segunda-feira, junho 16, 2014

FILME: «Quanto Mais Quente Melhor» de Billy Wilder (1959)

«Quanto mais quente melhor» está nos píncaros da comédia norte-americana, que tem o travestismo como tema. Foi a segunda colaboração entre Billy Wilder e Marilyn Monroe, que já se convertera no símbolo sexual dos anos 50, quando ainda imperava o código moral de autocensura gizado por William Hays. Mas, já antes, a associação entre Wilder e Marilyn pusera seriamente à prova a instituição conjugal do americano médio com «O Pecado Mora ao Lado» em 1955, quando a mostrava a arrefecer a roupa interior no frigorífico como resposta a um verão nova-iorquino particularmente quente.
«Quanto Mais Quente Melhor» também constitui o encontro de Wilder com Tony Curtis e, sobretudo, com Jack Lemmon com quem contará em seis outros filmes posteriores, incluindo o último que assinou antes de morrer - «Buddy Buddy».
A história começa em Chicago em 1929, quando está em curso uma guerra de extermínio entre diversos bandos de mafiosos.
Joe é saxofonista e Jerry contrabaixista  numa modesta orquestra quando testemunham involuntariamente o célebre massacre de São Valentim. Descobertos e ameaçados de morte pelo terrível Spats Colombo, fogem e, para não serem reconhecidos, disfarçam-se de mulheres fazendo-se contratar por uma orquestra feminina em vias de partir em digressão para a Flórida.
Não tardam a travar amizade com a palpitante cantora da orquestra, Sugar, que lhes confidencia os sarilhos passados quando trabalhava com instrumentistas masculinos, pois tinha uma inexplicável predisposição para se apaixonar por saxofonistas.
É claro que Joe, mesmo a coberto do disfarce de Josephine, não quer perder tão prometedora oportunidade e, tão só chegados ao destino, assume outra personalidade complementar: a do milionário Shell Junior, que faz ajustar em gostos e comportamentos a tudo quanto Sugar confessara ver como irresistível.
Por seu lado Jerry, que veste a pele de Daphne, também suscita a paixão assolapada de um verdadeiro milionário, Osgood Fielding que possui um iate, razão para as pressões de Joe junto do amigo para que aceite o namoro do respetivo dono como forma de marcar encontro com Sugar para a embarcação e tornar credível o novo disfarce.
Mas os percalços sentimentais veem-se perturbados pela chegada de dezenas de mafiosos ao hotel para assistirem a um falso festival de ópera, que serve de cobertura ao congresso dos chefes dos bandos de todo o país. Reconhecidos pelos sicários de Spats Colombo, os dois músicos voltam a andar numa roda viva para deles conseguirem escapar.
O iate de Osgood volta a mostrar a sua utilidade para se esconderem e para ocorrer a célebre réplica final, quando pede casamento a Daphne e a vê confessar que é um homem:
- “Não faz mal!” - responde o apaixonado. - “Ninguém é perfeito!”
«Quanto Mais Quente Melhor» não é a primeira comédia sobre a usurpação de identidade e a mudança de sexo. Wilder reconheceria a influência de um filme de Richard Pottier e de um outro alemão ainda da época do cinema mudo. Mas, juntamente com o seu habitual argumentista, I.A.L. Diamond, quis criar uma ideia original sobre dois homens heterossexuais, habituados a flirtar com quantas mulheres os sugestionassem e, por uma questão de vida ou de morte, a terem de se disfarçar sob vestes femininas e a passarem grande parte do filme com elas envergadas.
O sucesso da obra decorre do cruzamento de dois géneros muito populares: a comédia e o filme de gangsters, misturando-se assim a imbricação temática entre a ameaça de morte violenta e o desejo sexual.
George Raft, que protagoniza Spats Colombo, invoca o seu papel em «Scarface» de Howard Hawks, dirige o seu bando constituído por gangsters, que não o são propriamente de opereta.
Por seu lado, Joe e Jerry, interpretados respetivamente por Tony Curtis e Jack Lemmon, quase parecem miúdos em loja de guloseimas, quando se veem a meio da noite numa carruagem de comboio pejada de colegas da orquestra, todas elas em roupa interior. Entre elas a cândida, e romântica Sugar, que se torna desde logo uma vítima potencial dos cínicos colegas travestidos.
Mas Joe e Jerry acabam por, muito habilmente, deslocarem as fronteiras entre o masculino e o feminino para uma tal ambivalência, que a réplica final pretende concluir que, ninguém sendo perfeito, nunca se é totalmente de um género ou do outro.
Como cerejas em cima do bolo ainda há, enfim, a recordar as canções antológicas interpretadas por Marilyn: “I'm Through with Love”, “I Wanna Be Loved by You” e, obviamente, “Some Like it Hot”.



domingo, junho 15, 2014

DOCUMENTÁRIO: «Crimes na corte dos Medici» de Judith Voelker e Alexander Hogh (2012)

