quinta-feira, março 11, 2021

(DL) José Luís Peixoto com mais uma biografia ficcionada

 

Embora sempre leia com interesse os romances de José Luís Peixoto nunca deles me ficaram memórias de exultantes satisfações. Existe um inquestionável talento, uma capacidade narrativa competente, mas, chegada a última página, sempre me ficou a ideia de cumprir mais um item na check list, sem vontade de, alguma vez, considerar a hipótese de revisitar a mesma obra. Mas isso sou eu que só reservo essa condição a raros escritores, cujos títulos gosto de revisitar. Saramago é o exemplo mais óbvio, estando prometida a mim próprio, a redescoberta de toda a sua obra durante o próximo ano, quando o centenário do nascimento servir de oportuno pretexto. Talvez por isso mesmo um dos livros de Peixoto, que me deixou mais grata memória foi aquele em que o mesmo Saramago serviu de protagonista a hábil abordagem ficcionalmente biográfica.

É nesse mesmo misto de biografia e de ficção, que José Luis Peixoto nos vai dar a conhecer algo da vida de Rui Nabeiro. A história conta-se mais ou menos assim: o empresário de Campo Maior ter-lhe-á manifestado a vontade de se ver biografado e eis o nosso escritor empenhado em dar corpo a essa intenção. O resultado é o novo romance, Almoço de Domingo, a lançar lá para o fim do mês, e em que narra a reflexão de um homem a abeirar-se dos 90 anos, durante três dias a olhar para tudo quanto construiu para si, para a família e para a população da vila alentejana, que serve de sede aos seus negócios.

Embora Nabeiro seja personalidade, que merece toda a nossa admiração - razão bastante para cá em casa só se beber café da Delta! - não estou propriamente a ver como Peixoto conseguirá dar-lhe dimensão  bastante para o termos como personagem digno de uma obra maior da nossa literatura. Teremos contornos dramáticos, que nunca nos tenham sido revelados? Ou ficar-nos-emos pela encomiástica promoção de quem já, por si mesmo, conseguiu fazer-nos render a quem julgamos ele ser.

Um mistério para esclarecermos, quando o livro nos chegar ás mãos...

terça-feira, março 09, 2021

(DIM) Chuva de Julho, Marlen Khutsiev, 1966

 

Vale a pena recuar ao ano 2000 e referir a imensa surpresa com que os espectadores do Festival de Locarno reagiram à apresentação deste filme, que comportava uma estética e uma estrutura narrativa inesperada para aquilo que conheciam do cinema soviético. Primeiro atónitos, depois seguindo a lógica proposta por Fernando Pessoa para a ingestão da coca-cola, renderam-se por inteiro a um filme, que parecia reatar com um tipo de cinema como o prefigurado por Antonioni no seu famoso A Aventura (1960). A exemplo da Claudia interpretada por Monica Vitti, que se enfastiara na convivência dos amigos e perdera todas as ilusões a respeito do homem com quem poderia casar, a protagonista deste filme é uma jovem engenheira, que descobre a tempo a natureza íntima de Volodia e a quem acaba por recusar a proposta de darem o nó.

Diferencia-as a condição de classe: ao contrário de Claudia, que provinha da alta burguesia, Lena tem trabalho numa grande tipografia e está vinculada ao Partido pelo qual se candidata a dirigente local. Mas existe o mesmo tédio perante a forma de encarar a vida pela sua geração, incomodamente paralisada num presente já distante do passado heroico, que vê celebrado pelos mais velhos, e sem perspetivas animadoras num futuro, que promete não ser muito diferente do frustrante rame rame em que se enleia .

Não admira que a censura tenha obstado a que este filme tivesse a merecida divulgação internacional. A União Soviética de Brejnev faria todos os possíveis para colocar panos a taparem os muitos espelhos reveladores da sua realidade. Marlen Khutsiev perdeu assim a possibilidade de ser celebrado com o mesmo entusiasmo com que se viu brindado no fim da vida. O que não deixa de ser paradoxal num realizador tão determinante para a renovação dos códigos do cinema do pós-guerra e, como tal, desconhecido por tempo demasiado.

E não se pense que se lhe possa apontar uma grande divergência para com o regime de então, apesar do pai ter sido uma das vítimas das purgas dos terríveis anos, que antecederam o início da Segunda Guerra Mundial. No próprio nome, Marlen, existe a associação de Marx e de Lenine, que os progenitores consideraram forma de homenagem aos dois líderes mais determinantes da ideologia comunista. A operação de desestalinização por parte de Kruschev  não merecera do realizador qualquer simpatia por, a seu ver, mais importar a mudança na essência da vida do que dos seus símbolos. Como, por outro lado, também a perestroika e tudo quanto se lhe seguiu, o dececionou por ter orientado a Rússia numa direção, que não era decididamente a por si desejada.

Quase todo o filme acompanha Lena na progressão do desencanto com que testemunha o comportamento mesquinho de Volodia, eivado de um egoísmo onde só contam os seus interesses pessoais. Ao mesmo tempo cresce-lhe o interesse por Genia, um homem que se despojara do casaco impermeável num dia de julho para que ela pudesse com ele proteger-se na ida para o trabalho. E que depois lhe confidencia telefonicamente o desejo de aprofundar um relacionamento mútuo, que promete nada ter a ver com aquele de que ela vê necessidade de se descartar.

