quarta-feira, dezembro 21, 2022

Um cão, um gato e a avidez por hambúrgueres

 

1. Se Isabela Figueiredo confessa ter criado, conhecido, compreendido, aceitado e sentido os personagens, que protagonizam Um Cão no meio do Caminho, também a tal nos insta enquanto seus leitores. Nesta fase de descoberta do romance - quase a abeirar a primeira centena de páginas! - damos com o cinquentão José Viriato a beber um café e a mirar quem o rodeia a partir da esplanada da Margem Sul, que lhe dá acesso ao palco dos comportamentos suburbanos já presentes em A Gorda.

Para além do fascínio suscitado por um homem sem outra ambição, que não a da plena liberdade, e o de uma mulher disposta a conservar as imagens de tudo quanto viu na vida sem nela verdadeiramente mergulhar - embora comece por surpreender-nos como responsável, mais ou menos voluntária, pelo empurrão para o abismo de quem inculpou por esse contínuo entre parêntesis - existe a curiosidade por uma ambiência, que é a nossa neste lado do rio. Perspetiva-se que concluamos o ano de 2022 com a sensação de, literariamente, termos atingido um patamar bem alto!

2. Murakami é incrivelmente eficaz na forma como nos prende às histórias e faz desejá-las conhecer de fio a pavio, porque uma situação engendra, de imediato a curiosidade de saber como dela se livrará o protagonista, quase sempre seu narrador.

Em O Pássaro de Corda e as Mulheres das Terças-feiras há esse lado de twilight zone no entediante quotidiano de um desempregado apostado em procurar o desaparecido gato num baldio inquietante, porque existem casas abandonadas, tabuletas a anunciarem cães buliçosos e uma azougada lolita a assediá-lo com as promessas, igualmente, escutadas dos telefonemas eróticos, que não param de o desestabilizar. Em O Segundo Assalto à Padaria  há a inexplicável fome, que leva um jovem casal a sair de madrugada para assaltar uma hamburgueria, que lhe serve de espaço de afirmação para a irrequietude condizente com a insatisfação pelo recente compromisso com os comportamentos conformes à condição pequeno-burguesa. 

terça-feira, dezembro 20, 2022

Miolo: Um romance avassalador

 

Para um leitor voraz, que vai folheando lentamente as páginas de vários livros ao mesmo tempo enquanto modo de conviver demoradamente com mais e diferenciada gente, essas personagens podem tornar-se tão interessantes quanto as que, no dia-a-dia, consigo convivem. Às vezes até chegam a deixar saudades como acontecem agora com as do romance de Siri Hustvedt enfim dado por concluído: Aquilo que eu Amei. O Washington Post classificou-o como avassalador e é-o de facto, porventura o que melhor recordação me deixará de entre os muitos que venho lendo neste ano de 2022.

É certo que, no final, a autora deixa o narrador, Leo, à beira da cegueira e a ter à distância as mulheres - Erica, Violet, Lucille - que lhe terão sido importantes na já provecta vida. Mas o que irá suceder a Mark, o filho do melhor amigo, que demonstra uma total incapacidade para se emocionar, na exata e inversa proporção para se travestir (no sentido próprio e figurado) em diversas personagens?

Filho de substituição depois do que, ele e Erica, tinham gerado e, depois, perdido aos onze anos num trágico acidente, esse rapaz irá associar-se a um mediático artista plástico, Terry Giles, cuja obra escabrosa vai muito além da de Damien Hirst, cuja vaca mergulhada em formol tanto me indignou quando a vi pela primeira vez. Porque nesse muito promovido artista nova-iorquino o assassinato também acaba por ser parte integrante do processo criativo, pondo em questão os escrúpulos a serem ou não impostos a quem o quer sem barreiras.

Livro sobre o que é verdadeiramente arte - e a de Bill, pai de Mark não é menos singular numa via conceptual, feita sobretudo de caixas e do que no seu interior se esconde! - fica, sobretudo, a incapacidade em conseguir nos que se amam a mudança para o que deles se desejaria colher. Em suma, o romance da mulher de Paul Auster é bem demonstrativo de nela reconhecer um talento equiparado, se não mesmo superior, ao do famoso consorte. 

segunda-feira, dezembro 19, 2022

Coisas vistas: Quando a estranheza não chega a entranhar-se

 

Será o nudismo um modo de comportamento social, que facilita a sensação de liberdade? Ou a felicidade poderá resultar de nada de importante se desejar?

