sábado, outubro 05, 2019

Apontamentos nas margens das notícias: As calamitosas inundações que se anunciam


As inundações constituem fenómeno cada vez mais frequente em todas as latitudes, mas com particular impacto nas grandes metrópoles costeiras, porque nelas entrelaçam-se duas tendências capazes de se potenciarem mutuamente: a subida do nível dos oceanos como resultado do descongelamento de vastas áreas de gelo do Ártico e do Antártico e o afundamento das gigantescas urbes pelo imparável peso dos arranha-céus sobre a superfície em que assentam.
Ao escusarem-se ao ordenamento racional das áreas metropolitanas, os responsáveis políticos possibilitam o desenfreado impacto das leis de mercado, que se atêm apenas nos lucros a curto prazo, sem atenderem às ulteriores consequências dos seus investimentos especulativos.
Há trinta anos passei três verões a navegar num paquete até ao pack ice, ou seja àquela zona do Oceano Glaciar Ártico onde a água em estado líquido dava lugar à longa extensão de gelo, que conduziria ao polo se trocássemos o conforto do navio pelo trenó puxado por renas ou por huskies. Na época essa impossibilidade de acedermos a latitude mais boreal quedava-se pelos 82ºN. Agora imagino que já não será difícil aceder aos 85º, prenunciando-se a sólida hipótese de ainda, no que me resta de tempo de vida, ser possível chegar aos 90º por via marítima. Não imagino as toneladas de gelo, que se liquidificarão e quanto o nível médio do mar subirá, mas os cientistas apontam para valores, que põem em causa muitas das principais cidades dos vários continentes.
Nova Orleães revelou-se uma das mais suscetíveis de se verem permanentemente inundadas, tal qual no-lo demonstrou o furacão Katrina, mas o Sandy também denunciou os riscos futuros para os nova-iorquinos, não esquecendo Miami, que dispensa condições meteorológicas extremas para obrigar a quem ali vive o gesto de arregaçar as calças.
Do que ocorrerá na nossa costa pouco vamos sabendo, porque os estudiosos desse fenómeno mantém as conclusões no recato académico. Mas´, tal como acontecia na «Guerra dos Tronos», the winter is coming e com ele as inevitáveis revelações quanto às zonas do nosso litoral mais postas em causa pela avassaladora evolução dos acontecimentos climáticos.

