sábado, janeiro 16, 2016

ESTÓRIAS DA HISTÓRIA: Nicola di Rienzi, precursor do Renascimento

Durante mais de mil anos, o Império Romano dominou o Ocidente convencendo-se de que jamais isso deixaria de acontecer. Mas o seu fim chegou e a Antiga Roma passou à História, perdendo a glória e só dela conservando a memória.
No século XIV a cidade medieval é uma sombra da que ali existira, reduzindo-se a edifícios em ruínas, a uma população reduzida e ao domínio de barões que, em torneiros, decidiam quem exercia o poder.  A violência e a miséria são uma constante, desgostando o jovem Nicola di Rienzo, que percorre ruas e vielas imaginando o que ali existira em tempos idos.
Um dia, nos escombros de uma igreja encontra uma estela antiga, com inscrições em latim, que ali passara despercebida nos últimos mil anos.
Fascinado com o achado, decide aprender essa língua há muito em desuso e que lhe estimula a imaginação. Esse é o momento decisivo em que se irá decidir o seu destino e o da própria cidade por constituir um momento precursor do movimento renascentista.
Nicola nascera em 1313, quando Roma já em nada se podia comparar com as grandes metrópoles europeias de então: Paris, Veneza e Praga. E até os Papas a tinham preterido em favor da bem mais civilizada cidade de Avinhão.
Petrarca, o grande poeta de então, chorava em versos o estado em que se encontrava a cidade: os barões reservavam para si os magros recursos do Estado, escondendo o produto dos seus roubos em autênticos antros de banditismo. Sem o mínimo escrúpulo pilhavam igrejas e dinheiros públicos.
Ao contrário desses aristocratas crapulosos, Nicola tinha origens humildes, já que o pai era estalajadeiro e a mãe lavadeira. E, mesmo vivendo num bairro miserável, sem grandes riquezas que se cobiçassem, o irmão de Nicola fora assassinado pelos esbirros dos barões.
O facto de Nicola ter sobrevivido aos constrangimentos então vividos por uma criança e viesse a governar a cidade é já, em si, extraordinário. Mas que tivesse convencido multidões a irem para a guerra ou a colocarem-no no poder justifica bem a lenda criada em torno da sua figura.
Ele apaixonou-se de tal forma pelo sítio onde nascera que meteu na ideia reconstruir o que ali existira.
Apostando na necessidade de se dotar dos recursos da erudição, aprendeu latim com um padre, que o tomou sob a sua proteção. Essa língua constituía, para ele, um autêntico foco de luz, que iluminava o tempo dos antigos e lhe falava de um passado glorioso
Com os textos dos autores antigos, Nicola criou um mundo de fantasia em que as virtudes eram exaltadas, um Império a coabitar com a Justiça e com a nobreza.


quinta-feira, janeiro 14, 2016

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «Carol» de Todd Haynes

Será provavelmente um dos grandes filmes deste ano, porque reproduz o que seria um outro em que Greta Garbo encontrasse Audrey Hepburn e ambas protagonizassem um grande melodrama realizado por Douglas Sirk.

Adaptando um romance de Patricia Highsmith (“The Price of the Salt”), Todd Haynes mostra-nos a paixão assolapada de Carol Aird por Therese Belivet, que encontra nos armazéns Frankenberg na época natalícia de 1952.

Burguesa, sempre cumpridora da função decorativa, que a sociedade parecera atribuir-lhe, Carol está em processo de divórcio contra o marido, um homem muito rico, que lhe quer retirar a guarda da filha de ambos ao invocar a “cláusula da moralidade”, suscitada pela relação amorosa por ela mantida com uma amiga de infância.

Este novo amor só irá dar provas acrescidas para um julgamento, em que está, a priori, condenada.

A partir daí o filme transforma-se num road movie por estradas cobertas de neve entre Nova Iorque e Chicago e em que elas parecem cada vez mais isoladas na sua campânula protetora. Nos quartos dos motéis onde se alojam só existem para a mútua expressão dos afetos. É o primado absoluto dos sentimentos contra a relatividade das regras sociais.

Nesse sentido o filme lembra, inevitavelmente, o primeiro em que demos pela assinatura de Todd Haynes: em 2002, Juliane Moore era a dona-de-casa de “Longe do Paraíso” a quem a chocante descoberta da homossexualidade do marido atirava para os braços de um negro, vendo-se assim motivo de troça de todos quantos a rodeavam.

