1. O
processo de paz entre as FARC e o governo colombiano foi um bom exemplo de como
duas partes ideologicamente separadas por mundividências opostas podem sentar‑se
à mesa e chegar a mínimos denominadores comuns capazes de estancar décadas de
violência política.
Um
documentário sobre a ação dos negociadores — não só nesse conflito, mas também
nos do Sudão, na antiga Jugoslávia ou no drama dos desaparecidos no México —
mostra o papel decisivo da diplomacia na redução do impacto da violência sobre
populações indefesas, sujeitas às vontades aleatórias de quem domina os
territórios onde vivem.
Duas
dificuldades maiores surgem sempre como pano de fundo: para muitos jovens, a
guerra é a atividade mais “promissora”, seja porque nela se alistam
voluntariamente, seja porque são forçados a fazê‑lo; e o nepotismo dos chefes
locais obriga quem vem de fora a prodígios de negociação, aceitando o que é
apenas razoável quando, racionalmente, o que se justificaria seria o bom — ou
mesmo o ótimo.
Paira
sempre a ameaça de que tudo possa ruir a qualquer momento. E, ao substituir a
dissuasão diplomática por ataques diretos contra os seus “inimigos de
estimação”, Trump colocou entre parêntesis a diplomacia enquanto ferramenta
essencial para a paz global.
2. Uma
reportagem sobre o Chaâbi devolve‑me os sentimentos distanciados que o
fado ainda hoje me suscita, apesar de José Mário Branco — e Camané, a ele
associado — ou Carlos do Carmo terem atenuado a antipatia da juventude, quando
o situava entre os três “éfes” tão acarinhados pelo Estado Novo.
Com a
música tradicional argelina passou‑se o contrário: sendo uma emanação popular
da antiga música clássica de origem andaluz, e sonoridade dominante nas
casbahs, desempenhou um papel determinante na luta anticolonial. Não só
forneceu os hinos agregadores das multidões em resistência, como facilitou
logisticamente a distribuição da propaganda independentista, graças aos passes
concedidos pelas autoridades coloniais aos músicos tradicionais.
Existem exemplos,
noutras latitudes, de músicas populares com participação ativa nas lutas
emancipadoras — sobretudo na América Latina — mas o Chaâbi envergonha o
fado naquilo em que este foi voz do que o autor de A Cantiga é uma Arma
descreveu como “o faduncho choradinho de tabernas e salões semeia só desalento,
misticismo e ilusões. Canto mole em letra dura nunca fez revoluções.”
Cinquenta
anos depois, vou ouvindo fado sem grande empatia, sendo‑me bem mais
interessante quando se mistura com outros estilos e se metamorfoseia noutra
coisa — como acontece com Ricardo Ribeiro, ora enlaçado com a música erudita na
colaboração com os Músicos do Tejo, ora em cumplicidade com o libanês Rabih
Abou‑Khalil.
3. O zydeco,
swing crioulo da Luisiana nascido da mistura entre negros e francófonos cajuns
relegados para as periferias do estado, funcionou como catarse para a
exploração sofrida por quem o praticava e divulgava — quase sempre operários
agrícolas mal pagos nos latifúndios locais.
Associando
instrumentos tão básicos como uma prancha de lavar roupa ao acordeão,
reivindicavam momentos de liberdade nos bailes movimentados, onde por instantes
se libertavam das humilhações impostas pela ordem social que os oprimia.
E, no
entanto, esse estilo musical nunca deu o passo natural de se transformar em
canção de intervenção. Mitigou frustrações, mas não as converteu naquilo que
seria expectável: ferramentas de consciencialização, motores de uma atitude que
recusasse a aceitação passiva da desordem estabelecida. A energia libertadora
do zydeco ficou circunscrita ao instante festivo, sem se prolongar numa
crítica organizada ou num impulso transformador.
4. No
documentário Nature: The Call of Reconciliation, o cineasta Yann Arthus‑Bertrand
começa por mostrar uma lagoa em forma de coração num mangal da Nova Caledónia.
A imagem, quase improvável, demonstra como a natureza pode ser particularmente
impressiva na sua beleza metafórica. Essa mesma capacidade de espanto está, por
exemplo, nos Pilares da Criação, tal como o telescópio James Webb os revelou ao
olhar para os confins do universo. E, perante tais visões, torna‑se evidente o
quanto, feitos de poeira estelar, somos minúsculos quando comparados com a
vastidão do Cosmos.
5. “O
importante é acreditar”, proclama o Stalker no final do filme de Tarkovski.
Acreditar que os nossos sonhos são realizáveis, mesmo quando não são acessíveis
naquele quarto onde tantos procuram a promessa de concretização. Porque,
dissipando‑se as ilusões dos caminhos que afinal são becos sem saída, não se
deve desistir do outro caminho — aquele que pode abrir‑se para as avenidas
largas de que falava Salvador Allende no último discurso dirigido aos seus
concidadãos, minutos antes de morrer.
Acreditar,
aqui, não é ingenuidade: é fidelidade à possibilidade de futuro, mesmo quando
tudo à volta parece ruir. É o gesto final que resiste à violência, à resignação
e ao colapso — e que mantém aberta a hipótese de um mundo diferente.

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