quarta-feira, novembro 20, 2019

Diário das Imagens em Movimento: Uma grande retrospetiva com os filmes de Hong Sang-soo


Na noite de 3 de dezembro a Cinemateca inicia a retrospetiva completa da obra do realizador sul-coreano Hong Sang-soo, distribuindo a apresentação das suas 23 longas-metragens por todo esse mês e o seguinte. Teremos assim acesso a uma obra original iniciada em 1996 com «O dia em que um porco caiu ao poço» e  iremos até ao mais recente título - «Hotel à beira do rio» - datado do ano transato.
A opção dos programadores foi a de respeitar a ordem cronológica com exceção de «Conto do Cinema» (2005) - o título que inicia o ciclo e cuja seleção fica justificada por ser aquele em que  recorre pela primeira vez a uma das suas principais características: o recurso ao zoom - ferramenta então há muito prescindida pelos cineastas! - para ele forma expedita de ligar os sucessivos planos-sequência em que explicita os enredos.
Outra das características mais surpreendentes do seu cinema tem a ver com o método de trabalho, que dispensa o argumento, substituído por reuniões prévias com os atores a quem atribui as linhas gerais da história e com quem ensaia as cenas a rodar nesse mesmo dia, nomeadamente os enquadramentos, que deles colherá. Os orçamentos são baixos e adaptam-se às contingências, mormente meteorológicas, de cada dia de trabalho, que acabam por integrar o relacionamento entre os personagens.
Numa entrevista ele explica que os seus filmes “não são feitos para contarem uma história mas para representarem fragmentos dela. Pego nesses ‘fragmentos’ e é deles que deriva toda uma estrutura centrada em situações quotidianas. Escolho a retórica adequada no interior dessa estrutura. E quando chego à rodagem começa um novo processo de descoberta.”
Nesse «Conto de Cinema» encontramos Songwon, um estudante universitário sem nada que fazer desde que concluiu os exames finais. Reencontra uma antiga namorada, Yongsil, numa loja de oftalmologia, mas duvida se irá ter com ela quando sair de serviço, entretendo-se até lá numa peça de teatro em que as personagens ecoam palavras, que se lhe ajustarão quando falhar na tentativa de se precipitar do telhado do prédio onde vivem os pais.
Noutro capítulo deparamos com Tongsu, um cineasta obcecado com a curta-metragem realizada por um colega de turma e, sobretudo com a atriz, que a protagonizara, imitando-lhe os gestos e revisitando os lugares da rodagem para aferir a sua própria imagem por ela suscitada.

domingo, novembro 17, 2019

Diário de Leituras: Assistimos à maior extinção em massa desde o fim dos dinossauros


No primeiro texto da recolha de ensaios intitulada «O fim do fim da terra», o escritor norte-americano Jonathan Franzen considera vivermos num tempo de excessiva valorização do Eu, de tal forma que a única forma de narrativa defensável parece ser a autobiografia. Um amigo que conhecera quando iniciara funções de jornalista no «The New Yorker» dera-lhe dois preciosos conselhos a contracorrente de tal tendência: “qualquer ensaio, mesmo um texto de reflexão, conta uma história” e “só há duas maneiras de organizar as matérias: ‘isto é como aquilo’ e ‘isto resultou daquilo’”. E assim se lançou para o percurso de escrita, que o transformou num dos principais escritores contemporâneos. Condição que utiliza para alertar os leitores, ou quem o escuta nas muitas intervenções públicas sobre o assunto, dos perigos inerentes a enfrentarmos subidas de 6ºC nas temperaturas médias dos nossos habitats no decurso deste século. Salvo se uma revolução contra o capitalismo de mercado livre aconteça e evite o desastre ambiental, que já estamos a percecionar das mais diversas formas. Mas como consegui-lo se ele se mascara - graças à tecnologia digital, que o hiperacelera! - numa “lógica de consumo e de promoção, de monetarização e de eficiência em cada minuto que passamos acordados”?
Chegámos a uma fase antropocêntrica em que até soluções engendradas como alternativas para evitar o acréscimo de dióxido de carbono na atmosfera comportam consequências desastrosas para a diversidade da fauna terrestre, mormente a avícola, que é a mais apreciada pelo dedicado birdwatcher, que Franzen assume ser. De facto as torres eólicas, sobretudo as implantadas nas rotas de migração das aves, são responsáveis por um morticínio cujas vítimas são difíceis de contabilizar. Para ele este século está a revelar-se trágico para uma grande parte dos animais selvagens, dada a atual extinção em massa, a maior desde a época dos dinossauros.
O crescimento populacional, a desflorestação e a agricultura intensiva, o esgotamento dos pesqueiros e dos aquíferos, a poluição causada pelos pesticidas e pelos plásticos ou o alastramento de espécies invasoras de ilhas, até então a elas incólumes, estão a dar substância a essa triste conclusão. Daí que proponha como única forma de evitar o contínuo empobrecimento da diversidade do mundo animal e vegetal “uma perspetiva da natureza como uma soma de habitats concretos ameaçados em vez de uma coisa abstrata que está a morrer”.