Desde então Todd Haynes parece ter-se especializado na abordagem de prisões morais  em que, tal qual sucedia nos filmes do citado Douglas Sirk, a transgressão de um personagem causa uma reação em cadeia, que a todos faz sofrer.

Cate Blanchett e Rooney Mara já ficam sinalizadas para as nomeações dos Óscares, bem como a fotografia de Ed Lachman, rica em cores vivas de acordo com os vestidos verdes ou vermelhos da protagonista e com uma iluminação irrepreensível.

O que mais impressiona no filme é a capacidade para nos convencer em como, a despeito das máscaras hábeis com que se disfarça, o moralismo nunca cede. Esconde-se e espera pela hora certa para fazer xeque-mate.

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: o trailer de «Carol» de Todd Haynes

quarta-feira, janeiro 13, 2016

DIÁRIO DE LEITURAS: «História da Violência» de Edouard Louis

Em 2014 as livrarias francesas acolheram um título da autoria de um jovem escritor, Édouard Louis, que se converteria num enorme sucesso de vendas. «En finir avec Eddy Bellegueule» contava como o autor se descobrira homossexual desde muito cedo e, por isso mesmo, se vira no foco das humilhações dos familiares e dos vizinhos da aldeia da Picardia onde vivia. Um sítio onde, nas recentes eleições regionais, a Frente Nacional conseguiu votações acima dos 60%.
O romance autobiográfico estava escrito com muito talento e denunciava essa França provinciana eivada de preconceitos homofóbicos.
Nesta nova temporada literária, Édouard Louis volta a estar em foco com o seu novo romance «Histoire de la violence», onde aborda a terrível experiência vivida em 2012.
No site da Seuil é assim, que ele a descreve: “Encontrei Reda numa noite de natal.
Regressava a casa pelas quatro da madrugada depois de jantar com amigos.
Ele abordou-me na rua e acabei por o convidar para o meu estúdio. Foi assim que me contou a história da sua infância e da chegada a França com o pai, que fugira da Argélia.
Passámos o resto da noite juntos a discutir  e a rir quando, pelas seis da manhã, puxou de um revolver e anunciou o propósito de me matar. Insultou-me, estrangulou-me, violou-me.
No dia seguinte fui ao hospital e fiz queixa à polícia.
Mais tarde a minha irmã serviu-me de confidente e ouvi-a repetir a história à sua  maneira.
Ao regressar à minha infância, mas também à vida de Reda e do seu pai, ao refletir sobre a emigração, o racismo, a miséria, o desejo e os efeitos do trauma sofrido, quis compreender o que se passara naquela noite. E, através dela, esboçar uma história da violência”.
O romance acaba por ter por tema o momento em que essa violência se revela e o que subjaz a esse súbito instinto assassino.  Louis vai fazê-lo através de três vozes distintas: a dos polícias, que recebem a queixa e revelam o seu racismo larvar; a irmã que imaginou reencontrar na região natal e logo conta ao marido, um camionista, a sua versão dos acontecimentos, e os comentários do narrador enquanto a ouve nesse relato.
Nalguns aspetos Louis desvia-se dos estereótipos consagrados sobre o tema: confessa ter-lhe sido mais dolorosa a sensação de que ia morrer do que a violação em si e em como, desde então, não terá conseguido dissociar-se ele mesmo de uma certa reação atávica de racismo em relação aos magrebinos ou aos negros. Mas não deixa de reconhecer o efeito de catarse, que esta tradução literária dos seus tormentos, potencia... 