Alternando com as vicissitudes das personagens, Khutsiev dá-nos a ver Moscovo como raramente a conhecíamos até então. Não existem panorâmicas de grandes avenidas ou monumentos, porque ao realizador interessam bem mais os travellings, que fazem cruzar Lena com inúmeras pessoas, todas elas protagonistas de outras tantas histórias, que poderiam ser retratadas com a mesma importância à dela dedicada. Ou então a esses cruzamentos, que testemunham as vias possíveis por onde as personagens poderiam evoluir, nelas encontrando porventura as alternativas, que as atuais lhes não sugerem. Existem pequenos apontamentos de documentarismo, que muito revelam sobre o tipo de sociedade em que Lena se vê num tão insolúvel impasse!

O que seduziu os que redescobriram o filme em Locarno foi uma identidade original na forma de  narrar uma história, propondo-lhes códigos de interpretação distintos daqueles a que nos habituáramos. Khutsiev insistiu nos rostos, nos olhares, nos gestos, que justificam aquilo que as palavras acabam por calar. E essa é uma linguagem cinematográfica que desconcerta, mas depois encanta. 

segunda-feira, março 08, 2021

(DL) As memórias de um quase centenário

 

A morte de Lawrence Ferlinghetti foi razoavelmente divulgada na última semana de fevereiro, quando a soubemos pelos telejornais. Um pretexto mais do que justificado para lhe evocar o livro de memórias publicado pela Quetzal há quase ano e meio, Rapazinho, escrito na quase centenária condição e em que trouxe de volta as reminiscências da turbulenta infância, quando a mãe açoriana já não estava em condições psiquiátricas para dele cuidar, fazendo-o circular entre os dois lados do oceano para viver com tias de sangue ou de adoção.

Há, igualmente, o retorno aos tempos da guerra, quando os norte-americanos tiveram em Pearl Harbour o estímulo para criarem a mitologia dos heróis. Ou a época seguinte, a do estudo ao abrigo de uma bolsa para veteranos de guerra, concluída com o doutoramento na Sorbonne.

Numa escrita, que se pode ler como a do desiderato da geração beat a que pertenceu - até por lhes editar os livros através da casa editora e livraria de São Francisco, que crismara de City Lights com a autorização expressa de Chaplin -, identificamo-nos com a personalidade de um homem consciente da existência de classes sociais muito distintas e de quanto a dinâmica histórica decorre do seu confronto.

Leitura adiada, como a de tantas sentidas como prioritárias no momento da compra, mas depois secundarizadas por outras, que lhes passam à frente, julgo chegado o momento certo para a ela me entregar...

domingo, março 07, 2021

(DIM) As histórias que se repetem, que se repetem, que se...

 

Eu sei que Wim Wenders disse em tempos que todas as histórias estavam contadas, não sobrando aos argumentistas nenhuma hipótese de criação de algo original. Mas também não havia necessidade de multiplicar descarados pastiches em que as variações a partir da ideia inicial nada tendem a oferecer de novo.

É certo que os estúdios de Hollywood, quando aceleraram para a oferta de filmes, que dessem vazão à procura crescente de espectadores nas suas imensas salas de cinema dos tempos anteriores à televisão, depressa se apressaram a confecionar filmes de série B, que repetissem invariavelmente os mesmos argumentos, variando-lhes os nomes dos personagens, os atores e atrizes a interpretá-los e, quando a imaginação a tal chegava, até a mudança de género traduzindo em policiais o que, antes se vira em westerns, ou comédias transformadas em lacrimosos melodramas.

O que as atuais plataformas em streaming estão a propiciar é uma dinâmica similar.  Porque há um portfolio de títulos «originais» a preencher vale tudo para parecer que a oferta é constante e imaginativa. Constante, sê-lo-á decerto, mas quanto a imaginação, é coisa bem mais discutível.

Vem isto a propósito de Palm Springs, que um quase anónimo Max Barbakow assina e até conseguiu ser tido como acontecimento de monta no mais recente Festival de Sundance. Agora a Hulu, que produziu, a coisa, e está a embandeirar em arco com a sua distribuição mundial, vai-se a ver é trata-se de cópia rasteira de O Feitiço do Tempo, o filme de 1993 assinado por Harold Ramis e que deu a Bill Murray uma das suas mais expressivas interpretações.

Só que, nesta variante, não se trata do dia de nenhuma marmota, mas o de um casamento em que o protagonista, Niles (interpretado pelo não menos desconhecido, Andy Samberg, ainda que com numerosa filmografia), é um dos convidados e o revive numa interminável sucessão de dias. A única diferença reside no facto de a réplica de Andy MacDowell, ser aqui uma tal Sarah, irmã e dama-de-honor da noiva e também ela presa na mesma armadilha do tempo. E lá temos os dois a multiplicarem-se em expedientes para se livrarem do malfadado 9 de novembro, enquanto vão incrementando as razões para se aproximarem um dos outro...