sábado, novembro 16, 2019

Diário de Leitura: O obstinado sentido de responsabilidade


No seu mais recente livro - «O Universo num grão de areia» - Mia Couto conta uma saborosa estória, que serve de exemplo para o que significa um inabalável sentido de responsabilidade.
Segundo ele o governo moçambicano decidiu tomar uma medida de grande interesse para o futuro do país, tão só consolidou a independência: enviou técnicos para diversas regiões da bacia do Zambeze para anotarem detalhadamente os caudais do rio nuns formulários elaborados para o efeito. Acontece que rebentou a guerra civil e o esforço foi esquecido por prioridades mais urgentes.
Anos depois  - em 1992 - as condições políticas fizeram ressurgir essa necessidade que, naturalmente, tinha de ser retomada a partir do zero. No entanto, numa dessas estações hidrométricas, os que para ela foram enviados tiveram a surpresa de encontrar o antecessor a ocupar uma casa cujas paredes estavam todas preenchidas com números registados a carvão. Estupefactos, concluíram que o colega não só prosseguira o trabalho ao longo desse longo hiato como, à falta de formulários, acabara por transformar a velha cabana num rigoroso registo dos seus dados.
Ler Mia Couto é sempre um prazer, mesmo quando se trata - como neste caso! - de uma recolha de textos publicados aqui ou acolá, ou redigidos para serem oralizados em discursos de circunstância e em conferências sobre os mais variados pretextos.
Um deles, datado de março deste ano, quando regressou à cidade natal, a Beira, depois da devastação nela causada por temível furacão, conclui que “em criança não nos despedimos dos lugares, pensamos que voltamos sempre. Acreditamos que nunca é a última vez.” Mas aquela ocasião dava-lhe o travo amargo do definitivo adeus.
Outros versam o medo, que ele reconhece ter sido um dos seus primeiros mestres, aquele que mais o fez desaprender. Um medo fabricado por quem tem medo que o medo acabe. Porque, antes de se fabricarem armas, criam-se fantasmas, que venham a justificar o seu uso. Daí surgirem muros em diversas latitudes. Sobre eles fica uma sábia conclusão: “É sintomático que a única construção humana que pode ser vista do espaço seja uma muralha.” mas “a Muralha não evitou conflitos nem parou os invasores”.
Lidas ainda só tenho umas dezenas de páginas, mas quantas luzes elas comportam...

