domingo, janeiro 16, 2022

Os Sapatos Italianos de Henning Mankell

Dos escritores escandinavos de romances policiais Henning Mankell é aquele que merece a minha preferência. Todos os romances com o inspetor Kurt Wallander deram-me memoráveis horas de leitura, que irei replicar em futuro próximo: depois do atual projeto de reler todos os títulos de José Saramago a pretexto de comemorar o centenário do seu nascimento. E de reiterar o fascínio proporcionado pela primeira vez que os visitei.

Mas este romance de 2006 diferencia-se de quase todos os demais escritos por Mankell por constituir uma espécie de antecipado testamento, embora ele lhe sobrevivesse mais nove anos. Mas como não ver no protagonista, o antigo cirurgião Fredrik Welin, um alter ego do autor? Porque refugia-se como misantropo numa das pequenas ilhas bálticas do Arquipélago depois de uma operação mal sucedida, que lhe aviva a incurável má consciência, algo de semelhante terá acontecido a Mankell, que tanto acreditou e participou culturalmente na revolução moçambicana pós-independência e a viu definhar até à atual degenerescência.

Aos sessenta e seis anos Fredrik costuma mergulhar diariamente num buraco aberto no gelo à beira da margem para provar a si mesmo estar vivo. Inesperadamente vê o rotineiro quotidiano abanado por Harriet, a namorada que muito amara quarenta anos antes, mas a quem abandonara sem explicação. Ela vem agora, com a ameaça do galopante cancro a condicioná-la, cobrar-lhe promessa então feita: de levá-la à beira de um lago no norte do país e cuja paisagem qualificara de inexcedível.

Está iniciado um périplo  em que estão em causa o amor, a perda, a redenção e a autodescoberta. Porque nesse intervalo em que se sucedem dois solstícios de inverno e um de verão encontram homens e mulheres também a contas com os seus medos e solidões.

É uma dádiva preciosa o que Harriet veio proporcionar a Fredrik, porque no regresso de tão edificante viagem ele descobre já não sentir vontade em viver sozinho na sua ilha e ter por únicas companhias a velha cadela e a velha gata ou as episódicas visitas do carteiro hipocondríaco. Voltar para junto dos familiares constitui um imperativo, porque deixa de ter a necessidade do quotidiano banho gelado para se sentir vivo.

sexta-feira, janeiro 14, 2022

Síndrome de Estocolmo

 


Confesso admirador de Olaf Palme, cujo assassinato foi episódio tenebroso, que marcou uma época de viragem para pior nos rumos políticos ocidentais, é a pífia imagem dele dada por este filme de Robert Budreau, que menos me agradou. Porque, na realidade, e enquanto mero entretenimento sem grandes ambições, até preencheu o propósito com que nos predispusemos a vê-lo. Acrescentando-se o facto de contar com dois atores - Ethan Hawke e Noomi Rapace - que raramente desiludem por caucionarem filmes que valem a pena ser conhecidos.

Há depois a abordagem da questão da empatia: o que nos leva a simpatizar ou antipatizar com os personagens oferecidos na tela? Como nos deixamos conduzir para uma perspetiva maniqueísta das histórias se elas podem ter complexidades, que superam as primeiras aparências? Eis um tipo de debate, que Stockholm (2018) pode propiciar.

Baseado num artigo publicado na revista New Yorker foca-se no assalto a um importante banco de Estocolmo em 1973 quando os assaltantes, ou pelo menos um deles, conseguiu a solidária compreensão de duas das reféns. E assim ficaria encontrada uma fórmula canónica para colar a situações desse tipo, quando quem pode estar em risco de vida, opta por adotar o ponto de vista de quem assim o coloca. Por instinto de sobrevivência? Por ver-se convidado a olhar para a realidade com outros filtros, que não os do costume? Pela adrenalina suscitada por uma situação, que rompe com o tédio de que se poderia ter fartado?

A ambição desta produção não equivale à do seu protagonista que recorre a ousado voluntarismo para compensar o manifesto amadorismo. Pelo contrário Budreau manifesta profissionalismo sem querer ir muito além, por exemplo sugerindo, sem depois desenvolver, algumas ambivalências, que semeia aqui e ali: que tipo de relação existia entre Lars e Gunnar ou entre Bianca e o marido?

