) e os que propunham que nos contentássemos com ambições à medida da nossa, por eles considerada, curta perna.
O desemprego não deixava, porém, de ser realidade incontornável como se constata no que diz para a câmara esse personagem esdrúxulo, que vai ganhando a vida nos biscates feitos aqui e acolá ou nos saltos da ponte para o rio, capazes de lhe garantirem uns cobres dos turistas de ocasião.
Mas se há comportamento tipicamente lusitano espelhado no filme é a capacidade de imaginação bastante para fazer muito com meios escassos. Por isso começamos por constatar a existência de uma equipa de filmagens a que falha o financiamento e por isso mesmo a repensar o tipo de obra resultante da sua presença no terreno. Em vez de uma história previamente criada na forma de um argumento destinado a ser interpretado por atores e atrizes profissionais em ambiente natural, o realizador e o produtor convergem na modificação do projeto tornando-o num misto entre a ficção e o documentário.
O resultado sairia tão certeiro - com reações entusiásticas nos vários festivais em que foi exibido, nomeadamente no de Cannes - que Miguel Gomes voltaria a repetir a estratégia em 2015 com a trilogia das «Mil e Uma Noites», essa sim espelho eloquente do que foram os anos da troika. Mas quem viu esses filmes não deixa de reconhecer o quanto eles devem a este que agora se propõe.
Com «Aquele Querido Mês de Agosto», Miguel Gomes dá razão ao que Jean-Luc Godard defendeu a propósito do que é um bom filme: “o documentário mais interessante é o que se integra na ficção e a ficção mais interessante a que se integra no documentário”. Não enjeitando a inserção de uma estória bastante ambígua envolvendo o relacionamento entre os três elementos do conjunto «Estrelas de Alva» (pai, filha e primo), mergulhamos a fundo no ambiente estival em que as canções alternam com a ameaça de incêndios e com o fogo-de-artifício das festas das várias aldeias.
Durante umas semanas esse território, condenado a progressiva desertificação no resto do ano, ganha súbita vida com os que lá estão a olharem surpreendidos para a pesporrência dos que vieram das estranjas e estes a passearem o seu estatuto (mesmo que mistificado!) de bem sucedidos na vida. Quando o verão acaba, também fenecem as ilusões alimentadas nas efémeras semanas em que a vida se aligeirara. 

terça-feira, abril 04, 2017

(A) Quando dei de caras com as obras de James Rosenquist

Na última vez que estive em Nova Iorque apanhei com uma retrospetiva de James Rosenquist no Guggenheim.
Passara a manhã no MOMA, onde comparecera logo ao abrir das portas para ver em poucas horas o máximo, que o meu olhar pudesse abarcar: Pollock, Picasso, Klimt, Matisse e muitos, muitos mais. Era, obviamente, ter muito mais olhos que barriga, porque em vez de me deter face a cada obra o tempo bastante para verdadeiramente a ver, funcionava o comportamento do guloso a devorar iguarias sem as chegar a apreciar.
Mas havia também a surpresa de subir umas escadas e dar com uma enorme janela envidraçada para o Central Park todo coberto de neve (estava-se em dezembro!). Ou entrar numa sala e surpreender-me com uma enorme coleção de Ingres, pintor sobre o qual pouco mais sabia do que tratar-se de um apreciador de violino (segundo o esquecido Trivial Pursuit). Ou descer à cave e dar com milhares de obras dos povos primitivos do Pacífico.
Significa isto que, atravessando a rua, percorrendo-a até duzentos ou trezentos metros acima ia a perguntar-me se do edifício criado por Frank Lloyd Wright conseguiria ver mais do que a sua espantosa arquitetura. À cautela comecei pela cafetaria para o intervalo do tardio almoço. Depois, foi outro espanto com a longa subida pelo corredor em caracol, desde o rés-do-chão até lá bem ao topo, com obras de um pintor até então desconhecido. James Rosenquist.
Que era pop art não duvidava. Mas bem diferente do que Wharol, andara a fazer. Até porque era evidente a mensagem política inerente a muitas dessas telas enormes. O Vietname e as suas consequências para invasores e invadidos. O consumismo desenfreado de uma sociedade do desperdício.
Nunca mais esqueci o nome do pintor, muito embora ele seja tão poucas vezes referenciado na merecida importância na arte norte-americana do século XX.
Vi-lhe agora o nome nas notícias, porque morreu a semana transata. Triste sina a de quem tem obra bastante para ser lembrado por bem mais do que pela alusão necrológica.

