terça-feira, fevereiro 05, 2019

(DIM) «À Porta da Eternidade» de Julian Schnabel (2018)


Já vimos tantos filmes e lemos tantos livros sobre a obra de Van Gogh, ademais apreciada em demoradas visitas ao Museu a ele dedicado em Amesterdão, que uma nova proposta de no-lo dar a conhecer teria de ser olhada com desconfiança. O que poderia Julian Schnabel trazer-nos de novo, se quase tudo - até mesmo o sombrio período em que o futuro pintor tentou profissionalizar-se como pastor protestante numa comunidade mineira na região do Borinage (Bélgica) - já foi mais do que escalpelado?
A resposta surgiu da apreciação do filme, que tem dois sólidos motivos para justificar o tempo e a deslocação: a enormíssima interpretação de Willem Dafoe (mas qual o filme em que o possamos ter considerado abaixo de excelente?) e as escolhas do realizador para ilustrar o projeto. Optando por rápidos movimentos de câmara, Schnabel traduz nesses planos, ora ao nível das pernas do protagonista, ora seguindo-o, amiúde rodeando-o em travellings de quase 360º, uma dinâmica equiparada à complexidade dos pensamentos de que ele estava eivado. O filme dá prazer nessa forma diferente de fazer cinema, mesmo parecendo respeitar na narração os cânones da biografia mediante a sucessão praticamente cronológica dos últimos anos do pintor.
Há. Igualmente, a construção dos espaços em que Van Gogh procurou radicar-se, que dá uma caracterização muito detalhada da paisagem do sul francês batido pelo mistral e a reiteradada misantropia do artista relativamente aos seus ignaros vizinhos.
A concluir, assume-se a polémica tese de, em vez de suicídio, ter sido por homicídio, que o pintor morreu, continuando por compreender os motivos do respetivo encobrimento.
Temos, em suma, uma abordagem mais do que competente sobre a vida e a obra de um artista singular, fascinado pela luz e pela suposta presença divina na Natureza, porventura nascido demasiado cedo, já que só postumamente viria a ser justamente reconhecido quanto ao seu talento.

segunda-feira, fevereiro 04, 2019

(S) «Sensemaya» de Silvestre Revueltas, dirigido por Dudamel

(PtE) Seremos portadores dos traumas dos nossos antepassados?


Será que transportamos nos genes os efeitos dos traumas padecidos pelos nossos pais, quiçá mesmo, pelos nossos avós? Por exemplo, terei nas células do cérebro, o medo e as dores do meu avô materno, que andou nas trincheiras da Flandres durante a I Guerra Mundial? E confirmar-se-á que, sendo o meu ADN uma mistura dos Trindades e dos Rochas, mantenho as características físicas dos primeiros, e as psicológicas dos segundos, com que só me poderei congratular porque os primeiros tinham decididamente um péssimo carácter?
A professora Isabelle Mansuy, da Universidade de Zurique, corrobora as respostas positivas a tais questões numa excelente conferência, acessível nas redes sociais. Nas muitas experiências a que esteve associada, na qualidade de neurogeneticista, pode comprovar que, por exemplo, muitos holandeses ainda comportam nos genes os efeitos da grande fome por que passaram os seus avós e bisavós durante a Grande Fome do Inverno de 1944 ou que, embora os progenitores tivessem contribuído substancialmente para a composição dos nossos cromossomas, podemos perfeitamente ser herdeiros dos atributos físicos de um e dos da personalidade do outro.
Há, no entanto, algo que não podemos esquecer: não é só a herança genética a condicionar quem somos. Um enorme conjunto de fatores concorrerão, desde o nosso nascimento até à morte, para que o nosso epigenoma se vá alterando. Quer de forma positiva (alimentação saudável, satisfação profissional, estilo de vida tranquilo), quer negativa (drogas, álcool, tabaco, stress, experiências dolorosas, etc.). Constatou-se laboratorialmente que, em função desses fatores conjunturais, o esperma masculino vai vendo alteradas as suas características.
O exemplo mais elucidativo em como começamos por ser o que os genes nos legam, mas vamo-nos construindo em função do que vivenciamos, está no caso dos gémeos monozigóticos, ou seja originalmente provenientes do mesmo núcleo que, em adultos, se revelam tão dissemelhantes que um se apresenta elegante e saudável, e o outro doentiamente obeso, tendo para isso concorrido a diferente forma de se alimentar de um ou de outro.
Em suma, se todos somos determinados pelos nossos genes, deles recebendo a predisposição para determinadas características físicas ou psicológicas, muito do que nos tornamos depende do nosso comportamento perante todos os condicionalismos que no-lo limitem.

