domingo, novembro 05, 2023

O Pio dos Mochos, Diana Antunes, 2023

 

Não conhecia o conto de Soeiro Pereira Gomes em que se baseou Raquel Palermo para criar o argumento do filme de Diana Antunes, mas ele cuida de um tema sensível na principal força de oposição ao Estado Novo: o que fazer com quem não aguentou a tortura da Pide e contribuiu para mais enfraquecer a organização clandestina. Mas, como tudo se passa em 1933, quando o regime salazarista ainda está a consolidar-se, Tomé, o jovem operário de Miranda do Corvo, que caiu  nas malhas da repressão, acaba por ser readmitido na luta operária pelo direito à greve negado pela nova Constituição. Algo que, depois, perante tantas derrotas, tornar-se-ia improvável.

Integrado no projeto da produtora Ukbar Filmes, que deu oportunidade a dez realizadoras para assinarem o seu primeiro filme, O Pio dos Mochos vale, sobretudo, pela abordagem da extrema miséria em que viviam os operários transmontanos na década de 30, e como era promíscua a relação entre os patrões e a ditadura. Desta se servindo para levar a exploração até à mais odiosa dimensão.

sexta-feira, novembro 03, 2023

A Resistência ao serviço de Sua Majestade, Cécile Coolen, 2023

 

Antiga montadora, premiada em numerosos festivais internacionais, Cécile Coolen assina aqui o primeiro filme enquanto realizadora, aliando a sua experiência especializada com a paixão pela História. Consegue, por isso, adequar a sua proposta à intenção original da série em que se insere, Les Coulisses de l’Histoire, que busca uma versão original de acontecimentos supostamente bem conhecidos.

Aqui, graças a um rico manancial de arquivos de que se serviu, e do testemunho de muitos familiares dos nela envolvidos, aborda-se a notável aventura dos participantes no Serviço de Operações Especiais (SOE), criado em julho de 1940 por decisão de Churchill para, com sabotagens e outras ações espetaculares, lançar o caos nos países ocupados pelos nazis.

Integraram-no homens e mulheres das mais díspares condições sociais e culturais, mas dotados de capacidades físicas e inteligência bastantes para concretizarem esses objetivos. Daí tanto provirem da aristocracia britânica, como da delinquência, ora diplomatas exilados em Londres, ora outros refugiados aí chegados em 1940.

Os militares desaprovaram essas ações e os primeiros fracassos pareceram dar-lhes razão: um dos enviados para a Bélgica viu o paraquedas desviado para a Alemanha onde aterrou num campo de prisioneiros. Noutro, destinado à Dinamarca, o paraquedas não abriu e os alemães recolheram muitas informações comprometedoras na documentação de que se fazia acompanhar. Mas, após esses inícios pífios, os sucessos não tardarão e o SOE até acabará por colaborar com Tito na Jugoslávia apesar do feroz anticomunismo do primeiro-ministro inglês.

A francesa Lise de Baissac, o belga André Wendelen ou o dinamarquês Flemming Muus foram heróis esquecidos, que o filme consegue resgatar desse injusto desconhecimento.

quinta-feira, novembro 02, 2023

I Am Really the Underground, Ricardo Clara Couto, 2018

 

Não é poeta, que tenha merecido a minha atenção e creio até nem ter dado pela sua morte - no dia de Natal de 1997 - porque creio até nem estar em Portugal na altura. Mas o documentário de Ricardo Clara Couto, com argumento de Nuno Costa Santos, deu-me estímulo bastante para lhe ir procurar os versos.

Não tanto pelo individualismo de quem parece ter começado a definhar numa longa depressão, quando saiu da Frelimo, e se viu expulso de Moçambique, a terra que sentia como a da sua identidade, mesmo sabendo-a país dos outros, como sublinhou no título do seu primeiro livro. Nem tão pouco pela reivindicação de se sentir underground, indiferente a modas e a ideologias. Esta seria, aliás, uma boa razão para não merecer esse interesse.