terça-feira, janeiro 12, 2016

ARTES VISUAIS: Bowie, o artista total

Já tudo se disse sobre David Bowie a pretexto do seu desaparecimento, o que torna supérflua qualquer referência a quem foi, ao que fez e ao que significou para o universo da música popular e das artes em geral. Resta falar do que eu vivi através da obra por ele protagonizada.
Porque sou bastante mais cinéfilo do que apreciador de música - pelo menos  da que se enquadra na lógica da pop! - evoco-o em primeiro lugar no filme de Oshima «Feliz Natal, Mr. Lawrence».
Muito embora, antes e depois, o tenha visto noutros filmes foi nesse que melhor o reconheci como ator, e encontrei justificação para os que o definiram como “artista total”.
Mas, mesmo nunca me tendo entusiasmado com nenhum dos êxitos musicais, que o tornaram frequentador das listas dos álbuns mais vendidos, sempre me interessou a faceta de artista conceptual capaz de criar sucessivas personagens e estilos logo convertidos em modas infinitamente replicadas.
Com algum distanciamento, ia-me apercebendo do mistério e da surpresa, que acompanhavam as diversas fases da sua criatividade.
Nesse sentido não me interessa estratificar Bowie no universo restrito da música, porque o referido artista total acabava por personificar, num sentido bem mais lato, as melhores características do que isso mesmo traduz: o potencial para impressionar, sugerir e transformar, de forma a condenar à obsolescência alguns dos mais relevantes fenómenos de massas do último meio século.
Podemos equacionar até que ponto essas mudanças estéticas eram fúteis - é o que me ocorre pensar com as vacas em formol do consagrado Damien Hirst! -, mas há efeitos inesperados nas réplicas sísmicas, que só muito mais tarde se chegam a levar a sério e ganham interpretações à partida inacessíveis a quem as analisa de tão perto.
Bowie configura, pois, para mim, um fenómeno artístico incapaz de me suscitar grandes estados de alma mas ao qual me manterei atento por doravante se submeter ao verdadeiro crivo, que confirmará ou desmentirá a sua importância: o fluxo inexorável da História.

domingo, janeiro 10, 2016

ARTES VISUAIS: Um quadro determinante de Kandinsky

No início do século XX a intelligentsia de S. Petersburgo sentia um enorme fascínio por tudo quanto provinha de França. A pintura russa procurava seguir o que, então, constituía moda nos salões parisienses ainda intimidados com as propostas impressionistas.
Datado de 1907, e sendo um dos quadros menos conhecidos da sua obra, «A Vida Misturada» de Kandinsky constitui uma rutura com essa predominância ocidental, ao aliar a modernidade ao tradicionalismo identitário russo.
Para Vassily Kandinsky tudo começara em 1889, quando ainda jovem estudante de Direito, foi estudar os tribunais rurais, que exerciam a justiça nas zonas mais recônditas do Império czarista. Apanhando o comboio até onde então se estendia, seguindo depois por barco e carruagem irá contrair o tifo numa pequena vila na confluência de dois rios.
Terá sido sob os efeitos da febre, que ele visionou pela primeira vez a transformação da realidade, feita de miséria dos camponeses, mas também das múltiplas cores do seu vestuário e dos ícones por eles tão respeitados, numa mescla traduzida neste seu quadro.
Nele podemos constatar o registo religioso na igreja e nos seus ícones. Distinguem-se dois irmãos no centro da tela, que imitam uma imagem muito reproduzida dos filhos do czar que fizera construir a primeira igreja católica em Kiev. Existe, igualmente, um S. Jorge em luta com um dragão, mito pagão transferido para a tradição cristã e igualmente muito abordada nos ícones por representar a metáfora da luta contra o mal e a ignorância.
Na base de uma colina deteta-se uma igreja ortogonal, que traduz a tradição arquitetónica local, bem como a cabana da feiticeira Baba Yaga, figura do folclore do leste europeu, tida como guardiã do reino dos Mortos e que domina a Noite e o Dia.
Todo o quadro reflete a influência das estampas, então muito populares, e sempre de cunho místico, baseadas na acumulação de múltiplos elementos.
Quando regressou da sua longa viagem de inspeção ao funcionamento das instituições judiciais no mundo rural, Kandinsky veio transformado: elaborou um relatório a defender o seu funcionamento por ser o que mais se ajustava ao “génio russo”, confrontando-se com a opinião das elites, mais dispostas a adotar os modelos ocidentais.
Kandinsky associa-se, assim, a Dostoievski nesse combate pelo primado dos usos e costumes russos, criticando a tentativa de os substituir por outros a eles estranhos.
Decide também abandonar os estudos de Direito e viajar por toda a Europa (Munique, Veneza, Dresden, Zurique e Berlim) com diversas passagens intercaladas por regressos a casa.
«A Vida Misturada» já reflete a influência do que viu nessas viagens sem deixar de traduzir na tela o universo musical russo.
Influenciado por um Tratado de Cores olha-as como ferramentas essenciais no sentido de criarem sensações, mais do que contribuírem para elucidar a razão das formas. Prepara-se para dar o salto para o abstracionismo em que as cores dispensariam as próprias formas.
Essa lógica revolucionária explica a sua adesão entusiasmada à vitória bolchevique, passando os quatro anos entre 1917 e 1921 a contribuir para a sua estimulante aventura artística. Mas, contraditório como sempre, optaria pelo exílio para participar noutra revolução artística não menos relevante: a da escola Bauhaus.


