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sábado, fevereiro 07, 2026
All we imagine as light de Payal Kapadia (2024): três mulheres na cidade-oceano
Às vezes saímos agradados de
um filme, que consideramos de qualidade, mas que logo esqueceremos por empurrarmos
a sua memória da pela de muitos outros que vamos vendo a seguir.
Essa é a sensação com que fico
de All we imagine as light da indiana Payal Kapadia apesar do motivo maior
para o valorizar: a visão feminista da Índia atual assoberbada pelos
preconceitos de classe, religiosos e patriarcais.
Entre a ficção e o
documentário vem complementar a nossa visão do gigante asiático, mas daí a ter
merecido um dos prémios maiores do Festival de Cannes vai uma assinalável
distância.
Nele seguimos três mulheres
que trabalham no mesmo hospital de Mumbai. Prabha e Anu são enferm eiras e partilham o apartamento. Parvaty,
mais velha, trabalha na cantina e vive num bairro sujeito à especulação
imobiliária de onde será expulsa. Cada uma carrega uma frustração particular.
Prabha foi casada pela família com um homem
que mal conheceu e partiu para a Alemanha deixando-a, há anos, sem notícias -
apenas recebe um dia, e inexplicavelmente, um aparelho de cozinhar arroz.
Anu mantém em segredo a
relação com Shiaz, rapaz muçulmano que lhe é interdito amar segundo a lei das
castas e as intolerâncias religiosas.
Parvaty, viúva, não consegue
provar direitos sobre o apartamento porque o marido falecido nunca fizera as
diligências administrativas necessárias.
São mulheres que existem
apenas através dos homens - pai ou marido - mesmo quando estes estão ausentes,
desaparecidos ou mortos. Nesta Índia em mutação, a modernidade é ilusão: a
cidade inteira permanece sob domínio de tradições seculares.
Payal Kapadia, vinda do
documentário (o elogiado A Night of Knowing Nothing, 2021), filma Mumbai
como se fosse um oceano: os transportes formam marés, a multidão é uma onda que
avança e recua. E escuta-se tanto quanto se vê – mergulhamos num banho sonoro
onde se misturam os rumores da cidade com os da interminável chuva da monção.
A realizadora divide o filme
em duas partes contrastantes. Na primeira, Mumbai é filmada inteiramente de
noite. Poucas panorâmicas ou planos gerais - a cidade surge através das protagonistas
e dos seus habitantes. É uma população sempre em movimento, captado nos
transportes, nas habitações e nos empregos precários. A única certeza da cidade
é o movimento perpétuo.
O som agride, misturando
ruídos de trânsito, gritos, conversas. A montagem é entrecortada, nervosa. As luzes
multiplicam-se: smartphones, fogos de artifício, néons de comércios que parecem
nunca fechar. O contraste é violento entre a noite e as luzes agressivas que
impedem qualquer descanso, pausa, reflexão sobre a existência.
Às vezes um filme é uma cor.
Em "All We Imagine as Light", o azul ciano e o vermelho magenta
pintam o retrato esbatido desta cidade-luz, capital comercial da Índia e
coração pulsante de Bollywood. As cores são saturadas, quase irreais,
conferindo à cidade o aspeto de um sonho perturbante.
A fotografia de Ranabir Das
trabalha estes contrastes cromáticos com sofisticação mas, ao contrário de
Godard, Antonioni ou Wong Kar-wai - a cor não estrutura verdadeiramente a
narrativa. É só decoração sem função dramática.
A meio do filme, as três
mulheres partem para a aldeia natal de Parvaty, no litoral. Tudo muda. O
barulho cede lugar ao silêncio - é preciso prestar atenção para distinguir as conversas
e os sons da natureza envolvem as personagens como proteção.
As luzes artificiais dão lugar
a iluminações naturais onde os seres quase se tornam silhuetas. Kapadia faz o
filme deslizar para um registo mais poético, flertando mesmo com o fantástico
através da aparição de um náufrago misterioso. Encontro sonhado? Real? A
fronteira esbate-se.
À montagem sincopada da
primeira parte segue-se uma fluidez à medida que as protagonistas parecem
absorvidas pela aldeia. Pensa-se em "A Montanha Mágica" de Thomas
Mann - o fim do mundo transforma-se num refúgio onde é possível fugir da
realidade. A loucura e a urgência permanente de Mumbai cedem perante um mundo
igualmente incerto, mas mais sereno.