No fundo nada de muito diferente do que faria qualquer competente tarimbeiro, anos a fio capaz de construir obras interessantes em Hollywood, sem alcançar dimensões, que os próprios estúdios descartavam. 


quinta-feira, janeiro 13, 2022

A mulher que fugiu

 

Belo filme o de Hong Sang-soo, que lhe garantiu o Urso de Prata em Berlim. Em menos de oitenta minutos acompanhamos Gam-hee na visita a duas amigas a quem, há muito, não via, somando-se por acaso um terceiro encontro com outra, sua antiga rival amorosa, que lhe surripiara o namorado.

Assistimos a diálogos sobre o improvável amor e felicidade com os homens a servirem de tema subjacente, confirmado pelos que surgem como presenças secundárias: o vizinho que não gosta de gatos, o poeta obcecado por aquela que o recebeu uma vez no leito, o tal ex-namorado. Por isso uma dessas amigas é divorciada, outra contenta-se com amizades coloridas e a terceira confessa-se pouco feliz com quem lhe coube na rifa.

A própria Gam-hee, que vem de cinco anos passados exclusivamente com o marido, de quem não se ausentara um só dia, acaba por repensar a relação amorosa neste périplo concretizado enquanto ele tivera de sair de Seul por motivos de negócios.

Se a mulher que fugiu do título parecia associar-se à vizinha da primeira das amigas visitada, que abandonara marido e filho em proveito de outro tipo de vida, a própria Gam-hee parece tentada a imitá-la com a cena final em que regressa a uma sala de cinema onde pode perder-se em contemplação para com uma paisagem marítima sem outro motivo de atração, que não a placidez que convida ao olhar.

É filme de rigorosa geometria, todo ele construído em repetição de planos e sons, mesmo que focados em  sítios e momentos diferentes. Por isso cria um prazer, que confirma a ideia de serem os filmes asiáticos os que, nos últimos anos, mais nos costumam encantar. E nem precisariam de contar com a notável interpretação de um gato que, só ele, já merecia um prémio de interpretação num qualquer dos festivais em que o filme se exibiu.

Resta acrescentar o singular exercício de autoironia, quando  Hong Sang-soo se replica num personagem acusado de sempre repetir os mesmos propósitos ao falar para os telespectadores. Não se costuma acusar (injustamente) o realizador de andar, há muitos anos, a repetir sempre o mesmo filme? E mesmo que assim fosse, que mal viria ao mundo por tal acontecer, se o resultado é tão gratificante? 

domingo, janeiro 09, 2022

E se a melhor nos filmes musicais fosse Eleanor Powell?

 

Os canais por cabo andam a  dar-nos a oportunidade de rever “Idílio Musical” de Norman Taurog que foi, em 1940, o quarto e último filme da série «Broadway Melody» e me facultou inesperada revelação. Porque se aceito Astaire como bailarino talentoso que, a par de Gene Kelly, iluminava todos os filmes em que dançava, ou Norman Taurog como um daqueles tarimbeiros de Hollywood capazes de sempre ser competente não comprometendo o resultado final dos projetos que realizava, confesso ter-me disponibilizado para a redescoberta deste filme, que já não via há uns bons cinquenta anos, por causa das canções e da música de Cole Porter.

Afinal os olhos focaram-se-me em Eleanor Powell e para todos os atléticos números em que volteia com Astaire, compreendendo-se a apreensão deste quando, saindo da RKO para entrar diretamente neste seu primeiro título na MGM, sabia ser ela uma parceira tão ou ainda mais engenhosa que ele.

A história em si é a do costume: atores sem sucesso, que penam em aceder aos palcos principais das salas de Times Square e, ademais, envolvidos em equívocos, que misturam os sapateados dos pés com o bater dos corações. Os gags são divertidos, embora mais do que previsíveis, e segue-se a regra de o argumento ser levado a uma leitura extremada em que dois amigos parecem definitivamente irreconciliáveis. Tudo acaba por concertar-se e volta à empatia inicial ademais com um número de consagração em palco.

