domingo, junho 05, 2022

Ao Sabor da Ambição, Wong Kar Wai, 1988

 

Doze anos antes da obra que dele prefiro -  In the Mood for Love - Disponível para Amar - Wong Kar Wai estreou-se na realização com este filme de gangsters aparentemente convencional, porque respeitador do código de um género pródigo no cinema produzido em Hong Kong, embora seja igualmente evidente a influência de Mean Streets, que Martin Scorcese realizara quinze anos antes, levando alguns críticos a considerarem ter aqui um não assumido remake.

Wah, o protagonista, nunca ascendeu a grande estatuto na tríade a que pertence, mas revela-se farto do vórtice de violência e incerteza em que vê transformados os dias. Daí que, quando a prima Ah Ngor chega de Landau para aferir o estado dos pulmões, afetados por indefinido mal, começa por comprovar-lhe as muitas horas de sono necessárias para se refazer das emoções e dos excessos de álcool da véspera.

O encontro entre os dois possibilita aquilo que será comum nos filmes posteriores do realizador: a hipótese de redenção na forma de uma vida alternativa conjeturável em sonhos, mas dificilmente, ou mesmo impossível, de se concretizar. Sobretudo quando ao amor pela prima, contrapõe-se em Wah o dever de lealdade para com o sócio, Fly, que multiplica episódios de irresponsabilidade na pressa de ganhar o reconhecimento e tornar-se alguém para todos quantos quer impressionar, mormente a mãe que o despreza.

Entre a noite de Kowloon, filmada em grandes angulares, que tudo deforma e relativiza, e a Landau diurna onde a natureza se faz presente numa espécie de paraíso prometido, que se converterá na perdida utopia, Wong Kar Wai enfatizará a inevitabilidade da almejada transição.

O brio, o talento, o conhecimento dos códigos e, sobretudo, a presença de Maggie Cheung, que se tornará na atriz mais constante na filmografia do realizador, tornam este filme numa experiência interessante. Até por nele se explicitar um dos mais memoráveis beijos da História do Cinema.

sexta-feira, junho 03, 2022

Os mitos sexistas de alguns historiadores

 

A sepultura de um importante chefe viking do século X a.C. acolhia afinal o esqueleto de uma mulher. As pinturas rupestres também terão tido o contributo de artistas femininas. Eis as conclusões, que a História está a recolher de estudos científicos avançados, que desmentem a conceção sexista sobre o papel das mulheres nas sociedades do passado e a denunciam como resultado dos preconceitos dos que se apressaram a olhar para os despojos arqueológicos pelo filtro da sua condição de género.

Afinal o papel das mulheres nas sociedades primitivas foi mais respeitado do que se julgava porque, se os caçadores traziam a tão desejada proteína animal, a maior percentagem dos alimentos então consumidos resultavam da sua atividade de coletoras.

Só com a Revolução do Neolítico, que implicou a sedentarização e a maior permanência das mulheres em casa é que a submissão aos homens começou a estabelecer-se ganhando particular relevância a partir da Revolução Industrial, quando tendeu a cristalizar-se. Darwin, por exemplo, via essa sujeição como resultado da evolução da espécie humana.

Numa altura em que a importância do papel social e económico das mulheres volta a equilibrar-se com o dos homens a História da Humanidade tem de ser reescrita para despojar-se das ideias falsas, que nela abundam.

O sono e os grandes acidentes das décadas recentes

 

Invariavelmente os inquéritos de opinião em quem vê a reforma a aproximar-se coincide na resposta mais comum quando se trata de saber o que mudarão nas suas vidas: passarão a dormir mais! Pelo menos na intenção, porque fica por demonstrar se depois o conseguirão de facto.

Algo, no entanto, é comprovado nos estudos dedicados ao sono da população ativa: os acidentes rodoviários acontecem em percentagem significativa por os condutores adormecerem ao volante, mormente ao início do dia, quando os neurónios tardam a sair da letargia do sono acabado de interromper. E não é propriamente por acaso que alguns dos grandes acidentes das últimas décadas - nas centrais de Three Mile Island ou Chernobyl, no complexo químico de Bhopal ou no naufrágio do Exxon Valdez - terem ocorrido de madrugada, quando, quem estava de turno nessas instalações, ter o cérebro a carburar a um ritmo menos vigilante. 

quinta-feira, junho 02, 2022

Nas Entranhas da Hammer

 

Pode haver alguma relação entre a coroação de Isabel II, que os monárquicos ingleses agora comemoram, e o terror propagado pelos estúdios da Hammer a partir desses anos 50? O horror de que é feita a galeria de gente, que povoa os palácios de Westminster ou de Windsor, não terá justificada ligação com os muitos dráculas e personagens afins interpretados por Christopher Lee, Vincent Price ou Peter Cushing?