Quaisquer das questões, explicitas na primeira longa-metragem do belga Tim Mielants - Patrick, 2019 -, em nada coincide com o que penso, mas pus-me a ver um filme em que gente disforme, fisicamente nada atraente, se bamboleia sem roupas e consegui interessar-me até ao fim por o sentir diferente de quase tudo quanto o mainstream nos oferece habitualmente.

Começa com uma cena vista de grande altura com alguém a fazer de homem morto na superfície de um lago de águas transparentes. O zoom dá-nos a conhecer o protagonista, um quase quarentão com características autistas, que tudo repara no campo de nudismo gerido pelo pai e, nas horas livres, cria peças de mobiliário com um design assombrosamente belo.

A morte do progenitor e a perda de um martelo vão condicionar Patrick na gestão do parque, que passa a ser exclusivamente seu, eximindo-se do confronto com os clientes onde se afirmam as piores características de uma sociedade, que a dispensa dos trajes quotidianos não inibe de manter a cupidez ou a bisbilhotice. Armado em pífio detetive ele procura identificar o ladrão da peça de ferramenta, indo de fracasso em fracasso até acabar preso, suspeito de um crime com ela cometido na distante capital.

Sempre na corda bamba de resvalar para o excesso sórdido ou para o desinteresse, o filme lá se conclui num happy end, que deixa o desconforto de se o sentir inverosímil. Mas, entretanto, passou-se hora e meia na dúvida quanto a algum préstimo dele nos sobrar... 

sábado, dezembro 17, 2022

Miolo: The life goes on

 

Na mesma semana em que foi anunciado um avanço tecnológico relacionado com a fusão nuclear e a possibilidade da humanidade ver-se dotada de energia limpa e quase inesgotável, não faltam outros exemplos de hipóteses capazes de desmentirem os riscos de distopia climática tão evidenciados pelas inundações que, mais impressionantes e de custos tão imediatos, secundarizaram aquela notícia.

Acabei de ver um documentário sobre o projeto do suíço Raphäel Domjan, que vai além do já ensaiado e testado pelo seu compatriota Bertrand Piccard: a criação de uma aeronave movida a energia solar, desta feita capaz de alcançar altitudes estratosféricas. O que está em causa é a capacidade de, mais do que voar por exclusiva propulsão dos painéis solares montados nas asas, recorrer a essa energia para a exploração do nosso sistema planetário.

Lamento serem inovações só potenciadas em algo de verdadeiramente útil, num futuro que me será inacessível. Mas confirma o que nem sempre avaliamos na devida dimensão: connosco enquanto vivermos, mas depois quando já cá não estivermos, the life goes on...

 

Inacessível mas, por falta de energia, é também uma das viagens, que me fica por fazer apesar de a ter “vivido” pelo livro de Chatwin sobre a região patagónica ou pelo filme de Walter Salles sobre as viagens de motocicleta de Che Guevara e de Alberto Granado: os mais de cinco mil quilómetros da ruta nacional 40 na Argentina, de preferência de norte para sul, partindo das Salinas Grandes e desembocando nos glaciares da Terra do Fogo.

É certo que posso congratular-me com o ter feito esse percurso ao longo da costa desde Buenos Aires e La Plata até Ushuaia, escalando portos sucessivos de que Puerto Madryn terá sido um dos mais memoráveis. Mas, por muito que a costa argentina seja lindíssima como escapar ao fascínio de um território selvagem por onde Luís Sepúlveda também fez cirandar alguns dos seus personagens?

Gostando tanto de conduzir horas e horas a fio, nessa quase paragem no espaço e no tempo em que um deleitado vazio se instala na mente, muito teria apreciado esse percurso por onde gerações de índios transitaram antes dos espanhóis ali os virem chacinar em busca de um El Dorado, que lhes ficaria sempre inacessível. Porque, na prática, ele estava ali à frente dos cúpidos olhos sob a  forma de uma beleza capaz de cortar o fôlego a quem melhor aprecia o azul do gelo ancestral ou o cinza das paisagens lunares do que o ilusório dourado das riquezas voláteis...

sexta-feira, dezembro 16, 2022

Coisas vistas: A estranheza de se defender uma coisa e o seu contrário

 

É daquelas situações difíceis de entender: como foi possível a Werner Hochbaum rodar Irmãos em 1929, sobre as onze semanas de greve dos estivadores de Hamburgo no inverno de 1896/7 e ser acusado de propagandista do nazismo dez anos depois pelos Aliados?

