domingo, janeiro 10, 2021

DIM) Belmondo, o magnífico? Porquê?

 


Nunca simpatizei com Bebel apesar dele ter sido, em determinada altura, o mais popular dos atores franceses. Filme que o tivesse como cabeça-de-cartaz era garantia de milhões de bilhetes vendidos e de salas cheias por toda a França, porque os espectadores procuravam um tipo de entretenimento pouco exigente para as meninges, com algumas piadas - às vezes alarves! - que os fizessem rir e com arriscadas acrobacias para as quais Belmondo sempre dispensava os duplos, já que adorava as atividades físicas e até fazia boxe amador.

Para a xenofobia dos machos gauleses funcionava igualmente a capacidade para ter seduzido e desposado uma das mais idolatradas atrizes de então, Ursula Andress, e sugerir que outras beldades não escapavam ao seu encanto. E, no entanto, na escola onde aprendeu a ser ator, o professor mais reputado profetizou que ele tinha um rosto tão feio, que nunca serviria para papéis de protagonista, restando-lhe os secundários em que meliante seria o mais lógico desempenho.

Belmondo tinha, porém, alguma sorte, a começar pelo facto de ter por pai um escultor bastante conhecido nos ambientes artísticos: Paul Belmondo. O efeito «filho de ...» funcionou a seu favor. E, melhor ainda, teve Jean Luc Godard a escolhê-lo como um dos primeiros ícones da nouvelle vague através do seu desempenho em O Acossado(1960). Mais tarde, quando já transitara para comédias populares ou policiais, Godard permitira-lhe novo impulso à carreira estagnada com Pierrot le fou (1966). Algo que Truffaut também replicaria, quando o viu como o parceiro de Catherine Deneuve em A Sereia do Mississipi (1969). A verdade, porém, é que o feitio estroina e falta de cultura, fazia de Belmondo um ser esdrúxulo ao ambiente desse movimento cinematográfico tão importante para revolucionar a forma como se concebiam os filmes a partir dos anos 60.

Não era nas revistas especializadas na Sétima Arte que Belmondo ganhava prestígio. Pelo contrário encontrava-o nas revistas cor-de-rosa onde as relações amorosas ganhavam destaque a par das brincadeiras a que se dedicava com inegável prazer. Uma vez, na Flórida, durante a rodagem de um filme de Philippe de Broca, suscitou a expulsão do hotel de toda a equipa de filmagem por ter decidido comprar crias de crocodilos e espalhá-los pelos corredores do edifício lançando o pânico nos demais hóspedes. Ou, igualmente, pela zanga com o amigo Alain Delon, que chegou aos tribunais, porque em Borsalino (1970), este tinha maior destaque nos cartazes, já que associava a função de ator com a de produtor.

Quando a idade já não o credibilizava como sedutor de jovens comparsas, o cinema deixou de contar com ele, obrigando-o a reciclar-se nos palcos de teatro onde não voltara desde os verdes anos. Pela primeira vez ganharia um prémio de interpretação, mas que já não lhe terá dado alegria bastante para compensar a sensação de ter passado ao lado de percurso bem mais memorável. Porque, na verdade, embora Bruno Sevaistre tenha-lhe dedicado um documentário de hora e meia em 2017—Belmondo, le magnifique - dele pouco mais se recordarão do que os filmes rodados com Godard ou Truffaut porque, quase tudo o resto é para esquecer! 

sábado, janeiro 09, 2021

(DIM) Dois documentários de grande interesse

 


1. Durante dez anos - entre 2006 e 2016 - o realizador Kaku Arakawa acompanhou o quotidiano de Hayao Miyasaki, a quem associamos alguns filmes de animação de enorme qualidade desde O Meu Vizinho Totoro (1988) até  A Princesa Mononoke (1997)  ou A Viagem de Chihiro (2001), e culminando no Ponyo à Beira-mar (2008).

Nesta altura o canal japonês NHK oferece aos seus espectadores o resultado desse making of contínuo, dedicado ao processo criativo do grande mestre sem escamotear o seu mau feitio de misantropo. E ademais com legendas em português!

Logo no primeiro episódio dos dez disponíveis afere-se como Miyasaki recebe com grande irritação a persistência do filho Goro em trilhar-lhe os mesmos caminhos, estreando o seu primeiro filme, quando ele o considerava ainda demasiado imaturo para se abalançar a tal projeto. Mas, relativizando esse (mau) carácter, podemos acompanhar o dia-a-dia entre maio de 2006 e o verão de 2007, para descobrir como lhe surgem as ideias ou cria, a aguarela ou pastel, os cinquenta painéis de base, a seguir trabalhados em estúdio, para concretizar a longa-metragem seguinte.

Decerto veremos os nove episódios seguintes com o mesmo interesse do que o despertado pelo inicial.

