sexta-feira, maio 20, 2022

Monstros ibéricos

 

São esbugalhados os olhos que Goya pinta ou desenha, quando o seu pensamento iluminista confronta-se com a brutalidade dos exércitos napoleónicos. A desilusão leva-o a exilar-se numa casa fora de Madrid, que passa a ser conhecida como a do surdo. O rei, seu patrão, regressa ao trono e a impor um absolutismo, que execra. E os amigos - quase todos eles, acusados de «afrancesados» - partem para o exílio donde o chamam por o saberem desajustado da nova Espanha inquisitorial, que nada tem para lhe oferecer. A não ser a inspiração para os monstros, que passaram a ser motivo quase exclusivo de inspiração. Torna-se inevitável essa tentação por ares mais respiráveis do outro lado dos Pirenéus, onde acaba por morrer em 1828 quando, no nosso cantinho ocidental, já nos livráramos da mesma tentação ditatorial.

quinta-feira, maio 19, 2022

Alma Viva, Cristèle Alves Meira, 2022

 

Estreado em Cannes esta semana, Alma Viva será filme por que esperaremos com a ânsia de o sabermos interessante o bastante para consolidar-nos a ideia de existir uma nova geração de cineastas capazes de nos continuarem a dar as mais gratas descobertas na transposição cinematográfica de realidades para que vale a pena olharmos.

A região transmontana continua a ser das mais estimulantes para o efeito - pelas paisagens, pelos rostos e suas crenças - e por preencherem o ecrã com momentos gratificantes. Tanto mais que, no caso desta primeira longa-metragem da realizadora luso-francesa, há a assinatura da fotografia pelo sempre excelente Rui Poças.

Temos então uma história de bruxas, que iludem sexualidades não conformes através do estatuto de poder garantido pelo exercício desse saber e uma vingança que pretende desconcertar-nos quanto à penetração do racional pelo que não é. Tudo potenciado pela intenção da realizadora em assegurar maior genuinidade nos seus propósitos ao recorrer a muitos figurantes não profissionais e misturá-los com uma mão-cheia de atores que o são, mas procuram diluir-se no todo, que os exima do lado contido do métier. 

Longa Noite, Eloy Enciso Cachafeiro, 2019

 

Uma mendiga pede autorização a um colega de desventura para partilhar-lhe o espaço de recolha de esmolas agora que o tempo chuvoso a impede de situar-se no sítio do costume. Um homem volta para casa numa camioneta e é interrogado por um falangista, que bem lhe adivinha condição outra à de comerciante sob que ironiza vê-lo. Uma mulher recusa mais guerras, mesmo aceitando implicitamente a ordem ditada pelos vencedores da que manchara de sangue o chão que pisavam. Um antigo combatente confessa como passara da motivação da luta para a do compromisso com quem o derrotara. O mesmo homem, vindo de fora (fugido? solto da prisão?) imita o tio Boonme do filme de Apichtapong Weerasethakul, internando-se no bosque e afundando-se na terra, ali desaparecendo.

Contemplativo, porventura irritando os que gostam de filmes de ação, com planos fixos de mais de cinco minutos, reconhece-se em Eloy Enciso Cachafeiro um cineasta filiado na inspiração de Pedro Costa em muitos outros cineastas europeus. A princípio pode estranhar-se, mas depressa rendemo-nos à beleza estética dos fotogramas, tantos deles passíveis de transformados em fotografias a valerem por si mesmas. E há a ambiência entre o sonho e a realidade sobre um tempo - o que se seguiu à vitória e consolidação do franquismo - que Cachafeiro escusa-se a representar numa tentadora perspetiva maniqueísta.

Um dos filmes mais estimulantes vistos nas semanas mais recentes e com a complementar curiosidade de testarmos o nosso conhecimento do idioma galego. 

quarta-feira, maio 18, 2022

La Nouvelle Vague, une bande à part , Florence Platarets, 2021

 

Produzido para celebrar o 60º aniversário do movimento cultural crismado por Françoise Giroud nas páginas do «L’Express», o documentário lembra como os filmes de Chabrol, Truffaut ou Godard, optaram por sair dos estúdios e procurar a autenticidade em personagens interpretados por atores desconhecidos senão mesmo completamente inexperientes. Tratava-se de ripostar a um cinema à papa, intencionalmente não conformista, mas interpretado e realizado por burgueses. A quem aqui se dá voz através das patéticas figuras de Autant-Lara ou Jean Delannoy.