Podemos admirar a desenvoltura de Ginger Rogers, a sensualidade de Cyd Charisse ou a polivalência de Rosalind Rissell, mas olhando para este, que foi o derradeiro grande sucesso de Eleanor Powell como figura primeira do cartaz, só se pode lamentar que, primeiro uma operação à vesícula, depois a religião e enfim o casamento com Glenn Ford, a tenham empurrado para a penumbra dos holofotes, quando por aqui se vê quanto poderia ter-se mantido por eles focada na década de 40 tão auspiciosamente aqui começada ... e praticamente aqui concluída.

Que incrível desperdício!

Colateralmente nunca deixo de anotar na singularidade de tanta alegria aparente coincidir com as sucessivas vitórias nazis na Europa. E quase parecer que dois mundos tão diferentes coexistiam! 

sexta-feira, janeiro 07, 2022

Tristana: quando Buñuel regressou a Espanha durante o franquismo

 

Nunca compreendi a razão porque, ao contrário de Picasso, Luis Buñuel aceitou voltar a Espanha no final dos anos sessenta para rodar «Tristana», que se estrearia em 1970. Nesse regresso parecia caucionar um regime franquista, que quereria dar uma imagem aligeirada do seu modelo de ditadura quando, por essa mesma altura, não mostrava pejo em ir garroteando presos políticos. Talvez o apelo de rodar em Toledo tenha sido mais forte, porque aí passara momentos felizes da juventude, quando Lorca ou Alberti partilhavam com ele animadas tertúlias. E julgasse possível pegar no romance de Benito Perez Galdós criando uma denúncia incisiva da Espanha de então, mesmo que a história se situasse meio século atrás.

Don Lope, personificado por Fernando Rey, é o tipo de nobre falido, que concilia íntimas convicções ateias e até socialistas, com a importância conferida às aparências, sem esquecer a forma pervertida como toma conta da sua pupila - a inocente órfã interpretada por Catherine Deneuve - fazendo-a sua amante e, depois, legitima esposa (pois se a própria Igreja valida o matrimónio!), quando, condenada a  ver-se amputada de uma perna, volta-lhe ao redil depois de fugaz romance com um  artista.

As contradições de certos progressistas de opereta e da sociedade conservadora, que  se desejaria parada no tempo, é o tema de um filme, que não é, de todo, um dos meus preferidos do realizador. Mesmo que Tristana acabe por revelar-se eficaz na vingança, sujeitando o algoz à sua fria indiferença, sabe-me a pouco por muito que me fique como impressão maior esse sonho em que a protagonista vê a decepada cabeça de Don Lope a servir de badalo num sino de igreja. E que Buñuel revele a impressionante habilidade de mudar as nossas simpatias iniciais por Tristana para esse marido, que ela maltrata com requintes de malvadez...


domingo, janeiro 02, 2022

Olhando para quadros de Rubens

 

Não é um dos meus pintores preferidos: Peter Paul Rubens aparece-me como  voluntário instrumento da Contra-Reforma satisfazendo sucessivas encomendas destinadas a servir de propaganda para impor a superioridade do catolicismo contra os que Roma entendia como hereges. A única expressão artística em que “esqueço” a mensagem ideológica subjacente é na grande música, mas como ficar indiferente à transcendente beleza das obras de Bach? Como diria Stephen Jay Gould, quando comentava os versos antissemitas da Paixão Segundo S. João - apesar de ter raízes judaicas! - há emoções, que se sobrepõem à racionalidade dos pressupostos. No fundo o que me leva a gostar tanto de Wagner apesar da sua instrumentação pelos nazis...

E, no entanto, é de emoções, que os quadros de Rubens se preenchem: naquele em que satisfez uma das suas primeiras encomendas, o da ascensão de Cristo para a cruz, incluiu tantos detalhes minuciosos na expressão de quem assiste à cena ou como dispôs o protagonista no centro do tríptico, que confirma a intenção de alcançar na tela o que Bach conseguiu com as notas musicais.