Existe, de facto, uma dualidade causa-efeito entre essas realidades tão distintas: a cerimónia real foi transmitida pela então recente televisão britânica contribuindo para o sucesso desta, retirando multidões das salas de cinema e levando os estúdios cinematográficos à falência.

Foi para a tentar evitar que os Bray Studios se reinventaram com um tipo de histórias capazes de manterem um fluxo de espectadores minimamente rentável para adiar o acelerado fecho da maioria das salas de cinema. A fórmula para o conseguir foi o recurso ao sexo e à morte a cores.

Mesmo que realizado de forma muito sumária como resistir a Raquel Welch em bikini a escapar à ameaça de terríveis dinossauros ou a transformação explicita de pessoas normais em seres monstruosos? Para não falar da devolução de dignidade a personagens - Frankenstein ou Drácula - nascidos na literatura europeia e que os estúdios de Hollywood, sobretudo a Universal, andavam a caricaturar em comédias com Abbott e Costello. Ademais, a ambiência gótica contribuía para conferir estilo identitário a um tipo de filmes a que o sotaque british acrescentava credibilidade.

Os críticos sempre zurziram nesses filmes, mas o custo contido inerente aos critérios do cinema independente, garantiu-lhes a rentabilidade. Até que Alfred Hitchcock estreou Psico e mostrou como o mesmo tipo de temas, se explorado pela Hammer, parecia subitamente obsoleto. Se os seus responsáveis tinham-se revelado revolucionários aquando da criação e lançamento de The Quatermass Experiment mostravam-se doravante incapazes de desenlearem os desafios, que pareciam tolhê-los progressivamente mais. A resposta do estúdio inglês limitou-se à diversificação das temáticas, incluindo as que procuravam imitar o mestre do suspense criando diversos sucedâneos naquilo que alguns designaram como mini-Hitchcocks e até contratando Bette Davis para um deles: The Nanny.

Logo a seguir, aquela que foi a machadada definitiva, aconteceu com A Noite dos Mortos Vivos de George Romero, que anunciava a chegada de uma nova geração de cineastas (John Carpenter ou o Friedkin de «O Exorcista»), que trazia Hollywood de volta a um dos principais players do género. A Hammer estava inevitavelmente condenada. 

A criatividade literária e os pesadelos infantis

Será a infância o verdadeiro alfobre de estímulos, que levem alguém a lançar-se na criatividade literária, mesmo se depois a revista de filtros bastantes para dela só restar a aparência de um eco distante?

Essa hipótese faz sentido se olharmos para a infância de Bram Stoker, o criador de Drácula. Inexplicável mal se manifestou em criança, traduzido em pesadelos noturnos e numa forma de melancolia depressiva, que o retinha a maior parte do tempo no leito. Para o entreter a mãe contava-lhe inúmeras histórias do imaginário irlandês, mas podemos conjeturar até que ponto elas não alimentavam os perturbadores devaneios noturnos do futuro escritor. O certo é ele ter transferido essas assombrações para Lucy, personagem determinante no romance sobre o monstro da Transilvânia, e sobretudo a partir do momento em que o delicado pescoço passou a ser pasto das fatais dentadas.

Stoker, que quase nunca saiu da Dublin natal, terá viajado abundantemente pelos muitos títulos da gótica biblioteca da cidade, não sendo estranho que esse cenário, em si tão presente desde a infância, o tenha levado a imaginar uma trama também influenciada pelos estranhos personagens, que a mãe lhe dera a conhecer! 

terça-feira, maio 31, 2022

As Noites Brancas do Carteiro, Andrei Konchalovsky, 2014

 

Uma das imagens mais reveladoras do filme de Konchalovsky acontece quase no final, quando o protagonista - Lyokha, o carteiro da aldeia à beira do lago Kenozero onde se concentra quase toda a ação - está a partilhar um cigarro com um vizinho e, nas suas costas, sobe nos céus um foguetão. Ao contrário do que sucedia em Siberíada, a maravilhosa epopeia sobre o socialismo romântico estreada em 1979 - e um dos melhores filmes dessa década! - Kontchalovsky já não ilustra um testemunho da Rússia pós-soviética a abeirar-se da Utopia (nem sequer a capitalista!). Os homens perderam-se nos copos de vodka, as mulheres preferem estar sozinhas do que mal acompanhadas e as moscas constituem incómodo contra as quais nada resulta. Os velhos vão sobrevivendo à custa de magras pensões, os generais fazem o que querem sem olharem para as leis, que as autoridades vão querendo impor sem tergiversações sobre quem anda a enganar a fome com os proibidos peixes do lago.