Ao contrário de uma certa direita, que o incensa, e por isso surge em tom apologético no documentário (Pedro Mexia, Francisco José Viegas), Knopfli também para ela se estaria a marimbar se fosse vivo. Antes continuando a cultivar versos claros no que,  sem peias, pretendia fixar. E é essa a grande razão para os intentar descobrir.

No centenário de Victoria de los Angeles

 

Ouvir rádio continua a ser um prazer quando o poder da imagem tende a subalterniza-la, senão mesmo a pô-la em causa. E a Antena 2 tem-me acompanhado nas últimas décadas com grandes momentos de fruição. Mormente, quando ainda estava profissionalmente ativo e me acompanhava nos engarrafamentos matinais e do fim da tarde, ao ir ou voltar do emprego. Ou durante o dia, quando me deslocava para as reuniões, que me ocupavam boa parte dos dias.

Ontem, no sempre interessante Império dos Sentidos, comemorou-se devidamente o centenário de Victoria de los Angeles, que comecei por conhecer nos anos 80, quando ganhava a vida como oficial do paquete Funchal. O fascínio por essa voz poderosa e, que não titubeava nas articulações mais difíceis dos libretos, foi ponto de partida para transitar da música rock ou pop, ainda aquela que mais escutava na altura. Depois, por nunca me ter instruído sobre a música erudita, foi na Antena 2, que busquei essa educação, transformando-me num melómano mais ou menos informado.

No dia do centenário da soprano que não tenho dúvidas em equiparar às melhores da sua arte, Callas incluída, cabe aqui prestar tributo a uma estação pública, que tanto e tem valido! 

quarta-feira, novembro 01, 2023

E se o nosso universo nasceu de um Grande Salto?

 

Pensa-se que, ao entrar num buraco negro, a ação da gravidade faz com que a matéria estique e alongue na direção do seu centro. Até ser estilhaçada numa espécie de “espaguetização”. Se existir uma singularidade essa matéria passa a integrá-la nela desaparecendo para sempre.

Tese alternativa propõe que essa compressão, para dela emergir um novo universo, não aconteça. Porque esses universos já estão contidos no buraco negro como poderá ser o caso deste em que vivemos. Quem defende esta hipótese alternativa baseia-se na teoria de Einstein e no seu desenvolvimento ulterior por muitos outros físicos.

Seja uma, seja outra, ou não seja nenhuma delas, a verdade é que os buracos negros têm alimentado a fantasia dos autores de ficção científica. Em 2009 o filme Star Trek  de J.J. Abrams fez do buraco negro o maior e mais perigoso dos vilões. Cinco anos depois, com Interstellar, Christopher Nolan tentou especular sobre como poderá ser o interior de um buraco negro.

No debate científico atual, a quantidade de matéria e energia acumulada num buraco negro pode concentrar-se num ínfimo grão, que acabará por explodir. Na teoria do Big Bang defende-se que essa matéria e energia desaparece e decompõe-se para sempre ao passar por uma pequena abertura que corresponde à tal Singularidade, infinitamente pesada e infinitamente pequena.

Apesar de matematicamente exequível esta hipótese continua a ser fisicamente insatisfatória. Daí haver - caso de Nikodem Poplawski - quem porfie nos modelos sem Singularidade, considerando-a inviável pelo fenómeno de torção a que a matéria absorvida pelo buraco negro se sujeita e dentro dele se acelera. O que a impede de alcançar esse suposto ponto de singularidade.

O spin correspondente a essa torção acaba por agir como força antigravitacional causando o que designa como o Big Bounce ou Grande Salto. O nosso Big Bang mais não seria do que uma destes eventos criadores, que excluem a possibilidade de um momento inicial para tudo quanto existe. Neste caso o buraco negro constituiria uma espécie de portal para outros universos.