Cirros, cúmulos e nimbos: Efeitos calvinistas


Andavam ainda os portugueses a mando dos Filipes, quando rebentou a bolha das tulipas em Amesterdão. Estava-se no ano de 1637 e ocorreu aquela que ficou conhecida como a primeira crise numa bolsa financeira. Logo para a estreia verificou-se a tendência para os incautos acreditarem piamente que uma bola, atirada ao ar, continuará sempre a subir, sem voltar a cair para lhes dar cabo das cabeças. A bola era, e continua ainda hoje a ser, o preço das ações, que entusiasma multidões, quando as convencem de ser fácil a riqueza no investimento em ações e só compreendendo o logro em que caem ao verem-se de bolsos subitamente esvaziados.

Não deixa, porém, de ser curiosa a razão porque os holandeses do século XVII fizeram das tulipas o cerne dessas cotações quotidianamente variáveis. Calvinistas por natureza, a fé inibia-os de ostentarem a fortuna. As belas flores constituíam oportuna exceção porque, detendo-as, não estariam a incorrer no pecado, antes se convenciam comprometidos na glorificação das obras do seu Senhor. Daí que, ainda hoje, sejam os holandeses os europeus, que maior afã dedicam aos seus jardins.
A capacidade de se crer na mais estapafúrdia das conclusões também se verificou com outro holandês - Vincent Van Gogh - cuja pistola foi leiloada por 162 mil euros e é hoje peça fundamental nas exposições itinerantes sobre a sua vida e obra. E, no entanto, publicita-se ter sido encontrada num campo em Auvers-sur-Oise, perto do sítio onde o pintor terá querido pôr fim aos seus dias, correspondendo o calibre à bala com que ele se terá atingido.
As dúvidas em torno desse suicídio nunca mais se elucidaram até havendo teses quanto a ter-se tratado de um homicídio sem que os perpetradores se vissem responsabilizados. Mas a mistificação em torno da biografia de Vincent não se fica por aí, porque as referências ao dinheiro em quase todas as cartas para o irmão Théo não resultariam da sua falta - a mesada por ele propiciada era bastante considerável para a época -, mas pelo mesmo ideário calvinista, que exige a devida retribuição para o produto do seu trabalho. Daí que ele não vivesse na indigência, mesmo que de tal hábito se vestisse, mas do inconformismo por não ter notícia da venda das centenas de obras produzidas nesses seus últimos dez anos de vida...

Diário das Imagens em Movimento: «A Grande Esperança» de John Ford (1939)


O grande realizador soviético Sergei Eisenstein apontava «A Grande Esperança» como o filme norte-americano que gostaria de ter realizado. E, no entanto, fora a contragosto que John Ford aceitara de Darryl Zanuck a tarefa de traduzir em cinema o argumento criado por Lamar Trotti.

Nessa mesma altura estava bem mais interessado na concretização dos dois westerns, também estreados nesse ano - «Ouvem-se Tambores ao Longe» e «Cavalgada Heroica». Mas sabe-se bem quão difícil era contrariar a vontade  dos tycoons de Hollywood, sobretudo desse Zanuck, de cujo alfobre pareciam suceder-se êxitos sucessivos. Sobretudo nesse ano de início da Segunda Guerra Mundial, porventura aquele em que o cinema norte-americano produziu maior número de títulos memoráveis, tornando particularmente difícil a tarefa aos sócios da Academia, quando tiveram de escolher os nomeados, e depois os galardoados com os Óscares.

Ganhou «E Tudo o Vento Levou» mas quem se escandalizaria se os prémios tivessem ido para «O Feiticeiro de Oz», «Ninotchka», «Peço a Palavra»,  «Adeus Mr. Chips», «Gunga Din», «Engano Nupcial», «Vitória Negra», «O Monte dos Ventos Uivantes» ou «Isabel de Inglaterra»?

