terça-feira, novembro 10, 2015

PALCOS: A ária «La vendetta» de «As Bodas de Fígaro (1º ato)

É então que entra Marcellina, acompanhada de Don Bartolo, que andam a intrigar para que Figaro acabe por casar com ela, já que lhe deve dinheiro.
«La vendetta» é o exemplo perfeito do que uma ária para um basso buffo pode tornar-se quando criada por um compositor genial. 

PALCOS: A ária «Se vuol bailare» (1º ato de «As Bodas de Fígaro)

A noiva está a ver-se ao espelho, enquanto Figaro toma medidas no pavimento (“Cinque… Dieci”), porque considera essa divisão, entre os quartos do Conde e da Condessa, como aquele que melhor lhes convirá. No que Susanna  discorda, explicando como sendo o sítio mais adequado para responder prontamente ao chamamento da patroa, também possibilitaria uma maior liberdade de movimentos ao conde.
Nesse preciso momento, a Condessa chama a criada, e Figaro fica a pensar num constrangimento, que também o incomoda. Se nos dois movimentos que integravam o seu duo com Susanna imperava a alegria, porque ela via-se capaz de lidar com uma situação ambígua, já Fígaro com a ária «Se vuol bailare» revela um estado de alma, onde já surge a apreensão.



PALCOS: a abertura de «As Bodas de Fígaro»

Normalmente consideram-se «Aida» e «Figaro» os maiores exemplos das óperas “populares”, no sentido em que nunca nos cansamos de ouvi-las, nem cessam de ser reinterpretadas. Talvez porque a estrutura musical possui uma tal sensibilidade e delicadeza, que encontram eco num certo imaginário popular.
A obra «As Bodas de Fígaro» marca o primeiro encontro de Mozart com o seu mais famoso libretista, Lorenzo Da Ponte.  Dado que, desde a criação de «A Flauta Mágica» (1775)  Mozart andara perdido na criação de obras, que não tinham chegado a bom porto  (as óperas «L’Oca del Cairo» e «Lo Sposo  Deluso»), a estreia de «Fígaro» foi aguardada com alguma ansiedade na Viena de então: estreou-se no dia 1 de maio de 1786.
O êxito seria muito moderado apesar do texto e da música aliciantes.  Só quando o público de Praga lhe atribuiu um enorme sucesso, é que os austríacos corrigiriam a sua primeira impressão.
A encomenda de «Don Giovanni», vinda precisamente da capital checa, decorreria desse enorme sucesso.
Num conjunto de textos acompanhados de clips musicais com as principais árias da ópera, iremos visitar todos os seus quatro atos.
Logo para começar temos uma abertura extremamente célebre: estamos no dia das núpcias de Susanna e de Fígaro, iniciando-se uma atividade febril logo ao levantar do pano. 


DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: O nascer do dia

Um dramalhão - daqueles de fazer chorar as pedrinhas da calçada! - poderá ter muito de criticável, mas, em compensação, possibilita interpretações exigentes a quem o possa protagonizar. Foi o que sucedeu com Aylin Tezel, que ganhou o prémio da melhor interpretação feminina no Festival de Toronto de 2012 com o papel de Lara, a protagonista de «O Nascer do Dia», realizado por Pola Beck.
Aos 25 anos a jovem estudante de arquitetura fica grávida de uma relação efémera e decide conservar o bebé, em quem julga encontrar um sentido para a sua caótica existência.
O problema é o aborto aos seis meses de gestação, que ela não aceita, instalando-se num comportamento de negação, mediante a teimosia de prosseguir com o programa de preparação para o parto.
Além de testemunho sobre toda uma geração, o filme foi elogiado pela autenticidade e realismo.
Em sucessivas entrevistas, a realizadora Pola Beck revelou como andou a investigar junto de pessoas, que tinham passado pela experiência de abortos espontâneos, para as compreender o melhor possível. Depois tentou reproduzir fielmente uma dor psicológica, que de fora é difícil de aceitar na sua verdadeira dimensão... 

