segunda-feira, setembro 20, 2021

O jogo como procura de estruturas estéticas?

 

Num documentário sobre Bacon abordam-se os três anos por ele vividos em Monte Carlo nos anos 40 do século passado, quando o vício do jogo fazia-o passar as noites no casino, delas regressando totalmente depenado a casa, impondo-se então a rápida pintura de novos quadros que, logo vendidos, lhe continuassem a suportar o hábito. No que não aventei a esse propósito foi a tese de um dos seus estudiosos que viu nesse fascínio pelo jogo e seus acasos, a réplica da sua busca de estruturas coerentes dentro do caos para que o empurrava a criatividade estética.

Francamente não sei se essa proposta de leitura não padece do evidente exagero assumido por uns quantos especialistas. Pessoalmente os quadros de Bacon continuam a suscitar-me pouco mais do que indiferença...

 

O homem em queda

 

Anos a fio andei à espera que a Academia Sueca galardoasse Philip Roth com o Nobel da Literatura embora a fama de misógino o vá tornando cada vez mais intragável para quem enfatiza as mensagens feministas independentemente do mérito literário em causa. Agora tenho esperado que seja Don DeLillo a merecer uma benesse que continuo a considerar totalmente injustificada para um cantor interessante quando era muito jovem, mas depressa envelhecido (no pior sentido!) ao ponto de assumir equívocos comportamentos ideológicos.

Antes de me encantar com  Um Homem em Queda, Libra, Mao II  ou Submundo me tinham convencido do seu talento. Mas o livro sobre o 11 de setembro de 2001 constituiu o definitivo relato ficcional sobre um acontecimento afinal não tão marcante quanto na altura pareceu. Mesmo que ainda há pouco tenha sido lembrado a propósito dos vinte anos entretanto passados. Os extratos escolhidos por Isabel Lucas para um dos melhores textos produzidos para a ocasião devolveram-me o fascínio sentido perante uma leitura que ainda revisitarei se a vida me der tempo bastante para essa e outras, que encararei com a curiosidade de saber que efeito produzirão anos passados sobre o deslumbramento inicialmente sentido. Aqui ficam em jeito de “petit apéro”:

“Deixara de ser uma simples rua, era agora um mundo, um tempo e espaço de cinza a tombar e quase noite. Ele caminhava para norte através do entulho e da lama e havia pessoas que o ultrapassavam a correr, com toalhas encostadas ao rosto ou casacos a cobrir a cabeça. Tapavam a boca com lenços de assoar. Traziam sapatos nas mãos, uma mulher com um sapato em cada mão surgiu a correr e deixou-o para trás. Corriam e caíam ao chão, algumas, confusas e desajeitadas, enquanto os destroços iam tombando à sua volta, e havia quem se abrigasse debaixo dos automóveis.” (...)

“O rugido permanecia no ar, o ronco distorcido da queda. Agora, o mundo era assim. O fumo e a cinza rolavam pelas ruas fora e dobravam as esquinas, irrompiam brutalmente às esquinas, ondas sísmicas de fumo com folhas de papel timbrado a surgirem em lampejos, folhas de formato padronizado com bordos cortantes, a pairarem, arrastadas num sopro, coisas inimagináveis na cortina de fumo matinal.”

domingo, setembro 19, 2021

Milos Forman, une vie libre, Helena Trestikova e Jakub Hejna (2019)

 

Pode-se gostar de quase todos os filmes de um realizador e sentir uma profunda antipatia pela pessoa que ele era? A resposta afirmativa encontra-se eloquentemente demonstrada no documentário, que Helena Trestikova e Jakub Hejna dedicaram à biografia de Milos Forman na sequência do seu desaparecimento em abril de 2018.

É  verdade que do período checo muito apreciei “ Os Amores de uma Loira”  ou “ O Baile dos Bombeiros”. Ou que houve pleno merecimento quanto aos Óscares recebidos graças a “Voo sobre um ninho de cucos” ou  “Amadeus”. Mas escutam-se as palavras de Forman e incomodam quanto ao seu anticomunismo primário, que realça a Liberdade como um valor em si, sem questionar a fundamentação dela estar restringida numa sociedade em que se procurava uma maior equidade social. Ideologicamente a inconsistência de Forman é evidente, denotando uma falta de ponderação sobre o tipo de sociedade em que vive. Mesmo o seu projeto sobre “Hair”  revela a ambiguidade de aparentar simpatias pelos valores da contracultura dos anos 60, quando afinal confessa o tédio inerente a ter convivido com uns quantos hippies, que lhe faziam simpatizar sobretudo com os progenitores incrédulos com a evolução ideológica dos seus rebentos.

Mesmo na vida afetiva Milos Forman revelou evidente egoísmo ao descartar-se rapidamente de Vera, a mãe do seu primeiro par de gémeos, quando em Paris sentiu saudades de casa e para ela quis voltar com os filhos, e ele decidiu partir para o sonho americano na expetativa de nele ganhar notoriedade e riqueza.

