terça-feira, março 03, 2026

O importante é acreditar

 

1. O processo de paz entre as FARC e o governo colombiano foi um bom exemplo de como duas partes ideologicamente separadas por mundividências opostas podem sentar‑se à mesa e chegar a mínimos denominadores comuns capazes de estancar décadas de violência política.

Um documentário sobre a ação dos negociadores — não só nesse conflito, mas também nos do Sudão, na antiga Jugoslávia ou no drama dos desaparecidos no México — mostra o papel decisivo da diplomacia na redução do impacto da violência sobre populações indefesas, sujeitas às vontades aleatórias de quem domina os territórios onde vivem.

Duas dificuldades maiores surgem sempre como pano de fundo: para muitos jovens, a guerra é a atividade mais “promissora”, seja porque nela se alistam voluntariamente, seja porque são forçados a fazê‑lo; e o nepotismo dos chefes locais obriga quem vem de fora a prodígios de negociação, aceitando o que é apenas razoável quando, racionalmente, o que se justificaria seria o bom — ou mesmo o ótimo.

Paira sempre a ameaça de que tudo possa ruir a qualquer momento. E, ao substituir a dissuasão diplomática por ataques diretos contra os seus “inimigos de estimação”, Trump colocou entre parêntesis a diplomacia enquanto ferramenta essencial para a paz global.

2. Uma reportagem sobre o Chaâbi devolve‑me os sentimentos distanciados que o fado ainda hoje me suscita, apesar de José Mário Branco — e Camané, a ele associado — ou Carlos do Carmo terem atenuado a antipatia da juventude, quando o situava entre os três “éfes” tão acarinhados pelo Estado Novo.

Com a música tradicional argelina passou‑se o contrário: sendo uma emanação popular da antiga música clássica de origem andaluz, e sonoridade dominante nas casbahs, desempenhou um papel determinante na luta anticolonial. Não só forneceu os hinos agregadores das multidões em resistência, como facilitou logisticamente a distribuição da propaganda independentista, graças aos passes concedidos pelas autoridades coloniais aos músicos tradicionais.

Existem exemplos, noutras latitudes, de músicas populares com participação ativa nas lutas emancipadoras — sobretudo na América Latina — mas o Chaâbi envergonha o fado naquilo em que este foi voz do que o autor de A Cantiga é uma Arma descreveu como “o faduncho choradinho de tabernas e salões semeia só desalento, misticismo e ilusões. Canto mole em letra dura nunca fez revoluções.”

Cinquenta anos depois, vou ouvindo fado sem grande empatia, sendo‑me bem mais interessante quando se mistura com outros estilos e se metamorfoseia noutra coisa — como acontece com Ricardo Ribeiro, ora enlaçado com a música erudita na colaboração com os Músicos do Tejo, ora em cumplicidade com o libanês Rabih Abou‑Khalil.

3. O zydeco, swing crioulo da Luisiana nascido da mistura entre negros e francófonos cajuns relegados para as periferias do estado, funcionou como catarse para a exploração sofrida por quem o praticava e divulgava — quase sempre operários agrícolas mal pagos nos latifúndios locais.

Associando instrumentos tão básicos como uma prancha de lavar roupa ao acordeão, reivindicavam momentos de liberdade nos bailes movimentados, onde por instantes se libertavam das humilhações impostas pela ordem social que os oprimia.

E, no entanto, esse estilo musical nunca deu o passo natural de se transformar em canção de intervenção. Mitigou frustrações, mas não as converteu naquilo que seria expectável: ferramentas de consciencialização, motores de uma atitude que recusasse a aceitação passiva da desordem estabelecida. A energia libertadora do zydeco ficou circunscrita ao instante festivo, sem se prolongar numa crítica organizada ou num impulso transformador.

4. No documentário Nature: The Call of Reconciliation, o cineasta Yann Arthus‑Bertrand começa por mostrar uma lagoa em forma de coração num mangal da Nova Caledónia. A imagem, quase improvável, demonstra como a natureza pode ser particularmente impressiva na sua beleza metafórica. Essa mesma capacidade de espanto está, por exemplo, nos Pilares da Criação, tal como o telescópio James Webb os revelou ao olhar para os confins do universo. E, perante tais visões, torna‑se evidente o quanto, feitos de poeira estelar, somos minúsculos quando comparados com a vastidão do Cosmos.

nsciência deveria bastar para nos levar a prezar a sustentabilidade deste planeta azul, cuja biosfera dá sinais de colapso, como o demonstram as sucessivas catástrofes naturais. A cada nova tempestade, incêndio ou seca extrema, o aviso repete‑se: a Terra não é infinita, nem indestrutível, e a margem de erro estreita‑se. Por isso se torna ainda mais inquietante ver como certos interesses — e as figuras políticas que lhes dão voz — persistem no negacionismo climático, recusando a evidência científica e bloqueando qualquer esforço de reconciliação com o planeta que habitamos.

5. “O importante é acreditar”, proclama o Stalker no final do filme de Tarkovski. Acreditar que os nossos sonhos são realizáveis, mesmo quando não são acessíveis naquele quarto onde tantos procuram a promessa de concretização. Porque, dissipando‑se as ilusões dos caminhos que afinal são becos sem saída, não se deve desistir do outro caminho — aquele que pode abrir‑se para as avenidas largas de que falava Salvador Allende no último discurso dirigido aos seus concidadãos, minutos antes de morrer.

Acreditar, aqui, não é ingenuidade: é fidelidade à possibilidade de futuro, mesmo quando tudo à volta parece ruir. É o gesto final que resiste à violência, à resignação e ao colapso — e que mantém aberta a hipótese de um mundo diferente.