domingo, setembro 27, 2020

(DIM) O Labirinto das Mentiras, Giulio Ricciarelli, 2014

 


Salvo raras exceções - Adeus Lenine ou A Queda - o cinema alemão vai passando quase imperfetivelmente pelos nossos cinemas sem suscitar o entusiasmo e o acolhimento público, que mereceria. E este filme, que se estreou entre nós em 2015, é disso um claro exemplo, apesar de extremamente bem feito e abordar um tema capaz de suscitar o interesse de quantos se interessam pelo nazismo e a ulterior punição dos seus principais cabecilhas.

Baseado no Processo de Frankfurt, O Labirinto das Mentiras aborda as dificuldades por que passa um jovem procurador apostado em julgar os responsáveis pelo campo de Auschwitz tendo em conta que, quase todos à sua volta, o instam a deixar as coisas tal qual estão!

De início tem uma testemunha que reconheceu no professor de um escola um dos seus carcereiros, quando estava aprisionado no sinistro campo de concentração. E faz-se acompanhar na queixa judicial por um jornalista, Thomas Gnielka, que informa Johann Radmann do avassalador trabalho que o espera se contrariar os colegas, decididos a manter incólume a lei do silêncio sobre o que acontecera nesse passado ainda recente.

Vale a Radmann o procurador Fritz Bauer, que lhe dá cobertura para levar por diante o maior processo penal da história da República Federal Alemã. Iniciado em 1963 e concluído vinte meses depois após se ouvirem os testemunhos de 211 sobreviventes, esse julgamento saldou-se pela condenação de 19 membros da SS, entre os quais Robert Mulka, que fora adjunto do comandante do campo, entretanto falecido.

Conseguindo manter um ritmo narrativo envolvente, Ricciarelli mostra como uma sociedade pode criar conivências labirínticas, quando quer-se eximir às responsabilidades dos monstros delas emergidos. Mesmo quando os autores dessa criminosa intenção têm a aparência banal de «cidadãos exemplares».

(o filme passa amanhã à noite no canal franco-alemão ARTE)

 

sábado, setembro 26, 2020

(DIM) Percursos femininos

 


Há um par de semanas as coincidências na distribuição de filmes nos cinemas lisboetas fez com que se estreassem, quase em simultâneo, os que abordavam a trágica situação em que ficou Maria Adelaide Coelho da Rocha quando, em 1918, decidiu trocar o marido pelo motorista levando as sumidades psiquiátricas da época (mormente Egas Moniz e Júlio de Matos) a enclausurarem-na no manicómio, e o percurso de Marie Curie cujos amores com Paul Langevin foram motivo de escândalo em 1911 apesar do prestígio adquirido como cientista, anteriormente, consagrado com os Nobeis da Física em 1903 e o da Química nessa mesma altura.

Ordem Moral de Mário Barroso é interessante não só por proporcionar a Maria de Medeiros um encomiástico desempenho mas, também, por representar aquilo que a atriz designa como uma autêntica provocação dadaísta ao conservadorismo da sociedade portuguesa. De facto, oito anos depois da implantação da República só no formalismo das instituições políticas, o país entrara numa dinâmica progressista, porque pese embora o justificado anticlericalismo de muitos dos novos governantes e deputados, a rendição aos valores pregados pela Igreja continuavam a preponderar de Norte a Sul do país. Daí que Maria Adelaide tenha sido crucificada em nome de um tipo de família em que o homem era tido como o incontestado chefe. Nesse sentido Ordem Moral apresenta o corajoso combate de uma mulher demasiado frágil para levar de vencida as forças que, contra ela, se arregimentam.

