quarta-feira, fevereiro 20, 2019

(DIM) Um documentário sobre a Líbia pós-Kadhafi


A família da realizadora Martina Melilli viveu durante décadas em Tripoli, na Líbia, quando esta era uma colónia da Itália fascista. Nascida em Pádua em 1987 ela sempre teve um enorme fascínio pelo passado familiar, procurando que os avós, ainda vivos, lhe revelassem tudo quanto recordavam desse passado. Daí as tentativas para atravessar o Mediterrâneo e ir ao encontro dos bairros tão referenciados nessas conversas. Em vão, porque, com a guerra civil entre as várias milícias, não havia forma de conseguir um visto.
Porque as redes sociais podem servir de alternativa, ela entra em contacto com Mahmoud, que vive na cidade em causa e lhe promete ir contando tudo quanto ela pretenda saber, acrescentando-lhe imagens fotográficas e em vídeo, que melhor transmitam tais informações. Mas trata-se de uma comunicação problemática, sobretudo, porque os cortes de eletricidade são tão frequentes que o jovem líbio nem sempre comparece no ecrã de computador, quando combinado. E depressa a realidade atual de Tripoli se sobrepõe a esse resgatar do passado com imagens de mortos abandonados nas ruas depois de combates entre as várias fações ou os que as marés do Mediterrâneo devolvem às praias depois de se afogarem nas frustradas tentativas clandestinas de viagem para a Europa.
As diferenças culturais também se detetam com Mahmoud a mostrar interesse óbvio em conseguir uma namorada italiana, mormente quando se insurge por ela ter saído à noite com amigos, só chegando a casa depois da meia-noite. Mas Martina tanto pretende cumprir o projeto de manter o contacto virtual com a cidade dos avós, que se faz desentendida.
Documentário interessante, ainda que demasiado centrado nas comunicações escritas entre os dois amigos, «Minha Pátria, a Líbia» dá uma perspetiva trágica sobre esse rico país do norte de África, que Sarkozy tanto se esforçou por desestabilizar, que conseguiu reduzi-lo ao caos atual.

terça-feira, fevereiro 19, 2019

(DIM) Porque importa ver «Vice», o filme sobre Dick Cheney


Como sucede nalguns filmes vale a pena ficar sentado a ver o genérico final a desfilar por nele surgir uma pequena cena, que melhor o clarifica para quem ainda precisa de mais explicações. Num grupo de discussão um sujeito boçal insurge-se contra o filme por se tratar de coisa liberal. O que leva outro a contrapor-lhe uma evidência: tudo quanto nele se mostrara eram factos concretos, que não admitiam contestação. Mas o primeiro levanta-se, agressivo, a querer agredir o interlocutor, porque para apoiantes de Trump, como orgulhosamente confessa ser, que importam os factos, quando as convicções são muito mais enraizadas e não admitem contraditório? Indiferentes a ambos, duas outras participantes do painel, manifestamente desinteressadas do que acabavam de ver, manifestam o entusiasmo de estar iminente a estreia de um filme de ação por que se sentirão bem mais estimuladas.
Nesses três minutos, que durará a cena, fica exemplificado o drama de uma América atual, que conta de um lado com um eleitorado fanático nas suas convicções ultraconservadoras, do outro uma elite esclarecida, ainda desconcertada com a forma como o seu país se amesquinhou e se tornou presa fácil das grandes corporações financeiras e industriais, que desprezam o poder representativo substituindo-o pela força dos seus lobistas. Entre eles figuram os indiferentes, os que não querem saber de nada e se distraem com entretenimentos acéfalos.
«Vice», o filme de Adam McKay, que dá a Christian Bale um dos desempenhos mais impressionantes do seu percurso cinematográfico, é de visão obrigatória. Porque mostra como pouco importam os eleitos para o Senado, para a Câmara dos Representantes ou para os vários poderes estatuais, porque mandam sempre os mesmos, os que têm a ganhar com as orientações tomadas pela Casa Branca para invadir países com muito petróleo no subsolo e assegurar às empresas norte-americanas os excelentes contratos com a reconstrução daquilo que as suas bombas previamente destruíram.
Noutra das cenas memoráveis do filme, quase no início, Dick Cheney consegue emprego como estagiário na Casa Branca durante a Administração Nixon e, ainda com a ingenuidade rústica de quem veio do Wyoming rural, questiona Donald Rumsfeld sobre qual a política defendida pelos seus chefes. Tolhido de riso, o futuro dono do Pentágono fecha-lhe a porta do gabinete na cara, confrontando-o com uma pergunta tão estúpida, porque todos eles são motivados pela facilidade de encherem os bolsos, mesmo sendo dóceis subordinados dos que lhes pagam as campanhas, financiam think tanks e compram televisões, rádios e jornais, sempre com o objetivo de pagarem menos impostos, reduzirem os custos e os direitos de quem para eles trabalham e terem os dinheiros públicos a abrirem-lhes novas oportunidades de negócios, que os livrem de quaisquer regulamentações.
Ao longo da narrativa corrobora-se o que já sabemos. George W. Bush era um idiota com um passado de alcoólico e a obsessão de agradar ao pai. Os atentados às Torres Gémeas foram singularmente oportunos para que se tornasse possível a invasão do Iraque, onde nenhumas armas de destruição maciça foram alguma vez encontradas, mas onde as companhias petrolíferas já tinham dividido entre si quais os poços, que lhes caberiam.
Pode-se considerar que os Estados Unidos nunca tiveram nada de admirável, porque todo seu poderio e riqueza foi conseguido à custa de muitos genocídios e escravaturas. Por isso mesmo, sempre que as ideias socialistas ali tentaram disseminar-se foram criminosamente perseguidas e assassinadas pelos sicários de Edgar Hoover. A nível internacional a CIA e o Pentágono multiplicaram-se - e multiplicam-se como agora constatamos na Venezuela! - em conspirações para removerem do poder quem não se dobra aos seus ditames imperialistas. Atrás de um golpe de Estado ou de uma ocupação militar lá vêm as privatizações, que beneficiam sempre os mesmos. E tal qual Snowden no-lo denunciou todas as nossas opiniões e comportamentos alimentam a imensa base de dados da NSA para serem utilizados em altura oportuna.
É por tudo isso que importa ver «Vice». Não porque nos traga novidades, que não saibamos. Mas porque no-las escarrapacham na cara com tanta veemência, que só não as verá quem continuar a querer ser cego.