Porque não pode ser demonstrada pela observação esta tese é entendida como interessante e matematicamente exequível, mas sem conseguir-se comprová-la no estado atual do conhecimento. Como, por outro lado, não há meios para refutá-la.

Há, porém, quem tente esse impossível investigando o período inicial do nosso universo, que chega aos radiotelescópios na forma de um eco correspondente ao momento imediatamente a seguir à explosão inicial, a chamada fase da inflação. Medir essas ondas gravitacionais poderá dar resposta a esta polarização entre os defensores do Big Bang e os do Big Bounce, mas muitos anos faltarão para que esse objetivo seja tangível...

segunda-feira, outubro 30, 2023

O Belo Adormecido, Lídia Jorge, 2004

 

Este tem sido um ano farto em prémios literários para Lídia Jorge, que não espantará se, nos próximos dias, somar aos de âmbito nacional um dos principais conhecidos em França por esta altura.

Coincidiria assim com a presente leitura de um dos seus títulos menos conhecidos por agregar contos que ela própria subestima quanto à sua importância relativamente aos romances. Esses textos mais curtos serviriam de exercícios entre os projetos de maior envergadura, quase para só manter a agilidade da escrita em histórias, que não mereceriam empenho mais demorado. Curiosamente, pensando nos da coletânea O Belo Adormecido, podemos constatar a aposta em personagens mais arriscados, porque em permanente exercício de equilíbrio numa corda bamba, que os ameaça mergulhar no vazio.

No que dá título ao livro há a atriz, que prepara a prevista interpretação teatral de Orlando de Virginia Woolf e, por isso, julga encontrar o devido sossego num hotel distante, despojado de clientes por essa não ser a estação alta de veraneio. Inesperada lhe surge, porém, a relação ambígua com um rapaz, ainda quase adolescente, por ali encontrado na companhia de um punhado de homens, que o têm como seu brinquedo. Até o fazerem desaparecer  sabe-se lá por que motivo! Ou porventura ele lhes escapando, embora os deixem envoltos num comprometimento, que os atemoriza. O voyeurismo e a tentação erótica são os temas deste conto com características aparentadas ao género policial.

Em As Três Mulheres Sagradas somos instados a conhecer as circunstâncias do martírio sádico a que uma bem intencionada católica se sujeita, quando promove uma campanha contra o aborto nas praias algarvias e se faz acompanhar de duas companheiras tão ou mais fanáticas do que ela e de uma adolescente grávida a quem tinham convencido a levar a gestação da criança até ao fim. Apesar de acabar sozinha e vilipendiada, Vera Brandão conjetura existir um sentido divino na sua terrível experiência, que não lhe faz vacilar as convicções.

O tema da tentação volta em Assobio na Noite em que um professor universitário encontra uma antiga aluna durante a vilegiatura estival e entra em dispendioso conluio com o empregado da receção do hotel, que lhe serve de informador, para conseguir um encontro clandestino com ela antes de regressarem às rotineiras vidas. E, uma vez mais, a distância entre o desejo e a concretização, revela-se frustrantemente insuperável.

O martírio - dos que trabalham e não recebem - é o tema de Miss Beijo e da proposta dada por uma miúda de catorze anos, que não enjeita usar a mais ousada das estratégias para ser paga (mesmo parcialmente!) do que lhe é devido. Razão suficiente para o irmão lhe replicar a determinação indo à obra donde fora escorraçado sem pagamento e deixar exangue o encarregado, que se comportara como vilão sem escrúpulos. Tudo presenciado por um(a) narrador(a) com poderes divinos apenas decidido a dar testemunho do sucedido sem em nada nele intervir.

sábado, outubro 28, 2023

O faroeste de Georgia

 

Foi na primeira estadia em Nova Iorque, em meados dos anos 70: From the Faraway, Nearby (1937) foi o quadro exposto no MET, que deu-me a vontade de melhor conhecer a obra de Georgia O’Keeffee, pintora  pouco valorizada na errada opinião em como - apesar de Hopper e Pollock, ou demais expressionistas abstratos norte-americanos - a arte mais interessante continuava a ser a europeia. 