Se há explicação para os impasses da atual guerra na Ucrânia na falta de ânimo de uma população desalentada pela falta de perspetivas futuras, As Noites Brancas do Carteiro trá-la a lume na conformada rendição a uma realidade, que sobrepõe-se  às circunstâncias  na sua génese.

Depois de ter encarnado várias vidas - incluindo a de rodar filmes de ação com Schwarzenegger em Hollywood - o octogenário realizador russo ainda demonstra ser um grande Mestre. 

O antissemita Thomas Edison

 

Que somos às vezes iludidos pela omissão da informação essencial de que deveríamos dispor antes de nos entusiasmarmos com algumas causas demonstra-o Paul Auster no seu «Relatório do Interior», quando conta o fascínio por Thomas Edison, o célebre inventor, que vivera a poucos quarteirões do casa de New Jersey onde crescera.

Tudo no cientista o entusiasmara: a inteligência, a inventividade, a capacidade de criar negócios muito rentáveis. Por isso considerava-o muito superior a Sherlock Holmes, que fora o herói preferido desses tempos em que requisitava livros aos magotes na Biblioteca Pública local. Daí o deslumbre quando soube que o próprio pai trabalhara numa das empresas do empreendedor. Mas logo seguida da imensa deceção por saber que o emprego só durara um par de semanas, porque descobrindo a condição judaica do novo funcionário, o antissemita Edison logo o quis ver pelas costas.

Sobretudo na infância é-se, amiúde, confrontado com a evidência de existirem pés de barro nalguns dos heróis que são promovidos como admiráveis. Embora, ainda hoje, muitos adultos, continuem a comportar-se como crédulas e inocentes petizes!

segunda-feira, maio 30, 2022

Desmistificar Modigliani

 

Quando se pensa em Modigliani é quase inevitável pensar na morte precoce aos 35 anos e no imediato suicídio da sua grávida companheira e musa, Jeanne Hébuterne, então com apenas 21 anos. Mas peca por exagerado o mito, muito disseminado, do percurso de um pintor maldito, vencido pela doença e com propensão para a autodestruição. Essa imagem é falsa, porque Amedeo sempre demonstrou uma enorme alegria em viver.

Inicialmente vocacionado para a escultura - e aprender com os mestres franceses no talhar da pedra explica a mudança para Paris em 1906! - decidiria depois orientar-se para a pintura porque, através dessa expressão artística, poderia concluir mais rapidamente as obras em si imaginadas. Mas convenhamos que os retratos têm todos um lado escultórico, que decorre dessa premissa inicial. Há igualmente a expressão enigmática dos rostos, que muito se inspiraram nas obras da Renascença italiana, que Amedeo observou intensamente enquanto viveu em Livorno, Veneza e, sobretudo, Florença.

Na biografia também não foi Jeanne a única musa inspiradora. Antes dela houve  a britânica Beatrice Hastings, obsessivamente pintada entre 1914 e 1916, com quem a relação amorosa foi intensa, tumultuosa e, depois, inevitavelmente encerrada. E, embora só depois de morto tenha sido reconhecido como artista maior da sua época, nunca lhe faltaram mecenas, que lhe facilitassem o sustento, inicialmente garantido por uma pequena herança com a qual vira franqueada a mudança para o bairro da Madeleine em Paris. Cidade onde para sempre ficaria ou não seja ele um dos famosos inquilinos do cemitério do Père Lachaise!