domingo, novembro 08, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: A acácia de Claude Simon

Em 1985 foi-me indiferente a atribuição do Prémio Nobel da Literatura a Claude Simon, dado o pouco entusiasmo que o Nouveu Roman me suscitara. Por isso, quando «L’Acacia» foi publicado em 1989 não vi motivo para o ler apesar do entusiasmo da crítica pela tentativa em regressar às origens familiares, através de uma autobiografia apostada em rejeitar o recurso à primeira pessoa do singular.
O livro começa num cemitério militar onde um miúdo de seis anos acompanha três mulheres enlutadas na procura de uma campa. Quem ali está sepultado é o pai desse rapaz que, oriundo de uma família de camponeses do Jura, conseguira estudar com o apoio das irmãs, chegando a oficial superior do exército. Fora nessa condição, que morrera em combate durante a Primeira Grande Guerra.
Duas dessas mulheres eram as tias do rapaz, que tinham ficado solteiras para se
entreajudarem no cultivo da quinta familiar e conseguirem assim pagar os estudos do irmão.
A outra mulher era a viúva, essa filha da aristocracia do Sudoeste francês, que passeara a indolência juvenil por hotéis e propriedades familiares até conhecer o futuro marido, com quem se enlaçara apesar da resistência dos progenitores. Fora durante uma estadia em Madagáscar para onde o militar fora incumbido de uma comissão de serviço, que o miúdo do cemitério nascera.
Dessa cena, passada em 1919, até à última, em 1940, quando já com vinte e sete anos regressara da breve guerra, que resultara na rendição dos exércitos franceses, Simon vai desenvolver um autêntico puzzle, onde se misturam as evocações dos pais, as memórias da sua viagem pela Europa em crise de 1937 e as incipientes tentativas de se afirmar como pintor.
Gradualmente, vai-se tecendo uma espécie de tapeçaria de recordações pessoais, de lendas familiares, de sensações e de paisagens.
Simon confronta a violência da História com a serenidade da natureza num livro sabiamente construído como se ele ainda retivesse algo do pintor sensível ás cores, às formas e às matérias.
A frase, longa, sinuosa, cheia de parêntesis, é um fio condutor, que transmite sensações, odores e luzes.
A propósito deste livro e do que ele significava enquanto corolário de uma obra já laureada, Simon diria: “Há uma evolução na minha obra, que vai abandonando progressivamente o fictício, e me deixa uma estreita margem de manobra. Só tento contar melhor as histórias e recordações, descrever as coisas e imagens. Penso amiúde na resposta de Cézanne quando lhe davam interpretações das suas ‘Baigneuses’. Ele dizia só ter querido transmitir certas atitudes. Como todos os constrangimentos, o de renunciar à ficção é muito fértil”.
A acácia do título é a árvore, que o jovem vê da sua janela, quando, desmobilizado da guerra, decide apostar na aventura literária. O livro consegue ser totalmente autobiográfico sem nunca nele aparecer a palavra “eu”, um quase romance de iniciação cujo protagonista nunca chega a ter um nome, uma quase saga familiar com gente anónima, mas capaz de ser comovente graças à acumulação de detalhes que lhe dizem respeito, como se dela resultassem ecos percetíveis.

sexta-feira, novembro 06, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: um cocktail sem interesse