É aqui que crescem as
reservas. All We Imagine as Light evidencia influências óbvias mas não
completamente digeridas. A sequência de abertura - imagens documentais de
Mumbai antes da câmara focar-se na protagonista banhada em luz - remete para
Rossellini. A segunda parte, com o devaneio rural e fronteiras porosas entre
real e imaginário, evoca Apichatpong Weerasethakul de forma quase literal.
Não há nada de mal em ter
referências. Mas quando estas se tornam tão evidentes, tão reconhecíveis, o
filme perde singularidade. Torna-se exercício competente dentro de uma estética
já estabelecida - o "world art cinema" de festivais, com os seus
códigos próprios, a linguagem internacional de planos contemplativos, tempos
mortos, passagens do quotidiano ao onírico.
Outro problema decorre das
cenas fundirem-se numa mesma temporalidade lânguida. Raros são os momentos que
verdadeiramente se destacam - a visita a uma gruta, alguns clarões das luzes
noturnas da metrópole. A delicadeza é uma qualidade de dois gumes: há ternura
pelas personagens, mas falta o caminho delas em direção a uma luz ténue no
coração da noite.
"Light" - o título é
involuntariamente apropriado a outro nível, ao da sua ligeireza. As três
mulheres aproximam-se mais dos seus estereótipos do que de personagens
plenamente desenvolvidas. As suas histórias entrelaçam-se, mas nunca
verdadeiramente se iluminam mutuamente de forma surpreendente.
Compare-se com outro filme
recente sobre mulheres na Índia contemporânea: Santosh de Sandhya Suri.
Menos celebrado em Cannes, é, todavia, mais incisivo e urgente na forma como
aborda a condição feminina sem recorrer ao esteticismo apaziguador.
O Grande Prémio em Cannes
explica-se talvez pelo timing da projeção - numa competição rica em propostas
imponentes e demonstrativas, All We Imagine as Light oferecia o inverso:
a modéstia e a discrição. Após filmes mais agressivos e densos, esta delicadeza
terá parecido refrescante. Mas um prémio deve recompensar não apenas o alívio
momentâneo que um filme proporciona num contexto festivaleiro, mas também a capacidade
de perdurar.
Isto não significa que o filme
não tenha méritos. A abordagem feminista é sincera e necessária. O retrato da
Índia urbana contemporânea - onde convivem arranha-céus e preconceitos
ancestrais, smartphones e sistema de castas - é pertinente. As três atrizes
(Kani Kusruti, Divya Prabha, Chhaya Kadam) compõem personagens com nuances
subtis.
E há momentos genuinamente
belos: a sequência na gruta iluminada por velas, certos planos noturnos de
Mumbai sob a chuva, a forma como Kapadia filma os corpos femininos - nem
objetificados nem dessexualizados, apenas presentes na sua humanidade complexa.
A origem de Kapadia no
documentário marca o filme positivamente. Há uma atenção ao real, uma escuta
dos espaços e das pessoas que vem dessa prática. A forma como capta Mumbai -
não como cenário exótico, mas como organismo vivo onde milhões têm vidas
precárias.
All We Imagine as Light é, no fundo, filme perfeitamente calibrado
para o circuito de festivais. Tem os ingredientes certos: vem de país
sub-representado no cinema de autor (a Índia de festivais, não Bollywood),
aborda um tema socialmente relevante (condição feminina), tem forma
suficientemente experimental para parecer ousado mas não tanto que se torne
inacessível, e oferece belas imagens para clips promocionais.
Não é desonesto - Kapadia
acredita genuinamente no que filma. Mas há um certo calculismo involuntário na
forma se adequa perfeitamente ao que os festivais procuram. E isso retira-lhe a
urgência, a necessidade absoluta que os grandes filmes têm.
Saímos agradados, reconhecendo
a qualidade. Mas dentro de poucos meses, quando alguém mencionar All We
Imagine as Light, haverá hesitação: qual era mesmo? Ah sim, aquele sobre as
enfermeiras em Mumbai. Bonito, não era? E a conversa passará rapidamente a
outro tema.
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