Por essa altura ele já estivera oito anos em Itália a deixar-se influenciar pelo claro-escuro de Caravaggio ou pelas cores de Ticiano. E, no entanto, se olharmos para o conjunto da sua obra, como não distinguir os quadros do último período de vida quando, rico e quinquagenário, se apaixonou pela segundo mulher, a mítica Helène Fourment e a tornou musa de um número inesgotável de quadros e  desenhos? As suas opulentas formas deram a melhor expressão ao que, no pintor, se traduzia na exuberância com que retratava o feminino e lhe enaltecia a sensualidade. 


sexta-feira, dezembro 31, 2021

O QAnon nos antípodas (e também por cá?)

 

1. A princípio começaram a ser afirmações estranhas, que Karen Stewart não levou muito a sério. Estaria o irmão a brincar com ela testando-lhe a lucidez? Mas logo viu a cunhada e o sobrinho a replicarem o que ele teimava com crescente insistência: que uma elite pedófila tomara conta do mundo e havia que a combater como forma de salvar as criancinhas sujeitas a violações ou a rituais satânicos de feição vampiresca. E, como ela própria fora violada aos catorze anos por dois acólitos da igreja local, procurava associá-la ao seu militantismo conspirativo.

Às tantas a distância de crenças de Ted, da mulher e do filho com o resto da família tomou tão avassaladora dimensão, que deixaram de aparecer. Porque as discussões eram intensas e nunca delas saíam vencedores.

O pior foi Karen conhecer a proximidade antiga do irmão com o primeiro-ministro Scott Morrison, que alegava influenciar como sua marioneta para abreviar a chegada do Grande Despertar. E o político andava a dar-lhe razão ao inserir nos discursos algumas passagens a contento dos sectários do QAnon: por exemplo a de terem existido “rituais satânicos” contra as vítimas de abusos e violações como as padecidas por Karen dentro das instituições religiosas australianas.

No Senado há quem leve muito a sério esse conúbio e o queira esclarecido. Porque quem anda a denunciar a existência de um Sistema passível de ser derrubado (aqui também replicado no Ventura do Chega e em Rui Rio) já não pode ser desvalorizado ao nível dos que defendem a platitude da Terra. Como se viu com a invasão do Capitólio no início do ano em curso, essa gente é perigosa ao deixar-se manipular por quem a sabe dócil carne para canhão, quando se trata de defender os seus inconfessáveis interesses.

2. E, no entanto, nem mesmo os impérios destinados a existirem por mil anos conseguiram perdurar por mais de uma dúzia de anos a assassina vocação. Ao revisitarmos os impressionantes desfiles em Nuremberga, tais quais Leni Riefenstahl os encenou, surge inevitável a suposição do que terão sentido os grandes dignitários nazis, quando neles participaram entre 1933 e 1938. Terão Hitler, Goering ou Himmler confiado na sua invencibilidade? Julgariam repetir-se as circunstâncias excecionais, que os tinham levado ao poder graças às rivalidades palacianas entre o general Kurt Von Schleicher e o ambicioso Franz Van Papen sob o beneplácito do presidente Hindenburg?

Muitos milhões de pessoas morreram como consequência da desmedida apetência pelo poder absoluto e muitas outras ficaram traumatizadas para o resto das suas vidas, mas quem o quis personificar não teve melhor sorte abreviando-se-lhe o fim e adornando-se-o com indelével ignomínia. E, no entanto, olha-se para os partidos e militantes da extrema-direita e somos levados a questionar: não aprenderam nada com a História do século XX? Não percecionam para onde seriam levados se condições favoráveis os devolvessem a essa sensação de invencibilidade dos antecessores nazis? Infelizmente temos de reconhecer que a essa hipótese se fazem cegos, surdos e mudos. 


quarta-feira, dezembro 29, 2021

Os Retornados do Estado Islâmico

 

Em 2016 Joshua Baker quase morreu no Iraque, quando a explosão de um carro-bomba lhe partiu a coluna. Rodava então o documentário «A Batalha de Mossul», produzido pelo «The Guardian».

No ano seguinte, ainda estava a recuperar das sequelas físicas e psicológicas da experiência, quando descobriu a história de Samantha El-Hussani, uma norte-americana alistada no Daesh cujo filho mais velho protagonizara um mediático filme de propaganda em que Trump era o alvo de ameaças.

