Nunca apreciei o pós-modernismo, que me pareceu espalhafatoso na argumentação, vazio de conteúdo na substância. A substituição das teorias filosóficas anteriores em nome da presunção de as tornar obsoletas, sempre me suscitaram antipatia.
Tarantino que é, no dizer de alguns, um cineasta pós-moderno suscita-me o mesmo juízo. Como diria Shakespeare, há nele "much ado for nothing".
Não é que não dê alimento aos prosélitos - mormente com recurso a atores de excelência ou a momentos narrativos com reconhecida imaginação! - mas misturados todos os ingredientes o sabor da "salada" sai algo insonso.
"Era Uma Vez em... Hollywood" (2019) é o nono filme de Quentin Tarantino, passado em 1969 numa Los Angeles à beira da mudança. Rick Dalton (Leonardo DiCaprio) é um ator de westerns televisivos em declínio, desesperado por encontrar a próxima fase da carreira. Cliff Booth (Brad Pitt) é o seu melhor amigo, duplo de cenas perigosas, assistente pessoal e motorista, um veterano do Vietname que vive numa roulote com o seu pitbull Brandy. Rick vive numa casa nas Hollywood Hills ao lado do realizador Roman Polanski e da mulher, a atriz Sharon Tate (Margot Robbie). A narrativa conduz inexoravelmente para a noite fatídica de 8 de agosto de 1969, quando membros da "família" Manson assassinaram brutalmente Tate, o cabeleireiro Jay Sebring e outros.
Mas Tarantino, como já fizera em "Inglourious Basterds" e "Django Unchained", altera a história. Os assassinos atacam a casa de Rick em vez da de Sharon. E são brutalmente eliminados por Rick e Cliff, com lança-chamas, socos, dentadas de cão. Sharon Tate sobrevive, vive feliz atrás dos seus portões. É um final de conto de fadas, uma fantasia revisionista onde a história é corrigida pela violência espetacular.
Mas quem é Sharon Tate neste filme? Margot Robbie, atriz talentosa, interpreta-a praticamente sem diálogos. Sharon passeia por Hollywood, dança, vai ao cinema ver o seu próprio filme ("The Wrecking Crew"), sorri. É filmada em câmara lenta, os pés descalços em destaque (mais um exercício do fetichismo podológico de Tarantino), o corpo coreografado, a beleza exposta. Mas não fala. Não é personagem - é ícone, é imagem, é presença decorativa.
Tarantino defende-se dizendo que quis mostrar Sharon Tate viva, feliz, não definida pela sua condição de vítima. Que o filme é uma homenagem a ela, uma forma de lhe dar a vida que lhe foi roubada. Mas o que lhe dá, afinal? Silêncio. Passividade. A função de ser bela e estar ali. Enquanto Rick e Cliff têm histórias, conflitos, diálogos densos, Sharon Tate limita-se a existir enquanto objeto do olhar masculino. É a mulher ideal do cinema de Tarantino: presente mas silenciosa, bela mas sem substância, salvaguardada mas sem qualquer participação na própria salvação.
E depois há Bruce Lee. Mike Moh interpreta-o numa cena de flashback onde Cliff o enfrenta num duelo na rodagem de "The Green Hornet". Lee é apresentado como arrogante, convencido, ridículo. Gaba-se de que podia derrotar Muhammad Ali. Cliff, o homem branco durão, enfrenta-o e empata (ou ganha, dependendo de como se interpreta a cena). É uma representação ofensiva de uma lenda das artes marciais, reduzido a caricatura para engrandecer o protagonista branco.
Tarantino defendeu-se dizendo que Lee "era um tipo arrogante" e que Cliff, sendo um veterano de forças especiais, é um "guerreiro", não um desportista. Mas a cena é apresentada como memória de Cliff - ou seja, não é objetiva, é a perceção de Cliff sobre Lee. E Cliff não gostava dele. Então temos uma representação racista filtrada através de um narrador que pode não ser fiável. Mas isso não torna a cena menos problemática - torna-a ainda mais insidiosa.
A filha de Bruce Lee, Shannon Lee, expressou dor e raiva pela forma como o pai foi retratado. E tinha razão. Não é coincidência que o único personagem não-branco com algum protagonismo no filme seja ridicularizado. A Hollywood de Tarantino é branca, masculina, heterossexual. Os outros - mulheres, não-brancos - existem nas margens, como objetos, como caricaturas, como ameaças.
E há também a questão do contexto histórico ignorado ou caricaturado. Estamos em 1969 - ano do Woodstock, dos protestos contra a guerra do Vietname, dos movimentos pelos direitos civis, do nascimento da contracultura. Mas nada disso interessa a Tarantino. A guerra do Vietname aparece apenas no som da rádio que Cliff ouve de passagem. A contracultura é inteiramente reduzida ao clã Manson - hippies sujos, perigosos, assassinos em potencial.
Tarantino, que se apresenta como entusiasta de uma dita cultura popular, passa ao lado dos fenómenos fundamentais da época. Ou pior: diaboliza-os. A juventude dos anos 60, com as suas contradições, sonhos, lutas, é reduzida a uma horda de lunáticos manipulados por um guru delirante. É uma visão reacionária, nostálgica de uma Hollywood dourada que estava a desaparecer - e que, na visão de Tarantino, deveria ter sido defendida à força de lança-chamas contra os bárbaros à porta.
E depois há a montagem. Problemática, como aliás acontece noutros filmes de Tarantino. Abrupta, sem que tal se justifique. O filme salta entre linhas temporais, entre personagens, entre tons, sem construir uma narrativa coerente. São quase três horas de duração para contar uma história que poderia caber em metade do tempo. Há longas sequências que não levam a lado nenhum. Há momentos brilhantes (DiCaprio na rodagem de "Lancer", a chorar após um desempenho perfeito) enterrados numa montagem que parece mais interessada em exibir o conhecimento enciclopédico de Tarantino sobre Hollywood do que em contar uma história.
E há ainda a forma como se aborda a masculinidade de Cliff. Há rumores persistentes de que ele matou a mulher e ficou impune. A cena de flashback mostra-o num barco com ela, tensa, violenta. Ela morre. Ele escapa às consequências. Mas isto é tratado como piada, como lenda, como algo que torna Cliff ainda mais cool, mais perigoso, mais desejável. O possível feminicídio é tornado risível, parte do mito do homem durão que não se deixa prender por regras ou leis. Mais uma vez, a violência masculina contra mulheres é estetizada, romantizada, transformada em espetáculo.
No final, o que Tarantino oferece é uma fantasia: e se a velha Hollywood tivesse conseguido defender-se da nova? E se os homens brancos duros, com lança-chamas e punhos, tivessem protegido a jovem estrela bonita e calada? E se a história tivesse corrido de forma diferente, não pela mudança social ou política, mas pela violência espetacular dos heróis certos?
É uma fantasia profundamente conservadora. Nostálgica de um tempo em que os homens eram homens, as mulheres eram belas e caladas, e os não-brancos sabiam o seu lugar. Um tempo em que Hollywood era o centro do mundo e a contracultura era apenas uma ameaça a ser eliminada. Tarantino veste isso com referências cinéfilas, com atores excelentes, com momentos de genuína imaginação narrativa. Mas por baixo da superfície brilhante, há um vazio. Uma "salada" cujo sabor, misturados todos os ingredientes, sai insonso.
"Much ado for nothing", como diria Shakespeare. Muito barulho para nada. Pós-modernismo espalhafatoso na forma, vazio na substância. Um conto de fadas reacionário disfarçado de homenagem ao cinema.

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