Os criadores desses filmes da viragem dos anos 50 para os 60 eram jovens e contradiziam Nizan quanto a ser essa a mais bela idade que poderiam ter na altura...

Vertigem Azul, Luc Besson, 1988

 

Se Besson teve em “Vertigem Azul” (1988) o seu projeto mais pessoal foi por, aos 17 anos, ter sofrido um acidente num episódio de mergulho, que o impediu de voltar a praticar essa atividade para o resto da vida. E porque passara a infância a acompanhar os pais nas suas viagens pelas costas da Grécia e da ex-Jugoslávia de que lhe ficaram as imagens da mãe rodeada de golfinhos. Foi, aliás, na ilha grega de Amogos, que quase todo o filme foi rodado.

A histórica rivalidade entre os mergulhadores Jacques Mayol e Enzo Molinari para definir qual conseguiria ultrapassar em apneia os cem metros de profundidade, serviu-lhe para explorar essas profundezas em que o azul deixa de existir e o céu converte-se numa distante recordação.

Nunca mais Besson conseguiu obra tão impressiva que, a esta distância, continua a ser fascinante.

segunda-feira, maio 16, 2022

Naufrágio, João Tordo, 2022

 

Encaminho-me para o final do romance de João Tordo e já entranhei aquilo, que começara por estranhar: ter como narrador um antigo escritor, que perdera as graças da escrita, se vira ameaçado por um cancro e - como nenhuma desgraça vem só! - vê-se acusado de assédio sexual por sete vingativas mulheres. O que o transforma num pária, condenado a viver num pequeno iate ancorado na doca de Santo Amaro e a só ter por companhia um cão cujo nome sobre ele tudo diz: Sozinho.

Perante o tema não é fácil criar empatia pelo personagem, por muito que se lhe reconheçam características distintas de um padrão maniqueísta. Ao invés, até vamos criando alguma adesão ao desejo de redenção, sem se fazer acompanhar de nenhuma justificação plausível para uma culpa, que não enjeita. E como o autor tem a tarimba e o talento para conferir ao romance um interesse que, à partida, não seria fácil atribuir-lhe, é com prazer, que me aproximo do seu, tanto quanto mo dizem, inesperado final.

Viagens no Scriptorium, Paul Auster, 2007

 


Quem é Blank, o homem de idade, que sabemos sentado num quarto quase vazio e incapaz de perceber se o têm ou não trancado à chave? Em tempos parece ter desempenhado cargo de relevo, pesando-lhe na consciência os que mandou em missões arriscadas, em muitas das quais poderão ter morrido. Mas já nem sequer consegue recuperar-lhes os nomes!

Seja pela medicação, seja por danos na própria memória, de quase nada se recorda, embora as perguntas sejam mais do que muitas, quer quanto ao motivo da solidão, quer sobre esclarecimento da sua identidade.

Classificado de metafísico por alguns que o leram ainda me deixa na expetativa, quando ao balanço que farei já que ainda só lhe cheguei a meio. Para já fica a surpresa de ser diferente do que me habituei a encontrar nos livros do autor. O que já de si não é pouco, porque sempre o li com a sensação de se repetir de título para título...

 

domingo, maio 15, 2022

Chico - Artista Brasileiro, Miguel Faria Jr., 2015

 

Com sete anos de atraso vejo este documentário dedicado a um verdadeiro monumento vivo da cultura brasileira, quer como cantautor de alguns dos seus temas mais vibrantes, quer enquanto ativista político contra a ditadura nos anos 60 e 70, quer ainda, mais recentemente, na pele de escritor de sucessivos romances de irrepreensível sucesso e talento.

Da montagem das trinta horas de conversas com ele, Faria Jr. salienta todos esses aspetos, tratando com elegância o fim da relação de trinta anos com Marieta Severo, mas dando justificado enfoque às revelações sobre o irmão alemão, que ele nunca chegou a conhecer, mas a quem foi à procura, mesmo descobrindo ter ele entretanto falecido em Berlim em 1981. Algumas das imagens de arquivo mais curiosas do filme referem-se a esse ator e cantor pouco conhecido, mas de quem sobraram imagens bastantes para lhe constatar as semelhanças físicas com o clã Holanda de que viveu sempre apartado.

