terça-feira, outubro 20, 2020

(DL) Rumo ao Farol, Virginia Woolf, 1927


De todos os romances de Virginia Woolf é este o que mais me agrada, por muito que Mrs. Dalloway, publicado dois anos antes, me sugestione, igualmente, como inolvidável. Até por ter dado forma definitiva à técnica do fluxo de consciência aqui potenciada, na mesma oposição clara entre duas formas distintas de interpretar a realidade: a masculina, radiosa e dominadora, e a feminina, fluida na resiliência perante as circunstâncias. Nesse sentido o casal Ramsay corresponde ao decalque dos próprios progenitores da escritora, ele tirânico e ela compassiva.

A estrutura do romance consiste em duas divisões, que Virgínia considerava ficarem ligadas por um corredor. A primeira parte (“A Janela”) passa-se na casa de férias que a família Ramsay tem à beira-mar numa ilha ao largo da Escócia. A Primeira Guerra Mundial está prestes a acontecer a há uma promessa que fica por cumprir: a do passeio até ao farol, que se vislumbra à distância, e motivo de curiosidade dos oito filhos do casal. Se a mãe se entusiasmara com a possibilidade, o pai depressa a desconsiderara, porque o dia seguinte, aprazado para a expedição, seria de chuva intensa.

Passam-se dez anos - é o tal corredor a que Virgínia Woolf dá como título “O Tempo Passa”! - e é feito de numerosos lutos: além de Mrs. Ramsay, um dos filhos sucumbe nas trincheiras e uma das filhas não sobrevive a um parto. A casa de férias esvaziou-se de quem a costumava ocupar como se o universo tivesse ficado mergulhado nas trevas.

Entra-se, então, na outra parte do romance, aquela a que a autora deu o título de “O Farol”. Volta a ser verão, a vida sobrepôs-se à dor pelos que morreram e os sobreviventes regressam à  ilha para cumprirem finalmente o passeio planeado com a mãe: “estava tão bela a manhã, à parte de um ou outro sopro da brisa. O mar e o céu pareciam feitos da mesma textura, como se fossem velas suspensas de muito alto, lá no céu, ou que as nuvens tivessem caído no mar”.

Na derradeira página do livro a pintora Lily Briscoe, tia de Mrs. Ramsay, acaba o quadro, há muito encetado, onde representa, de modo não figurativo, a unidade do casal. Ao longo do processo criativo os retratos de Mr. e Mrs. Ramsay tinham-se alterado progressivamente até resultarem nessa definitiva complementaridade dos seus sonhos e consciências.

A realidade dificilmente correspondera a essa harmonia pictórica: quando não estava focado no trabalho, Mr. Ramsay equacionava qual o seu papel no seio da família e quem verdadeiramente era. A defunta esposa, indiscutível protagonista do romance, mesmo quando já só vive na memória de todos, consciencializara a subtil inversão de poder, que fazia o marido dela depender e de dar coerência ao relacionamento entre todos quantos integravam a família.

Lily necessitara do distanciamento do tempo para conseguir juntar marido e mulher no mesmo quadro. Através das recordações a morte é vista em perspetiva, diluindo-se a importância das querelas passadas. E o livro acaba com uma síntese elucidativa assumida pela artista: “Olhou os degraus. Estavam vazios. Olhou a tela. Estava fluida. Com súbita intensidade, como a visse claramente num breve segundo, traçou uma linha no centro. Estava feito, estava acabado. Sim, disse para si mesma, pousando o pincel com um tremendo cansaço. Tive a minha visão.”

 Se a estrutura do romance é perfeita, a escrita poética surge desenvolta numa musicalidade não despojada de humor. Os pontos de vista narrativos vão mudando, o estilo indireto muda subtilmente para o direto e vice-versa, e os saltos temporais quase não se notam. A construção da obra de Lily é uma metáfora coincidente com a do próprio romance, como se a escrita replicasse os dilemas das escolhas de cores e as alternâncias entre a luz e a sombra, como eram motivo de discussão e experimentação pelos pintores pós-impressionistas do grupo de Bloomsbury com quem Virgínia Woolf convivia. Um deles, o crítico Clive Bell até se tornara seu cunhado, ao desposas a irmã, Vanessa.

