terça-feira, abril 27, 2021

(VOL) Contradições, sortilégios e comparações

 

Na História do Tráfico da Droga recorda-se o óbvio: alturas houve em que ingleses, norte-americanos ou franceses agiram como narcotraficantes para levarem por diante os seus interesses imperialistas nomeadamente em tempos de Guerra Fria. Como de costume aquilo que se critica aos outros deixa de ter motivos de censura, quando somos nós a praticá-lo. E essa é regra que, infelizmente, continua a ser plenamente atual nos nossos dias.

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Nobokov criou um poema sobre a Desconhecida do Sena, cujo nome ninguém saberia dizê-lo. Muito embora nem sequer haja certezas da história de se ter tratado de uma jovem afogada, cuja beleza e, sobretudo, sorriso, terá levado um empregado da morgue a fazer-lhe a máscara mortuária com gesso. Há quem afiance ter-se feito essa máscara vinte cinco anos antes a partir do corpo de uma jovem tuberculosa.

Transformada em ornamento da belle époque a máscara encontrava-se à venda em muitas lojas e foi numa delas, na Rue Racine, que o poeta Rilke a encontrou e comprou, tornando-a personagem importante do seu único romance: Os cadernos de Malte Laurids Brigge.

Por essa altura já muitos discutiam o sorriso da jovem em paralelo com o da Gioconda. Como explica-lo? Que estaria a pensar no momento do passamento?

Aragon e Breton ainda andavam a conjeturar o que viria a ser o Movimento Surrealista, quando ficaram enlevados com a mesma máscara e a decidiram promover como ícone dessas ideias. Em Aurélien, o mesmo Aragon também fez dela substantivo personagem literário.

E são muitos os que também assumiram o mesmo sortilégio: Picasso e Dali tinham-na pendurada nas paredes dos seus ateliês e seriam necessárias muitas páginas para elencar todos os escritores, dramaturgos, pintores, músicos e outros artistas, que tomaram-na como pretexto criativo.

Mais práticos os noruegueses da Laerdal Medical reproduziram-lhe o rosto nos seus manequins destinados à formação de técnicos de primeiros socorros. Desde então diz-se que a desconhecida do Sena é a mulher mais beijada do mundo...

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Versão alternativa à da célebre frase de Samuel Beckett sobre teimarmos em falhar sempre melhor é a de Sartre, que dizia ser o seu melhor livro aquele que estava nesse momento a escrever. Logo seguido daquele que acabara de publicar...

segunda-feira, abril 26, 2021

(DIM) Mistificações políticas e amorosas

 

Em 1904 o império colonial português conheceu inesperado dissabor: o exército sofreu 305 baixas na Guerra dos Cuamatos, que foi uma espécie de antecipação do que se viveu no norte angolano em 1961. Razão para que a coroa se decidisse por uma operação vigorosa, comandada pelo tenente Teixeira Pinto,que seria o responsável pela vitória, aparentemente definitiva, de 1907.

A Story from Africa é um filme, que recorre à hábil montagem de um rico espólio de fotografias da época, captadas pelo alferes Velloso de Castro, complementando-a com uma excelente sonorização de António de Sousa Dias. O realizador, o norte-americano Billy Woodberry mostra como o exército colonial recorreu a um traidor, Calipalula, com aspirações a ser o soba dessa região do sul angolano, para fomentar a divisão entre os ovambos e restabelecer o domínio português sobre a região. Consolidando-o mediante a construção de um forte crismado com o nome de D. Luiz de Bragança.

Não se tendo tratado de uma batalha decisiva numa guerra de libertação, que só se saldaria em 1975 com a independência, o filme serve para demonstrar que a resistência anticolonial foi frequente ao longo desse pseudoimpério, que Eduardo Lourenço dizia nunca tê-lo chegado a ser, porque, na verdade, os continentais nada lucraram com a sua mistificada existência.