Nos anos seguintes, e apesar da decisão de não voltar a uma região onde os perigos se tinham revelado tão potencialmente letais, Baker foi a Raqqa, às zonas dos yazidis e aos Estados Unidos para melhor conhecer toda a história por trás de quem, alegando inocência, acabaria condenada a seis anos de prisão por confesso financiamento do terrorismo. Sobretudo durante uma deslocação a Hong King, motivada por essa intenção.

Resulta daqui um filme muito curioso, porque os testemunhos sobre Sam são tão antagónicos - comprometedores os dos pais e o do pai do seu filho mais velho, abonatórios os da rapariga e do miúdo comprados pelo marido como escravos para os servirem - que acaba por ser  difícil perceber quanta inocência e culpabilidade nela coexistem.  Talvez tudo se tenha cingido a uma adolescente do tipo «cabeça no ar», que prolongou na idade adulta a mesma atração pelas situações de intensa adrenalina. A aventura no Califado pode-lhe ter parecido aliciante, tanto mais que o companheiro, marroquino também ele entusiasmado pela possibilidade de sacudir o tédio dos dias sempre iguais, depressa levara a tentação de partir para o Médio Oriente para uma concretização impensada.

No local ele terá desmascarado a sua personalidade mais sombria agredindo-a amiúde e forçando-a a comprar as escravas sexuais com que satisfazia os mais básicos instintos. Ela arrependendo-se de todo aquele envolvimento e lançando pedidos de salvação à irmã, por quem Joshua iniciara o projeto de filme.

Quem acaba por revelar notável maturidade e inteligência emocional é Matthew, que viu muitas mortes ocorrerem á sua frente e encontrou o estado de espírito mais eficaz para sobreviver ao desvario circundante. Aos 13 anos, e a viver com o pai, olha para esses anos com o distanciamento de quem deles se sente liberto.

segunda-feira, dezembro 27, 2021

Um dos muitos que a História subalternizou

 

Ao lermos os relatos sobre a viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães é fácil a tentação de querermos saber mais sobre Juan Sebastian Elcano, o comandante da frota, que conseguiu terminar a expedição com o único navio dela sobrevivente e acabou quase esquecido pela História.  Porque tem algo de singular a sua queda em desgraça, quando participou do motim que quase podia ter deitado a perder os objetivos de Magalhães - que não era a da volta ao mundo, mas tão-só a de alcançar as Molucas por outra rota, que não a dos portugueses -  escapando à condenação à morte apenas pelo facto daquele não ficar desfalcado de quem tão bem conhecia a arte de navegar como era o caso do  basco. Mas, nos relatos da viagem, Elcano ficou dois anos esquecido até assumir-se como improvável salvador da pátria, quando os superiores hierárquicos foram chacinados numa batalha com os que habitavam uma das muitas ilhas do arquipélago filipino.

Imprevidente, igualmente, em cuidar da posteridade, Elcano não contratou nenhum cronista para lhe fixar a história em forma de relato escrito, logo voltando a viajar para o oceano Pacífico em prol de uma fortuna, que não alcançaria, porque também ali teria encontro marcado a morte.

Em Elcano encontramos aquele tipo de protagonistas da História cujo trágico destino muito deve à sua própria imprevidência. A mesma que sempre o aproximou mais da morte do que da celebrada vida. 

domingo, dezembro 26, 2021

Vanguardas e tentações fascistas

 

É inevitável pensar na conhecida frase de Samuel Johnson, proferida numa tarde de abril de 1775 - “o patriotismo é o último refúgio do canalha” - quando se pensa no comportamento do grupo vienense liderado por Anton Schönberg e também integrando Alban Berg e Anton Webern, quando o atentado de Serajevo deu o esperado pretexto para a Europa mergulhar na Primeira Guerra Mundial. Apesar de todos eles estarem envolvidos na vanguarda artística, que pretendia substituir a música tonal, até então canónica,  e viria a expressar-se no dodecafonismo na década seguinte, a ideologia mantinha-os presos ao que de mais conservador existia, levando todos a oferecerem-se para o exército austro-húngaro, quando as declarações de guerra se sucederam. Maniqueísta, como o são todos os patriotas, Schönberg via no conflito a melhor forma de “esmagar os bárbaros”.