Concluamos com o que simboliza o farol do romance: mais do que a associação fálica, que o romance acaba por desmentir, ele corresponde à luz cintilante, que aponta para a plenitude interior, mesmo quando pesa a sensação de haver uma incontornável ausência.

sexta-feira, outubro 16, 2020

(DIM) O Rapaz do Cabelo Verde, Joseph Losey, 1948

 


Há muito que os cinéfilos retêm de O Rapaz do Cabelo Verde um exemplo antológico sobre a tolerância, o otimismo e outros valores humanistas.  No entanto, Joseph Losey, que aqui assinava a sua primeira-longa-metragem, consideraria este filme muito aquém do que pretendia inicialmente, porque, ao foco na questão racial, a RKO quis impor-lhe a formatação de uma parábola pacifista tão do agrado de uma esquerda norte-americana ainda aterrorizada com tudo quanto a Segunda Guerra acabara de lhe revelar, quer com os cenários de horror dos campos de concentração, quer com a destruição instantânea de Hiroxima e Nagasáqui. O receio apocalítico relativamente a um conflito nuclear ainda mais se acentuaria, quando se soube a notícia do primeiro engenho soviético em 1949.

É esse acrescento, pretendido pela produção, que torna o filme mais datado e lhe acentua a ingenuidade, que o cinismo atual tende a olhar com distanciamento. A vertente racial está, porém, bem demonstrada na cena em que a professora de Peter - essa Miss Brand interpretada pela esquecida Barbara Hale - confronta os alunos, já então desconfiados, senão mesmo agressivos para com o colega com cabelo verde, a constatarem quantos o tinham preto, castanho, loiro ou ruivo.

Por essa altura Losey não tinha condições para impor a vontade a quem lhe dava a oportunidade de pular para o grande écrã, ele que ganhara nomeada como encenador teatral e rodara alguns filmes educativos para o governo norte-americano durante os anos 40. De qualquer forma os políticos macartistas compreenderam o potencial do filme como emissor de mensagens subliminares por parte de um realizador e de argumentistas, que sabia próximos do Partido Comunista dos EUA. Quatro anos depois, quando convocaram Losey a testemunhar na odiosa Comissão das Atividades Antiamericanas  esqueceram-se que ele estava em Itália a rodar um filme, razão porque já não voltou para casa e procurou abrigo político na Inglaterra onde viria a assinar títulos relevantes dos anos 60 e 70 - O Criado, Acidente e O Mensageiro.

Temos assim a história de um miúdo de dez anos, que vive com um pai adotivo, particularmente afetuoso - grande interpretação do veterano Pat O’Brien apesar da falhada sequência em que explicita o talento de artista de variedades!- e cujo cabelo fica verde no dia seguinte ao se saber órfão de guerra. Nos dias seguintes a curiosidade inicial, e depois o orgulho quando um encontro na floresta com outros rapazes e raparigas como ele, lhe dão um sentido para a singularidade, vê-se olhado com desconfiança pelos vizinhos e ameaçado pelos colegas mais velhos. Quando o próprio Gramp o trai, instando-o a deixar-se rapar, foge e é já na esquadra de polícia, que conta a um psicólogo (Robert Ryan) o quanto com ele se passara.

Apesar do curto orçamento, o filme beneficia de um excelente trabalho de iluminação e de cenografia, embora a qualidade maior vá para o sublime Technicolor, que realça as cores primárias e muito particularmente o verde do cabelo de Peter.

Ficando como metáfora eficaz contra o racismo e o medo da diferença, pela tolerância na relação com o Outro, O Rapaz do Cabelo Verde ainda conta com a conhecidíssima canção do genérico inicial, que depois viria a ser eternizada por Nat King Cole e, depois, por David Bowie.

