domingo, novembro 19, 2023

Um escritor e o seu burro

 

A Ilha do Tesouro só surgiria daí a cinco anos mas, quando Robert Louis Stevenson fez um périplo pelas Cevenas em 1768 já o animava a intenção de dedicar-se à escrita a tempo inteiro, hipótese de que o pai nem queria sequer imaginar por ser outro o futuro para que predestinava o rebento. Outra razão o trazia ao maciço Central francês: um desgosto amoroso, que o predispôs para uma aventura como tantas se seguiriam, porque o gosto pelas caminhadas sempre o caracterizaram. Mesmo acompanhado por um burro como o que teve honras de surgir no título no seu diário Travels with a donkey in the Cevennes.

A chegada de Stevenson a Le Monastier-sur-Gazelle foi aparatosa: apesar de falar francês fluentemente - mesmo com forte sotaque escocês - ele era uma espécie de alien subitamente aterrado numa terra montanhosa, eivada de preconceitos e superstições. Por ali andava a lenda da besta de Gevaudan, que aborda como motivo de reflexão sobre as idiossincrasias desses habitantes, as mais das vezes desconfiados quanto à razão de ser da presença de tão estranha figura naquelas terras. Mas, embora impenitente ateu, Stevenson mostrou empatia com o misticismo de quem ali vivia à parte das mudanças que não tardariam a expressar-se na tomada da Bastilha e no derrube da monarquia. Sobretudo se eram descendentes dos protestantes, que se tinham sujeitado a tão ferozes perseguições.

Chegado a Saint-Jean-du-Gard Robert Louis Stevenson deu a viagem por concluída sem adivinhar que, dois séculos e meio depois, muitos caminhantes lhe seguem as pisadas pelos sítios em que então cirandou...

Hokusai, a busca infinita do olhar

 

Não sei quantas vistas tive do Monte Fuji, mas decerto não foram as trinta e seis criadas por Katsushika Hokusai, que teve longa vida entre 1760 e 1849, e ficou imortalizado como um dos mais relevantes artistas das estampas. depois sujeitas a entusiasmada apreciação pelos impressionistas do século XIX.

Sei que quase sempre encontrei a sagrada montanha envolta num nevoeiro, que mal deixava descortinar-lhe o perímetro e nem sequer era devido aos humores da meteorologia, porque quase sempre amarelada como costumam ser as neblinas causadas pela poluição. Um smog antipático, só raras vezes ausente, sobretudo quando era fim de semana, altura em que podia comprovar a quase perfeita simetria do foco do meu infinito olhar.

Na sua proveta existência, Hokusai pôde ver o Fuji, ora de perto, ora a maior distância, como terá acontecido quando imortalizou a onda de Kanakawa, por alguns interpretada como decorrente de um tsunami. E ele procurava, de facto, a captação do momento único em que tudo parecesse perfeito. Mesmo com expetáveis consequências para os pescadores prestes a serem engolidos pelo vagalhão.

Surgindo numa altura em que, apesar de fechada ao exterior, a economia japonesa conhecia algum esplendor, podendo a burguesia comercial dar-se ao luxo de comprar as obras dos seus pintores, Hokusai assinaria mais de trinta mil testemunhos do que era a vida dos contemporâneos. Com tal detalhe que cada um deles merece apreciação demorada tão prenhe de informações são sobre uma época, que já confirmava o distanciamento da civilização japonesa em relação a uma qualquer outra com que se possa comparar...

sexta-feira, novembro 17, 2023

Léonard de Vinci e o busto de Flora, Margarete Kreuzer, 2020

 

São muitos os documentários, que tendem a deixar os seus espectadores frustrados, porque partem de uma tese inicial, que contradiz outra, por muitos tida como irrefutável, e, depois de equacionada à luz de argumentos contraditórios, acaba por nada concluir em definitivo.

Este é só mais um exemplo: pegando num busto da deusa romana Flora, pertencente ao acervo do Museu Bode em Berlim, analisa quem terá sido o seu escultor, havendo quem se divida entre Leonardo de Vinci e Richard Cockle Lucas, artista do século XIX, que especializara-se na recriação de obras de acordo com os métodos e estética renascentista.

A polémica já data do início do século XX, quando Wilhelm Bode comprou a estátua de cera em causa para garantir a presença do grande artista italiano nas coleções imperiais de Guilherme II.

Apesar do recurso às tecnologias mais avançadas, que procuram datar o mais criteriosamente possível os materiais utilizados na obra, os especialistas continuam divididos em dois campos inconciliáveis, uns atribuindo-a ao criador da Gioconda, os outros a teimarem na sua origem britânica.