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Sei que o rapaz tinha só 22 anos, quando rodou este Amores Imaginários, mas a sucessiva descoberta dos filmes de Xavier Dolan vão-me suscitando sempre a reação chiclete. Mastigo deteto-lhe o sabor e deito fora. Sem ter colhido qualquer prazer cinéfilo. Ou estarei apenas a manifestar um incómodo homofóbico por não apreciar as temáticas LBGT por muito que reconheça e defenda os direitos dessas minorias sexuais?

Neste filme vemos Francis e Marie, os dois amigos inseparáveis do título, a perderem essa cumplicidade pela interoposição de Nicolass. Espécie de perverso Adonis, o intruso irá suscitar devaneios nos outros dois, que de amigos se transformam em concorrentes, em rivais. Para ilustrar esta realidade, Dolan recorre a diálogos banais, porventura julgando-se capaz de igualar com Cassavetes, cuja influência fica-se mais pela pretensão a replicá-lo do que verdadeiramente a encontrar talento para tal.

Pode ser interessante a conclusão de serem as histórias de Amor mais imaginadas do que conformes com a realidade, mas a forma de chegar a esse desiderato é de uma confrangedora imaturidade.

(DIM) A alma perdida dos Rolling Stones

 

Nunca fui fã dos Rolling Stones. Talvez porque, até hoje, sempre olhei para a vida como a oportunidade para ter tantas satisfações quantas as possíveis, não se justificando o brado irreverente e, reconhecemo-lo!, gratuito com que Mick Jagger proclamava o contrário. Por outro lado nunca defendi o primado do sexo sem Amor, a excelência dos estados alterados pelas drogas que me impedissem um olhar lúcido sobre a realidade ou o rock’n roll, que sempre preteri em favor da folk  de intervenção (Pete Seeger, Woody Guthrie) e, a seguir da world music, até desembocar na música clássica, quando ganhei maturidade para tal.

De qualquer forma o fenómeno dos grandes nomes do rock desaparecidos aos 27 anos sempre me sugestionou, quanto mais não seja por ter tido um amigo de adolescência, que fez da morte de Jim Morrison uma tragédia tão pessoal que, ainda assim, me pareceu absurdamente exagerada.

Foi com a maior abertura de espírito que me pus a ver o documentário de Patrick Boudet dedicado a Brian Jones, criador da banda londrina em 1962 tendo convidado Mick Jagger e Keith Richards para se lhe associarem num projeto influenciado pelo blues e reverenciador de um êxito de Muddy Waters (“Rollin’ Stone”).

Foi, igualmente, quem conotou o grupo com a imagem sulfurosa de «maus rapazes» apesar de ter nascido numa família o mais convencional possível com o pai como engenheiro eletrónico e a mãe como pianista. As notícias escandalosas a seu respeito depressa surgiram na imprensa, antecipando-se às que viriam a ser protagonizadas pelos cúmplices musicais. As drogas e o álcool em excesso justificaram as visitas às esquadras de polícia embora a queda no abismo tenha resultado de uma traição de Keith Richards, que aproveitou a sua hospitalização com um ataque de asma para lhe surripiar a namorada, uma modelo alemã por quem sentia uma paixão avassaladora. Mas, nesse ano de 1967, embora sentissem-no imprescindível na banda, porque era exímio intérprete em diversos instrumentos - guitarra. sitar, marimbas, flauta, acordeão - Jagger e Richards já estavam a levar por diante a estratégia golpista dentro do grupo, que o levasse a saltar para fora da carruagem.

Inadaptado ao circo infernal da cena rock, a descida aos abismos não conheceria travão, sendo previsível o desenlace ocorrido em 3 de julho de 1969, quando apareceu morto na piscina da sua casa. Seria o trágico fundador do clube dos 27, logo seguido por Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison e, mais tarde, por Kurt Cobain e Amy Winehouse.

Neste percurso biográfico a imagem dos demais Stones não sai particularmente favorecida, mas, quanto à música, convenhamos que Brian Jones nada compôs ou interpretou que me possa agradar nesta altura da vida...