Quando «Cocktail» estreou nos cinemas, eu deveria andar na pretérita vida de marinheiro  nas graças do mar, navegando de oceano em oceano para levar mercadorias de um lado para o outro.
É claro que soubera da existência do filme, e de como ele contribuíra para a ascensão de Tom Cruise e de Elisabeth Shue aos tops dos atores e atrizes mais bem pagos da sua geração. Mas raramente voltei a lembrar-me da existência de tal “obra”.
Por estes dias, embora algo renitente em perder tempo com uma intriga, que adivinhava pouco estimulante, acedi a olhá-lo como se estivesse sentado nas cadeiras da Cinemateca e a analisar o que era uma certa forma de fazer cinema há cerca de trinta anos.
O que vi foi uma história ao nível da mais básica telenovela: um bom rapaz, “um pouco tímido até”, que quer estudar, mas não tem tempo para isso por causa do seu trabalho num bar onde se deixa cair na alçada de um guru carismático, mas sem substância. Por isso a solução poderá passar por relacionar-se amorosamente com quem lhe franqueie passagem para o almejado elevador social.
Só que a vida de gigolo depressa se revela sem perspetivas de cumprir o que almejara. E, afinal, a pobre da rapariga, que ganhava a vida como empregada de restaurante, e cuja relação desdenhara, era afinal uma herdeira rica disposta a testá-lo no seu dúbio carácter.
Quando tudo apontaria para ela o mandar definitivamente aos rebuçados, já que chumbara clamorosamente no exame a que o submetera, o happy ending é garantido, não fosse o caso dos executivos de Hollywood apressarem a reforma antecipada de um realizador que, nem antes, nem depois, mostrou capacidades para ser mais do que um modesto tarimbeiro... 

quinta-feira, novembro 05, 2015

SONORIDADES: «Retiro», o trabalho mais recente de Rodrigo Leão

Aprecio bastante a obra de Rodrigo Leão ou não fosse um incondicional de Philip Glass, que constitui uma das suas mais óbvias influências. Mas também esse cruzamento da pop com a música clássica e a tradição francesa sem esquecer o gregoriano, mormente nos temas em latim, pensados mais no carácter sugestivo da musicalidade das palavras do que propriamente no que elas dizem. Mas gosto, sobretudo, porque não deixo de ser um melancólico e esta música constitui um adequado fundo sonoro para quando assim me sinto... 


DIÁRIO DE LEITURAS: Saber que não quer ir por aqui

De entre os vários livros, que ando a ler ao mesmo tempo - um vicio antigo de que nunca me curarei! - saliento o agrado propiciado pelo mais recente romance de Pedro Vieira: «O que não pode ser salvo».
Inicia-se com o enterro de António, emigrante sempre saudoso da terra, que deixara para trás, e morto antes dos sessenta, dois ou três anos antes de cumprir o desejo de um regresso definitivo àquela que considera a sua verdadeira casa..
Quem não fica satisfeita com a mudança para Portugal é Janine, a filha que vive a intranquilidade permanente de nem se sentir francesa nem desta terra distante para onde a mãe forçou a vinda.
Sem recursos para regressar a Saint-Denis, ela consegue albergar-se em casa de uma tia em Lisboa e é aí que irá conhecer o triângulo amoroso, que estabelecerá com Tiago e com Mateus.
O primeiro é um filho de classe média, sem emprego e já sem ocupação académica, gastando os dias no computador ou nas conversas cinéfilas com uns amigos, que o tomam como seu bobo de serviço.
O outro é Mateus, jovem negro com um passado de delinquente juvenil, mas a quem a passagem pela Bósnia abriu os olhos para um tipo de ambição mal recebida pelo irmão mais velho e os seus amigos do bairro da margem sul onde vive.
Pela via ficcional descreve-se a realidade bem da geração dos cal centers, em que os jovens vivem a frustração de não poderem sequer almejar por sonhos consistentes enquanto a classe média vai enganando o tédio com a ilusão das satisfações adúlteras.
Os diálogos alternam com as reflexões das personagens, muitas vezes transformadas em analepses, que explicam mais assertivamente as razões para a vontade de se ir sabe-se lá para onde, porque o único sítio onde se não quer estar é aqui...