O póstumo reconhecimento de Rousseau em Genebra

 

Não é fácil ser prior na própria paróquia, é ditado que se ajusta bem a Jean Jacques Rousseau, nado e criado em Genebra, mas dela proscrito depois do seu «Contrato Social» ofender o pensamento dominante dos conterrâneos, na maioria rendidos a um tipo de organização social assente no poder dos poderosos e na conformada submissão dos que produziam efetivamente a riqueza da cidade. Mormente essa classe dos artesãos donde provinha o filósofo e era impelida a aceitar essa condição com ajuda da igreja calvinista nada disposta a aceitar a primazia de um deus natural, tolerante e ecuménico como propunha Rousseau.

De mal com quem o rodeava, o frustrado mentor de alguns dos principais valores do Iluminismo seria nómada buscando, em vão, a paz de espírito em França ou em Inglaterra, mas condenando-se a uma solidão, que só encontraria algum consolo no efémero exílio na ilha de São Pedro no lago Bienne onde se dedicaria ao estudo de um ramo do saber então em ascendente acumulação de conhecimentos: a Botânica ou às reflexões de caminhante solitário, deixadas para serem publicadas postumamente.

E, no entanto, hoje não faltam estátuas, nem outras homenagens topográficas na cidade à beira do lago Leman. 

sexta-feira, maio 27, 2022

Pialat, Serebrennikov, Tykwer e Desplechin

 

Amiúde tenho de dar informação a amigos mais curiosos sobre onde tenho acesso a alguns dos filmes que aqui vou abordando. Em boa parte a resposta é o canal franco-alemão Arte cuja ininterrupta proposta de bons filmes vai satisfazendo a inveterada cinefilia, mesmo com o senão de suportar a dobragem em francês de muitos filmes falados noutros idiomas.

Para os próximos dias alguns títulos merecerão essa atenção:

 Van Gogh, Maurice Pialat, 1991

Incide  na estadia do pintor em Auvers-sur-Oise a partir de 21 de maio de 1890 e depois de ter estado internado em Saint-Rémy-de-Provence. O doutor Gachet é o amigo e confidente, mas Marguerite, a filha, também o atrai o suficiente para a retratar.

Dirigindo um muito competente Jacques Dutronc, o realizador quis dar do artista uma imagem depurada de psicologia e de romantismo, apresentando-o distante da inventada caricatura de pintor miserável, louco e maldito. (dia 1/6, 19.55)

Leto, Kirill Serebrennikov, 2018

Assinado por um dissidente russo aborda a cena rock na Leninegrado dos anos 80, quando grupos como o Kino e o Zoopark rivalizavam entre si e os líderes disputavam a mesma mulher.

Mais do que o tema em si a fotografia a preto-e-branco, entrecortada de algumas sequências de animação a cores, será o que mais poderá interessar-nos. (30/5 às 21.20) 

Corre, Lola, Corre, Tom Tykwer, 1998

Manny, o namorado de Lola, perde cem mil marcos, que pertencem a um bandido, apostado em reaver-lhos, mesmo que da forma mais cruel. Razão para que se afirme pronto a assaltar um supermercado. Só que Lola pondera em três alternativas possíveis, todas explicitadas num ritmo frenético e com recurso a opções estéticas distintas:  o formato 35 mm para a ação principal, o vídeo para os secundários, o desenho animado para a introdução de cada uma das três histórias, o preto-e-branco para os flash backs, para além dos frequentes ralentis ou acelerações de imagem. Um regalo para o olhar se não nos incomodar a histeria techno punk. (1/6 às 00.20)

Um Conto de Natal, Arnaud Desplechin, 2008

Logo à partida há o casting, que inclui Catherine Deneuve, Mathieu Amalric, Melvil Poupaud, Chiara Mastroianni, Emmanuelle Devos ou Hippolyte Girardot. E depois há uma família reunida pelo Natal para aferir qual dos membros tem uma medula compatível para salvar a vida a Junon em quem se manifestou uma galopante leucemia. Mas entre esses filhos e netos reunidos na casa de Roubaix existe uma latente conflitualidade, que lembra uma trama shakespeareana entre o burlesco e o trágico. (site ArteKino)

quarta-feira, maio 25, 2022

Diários de Otsoga, Maureen Fazendeiro e Miguel Gomes, 2021

 

O que sabemos, ao confrontarmo-nos com os filmes de Miguel Gomes - neste caso específico coassinado por Maureen Fazendeiro -, é a conveniência de assumirmos a abertura de juízo, que nos dissocie da ideia de estarmos perante obras convencionais. E isso é sempre o que mais estimula a nunca faltarmos à chamada sempre que se nos depara a oportunidade de os descobrirmos.