quinta-feira, outubro 03, 2019

Diário das Imagens em Movimento: Ida Lupino num ciclo em curso na Cinemateca


Neste mês de outubro a Cinemateca tem estado a homenagear Ida Lupino, uma atriz, produtora e realizadora norte-americana, que caiu em imerecido esquecimento, apesar de conhecida pelo carácter determinado e independente a que não faltou a ousadia em abordar temas de que, na época, a indústria de Hollywood fugia como diabo da cruz: o adultério, a violação, o aborto, a bigamia.
Porque não era das atrizes mais vistosas da época davam-lhe os papéis, que dispensavam o aspeto decorativo e pressupunham a criação de uma personagem forte, mesmo que dividida entre pulsões contraditórias. Contracenando com alguns dos mais destacados atores do seu tempo ela a todos dava a devida réplica com personagens determinantes quanto ao que ditaria a ação.
A tentação de passar para trás da câmara surgiu cedo, mesmo que para isso tivesse de se tornar a própria produtora, nunca acedendo a orçamentos espaventosos. Os filmes, que assinou dão a entender o quanto poderiam ser êxitos mais significativos acaso não se visse obrigada a poupar nos cenários ou nos atores que conseguia contratar por cachets limitados. E, no entanto, todos merecem ser apreciados pelo que sugerem, mais do que mostram.
Curiosamente, sem disso se aperceberem, muitos terão assistido a demonstrações do seu talento nos trabalhos para televisão, nomeadamente na direção de muitos episódios da série Alfred Hitchcock apresenta.
De entre os filmes datados dos anos 30 e 40 estão três realizados por um dos grandes mestres da História do Cinema: Raoul Walsh.
«Artistas e modelos» estreou-se em 1937 e era uma comédia, que teve Vincente Minnelli na criação de um número musical para uma história que envolvia a organização de um baile e a eleição da respetiva rainha. Vária vedetas da rádio e da Broadway compareciam à chamada, entre as quais Jack Benny, que tomava conta do papel principal. E Louis Armstrong aparecia a liderar a sua orquestra, algo muito mal visto por exibidores da época, que ameaçaram boicotar o filme se essa cena não fosse cortada.
«O Último Refúgio» foi rodado em 1941 e contribuiria para a consolidação do sucesso de Humphrey Bogart que, só no ano anterior, conseguira livrar-se dos papéis secundários com o seu desempenho em «O Falcão Maltês». Baseado num romance policial de W.R. Burnett mostrava a preparação de um assalto liderado por um gangster apostado em conseguir a maquia suficiente para se poder reformar, mas tudo acabando por correr-lhe mal. Nem a rapariga por quem se apaixonara está disposta a aceitá-lo, nem a que ele aceitara como alternativa (Lupino) lhe facilitaria a fuga pela montanha onde o cercariam. O inseparável cão dela distrairia o fugitivo, pondo-o na mira do atirador de élite para ali destacado pela polícia.
Um dos filmes mais interessantes do ciclo é «The Man I Love», também de Raoul Walsh que Martin Scorcese tanto amou, citando-o explicitamente no seu «New York, New York». Lupino tem uma das suas mais expressivas interpretações no papel de uma cantora, que vai a Long Beach passar o Natal com as irmãs e acaba por se envolver com um mafioso.
E o ciclo tem ainda um dos filmes que mais me impressionou quando era miúdo: «O Lobo do Mar» de Michael Curtiz, datado de 1941. Adaptação do romance de Jack London, possibilitou a Edward G. Robinson um notável desempenho no papel de comandante da escuna «Ghost». Brutal, arrogante e, paradoxalmente, versado em leituras, colhera de Nietzsche colhera a ideia da amoralidade intrínseca à condição humana. Por isso comprazia-se em tratar sadicamente a tripulação até a levar ao motim. Pelo meio surgia uma delinquente escapada da prisão (Lupino) e um escritor, ambos náufragos recolhidos pelo navio sem adivinharem quanto esse aparente abrigo se converteria para eles próprios num verdadeiro inferno. E também por lá anda John Garfield, outro grande ator que nunca é demais recordar...

quarta-feira, outubro 02, 2019

Apontamentos nas margens das notícias: Que elas existem, existem! (as alterações climáticas, claro!)