Extrato:  
De regresso à terra revolta: temos o que sobra de uns collants que o solo não come, solo fértil em bichos que estão lá mas não se vêem, exatamente como quando se está doente, o corpo uma madeira que se desfaz em pedacinhos, mais um daqueles ossos enormes, daqueles da perna, duros de roer até pela eternidade, e passados tantos anos, depois de tantas saudades lançadas memória abaixo, a avó Rosa ainda dura, como se não pudesse despedir-se de vez deste mundo, tal como António irá durar na cabeça de quem o entrega à campa, rasa por vontade do próprio, o que só poderá dar em falatório, que gente é esta que nem um arranjo de mármore lhe faz, o costume em terras de fel e azedume, António que vai ficar marcado por muito tempo na memória de Janine, de Maria de Fátima, de Dominique, outra trindade, como a conta que Deus fez nas nossas costas, noves fora nada, e diz-se marcado como se tivesse oferecido o ombro de bandeja àquelas vacinas da BCG que se davam no antigamente, fabricadas de maneira a prevenir a doença e a garantir a fealdade da picada, a cicatriz de uma geração, habituada a dar o corpo a alma o conforto ao manifesto, eis Janine que vem despedir-se de António na companhia dos seus e de tantos outros a quem nunca pôs a vista em cima sabendo que o pai vai estar sempre lá, para o bem e para o mal, do lado do bem o António carinhoso, obstinado, com vontade de aprender e muito medo de embrutecer, vacinado contra a tuberculose e contra o resto. Do lado do mal o António que se deixou levar antes dos 60 anos, como se de um dia para o outro tivesse pensado «já chega», como se tivesse aplicado um ponto final à vida sem perguntar a opinião a ninguém, aos filhos à mulher à concierge lá do prédio, metade do Seine-Saint-Denis com a boca aberta de espanto e pavor, não se faz, um lutador não se deixa escorregar pelas cordas do ringue do pé para morte, não se faz, homem que é homem não se desfaz dos seus por omissão, é falta de decoro, falta de senso, até porque debaixo destas pazadas de terra não há ninguém para mimar, para cuidar, não há sequer ninguém com quem falar, os fémures, os nylons, mudos que nem charlots naquela tela do cinema ambulante que vai não volta fazia o milagre de aterrar na vila. Pouco importa. 

quarta-feira, novembro 04, 2015

COSMOS: Bizarrias da mecânica quântica

A Física Quântica está tão na moda que o Canal Q prepara-se para estrear um programa humorístico tendo-a no título e em que se questiona se alguém julga saber muito sobre ela.
No campo dos muitos gurus, ela é citada quando querem ensinar a ser mais felizes potenciando as nossas capacidades individuais - como se não fôssemos sempre produtos das nossas circunstâncias!
E não falta a «Science et Vie», conhecida revista francesa que fez dela tema de capa no mês passado com o título «Pensamos todos  em modelo quântico».
Na apresentação desse trabalho os autores - Mathilde Fontez e Hervé Poirier - escrevem: “acreditam ser racionais? Falso. Ou antes, é verdade, mas de forma quântica! Porque várias experiências recentes comprovam-no: quando pensamos, hesitamos, racionalizamos ou decidimos, não obedecemos às regras da lógica clássica, mas às das estranhas e complexas propostas pela mecânica quântica, onde tudo não está perfeitamente definido, mas intrincado, misturado, oscilado e sobreposto. E isso suscita uma nova abordagem para a psicologia humana: os nossos estados de alma são à partida estados quânticos. Que nos permitem compreender melhor e sermos compreendidos pelos outros…”
Vale a pena dedicar alguns textos ao assunto, começando por abordar quatro fenómenos, que distinguem a mecânica quântica da Física clássica.
Formulada nos anos 20 do séc. XX para descrever o comportamento da matéria microscópica, a teoria quântica explora um formalismo matemático sofisticado, mas indigesto, que permite predizer rigorosamente os resultados obtidos nas experiências com eletrões ou com fotões.
Ela descreve um mundo estranho onde não se verificam as regras da lógica clássica.
A primeira bizarria quântica é a da sobreposição de estados: se uma partícula não for sujeita a qualquer medição a teoria quântica defende a sua existência em todos os estados possíveis de acordo com uma certa probabilidade. É apenas quando se faz a sua observação, que se reduz essa sobreposição a um único estado bem determinado pela medição em causa.  Ora, na Física Clássica, o facto de observarmos um fenómeno não o altera…
A segunda bizarria é a da interferência: imaginemos uma parede com dois buracos contra a qual se atira uma partícula.  Se não olharmos para ver por qual orifício ela passa, a teoria quântica defende que o faz pelos dois ao mesmo tempo. O que a teoria clássica declara como uma impossibilidade.
Na experiência das fendas de Young a partícula encontra-se nos dois estados - o da sua passagem pelos dois orifícios, que podem interferir e deixar a demonstração dessa ubiquidade nas medidas realizadas.
A terceira bizarria é a da intrincação: duas partículas podem encavalitar-se, não podendo separar-se uma da outra, apesar de se situarem espacialmente distantes. O que está em desacordo com a Física Clássica, onde se defende a impossibilidade de um objeto ser influenciado pelo seu contexto envolvente.
A concluir temos a quarta bizarria: a da oscilação. Uma partícula quântica pode ter uma dinâmica original do género de ser atirada para um vale onde existem dois sulcos em paralelo. A Física Clássica apontaria para uma situação de equilíbrio entre um e outro. O que não se passa em quântica onde ela oscilaria entre os dois estados instáveis, ora estando num, ora logo saltando para o outro e vice-versa.