Por agora nem sequer o recurso ao carbono 14 consegue dissipar as dúvidas, que redundam afinal numa questão essencial: que importa tratar-se ou não de uma obra de Leonardo? Não basta apreciá-la independentemente de quem e do porquê de ter sido criada? Às tantas temos de reconhecer estultas muitas das polémicas, que agitam os meios culturais por mais não serem do que pretextos para os onanísticos exercícios dos seus intervenientes. 

segunda-feira, novembro 13, 2023

Os Fantasmas de Ismael, Arnaud Desplechin, 2017

 

Embora assinado por quem nunca me fez apreciar as suas obras labirínticas, este é daqueles filmes cujo elenco - Amalric, Gainsbourg, Cotillard e Garrel—bastaria para me pôr a salivar.

Há depois as referências cinéfilas e literárias - mormente a Hitchcock e a James Joyce - que dão tempero singular a uma história sobre uma mulher disposta a viver duas vezes como a Kim Novak de Vertigo. Também ela chamada Carlotta, desaparecera do radar do marido vinte e um anos atrás e, sem dizer água vai, água vem, foi viver como e com quem quis. Agora, viúva do companheiro mais recente, vem instalar-se no quotidiano do ex-marido, disposta a reaver tudo quanto deixara para trás. Sem escrúpulo quanto ao evidente egoísmo e às consequências do seu gesto.

O problema está em que Ismael já encontrara equilíbrio na relação com uma astrofísica, a única capaz de lhe dissipar os bloqueios criativos, que o impedem de concluir a produção do mais recente filme da sua lavra. O que sugere a clara identificação do realizador com o protagonista do seu filme a exemplo dos seus títulos anteriores de que este parece assumida síntese.

Se não me entusiasmou de todo, reconheço existirem nestes fantasmas de Ismael matéria bastante para equacionar questões, que pecam por excessivas em quantidade, mas parcas em substância... 

sexta-feira, novembro 10, 2023

Na Astronomia o tamanho dos planetas conta

 

Nos confins do Sistema Solar existirá o tal planeta gigante, que teria cerca de cinco vezes a massa da Terra e cuja translação duraria cerca de dez mil anos? Essa possibilidade ocupa várias equipas de astrónomos, que escalpelizam todos os indícios passíveis para a demonstrar. E o que está em causa é a provável alteração do nosso conhecimento sobre as origens do sistema solar.

Em Astronomia as distâncias  não se medem em quilómetros mas em unidades astronómicas. Entre a Terra e o Sol é a distância que define o padrão dessa unidade. Assim Júpiter fica a cinco unidades, Saturno a dez e Neptuno a trinta unidades do Sol enquanto esse superplaneta terá a sua órbita a entre as trezentas e as seiscentas unidades astronómicas, se não mesmo além. Seria esse planeta gelado o nono do sistema solar.

Nos anos noventa Plutão foi desqualificado dessa condição, cingido que foi a um dos muitos objetos celestes pertencentes à Cintura de Kuiper, situada entre as 30 e as 50 unidades astronómicas, que é uma espécie de campo de detritos existente para lá de Neptuno. Com um tamanho inferior ao da nossa Lua, Plutão não mereceria doravante o estatuto devido aos demais oito planetas do Sistema Solar.

Mais tarde a descoberta de Eris a cerca de cem unidades astronómicas, e com um tamanho semelhante ao de Plutão, confirmou a condição de planetoides de um e outro.

Em agosto de 2006 o Congresso Internacional de Astronomia, reunido em Praga, votou a desclassificação de Plutão, criando a nova categoria de planeta-anão do Sistema Solar, de que se conhecem atualmente mais oito, prosseguindo os trabalhos destinados a identificar os muitos outros presumivelmente existentes.

Quanto ao novo planeta, que será o nono do Sistema Solar, os cálculos apontam para a possibilidade de vir a ser o quinto em tamanho e parte importante do equilíbrio gravitacional, que suporta todo o conjunto planetário em que estamos integrados. Um dos melhores indícios da sua existência decorre da inclinação das órbitas dos objetos da Cintura de Kuiper, que indicia uma atração gravitacional na sua direção. Para lá dessa Cintura outro planeta-anão, Sedna, ostenta essa órbita anómala justificada matematicamente pela hipótese em equação.

Simulações feitas a partir desse tipo de anomalias, também identificadas noutros objetos, permitiram calcular o tamanho e a distância a que possa estar esse superplaneta maciço, que se pretende detetar.

