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sexta-feira, fevereiro 06, 2026
Pierrot le fou de Jean Luc Godard (1965) : um filme de balanço e dispersão
Na adolescência
este foi dos títulos, que me fizeram lamentar ser demasiado novo para entrar
nos cinemas que o projetavam, até por ouvir o entusiasmo dos amigos mais velhos
sobre a experiência dele colhida.
Visto depois umas quantas vezes está longe de
ser um dos meus Godard preferidos. Desses anos sessenta tenho bastante maior
afeição por Le Mépris ou Alphaville. O próprio realizador
confessaria não ter particular estima por ele. Talvez por assinalar a insanável
crise com Anna Karina com quem via romper em breve a ligação sentimental. E
daí, cumprindo a regra de verter para a tela o estado da relação amorosa, ele a
trate tão negativamente neste papel de Marianne Renoir...
Em 1965, quando iniciou Pierrot le Fou,
Jean-Luc Godard já realizara nove filmes em seis anos. De À Bout de Souffle
(1959) aos géneros reinterpretados com tom pessoal - drama de guerra, panfleto
futurista, comédia, tragédia amorosa - impusera um estilo iconoclasta,
respeitador da arte que venerava, mas assumidamente experimental.
Para este décimo filme não sabia bem que rumo
tomar. Partiu de Obsession, romance policial de Lionel White, cujos
direitos comprara e pensou em Sylvie Vartan e Richard Burton para os papéis principais.
Acabou com Anna Karina e Jean-Paul Belmondo - elenco que teria influência
decisiva num projeto norteado pelo curso da rodagem.
Até então Karina interpretara personagens
jovens frágeis que Godard filmava com afeição. Neste caso, Marianne Renoir surgia
como mulher enigmática - experiente e mórbida, entusiasta e assassina - que
manipulava o companheiro enquanto lhe permitia viver segundo o desejo de
liberdade. Tornava o sonho possível e depois destruía-o.
Belmondo, por seu lado, remetia para À
Bout de Souffle, conferindo ao projeto uma sugestão de
"filme-balanço".
Recorrendo ao habitual diretor de fotografia,
Raoul Coutard, Godard regressou ao Cinémascope e à cor, radicalizando os azuis
e vermelhos de Le Mépris, como no caso dos filtros utilizados na cena da
receção burguesa, onde Ferdinand cruzava indivíduos que só falavam por slogans
publicitários. Mais tarde, na icónica cena final, pediria a Belmondo que sujasse
o rosto de azul antes de se rodear de dinamite vermelha e amarela.
Mal abandonavam Paris, os dois protagonistas
caminhavam para as suas cores. O azul do céu e do mar para Ferdinand. O
vermelho do sangue para Marianne. Entre eles, um abismo que nenhuma outra cor
preencheria.
À imagética publicitária e à estética da
banda desenhada juntavam-se as citações pictóricas - de Velázquez a Nicolas de
Staël, do nome Marianne Renoir aos quadros que ocupavam o ecrã numa estratégia a
evocar a pop art.
As alusões ao contexto político - Vietname,
Argélia, Iémen apareciam em grafites e noticiários. E Marianne pertencia a uma
rede de tráfico de armas com o contexto a servir de perigo latente, sinais de
um mundo à beira da explosão de que Ferdinand procurava fugir e Marianne
aproveitar. A verdadeira guerra era a do casal.
Apoiado na intriga de romance negro, Pierrot
le Fou tratava sobretudo da impossibilidade de um casal olhar na mesma
direção. Ao abandonar a família para seguir Marianne numa aventura que não
compreendia, Ferdinand aspirava saborear a liberdade junto de quem amava.
Grande parte do filme era passado numa praia tipo ilha deserta, em clima que, bucólico
de início, se gangrenava depois pela incompreensão.
"Tu falas-me com palavras e eu olho-te
com sentimentos", criticava Marianne. "Nunca tens ideias, só
sentimentos", respondia Ferdinand. Nestas disputas lia-se a degradação do
casal Godard-Karina, espécie de adeus e análise do fracasso.
A angústia do cineasta-Pigmalião abandonado
pela protegida era palpável. Marianne permanecia hermética às aspirações
artísticas de Ferdinand. Se em Alphaville era uma mulher salva pela poesia que
um homem lhe trazia, Pierrot le Fou invertia o fantasma: Marianne não
queria ser salva e arrastava Ferdinand para a destruição.
Mas além da misoginia vingativa, havia
autocrítica. Ferdinand era também o cego que via o casal destruir-se sem reagir.
Idealista e apaixonado, mas também desorientado, desligado do quotidiano.
"Gostaria de ser único. Tenho a impressão de ser vários."
Este dilaceramento só encontrava saída na
explosão literal de Ferdinand, face ao mar de Rimbaud. Só então as vozes poderiam
juntar-se pela eternidade, como se só houvesse harmonia num tempo suspenso. Era
a carta de adeus do cineasta à atriz, a constatação de um amor absoluto
impossível de viver.
Quando saiu em novembro de 1965, o filme ficou
proibido a menores de dezoito anos por anarquismo intelectual e moral. Dividiu
a crítica, mas foi defendido por Françoise Giroud e Louis Aragon. E, apesar de
Belmondo, não atraiu o público nem recuperou custos. Mas, ao longo dos anos
adquiriu estatuto de culto, influenciando Bertolucci e Scorsese pela liberdade
narrativa.
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