quarta-feira, janeiro 18, 2023

A mais bela das belas

 

É este o título francês de La donna più bella del mondo, que Robert Z. Leonard realizou em 1955 e a ARTE permite rever à hora do almoço, mesmo sujeitando os cinéfilos à dobragem dos diálogos. Mas para quem tem saudades de Gina Lollobrigida e a quer rever, como forma de a homenagear a pretexto do seu desaparecimento com provectos 95 anos, aqui fica a oportunidade, complementada pela possibilidade de a ela se somar Vittorio Gassman, no papel de príncipe russo encantado pela sua beleza e um ainda desconhecido Mario Bava como diretor de fotografia.

A história passa-se no ambiente dos cabarés da Belle Époque, quando uma rapariga descobre ter voz a menos para suceder à mãe como estrela canora de um desses emblemáticos estabelecimentos de então. Mas com ambição, persistência e estudo lá conseguirá cumprir o seu sonho. Pelo meio há um duelo de espadas entre ela e uma rival, que é tido como antológico.

Ao iniciar a noite o mesmo canal oferece-nos Vincent Lindon (um dos poucos atores, que nos leva a ver tudo quanto cauciona com a sua interpretação) em L’Apparition de Xavier Giannoli. O tema é o da noviça de uma aldeia alpina, que diz ter encontrado a Virgem Maria enquanto se passeava solitariamente pelas montanhas. E do encontro com um jornalista enviado pelo Vaticano para aferir a veracidade do relato, ao mesmo tempo que vive o luto por um amigo tombado num atentado bombista no Médio Oriente.

Embora alimente a ambiguidade quanto à veracidade do sucedido com a rapariga, o filme focaliza-se na crescente cumplicidade entre Anna e Jacques Mayano, ambos ligados pela necessidade de respostas para as suas sofridas solidões.

Ao fim da noite, ainda há para ver Les fleurs amères, primeira longa-metragem do belga Olivier Meys depois de vários documentários sobre a China. Na passagem para a ficção conta com a colaboração da admirável Xi Qi no papel da jovem chinesa enleada numa rede de prostituição, quando vem para a Europa em busca de trabalho capaz de garantir um melhor nível de vida para o marido e o filho de oito anos, deixados em casa. E, em vez da solidão, que poderia resultar das suas frustrações, é na cumplicidade com as companheiras, que arranja energias para não perder de vista o seu objetivo inicial...

Três filmes que abordam, cada um á sua maneira, outras tantas formas de resiliência!

domingo, janeiro 15, 2023

LSD e Philip Roth em versão melodramática

 

1. Francamente não sei que pensar, mas olhei com interesse para as experiências hospitalares em curso em Berlim e Mannheim, que parecem garantir resultados terapêuticos muito promissores no tratamento das depressões e na superação de traumas recalcados graças aos compostos extraídos dos cogumelos mágicos tornados famosos nos anos 60 por garantirem experiências alucinogénias.

Num documentário recente assinado por Mirjana Momirovic e Caroline Haertel - Les psychédéliques, des drogues qui soignent ? -, revelam-se as virtudes da psilocibina, nome científico do LSD, sem omitir as reservas de gente muito respeitada na classe médica, que não poupa nas palavras para alertar quanto aos efeitos secundários dessa solução. Por ora o assunto continua envolto em intensa controvérsia.

2. Quinze anos depois dediquei quase duas horas a Elegia, a adaptação que Isabel Coitxet fez de O Animal Moribundo de Philip Roth. E, como de costume, nas adaptações cinematográficas de romances do escritor nova-iorquino o resultado deixa sempre a desejar, mesmo contando com Ben Kingsley, Penelope Criz ou Dennis Hopper para o caucionar com as suas interpretações.

David Kepesh é um professor universitário, espécie de alter ego do autor, incapaz de se fixar sentimentalmente em alguém, até ao dia em que uma jovem aluna cubana vem habitar-lhe o leito. E a sua beleza torna-se-lhe obsessiva, fazendo-o comportar-se como sabe, de antemão, ser errado. Por isso perde Consuelo até ao dia em que a relação entre ambos vira melodrama piegas, que é a pior estratégia para abordar uma trama pela qual Roth pretendera aprofundar a sua própria relação com o envelhecimento.