(S) Raquel Camarinha tem justa consagração em Nantes

Se estivéssemos num país onde a Cultura fosse devidamente valorizada, os telejornais desta noite teriam aberto com a notícia e extratos da interpretação de Raquel Camarinha em duas árias de Bellini e de Puccini a concluírem o concerto de encerramento das Folles Journées de Nantes deste ano.
Tratou-se de mais uma justa consagração da soprano de Braga que, aos 32 anos, está a ganhar crescente reconhecimento nos palcos europeus, como se comprovou com o Prémio Revelação nas Victoires de la Musique Classique de 2017. Acresce ainda o facto de ser igualmente compositora, contando já com duas óperas na sua produção musical.
Hoje pudemos vê-la, primeiro em «Oh Quante Volte» da ópera «I Capuleti e i Montecchi», e depois na canónica «O mio babbino caro» da personagem Lauretta de «Gianni Schicchi», mostrando uma segurança e um lindíssimo timbre, que confirmam um talento quase clandestino entre nós.
Enquanto se mantiver na net, valerá a pena ir até à 1h15m do link e apreciar um desempenho, que está muitos furos acima do da mítica Callas (embora deva dizer que a diva nunca teve em mim um incondicional!). Mas quem tiver tempo poderá, igualmente, testemunhar excelentes interpretações dos jovens solistas russos, que antecederam a nossa compatriota, mormente um pianista muito jovem, Alexander Malofeev, de quem muito haveremos de ouvir falar. Acrescente-se ainda a competência da Orquestra Nacional do Tartaristão, comandada pelo maestro Alexander Sladkovsky.

domingo, fevereiro 03, 2019

(S) O Segundo Andamento da 5ª Sinfonia de Prokofiev

(PtE) Esotéricos argumentos para iludir a pertinente realidade


Coincidência singular, que levaria alguns crédulos a acreditarem na conjugação dos astros, ou de quaisquer outras forças universais, vi «Corpo e Alma» de Ildikó Enyedi, quando estou quase a concluir o primeiro volume de «A Morte do Comendador» de Haruki Murakami. Tudo numa e noutra proposta diverge, mas em algo se conjugam: na utilização de um acontecimento sobrenatural a contrapor à racionalidade, que deveria guiar a existência dos seus protagonistas.
No filme da veterana realizadora húngara há a surpresa de um diretor financeiro e de uma inspetora de qualidade do mesmo matadouro em partilharem todas as noites o mesmo sonho: numa floresta coberta de neve há a aproximação de um veado e de uma corça num ritual de acasalamento, que nunca vemos consumado. A coincidência leva-os a aproximarem-se a medo, um do outro, vencendo os muitos traumas que, em ambos, se adivinham.
No romance do japonês não há a acostumada diluição de fronteiras entre a vigília e o sonho, presente noutros títulos anteriores da sua já vasta obra, mas um acontecimento perturbador: todas as madrugadas, entre as duas e meia e as quatro, ouve um sino a tinir, que conclui situar-se debaixo de um santuário erigido na floresta adjacente à casa onde mora. Com a ajuda do cliente, que o contratara para pintar o retrato, o narrador descobre uma câmara vazia onde só o sonoro artefacto jaz.  Fica, então, a pergunta: quem o faria soar? E que relação tem com o estranho quadro, que descobrira embrulhado no sótão, e fora imperscrutável segredo do anterior ocupante? E que papel cabe a esse prestável Menshiki, que paga do seu bolso a retroescavadora e correspondentes operários necessários para lhe abrirem acesso à câmara subterrânea?
Estamos numa época em que a realidade, tão rica e complexa dos nossos dias, parece não bastar aos criadores para exercerem o seu mester, associando-lhe elementos excêntricos, senão mesmo esotéricos, que lhes justifique a almejada originalidade. E, no entanto, quão necessária nos é uma arte e uma literatura, que nos ajude a melhor interpretar o momento presente da luta de classes.