(DIM) A Última Caravana de Delmer Daves (1956)


Até aos anos sessenta o cinema de Hollywood empenhou-se em assegurar a legitimidade da epopeia dos pioneiros, que tinham desbravado e conquistado as grandes planícies do interior dos Estados Unidos à custa de muitos combates com as tribos ameríndias.
Nos filmes das sete primeiras décadas da História do Cinema morreram tantos índios nos westerns, que houve quem referisse a quase certa extinção de todos eles se se contassem todos quantos Hollywood se incumbira de «matar».
Quando roda «The Last Wagon» em 1956, Delmer Daves consegue prenunciar o advento do fim do maniqueísmo, até então vigente, ao apresentar como protagonista Richard Widmark na pele de um branco, que vivera muitos anos com os Comanches de quem adotara a cultura.
Capturado por um xerife sádico, que o quer condenar pela morte dos irmãos, ele assassina-o, quando se tinham hospedado numa caravana direcionada ao oeste selvagem. Visto como temível assassino pelos pioneiros fá-los-á mudar de opinião, quando são obrigados a confiarem nos seus dotes para escaparem aos ataques dos Apaches, dispostos a vingarem a morte de muitos dos seus, massacrando todos os brancos, que lhe fiquem ao alcance. Durante cinco dias os sobreviventes da caravana vão escapando à perseguição até se verem sob a proteção do exército regular. No entretanto esse Todd afiambra-se a uma das pioneiras, a quem é confiado sob a promessa de o manter em rédea curta.
Servido por excelente fotografia, que usa e abusa da beleza selvagem do Arizona, «The Last Wagon» é elogiado como um título merecedor de integrar uma listagem sobre filmes antirracistas.

(DL) Um mito urbano nada inócuo


Não é Stephen King quem quer! É o que se depreende de «O Homem das Sombras», thriller de Phoebe Locke, que tem por tema a lenda do Tall Man ou Slender Man, um mito urbano criado na net e com consequências trágicas na vida real. De facto, em 2014 duas miúdas norte-americanas de doze anos esfaquearam por dezanove vezes uma colega de turma como forma de impressionarem esse ser maléfico de quem queriam garantir proteção. No ano transato elas foram julgadas e condenadas a acompanhamento psiquiátrico, com confinamento obrigatório durante os próximos quarenta anos.
Foi ao conhecer o caso, e ao recordar as imagens televisivas de Amanda Knox, que fora acusada de ter sido cúmplice da morte de uma amiga em Itália, que a escritora Nicci Cloke decidiu levar por diante um romance, diferente dos que até então escrevera, e para o qual recorreria a novo pseudónimo. Imaginou então um ação dividida em três épocas distintas - 1990, 2000 e 2018 - mas com maior incidência na data mais recente por ser aquela em que se prepara um documentário sobre uma adolescente, Amber, envolvida num monstruoso homicídio.  Descobrir-se-á, assim, a influência nefasta da mãe, que a fizera nascer dezoito anos atrás e logo a abandonara. Quando decidira reaparecer-lhe fora para lhe agravar o caos em que já evoluía a sua maturação. Porque fá-la acreditar no encontro tido, com mais duas amigas, quando era adolescente e se tinham aventurado na floresta, encontrando um homem estranho, dotado de poderes que tanto as impressionara.
O problema é que, se nos romances de King tudo é suficientemente estruturado para o leitor nem se perder, nem se entediar, o mesmo não sucede com a sua confessa discípula. Manifestamente não é por se ler assiduamente as obras do mestre, que se lhe adquirem as competências. Ainda assim o romance suscita interesse por abordar um tema de inegável atualidade: como evitar que jovens facilmente influenciáveis se deixem atrair pelo que de mais maligno decorre das redes sociais. A panaceia ainda não foi encontrada.