Por pouca consciência ideológica? Difícil de crer em quem começava o filme com a frase inicial do Manifesto do Partido Comunista de Marx e Engels.

Por oportunismo e imperativo de sobrevivência no contexto de um regime, que não possibilitava grandes alternativas a quem o quisesse contestar? Talvez, mas morrendo em Potsdam no ano a seguir ao do fim da guerra, Hochbaum não teve a oportunidade dos colegas na UFA “reciclados” no pós-guerra como tarimbeiros ao serviço dos seus novos patrões que, no caso da Alemanha Ocidental, até eram os mesmos.

Apresentado com pompa e circunstância na mais recente Berlinale, o cuidado restauro de Irmãos suscita mais do que curiosidade: existe efetivo interesse estético nesta obra, que teve o arrojo de sair dos estúdios e optar por cenários naturais, ao mesmo tempo que recorria a atores não profissionais para explorar uma história de luta de classes personificada em dois irmãos, um ativo mobilizador da greve por melhores salários, o outro esbirro do corpo policial destacado para a reprimir...

Olhando para um tão poderoso exemplo do cinema proletário alemão pré-nazismo surpreenderá sempre sabê-lo criado por quem depois a ele viria a aderir sem aparente escrúpulo! 

terça-feira, dezembro 13, 2022

Coisas Vistas: Um albatroz que perde a capacidade de voar

 

No poema de Baudelaire a grande e elegante ave, que costuma ver-se planar nos céus, perdia a capacidade de voar por obra e graça dos humores dos homens.

Assim sucede com Laurent, o comandante de uma brigada de polícias em Étretat no norte da França, cuja vida relativamente tranquila, passa ser condicionada por uma tragédia pessoal. Algo anunciado logo na primeira cena de Albatros, que Xavier Beauvois rodou em 2020: antes do genérico um casal de noivos está a tirar fotografias com vista para as célebres falésias da praia e quase lhes cai em cima o corpo de um suicida. Assim a modos de nos convencer da forte probabilidade de tudo se poder virar do avesso, quando menos esperamos que tal suceda.

Para Laurent o momento de viragem ocorre quando tenta evitar um amigo agricultor de se suicidar - farto dos parcos rendimentos e das continuas chatices com as inspeções sanitárias! - e é ele próprio a matá-lo com um tiro desajeitado.

Se o filme tivera até aí uma vertente quase documental sobre o dia-a-dia de um polícia na Normandia, passa a abordar o complexo de culpa do involuntário assassino numa segunda parte menos interessante do que a primeira, ademais concluída com um epílogo algo risível. Mas até chegarmos a essa cena com um vestido de noiva à mistura - e a interligar-se com a tal cena inicial! - Laurent irá passar por um complicado processo de redenção, traduzido numa viagem tormentosa por mar, que quase o leva aos abismos definitivos.

Não deixando de ser interessante a forma como Beauvois dá notícia das dificuldades por que passam os agricultores franceses, muitos deles a suicidarem-se quando o desespero não parece ter qualquer contraponto de esperança, Albatros sugere potencial que, infelizmente, se perdeu algures pelo caminho... 

segunda-feira, dezembro 12, 2022

MIOLO: O que aqui não se publica: Pete Fromm e Yesar Kemal

 

12 de dezembro de 2022

1. Foi um livro que Peter Fromm levou quinze anos a apurar até conseguir publicá-lo em 1993 e assim converter-se num dos nomes maiores da Escola do Montana, o filão de diversos escritores assumidamente vocacionados para o natural writing, ou seja para a descrição detalhada  do seu relacionamento com a Natureza selvagem das Montanhas Rochosas.