Não fora, porém, só Ford a colocar entraves ao projeto de Zanuck: o próprio Henry Fonda quis dele escusar-se, porque não se via a representar o papel de quem sempre considerara uma espécie de deus. Como poderia vestir a pele de quem impusera a ideia de um governo do povo, pelo povo e para o povo e ia ao encontro das suas próprias convicções democráticas? Mas, por essa altura, já Ford estava convencido a concretizá-lo e disparatou com o ator - então a rodar com ele um dos referidos westerns desse ano - dizendo-lhe que o filme seria afinal sobre o modesto advogado de uma pequena cidade, que ainda não alcançara a condição mítica depois conquistada quando acedera à Casa Branca.

Fonda sair-se-ia tão bem do compromisso que até Steven Spielberg dar a Daniel Day Lewis a responsabilidade de personificar o idolatrado presidente, sempre o imagináramos tal qual Ford o representara. Porque na forma intimista como revela um personagem antes dele vir a engrandecer-se há uma consistência, que se dissocia de qualquer estereotipo.

Não sei se a divisão do filme em três partes resultou do argumento de Trotti ou de como Ford o adaptou, mas elas são equivalentes em duração e estruturadas de forma a culminarem em momentos muito fortes. 

Na primeira parte temos um jovem lojista de New Salem a interessar-se por uns velhos livros de advocacia, aceites como moeda de troca a uma família carecida de provisões para prosseguir o rumo a Oeste. Ciente de se tratar de algo, que poderá mudar-lhe a vida e oferecer à namorada, Anne Rutledge, um futuro a dois mais aliciante, empenha-se no estudo, mesmo quando ela lhe morre, jurando-lhe seguir a carreira das leis junto à campa onde ela jaz. E esse é o clímax deste primeiro terço do filme, que ainda explicita o seu carácter rustico e algo dado a comportamentos com o seu quê de trapaceiro, sobretudo, quando já o encontramos em Springfield, onde montou o seu escritório de advogado.

Na segunda parte assistimos ao desfile e às diversões da comemoração do Dia da Independência, culminando no crime supostamente perpetrado por um dos irmãos Clay, quando um brigão se metera com a sua esposa. A tensão cresce quando a populaça, incitada pelo amigo da vítima, os quer linchar e Abe se intromete com um discurso vibrante em defesa do direito de qualquer cidadão ter direito a um julgamento justo e imparcial. Teremos, então, uma derivação para o policial, quando ele se põe em campo para descobrir o que, efetivamente, se passara, e construir, a partir daí, a estratégia de defesa capaz de inocentar os dois réus.

A terceira parte é maioritariamente passada no tribunal com a acusação a pretender que a mãe dos acusados afirme qual deles terá matado Skrub White, de forma a livrar pelo menos um dos filhos. Mas Abe consegue enlear o verdadeiro assassino em tal novelo, que ele denuncia-se em plena sessão.  Como se compreenderá, se na primeira parte o momento mais intenso ocorrera quase ao princípio, e na segundo a meio, nesta terceira parte ela coincide com a parte final, quando tudo já parecia perdido para os dois inocentes.

Como epílogo temos Lincoln a subir uma colina numa metáfora ao que se seguirá com a ascensão à presidência. Mas, em vez dos campos encimados por nuvens propícias aos sonhos, são os carregados nimbos, que lhe acompanham a dificultosa caminhada. Referência incontornável à Guerra de Secessão, que ele iria enfrentar.

Perante o nazismo em plena afirmação expansionista na Europa, Ford dá substância a uma mensagem inequívoca sobre a Liberdade e a Democracia. Entende-se assim  o elogio feito por Eisenstein quanto à importância deste filme porque, mais do que uma honesta biografia, ele transmite uma poderosa defesa dos valores que o fascismo tentava espezinhar. Ainda antes de se alistar na luta ativa, que o levaria à criação de imprescindíveis filmes de propaganda nos anos seguintes, Ford já aqui anunciava com orgulho qual a trincheira que iria integrar.

quarta-feira, novembro 13, 2019

Diário das Imagens em Movimento: «Genghis Khan» de Lou Salvador (1950)