segunda-feira, fevereiro 18, 2019

(P) Muito se bebe à espera do que não se sabe bem o quê



Confissões de um Coração Ardente. A peça esteve em cena no CCB até ontem e teve o mérito de proporcionar excelentes interpretações aos seis atores em cena, sem que nenhum deles se destacasse na homogeneidade dos seus desempenhos. O que me levou à questão de saber até que ponto um texto dramatúrgico deve ser excessivo na forma como aborda os temas em cena para que se fique com a sensação de se estar perante algo de raro, de muito acima da linha mediana, que nos serve de bitola de apreciação ao que vamos vendo.
Dostoievski é sempre um valor seguro, quando se procura criar algo de impressivo nos espectadores. E então, se em vez de se adaptar um dos conhecidos romances, os criadores da peça pegam em trechos esparsos de várias obras e lhes dão coerência num palco em que vemos cinco homens e uma mulher a comemorarem sabe-se lá o quê, mas questionando-se sem cessar sobre o Amor, a felicidade ou a crença numa qualquer utopia ou religião, estão criadas as condições para quase duas horas de uma tensão permanente. Porque, além de beberem demasiado e criarem uma nuvem sobre as cabeças à força de muito fumarem, os personagens agridem-se, insultam-se, humilham-se, inquietam-se. De vez em quando dançam, mas na lógica de espantarem os males que os afetam.
Há quem acredite em Deus, porque pior seria em tudo descrer, mas também o niilista, que não descansa enquanto não derruba todas as estátuas, Há o escritor inseguro, porque quase nada de extraordinário viveu. Há a mulher, que ali parece estar para os animar, mas atiça agravos por tomar o partido de um ou de outro.
Às tantas recordo o vivido há muitos anos, logo após a Revolução de Abril, quando alguém recamava ao nosso lado por se lhe deparar oferta cultural, que nada tinha a ver com o entretenimento procurado. Sentarmo-nos na plateia para ver esta peça, ou qualquer outra filiada nas mesmas intenções,  implica o compromisso de nos deixarmos afetar pelas questões, que ali se colocam. Será possível a felicidade? Poderá um amor perdurar para além do efémero transe da paixão? Pode uma ideologia libertar-nos do tédio da mediocridade quotidiana? Não é para aligeirarmos o trabalho das meninges, mas para as estimularmos, as pormos a mexer...
Põe-se a hipótese de vivermos num momento histórico com alguns paralelismos com os do tempo dos românticos em que Dostoievski se integrava. Havia a perceção de existirem grandes injustiças e nenhuma perspetiva de as resolver. Pressentia-se a iminência de grandes mudanças, sem que se soubessem quais viriam a ser. E por tardarem as respostas sobrava o mal de vivre compensado nos excessos de álcool e de outras dependências mais ou menos tóxicas.
Na época em que os textos de Dostoievski foram escritos os bolcheviques ainda nem tinham nascido. As condições para a Revolução redentora apenas iam-se suscitando e consolidando. Mas muitos a ela aspiravam, mesmo sem de tal terem a consciência. E, hoje em dia, é isso mesmo que está a acontecer...

domingo, fevereiro 17, 2019

(AV) Munch entre as abordagens de Abramovic e de Knausgard


Em 2013 quase trezentas pessoas foram convidadas a participar na performance, que o Museu Munch de Oslo encomendou a Marina Abramovic. Tratou-se de, tendo o porto da capital norueguesa por fundo, e no enquadramento de uma moldura com as mesmas dimensões das do famoso quadro do pintor, interpretar o famoso grito.
Mais convincentes uns, menos os outros, todos foram convidados a trazer do fundo de si as emoções, que a personagem feminina do quadro exprimia. Como obra conceptual contemporânea obtinha-se uma interação muito interessante entre os sentimentos  que o pintor representava em 1893 e o quanto eles se mantêm atuais mais de um século depois. E não foi surpresa que, depois de emitirem o seu grito, alguns desses participantes na performance vertessem lágrimas por se terem sujeitado a recriar experiências de sofrimento, ali recordadas.
Tratou-se igualmente de uma forma de dar outra vida a um quadro tão conhecido que, quando o mesmo museu convidou o escritor Karl Ove Knausgard a servir de curador à revisitação da obra, numa retrospetiva subordinada ao título de «Na Direção da Floresta» (título de uma belíssima gravura com dois corpos enlaçados a afastarem-se!) ele optou por não a expor, porque concentraria em si a atenção, que muitos outros merecem.
Munch foi um artista, que assinou milhares de obras de tal forma o feitio misantropo, dado às depressões, o tendia a isolar-se do convívio com os outros, fechando-se na sua propriedade nos arredores da capital para quase ininterruptamente ir vertendo nos quadros a prodigiosa criatividade. Nomeadamente quando tomou por tema a centralidade do sol nas nossas vidas. Foi logo após a sua quase fatal depressão de 1910, que criou várias telas, muito semelhantes entre si, e tendo-o como tema principal. Ao contrário de todos os outros pintores, que foram representando o sol como parte da paisagem, Munch decidiu-se a dar-lhe a importância crucial de nos ser imprescindível para que existamos.