Não ajudara decerto o terem-me aparecido até então mais informações sobre os seus amores e desamores com o fotógrafo e galerista Alfred Stieglitz do que sobre a influência nela exercida por uma mãe de carácter forte capaz de libertar-se da condição de agricultora do Wisconsin para desejar melhor futuro às filhas, que pôs a estudar em pensionatos protestantes. Ou sobre as muitas dúvidas sobre o desejo de ser pintora, que lhe surgira aos 12 anos, e se vira condicionado pela falta de recursos e doenças, que ia contraindo, mormente o sarampo, que lhe chegou a afetar seriamente a visão. Ou, ainda, como a puritana Nova Iorque de 1946 se escandalizara, quando Stieglitz inaugurou uma exposição em que figuravam muitos dos seus nus. Ou, enfim, sobre os seus longos passeios a pé, a cavalo ou de carro pelo Novo México, em torno do seu rancho fantasma (The Ghost Ranch), quando para ali se mudara depois de mais uma das traições conjugais de Stieglitz, que se metera com Dorothy, a assistente que tinha sobre ela a vantagem de ser vinte anos mais nova.

Quer pintando as flores com uma expressividade, que nos incita a olhá-las com a atenção que quase nunca lhes dedicamos, quer dando testemunho de paisagens, que aprendeu a pintar por si mesma, de nada lhe servindo as opções tomadas por outros pintores apostados anteriormente em vertê-las para as telas, passei a dar outra atenção às suas obras embora voltassem a ser raras em que as pude ver noutro suporte que não os dos livros de arte.

Solitária por natureza, Georgia não enjeitou o convívio com a sociedade cosmopolita da cidade que nunca dorme - até por ter adquirido de Alfred os conhecimentos bastantes para valorizar e negociar as suas obras - e passou a constituir referência maior de uma cultura de que se tornou inegável ícone... 

quinta-feira, outubro 26, 2023

Nazim Hikmet, um poeta silenciado

 

Difícil conhecer a obra de Nazim Hikmet, o poeta turco, que viveu entre 1902 e 1963, de quem Pete Seeger cantou alguns poemas. Mesmo nas plataformas mais conhecidas da net o seu Paysages Humains surge com a anotação de “esgotado”. E, no entanto, trata-se de obra muito elogiada por, no misto de poesia, romance e crónicas, dar conta das pessoas simples do seu país como se fossem celebridades já que Hikmet entendia serem interessantes todas as vidas só dependendo da perspetiva escolhida para as abordar.

Filho de um paxá de Alepo, Nazim chegou a Istambul aos cinco anos e seria inspirado para a poesia pelo amante da mãe, um dos escritores turcos mais importantes do início do século XX. Mas, depressa se emanciparia dessa tutela, optando por uma escrita vanguardista, influenciada pela vanguarda bolchevique, que o levaria a visitar Moscovo em 1922.

Comunista convicto depressa seria preso por um regime kemalista cada vez mais autoritário, que compreendeu a mensagem revolucionária de um romance do autor, que apelava explicitamente à revolta contra os ditadores. Aos 30 anos viu-se condenado à morte, mas a pena foi comutada: seria nos doze anos passados no cárcere de Bursa, que escreveu essas paisagens humanas tão celebradas pelo conhecido trovador norte-americano, também ele convencido de que we shall overcome.