sexta-feira, janeiro 08, 2016

SONORIDADES: Uma excelente masterclass com Pierre Boulez

SONORIDADES: A melhor lição que Pierre Boulez nos deixou

Sobre o desaparecimento de Pierre Boulez houve quem escrevesse excelentes textos, que seria estultícia tentar superar. As quatro páginas do «Público» a ele dedicadas na edição de 7 de janeiro são uma boa sugestão de leitura para quem ficou surpreendido com a notícia da morte de um dos grandes vultos da cultura europeia no século XX.
Não é, pois, por esse lado que pretendo evocar Boulez. Prefiro outro, o de me ter habituado a frequentar concertos de música erudita nas grandes salas lisboetas (Gulbenkian, CCB) e, frequentemente, encontrar no programa uma obra do século XX a iniciá-lo, ou incluída entre duas de apreciação mais facilitada para um público rendido aos cânones dos sons do século XIX.
Como pressupunha a publicidade sobre a coca-cola, primeiro estranhei, depois entranhei.  Desconhecia, de início, que tinha sido Boulez um dos maiores responsáveis por essa reformatação do gosto desse público tendencialmente conservador, avesso a confrontar-se com algo distinto dos padrões em que se sentiria mais confortavelmente cristalizado.
Compositor de muitas obras desafiadoras, Boulez sempre foi um homem inconformado com os preconceitos e, por isso, não temeu a provocação, quando se associou à proposta de Patrice Chéreau para a encenação de «O Anel dos Nibelungos» no Festival de Beyreuth em 1976.
Quem conheceu essa polémica, soube o quanto ela teve de épica, perante um público apostado em defender a abordagem convencional como se ela fosse um dogma.
Ora os dogmas sempre foi o que Boulez execrou, e essa foi a melhor lição que dele podemos receber...

quarta-feira, janeiro 06, 2016

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: trailer de «A Viagem dos 100 passos»

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: A Viagem dos Cem Passos

À exceção de «Chocolate» não me lembro de ter conseguido reter na memória quantos filmes de Lasse Hallstrom vi.
A História do Cinema está cheia de tarimbeiros deste quilate, responsáveis por filmes, que lembram uma velha publicidade sobre os comprimidos Melhoral. Não fazem bem, nem fazem mal… mesmo quando contam com uma respeitável atriz da dimensão de Helen Mirren.
O resumo de «A Viagem dos Cem Passos» esclarece tudo sobre este filmezinho de 2014, produzido por Steven Spielberg e Oprah Winfrey: quando lhe morre a mãe, um jovem cozinheiro indiano e toda a sua tribo mudam-se para a Europa, onde anseiam por encontrar um sítio aprazível onde sobreviver.
Como o carro lhes avaria na aldeia de Saint-Antonin-Noble-Val, no sul da França, eles decidem assumir o sucedido como um sinal de ser ali o melhor sítio para se radicarem e abrirem um novo restaurante.
O problema é terem em frente o prestigiado «Le Saule Pleureur», reconhecido com uma estrela Michelin pela excelência da gastronomia oferecida por Mme Mallory.
Adivinha-se a lógica do argumento: decidida a acabar com a concorrência à partida, a cozinheira e proprietária do restaurante de cozinha francesa não se poupa nos golpes baixos, nas manigâncias de má vizinhança.
Mas, como estamos no universo cor-de-rosa, Hassan apaixona-se por Marguerite, a subchefe de Mme Mallory e, ao mesmo tempo, pela gastronomia gaulesa, que começa a fundir com a sua.
Os resultados são tão avassaladores, que o final acaba num happy end: não só Mme Mallory o contrata para o seu estabelecimento, como une com ele forças para conquistarem uma segunda estrela Michelin.
O romance de Richard C. Morais prometia malícia, alegria na abordagem do choque de culturas, da mistura de diversas tradições e da importância dos valores nacionais, mas Hallstrom consegue entediar o mais paciente com as longas cenas em câmara lenta na cozinha de Hassan. E com uma miúda irritante, que brinca no espaço dos adultos, e é manifesto erro de casting.
Simpático e divertido, disseram alguns a propósito deste filme. Mas fica-me mais como a típica chiclete, que se mastiga e deita fora...

