quinta-feira, abril 02, 2026

A hipótese de uma convivência não disruptiva entre o humano e a IA

 

Há autores que chegam discretamente e, de repente, percebemos que já não podemos pensar o futuro sem eles. Ray Nayler é um desses casos. Depois de Protectorats, da novella Défense d’extinction e de La Montagne dans la mer, o novo romance, Où repose la hache?, confirma-o como um dos escritores a ter em conta na ficção política contemporânea. E interessa particularmente porque, ao contrário da maioria das distopias recentes, Nayler não se limita a denunciar o domínio das inteligências artificiais: tenta compreender como os humanos se adaptam a elas — e se essa adaptação pode ser algo mais do que submissão.

O romance imagina um mundo dividido em dois blocos. A Leste, uma Federação tirânica, governada por um presidente eleito para a vida — e para além dela, já que a sua consciência é transferida para corpos mais jovens sempre que necessário. A Oeste, uma falsa democracia onde os Estados são administrados por inteligências artificiais que prometem eficiência, bem‑estar e racionalização absoluta. A liberdade existe, mas apenas como fachada: a política foi entregue aos algoritmos, e os cidadãos habituaram‑se a confundir conforto com autonomia.

É neste cenário que uma antiga república da Federação decide mudar de campo e entregar o governo a uma IA ocidental. A transição desencadeia uma crise energética e uma série de dilemas morais que atravessam todo o romance. Nayler acompanha várias personagens — Nikolaï, o médico do tirano reprodutível; Lilia, responsável por uma tecnologia capaz de alterar o equilíbrio global; Nurlan, o parlamentar que observa a abdicação progressiva da responsabilidade política; e Zoïa, figura de resistência — e fá-lo com uma atenção rara às hesitações, às fraquezas, às tomadas de consciência que tornam os humanos tão imprevisíveis quanto vulneráveis.

O que interessa em Nayler é a recusa da oposição simplista entre máquinas opressoras e humanos oprimidos. Não há aqui o conforto moral de um novo Orwell mas uma paisagem de cinzentos onde a IA não é um monstro, mas uma

presença com a qual os humanos têm de aprender a viver — e que, por vezes, lhes devolve um espelho mais nítido do que gostariam. A verdadeira questão não é saber se a IA domina, mas se os humanos ainda sabem assumir responsabilidade num mundo onde delegaram tudo o que os incomoda.

E é aqui que o romance toca o ponto essencial: será possível uma comunhão não disruptiva entre o humano e a IA? Nayler não responde com dogmas. Mostra que a convivência é possível, mas exige algo que as sociedades contemporâneas parecem ter esquecido: a capacidade de escolher. A IA pode organizar, otimizar, prever — mas não pode decidir por nós aquilo que queremos ser. Quando os humanos abdicam dessa escolha, não é a IA que os oprime: são eles que se anulam.

A força do romance está na recusa de condenar as personagens a serem apenas vítimas de um mundo esmagador. Nayler deixa-lhes uma fresta, um gesto possível, uma margem de ação. A sua ficção é humanista: acredita que, mesmo num mundo saturado de tecnologia, a liberdade não desaparece — apenas se torna mais difícil de exercer.

No fim, Où repose la hache? deixa um raio de esperança ténue, mas real. Não porque a IA seja benevolente, mas porque os humanos, apesar de tudo, continuam capazes de se reinventar. E talvez seja essa a pergunta que o romance devolve, com uma serenidade inquietante: a verdadeira ameaça não será a IA, mas a crescente disposição para lhe entregar aquilo que deveríamos guardar para nós — a responsabilidade, o risco, o conflito, a escolha?

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