domingo, abril 03, 2016

LEITURAS AVULSAS: Traumas sem cura

É um dos temas mais presentes, mas menos referidos da Guerra Colonial: os problemas de relacionamento de quem por ela passou e nunca mais se libertou. O stress pós-traumático está escondido nas paredes dos prédios das nossas cidades, mas raramente sai cá para fora. Quando isso sucede mascara-se de “violência doméstica”, de “crime passional” ou de “zanga entre vizinhos”.
Mas quantos dos crimes, explorados até à náusea pelos meios de comunicação, sobretudo nos que têm uma linha editorial do tipo tabloide, foram identificados como súbitas explosões de brutalidade com origem no que se viveu décadas atrás nos capins africanos? E, mesmo quando não atingem essa dimensão homicida, quanta infelicidade caracterizou as vidas de milhares de casais que, na realidade, padeceram em conjunto desses traumas, porque, na realidade, eles acabaram por ter um efeito de contágio?
É sobre essa realidade que João Paulo Guerra escreveu «Corações Irritáveis», um romance tanto mais sabedor do que trata quanto, além de ter sido um dos grandes jornalistas das últimas décadas, o autor também viveu na pele a experiência dessa guerra sem sentido.

SONS: Pra não dizer que não falei das flores

Ainda está por definir o que se passará no Brasil nas próximas semanas. Será que a direita consegue levar por diante o golpe, em que tanto se tem empenhado desde que a crise se instalou e viu chegada a oportunidade de reverter tudo quanto Lula e Dilma conseguiram? Ou será que o povão vem para a rua e impede tal conjura, criando as condições para que o Partido dos Trabalhadores se regenere e conclua das vantagens de não fazer política com as elites, que sempre o detestaram, mas ativamente contra elas?
Vem isto a propósito de uma canção, que ontem vi resgatada do esquecimento de muitos anos: estava num encontro político com socialistas de todo o país, quando o Nery Ribeiro, intérprete infelizmente escutado com muito menos atenção do que deveria ter sido, recordou «Pra não dizer que não falei das flores», um tema criado em 1968 por Geraldo Vandré, quando a ditadura brasileira estava no auge da sua sinistra ação.
Foi por essa altura que Chico Buarque e Gilberto Gil procuraram o exílio em Inglaterra, e depois em Itália, tendo Vandré esperado o suficiente para ser capturado pela polícia política da ditadura e torturado. Conta a lenda, que terão sido as sequelas de tal provação a causarem tal efeito na saúde mental do compositor, que ele muito raramente se atreveu a voltar ao palco, mesmo quando, já em liberdade, Joan Baez a tal o quis forçar.
Quando conseguiu escapar da prisão, Vandré andou fugido e escondido, nomeadamente na fazenda, que pertencera ao escritor Guimarães Rosa, até alcançar o Chile onde se viu abrigado da repressão da ditadura.
Porque a canção continua com a força, que a levou a ser um autêntico hino de resistência à ditadura, faz todo o sentido trazê-la de volta, na esperança de que não regressem ao Brasil os dias sangrentos de então. 

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: «O Testamento do Dr. Mabuse» de Fritz Lang (1933)

Amanhã na sessão das 15.30 a Cinemateca apresentará «O Testamento do Dr. Mabuse», o último filme realizado por Fritz Lang antes de sair da Alemanha e que foi proibido pelos nazis tão-só chegaram ao poder. Para esta abordagem do Mal absoluto, Lang regressou ao filme de 1922 - «Dr. Mabuse Der Spieler» - em que o sinistro doutor acabava enclausurado num manicómio.