Única vantagem da experiência: a vontade de revisitar a prosa do escritor cujas leituras me deram invariável gozo, mesmo dando alguma razão a algumas furibundas feministas, que o classificavam de intolerável misógino.

Piratas do Oceano Índico

Se outra virtude não tivesse, La véritable histoire des pirates de Stéphane Bégoin, valeria logo à partida pelo facto de nos demonstrar que a pirataria dos séculos XVII e XVIII não se resumiu ao mar das Caraíbas e do Golfo do México, porque teve igual importância no oceano Índico, onde os piratas e flibusteiros procuraram capturar as muitas riquezas trazidas da Ásia pelos barcos das diversas Companhias da Índias Orientais.

O propósito desta produção torna-se mais ambicioso quando, a pretexto das investigações arqueológicas no Speaker, navio afundado em 7 de janeiro de 1702 na barreira de coral em torno da Ilha Maurícia, a equipa liderada pelo francês Jean Soulat pretende esclarecer como era a vida desses piratas quando, em terra, repousavam das suas expedições e dividiam em partes iguais o produto do saque (só o capitão, eleito pelos tripulantes, tinha direito ao dobro!), garantindo ao mesmo tempo a sua comercialização junto de negociantes, que alimentavam o marcado negro das capitais europeias.

A extensão dessa investigação para outro navio pirata afundado ao largo de Madagáscar só vem corroborar as teses já formuladas na ilha mais a leste. 

 

sexta-feira, janeiro 13, 2023

Um José e uma Beatriz que me apareceram no meio do caminho

 

Primeiro romance neste ano mal começado: “Um Cão no Meio do Caminho” de Isabela Figueiredo. E, como sucedeu com “A Gorda”, foi grata experiência, ao agregar à vasta galeria de personagens que me têm acompanhado desde idos de 60, esse José Viriato e essa Beatriz tão dissonantes dos vizinhos no ambiente suburbano desta margem sul da capital, ao mesmo tempo dela tão próxima na geografia e tão distante nas aparências cosmopolitas.

Um é respigador numa sociedade, que desperdiça muito do que a apetência consumista torna obsoleto e tem ainda utilidade. A outra acumula-o com a obsessão de quem o imagina garantia da sobrevivência num futuro, que nunca justificará essa fobia. Num e noutro a reivindicação da hipótese de felicidade com contornos radicalmente diferentes dos que os olham, os criticam, como gente na fronteira da marginalidade.

A outra margem, a que está defronte das luzes da cidade, assume, nessa opção de vida, outra forma de se exprimir.

Há nos romances de Isabela a apetência por uma utopia em que o racismo e as desigualdades sociais não se revelem tão gritantes. Singulares, os personagens parecem nada fazer para abreviar a sua concretização mas, diferentes dos demais, acabam por revelar a possibilidade de se sobreviver e, até ser feliz, no viver em contracorrente com o que tende a ser o “normal”. Sendo assim uma forma de irreverência apenas a um passo da revolta pela qual um outro mundo possa vir a ser possível.

Por tudo isso comecei o ano literário da melhor maneira e cá fico à espera dos novos personagens que a autora me continue a trazer ao conhecimento...

terça-feira, janeiro 10, 2023

O que bom foi e tão complicado se tornou

 

1. As coincidências inexplicáveis levam-me a, quase ao mesmo tempo, olhar para as celebrações a Joan Baez nas redes sociais a pretexto do seu aniversário, e para a abordagem na Arte ao período proselitista de Bob Dylan num documentário, que lembra a sua trilogia cristã: Slow Train Coming (1979), Saved (1980) e Shot of Love (1981).