(EdH) Um assassinato em Memphis, Tennessee


Quando se procuram razões para que Martin Luther King estivesse em Memphis no início de abril de 1968, sendo aí assassinado no dia 4, há uma que sobressai: a da luta desenvolvida, desde fevereiro, pelos trabalhadores da empresa municipal de recolha do lixo, reivindicando melhores salários e condições para o exercício dessa profissão. Mormente o respeito, que lhes era devido, porque foi dessa luta que emergiu o slogan «I am a man», que respondia ao hábito racista no Tennessee, e em geral do sul dos EUA, de os negros serem tratados por «boys» como reminiscência dos tempos em que assim eram invetivados pelos donos de escravos.
O crescimento de Memphis muito decorrera desses antigos escravos negros que, libertos da sua ignóbil condição, quiseram afastar-se o mais possível das plantações de algodão, onde tanto haviam sofrido, optando por viver nas cidades na expetativa de aí se proletarizarem. Não se livravam das leis de segregação racial, que os ex-esclavagistas instituiriam em contrarresposta à sua derrota  na Guerra da Secessão, mas encetavam, desde logo, a criação da massa crítica  bastante para, já nos anos sessenta do século XX, levarem por diante a bem sucedida campanha pelo reconhecimento dos seus Direitos Cívicos. Mesmo tendo por custo a morte do seu mais importante líder político.
Ciente da importância desse momento histórico a cidade tem no motel Lorraine, e particularmente no quarto 306, ocupado por Luther King na altura da sua morte, o seu mais importante núcleo museológico. A exemplo de muitos espaços, onde viveram tantos intelectuais e personalidades políticas de várias geografias, esse espaço é mantido tal qual estava no dia em que o ilustre ocupante ali conheceu o fim do seu meteórico percurso político.

(PtE) O elogio de Aristóteles

Admirável Aristóteles que, durante dois mil anos, definiu o método científico ocidental em saberes tão distintos quanto o são a biologia, a física, a lógica, ou as matemáticas. Segundo defendera a essência das coisas residia na medição dos fenómenos a que estavam associadas, deles não se excluindo os seres vivos por comportarem os princípios do movimento.
Com uma vontade holística de descrever meticulosamente o mundo e as regras que o comandam, via o mundo cá de baixo como eivado de forças contraditórias, ao contrário do que sucederia lá em cima, reino do absoluto, do permanente, da quinta essência, aquela que estaria para além dos quatro elementos fundamentais (terra,ar, fogo, água).
A evolução das ciências e da filosofia tornariam obsoletas as suas ideias, mas é obra ter uma tão duradoura influência na vida das gerações, que lhe sucederam!

sábado, fevereiro 02, 2019

(DL) Babette, uma admirável personagem de Karen Blixen


Uma das rubricas do «Literatura Aqui» costuma ter alguém a falar sobre o personagem literário, que mais o terá influenciado, servindo para demonstrar a validade de um provérbio vagamente alterado: «diz-me o que lês, dir-te-ei quem és».
Quando penso qual seria a minha escolha divido-me entre muitas possibilidades: o Robin dos Bosques, que descobri em criança, e que roubava aos ricos para dar aos pobres (estaria nele a futura adesão ao pensamento de esquerda?) ou o Ismael do «Moby Dick», que tanto me impressionou ao ler o romance de Melville? Mas que dizer do capitão Nemo e das suas viagens submarinas, ou do Sinbad das Mil e Uma noites, ambos possíveis influenciadores dos futuros percursos pelos sete mares do mundo?
Qualquer desses personagens se me ajustariam como uma luva, mas, perante um documentário sobre Karen Blixen, outra personagem - mesmo que descoberta já em adulto! - me poderia sugestionar a opção: Babette, a protagonista de um dos seus contos mais conhecidos que, fugida da Comuna de Paris para ser criada de duas austeras irmãs norueguesas, devotas dos rigorosos ritos protestantes, lhes subverte as convicções com um lauto jantar, aberto a todos os vizinhos da mesma comunidade ultraortodoxa, subitamente confrontados com os prazeres gustativos.
Ora, eu que muito guloso me confesso - daí a incorrigível obesidade! - defendo, em absoluto, o primado do hedonismo sobre as privações. Para quê ter longa existência à custa da escusa ao que dá prazer, quando ela pode ser mais amplamente vivida usufruindo-os em pleno, mesmo encurtada nalguns anos?
Adoto Babette enquanto paradigma da superioridade do pecado sobre a virtude, da jubilação sobre a hipocondria. Venha lá o mais fanático dos impolutos e castos valores a querer contrariar-me, que logo vê a corrida, que leva. As médicas, que o têm tentado, depressa colheram a resposta às suas porfiadas tentativas!

