quarta-feira, março 08, 2023

A Arte da Escuta (I)

 


1.

Como conciliar a evolução tecnológica e a capacidade de ter o cérebro a acompanhá-la? Se calhar é necessário dissociarmo-nos da ilusão de sermos bem sucedidos nessa impossível tarefa, que nos esgota e faz-nos desconhecidos de quem verdadeiramente somos.

Retomar a simplicidade pode ser a única hipótese de não nos perdermos. É o propósito do método Abramovic, que comporta afinidades com as propostas orientais quanto a atingirmos a plena consciência por via da introspeção, recentrando-nos em nós mesmos sem cairmos nas fúteis armadilhas dos gurus da autoajuda.

 

2.

Não ter medo de dominar a dor. Marina Abramovic impôs esse desafio ao próprio corpo, quando o disponibilizou à sanha perversa dos que assistiram a uma memorável performance em Nápoles no ano de 1974. Já lá vão quase cinquenta anos.

Ela temia o resultado imaginando-se na pele de Cristóvão Colombo, avançando para os mares desconhecidos a ocidente e temendo ali encontrar o fim do mundo em forma de um abismo para onde não seria possível evitar a queda.

Ao fim de seis horas, compreendeu não ser estulto esse medo: prolongasse por mais algum tempo a experiência e acabaria provavelmente assassinada.

 

3.

Experiência totalmente diferente a de 2019 quando propôs a dois mil participantes o ouvirem música como nunca a haviam sentido até então. Cinco horas ´de atenta escuta da orquestra de Frankfurt, colhendo-lhe os sons, mas também os imprescindíveis silêncios. Alcançando patamares insuspeitos na sua capacidade de percecionar...

Para quem fizera do corpo a matéria para impressionantes espetáculos visuais, muitos deles no limite do suportável,  a focalização na escuta constituiu mais um passo numa procura, que parece inesgotável.

terça-feira, março 07, 2023

De Hoje para Amanhã

 

Confesso não me entusiasmar a obra de Arnold Schoenberg, demasiado atonal para o meu gosto. Tenho de me resignar ao meu gosto conservador porque, hélas, a música barroca ou a novecentista satisfaz-me mais do que (Chostakovitch, Philip Glass, Steve Reich ou John Adams à parte) as experiências compositivas, que lhes sucederam. Daí a resistência que sabia inevitável, quando me confrontasse com Von Heute auf Morgen, ópera composta por Schoenberg em 1929 e objeto desta adaptação cinematográfica em 1996.

O filme do casal Straub-Huillet funciona como desafio intelectual, que me interessa pelo quanto comporta de inovador, mas me deixa indiferente no capítulo das emoções subjacentes.

Terá sido a primeira vez que os realizadores optaram inteiramente pelo estúdio, mas compreende-se que o tenham feito porque, ao contrário da generalidade dos filmes pensados como adaptações de óperas - e que lhes merecia veemente crítica! - era-lhes fundamental a captação direta do som. Não lhes passava pela cabeça o recurso ao play back, porque importava-lhes "captar ao mesmo tempo o canto e o corpo que canta" e isso significava a colaboração de uma orquestra com setenta instrumentistas, mesmo que, depois de os vermos nas cenas iniciais, delas se evaporassem a seguir por muito que a sua presença continuasse imprescindível no acompanhamento aos cantores.

A escolha da fotografia a preto-e-branco também se revelou deliberada porque possibilitaria a sensação abstrata, que qualquer cor tenderia a inviabilizar por incitar a possível naturalismo. E o maior interesse residirá em identificar os três eixos visuais, com os ângulos em diagonal, que visualmente foram apontados pelo crítico António Rodrigues como inerentes ao cinema desta dupla criativa.

Não está em causa um prazer melómano ou cinéfilo, mas decerto que exigente desafio intelectual...

sábado, março 04, 2023

Contrariar o maniqueísmo sobre a Ucrânia

 

Para quem insiste numa perspetiva maniqueísta da guerra na Ucrânia talvez seja benéfica a visualização de Donbass, o filme rodado por Sergei Loznitsa em 2018, que demonstra a falsidade da versão segundo a qual tudo se iniciou em 24 de fevereiro de 2022 porque, nesse dia, já se contavam em mais de catorze mil os mortos, civis ou militares, os contabilizados desde 2014 quando, aproveitando a corrupção e a incompetência do governo legitimamente eleito em Kiev, uma multidão manipulada por quem se pode imaginar (a organização de Fort Langley continua hiperativa) virou o regime para os padrões «democráticos» ocidentais.

Porque tudo verdadeiramente começou com o derrube violento de quem ganhara eleições reconhecidas como acima de qualquer suspeita, mas mantinha o país mais próximo de Moscovo do que dos interesses de quem, com ele, pretendia completar o cerco ao regime de Putin e, nomeadamente, vedar-lhe o acesso à frota do mar Negro.

Loznitsa viu-se, entretanto, expulso da Academia de Cinema de Kiev acusado de «cosmopolita» e de moderado perante uma invasão que, porém, condenara, como antes o fizera em sucessivos filmes pouco simpáticos para com Putin ou a antiga União Soviética. Quem esquece o filme dedicado aos funerais de Estaline? Não por acaso, mas sem fundamento,  quem manda na União Europeia e se curvou aos interesses norte-americanos insiste em considerar impoluto um governo, que queima livros de autores russos nas ruas e os elimina das suas bibliotecas. Como proíbe tudo, os grandes compositores, que associa à cultura do inimigo, que era, no entanto, a sua até há pouco tempo.