Uma palavra final para Dean Stockwell, que foi uma das crianças mais talentosas utilizadas pelos estúdios de Hollywood no pós-guerra. Já em adulto ainda o veríamos em muitos trabalhos televisivos e, particularmente, nalguns filmes de David Lynch. 

quinta-feira, outubro 15, 2020

(DL) «Pegadas», um livro que vale a pena voltar a assinalar

 


Dez dias atrás já aqui chamei a atenção para este livro de David Farrier, mas nunca é demais assinalar-lhe a importância numa altura em que está, igualmente, disponível um documentário de referência, protagonizado por David Attenborough, na Netflix. A urgência causada pela crise sanitária não justifica, que se subalternize a outra, suscitada pela ameaça distópica inerente às alterações climáticas. Embora possa pecar por estulta importa olhar para a realidade com a atitude do escritor irlandês John Stewart Collis, quando, num certo dia de novembro, espreitou o oceano a partir de uma colina de Dorset e sentiu o que assim registou: “tentei imaginar o espaço mais além. Por um segundo, tive um verdadeiro vislumbre desse espaço, e do espaço para lá desse espaço. E, talvez por um segundo, vi a realidade de cem milhões de anos.”

Olhar o planeta de acordo com os milhões de anos, que nos antecederam e muitos outros, que contará depois de, provavelmente, estivermos reduzidos à condição de fósseis, permite relativizar as dificuldades a ultrapassar para que esse desiderato se adie tanto quanto possível. Escreve Farrier: “A pegada tornou-se uma das metáforas mais amplamente reconhecidas do impacto humano no planeta. Sobretudo no Ocidente, somos frequentemente instados a ter em atenção que a forma como vivemos produz uma marca química mais profunda ou mais superficial na atmosfera do planeta. A nossa pegada de carbono é uma marca do quanto (ou de quão pouco) nos preocupamos com as consequências das nossas ações.”

Na História geológica da Terra os nossos vestígios perdurarão durante milénios, tornando-nos “fantasmas que assombrarão um futuro muito longínquo.” E “hoje em dia o nível de CO2 na atmosfera será de cerca de 415 ppm, aumentando cerca de 2 ppm por ano. Cientistas da Universidade Nacional da Austrália especializados no estudo do clima propuseram recentemente que as atividades humanas provocam alterações ao sistema terrestre 170 vezes mais rápidas do que os processos naturais. Segundo este cálculo estonteante, assistiremos a 10 mil anos de alterações ambientais em 58 anos, menos do que uma só vida.”

Farrier não anuncia nada de novo, mas justifica-se que se repitam muitas vezes o que detalha no seu livro para apressar políticas que, há muito, deveriam ter sido tomadas.

segunda-feira, outubro 12, 2020

(EdH) O Ku Klux Klan - uma das histórias dos Estados Unidos

 

Amanhã o canal ARTE dedica a primeira parte da sua noite temática das  terças-feiras à História do Ku Klux Klan e a sua influência duradoura no imaginário coletivo de uma América à beira de novo teste eleitoral. O documentário, dividido em duas partes, é da autoria de David Korn-Brzoza  e data deste ano. Como de costume, recorrendo a arquivos e a eloquentes testemunhos, aborda-se uma história sinistra, em parte pouco conhecida.

A primeira parte intitula-se Nascimento de um império invisível, referenciando a fundação do mais antigo grupo terrorista do  país em 1865, quando um grupo de derrotados da guerra da Secessão fundou uma sociedade secreta no Tennessee. O termo Ku Klux Klan remetia para uma origem etimológica grega referente ao «círculo» à volta do qual se reuniam os membros encapuçados, que pretendiam resistir aos efeitos de uma realidade traduzida em 4 milhões de negros libertados da escravatura para os 9 milhões de habitantes dos antigos Estados federados.

Três anos depois a sociedade secreta transformara-se numa organização paramilitar, multiplicando atentados e linchamentos  em suposta defesa dos direitos dos brancos. Bem tentou Washington ripostar com a intervenção do exército federal, mas os poderes políticos e judiciais, concentrados em simpatizantes do Klan, aprovaram as leis «Jim Crow», que estipularam a segregação racial nesses Estados do sul. Por essa altura os linchamentos tinham ganho um ritmo tão regular, que até se vendiam postais com imagens de negros pendurados das árvores.

O cinema também não ajudou, pois até um dos seus mestres, David W. Griffith, contribuiu para a promoção do «heroísmo» dos membros do KKK com O Nascimento de uma Nação, filme então visto por 50 milhões de espectadores. Numa sequência lógica da sua ação, o ódio aos negros estendeu-se, igualmente, aos emigrantes, aos comunistas, aos judeus e até aos católicos.