terça-feira, novembro 03, 2015

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: A nostalgia por um tempo que vivi

Desde domingo que ouvi fartos elogios à personalidade e à obra de José Fonseca e Costa, pelo que só faz sentido evoca-lo se optar por um testemunho pessoal sobre a sua importância na definição de quem me tornei. E por isso, em vez de celebrar o «Kilas» ou «A Balada da Praia dos Cães», aproveito para recordar duas das suas primeiras obras: «O Recado» e «Os Demónios de Alcácer-Quibir».
Vi ambos os filmes, quando ainda nem vinte anos tinha e quase todo a disponibilidade em tempo e orçamento serviam para me meter nas salas de cinema.
A descoberta de «O Recado» aconteceu em 1972, quando a questão, que já se me punha, era se tentava a admissão à Escola Náutica ou se me apressava a escapar para o exílio antes da chamada para o alistamento nas guerras de África. Por isso não foi difícil compreender que os sabujos do filme, os que capturavam e torturavam o jovem subversivo na paisagem agreste do Cabo Espichel, eram agentes da Pide. A surpresa resultava de me questionar como é que a censura - novamente com a tesoura afiada depois da breve «Primavera marcelista»- deixara passar uma tão óbvia demonstração do carácter ditatorial do regime.
Ademais algumas das cenas eram passadas na Caparica onde então morava, o que contribuía para adensar a veracidade do conteúdo político da história.
Desde então e sempre que regresso à paisagem onde vira José Viana mostrar um tão grande desalento, nunca me falha evocar o filme do Fonseca e Costa e um dos rostos marcantes do cinema português de então: o de Maria Cabral.
Em 1976, quando estava prestes a chegar à idade que levara Nizan a manifestar a sua intolerância para quem a considerava a dos melhores anos da sua vida - e eu sempre estaria em desacordo com essa opinião do escritor francês! - vi «Os Demónios de Alcácer-Quibir» essa deambulação de um grupo de irreverentes pela paisagem revolta do Alentejo, com as canções do Sérgio Godinho a ilustrá-la. E vivi, então, um momento de jubilação na sala de cinema, porque, eu próprio, ansiava por luminosos amanhãs, que cantassem.
É verdade que acabavam mal os filmes de então, quando exploravam essas tentativas de virar a sociedade do avesso - era impressionante o final de «Terra Prometida» do Miguel Littin, que também vi por essa altura! - mas sobressaia sempre o otimismo de quem, com tanto sangue na guelra, acreditava que ça ira, ça ira…
O desaparecimento de José Fonseca e Costa devolve-me, pois, a nostalgia de um tempo em que julguei possível chegar à minha idade, quarenta anos depois, e encontrar-me numa sociedade bem mais justa e igualitária do que esta em que vivemos... 