Há também a evocação de muitos temas, quer por Chico, quer por muitos dos que lhe deram voz, desde  Maria Bethânia a Ney Matogrosso ou de Adriana Calcanhoto a Milton Nascimento. Mas teria preferido que Faria Jr. explorasse a filiação dele a Dorival Caymii em vez da demonstrada para com Nelson Cavaquinho, sobretudo pelo grande momento que foi a cumplicidade entre ambos na partilha da interpretação de «Maricotinha».  Ou

O que espanta é aproximarem-se os sessenta anos de atividade artística de Chico porque, mesmo tão recheada de acontecimentos conturbados - sobretudo na relação com os que o quiseram silenciar! - tudo decorreu tão depressa que, num ápice, parece à beira de se concluir. E, claro está, falta ao documentário este período mais recente em que tem sido um dos principais opositores ao bolsonarismo que tem repetido em registo de farsa, aquilo que foi prática recorrente dos ídolos, que o ainda presidente brasileiro, tanto admirou. Até porque, apoiando Lula desde sempre, o saberemos na primeira fila dos que estarão presentes, quando o antigo presidente voltar a ganhar o acesso ao Palácio do Planalto.

quinta-feira, maio 12, 2022

O Livro das Ilusões, Paul Auster, 2002

 

Não falta muito para dar por inteiramente lida a obra de Paul Auster. Mesmo que lhe tivesse preferido Philip Roth ou Don DeLillo como candidatos mais justamente premiáveis com o Nobel da Literatura do que um desonesto baladeiro, temporariamente dado à beatice, e mais duradouramente assumido investidor de empresas ligadas ao fabrico de materiais de guerra.

Agora foi a vez de conhecer este romance de há vinte anos em que, uma vez mais, surgem as singulares coincidências idiossincráticas e os percursos biográficos com intensas vicissitudes a sucederem-se até surgir a oportunidade de, delas, lavrar balanço. É o que se passa com David Zimmer, o protagonista, que se vê viúvo e sem os filhos, quando um acidente de aviação os mata em junho de 1985. Ou esse Hector Mann, ator e realizador de comédias de slapstick do final do cinema mudo, que ele julgava há muito morto depois de ter desaparecido em 1929, mas afinal com um percurso de vida surpreendente como acaba por comprovar nos poucos dias em que pode contactar com quem o conheceu, ou com ele na mesma noite em que se finará.

Alma, a filha de um dos principais amigos e colaboradores de Hector, será presença meteórica na vida de David, que por ela se enamora e com quem chega a ponderar a hipótese de se reconstruir numa vida a dois não se dê o caso de saber-lhe o suicídio depois de ver em cinzas tudo quanto constituíra o seu projeto de vida... ou de escrita. Porque há um anjo destruidor a velar por que ninguém conheça quem fora e o que criara Hector enquanto fora vivo. E, nesses muitos anos de vida, eivados de contradições e mistérios, não tinham faltado episódios turbulentos, com amores intensos, mortes acidentais, enterros clandestinos, empregos de ocasião em que o sexo também estivera envolvido, e culminados no assalto a um banco donde emergira como inesperado herói.

Quinze anos depois dos acontecimentos, que testemunhara num rancho do Novo México, lê-se o Livro das Ilusões como o testamento de quem reservou para depois do próprio passamento, o relato de tudo quanto de estranho presenciara... 

terça-feira, maio 10, 2022

Berlim tal qual Wenders no-la mostrou

 

Das grandes cidades europeias Berlim é a que mais se reinventou depois da destruição de que despertou no final da Segunda Guerra Mundial e da divisão depois proporcionada pelos tempos da Guerra Fria.

Em 1987 quando decidiu aí rodar «As Asas do Desejo», virando costas a Hollywood depois do sucesso de «Paris Texas», Wim Wenders não imaginava a transformação que ela conheceria depois da queda do Muro, dois anos depois.  Retratou-a então como ela lhe parecia: cinzenta, lívida, marcada pelas cicatrizes da sua História.

Hoje se quisermos visitar as paisagens mais icónicas do filme teremos de prescindir de algumas delas, nomeadamente esse vasto espaço vazio conhecido como Potsdamer Plaz, onde os anjos vagueavam indolentemente, e agora ocupado por edifícios modernos quase todos destinados a escritórios. Vários arquitetos conhecidos transformaram-no em algo que nada tem a ver com o que se vê no filme de Wenders.