Desta feita há um assumido herdeiro a servir-se dos apontamentos do vilão para criar um regime de terror a partir do asilo de alienados em que está enclausurado.
O comissário dá polícia, que já surgira no filme anterior, volta a defrontar-se com uma forma de terrorismo, em que o crime e a tentativa de impor uma ditadura se conjugam. Não admira, pois, que Hitler o tenha querido ver proscrito dos ecrãs alemães.



sábado, abril 02, 2016

DIÁRIO DE LEITURAS: A conquista de um direito fundamental

Há muito que me dei conta da estranha coincidência de um livro ou um filme virem ao encontro de inquietações de que me sinta tomado em certas alturas. Ora, «A Estátua Interior», a autobiografia de François Jacob, foi publicada há quase trinta anos e começa logo por um dos temas que estão na nossa ordem do dia: a morte assistida.
Ele evoca um companheiro de luta na Resistência, que lhe aparecera no Instituto Pasteur a sondá-lo para a hipótese de o ajudar a morrer dado o atroz sofrimento causado pela doença incurável. Muitos anos depois ele ainda o recorda, sobretudo, com a culpa de ter sido cobarde nesse momento, fazendo-se desentendido quanto ao pretendido por tal amigo.
Mais adiante lembra, igualmente, a avó, conhecida como «a Generala», pela sua admirável e forte personalidade, mas cujo final fora patético, perdida no tempo e no espaço sem reconhecer quem a rodeava.
São esses e outros exemplos que levavam, então, o Prémio Nobel da Medicina a escrever:

“A morte, o desaparecimento, a passagem, como se costuma dizer: «ele passou», é preciso esquecê-lo. Na existência de cada dia, no comportamento físico, é impossível viver como um condenado à morte. Mas se não somos responsáveis pelo nosso nascimento, somo-lo, de certa maneira, pela nossa morte. O que não se pode esquecer é o medo de ter medo. É a repulsa de nos tornarmos repulsivos. A impotência para evitar a impotência. E também o terror de se ser dominado como uma criança, de se deixar manipular. A obsessão de nos tornarmos outros que não quem somos, de pensarmos de modo diferente e até de deixarmos completamente de pensar. Além disso, o pesadelo de ter de suportar, de ser agido sem poder reagir, nem explicar-se, nem sequer pedir. Em suma, o espectro do vegetal. Neste ponto reaparecem Sócrates e Cleópatra. Neste ponto o veneno perde o seu carácter desleal para se tornar um aliado. Como durante a guerra, na Resistência, para não falar da tortura. A dificuldade: escolher o momento. Cedo de mais, é estúpido. Tarde de mais, é impossível. E colocar esta alternativa talvez já seja fugir-lhe. Neste domínio, não existe momento perfeito.”
É na questão desse tal momento perfeito que lembro «Still Alice», o filme de Richard Glatzer em que Julianne Moore é inesquecível no papel de uma professora de linguística acometida da doença de Alzheimer.
Mulher inteligente, ela prepara tudo para, no momento certo, e com recurso a cábulas, ingerir os comprimidos capazes de lhe darem o bel morir. E o seu desespero é o de saber imperiosa a necessidade de pôr fim ao sofrimento íntimo e ter esperado tempo de mais para que o conseguisse fazer por si mesma.
Sendo uma das questões, sobre que importará legislar, mesmo contra os que, na Igreja ou na Ordem dos Médicos, se acham com direitos sobre disporem da nossa vontade relativamente ao nosso corpo, a morte assistida, e até mesmo a eutanásia a pedido do interessado, é algo que tenho como a conquista de um direito fundamental.
Porque, apesar de estar a viver uma das fases mais felizes da minha vida, entrarei em breve nos sessentas e só quero existir enquanto isso valer mesmo a pena.

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: Curtas metragens da escola de Baden-Württemberg

Uma das escolas de cinema mais bem apetrechadas e donde têm emergido filmes de prodigiosa imaginação é a da Academia de Cinema de Baden Würtemberg, localizada nas proximidades de Estugarda. Da sua excelente produção tive o privilégio de ver agora três filmes, que merecem aqui referência.
Dois deles são de Jochen Kuhn que, além de professor nessa escola, é artista de múltiplos talentos, que concilia nos seus projetos pessoais: pintor, compositor, argumentista, operador de câmara e fotógrafo.  Na solidão do seu atelier, Kuhn vai criando laboriosamente um tipo de filmes, que possuem uma inconfundível marca identitária.