segunda-feira, novembro 02, 2015

DIÁRIO DE LEITURAS: A história moçambicana equacionada por Mia Couto

Tenho cá uma fezada em como, um dia destes, a Academia Sueca, que atribui os Nobéis da  Literatura, me voltará a dar alegria semelhante à que me propiciou quando contemplou Saramago, Garcia Marquez, Le Clézio, Günter Grass ou Modiano. E em língua portuguesa, porque aguardo pelo reconhecimento de Mia Couto.
Será uma injustiça para os brasileiros, que viram grandes autores morrerem sem essa mesma satisfação, bastando lembrar Jorge Amado, Graciliano Ramos, Erico Veríssimo ou Clarisse Lispector. Mas dos que hoje ali vão publicando livros não vejo grandes possibilidades de sucesso, mesmo tendo em conta a obra de Nelida Piñon. Por isso, se a língua portuguesa vier a estar novamente na mira dos júris suecos, fará todo o sentido que contemple o autor moçambicano, cuja obra me tem agradado superlativamente de livro para livro.
O imaginário aparentado ao realismo mágico, a riqueza vocabular  (a canónica e a recriada) para além de um conjunto de personagens a contas com a procura da sua identidade numa realidade tão sujeita a transformações, que as transcendem, têm sido argumentos para acabar muitos dos anos mais recentes da minha vida com a colocação de um título de Mia Couto como um dos mais interessantes dos que terei lido. Nesses ciclos de doze meses.
Sobre “Mulheres de Cinzas”, que fui hoje comprar à livraria, esperarei o mesmo nível de satisfação, mesmo estando avisado para a assumida mudança em relação ao que lhe temos conhecido: já não é o presente ou o passado recente, que constitui o contexto dos personagens, mas o período vivido em Moçambique entre o final do século XIX e o início do século XX, quando os invasores VaNguni, liderados por Ngungunyane, se apossaram do território mais ao sul da colónia e constituiram desafio de monta para a farsa imperial do reino luso, já então confrontado com a fragilidade ditada pela rendição ao Ultimato inglês sobre a vasta extensão do mapa cor-de-rosa.
Não deixa de ser curiosa a propensão recente dos mais mediáticos escritores africanos de língua portuguesa em recriarem a História dos respetivos países de forma a corrigirem as ideias falsas fomentadas pelas versões dos vencedores. Se José Eduardo Agualusa já dedicara um romance à mítica rainha Njinga, Mia Couto dedica-se agora à personalidade daquele que, incorretamente, os colonialistas chamaram Gungunhana.
Neste primeiro dos três romances, que constituirão o ciclo «As Areias do Imperador»,  Ngungunyane ainda é apenas uma presença distante para os protagonistas, mas Mia Couto promete  abordar o período em que ele esteve exilado no arquipélago açoriano e onde acabaria por falecer. Mas o propósito dos três romances será sempre o de revisitar os últimos anos do Estado de Gaza, antes de vir a ser integrado na colónia moçambicana.
Esperam-me, pois, umas boas horas de gratificante leitura...

domingo, novembro 01, 2015

SONORIDADES: Kaufmann canta Puccini

Em 5 de março de 2016 poderemos ver no Grande Auditório da Gulbenkian a interpretação de Jonas Kaufmann na ópera «Manon Lescaut» a partir da transmissão ao vivo do Metropolitan de Nova Iorque. Será essa a próxima oportunidade para apreciarmos um tenor, cuja passagem mais recente por Lisboa foi em 2013, quando veio rodar ao São Carlos algumas cenas para o filme «As Variações de Casanova» com John Malkovich.
Nesta altura Kaufmann está a conhecer merecido destaque por ter conseguido, com o seu mais recente álbum - «Nessun Dorma» -, figurar no top de vendas por entre vários títulos de música pop.
É com esse álbum que ele se prepara para cumprir uma tournée europeia com um programa exclusivamente dedicado a Puccini, compositor a que o ligam grandes afinidades eletivas, tendo em conta a alegria de viver por ambos manifestada. Será, então, a ocasião para aferir a veracidade do que se escreveu no «Daily Telegraph» quando o classificou como o maior tenor atual. 