Em 1924 os 4 milhões de membros com que então contava, foram suficientes para impor aos Estados do norte as leis de emigração, que perduraram nos quarenta anos seguintes.

Sucessivos escândalos internos e a Grande Depressão contribuíram para enfraquecer a organização, ainda mais desacreditada durante a Segunda Guerra Mundial, quando não escondeu as suas simpatias fascistas e nazis. Se desapareceu durante uns anos, o KKK voltou a reaparecer como resposta ao Movimento pelos Direitos Cívicos. Mas essa é abordagem já transferida para a segunda parte do documentário, a que trata das Ressurreições.

Em 1954 o Supremo Tribunal declarou inconstitucionais as leis de segregação racial nas escolas públicas. Ressurgindo com a cumplicidade das autoridades locais de alguns Estados, procurou contrariar uma tendência, que se revelaria incontornável. Em 1963, a marcha sobre Washington mobilizou centenas de milhares de pessoas consonantes com o sonho de Martin Luther King, tendo como resposta a explosão de uma bomba numa igreja em Birmingham, Alabama, causadora da morte de quatro raparigas. Se bem que os autores do crime tenham sido rapidamente identificados, J. Edgar Hoover arquivou a investigação.

No ano seguinte o assassinato de três militantes dos direitos cívicos, envolvidos nas operações de recenseamento das populações do sul, causou tal escândalo, que o patrão do FBI já não consegue evitar a investigação, que coincidiu com o decreto de Lyndon Johnson a pôr fim á segregação racial.

Nos anos seguintes o Ku Klux Klan perdeu 70% dos seus membros e diluiu-se numa nebulosa muito diversificada de suprematistas brancos, que hoje constituem a putativa tropa de choque de Donald Trump. Segundo Mark Potok do Center for Analysis of the Radical Right o ainda inquilino da Casa Branca tenta atiçar os medos e os ódios ancorados no imaginário racista para catalisar a angústia de um número significativo de brancos angustiados com os efeitos económicos, sociais e culturais que se vivem atualmente. A extinção de empregos em setores, que a globalização afetou, enfatiza-se com a sensação de estar em curso uma transformação social feita de valores ainda impensáveis quinze anos atrás, porque quem imaginaria hoje legais os casamentos entre pessoas do mesmo sexo em todos os Estados da União?

Outra assombração tem a ver com a demografia, que mudou dos 90% de brancos no conjunto do país em 1950, a tenderem para menos de 50% nos próximos vinte cinco anos. O racismo, que cresceu notoriamente durante os dois mandatos de Barack Obama, encontrou terreno mais favorável no de Donald Trump. Embora, uma vez mais, a realidade tenda a torná-lo obsoleto: aumenta exponencialmente o número dos casamentos mistos e os recenseados brancos tendem a ver reduzida rapidamente a sua supremacia percentual. Ademais os cerca de cinco mil neonazis distribuídos por uma trintena de grupúsculos tendem a odiar-se tanto entre si, quanto aqueles que fazem gala em anunciar como seus inimigos fidalgais.

As quase duas horas de duração do documentário de David Korn-Brzoza  permitem um olhar informado sobre o passado e uma perspetiva otimista sobre o fim deste tipo de extremistas. 

(DL) A Leitura como testemunho e como resistência


1. Há livros que apetecem reler depois de nos terem deixado gratas memórias quando os descobrimos num passado já tão remoto, que o situamos noutro milénio. Foi de facto no final do que deixámos para trás, que Carlos Fradique Mendes regressou pela pena de José Eduardo Agualusa no seu Nação Crioula, também nome do navio negreiro, que assume particular relevância no desenrolar da intriga. É nele que o protagonista foge de Luanda para o Brasil acompanhado da bela Ana Olímpia e do amigo Arcénio de Carpo, para escaparem às consequências judiciais pelo falhado homicídio de um crápula, todo feito de defeitos e  nenhumas virtudes.