2. Interessante, igualmente, o documentário de Jens Monath, datado de 2019, em que se aborda a história do reino da Arábia Saudita, cuja fundação remonta a 1932. Em Les Maitres de l’Arabie vai-se até ao passado mais ancestral, quando os comerciantes nabateus percorriam a península arábica e instituíram o culto a pedras tal qual o vemos expresso na cidade jordana de Petra. Assim se compreende como, muito anos de Maomé, já se venerava a pedra negra, porventura oriunda de um meteorito, que continua sacralizada na Caaba de Meca. Mas também como foi determinante para o puritanismo vigente no atualidade a aliança que um dos antepassados dos Saoud  estabeleceu com um pregador, Mohammed ibn Abd al-Wahhab, em 1744, que impôs todos os dogmas passíveis de serem castigados com chicotadas ou mesmo a morte, se transgredidos.

Hoje em dia a Arábia Saudita está num impasse que só com mais liberdade política e menos influência religiosa poderá superar...

(OF) Brâncuși e a sua ligação às origens

Não é verdade que Constantin Brâncuși tenha caminhado pelos seus pés entre Bucareste e Paris para aí estudar na Escola Superior de Belas Artes. Fê-lo entre a capital romena e a aldeia natal, Hobita, em 1903, para visitar a mãe, mas o resto do percurso foi feito de comboio, com uma escala em Viena, arranjando emprego como operário para custear o resto da viagem e os primeiros tempos em Paris. Daí que só em 1904 aí tenha chegado para aprender o suficiente com os académicos para logo os pôr de lado com as novas ideias, que dele fariam um pioneiro da abstração e um cultor da singular elegância de que se revestem as suas obras.

O pedestal perdeu a função tradicional incorporando-se na própria escultura onde induz as influências colhidas na arquitetura da terra natal em que as casas de madeira ostentavam motivos geométricos com fins decorativos. Interessou-o o losango a tal ponto que, quando, em 1938, instalou a sua Coluna Infinita em Turgu Jiu, foi essa a forma escolhida para criar essa estrutura de 48 metros de altura.

O vanguardismo de Brâncuși era aparente, porque eivado de uma espiritualidade, que o levava a traduzir nas obras os conceitos místicos recolhidos na religião ortodoxa. Nunca esqueceu as três horas de caminhada de todos os domingos em que, com a mãe, ia à missa no mosteiro de Laitini. Mas associava essa propensão para a transcendência num certo animismo decorrente dos passeios pela natureza pelos campos em redor da aldeia natal. Oiseau dans l’espace (1923) é exemplar quanto a essa tradução em mármore e bronze da imagem concreta dos pássaros a esvoaçarem nos céus e traduzida na sua requintada estilização.

Pode-se, pois, considerar que Brâncuși como paradigma de uma revolução estética alicerçada nas ligações a uma inequívoca ancestralidade. 

sexta-feira, janeiro 01, 2021

(DL) De que fala afinal a Peste de Camus?

 

Há uns bons anos que me tenho distanciado de Albert Camus na exata proporção em que o vejo enaltecido por gente ideologicamente de direita capaz de o reivindicar como um dos seus. Para que não sobrem dúvidas e apesar do reconhecimento dos muitos erros de análise que cometeu, prefiro largamente Jean Paul Sartre ao autor de O Estrangeiro. Mas, como o ano de pandemia reavivou o interesse por outro dos seus romances, A Peste, voltei a nele deter-me até por ser anterior ao alinhamento do escritor com o colonialismo francês durante a guerra de libertação da Argélia ou ao seu enfeudamento ao anticomunismo primário na altura em que os intelectuais pareciam obrigatoriamente alinhar-se entre as posições de Washington ou as de Moscovo.

Uma das curiosidades, que me tinham passado ao lado enquanto adolescente, foi a possibilidade de ler o romance como metáfora antinazi: a peste que afeta Orão mais não seria do que a representação simbólica de outro mal, la peste brune, como então se designavam as hordas hitlerianas. Aragon contestou essa hipótese, mas convenhamos que o escritor comunista decerto já não morria de amores por Camus, mas este reiterou esse sentido numa correspondência com Roland Barthes.

Tivesse ou não essa intenção política, e para além dos esforços do doutor Rieux para ajudar os seus pacientes acabando a provação com uma perspetiva muito lúcida de quanto acontecera - até a perda da esposa não de peste, mas de tuberculose, depois de ter-se escapado ao fecho da cidade para buscar salvar-se do perigo - ela ajusta-se na perfeição ao futuro próximo, quando o mesmo tipo de peste castanha volta a ameaçar sob a forma dos movimentos e partidos de extrema-direita. Há neles os Paneloux, que consideram justificados todos os males a nós impostos por sermos pecadores à luz das suas ideias religiosas ou ideológicas, mas esses dificilmente encontrarão possibilidades de redenção como o padre conhece ao dar a mão ao miúdo que, ao morrer, jaz na cama como um cristo. Piores os Cottards, que procurarão semear o mal e com ele beneficiar: são eles quem financiam os Venturas e os promovem sem qualquer pejo.

Por aqui se depreende que se a pandemia justifica a releitura do romance, mais pertinente ele se torna se olharmos para os candidatos às presidenciais e depararmos com os populismos malfazejos, que se verificam nas mensagens de alguns deles.