Libertado em 1950, Hikmet optou pelo exílio nunca mais voltando ao seu país e já sem aí ver a sua obra autorizada a livre circulação da sua obra.

quarta-feira, outubro 25, 2023

O fascínio da Singularidade

 

Para esclarecerem as muitas dúvidas sobre os buracos negros, os astrofísicos recorrem aos radiotelescópios mais potentes, distribuídos por todo o planeta e a funcionarem em rede. Assim obtém a transcrição em imagens da matéria quente, que circunda os invisíveis buracos e parecem figuras demoníacas capazes de devorarem partes do nosso universo semelhantes a gigantescos aspiradores a sugarem as estrelas mais próximas. Imagem falsa, que não coincide com a realidade, porque eles já contém uma incomensurável quantidade de matéria submetida a uma intensa gravitação, e por isso incapaz de emitir luz ou outro tipo de informação sobre a sua existência.

Na Teoria da Relatividade Einstein já previa a existência de buracos negros ao reconhecer que a matéria é capaz de encurvar o espaço e o tempo, levando tudo à volta a agir de acordo com essa conformidade. Em certas condições abria-se uma fissura nesse tecido do espaço e do tempo, abaixo da qual as leis da Física deixavam de ser satisfeitas.

Defende-se a existência de quatro tipos de buracos negros:  os minúsculos, os estelares (por resultaram da implosão de estrelas), os intermédios e os supermaciços. Um destes últimos , o Sagittarius A, está mesmo no centro da nossa galáxia e tem um diâmetro equivalente ao que separa a Terra do Sol.

Seria tentador enviar uma nave espacial nessa direção para melhor compreender o que sucederia quando nele penetrasse. Subsiste um problema incontornável no imediato: mesmo que viajasse à velocidade da luz essa nave levaria 26 mil anos a chegar ao objetivo. Teríamos então a possibilidade de ver um anel de fogo em torno do buraco negro, feito de matéria proveniente da galáxia, que assumiriam estranhos fenómenos óticos.  Mergulhar-se-ia então na Singularidade...

terça-feira, outubro 24, 2023

Zainul Abedin, um artista consciente da luta de classes

 

Começou por ser o pintor do Bramaputra, rio que atravessa o Bangladesh antes de desaguar no Ganges. Nascido numa família da elite colonial, já que o pai era polícia ao serviço da coroa britânica, Zainul Abedin iria evoluir para as intenções independentistas de acordo com a ideologia marxista, que o nortearia na segunda metade da sua vida.

O ponto de viragem aconteceu com a grande fome durante a Segunda Guerra Mundial, quando os britânicos açambarcaram todos os cereais do país para alimentarem os seus soldados na luta contra os japoneses no Extremo Oriente.

Os desenhos desse período expressam a miséria extrema de uma população, que fugiu dos campos para as cidades em busca da sobrevivência e não a pôde encontrar. O sofrimento do povo, que também soube ser o de todos os outros do mundo, consolidou-se-lhe na consciência e a natureza, que fora tema privilegiado dos seus anteriores quadros paisagistas, passaram a incluir o elemento humano com preponderância crescente até culminar no Combate, o seu quadro mais conhecido, datado de 1976, ano em que morreu aos sessenta e um anos, cinco depois de ver o seu país libertar-se da tutela paquistanesa.

Embora o Bangladesh já não tenha grandes semelhanças com a República Popular, que se anunciou na constituição, que Abedin foi convidado a ilustrar, ele continua reconhecido como artista mais importante do seu país, com obras suas a ilustrarem selos e as notas emitidas pelo seu banco nacional. 

domingo, outubro 22, 2023

A impiedosa luta entre duas ideologias rivais

 

Posso ter conhecimento aprofundado de muito do que neles são mostrados, mas alguns documentários são-me particularmente gratos como “revisão da matéria dada” com a vantagem de ma darem a reconhecer em imagens até agora ignoradas. Ademais somam-se testemunhos de analistas ou participantes nos acontecimentos, que conferem rostos a ideias e factos até então cingidos à sua abstrata noção.

Tomo por exemplo dois filmes agora apreciados: Uma Guerra Fria Muito Animada de Joel Farges (2020) e Conceição Matos—Coragem hoje, Abraços amanhã  de Edgar Feldman e Paulo Guerra (2021).