Com Marie Curie passa-se o contrário e é essa a perspetiva dada pela franco-iraniana Marjane Satrapi, que adapta uma novela gráfica de Lauren Redniss para, em 1934, pôr a agonizante cientista, em sucessivos flash backs e fast forwards, a rever tudo quanto vivera, superando as dificuldades levantadas no sentido de a impedirem de ser quem era. Radioativo é um suporte visual diferente do que a realizadora utilizara no seu Persépolis, mas está lá a mesma matriz, o seu estilo identitário. E faz todo o sentido que uma mulher escapada do país dos aiatolas tome por tema um percurso de vida de quem jamais se deixou dobrar pelo machismo e cobardia dos homens apostados em menoriza-la.

quinta-feira, setembro 24, 2020

(DL) Quando Walter Scott visitou as Shetland

 


Entre viagens de lazer e as que me levaram a viver as graças dos mares durante duas dúzias de anos - embora tivesse a minha conta de furacões e grandes temporais! - conheci paisagens inesquecíveis, mas faltaram duas que me deixam frustrado por ainda as não conhecer: uma foi Nova Orleães, apesar de ter estado a menos de duzentos quilómetros dela numa estadia em Pascagoula, na vizinha Luisiana! A outra, a que verdadeiramente interessa ao que se segue, foi a Escócia. Nesta última gostaria de ter procurado o célebre monstro na plácida superfície de Loch Ness ou atentado nas mínimas correntes de ar ao visitar os castelos assombrados. Melhor ainda gostaria de ter imitado Burt Lancaster em Local Hero e, com o outono já avançado, ver as auroras boreais. Ou dar um pulo às Hébridas para escutar o mar tal qual Mendelssohn o reproduziu na opus 26, logo levando a aventura a latitudes mais elevadas, a essas Shetland onde Walter Scott chegou em 1814, aproveitando a boleia dos faroleiros, que iam substituir os colegas nas semanas de serviço, que lhes calhavam, podendo assim cumprir o desejo de melhor conhecer a Escócia natal por que sentia uma enorme afeição.

No diário, que escreveu sobre as semanas aí passadas, considerou melancólicas, selvagens e comovedoras as ilhas do arquipélago, nelas testemunhando tempestades furiosas enquanto deparava com falésias abruptas ou planícies despidas.

Infatigável caminhante, Scott fez um autêntico trabalho de antropólogo interessando-se pelas tradições e histórias da tradição oral, embora não lhe fosse impercetível a desconfiança de muitos dos camponeses por quanto ele lhes parecia estranho: embora a nacionalidade fosse a mesma, eles identificavam-se com as origens vikings, de que descendiam, menosprezando a que lhes era politicamente imposta.

Scott ainda não escrevera Ivanhoe e até só se tornara conhecido como poeta. Mas aquela viagem servir-lhe-ia de ponto de viragem, optando doravante por romances históricos. E um dos primeiros que publicou, O Pirata, decorreu da experiência ali vivida, mesmo que situando a história no século XVII. Nela incluiu dois forasteiros, pai e filho, que alugam a mansão, quase em ruinas de um antigo laird, meninas casadoiras  apostadas em encontrar amores enlevados, um grupo de piratas e uma feiticeira, que ajuda a premiar os bons e a castigar os maus.

A obra só teve uma versão portuguesa em 1953 naqueles livros de capas inigualáveis das Edições Romano Torres e nunca mais por aqui se fez lembrado. Na Escócia, porém, continua a ser lido, e até estudado. E digam lá se não era mesmo tentador seguir os passos de Mordaunt e de Norna, em paisagens não muito diferentes das que Walter Scott ali encontrou quando as viu há mais de dois séculos?

quarta-feira, setembro 23, 2020

(DIM) Ensaio de um crime, Luís Buñuel, 1955

 


Este filme de Buñuel leva-me de regresso ao passado, quando recordo um dos filmes, que mais me marcaram no início da adolescência: O Menino Selvagem de François Truffaut. Para além do filme em si, que hei-de abordar quando puder revê-lo, há a evocação da sala, a do Estúdio 444 na Avenida Defensores de Chaves, uma das que as décadas seguintes se incumbiram de só perdurarem na memória de quantos nelas viram bons filmes.