A desilusão não tardaria: afinal a guerra, que apenas duraria umas semanas, prolongar-se-ia por meses e, depois, anos a fio. Os projetados combates homem-a-homem, que exaltariam os pendores viris dos beligerantes, viram-se substituídos pelos troares dos canhões, que matavam os artilheiros nas trincheiras, quase sem darem pelo tão inopinado fim. E fez caminho a demonstração dos mais lúcidos quanto a tratar-se de conflito do exclusivo interesse dos grandes capitalistas, que se serviam das populações como meras carnes para canhão.

Anos depois, quando ambos já se tinham transferido para o campo dos pacifistas, Schönberg haveria de convidar Maurice Ravel para com ele atuar em Viena, numa cumplicidade de quem guerreara em campos opostos, já que o compositor do «Bolero» fora condutor de transportes de tropas e também testemunhara a carnificina, que à generalidade dos artistas tanto impressionaria. Embora, quando essa realidade se tornou óbvia, muitos dos vanguardistas não deixaram de continuar a merecer-se implicados pela citação de Johnson já que alguns deles - particularmente Marinetti com Mussolini - aprestaram-se a dar caução intelectual aos fascismos emergentes. E não esqueçamos que também Fernando Pessoa se embeiçou do Presidente-Rei Sidónio Pais ou Almada Negreiros aceitou cargo político na estrutura do Estado Novo. 

sexta-feira, dezembro 24, 2021

Ver mais longe graças a prodigioso feito de engenharia

 

Será imensa a expetativa sobre o  que o telescópio James Webb nos facultará daqui a seis meses, quando abrir o espelho de 6,5 metros, protegido por um escudo do tamanho de um campo de ténis, e passar a dar-nos o aspeto do distante universo tal qual nunca o vimos até agora.

Para quem cresceu a olhar para os céus enquanto lia os romances da coleção Argonauta, antes de apostar em ensaios científicos mais consistentes com a realidade cósmica - mesmo que com menos imaginação!, - será inevitável acompanhar atentamente os meses vindouros  para saber o que será revelado pelo telescópio, cem vezes mais potente do que o Hubble, a ser enviado amanhã para o espaço a partir da Guiana Francesa.

Se jamais cumprirei o sonho de ver a Terra de longe, tal qual a testemunharam Armstrong, Collins e Aldrin da órbita da Lua, sempre terei um vislumbre daquilo que saberão as minhas netas e todos os que delas recolherem herança genética, quando o James Webb concluir a missão de debitar os incomensuráveis dados científicos colhidos do seu contínuo labor. Quase por certo para se ver substituído por outro ainda capaz de mais se aproximar-se do momento do Big Bang. 

Envelhecer. Oh envelhecer!

 

Durou três anos a aventura polinésia de Jacques Brel, encetada quando a projetada volta ao mundo no seu veleiro foi interrompida pela definitiva paragem numa baía de Hiva Oa, uma das seis ilhas habitadas das doze que compõem o arquipélago polinésio das Marquesas. Por essa altura ele teria a provável expetativa de superar o cancro fatal, ou pelo menos travá-lo durante o tempo bastante para usufruir aquele paraíso terrestre, que depressa compreendeu ser o melhor sítio para se despedir da vida. Mas os pulmões estavam demasiado afetados para dar-lhe a pretendida ambição, embora criasse entretanto «Les Marquises», o álbum definitivo  com muitos acenos de despedida aos amigos. Mas não só, porque contém alguns dos seus temas mais belos, mesmo que outros, anteriores, continuem a superá-los em notoriedade.

Como não entender o que Brel terá sentido por essa altura, quando chegamos ao crepúsculo da vida e desconhecemos por quanto tempo pairará o sol por cima da linha do nosso horizonte? Saibamos, porém, ter a sua sabedoria de lamentar que, se é duro morrer na primavera, acabamos todos por apanhar o comboio que podemos. Porque “Mourir, cela n'est rien/ Mourir, la belle affaire/  Mais vieillir ... oh, oh, vieillir. 

quarta-feira, dezembro 22, 2021

Cinquenta anos depois ainda haverá quem torça o nariz ao melhor filme de Visconti?