Para além das aventuras, que conduzem o leitor pelas terras de Angola e do Nordeste brasileiro, com uma ou outra escapadela a Lisboa e a Paris, o romance explora os impasses da sociedade colonial, que rentabilizava-se à conta da mão-de-obra escrava numa altura em que as potências europeias desenhavam as fronteiras de África a régua e esquadro e tinham proclamado ilegítima essa forma de exploração. Se a decrépita coroa lusa pretendia ver reconhecida toda a vastidão das terras situadas nesse costa-a-costa entre o Atlântico e o Índico, no que designou como mapa cor-de-rosa, não havia colonos bastantes para povoá-las e retirar argumentos à ganância britânica, decidida a abocanhar as situadas no meio do continente.

Fradique Mendes torna-se testemunha privilegiada do que está em causa em Angola e no Brasil, tendo por objetivo dar a Ana Olímpia a felicidade possível depois de a ter sabido escrava e depois senhora, voltando a ser escrava por uma daquelas reviravoltas do «destino», que o romantismo tanto explorara mas já tão distante, enquanto estilo literário, do agrado dos seus amigos diletos - Eça de Queirós e o «santo» Antero. Entre 1868, quando chega a Luanda e 1900, data da carta de Ana Olímpia a quem verdadeiramente o criara como personagem, Fradique Mendes é superiormente utilizado por José Eduardo Agualusa para criar um romance que, a coberto das vicissitudes por que passam as personagens nesse passado eivado de contradições, faz refletir sobre as que se vivem no presente.

2. Na mesma semana em que se conheceu a nova contemplada com o Nobel da Literatura, ´uma das suas antecessoras, Svetlana Alexeievitch, está em risco de ser encarcerada devido à corajosa oposição à ditadura no seu país, a Bielorrússia. Ao editor sueco ela pediu que se fizesse o máximo ruído em torno do seu nome para travar as intenções dos esbirros de Lukashenko. O que é um bom motivo para retirar das prateleiras os seus livros dedicados aos que viveram as esperanças e desilusões do regime soviético ou os efeitos da explosão de Tchernobyl. Porque a leitura também pode ser uma forma de resistência contra a opressão. Quanto mais não seja pelas consciências, que pode despertar...

domingo, outubro 11, 2020

(DIM) Um dia em Auschwitz, Winfred Laasch e Friedrich Scherer, 2020

 


As mulheres e crianças da fotografia acabaram de chegar num comboio proveniente da Hungria e estão condenadas a morrer nas horas seguintes. Estava-se em maio de 1944 e a máquina de extermínio em Auschwitz-Birkenau funcionava em pleno para concretizar a «solução final».

Esta e outras fotografias foram captadas por Bernhard Walter, soldado SS incumbido de fotografar os deportados quando chegavam ao campo bem como todo o processo, que se seguiria, quer direcionando-os para as câmaras de gás, quer para os barracões onde pernoitariam nos intervalos da sua utilização como mão-de-obra escrava para produzirem quanto era necessário para alimentar a máquina de guerra nazi.

Ao contrário do que acontecera com os pavilhões onde o zyklon B matara milhares de vítimas e de que os soldados soviéticos só tinham encontrado os escombros ao libertarem a região - os nazis  haviam-nos feito explodir antes de fugirem para oeste -, as fotografias de Walter escaparem a essa intenção de se apagarem os vestígios do sucedido, encontrando-se hoje conservadas no Instituto Yad Vashem em Jerusalém. Nelas se conserva a derradeira imagem de pessoas em vias de ser assassinadas e que tinham deixado atrás de si as esperanças de uma vida convencional com as suas alegrias e tristezas.

O documentário de Laasch e Scherer é apenas mais um documento a acrescentar aos muitos, que contra-argumentam os propósitos negacionistas de uns quantos fascistas dos nossos dias. E, numa altura em que estão a desaparecer os derradeiros sobreviventes desse crime perpetrado contra a Humanidade, nenhum se revela dispensável para lembrar como as extremas-direitas não se impõem quaisquer limites quando tudo fazem por preservar e aumentar a riqueza dos que quase têm tudo.  Não esqueçamos que os grandes industriais alemães, que financiaram o nazismo e dele colheram benefício, continuaram a manter os seus negócios depois da guerra, quase nunca sendo incomodados pela autoria moral - e em muitos casos material, porque usaram e abusaram dessa mão-de-obra escrava! - pelos crimes cometidos. 

sexta-feira, outubro 09, 2020

(DL) Outrora e outros tempos, Olga Tokarczuk

 


Agora que o conhecido invejoso nacional voltou a carpir as mágoas por dele se esquecerem os jurados do Nobel, vale a pena voltar à galardoada de há dois anos, Olga Tokarczuk, que, até então, me era completamente desconhecida, mas tem dado sucessivas provas da justeza de se ter visto assim reconhecida. Olhando para este título, que foi o seu primeiro sucesso internacional, compreende-se porque julgou asizada a tradutora para português de a propor ao editor da Cavalo de Ferro, prevendo-lhe precisamente esse prémio para breve.