No primeiro caso não é que seja nova a revelação da guerra de imagens entre a Hollywood de Walt Disney (tão crápula no seu anticomunismo, que foi ativo denunciante de colaboradores seus a quem despediu sem escrúpulo apesar de tanto o terem ajudado a construir o seu império!) e os regimes estabelecidos no leste europeu onde preponderaram filmes de animação vocacionados para privilegiar valores como a solidariedade, a amizade e a justiça social, tão opostos aos do Capitão América e outros super-heróis “especializados” em derrotarem os vilões vermelhos.

Na história da humanidade nunca se publicaram ou filmaram tantas histórias de animação destinadas a influenciar as mentes infantis e juvenis. Porque se uns quiseram evitar o desiderato ocorrido em 1989, outros quiseram-no forçar através da manipulação dos que o concretizaram de um e do outro lado do muro de Berlim.

Aparentemente os paladinos do lucro e da liberdade dos mercados parecem ter vencido, mas será que demoraremos muito a compreender que uma humanidade sem valores está condenada ao apocalipse de que as mudanças climáticas são apenas uma das anunciadas manifestações?

No filme sobre a resistente antifascista, que começámos por descobrir atrás de Álvaro Cunhal nas fotografias do regresso de exilados a Portugal em 30 de abril de 1974, conhecemos o relato na primeira pessoa de quem viveu a miséria extrema dos operários e camponeses durante os salazarentos anos do pós-guerra e, por isso, aderiu ao Partido Comunista.

A violência brutal a que se sujeitou nas prisões da Pide com expressiva recordação de como se comportavam os torturadores  deveria ser de divulgação obrigatória a todos os jovens, que olham para esse passado e o julgam pré-histórico. E, por isso, não se defendem da atração por quem nele se inspira e não teria qualquer escrúpulo em replicar. Razão para considerar este e o outro documentário como ferramentas pedagógicas muito pertinentes. 

sábado, outubro 21, 2023

O Olhar, o Pincel e o Cinematógrafo

Chuva, Vapor e Velocidade, o quadro que William Turner pintou em 1844 para representar um comboio a transitar pela recém-inaugurada ponte de Maidenhead, serviu de exemplo lapidar a Stefan Cornic para ilustrar a ideia de um olhar cinematográfico, que não nasceu com a invenção do cinematografo e a sua primeira apresentação pública em 1895, porque os pintores do século anterior já o estabeleciam como cânone. Mormente por Monet que, em 1877, criaria a série de quadros na estação de Saint Lazare.

Degas ou Caillebotte aprimorariam essa definição de enquadramento sobre o que sucedia à sua volta, subalternizando a até então prioritária perspetiva. O aleatório, o acidental também passaria a integrar o que surgia na tela e a que os fotógrafos também dariam crescente expressão. Tudo passara a ser observável como se fosse um espetáculo.

L’Oeil, le Pinceau et le Cinématographe é um documentário que convida a equacionar a forma como olhamos para os quadros, as fotografias e os filmes, e como eles se interligaram para representarem a realidade que, na viragem do século XIX para o seguinte, mudava aceleradamente. A tal ponto que, a partir dos balões capazes de sobrevoarem as cidades, ou de estruturas como a Torre Eiffel, seria a visão a partir de cima do existente, que se possibilitaria.

Há quem considere que, ao permitir o desfile das imagens em marcha atrás, a única verdadeira inovação do cinematógrafo terá sido essa possibilidade de ver o tempo a retroceder. Porque, nos primeiros anos, os cineastas reproduziram as composições concebidas pelos pintores e fotógrafos: Alice Guy ou Ferdinand Zecca conceberam os filmes como fotogramas isolados, que correspondiam a outros tantos quadros ou fotografias.

Seria Griffith a iniciar a construção de uma gramática visual, que emanciparia o cinema das referências até então omnipresentes, aprofundando o conceito de olhar coletivo do que era proposto como espetáculo ou obra artística.