segunda-feira, maio 06, 2024

Apontamentos Cinéfilos (VIII): Paixão, Margarida Gil, 2010

 

O tema tinha motivos para me entusiasmar: pode recriar-se o desejo adolescente de um amor fusional? E havia duas cauções complementares: a de ter Maria Velho da Costa a colaborar nos diálogos e dois muito estimáveis atores  - Ana Brandão e Carloto Cotta - a protagonizarem uma história de sequestro capaz de dar explicação plausível para o síndrome de Estocolmo.

Confesso ter gostado de Paixão sem me entusiasmar o suficiente para o reservar no compartimento cerebral das obras memoráveis. Porque, como pressupõe Luísa Costa Gomes, tudo nele é inesperado, nada sucedendo de acordo com os estereótipos a que os modelos mainstream nos habituaram e, por isso, nos vemos abalados com o imperativo de pensarmos pela nossa cabeça (olha, que chatice!).

Será que o problema com o filme não está nele - obra mais do que meritória! - mas na preguiça mental imposta por horas e horas a ver coisas bem menos interessantes?

Essa é uma das questões sugeridas por este tempo presente, que dispersa-nos a atenção por tantos estímulos em simultâneo, que não dedicamos a necessária concentração para quanto mereceria ponderação demorada. Porque a história desta cantora lírica a viver um luto recente tem a ver com o amor, a ausência do(s) Outro(s) e com a falta de explicação para tudo quanto torna imprevisíveis os dias e os condiciona de uma forma, que não tem reversibilidade tangível. E também sobre o vazio interior de quem, vendo-se involuntário foco da obsessão alheia, nela julga descobrir a resposta para dar sentido ao que não andava a ter até então. 

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