segunda-feira, abril 03, 2017

(DL) «Os Idólatras» de Maria Judite de Carvalho (1969) - I

Este é o primeiro texto sobre os treze contos, que Maria Judite de Carvalho publicou em 1969, com o título de «Os Idólatras». Como se vislumbra nos três aqui abordados, estamos em ambientes futuristas, com a incontornável solidão dos protagonistas.
«A Floresta em sua Casa»
Num tempo em que os elefantes já desapareceram e o último leão acaba de morrer num dos escassos jardins incumbidos de conservaram o que restara da vida selvagem, há um pintor a criar telas ao estilo outrora assumido por Douanier Rousseau.
Numa casa está pendurado um desses quadros com um leão, três corças e um macaco. Um dos miúdos, que vive nesse apartamento, começa a notar, com crescente aflição, o que se passa nessa representação: as corças,  uma a uma, depois o macaco, a seguir o irmão mais novo e, enfim, a mãe, todos desaparecem por certo vítimas da voracidade do felino. Mas o pai é levado, acusado de ter matado o filho e a mulher.
Muitos anos depois aquele que fora esse tal miúdo, regressa à casa familiar, agora a cheirar intensamente a bafio, e vê no quadro todos os animais do princípio.
Fica a dúvida: seria verdadeira a versão dos tios, que dele haviam cuidado e tinham atribuído à sua excessiva imaginação a história com que iludira a sanha homicida do progenitor?

«Os Idólatras»
Aos dezanove anos, mesmo que comemorados no dia seguinte, Vic é o tipo de artista capaz de levar à histeria as admiradoras de todos os sítios por onde vai passando a sua tournée.
Joel, o amigo, tenta protege-lo, livrá-lo do stress provocado por quem dele pretende levar uma relíquia ou um autógrafo. Tanto mais que lhe pressente o prazer pelo usufruto do silêncio do mar ali ao lado.
Mas the show must go on: condescendente, o rapaz acaba por descer ao encontro dos que não se dispõem a sair dali sem ele lhes ir ao encontro.
«O Meu Pai era Milionário»
Cinquenta anos depois de ser hibernada numa cápsula, Pamela Rog desperta para inquietante realidade.
Quando adoecera tinha dezoito anos e o pai era um bem sucedido fabricante de automóveis. Agora vê-se condenada à pobreza e à solidão.
O irmão, já velho, não tem condições de a ajudar: a mulher e os filhos culpam-na pela falência do pai, que condenara toda a família à quase indigência. E o príncipe italiano de que estivera noiva acabara por casar com a melhor amiga.
Restar-lhe-ia a novidade de ter vindo do passado, mas numa altura em que está a decorrer a chegada do primeiro astronauta a Marte, quem se interessa pelo que já perdeu todo o interesse?

domingo, abril 02, 2017

(DIM) «Tudo Vai Ficar Bem» de Wim Wenders

Foi antes do 25 de abril, que fiz a grande entrada no grande cinema alemão dessa época nas sessões do Instituto do Campo dos Mártires da Pátria. Foi aí que vi os primeiros Fassbinder, Herzog, Straub ou Syberberg. Em relação aos filmes então permitidos pela censura marcelista, esses continham uma irreverência estética e de conteúdos, que naqueles era impossível encontrar.
Na segunda metade da década de 70 consolidei essa preferência pelos filmes germânicos em relação aos franceses, dada a perda de fulgor da «nouvelle vague». Foi por essa altura que me entusiasmei com os filmes de Wim Wenders. 
«A Angústia do Guarda-Redes perante o remate». «Alice nas Cidades». «Falso Movimento». E o que foi o deslumbramento perante «O Amigo Americano».
A criatividade do realizador começou depois a gripar:  «Hammett» foi uma desilusão e, apesar de tão incensado pela crítica, não gostei particularmente de «Paris, Texas».
Por essa altura ele dizia que todas as estórias estavam contadas, não havendo nenhuma, de que pudesse orgulhar-se quanto á sua originalidade.
Desde então gostei de alguns títulos - «As Asas do Desejo» ou com «Até ao Fim do Mundo» -mas só nos documentários, mais pelos temas do que pelo mérito cinematográfico («Pina», «O Sal da Terra»), se tornaram merecedores de atenção.
«Tudo Vai Ficar Bem» foi uma tremenda desilusão, apesar de só confirmar a decadência irreversível de Wenders. A história de um escritor, que atropela mortalmente uma criança vivendo doravante com o correspondente trauma psicológico, que lhe servirá porém de estímulo para uma bem sucedida carreira literária, é toda feita no total despojamento das emoções, como se, em vez de feitas de carne e osso, as personagens fossem meros robôs.
James Franco, Rachel McAdams e Charlotte Gainsbourg estão incumbidos de personagens, que deveriam mostrar dor, frustração, indignação mas mantém uma inexpressividade inabalável.
Sara, a antiga namorada de Tomas, ainda lhe dá duas chapadonas na cara por ele a ter deixado muitos anos antes, mas alguém acredita na possibilidade de durar tanto tempo tal tipo de ressentimento? O misto de raiva e de indignação do irmão do miúdo atropelado contenta-se em entrar na casa dono do automóvel para lhe urinar a cama?
Tanto quanto deu para atentar no genérico o argumento é baseado num livro de um escandinavo. Mas quem acredita ser essa rígida contenção a forma mais normal de lidar com o sentimento de perda nessas latitudes nórdicas?