Diogo Madre Deus terá ouvido esse veredicto como exagerado, mas a descoberta subsequente do universo literário da autora convenceu-o a empreender a sua divulgação junto dos leitores portugueses. Que tão-só identificados com o nome da escritora, e mesmo sem lhe saberem pronunciar o nome, puderam encontrar Viagens nas livrarias, inaugurando com ele a condição de tokarczukianos, singular seita com crescente volume de prosélitos dada a satisfação garantida pela descoberta de cada romance.

Outrora está para a escritora polaca como Yoknapatawpha para William Faulkner: é um território mítico na periferia do império russo, mas hoje pertença da Polónia protofascista de que Olga tem sido incansável opositora. Balizada por fronteiras definidas pelos pontos cardeais, todas elas protegidas por um anjo protetor, aí vive gente excêntrica, que depressa aprendemos a conhecer: a moleira, que viu partir o marido para a guerra e não consegue evitar a atração sexual pelo empregado judeu, a rapariga lindíssima, que se prostituíra e engravidara, depressa ganhando cabelos grisalhos e fama de bruxa, o Homem Mau, que se escondeu na floresta e aí se bestializou. A partir daí todo esse território evolui durante três gerações, atravessa as duas guerras mundiais e replica, a seu modo, a História de boa parte do século transato. Olga Tokarczuk confessa que, com ele pretendia criar “a história de um mundo que, como todas as coisas vivas, nasce, cresce e depois morre… Cozinhas, quartos, memórias de infância, sonhos e insónia, reminiscências e amnésia fazem parte dos seus espaços existenciais e acústicos, compondo as diferentes vozes da sua história.»” Mas, mais do que isso somos atraídos a um universo incrivelmente envolvente cujas vicissitudes queremos conhecer de fio a pavio sem descansarmos enquanto não chegamos ao fim. 

terça-feira, outubro 06, 2020

(DL) Elena Ferrante, A Vida Mentirosa dos Adultos

 

Sempre que leio os romances da famosa escritora italiana é para lhe tentar descobrir as razões porque enleia o leitor numa armadilha tão bem congeminada, que quase todos os seus rendidos apreciadores replicam um conhecido escritor norte-americano, que pediu ao agente para lhe arranjar os diversos romances por ela assinados dedicando-lhes morosa leitura numa tournée  de apresentação dos seus livros pelos Estados Unidos e, em poucos dias, tinha-os lido todos.

Uma vez mais não encontrei a fórmula secreta que torna a narrativa envolvente, ainda que sentisse este romance menos conseguido do que os anteriores, já que, embora sendo um dos quatro ou cindo livros que vou lendo quase ao mesmo tempo, demorei-me nele uma semana. Talvez porque me irritou essa narradora, uma rapariga adolescente decididamente do contra: os pais alertam-na para não conhecer a horrível tia Vittoria e ela não descansa enquanto o não faz. Depois, não deixa de dar o contributo para o estilhaçamento da família, tal qual lhe previam resultar desse contacto, mesmo que os fundamentos dessa rutura já andassem há muito a acumular-se. Chegamos a desejar que ela não se envolva fisicamente com um estroina e com o amigo mafioso e ela logo se compraz em dar prazer sexual a um e a manter um assédio contínuo ao outro.

Avança-se e também consideramos moralmente reprovável, que tente roubar o namorado a uma suposta amiga, e ela até vai de Nápoles a Milão para ver se se enfia nos lençóis onde a outra terá estado na véspera.

Em suma a história é banal, passada entre gente de classes sociais diferenciadas, mas que acaba por em pouco se diferenciarem e, no fim, ficamos com o amargo de boca de darmos razão a Shakespeare num dos seus mais famosos títulos: Much Ado about nothing!