Fromm já era então ranger num Parque Natural, mas essa vocação, reforçada por uma licenciatura na Universidade do Montana, surgira inesperadamente no distante inverno de 1978, quando aceitara emprego para, durante sete meses, mergulhar solitariamente, na vastidão das florestas na fronteira com o Idaho e reportar o comportamento dos salmões. Tendo por companhia o seu cão, Fromm foi escrevendo um diário que um curso de escrita criativa, frequentado posteriormente, sugeriria ter valor literário. As crónicas de Indian Creek revelam como um jovem de hábitos urbanos aprende à sua custa como sobreviver nas rigorosas condições do inverno na região. Experiência brutal, que não lhe acentuam os valores ecologistas, reforçados por cenas que o indignam como o do fútil assassinato de um puma por caçadores apenas motivados pelo prazer de matarem. Essa é cena particularmente intensa no livro, que espelha página a página o rol de emoções capazes de lhe amadurecerem a personalidade e transformarem-no no escritor que viria depois a revelar-se.

2. Um dos centenários literários do próximo ano é o do nascimento de Yasar Kemal, decerto sujeito à indiferença do regime de Erdogan, que nele identifica valores absolutamente contrários aos seus. Em primeiro lugar, porque ele sempre se orgulhou da origem curda e nunca enjeitou a oportunidade para denunciar a modernidade trazida pela República de Atatürk, que acelerou - e de que maneira! - as desigualdades sociais e de rendimentos entre os latifundiários e os camponeses da sua planície natal, a de Çukurova.

Foi contra as injustiças e a opressão, que Kemal escreveu poemas e romances, que lhe valeram muitas prisões à conta das suas supostas simpatias comunistas. Sobre a dura existência dos mais pobres conseguiu instilar um sopro épico, que o identificaram num estilo muito seu.

A mudança para Istambul, em 1951, não lhe moderaram a vontade em ajudar ao surgimento de um mundo bem diferente, tornando-se também porta-voz dos defensores da vida selvagem insurgindo-se contra o abate de golfinhos nas costas turcas para deles se aproveitar industrialmente a gordura. Uma das muitas razões para, sete anos passados sobre a sua morte, não merecer grande relevância por um poder político, sobre que sempre teceu veementes críticas. 

sexta-feira, dezembro 09, 2022

Coisas vistas: Gente intranquila

 

1. Recordamo-lo, sobretudo, pelos 78 planos distribuídos por 45 segundos. Os da morte de Marion no duche do motel Bates, que mostrou aos espectadores de cinema o potencial do crime como entretenimento.

Logo após o ambicioso Intriga Internacional, Alfred Hitchcock quis demonstrar mais uma versão da tese de como podemos ser vitimados aleatoriamente por ameaças quase sem explicação e de que Os Pássaros fora exemplo lapidar. Mas Psico ia mais longe nesse intento, porque mostrava que o inesperado poderia suceder por trás das fachadas tranquilas das casas pequeno-burguesas. Precisamente onde buscavam refúgio muitos dos que se assustavam com a violência de uma América incendiada pelas lutas em favor dos Direitos Civis.

Há quem defenda que a cena do duche pressentiu a iminente explosão das tensões acumuladas numa sociedade, que passara os anos 50 a iludir-se com a utopia do pleno emprego, do regresso das mulheres ao lar, compensadas pelas facilidades conseguidas com os eletrodomésticos e distraída com número crescente de canais na televisão a cores.

Era essa sensação de falsa segurança, que Hitchcock vinha perturbar...

2. Em 1969 Thelonious Monk concluiu em Paris uma bem sucedida digressão por vários palcos europeus e deu uma entrevista à televisão francesa. Perante um apresentador incapaz de ir além da lógica estereotipada da sua curiosidade, o pianista deu-lhe completamente a volta com respostas lacónicas e entretendo-se, sobretudo, a improvar nas teclas, verdadeiramente a melhor forma de expressar o seu pensamento.

Perdidas nos arquivos, essas imagens foram objeto de nova montagem por Alain Gomis num documentário intitulado Rewind and Play, estreado na edição da Berlinale deste ano. E é documento delicioso para quem tem por Monk a admiração rendida de o reconhecer como um dos grandes jazzmen do século XX.