A contraofensiva dos negacionistas das alterações climáticas volta a fazer-se sentir: passando os olhos pelos títulos desta manhã dou com um «climatólogo» a insistir na recusa da influência humana nas circunstâncias que, por exemplo, acabam de possibilitar a chegada de um furacão ao grupo ocidental do arquipélago açoriano. Ou uma outra, que sugere a necessidade de silenciar a hipótese de um apocalipse climático, porque existe um número crescente de crianças importunadas pela ansiedade quanto a tal assunto. Ou persiste a campanha contra a adolescente sueca, que se tem destacado na denúncia do perigo, surgindo como protagonista nacional de tal campanha o amigo de Marcelo, que teve a duvidosa honra de discursar nas últimas comemorações do dia de Camões.
Não é preciso ser fanático da ecologia para ser evidente a importância em alterarmos a forma de consumirmos bens em excesso cujo usufruto acaba por ser ridiculamente raro. O ministro do Ambiente referia, dias atrás, o exemplo dos milhares de berbequins guardados nas caves e arrecadações das habitações lusas apesar de estudos indicarem que, durante o seu tempo de vida, só serão utilizados durante doze minutos. Ou fazem todo o sentido as campanhas destinadas a tornar menos frequente o consumo de carne, particularmente a bovina, tendo em conta os efeitos nocivos das criações de gado no efeito de estufa e na desflorestação amazónica.
A ameaça que assustou os Açores por estes dias vai-se repetindo noutras regiões do planeta  e sob formas diversas: o glaciar no Vale d’Aosta, que ameaça colapsar a qualquer instante ou a seca na Austrália, que provocou uma surpreendente chuva de morcegos mortos sobre os turistas da sua Golden Coast. Não há mês do ano em que faltem notícias sobre tragédias relacionadas com os destemperos climáticos ou catástrofes anunciadas. E, nestas últimas, avulta a que o Relatório do Painel Governamental para as Alterações Climáticas agora produziu, fazendo prever para 2100 uma elevada subida do nível dos mares, a acidificação dos oceanos, a redução do oxigénio e o aumento das temperaturas.
Bem podem alguns pedagogos insurgirem-se com a inquietação dos petizes por notícias tão assombrosas, que serão eles a terem de exigir a mudança dos principais paradigmas por que nos regemos. Mormente os derivados de um sistema económico que nos anda a matar aos poucos antes de nos aniquilar se, antes, não for ele próprio extinto.

terça-feira, outubro 01, 2019

Diário de Leituras: Entre as descobertas adolescentes e os balanços da velhice


Estamos na época alta em que saem romances e ensaios em catadupa nas livrarias francesas. Quase todos são títulos que não tardarão esquecidos, porque outros de igual qualidade (ou falta dela...) vêm-se-lhes substituir.
«La Chaleur» de Victor Jeslin é um deles, muito embora seja credível o retrato que traça de uma geração, que vive o fim da adolescência apenas com a preocupação de ver satisfeitas as urgências sexuais sem se inquietar com as grandes questões de um tempo, que já é o seu.
Durante dois dias os personagens procuram libertar-se do campo de férias onde passaram alguns dias, mas donde tardam a sair porque os progenitores demoram a virem-nos buscar. E sobra-lhes o cadáver de um deles, enterrado no areal, sem que tivessem esclarecido se o seu enforcamento tivera origem na intenção suicida ou num trágico acidente.
Uma conclusão fica exposta pela leitura de algumas das suas páginas: esses jovens, que servem de referência a Jeslin para escrever o romance, são para a minha geração uns autênticos alienígenas. Mesmo não havendo entre eles e nós os efeitos do que bem conhecemos no passado como um conflito de gerações.
Por cá a Porto Editora acaba de lançar «A Agenda Vermelha», cuja autora, Sofia Lundberg, é apresentada como estando a ser bastante reconhecida no seu país graças a este romance. A história é a de Doris, uma nonagenária de Estocolmo, que só tem como única parente uma sobrinha a residir em São Francisco, com quem comunica semanalmente por skype.
Para alimentar a conversa fala-lhe das pessoas cujo rasto mantivera na agenda vermelha oferecida pelo pai em miúda, quando lhe indicara as vantagens de as ir anotando à medida que fosse conhecendo. Ele fora o primeiro nome inscrito naquelas páginas, mas a sua memória perduraria sobretudo porque um acidente de trabalho causara-lhe um desfecho fatal, obrigando-a a sair da escola para servir como criada numa casa abastada. Depois amara platonicamente um pintor, fora modelo de alta costura em Paris e vira ser bombardeado o barco em que fugira da França ocupada.
Se o outro romance abordava vidas ainda quase todas por usufruir, em «A Agenda Vermelha» deparamo-nos com quem, sentindo iminente a morte, decide escrever um balanço de tudo que viveu, porventura para que essa história seja resgatada por Jenny e não se chegue a perder. Na prática, e através da escrita, a velha Doris ilude-se com a possibilidade de ser tão imortal quanto durem essas páginas.

Banda Sonora: a suite de Masquerade de Adam Khachaturian