DIÁRIO DE LEITURAS: Cronenberg chegou ao romance

Aos 72 anos o realizador canadiano David Cronenberg publicou o seu primeiro romance, cumprindo um sonho que perseguia desde a infância.
Nascido em Toronto em 1943, filho de uma pianista, cedo se desviou para o cinema, rodando curtas metragens até encontrar momentânea sobrevivência no cinema pornográfico. O primeiro sucesso cinematográfico foi com um cult movie -«Scanners» - que chamou a atenção da crítica mundial para o seu talento.
Foi verdadeiramente «A Mosca», que o tornou mundialmente conhecido, apesar de se tratar do remake de um velho êxito de série B dos anos 50.  O êxito foi tal, que a versão cronenberguiana chegaria a uma criação operática dirigida por Placido Domingo.
Seguir-se-iam depois muitos filmes prezados pela crítica, como «Crash», «Dead Zone», «O Festim Nu» ou, mais recentemente, «Cosmopolis».
Foi quando se colocou a hipótese de realizar o primeiro episódio da 2ª temporada da série «True Detective», e a recusou, que Cronenberg decidiu pegar num argumento há muito escrito para um filme, que não saiu da gaveta, e o acabou por verter para romance. Que já há quem queira precisamente transformar numa série televisiva, à partida sem que ele esteja interessado em nela participar, seja como realizador, seja como produtor.
Em «Consumés», agora publicado pela Gallimard, existem dois casais muito diferentes: Naomi Seberg e Nathan Math são dois jovens fotojornalistas bastante ingénuos, mas tão materialistas, que só lhes interessam os temas sórdidos, capazes de suscitar o interesse remunerado das publicações para que trabalham. Cruzando-se sobretudo em aeroportos, comunicam preferencialmente pela internet.
Por seu lado Celestine e Aristide Arosteguy são dois filósofos franceses, que já se reformaram das respetivas cátedras na Sorbonne e retratam o tipo de casal que Simone de Beauvoir e Sartre, Sollers e Kristeva ou Louis Althusser e Hélène Rytmann personificaram.
Cronenberg não se guiou apenas pelo modelo de uma dessas famosas duplas, mas em todas se inspirou para criar esses personagens sofisticados e libertinos, com uma forte militância política nas causas em que acreditavam.
Através de Celestine e Aristide aborda-se o tabu do sexo na terceira idade, quando o desejo continua a ser uma possibilidade irreprimível. Enquanto Nathan está em Budapeste a captar imagens das operações clandestinas de um cirurgião polémico, a quem a Interpol procura por tráfico de órgãos, Naomi parte para Tóquio, na companhia de um estudante, que a ajudará a procurar Aristide, cujo desaparecimento parece confirmar a suspeita da polícia em como terá sido o autor material do assassinato da mulher, canibalizada no apartamento parisiense que partilhavam.
Temos, assim, histórias paralelas e alucinadas sobre a tecnologia, o corpo e a morte, e em que o sexo surge em todas as suas facetas, mesmo as mais incomuns: o fetichismo, o voyeurismo e a troca de casais...

segunda-feira, janeiro 04, 2016

SONORIDADES: Uma música sedutora para tema tão terrível

É possível gostar imenso de um tema musical e saber que representa algo de tão terrível como o foram os tanques hitlerianos a avançarem, imparáveis, nas estepes russas a caminho de Leninegrado?
A resposta é positiva e a demonstração está nesta proposta em que vemos o maestro Valery Gergiev a dirigir a Orquestra do Teatro Marinsky na interpretação da 7ª Sinfonia de Shostakovich.
Composta durante o cerco da grande cidade do Báltico, ou seja entre 1941 e 1942, sabe-se que decorreu de um trabalho intenso do criador desta obra-prima que, assim, quis responder ao medo e as privações ali conhecidas.
Para ilustrar o avanço das tropas hitlerianas, Shostakovich inspirou-se num dos compositores, que Hitler mais apreciava - Franz Lehar - e a uma das mais conhecidas árias da sua «Viúva Alegre».
Nos cabarés vienenses, que o futuro ditador frequentava nos anos 20, essa ária era uma das mais apreciadas.
Experimente-se ir então para os 7 minutos deste clipe, quando um tambor começa a ouvir-se como se estivesse ao longe e, pouco a pouco, os demais naipes da orquestra vão-lhe repetindo a toada numa construção, que lembra o Bolero de Ravel.
À medida que os vários instrumentos se vão justapondo, o volume aumenta, adensando a sua intensidade dramática.
Antes de se chegar ao 2º andamento («moderato»), que ilustra o cerco à cidade, todo este alegretto pretende evocar a temível invasão teutónica… e consegue ser extremamente sedutora aos nossos ouvidos de melómanos...