Até agora encontraram-se cerca de cento e vinte novas luas de Júpiter e Saturno, diversos cometas e asteroides ou o mais distante planeta-anão conhecido - Farout. Mas o desejado novo planeta ainda não se deu a conhecer, levantando a questão: porque será tão difícil encontrá-lo? Uma das hipóteses mais consistentes tem a ver com a possibilidade de, na sua órbita elítica em torno do Sol, estar atualmente na sua zona mais distante, para lá das 600 unidades astronómicas.

Ao contrário doutros planetas situados noutros sistemas estelares - identificáveis quando passam em frente às respetivas estrelas! - não existe a mesma referência possível para o que se procura a tão grande distância e não se sabe em que zona da cúpula celeste procurar. É o clássico problema de encontrar a agulha num palheiro, porque correspondente a uma zona do céu onde é muito fraca a intensidade luminosa. Uma das estratégias atualmente utilizadas é a de buscar esse planeta nas fotografias já captadas e onde ele figure sem que tenha sido enquanto tal identificado. Mas é ainda um work in progress...

quinta-feira, novembro 09, 2023

Le grand bleu, Luc Besson, 1987

 

Foi um dos mais eloquentes exemplos da disparidade entre uma receção gelada na estreia - quando foi escolhido para a sessão de abertura do Festival de Cannes desse ano, logo merecendo críticas negativas -, e o subsequente sucesso comercial traduzido nos nove milhões de franceses, que o viram, quando foi distribuído nas salas de cinema do Hexágono.

Três décadas e meia depois dir-se-á, que nem tanto ao mar, nem tanto á terra: o filme não é grande coisa, mas também não tão mau quanto o pretenderam alguns críticos. Tudo se resume à rivalidade entre dois mergulhadores em apneia, um francês e outro italiano que, desde a infância, competem quanto a quão mais fundo conseguem chegar. A história, inspirada nessa disputa real entre Jacques Mayol e Enzo Molinari, contribuiu para dois atores, Jean-Marc Barr e Jean Reno, ganharem relativa fama. Aí sim, algo imerecida, porque se o primeiro ainda faria algumas coisas com interesse, o segundo seria um dos mais execráveis canastrões do cinema francês.

Graças a este filme o realizador Luc Besson procurou ganhar relevância internacional, mas também ele tem deixado como saldo uma sucessão de títulos pouco interessantes. Este acaba por ser o mais relevante, quanto mais não seja pela paisagem marinha da ilha de Amorgos e pela leitura ecologista ainda passível de, implicitamente, estar-lhe subjacente. 

quarta-feira, novembro 08, 2023

Only Angels Have Wings, Howard Hawks, 1939

 

Foi o filme em que pela primeira vez se pôde ver Rita Hayworth num papel importante e um dos que fizeram do ano de 1939 um dos mais interessantes na produção dos diversos estúdios de Hollywood.

Para quem gostou de ler Saint–Exupéry há ainda a abordagem das grandes aventuras aéreas dos serviços aeropostais na América Latina e dos perigos neles vivenciados ao comando de aparelhos assaz periclitantes.

Jean Arthur, que era uma das atrizes preferidas de Capra, faz de Bonnie Lee, uma artista de variedades que, concluída uma tournée, faz escala no porto de Barranca, donde partem os aviões para o outro lado dos Andes.

Quem dirige a empresa em causa é Geoff Carter, interpretado por Cary Grant, que lhe merece imediata e assolapada paixão, mas não lhe devolve tão enfático entusiasmo. Tanto mais que, sem outros pilotos disponíveis, acaba de recontratar Bat, por ele despedido alguns anos antes por ter-se salvo num aperto e deixado para trás um mecânico um mecânico, que não sobrevivera ao acidente. É como esposa deste candidato a vilão da trama, depois redimido, que vem Rita como bónus num filme onde podemos ver outros atores a desempenharem papéis secundários com espessura e talento mais substantivos do que era então costume.

Hawks fora instrutor de voo na aviação militar e conhecia bem o que pretendeu subtilmente demonstrar como sendo amizades viris, lealdade e sentido do dever. Temas antes e depois glosados na sua filmografia. 

segunda-feira, novembro 06, 2023

Ícones brasileiros

 

Num programa do canal franco-alemão ARTE reencontro dois dos grandes símbolos da cultura brasileira: Heitor Villa Lobos e Garrincha. Que muito naturalmente me interessam, o primeiro por dar à música erudita do seu país uma conotação identitária, que tem a ver com a luxuriante natureza pressentida nas suas pautas.  Em vez de replicar Bach ou Beethoven o compositor buscou a originalidade no que era especificamente brasileiro e tão enfatizado era pela ditadura de Getúlio Vargas. Embora nunca a tenha apoiado especificamente, Villa Lobos aproveitou-se do contexto favorável para concretizar um projeto criativo, que redundaria no clímax de chegar a ter quarenta mil pessoas num estádio para lhe cantar uma das obras..