Pese embora os seus ainda muitos entusiastas deixei de os considerar relevantes nos idos de 70, quando uma se colou às campanhas da CIA a reboque da tragédia dos boat people da Indochina e o outro se dissociou de mui respeitáveis companhias (mormente de Pete Seeger) para renegar a mudança para tempos, que pareceria ter anunciado. As celebrações e concertos mais recentes mais não são do que folclóricos ecos de um passado em que foram, de facto, importantes, mas depressa se apearam de uma composição, que prosseguiu nos carris em direções para que deixaram de ter qualquer influência.

2. Em trinta anos desapareceram quatrocentos milhões de pássaros dos céus europeus. Vinte por cento dos que se contavam nos finais do século passado.

A causa: o desaparecimento dos insetos que os alimentavam, dizimados pelos pesticidas aplicados nas monoculturas dos campos continentais. Razão que leva os especialistas a defenderem a necessidade de metade dos campos vocacionarem-se para a agricultura biológica. O que parece objetivo ainda muito distante, quando a indústria agroalimentar continua a apostar em produções crescentes e aos custos mais baratos possíveis.

3. Não é que sejam significativas as novidades colhidas de Au dehors, o documentário que Johanna Sunder-Plassmann e Tama Tobias-Macht rodaram com a colaboração de quatro sem abrigo na cidade alemã de Colónia. Quem são, como ali chegaram, quais as suas expetativas - tudo temas previsíveis nos oitenta minutos em que o maior efeito é o de conferirem rostos a uma realidade, que nos interpela nas nossas próprias cidades. 

segunda-feira, janeiro 09, 2023

As angústias de um bígamo

 

Se for outra a apetência para gerir o displicente tempo livre, The Bigamist, realizado por Ida Lupino em 1953, pode revelar-se melhor alternativa, porquanto, não se tratando de um policial tão ao gosto do início dessa década, segue-lhe a metodologia, quando um homem permite a investigação sobre o seu passado a pretexto da adoção de uma criança, que a esposa pretende levar por diante depois de fracassada a hipótese de ser ela a garantir progenitura própria.

O problema de Harry (Edmond O’Brien) é o de manter uma clandestina duplicidade amorosa, tendo Eve (Joan Fontaine) como esposa em San Francisco e Phyllis em Los Angeles, nenhuma delas suspeitando da existência da outra.

O excelente Edmund Gwenn interpreta esse Mr. Jordan, que se incumbe da investigação sobre a probidade moral do candidato a pai da criança a adotar por Eve, e aproxima-se da verdade, que tanto atemoriza Harry. Porque estamos numa sociedade hipócrita em que o adultério é tolerado, se não mesmo aceite, mas criminaliza a bigamia.

Ida Lupino, que não perdia a oportunidade para explorar discurso feminista e encarna Phyllis, constrói o argumento em torno da duplicidade de um homem condenado a vertiginoso turbilhão dramático de que se viu involuntário responsável. 

Quando Victor Mature quase conquistou Roma!

 

Que deliciosa sensação a de mergulhar no mais esplendoroso kitsch enquanto exemplo do tipo de divertimento vivido pelas populações quando, antes da vulgarização da televisão, enchiam imensas salas de cinema ao fim de semana.

Hannibal, produção italiana de 1959, realizada por Edgar Ulmer e Carlo Ludovico Bragaglia, foi um dos mais ambiciosos pepluns dessa época e contou com Victor Mature para interpretar o papel do chefe cartaginês, que atravessou os Alpes com os seus elefantes e, só por insensato erro estratégico, não vergou Roma no século III a.C. na segunda Guerra Púnica.

Impressionam sobretudo os números dos figurantes envolvidos nas filmagens - mais de vinte mil! Além dos sempre admiráveis elefantes e da bela de serviço, essa Rita Gam, que já se divorciara de Sidney Lumet e voltaria a dar de falar como madrinha de casamento de Grace Kelly.

Ah! E também por ali andam Mario Girotti e Carlo Pedersoli, depois conhecidos como Terence Hill e Bud Spencer, quando andaram a faturar no Trinitá e suas sequelas.