(S) O tema de «Vertigo» de Bernard Herrmann

sábado, abril 01, 2017

(DL) O essencial invisível ao olhar

Não me lembro do momento em que conheci a história do Principezinho pela primeira vez. Terá sido algures no liceu de Almada, em meados dos anos sessenta, porque lembro, já com conhecimento de causa, o padre Sobral a falar-nos do diálogo do personagem com a raposa sobre cativar, criar laços.
Homem notável esse professor de Religião e Moral, que deixava a primeira fora das conversas e da segunda tinha a noção da importância dos valores a promover junto dos miúdos ainda em plena formação.
O livro figuraria doravante como o símbolo do que de melhor eu poderia ter sido, porque, entretanto, algumas das suas lições ficaram esquecidas nas vicissitudes das décadas entretanto decorridas. Quem consegue manter-se poeta, quando a realidade impõe a crueza da prosa?
De comum mantive com Saint-Ex a atração pelas paisagens distantes: escolhi os mares e neles costeei todos os continentes, ele preferiu o ar e, aos 26 anos, voava para o Senegal por conta da companhia Latécoère, que viria a ser depois conhecida como a Aeropostale.
Antes de trocar os céus africanos pelos latino-americanos, já o tínhamos a assinar um romance sobre o companheirismo e o sentido de missão: «Voo Noturno». O sucesso imediato deu direito ao prémio Femina.
O humanismo estaria igualmente presente em «Terra dos Homens», quando já trocara o ofício de aviador pelo de jornalista.
Pelo meio apurara o sentido de inventor propondo diversos melhoramentos nos equipamentos aéreos. Nos manuscritos descobrem-se os seus cálculos e esquemas imperscrutáveis.
Apesar da idade e das limitações físicas, a guerra levou-o a alistar-se na aviação francesa em 1939, quando a ameaça nazi justificava a troca das palavras pela ação.
A momentânea derrota conduziu-o ao exílio norte-americano, apesar do governo de Vichy falsamente anunciá-lo como seu representante diplomático além-Atlântico. O interlúdio permitiu-lhe escrever a sua obra maior, aquela que Consuelo reivindicaria como a si dedicada, e ilustrada com as suas próprias aguarelas.
“Só conseguimos ver bem com o coração. O essencial é invisível ao nosso olhar”. Era o mais secreto dos ensinamentos do jovem viajante interplanetário, que também nos ensinava a desenhar carneiros, atrair raposas ou celebrar os acendedores de candeeiros.
O sucesso planetário não tardaria graças à fragilidade do protagonista e à sua desarmante simplicidade. Mas ele já não o veria, porque, novamente alistado na luta contra o horror, desapareceria numa missão em 31 de julho de 1944 ao largo de Marselha, abatido por um avião inimigo.

(C) Os riscos imprevisíveis de um supervulcão

São muitas as possibilidades de acontecerem grandes desastres naturais capazes de condicionarem seriamente a já muito ameaçada qualidade de vida na Terra.
Um deles pode acontecer no supervulcão, que se esconde debaixo do Parque de Yellowstone, particularmente conhecido pelo seu geiser, o Old Faithful, que dá prova de vida todos os noventa minutos. E não é o único, porque existem mais de mil outros em toda a extensão dessa área protegida, sem contar com as muitas outras fumarolas, que nela se distribuem irregularmente.
A diferença entre os geiseres e essas outras manifestações termais tem a ver com o facto de possuírem uma câmara com água, que vai aquecendo o bastante para se projetar pelo tubo de comunicação para a superfície e semelhante na essência a um canhão.
A maioria dos quatro milhões de visitantes anuais do Parque não se dá conta de estarem na tampa de uma panela de pressão, que poderá rebentar num futuro ainda imprevisível para os cientistas, mas mais do que provável, porque o calor e a pressão do magma medido nas duas câmaras situadas no subsolo têm estado a aumentar.
A acontecer uma tal superexplosão não será inédita: há 640 milhões de anos ela já ocorreu e causou uma cratera com 68 quilómetros de diâmetro, hoje só percetível a partir do espaço, mas suficientemente grande para nela caber toda a cidade de Nova Iorque.
Para que ocorra essa tal superexplosão só é necessário um ponto fraco a partir do qual se crie um efeito em cadeia de toda a energia potencial acumulada. Calculada com um potencial equivalente a 140 vezes a explosão do Krakatoa do final do século XIX (quando a onda de choque deu sete voltas ao planeta), ela seria bastante para criar uma nuvem de cinzas com 40 quilómetros de altitude, inibindo-se o aquecimento solar durante muitas semanas, o bastante para causar um súbito arrefecimento global.  Os efeitos na produção agrícola seriam devastadores e seriam acompanhados de muitos outros, que ainda estão por identificar na sua complexa plenitude.