O egocentrismo do realizador é evidente ao longo de todo o filme: fala de si, de si, se si, e ainda de si, sem nunca verbalizar um pensamento que seja sobre as sociedades em que viveu. E a Liberdade, ou a falta dela, serve-lhe de capa para encobrir essa cegueira perante um mundo que muito mudou desde a queda do muro de Berlim e não necessariamente para melhor. Acresce, finalmente, a sua amizade com Vaclav Havel, um oportunista muito promovido pela sociedade ocidental, mas cuja relevância histórica resumiu-se a contribuir para derrubar um regime e substitui-lo pelo capitalismo selvagem, que fez da República Checa aquilo que hoje é! 

sexta-feira, setembro 17, 2021

Maria Judite de Carvalho e a Matéria Luminosa

 

1. Amanhã, 18 de setembro, passam cem anos sobre o nascimento de Maria Judite de Carvalho, cuja obra, apesar de recentemente editada, continua a não ter o destaque que a sua qualidade mereceria. Numa altura em que Elena Ferrante consegue tantas leitoras com as suas personagens anódinas, mergulhadas nas contradições inerentes às vicissitudes com que se veem confrontadas, estranha-se que algumas não sintam igual devoção por uma autora capaz de criar identidades semelhantes, dotá-las de rica via interior e confrontá-las com os constrangimentos de um tipo de sociedade que, mesmo referente à cinzentude salazarenta, ainda dela mantém muitas características.

Na mais recente edição do JL Maria Graciete Besse descreve as personagens dos seis romances, novelas, contos e crónicas como “marcadas por períodos de solidão, desencantoe renuncia, capazes de transmitir a tonalidade asfixiante do espaço salazarista. (...) As heroínas silenciosas e desiludidas são quase sempre mulheres banais, sem história, cujo corpo se exprime sobretudo através das lágrimas e de um monólogo interior que se constrói em torno do abandono, da doença e da obsessão da morte.”

2. Exposição aliciante, a que acaba de inaugurar-se no museu de arte contemporânea do Centro Cultural de Belém, intitulada “Matéria Luminal”  e contemplando sessenta obras de quarenta autores, criadas entre os anos 60 e os nossos dias. Estão lá obras de Júlia Ventura, Helena Almeida, Jorge Molder, Julião Sarmento, René Bertholo, Lourdes Castro, Jorge Martins, Fernando Calhau, Pedro Cabrita Reis, Rui Chafes, Ângelo de Sousa e muitos mais de quantos dotaram a arte portuguesa da segunda metade do século XX de uma criatividade, que se exprimiu na pintura, na escultura, no desenho, no vídeo ou nas instalações multimédia. Antecipam-se momentos estimulantes a percorrê-la, a determo-nos mais ou menos demoradamente perante cada uma dessas propostas.

 

quinta-feira, setembro 16, 2021

The Operative, Agente Infiltrada, Yuval Adler (2019)

 

Um filme de espionagem assinado por um realizador israelita? Convenhamos que as expetativas não eram famosas ao iniciar a apreciação de The Operative - Agente Infiltrada. À partida tratar-se-ia do sucedido com uma espia da Mossad em Teerão, apostada em sabotar o programa nuclear iraniano e, muito provavelmente, em contribuir, com mais uma personagem, para  a glorificação daqueles serviços secretos.

Nas primeiras cenas nada que contradissesse a previsão: Rachel (Diane Kruger) enviara uma mensagem ao seu responsável, recentemente reformado, para que a extraíssem urgentemente da capital inimiga pelo risco de vir a ser desmascarada. Será por esse Thomas (Martin Freeman), que passaremos a conhecer detalhadamente a forma como a conhecera e contratara, mesmo não havendo vínculos de sangue, que nela justificassem a adesão a uma causa tão ideologicamente vincada. E as coisas tornam-se mais complexas, quando o ex-agente é confrontado pelos antigos patrões quanto ao facto dela ter estado em Londres quatro dias antes para assistir ao funeral do pai e depois desaparecera sem o recurso aos aeroportos onde poderia ser mais facilmente localizada. Algo parece não bater certo e, de facto, começam a emergir as suas contradições: o incómodo com os métodos pouco escrupulosos da sua organização, que não mostra grandes escrúpulos em matar vítimas inocentes apenas por terem estado no sítio e hora errada no momento de consumação de alguma missão assassina. Ou em recorrer à chantagem para melhor vincular iranianos à sua causa. Às tantas compreenderemos que os motivos por que Rachel entrara na Mossad tinham a ver com o distanciamento afetivo perante um progenitor, historiador conceituado e simpatizante da causa palestiniana, mas sem conseguir nos novos amigos a plena inserção a que aspirava. Por um lado por não ter sangue judeu, por outra por nada perceber de hebraico.

Yuval Adler leva a abordagem a inimaginável, mas estimulante, abertura de espírito: Teerão até parece uma cidade agradável e os seus habitantes são quase todos simpáticos, sem grandes simpatias pelos façanhudos aiatolas. Daí que, mais do que um filme de espionagem, The Operative acaba por ser uma história sobre o desejo de alguém em ser reconhecida, mesmo sacrificando muitos dos seus valores, e acaba dececionada, por não conseguir melhor integração onde sempre continuará a ser considerada como um esdrúxulo ser. Algo que fá-la convergir com o próprio Thomas, também ele olhado com desconfiança pelos superiores hierárquicos, que troçam do seu domínio da língua e da nacionalidade britânica.