ARTES: As florestas de cartão de Eva Jospin

Está a decorrer em Paris, na Galerie Suzanne Tarasieve, a mais recente exposição individual de Eva Jospin, que revela ser muito mais do a filha de… Lionel.
Recorrendo ao cartão prensado, que recorta tritura, e cola em diversas camadas, ela elabora florestas, que surpreendem pelo seu detalhe.
Olhar para uma obra dela significa deixarmo-nos enredar numa armadilha em que a atenção perde-se na engenhosidade de cada pormenor e na beleza intrínseca de todo o conjunto, que poderá evocar o nosso Vhils pela sugestão de baixos-relevos, que efetivamente não o são.
As obras não tem propriamente a dimensão do quadro, porque procuram invadir o espaço circundante e atrair o visitante para mundos místicos onde nos confrontamos com quem verdadeiramente somos. 

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: O que as imagens sugerem

Em 2008 Emil Weiss iniciou um conjunto de três documentários sobre a exterminação dos judeus, que se concluiria em 2014 com «Criminal Doctors”, um documentário impressionante onde as vítimas estão omnipresentes apesar de nunca serem mostradas. Um processo já experimentado com sucesso nos dois filmes anteriores, o primeiro dedicado aos Sonderkommandos e o segundo aos primeiros testemunhos dos que os Aliados encontraram ainda vivos nos campos de concentração.
Para Emil Weiss o objetivo era fazer uma história dos desaparecidos, os que morreram e não puderam deixar o testemunho, que outros puderam fazer  a propósito das circunstâncias em que haviam sobrevivido.
Para recriar as ausências dos que desapareceram nas câmaras de gás, Weiss recorreu às paredes do campo de Auschwitz e às suas ruínas,  montando os fotogramas  com tal engenho, que suscitam um impressionante poder evocativo.
Recorda Weiss: “Estava a rodar no bloco 27, quando um homem me veio dizer para sairmos, já que nada ali justificava ser mostrado! Ora havia imenso para revelar: cada parcela de Auschwitz está carregada de passado. A questão está em conseguir mostrar mais do que os olhos conseguem ver à primeira vista!”.
Foi esse o desafio, que Weiss quis agarrar, conseguindo que as imagens atuais do campo de concentração revelem bem mais do que em si significam. Para este terceiro documentário, dedicado às experiências ali levadas a efeito por Mengele e seus colaboradores, era necessário “recriar o ambiente médico e sugerir a forma como ali se praticaram esterilizações coletivas e ensaios com cobaias humanas.”
E, no entanto, resta muito pouco dos edifícios onde esses crimes eram cometidos: apenas uma enfermaria com alguns utensílios, outrora pertencentes a Claus Clauberg e a Horst Schumann, e colocados à disposição da equipa de filmagem pelo conservador daquele imenso espaço.
A alternativa passou por recorrer à captação de imagens de uma mesa de dissecação no hospital universitário de Cracóvia, onde uma equipa médica acabara de praticar uma autópsia. Explica Weiss: “Pouco importava que fosse em inox e não em mármore como se afirma em voz off.” É que o carácter impressionante do respetivo texto justificava tal desvio da verosimilhança.
Igualmente alusivas são as imagens da máquina de raios X, que foram realmente captadas num consultório parisiense e provavelmente de modelo muito distinto das que foram utilizadas pelos médicos nazis.
“Essas imagens são meras evocações”, porque o texto debitado pela voz off  cria a sensação de correspondência entre as suas terríveis revelações e as imagens, que remetem para esse passado revisitado. E é isso que define o cinema: a capacidade de colocar o espectador perante a sugestão de realidades muito para além das que lhe são expostas...