Um autocarro de dois andares, tal qual um outro, que também surge no filme, propõe levar os interessados a boa parte dos monumentos mostrados no filme. Por exemplo à Coluna da Vitória de cujo topo um arcanjo protetor olha pela cidade desde o final do século XIX. Ou a Biblioteca Estatal, construção vanguardista do final dos anos 70, que Wenders utiliza como sítio onde os anjos buscam repouso e perscrutam a alma dos  berlinenses. Ou ainda Kreuzberg, que continua a constituir o foco da contracultura com as suas salas de rock nas caves ou as galerias de arte.

Do Muro resta um quilómetro, que parece, porém, muito mais comprido do que o é na realidade. E ali se viu o anjo personificado por Bruno Ganz a transformar-se no homem de carne e osso que aspirava ser. 

domingo, maio 08, 2022

Testemunhos colaterais de recalcadas contradições

 

1. As imagens que revisito no dia-a-dia remetem, amiúde, para o que, em tempos, me interessou e fui esquecendo. Por exemplo o percurso de Robert Doisneau enquanto fotógrafo a quem se associa a incontornável imagem do Beijo colhida em 1950 com o edifício da câmara parisiense como cenário de fundo e expressão de uma mudança cultural em curso na França saída da guerra.

Desconhecia-lhe, porém, o portfolio das imagens de Palm Springs datadas de 1960 e em que recorreu, pela primeira vez, à cor. A endinheirada e descontraída América por ele retratada fotógrafo para a revista Fortune nada coincide com a então perpassada pelas intensas lutas sociais, que prenunciariam as iminentes  e divergentes propostas políticas de Kennedy e Nixon para a Casa Branca no final desse mesmo ano. Mesmo que, uma e outra, se equivalessem no alheamento quanto às aspirações dos menos abonados.

2. As séries televisivas, que nos chegaram nas décadas seguintes também nada tinham a ver com a realidade norte-americana, que passou ao lado de Doisneau. Dallas, a soap dos anos 80, era um produto de tese em torno da ganância enquanto preocupação maior dos ricos, que nem sequer justificou a deslocação dos criadores do argumento até à capital texana do petróleo. E, anteriormente, Kung fu foi uma variação rudimentar do herói solitário personificado por Charles Bronson ou Clint Eastwood nos filmes do western spaghetti.

Uma e outra não me ocuparam muito tempo: vistos um ou dois episódios de cada uma delas fiquei elucidado quanto ao escasso interesse que me motivavam.

3. Hélas, o sucesso mediático dessas séries norte-americanas contrastou com o número de espectadores de Mon Oncle, o filme que Jacques Tati estreou em 1958.

Crítica sarcástica - e muito inteligente! - da vida moderna e das pretensões de uma pequena burguesia, que estava a apanhar o ascensor social para condição mais privilegiada, o filme só viria a redimir-se da inicial desafetação pública, quando os Óscares e o festival de Cannes lhe deram justo realce. Houve então quem olhasse com outra disponibilidade para o elogio da simplicidade e da efetiva comunicação entre as pessoas - neste caso entre um tio e um sobrinho -, que são cúmplices no olhar corrosivo para quanto ocorre à sua volta. 

sábado, maio 07, 2022

Entre os tepuis da Guiana e a arquitetura da ilha Menorca

 

Não é frequente encontrar reportagens da National Geographic, que deem conta do semifracasso das suas expedições, culminando com a urgente retirada de helicóptero do seu líder por estar tão fragilizado, que o risco de vida fica provável. Mas foi isso que aconteceu com a que Mark Synott relata na revista de abril, quando dá conta da intenção de Bruce Means, um especialista em rãs, sapos, cobras e outros animais similares,, cumprir a derradeira aventura num dos tepuis da Guiana onde em tempos Conan Doyle imaginou encontrar os derradeiros dinossauros sobreviventes do cataclismo de há 65 milhões de anos.

Septuagenário e com mais de cento e vinte quilos de peso, o biólogo do Coastal Plains Institute da Florida teve de contentar-se com a prospeção da base do planalto em causa, incumbindo os colaboradores de procurarem -  em vão! - no topo a espécie de rã, que constituiria a cereja em cima do bolo da expedição.

No balanço final fica a descrição das condições terríveis de humidade, temperatura e as dificuldades em avançar numa floresta pantanosa cheia de obstáculos a cada passo, mas uma das derradeiras  num planeta invadido pela presença predadora dos homens, a manter a genuinidade das suas origens.