«Domingo 3» foi realizado em 2012 e apresenta-nos um narrador que, em voz off, conta o seu primeiro encontro com a desconhecida interlocutora conhecida num site para corações carentes. É assim que, para sua surpresa, dá com a chanceler Angela Merkel.
Entre os dois candidatos a uma relação íntima nunca se chega a estabelecer a cumplicidade que ela desejaria concretizar carnalmente, porque o aprendiz de galanteador nunca conseguirá dissocia-la da condição de Dama de Ferro.
Na sua explicação para a razão de ser do projeto, Kuhn confessa a curiosidade a respeito da gestão sentimental dos políticos, constantemente sujeitos a um escrutínio de moralidade, que pode destruir reputações, como sucedeu com Bill Clinton ou Strauss-Kahn.
Utilizando esse recurso a imagens paradas com pinturas, que se vão substituindo no ecrã, e nas quais a mão do autor assegura alterações de forma a parecerem projetos inacabados, temos «Sempre Fatigado» (2014), uma curta de seis minutos sobre um político chegado ao topo e acometido de indisfarçável cansaço nas alturas mais comprometedoras (quando discursa no Reichtag ou noutras participações públicas), e desesperado por se saber em vias de ser marginalizado num mundo tão competitivo.
Mas o filme mais interessante dos três é «Assunto a Resolver» (2014), uma curta com 20 minutos, assinado por Dustin Loose.
Jakob Adler tem 32 anos e vai conhecer pela primeira vez o pai, internado há um quarto de século num asilo psiquiátrico. E, porque tem um dilema dispõe-se a perguntar ao diretor clínico o que fazer: se contar-lhe, que a mulher sempre o amara durante todos esses longos anos em que estivera na prisão e no hospital, ou se deveria revelar o segredo que, entretanto descobrira. Na realidade Jakob não era filho dele, mas do tio, que o paciente assassinara a quem ao descobrir a relação adultera estabelecida com a cunhada. Dar ao paciente o consolo de um amor que perdurara ao longo daqueles trinta e dois anos ou dar-lhe a verdade nua e crua? Consolá-lo pelo sofrimento vivido nessas três décadas ou castiga-lo por lhe ter morto o verdadeiro pai?
Para surpresa de Jakob uma enfermeira esclarece que esse interlocutor era, na realidade, aquele a quem viera procurar e que, agora, atingido por tão grande sofrimento perante a revelação, decide suicidar-se...

PALAVRAS DITAS: Mário Viegas diz Alberto Caeiro

Nos vinte anos da morte de Mário Viegas. 

sexta-feira, abril 01, 2016

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: Mildred Pierce (2011)

Com cinco anos de atraso vi finalmente a série, que valeu a Kate Winslet alguns dos mais prestigiados prémios para interpretações televisivas (Emmy, Globo de Ouro).
Na origem do projeto está o romance de James M. Cain (autor do conhecidíssimo «O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes»), escrito em 1941 e exemplo paradigmático do que era o género «hard boiled» dentro do policial: não existem propriamente crimes de sangue, mas há toda uma atmosfera psicológica capaz de os suscitar. A exemplo do que Simenon ia fazendo na Europa há o estudo psicológico e social dos personagens, que ajudam a explicar a forma como agem.
Nas cenas iniciais do primeiro dos cinco episódios estamos na Grande Depressão, quando muitos negócios faliram e a miséria era uma realidade mais do que tangível para as famílias outrora habituadas a situarem-se na classe média.
Divorciada do marido, que a trocou por outra mulher, Mildred consegue ter sucesso no negócio da restauração, assegurando assim a educação da filha que lhe restara, depois da morte súbita da mais nova, quando se ausentara um fim-de-semana para um breve interlúdio amoroso.
Veda revela-se, porém, uma rapariga mimada e sem escrúpulos. A mãe acredita no seu talento musical e por isso arranja-lhe um conceituado professor de piano. Mas, tão só chegada ao fim da adolescência, ela sente que não conseguirá ser bem sucedida nessa vertente artística e interessa-se muito mais por uma vida boémia, que realça a monstruosidade do seu carácter.
Quase sem querer acreditar no que vê, Mildred conclui que a filha é capaz de fingir uma gravidez para chantagear uma família aterrorizada com a possibilidade de a integrar no seu seio. Continuamente Veda culpabiliza a progenitora por a ter feito nascer num subúrbio pequeno-burguês e vocacioná-la assim para uma existência medíocre.
Aparecera, entretanto, em cena Monty Beragon, um dandy sedutor e sem cheta, a quem Mildred paga as contas em troca do prazer carnal por ele proporcionado.
Os anos vão passando, o negócio poderia prosperar, mas ela acabará por falir ao pretender dar tudo o que tem, e o que não tem, quer à filha, quer ao amante, até ao dia em que os descobre na cama. Mas até a zanga, que se segue, servirá a Veda para dar satisfação à sua desmedida ambição, porque do confronto com a mãe resulta uma suposta lesão na garganta e, ela que se tornara numa soprano muito prometedora, aproveita para se fazer despedir pelos patrocinadores a que estava ligada contratualmente para se transferir para outros em Nova Iorque dispostos a pagarem muito mais pela sua rara coloratura.
Muito embora tenha pretendido respeitar fielmente o romance de Cain - até por tal ter sido impossível na versão cinematográfica de 1945, que valera um Óscar a Joan Crawford - pode-se suspeitar que Todd Haynes sentiu a tentação de um final aberto do que a solução mais fácil para os espectadores: acabasse o filme no momento da descoberta da traição de Monty e de Veda e da suposta lesão na garganta, que afetaria definitivamente esta última, e seria porventura o epílogo mais interessante. Mas o happy ending é garantido com o regresso de Mildred aos braços do ex-marido, entretanto convenientemente liberto da ligação com a viúva por quem a trocara nove anos antes.