HISTÓRIA: Crimes na corte dos Médici

No século XVI os Médici eram os donos incontestados da Toscânia e influenciavam todas as cortes europeias graças a uma hábil política matrimonial.
Catarina de Médicis tornou-se na esposa do futuro rei francês Henrique II, na mesma altura em que Cosme foi coroado duque de Florença em 1537.
O poder da família está no seu auge mas, ávidos de poder, os seus membros irão perder-se em querelas impiedosas.
A cripta da Igreja de São Lourenço abriga quarenta e nove túmulos, muitos dos quais anónimos. Terão sido Médicis caídos no esquecimento ou a quem se tenha pretendido apagar da história familiar?
Graças às técnicas da polícia científica, historiadores e bio arqueólogos reconstituem a história movimentada dos domnatio memoriae, ou seja, dos banidos da memória.
Três dos filhos de Cosme terão ficado mais conhecidos na História. A filha favorita, Isabella, era culta, poliglota, música e mecenas, merecendo uma assinalável liberdade em relação ao que eram os costumes do seu tempo e para escândalo dos irmãos: Francisco, o primogénito e sucessor do pai, e Ferdinando, o mais novo, que, enquanto cardeal velava pelos interesses da família na corte pontifícia.
Com a morte de Cosme em 1574 tudo muda: quando a brilhante Isabella morre dois anos depois, ela é esquecida e o seu cadáver desaparece.
Terá sido por acidente ou por crime urdido pelo marido ciumento e pelos seus invejosos irmãos? A análise do ADN e a reconstituição facial permitirão identificar os restos mortais, até então, anónimos, de uma mulher de cerca de trinta anos, encontrados na cripta.
Em 1578 o duque Francisco, que sucedera ao pai e governara Florença com mão-de-ferro, enviúva de Joana de Áustria, quando esta vivia o parto do seu oitavo filho. Ocasião que, para grande escândalo dos Habsburgos com quem por casamento, selara importante aliança, ele aproveita para casar com a amante, a veneziana Bianca Cappello.
Em 1587 o casal morre, supostamente de malária, e com poucas horas de intervalo. O ambicioso Ferdinando torna-se no grande duque da Toscânia, sucedendo ao irmão, em cuja morte, dizem os rumores, terá intervindo mediante a aplicação de um eficaz veneno.
Para resolver o enigma os investigadores seguem duas pistas: a análise toxicológica dos pelos da barba encontrados no sarcófago de Francisco e a busca pelo corpo de Bianca, que fora enterrada longe do esposo e cujos restos só foram encontrados quatro séculos mais tarde...

Nota - texto decorrente do documentário homónimo assinado por Judith Voelker e Alexander Hogh (2012)

DOCUMENTÁRIO: «The Vivian Maier Mystery» de John Maloof (2014)

Nos anos 50 existia uma mulher que percorria a cidade de Chicago para acorrer ao emprego de ama seca, mas que nunca se separava da sua máquina fotográfica. Durante as quatro décadas que se seguirão ela tirou cerca de cem mil fotografias, que ordena em 200 pastas. Mas esse esforço era ignorado por todos quantos a rodeavam.
Em 2007 o historiador amador John Maloof entrou num antiquário da mesma cidade e encontrou uma caixa de sapatos cheia de negativos de fotografias. Naquele momento não percebeu o tesouro, que tinha nas mãos e quanto ele iria mudar a sua própria vida. Mas, sete anos depois já realizou um documentário muito premiado e apaixonou-se pela fotografia, inspirado por essa mulher que nunca conheceu, mas cujo nome apenas encontrara numa pequena inscrição, que acompanhava esses negativos: Vivian Maier.
Quem era ela e porque nunca deu a conhecer as suas fotografias a ninguém?, interrogou-se John Maloof.
A sua investigação resultou precisamente nesse documentário intitulado, «The Vivian Maier Mystery» recentemente exibido na Berlinale.
Trata-se de uma pesquisa de tipo policial em torno do mistério de uma das mais talentosas fotógrafas de rua do século XX.



sábado, junho 14, 2014

LITERATURA: a escrita audiovisual de Jean Échenoz

Embora esteja publicado em português, Jean Échenoz é quase um desconhecido entre nós. E, no entanto, não seria difícil suscitar agrado com um desses romances onde acompanhamos a forma como Maurice Ravel vai tendo consciência da irreversível demência, que o distancia de quanto acumulara na memória.
É verdade que a sua prosa tem uma sonoridade em francês, difícil de reproduzir na tradução, mas a forma depurada como desenvolve os seus temas em romances pouco maiores do que contos longos, constitui um estilo facilmente a ele associável.
A obra mais recente, «Caprice de la Reine» acaba de surgir e contém novelas sobre um general, uma rainha, a Flórida e Heródoto. Mas, até por estarmos em ano de centenário, faz todo o sentido recordar o seu «14» em que aborda os acontecimentos de então a partir de uma pequena aldeia francesa, enfatizando a fadiga, os pequenos prazeres dos soldados, os prazeres mais irreprimidos e o crescente pânico.
Numa entrevista recente ele reconhece a importância da influência do cinema na forma como escreve: “como enquadrar a imagem, a técnica da montagem e a utilização dos diversos formatos para que as descrições sejam tão visuais e acústicas quanto possível. Tanto quanto seja capaz, tento escrever num estilo audiovisual!”.


MÚSICA: O Quarteto Ébéne visita a Bossa Nova com as vozes de Stacey Kent e Bernard Lavilliers

Com o seu décimo álbum o Quarteto Ébéne descobre os sons sul-americanos. Acompanhados pelos seus instrumentos os dois violinistas, o violoncelista e o violetista do grupo aterraram na praia de Copacabana e contaram com as participações das vozes de Stacey Kent, e Bernard Lavilliers.
«Brazil»  tem 26 minutos de puro prazer por parte de uma formação mais experimentada na música erudita, mas que não enjeita testar novas sonoridades, que a aproximam mais do jazz e das bandas sonoras para cinema.