(S) O Concerto Grosso de Domenico Scarlatti na versão de Charles Avison

(DIM) «O Cinema, Manuel de Oliveira e Eu» de João Botelho (2016)


Conta-se que Luigi Pirandello estava em Lisboa, quando se estreou «Douro, Faina Fluvial» de Manuel de Oliveira. E o filme suscitou-lhe tal agrado que, quando ouviu a pateada dos espetadores no final, perguntou a quem o acompanhava se os portugueses aplaudiam com os pés.
A estória é contada por João Botelho no filme de homenagem ao seu mestre, sobre quem lembra, igualmente, a frase certeira de João César Monteiro: perante a sua obra, havia só uma de duas soluções, ou se encolhia o realizador, ou se alargava o país. E de facto o talento de Oliveira era maior do que a limitada dimensão do país e, por isso mesmo, foi mais admirado e premiado lá fora do que dentro de portas. Porque por cá funcionava o interesse pelo conteúdo das histórias que adaptava a filme, quando importava , sobretudo, a forma como o fazia. Há nele uma forma de filmar, que muito deve ao teatro e à pintura, podendo-se olhar para muitos fotogramas de cada filme como autênticas obras-primas a valerem só por si mesmos. E também a inspiração no cinema mudo, que começou por ser a sua escola de aprendizagem para um certo modo de ver e de ouvir, mormente quando os gestos apenas se faziam acompanhar do elucidativo silêncio.
Botelho não poderia ter optado por melhor forma de homenagear Oliveira ao escolher a adaptação de um dos seus projetos nunca concretizados, e dando-lhe substância nessa matriz original, em que os sons apenas são os da banda sonora, porque a narrativa suporta-se em legendas intercaladas entre as diversas cenas, com o preto-e-branco a evidenciar uma estética entre o construtivismo e o expressionismo.
Depois de assistir a tão estimulante documentário cresceu a vontade de revisitar toda a obra de Oliveira e constatar-lhe a nunca por demais incensada genialidade.

sexta-feira, fevereiro 01, 2019

(PtE) Breves purgatórios com o distante rufar dos tambores nazis


Nós que lembramos o Portugal salazarista como espaço de apagada e vil tristeza, só nos podemos espantar com a reação dos refugiados, vindos do centro da Europa para fugirem ao extermínio nazi, e se encantaram com a Figueira da Foz ou com Lisboa, por eles apreciados como autênticos oásis de paz. Só podemos concluir que, se os nossos pais e avós tinham sobejas razões para execrarem um regime, que os mantinha na pobreza e na ignorância, muito pior estava quem vira familiares serem mortos ou levados para incertos destinos, e passara fome, frio e falta de higiene numa fuga caótica, que encontrara, enfim, breve purgatório neste canto atlântico, convertido em porto de partida dos transatlânticos, com carreira regular para o outro lado do oceano.
De «Debaixo do Céu» de Nicholas Oulman é essa a conclusão mais pertinente: durante a Guerra nós estávamos mal, mas outros estavam bem piores. O que não serve de desculpa para a ditadura, por muito que ela logo abusasse dessa mistificação.  Porque, por trás do breve cosmopolitismo, que trouxera gente de ideias bem mais desempoeiradas a animar cafés e ruas da capital, havia quem continuasse a ser preso, torturado, e até mesmo assassinado.
O filme sobre a experiência de uns quantos foragidos do Holocausto, que tiveram Portugal como escala para a efetiva salvação, vale por imagens de arquivo, que desconhecíamos, e por dar voz a quem não tardará a desaparecer na vertigem da História, não sendo de todo conveniente, que se esqueça o seu testemunho. Tanto mais que continuam a existir os que negam as evidências do Holocausto.
De tal período histórico sobressaiu, igualmente, o heroísmo trágico de Jean Moulin, militante comunista francês, que organizou a mais eficaz rede de resistentes contra os ocupantes nazis. Era essa a informação que dele tinha quando, há muitos anos, me atardei junto à sua sepultura no Panteão de Paris, ciente de ser, de entre os que ali se encontravam, um dos que merecia maior admiração. 
Desconhecia-lhe, porém, outra vertente, que até lhe era mais recuada na biografia: em 1930, quando tomou posse como subprefeito em Chateaulin, na Bretanha,  já ia aureolado do talento de competente desenhador e bem sucedido caricaturista (muito embora se resguardasse sob o pseudónimo de Romanin). Conciliando o trabalho político e administrativo com o hobby  artístico, deslocava-se, amiúde, a Camper para participar nas tertúlias ali alimentadas por vários artistas, entre eles Max Jacob, que se tornou seu amigo.  Foi nesse ambiente intelectual estimulante, que o convenceram a ir mais além na ambição criativa, razão porque exploraria a gravura e a cerâmica como complementos aos seus outros trabalhos artísticos.
Ficando na Finisterra francesa até 1933, levaria consigo a imagem do fervor popular nas procissões, que se traduziria na imagem de rostos atormentados em réplicas da Pietá ou da subida para o Calvário. Nessas obras há quem veja o prenúncio dos rostos dos que sofreriam os crimes nazis na década seguinte. Um deles, o fuzilamento do artista, que se convertera em indomável resistente, aconteceria em 1943, dez anos depois de se despedir do sítio onde o seu talento artístico melhor se exprimira.