3Tenho seguido com muito interesse a filmografia de Cláudia Varejão desde as suas curtas-metragens até às duas anteriores longas-metragens: Ama-san  e Amor Fati. Razão para ver Lobo e Cão, seja porque os Açores são lindos e a realizadora enuncia um propósito ambicioso: “Parti para este filme com o desejo de retratar lugares que me interessam: as heranças dos papéis sociais e familiares e as questões em torno da identidade de género”. 



terça-feira, dezembro 06, 2022

Coisas vistas: A eutanásia como tema de um filme recente

 

Agora que se anda a discutir novamente a eutanásia a propósito da lei em vias de aprovar na Assembleia da República, e com mais uma demonstração de inábil jogo de cintura do líder da oposição para escapar cobardemente à declarada afirmação sobre o que pensa do tema, um filme como  Blackbird de Roger Michell, estreado nos ecrãs lusos no ano transato, sabe a bem pouco. Apesar de ter Sarandon, Neill, Winslet ou Wasikowska no elenco, e aproveitar fotograficamente a paisagem da praia onde terá sido parcialmente rodada, acaba por ser uma espécie de pólvora seca num tipo de abordagem, que justificaria outro estrondo e focalização de alvo. Conjeturo o que faria Ingmar Bergman com este tema de uma família reunida num breve fim-de-semana para despedir-se da matriarca, apostada na voluntária eutanásia por ter a esclerose lateral amiotrófica a entrar na sua fase mais consternadora.

Apesar de remake de um filme realizado pelo dinamarquês Bille August, o argumento fundamenta-se nas tensões entre as várias personagens, mas é incapaz de as levar às dimensões paroxísticas dos mais interessantes títulos do realizador sueco. Os segredos sugerem a probabilidade de justificarem-se picos de emoções, mas, afinal, elas depressa afrouxam com uma verosimilhança difícil de aceitar. E sempre nessa sucessão tépida de muitas cenas concebidas na lógica de só se justificarem para prolongarem a história até à dimensão de longa-metragem, porque o conteúdo em si despachava-se em proposta mais curta.

Manifestamente conhecem-se melhores opções cinematográficas para facilitar debates animados sobre o tema em causa: Mar Adentro continua a ser uma das alternativas incontornáveis para quem está interessado em atiçar a chama de uma mudança civilizacional, que tarda em cumprir-se, porque os enfeudados aos preconceitos religiosos continuam a considerar-se legitimados no direito de imporem aos outros aquilo que pensam, por muito que contrariem os valores de quem vê na eutanásia a solução para pôr termo ao sofrimento de quem se sente definitivamente cansado da vida.

domingo, dezembro 04, 2022

Miolo: questões em torno da mentira

 

23 de novembro de 2023

Tenho gostado das entrevistas com o novo secretário-geral do PCP, que me parece genuinamente convencido do muito que diz. Mas incomoda-me - tal qual já sucedia com o antecessor! - quando invoca algo “com toda a franqueza” por ser um instrumento básico do discurso de quem se apresta a não o ser.

Segundo um documentário da alemã Birgit Tanner muito tem avançado a ciência a respeito da deteção das mentiras naquilo que dizem as figuras públicas. A análise das microexpressões do rosto de Lance Armstrong quando, em entrevistas de 2005, procurava descartar o carácter fraudulento das vitórias na Volta à França em Bicicleta, confirmam os estudos científicos sobre não se limitarem a desviar o olhar do interlocutor os que estão em vias de os quererem enganar. Hoje em dia o recurso a esses instrumentos de análise comportamental depressa revelam as mentiras patológicas de um Donald Trump ou as quase inocentes petas das crianças de cinco anos, ainda incipientes nessa “arte”, mas depressa nela versados quando chegam aos seis.

E a etologia demonstrou que as mentiras não se restringem aos humanos: os drongos da Namíbia “ajudam” os suricatas, prevenindo-os da iminente chegada dos seus predadores, usando essa malícia para lhes ficarem com as presas prestes a serem digeridas. Ou experiências com porcos da Nova Zelândia também revelam quanto a mentira funciona como forma de dar a volta aos requisitos de uma sociedade hierarquicamente estruturada.

Na prática todos mentem, segundo os cientistas, pois nem os mais honestos se eximem de o fazerem pelo menos duas vezes por dia. Até porque vivemos na época da pós verdade em que a fronteira entre o fidedigno e o que o não é tende a diluir-se muito por obra e graça das redes sociais. E a amígdala do sistema límbico tende a atenuar a sua ação quando arriscamos ficar com a consciência pesada.

Os cientistas até defendem o seu papel na evolução da espécie humana, ao privilegiar os mais inteligentes em detrimento dos menos capacitados em discernirem o real do fictício. Daí podermos desculpar os breves pecadilhos de Paulo Raimundo tendo em conta quem nos julgarmos para lhe atirar com uma pedra?