quinta-feira, julho 02, 2026

O Brasil Antes das Telenovelas

 


Há um Brasil que as telenovelas apagaram — ou tentaram apagar — por baixo de camadas de melodrama fabricado e de beleza plastificada. O documentário Cinema Novo, que Eryk Rocha rodou em 2016 sobre o movimento que o pai, Glauber Rocha, ajudou a fundar nos anos 50 e 60, é um convite a regressar a esse outro Brasil, autêntico e áspero e luminoso, que uma geração de cineastas soube filmar antes que a indústria decidisse o que o país deveria parecer.

O prazer de rever esses filmes é o prazer do reconhecimento: reconhecer atores e atrizes brilhantes que muitas vezes tiveram de pactuar com o outro lado da produção brasileira — a telenovela que pagava as contas e embotava o talento — mas que quando dirigidos pelos cineastas do Cinema Novo revelavam uma verdade que o formato televisivo sistematicamente recusava.

A câmara na mão, a luz natural, os rostos sem maquilhagem de estúdio: era Rossellini a falar para uns, Eisenstein para outros, e essa divisão interna entre o neorrealismo italiano e o construtivismo soviético dava ao movimento uma tensão produtiva que se sentia nos filmes.

Glauber Rocha pertencia claramente a uma das margens desse rio — a mais tempestuosa, a mais política, a mais disposta a incomodar. Que o filho tenha escolhido documentar esse legado é um gesto de fidelidade que o cinema raramente se dá ao trabalho de fazer. E que o tenha feito bem é razão suficiente para rever os filmes que o inspiraram.

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