Há um
Brasil que as telenovelas apagaram — ou tentaram apagar — por baixo de camadas
de melodrama fabricado e de beleza plastificada. O documentário Cinema Novo,
que Eryk Rocha rodou em 2016 sobre o movimento que o pai, Glauber Rocha, ajudou
a fundar nos anos 50 e 60, é um convite a regressar a esse outro Brasil,
autêntico e áspero e luminoso, que uma geração de cineastas soube filmar antes
que a indústria decidisse o que o país deveria parecer.
O prazer
de rever esses filmes é o prazer do reconhecimento: reconhecer atores e atrizes
brilhantes que muitas vezes tiveram de pactuar com o outro lado da produção
brasileira — a telenovela que pagava as contas e embotava o talento — mas que
quando dirigidos pelos cineastas do Cinema Novo revelavam uma verdade que o
formato televisivo sistematicamente recusava.
A câmara
na mão, a luz natural, os rostos sem maquilhagem de estúdio: era Rossellini a
falar para uns, Eisenstein para outros, e essa divisão interna entre o
neorrealismo italiano e o construtivismo soviético dava ao movimento uma tensão
produtiva que se sentia nos filmes.
Glauber
Rocha pertencia claramente a uma das margens desse rio — a mais tempestuosa, a
mais política, a mais disposta a incomodar. Que o filho tenha escolhido
documentar esse legado é um gesto de fidelidade que o cinema raramente se dá ao
trabalho de fazer. E que o tenha feito bem é razão suficiente para rever os
filmes que o inspiraram.

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