Na mesma revista aparece, igualmente, a reportagem sobre a arquitetura talayótica da ilha Menorca, cujo iminente reconhecimento como património da Humanidade se aguarda para o próximo mês. Específica da população, que se radicou na ilha no terceiro milénio antes de Cristo, é feita de monumentos religiosos funerários, torres de vigia e construções para habitar, hoje espalhadas por toda a sua extensão, até porque continuou a erguer-se durante as subsequentes ocupações do arquipélago pelos romanos, vândalos e islâmicos. Em vez de integrada num parque reservado ao seu estudo e conservação convive com a atividade rural de uma população, que a ela se habituou como parte da própria paisagem.

Para a menos turística das Baleares, a classificação da Unesco poderá potenciar-lhe uma atividade turística até agora de importância meramente sazonal. 

quinta-feira, maio 05, 2022

O que arde, Oliver Laxe, 2019

 

As primeiras imagens são noturnas e remetem para a quase total destruição de uma floresta de eucaliptos por máquinas, que as derrubam facilmente até quedarem-se em frente a uma árvore antiga, que parece impor uma fronteira ao desígnio dos homens.

Há depois a surpresa de autoridades prisionais por terem de libertar Amador, um pirómano há dois anos à sua guarda e que nada indica vir a privar-se de repetir o gesto. Mas entre a intenção predadora dos madeireiros e a pulsão de um homem desajustado dos que tem por vizinhos, qual a mais problemática?

O terceiro filme de Oliver Laxe consegue ser belo na forma como dá a ver o mundo rural, mas também não poupa os aspetos soturnos dessa realidade, feita de pobreza, de escassez de horizontes.  Amador e a mãe octogenária, Benedicta, partilham um quotidiano feito de rotinas, que só se alteram, ao comparecerem nalgum funeral ou quando uma das três vacas adoece e exige a convocação da veterinária.

A interação desta mulher, ainda relativamente jovem, com o ex-cadastrado parece abrir a possibilidade de uma eventual redenção. Mas é hipótese depressa posta de parte, porque também ela ouviu dos aldeões o relato das malfeitorias de Amador e aborda-o como se de lepra estivesse eivado.

Laxe é suficientemente subtil para atribuir a Amador a autoria do novo incêndio, que ameaça destruir novamente a região. Mas não nos escapa o sentido contrário em que se desloca, quando os carros dos bombeiros se cruzam com ele para acorrerem ao local do sinistro. E é dúvida que, também, não sentem os vizinhos, quando o interpelam e agridem, cientes de outra explicação não existir.

O que arde em Lugo na Galiza é muito mais do que a floresta, porque também as mentes de alguns estão abrasadas pelas ignições suscitadas pelos olhares dos demais. E, porque é filme de silêncios, acaba por ser a música de Vivaldi e o crepitar dos galhos a arderem constituírem boa parte da banda sonora. 

quarta-feira, maio 04, 2022

Jack Kerouac, On the Road

 

Este é o ano do 75º aniversário da saída de Jack Kerouac de Nova Iorque para fazer o périplo, que lhe daria o ensejo de escrever o romance sobre quanto vira nesse cirandar à boleia em direção ao antigo oeste selvagem. Denver, então pequena cidade no meio do nenhures que eram as planícies do Colorado, foi a primeira paragem a sério dessa longa viagem e local de encontro com Neal Cassidy, esse misto de pequeno delinquente e de James Dean com quem se comprazeu a partilhar as noites nos bares da cidade ao som do jazz. E seguir-se-ia Central City nas Montanhas Rochosas, centro mineiro com um inesperado Teatro de Opera onde viu representada a única obra do género, que Beethoven compusera.

Seriam depois as estradas de dois sentidos, quando a rede de autoestradas ainda não se impusera, possibilitando a existência dos característicos motéis e pequenos albergues, que coincidiam com a representação deles feita por Edward Hopper. E para os quais Kerouac funcionaria como o primeiro escritor a sério a olhar para essas vidas e cenários e descrevê-los febrilmente no seu famoso rolo de papel num jeito automático capaz de melhor lhes reproduzir a mais fecunda essência. 

terça-feira, maio 03, 2022

Tocata e Fuga: Os Dias de Mário Cláudio, Jorge Campos, 2021

 

Quatro anos andou Jorge Campos a acompanhar Mário Cláudio para traçar-lhe um retrato íntimo, que não chega a esclarecer muitas das questões levantadas pela sua obra. Por exemplo o porquê de criar narrativas tão diferentes umas das outras, mesmo que muitas vezes dedicadas a uma personalidade ou um espaço (a Quinta das Virtudes) em torno dos quais se detalha uma época, uma sociedade, uma cultura.