Passado na região ocupada pelos «separatistas» russos, Donbass não é nada simpático para com estes. Mas a sua corrupção e prepotência é a mesma do campo contrário, porque todos partilham um padrão de comportamento, que incide sobretudo sobre os mais desprotegidos, aqueles que  vemos acossados em caves escuras na cena em que  vemos uma protegida das novas autoridades a querer dali resgatar uma mãe que, visivelmente, a rejeita. A mesma população, que parece passiva perante o que se passa à sua volta, mas rapidamente se converte numa turba decidida a linchar quem lhe apresentam como inimigo e, como tal, culpado pelo atual sofrimento.

Há, é claro, uma cena a mais, perfeitamente desnecessária, porque exagerada na lógica revisteira: a do casamento, que une uma matrona a um enfezado cacique. Mas poderá justificar-se para acentuar o carácter surrealista de uma tragédia em que inocentes são só as vítimas, que se veem no fogo cruzado entre interesses geopolíticos de que se sentem indefesos e alheados.

terça-feira, fevereiro 28, 2023

As cambalhotas ideológicas de sentido contrário

 

Um documentário sobre Tarsila do Amaral mostra como a conceituada artista brasileira - porventura a mais importante do período modernista - evoluiu ideologicamente da família esclavagista em que nasceu, e lhe proporcionou educação esmerada na Europa, para o comunismo, com que passou a simpatizar a partir de 1931.

Alguém capaz de se libertar da sua condição de classe privilegiada para se colocar artisticamente ao serviço dos explorados, merece naturalmente o meu respeito. Ao contrário de um nerd, que por aí pontifica a irritar-nos com a sua voz heliolizada (como o RAP a tem caracterizado) a ambicionar a ascensão à liderança das direitas e que me põe a congeminar o que sobre isso pensaria o progenitor, tanto quanto se sabe, ativo comunista na capital do Baixo Alentejo. 

segunda-feira, fevereiro 27, 2023

O premiado filme de Canijo e um outro que mostra o Irão tal qual é

 

Começa a contagem decrescente até 11 de maio, altura em que poderemos ver o dítico Mal Viver/ Viver Mal, acabdo de consagrar na Berlinale deste ano com um Urso de Prata atribuído à primeira parte da obra.

Rodado durante a pandemia num hotel do norte do país, anuncia-se como retomando alguns dos temas recorrentes na obra do realizador, ou seja, os conflitos familiares, sobretudo os relacionados com mães e filhas, ora na família que gere o negócio, ora nas dos seus clientes.

A fotografia de Leonor Teles foi muito elogiada pelo realizador e vamos ao encontro dos rostos, que com ele costumam colaborar, mormente Rita Blanco e Anabela Moreira, a quem se associam Nuno Lopes ou Leonor Silveira.

Muito embora tivessemos dispensado a enfática jura de amor à Ucrânia no momento de agradecer a atribuição do prémio, fica reservado espaço na agenda para reencontrarmos o universo canijiano na altura em que filas de peregrinos continuarão a replicar o cortejo a que, há dúzia de anos, ele deu testemunho na direção de Fátima.

2. Enquanto esperamos pelo filme de Canijo temos para ver Holy Spider do sueco de origem iraniana Ali Abbasi.

Na sua terceira longa-metragem o realizador baseia-se numa história verídica passada na cidade de Mashhad em que um pedreiro, antigo militar na guerra de 2000-2001 contra o Iraque, iniciou um périplo de serial killer, vitimando mulheres que, para ele, ofenderiam o ideal religioso da proclamada capital espiritual do Irão. Daí que, apesar de desmascarado por uma jornalista em registo de thriller, esse assassino se visse heroicizado pelos setores ultraconservadores identificados com a sua idiossincrasia, ajustada às características dos perpetradores da banalidade do mal. E é sobre esse tipo de personalidade frustrada e, por isso mesmo, fanatizada, que o realizador mais se atarda.



domingo, fevereiro 26, 2023

Outras mulheres conhecidas através de Eva Luna

 

São contos de uma dezena de páginas, com retratos de mulheres mergulhadas nas múltiplas realidades latino-americanas. Com mais ou menos realismo, e magia muitas vezes revestida de sinistras perversões.

Muitos anos passados sobre a compra deste livro de Isabel Allende, até agora esquecido na biblioteca a aguardar por dias favoráveis à sua descoberta, tem sido prazeroso descobri-lo.

Hermelinda, a prostituta da Terra do Fogo, tão apreciada pelos peões dispostos da gastarem as soldadas no seu negócio e a deixar-lhes imensas saudades, quando dali partiu com um forasteiro capaz de a encantar como nunca sucedera até então.

Antonia Sierra e Concha Diaz, a mulher e a amante do sovina Tomás Vasquez, que conseguem vencer a tentação da rivalidade e vingarem-se de quem a tantas privações as sujeitara, partilhando o esconso tesouro por ele clandestinamente acumulado.

Hortensia, a jovem mentalmente limitada, que Amedeo Peralta aprisiona durante meio século numa cave e justifica a queda de quem toda a vida se julgara tão poderoso que nada, nem ninguém, lhe beliscaria o livre arbítrio.

Patricia Zimmermann, a burguesa, por quem Horacio Fortunato se embeiça obsessivamente, embora nada dela consiga apesar dos muitas prendas enviadas. Até conseguir abrir-lhe o franco riso ao associar a sua companhia de circo ao propósito de, definitivamente, a convencer.

Maurizia Rugieri, a romântica enfeitiçada pelo fascínio das óperas de Verdi ou Puccini e, tardiamente, a compreender o engano sobre a verdadeira identidade do herói a quem deveria ter dedicado os fervores amorosos.

A rapariga sem nome, sujeita a terrível escravatura sexual num acampamento de colheita de borracha na selva amazónica, e liberta dos seus dias sem esperança pelo índio com nome de vento, ali momentaneamente de passagem só para compreender os perigos vindos dos brancos.