Lembra-me a folha de sala da Cinemateca, que nela se estreou este filme de Buñuel doze anos depois de produzido no México, onde cumpria a sua primeira fase criativa ali propiciada por um exílio concluído em 1960 quando, sob fortes críticas dos republicanos, regressou à Espanha franquista para rodar Viridiana.

Tratando-se de uma abordagem do crime em que incluiria todas as suas conhecidas obsessões tem, logo nos primeiros minutos, uma cena perturbora, mas tipicamente bunuelina: um miúdo vê a detestada precetora aproximar-se da janela para espreitar a Revolução em curso lá fora e, ao mesmo tempo que manuseia uma caixa de música, ela é mortalmente atingida por uma bala perdida vinda lá de fora.  O sorriso que se desenha nos lábios não é propriamente causado pela bala, que lhe abrira um buraco no pescoço, mas por quanto surpreende das coxas desnudadas onde têm particular relevância as ligas a que se prendem as meias. O fetichismo, que tem presença na extensa filmografia do realizador, colhe desse instante um exemplo antológico.

Archibaldo, assim se chama o miúdo, irá crescer, sempre condicionado pelos estímulos suscitados pela música da tal caixa e por mulheres, que replicam de alguma forma a figura materna cujo distanciamento tanto o afetara.  As intenções homicidas apossam-se dele com uma falta de controle, que o levam até à quase execução. Mas, singularmente, essas mortes acabam por acontecer devido a acidentes, que não pela efetiva concretização de quem tanto as desejara.

A questão sobre quem será mais culpado, se quem desejou o ato, se quem acabou por suscitá-lo,  complementa-se pela frustração de Archibaldo, que quer ser punido por essas fantasias e não consegue. O polícia manda-o embora da esquadra com o veredito: se fossemos prender todas as pessoas que desejaram matar, num momento ou noutro, o mundo era uma prisão!

Chega-se assim ao happy end, que os críticos julgaram tratar-se de concessão de Buñuel à vontade dos produtores ou dos censores. Mas, em entrevistas, ele negava essa rendição: na forma equívoca como se concluía, o filme causava mais interrogações do que certezas sobre a efetiva identidade do protagonista.

 

terça-feira, setembro 22, 2020

(DIM) Mais um grande ator que desaparece

 


Nesta segunda-feira o cinema francês perdeu mais um dos seus atores de referência, Michel Lonsdale, mesmo que quase sempre o tenhamos visto em papéis secundários, ainda que sob a direção de grandes realizadores e encenadores. De Truffaut a Eustache, de Rivette ao nosso Manoel de Oliveira, quase não houve quem se dispensasse de recorrer a quem personificava na perfeição aquilo que Claude  Régy definia como imprescindível para interpretar um personagem: “os atores que falam sem darem expressão ao silêncio, limitam-se a fazer barulho, tornando-se inaudíveis. Importa encontrar forma de, ao mesmo tempo, ouvir-se o som da palavra e o silêncio que ela rompe”.

Na forma como entoava as palavras, Lonsdale dava a devida importância ao silêncio, da mesma forma que os movimentos perante a câmara tinham a leveza da lentidão, que criava no espectador a estranheza de um inexplicável desconforto. E, nem mesmo quando convidado para vilão num dos filmes de 007, dissociou-se desse estilo inconfundível e voz algo desajustada do arcaboiço físico que a enunciava.

Se se podem citar dezenas de filmes onde a sua presença acrescentou algo a uma trama de que era aparente figura acessória, fica-me a evocação dele em India Song, a obra de Marguerite Duras em que era seu o papel do vice-cônsul de Lahore incapaz de se fazer amar pela mulher, Anne-Marie Stretter, interpretada por Delphine Seyrig. Numa festa animada pela maravilhosa música de Carlos d’Alessio, Lonsdale dava expressão ao desespero de um homem que nem através do grito se conseguia fazer ouvir pela mulher a quem amava sem esperança de se ver retribuído.

De uma filmografia, que se estendeu por sete décadas será essa a imagem que mais associarei a Lonsdale, agora que ele saiu definitivamente de cena...