 


Faz sentido dar algum crédito aos que  criticaram «Morte em Veneza» por Luchino Visconti não ter seguido tim tim por tim tim o romance original de Thomas Mann e lhe acentuar a vertente homoerótica?

Cinquenta anos depois da estreia do filme  ele continua a ser fascinante e a garantir um inaudito prazer aos que gostam de cinema e da grande música, porque nunca o Adagietto de Mahler conhecera tal notoriedade até Visconti o utilizar para servir de acompanhamento sonoro à morte do prof. Aschenbach nó melancólico areal do Lido. Doravante esse andamento da 5ª Sinfonia de Mahler extravasaria do reservado universo dos melómanos para ganhar a dimensão de uma plêiade mais vasta de seus apreciadores.

E faz sentido falar de Veneza no cinema sem citar esta obra específica? Porque, mesmo não lhe frequentando os cenários mais icónicos - ou talvez por isso mesmo, porque a cidade vai muito para além das concorridas ruas entre a Praça de São Marcos e a Ponte de Rialto, crescendo em fascínio ao delas nos afastarmos! - nenhum outro filme deu da cidade esse tal sortilégio, que levava o compositor alemão a dela escusar-se a apartar quando a cólera virara pandemia e o risco de morrer se acantonado nessa prisão se tornara real.

Hino à beleza absoluta? Sem dúvida que aí Visconti e o autor do romance encontram-se sem reservas. Se Thomas Mann, cujas predisposições fantasmáticas eram bem mais reservadas do que as do assumido realizador italiano, veria em Tadzio mais do que o pretendido símbolo de algo inalcançável nunca o saberemos.

A realidade é que as décadas vão passando e os personagens interpretados por Dirk Bogarde, Bjorn Andresen e Silvana Mangano continuam na memória como protagonistas de um daqueles clássicos de cinema a que sempre regressaremos com prazer. Porque é filme em que, cada revisita, implica nele descobrirmos os pormenores, que nos tinham passado despercebidos nas anteriores apreciações. E esse é decerto um dos mais insuspeitos reveladores quanto à valia incontestada de uma obra-prima...

 

terça-feira, dezembro 21, 2021

Da prosápia de, sem razão, ser único cabeça de cartaz

 

Rodado em 1951, mas só estreado no ano seguinte, por a Paramouth recear a reação do público perante um argumento pouco condescendente para o personagem interpretado por Dean Martin, «The Stooge» («O Estoira Vergas») foi o filme que Jerry Lewis preferiu de entre os que interpretou em dupla com o transitório parceiro. Talvez porque demonstrava que, embora crooner competente, Martin era ator de limitadas competências ao contrário de quem aliava a interpretação à criação de argumentos (caso deste embora não creditado no genérico) e à sua realização. Para a História fica até a razão, porque a dupla se veio a desfazer: perante a descontraída forma como Dean Martin geria a carreira, o maníaco Lewis apostou em fazê-la a solo iniciando aquela que viria a ser a melhor fase da sua filmografia.

Nesta história rodada por Norman Taurog temos um ator de revista com nenhum sucesso, quando sozinho em palco, só o encontrando quando acolitado de comparsa capaz de realçar o lado involuntariamente cómico da sua interligação. Bill Miller - assim se chama o personagem interpretado por Martin - é um daqueles exemplos do princípio de Peter, chegados muito acima do limiar das competências, mas sem o reconhecer. Ao invés, prosápia não lhe falta, mesmo pondo em causa a relação conjugal estabelecida com Mary, que não tarda a sentir-lhe o egoísmo ao ver-se refletida na forma injusta como trata Ted Rogers, o humilde e atrapalhado parceiro sem dar-se conta de ser este o fulcro do seu sucesso, mesmo não lhe dando direito a emparceirar com ele nos cartazes.

Claro que a moralidade acaba por sobrepor-se ao autismo de Bill com o happy ending num dos palcos mais importantes da Broadway. Há setenta anos não se poderia pensar em solução diferente para este tipo de comédias, que afloravam temas pertinentes, mas os dulcificavam em variantes - neste caso duplas! - da fórmula boy meets girl. Mesmo que se justifique a constatação de uma ambígua atração do personagem de Lewis pelo companheiro a quem demonstra uma quase canina devoção...