Pessoalmente resgato a grata reminiscência de acordar mais cedo num domingo para, num dos saudosos Dias da Música no CCB de Mega Ferreira, assistir à Bachiana nº 5 como primeiro concerto da manhã no Grande Auditório.

Quanto a Garrincha, e muito embora, o fenómeno futebolístico me seja indiferente, interessa-me o percurso do homem que causou escândalo na relação com Elza Soares, quando ela era figura maior da oposição à ditadura, e depois perdeu-se nos meandros da álcool, morrendo na miséria aos 49 anos depois de uma daquelas bebedeiras que o levou literalmente do caixão à cova.

domingo, novembro 05, 2023

O Pio dos Mochos, Diana Antunes, 2023

 

Não conhecia o conto de Soeiro Pereira Gomes em que se baseou Raquel Palermo para criar o argumento do filme de Diana Antunes, mas ele cuida de um tema sensível na principal força de oposição ao Estado Novo: o que fazer com quem não aguentou a tortura da Pide e contribuiu para mais enfraquecer a organização clandestina. Mas, como tudo se passa em 1933, quando o regime salazarista ainda está a consolidar-se, Tomé, o jovem operário de Miranda do Corvo, que caiu  nas malhas da repressão, acaba por ser readmitido na luta operária pelo direito à greve negado pela nova Constituição. Algo que, depois, perante tantas derrotas, tornar-se-ia improvável.

Integrado no projeto da produtora Ukbar Filmes, que deu oportunidade a dez realizadoras para assinarem o seu primeiro filme, O Pio dos Mochos vale, sobretudo, pela abordagem da extrema miséria em que viviam os operários transmontanos na década de 30, e como era promíscua a relação entre os patrões e a ditadura. Desta se servindo para levar a exploração até à mais odiosa dimensão.

sexta-feira, novembro 03, 2023

A Resistência ao serviço de Sua Majestade, Cécile Coolen, 2023

 

Antiga montadora, premiada em numerosos festivais internacionais, Cécile Coolen assina aqui o primeiro filme enquanto realizadora, aliando a sua experiência especializada com a paixão pela História. Consegue, por isso, adequar a sua proposta à intenção original da série em que se insere, Les Coulisses de l’Histoire, que busca uma versão original de acontecimentos supostamente bem conhecidos.

Aqui, graças a um rico manancial de arquivos de que se serviu, e do testemunho de muitos familiares dos nela envolvidos, aborda-se a notável aventura dos participantes no Serviço de Operações Especiais (SOE), criado em julho de 1940 por decisão de Churchill para, com sabotagens e outras ações espetaculares, lançar o caos nos países ocupados pelos nazis.

Integraram-no homens e mulheres das mais díspares condições sociais e culturais, mas dotados de capacidades físicas e inteligência bastantes para concretizarem esses objetivos. Daí tanto provirem da aristocracia britânica, como da delinquência, ora diplomatas exilados em Londres, ora outros refugiados aí chegados em 1940.

Os militares desaprovaram essas ações e os primeiros fracassos pareceram dar-lhes razão: um dos enviados para a Bélgica viu o paraquedas desviado para a Alemanha onde aterrou num campo de prisioneiros. Noutro, destinado à Dinamarca, o paraquedas não abriu e os alemães recolheram muitas informações comprometedoras na documentação de que se fazia acompanhar. Mas, após esses inícios pífios, os sucessos não tardarão e o SOE até acabará por colaborar com Tito na Jugoslávia apesar do feroz anticomunismo do primeiro-ministro inglês.

A francesa Lise de Baissac, o belga André Wendelen ou o dinamarquês Flemming Muus foram heróis esquecidos, que o filme consegue resgatar desse injusto desconhecimento.

quinta-feira, novembro 02, 2023

I Am Really the Underground, Ricardo Clara Couto, 2018

 

Não é poeta, que tenha merecido a minha atenção e creio até nem ter dado pela sua morte - no dia de Natal de 1997 - porque creio até nem estar em Portugal na altura. Mas o documentário de Ricardo Clara Couto, com argumento de Nuno Costa Santos, deu-me estímulo bastante para lhe ir procurar os versos.

Não tanto pelo individualismo de quem parece ter começado a definhar numa longa depressão, quando saiu da Frelimo, e se viu expulso de Moçambique, a terra que sentia como a da sua identidade, mesmo sabendo-a país dos outros, como sublinhou no título do seu primeiro livro. Nem tão pouco pela reivindicação de se sentir underground, indiferente a modas e a ideologias. Esta seria, aliás, uma boa razão para não merecer esse interesse.