No verão de 2020, em plena pandemia e com outros projetos adiados, os realizadores, os atores e a equipa técnica fecharam-se numa casa perto da praia do Magoito e rodaram uma história sobre três amigos - Crista, Carloto e João - que partilham a construção de um borboletário. Mas, logo se compreende que a ideia de ficção mistura-se com a presença frequente de quem estaria , em principio, atrás da câmara e se posta diante dela em conversas sobre a ideia de filme construído como um work in progress com um lado making of. Há a contagem decrescente dos dias neles se multiplicando os paradoxos aos quais nem sequer falta a referência à gravidez de Maureen e a um conto de Pavese, que lhe acentua a influência mediterrânica. Ou a possibilidade dos realizadores se ausentarem durante um dia por causa de uma ecografia transferindo para os atores a continuidade da rodagem.

Sobre o filme João Lopes escreveu que Crista, Carloto e João são herdeiros tardios de Robinson Crusoé, náufragos das nossas queridas "sociedades de consumo", que vivem o isolamento imposto pela pandemia como uma redescoberta da possibilidade de estabelecer alguma relação com os elementos naturais: o sol, o vento, a vegetação, os animais. Que chegam a remeter os atores para um papel secundário... 

terça-feira, maio 24, 2022

Uma incontornável atração

 

E se a missão Apollo 11 tivesse começado a ser preparada no século XVII? A hipótese não é assim tão estapafúrdia pois terá sido nessa altura que Luís XIV mandou construir o Observatório de Paris, iniciando-se a detalhada cartografia da Lua, mesmo que um dos mais talentosos cientistas envolvidos nesse trabalho, Cassini, não se eximisse de desenhar algumas formas mais devidas à sua liberdade imaginativa do que ao efetivamente observado pelas lunetas então disponíveis.

A atenção dada aos astros, e particularmente à Lua, vem, porém de passados mais distantes. Conhecemos o interesse da civilização mesopotâmia pelos movimentos nos céus, erguendo para tal os zigurates, que possibilitaram-lhes pontos de observação mais próximos. E, mesmo na Europa, há a prova documental do disco de Nebra, encontrado na Alemanha em 1999, e onde estão representados o Sol, a Lua e as Plêiades naquele que, mais do que um objeto ritualista ou uma joia ornamental poderá ter configurado, há cerca de 3600 anos, um ancestral relógio astronómico destinado a definir a data adequada para as sementeiras.

A Lua suscita desde sempre uma incontornável atração para a humanidade, que tarda em retomar o abandonado projeto de a estudar in loco. 


segunda-feira, maio 23, 2022

Dois pintores no Massachusetts

 

No Massachusetts dois dos grandes pintores norte-americanos do século XX encontraram inspiração para criarem algumas das suas obras mais conhecidas: em Cape Cod Edward Hopper encontrou paisagens suficientemente aliciantes para dar outra expressão aos sentimentos de solidão e melancolia associados às que pintou em Nova Iorque. Passando os verões à beira-mar na península ligada à indústria de pesca, que tantos açorianos atraiu, aí comprou uma vivenda em madeira semelhante, em arquitetura, às que foi buscando nos seus passeios de carro pela região, quase sempre acompanhado pela mulher, a também pintora Josephine Hopper, procurando os enquadramentos mais aliciantes para depois os reverter para a tela, depurando-os de tudo quanto não fosse essencial para o sentido a ela conferido.

Numa ilha ao sul dessa península passou Jackson Pollock quatro verões em casa do casal Benton, servindo-lhe Thomas de mentor - apesar de apostar no figurativismo como estilo - e Rita de cúmplice nas experiências em cerâmica.

Embora a paisagem o levasse a replicar as opções estéticas do seu anfitrião, depressa Pollock evolui para o abstracionismo, inventando o dripping, ou seja a projeção de tinta para a tela colocada em posição horizontal e com a qual, nem o pincel ou trincha, chegavam a entrar em contacto.

As paisagens massachusettsianas não tinham, na época em que Hopper ou Pollock aí viveram, o glamour das décadas seguintes, quando foram tomadas de assalto para as férias estivais de presidentes (Kennedy ou Obama) e de vedetas de Hollywood. Eles reproduziram-nas em quadros que, no primeiro caso, se inseriam na lógica do conjunto da obra já dele conhecida, e no segundo foi ponto de partida para tudo quanto depois produziria.