Não é que o escritor não dê uma resposta possível: são os livros que o escolhem a ele, não o contrário. Por isso, quando entra a sério na criação, entusiasma-se, deixa-se levar pelos caminhos que eles próprios parecem definir-lhe.

Credível enquanto resposta? Desconfio que não, mas que é explicação bem achada, lá isso é.

E também gostaria de saber mais sobre essas origens campesinas, que reconhece marcarem muitos dos seus textos. Embora busque a cumplicidade, Jorge Campos não consegue aproximar-se o bastante para lhe perscrutar a profundidade, a verdadeira natureza do seu ser. Mas quem disse que todos os criadores devem preservar a sua parte de mistério?

segunda-feira, maio 02, 2022

Julieta dos Espíritos, Federico Fellini, 1965

 

Giulietta é uma dona-de-casa entediada na sua casinha de bonecas, entretida pelas amigas, que lhe dão conta das mais recentes novidades quanto aos gurus e cartomantes chegados às suas paragens. A vida «perfeita» começa a ficar em causa, quando os sinais oriundos de Giorgio indiciam iminente mudança. Porque ele embeiçou-se por uma modelo bastante mais nova e prepara-se para a deixar tal qual o demonstram os detetives particulares a que ela recorre.

Rodado a seguir ao «8 1/2» apontou-se-lhe uma abordagem semelhante quanto aos fantasmas de um protagonista, agora na versão feminina, mas tendo o mesmo universo barroco a suportá-lo, feito de freiras, artistas de circo e outros fenómenos esdrúxulos, que lembram amiúde as feiras de horrores com que o realizador tanto se comprazia. Tem a desvantagem de contar com uma construção menos coerente, mas tendo, por outro lado, o recurso à cor naquela que foi a primeira longa-metragem em que Fellini a explorou. E que exuberância a desses tons intensos a que a cópia restaurada devolveu o original fulgor!

Há também Giulietta Masina num desempenho irrepreensível, que se salda num final próximo ao de Cabíria: apesar das torpitudes a que se vê sujeita ela é quem acaba por sair mais dignamente de toda uma crise conjugal, que a deixa melhor preparada para aquilo que se seguirá para lá do “The End”. No que consistirá não podemos adivinhar, mas tivemos de permeio as recalcadas tentações pelo toureiro espanhol ou pelo gigolo, que a vizinha quase lhe pôs na cama.

Na altura da rodagem do filme Fellini andava às voltas com a interpretação dos sonhos à luz da psicanálise e seriam eles a norteá-lo para a fase seguinte da obra aonde não faltariam outros projetos excessivos como os inspirados pelo Satyricon ou pela personalidade de Casanova. Quanto a Giulietta, depois de ser a musa do marido em meia dúzia de títulos, só para ele voltaria a interpretar novo desempenho vinte anos depois, quando ele a associaria a Mastroianni para esse filme-testamento, que foi «Ginger e Fred». 

sábado, abril 30, 2022

As fogueiras que se ateiam com exagerada facilidade

 

Parece que Flaubert nunca disse a icónica frase “Madame Bovary c’est moi”, mas ela expressa a ideia de haver uma identificação mais do que óbvia entre o escritor e os seus personagens, mormente pelos protagonistas dos seus romances.

Pensei nisso ao chegar a um terço de «O Naufrágio» de João Tordo, tendo em conta o tema, que começa a ser-lhe dominante: Jaime Toledo, um escritor cinquentenário a contas com um cancro em fase avançada, vê-se acusado de assédio sexual por sete mulheres, que dele se sentiram vítimas, desconstruindo-se, ficando doravante traumatizadas pela toxicidade da relação com ele mantida. E com uma delas, Alice, a primeira a denunciá-lo, até sentimos a empatia com quanto sofreu ao descrever-nos a experiência na primeira pessoa.

Nesta altura do livro ainda estou numa posição ambivalente a seu respeito até por manter essa atitude relativamente a  tal problema: se não tenho dúvidas quanto a Dominique Strauss-Kahn ou a Harvey Weinstein, que coloco facilmente no canto dos crápulas, já tenho sérias reservas relativamente a Roman Polanski, Woody Allen ou Philip Roth, todos três vítimas do fanatismo de um movimento alimentado pelas redes sociais e que tende a armar fogueiras com a exagerada facilidade com que a Inquisição o fazia.