domingo, janeiro 03, 2016

LEITURAS AVULSAS: O sentido da Utopia, 500 anos depois

É excelente a forma como o realizador argentino Fernando Birri explica o sentido da utopia: “a utopia é algo que colocamos no nosso horizonte, damos dez passos e ela afasta-se dez passos, damos mais dez passos e ela afasta-se outros dez. Mas é para isso mesmo que ela serve — para nos fazer caminhar”
Cumprindo-se em 2016 o quinto centenário da publicação da “Utopia” de Thomas More é oportuno reafirmarmos o nosso direito a exigirmos uma sociedade diferente daquela onde vivemos.
Termos os olhos orientados para o futuro e nele planearmos a correção das múltiplas injustiças, que nos indignam e comovem, constitui a motivação para recusarmos a abulia e a estagnação.
Como o caminho se faz a andar, é nesse movimento contínuo de conjugação de vontades, que a sociedade pode ser transformada. Sem precisarmos de grandes insurreições para se ocuparem os Palácios de Inverno dos nossos dias, porque há pequenas e quase impercetíveis mudanças quotidianas com maior potencial de transformação do que as entusiasmantes revoluções abruptas cujos cravos acabam mais tarde ou mais cedo por estiolar.
Na reaferição constante das nossas Utopias ainda não faz sentido voltar a questionar a legitimidade da propriedade privada, mas podem-se dar passos determinados na direção de uma sociedade menos desigual...

sábado, janeiro 02, 2016

ARTES VISUAIS: São os animais compatíveis com a criação artística?

Está aberto o debate em França sobre a utilização de animais em espetáculos desde que Easy Rider participou nas oito récitas da ópera »Moisés e Aron» no Teatro da Ópera-Bastille. Em todas elas o touro escutou, impassível, a música dodecafónica de Arnold Schönberg cumprindo o que para ele determinara o encenador Romeo Castellucci.
Na primeira parte surge numa gaiola transparente como encarnação do Vitelo de Ouro. Na segunda é puxado para uma posição em que um dos figurantes deita sobre ele um balde com um liquido negro. Nessa altura a sala fica estática, com os olhos fixos no animal, sem que os cantores ou a bailarina nua cativem a atenção.
O animal sai-se bem da incumbência, mas não é caso único em espetáculos recentes nos palcos franceses. No «Castelo do Bárbara Azul» de Bela Bartok, levado à cena na Ópera-Garnier, aparecem um coelho e um cão, enquanto cavalos participam na «Penélope» de Fauré em Estrasburgo e na «Maldição de Fausto» de Berlioz, em Lyon.
Ainda no território das artes cénicas, em abril os espectadores da peça «Acidentes», produzida em Montpellier, viam um ator pegar numa lagosta viva, cozinhá-la e comê-la no palco. Graças a um microfone colocado no crustáceo ouvia-se na plateia o coração do animal a bater antes de morrer.
Ao ouvirmos a justificação do encenador Rodrigo Garcia - segundo o qual a peça pretenderia evocar o regresso à natureza, que implicaria matar animais para sobreviver, ao mesmo tempo que metaforizaria a ditadura argentina - só a podíamos considerar absurda, se não mesmo sórdida.
Passando para outros terrenos artísticos também neles se coloca a questão de aceitar ou rejeitar o recurso aos animais para os integrar na criação artística.
Desde 1997, que o artista belga Wim Delvoye acredita na legitimidade dessa utilização, quando tatuou o seu primeiro porco. Na China compra uma fábrica para se dedicar à suinicultura, tatuando os leitões e deixando-os depois crescer. Quando os mata, fá-los mumificar, expondo-os como obras de arte resultantes do seu desenho original e da evolução por eles assumida com o crescimento do animal.

Anteriormente o alemão Joseph Beuys criara uma performance, que consistia na partilha do mesmo espaço com um coiote durante três dias. Foi em Nova Iorque em 1974.
Mais interessante a obra do argentino Tomas Saraceno, que cria aranhas para vê-las criar as suas teias, por ele depois utilizadas para formar delicadas esculturas. Uma delas - «Uma breve história do futuro» - está exposta no Louvre.
Para concluir esta abordagem das diversas utilizações dos animais na criação artística, quedemo-nos nos trabalhos fotográficos do americano Brandon Ballengée, que se focalizou nos animais - por exemplo rãs - deformados pela deterioração dos seus ecossistemas. Pretende assim evocar as consequências danosas do Homem na natureza...