O que significa tratar-se de um entretenimento curioso para dias sem muito que fazer. 

domingo, janeiro 08, 2023

Dois momentos do Cinema americano dos anos 90

 

Foi em 1998 que conhecemos Scarlett Johansson naquele que é o mais fordiano filme de Robert Redford: O Encantador de Cavalos.

Não que o grande mestre dos westerns tenha cultivado o melodrama como esteio dramático, mas a inspiração decorre dos grandes espaços do Montana por onde cirandam cavalos a cujos ouvidos um domador-curador, Tom Booker (o mesmo Redford na dupla função de ator-realizador), sopra palavras capazes de lhes aliviarem os traumas.

É na crença de ver a filha recuperada daquele que um acidente lhe provocara, levando-lhe uma perna e a melhor amiga, que Annie (Kristin Scott– Thomas) recorre a tal personagem numa intriga com todos os ingredientes para deixar confortados os corações mais piegas.

Há a oportunidade de rever o filme na ARTE ao início desta tarde. Como outra alternativa possível pode-se ver o Dossier Pelicano à hora do jantar no mesmo canal, para recordar como um certo cinema dito liberal pretendia manter-se vivo no outro lado do Atlântico apesar da geração Spielberg apostar no crescente consumo das pipocas.

Alan Pakula servia-se de um thriller de John Grisham para pôr a Julia Roberts a sofrer as passas do Algarve para escapar a uma tenebrosa conspiração destinada a impor uma nova maioria no Supremo Tribunal dos Estados Unidos, feito que Trump viria a conseguir com maior eficácia e ligeireza.

Denzel Washington servia de comparsa à que era então uma das mais bem pagas atrizes de Holywood, e o malogrado Sam Shepard depressa desaparecia de cena, levado pela explosão do seu carro.

Da última vez que revi o filme continuei a reagir com agrado ao seu fluxo narrativo...

Literatura que envelheceu mal...

 

Não há muito tempo peguei num dos menos conhecidos romances de Jules Verne - O Conde de Chanteleine - e depressa o abandonei por insuportavelmente reacionário. A misoginia do costume surgia desde as primeiras páginas mas, pior ainda, incomodou-me a imagem heroica dos aristocratas, que tentavam sobreviver clandestinamente na França revolucionária do chamado período do “Terror”, perante seguidores de Robespierre apresentados como gente sinistra, neles convergindo o pior do que a índole humana possa albergar.

Sabido que é como a História aceita a versão nela pretendida pelos vencedores, não é difícil imaginar o que gerações de antijacobinos terão querido  assacar aos protagonistas dessa época com o propósito de valorizar a ideologia mais conservadora. Aquilo que também Jules Verne se comprazia a fazer nesse indigesto romance.

Curiosa, entretanto, a abordagem de um dos mais conhecidos programas do canal franco-alemão ARTE a outro título pouco divulgado do autor: A Casa a Vapor, incluído no lote de romances por ele planeados para as suas Viagens Extraordinárias. E embora o não tenha lido desconfio da suposta simpatia do autor pelos militantes anticolonialistas na Índia do século XIX, diretamente oriundos da fracassada revolta dos Cipaios. Particularmente por Nana Sahib, que os indianos olham como uma espécie de D. Sebastião por ter desaparecido sem deixar rasto depois de uma vida de lutas contra os britânicos e a quem Verne dá morte no epílogo da derradeira batalha contra o protagonista, o coronel Munro, que lhe matara a companheira e se vira enviuvado durante o cerco de Lucknow em 1857.

Luta até à morte entre dois homens, ela resolve-se no reencontro, muitos anos depois, quando o inglês aceita passear no subcontinente asiático entre Calcutá e Gaya a bordo de um elefante a vapor, que um amigo inventara com propósitos turísticos.

Até me posso enganar, mas custa-me a crer que o racista Verne se tenha eximido de enfatizar o heroísmo de Munro e de conotar Sahib com os piores defeitos. Mas isso sou eu a assumir o preconceito que, quem li com agrado na juventude, depois me suscitou.