Ao contrário de uma certa direita, que o incensa, e por isso surge em tom apologético no documentário (Pedro Mexia, Francisco José Viegas), Knopfli também para ela se estaria a marimbar se fosse vivo. Antes continuando a cultivar versos claros no que,  sem peias, pretendia fixar. E é essa a grande razão para os intentar descobrir.

No centenário de Victoria de los Angeles

 

Ouvir rádio continua a ser um prazer quando o poder da imagem tende a subalterniza-la, senão mesmo a pô-la em causa. E a Antena 2 tem-me acompanhado nas últimas décadas com grandes momentos de fruição. Mormente, quando ainda estava profissionalmente ativo e me acompanhava nos engarrafamentos matinais e do fim da tarde, ao ir ou voltar do emprego. Ou durante o dia, quando me deslocava para as reuniões, que me ocupavam boa parte dos dias.

Ontem, no sempre interessante Império dos Sentidos, comemorou-se devidamente o centenário de Victoria de los Angeles, que comecei por conhecer nos anos 80, quando ganhava a vida como oficial do paquete Funchal. O fascínio por essa voz poderosa e, que não titubeava nas articulações mais difíceis dos libretos, foi ponto de partida para transitar da música rock ou pop, ainda aquela que mais escutava na altura. Depois, por nunca me ter instruído sobre a música erudita, foi na Antena 2, que busquei essa educação, transformando-me num melómano mais ou menos informado.

No dia do centenário da soprano que não tenho dúvidas em equiparar às melhores da sua arte, Callas incluída, cabe aqui prestar tributo a uma estação pública, que tanto e tem valido! 

quarta-feira, novembro 01, 2023

E se o nosso universo nasceu de um Grande Salto?

 

Pensa-se que, ao entrar num buraco negro, a ação da gravidade faz com que a matéria estique e alongue na direção do seu centro. Até ser estilhaçada numa espécie de “espaguetização”. Se existir uma singularidade essa matéria passa a integrá-la nela desaparecendo para sempre.

Tese alternativa propõe que essa compressão, para dela emergir um novo universo, não aconteça. Porque esses universos já estão contidos no buraco negro como poderá ser o caso deste em que vivemos. Quem defende esta hipótese alternativa baseia-se na teoria de Einstein e no seu desenvolvimento ulterior por muitos outros físicos.

Seja uma, seja outra, ou não seja nenhuma delas, a verdade é que os buracos negros têm alimentado a fantasia dos autores de ficção científica. Em 2009 o filme Star Trek  de J.J. Abrams fez do buraco negro o maior e mais perigoso dos vilões. Cinco anos depois, com Interstellar, Christopher Nolan tentou especular sobre como poderá ser o interior de um buraco negro.

No debate científico atual, a quantidade de matéria e energia acumulada num buraco negro pode concentrar-se num ínfimo grão, que acabará por explodir. Na teoria do Big Bang defende-se que essa matéria e energia desaparece e decompõe-se para sempre ao passar por uma pequena abertura que corresponde à tal Singularidade, infinitamente pesada e infinitamente pequena.

Apesar de matematicamente exequível esta hipótese continua a ser fisicamente insatisfatória. Daí haver - caso de Nikodem Poplawski - quem porfie nos modelos sem Singularidade, considerando-a inviável pelo fenómeno de torção a que a matéria absorvida pelo buraco negro se sujeita e dentro dele se acelera. O que a impede de alcançar esse suposto ponto de singularidade.

O spin correspondente a essa torção acaba por agir como força antigravitacional causando o que designa como o Big Bounce ou Grande Salto. O nosso Big Bang mais não seria do que uma destes eventos criadores, que excluem a possibilidade de um momento inicial para tudo quanto existe. Neste caso o buraco negro constituiria uma espécie de portal para outros universos.

Porque não pode ser demonstrada pela observação esta tese é entendida como interessante e matematicamente exequível, mas sem conseguir-se comprová-la no estado atual do conhecimento. Como, por outro lado, não há meios para refutá-la.

Há, porém, quem tente esse impossível investigando o período inicial do nosso universo, que chega aos radiotelescópios na forma de um eco correspondente ao momento imediatamente a seguir à explosão inicial, a chamada fase da inflação. Medir essas ondas gravitacionais poderá dar resposta a esta polarização entre os defensores do Big Bang e os do Big Bounce, mas muitos anos faltarão para que esse objetivo seja tangível...