DIÁRIO DAS IMAGENS EM MOVIMENTO: Entre a efabulação e a realidade

Desde John Ford que registamos o conselho de preferirmos a lenda, quando ela é bem mais interessante do que a realidade. E isso ajusta-se ao documentário «Atlantis Found» produzido pelo History Channel no ano transato e que tem por apresentador o geólogo Martin Pepper.
Logo de início ele diz-nos ao que vem: de uma vez por todas vai-nos mostrar onde ficava a mítica cidade da época minoica, que Platão imortalizou em dois diálogos, o de Timeu e o de Critias.
É claro que Pepper nem sequer coloca a possibilidade da Atlântida ser produto da imaginação do filósofo grego que, nessa evocação, encontraria matéria para explanar a sua filosofia sobre a futilidade da vaidade humana. Nem equacionou a mera contingência de, tendo efabulado sobre ela mais de mil anos depois do seu suposto desaparecimento, a descrição em causa fosse suficientemente rigorosa para definir uma check list a ser aferida na comparação das diversas candidaturas à condição de antiga Atlântida.
A hora e meia que se segue é a do exemplo lapidar de certos lunáticos que se não veem as suas teorias coincidirem com a realidade, e a distorcem o suficiente para que pareça conformar-se com o pretendido.
Eu, que gostei imenso de Santorini, até  me servi do documentário para regressar momentaneamente a um dos lugares mais bonitos que conheci e onde não me importaria nada de voltar. Mas Pepper omite totalmente as referências de Platão à existência de elefantes e de um metal singular, o auricalco, de que as pesquisas arqueológicas não encontraram qualquer vestígio. Assim como invoca um relato da explosão de Thera (o antigo nome de Santorini) como tendo ocorrido no reinado do faraó Ahmose I, que viveu um século depois e quanto muito terá ouvido memórias do sucedido.
Mas o mais anedótico no filme é o facto de existir uma tal obsessão do History Channel com o nazismo que, às três pancadas, Pepper vai às Canárias filmar as múmias dos guanches e lembrar que Himmler considerou-as como evidências do povo dos Atlantes, uns brancos altos, louros e espadaúdos, que teriam estado na origem dos arianos.
Olhado como filme de ficção, «Atlantis Found» tem alguma piada muito embora incomodem as sucessivas repetições motivadas pelo facto de se destinar a ser apresentado entre enormes hiatos com anúncios publicitários, que podem levar o espectador americano a perder-se no fio condutor da narrativa. Mas, obviamente, que a verdade histórica não passa por aqui. Nesse sentido este tipo de documentário está para a História como as invenções de um antigo ministro salazarista autopromovido a «historiador» para o que efetivamente ocorrera nos temas por si escolhidos.