Depois de já ter havido anteontem a oportunidade de ver o filme, repete-se amanhã, dia 14, pelas 15h30 a exibição de «Genghis Khan», um dos filmes integrados no ciclo atualmente a decorrer na Cinemateca a pretexto do centenário do Cinema Filipino.
Nos anos 40 e 50 essa filmografia produzia melodramas em série para corresponder ao gosto do público por histórias sentimentais, que requeressem o uso intensivo do lenço de enxugar lágrimas. Mas também havia entusiasmo com filmes de capa e espada como foi este o caso.
Apesar de assinado pelo ator principal, «Genghis Khan» terá tido Lou Salvador como realizador. Mas Manuel Conde tinha tanto sucesso, que os produtores apostaram na ilusão dele interpretar não só o príncipe mongol, mas também ser dado como o responsável criativo do filme.
Quando foi apresentado no festival de Veneza de 1952, a crítica entusiasmou-se com o que viria a ser o mais saliente aspeto dos filmes de artes marciais das décadas seguintes: a encenação das batalhas como se de bailados se tratassem.
A intriga é básica: participando com outros líderes tribais num conjunto de provas destinadas a definir direitos a alguns territórios, o príncipe Temujin não compreende tratar-se de uma cilada em que o anfitrião - o sinistro Burchou (interpretado por Salvador) - planeia assassinar todos os rivais durante o subsequente banquete.
A sorte ajuda o jovem a escapar com vida, mas vai encontrar a sua aldeia destruída e a mãe moribunda.
Decidido a vingar-se, Temujin cria as convenientes alianças para, no momento propício, ascender à condição de Grande Conquistador, derrubando o inimigo e ganhando como prémio suplementar a sua filha, a bela Lei Hai.

terça-feira, novembro 12, 2019

Nimbos: As homenagens não são todas iguais


Quase sessenta mil são os nomes dos mortos no Vietname inscritos no memorial mandado construir para os celebrar. No último dos nove episódios que Ken Burns realizou para documentar os trinta anos de intervencionismo norte-americano na Indochina diversos entrevistados confessam a comoção sentida, quando ali se dirigiram. Num país de excessos, os seus habitantes também nas emoções revelam-se desmedidos. Mas poucos contestam o trágico desperdício de jovens vidas destruídas numa guerra, que os cinco presidentes nela envolvidos sabiam antecipadamente perdida. E, no entanto, mentiram despudoradamente nos discursos em que justificaram o envio de novas vagas de recrutas para morrerem sem proveito nem glória. Com o requinte final de abandonarem à triste sorte os aliados sul-vietnamitas a exemplo do que repetiriam recentemente com os curdos na Síria.  Não foi preciso  esperar pela chegada de Trump à Casa Branca para que os iludidos cúmplices dos EUA soubessem na pele o que é sentirem-se com as costas quentes num dia e logo solitariamente abandonados no meio das ruínas deixadas pelos seus aviões bombardeiros.
A homenagem aos mortos nem sempre se revela vã como no caso desse muro edificado em Washington em 1982. Mesmo que o veterano John Musgrave o julgue capaz de ter impedido uns quantos suicídios.
Menos emotivas, mas bastante mais justificadas foram as evocações a Jorge de Sena e Sophia agora culminadas com cerimónias  e eventos organizados para os rememorar. Além deles vieram-nos hoje outras memórias referentes a quem desapareceu do mundo dos vivos há cerca de dez anos: Bartolomeu Cid Santos e João Bénard da Costa. Um e outro também merecedores de duradoura recordação.
Foi através de um documentário de Jorge Silva Melo - excelentes todos quantos assinou até agora sobre diversos artistas plásticos! - que pudemos regressar à vasta obra de gravura, quase toda criada em Londres, onde, durante décadas, Bartolomeu Cid Santos formou gerações sucessivas de artistas na Slade  School of Fine Art. Quem teve o privilégio de com ele privar lembra-lhe a alegria e a generosidade com que fazia de cada encontro uma festa. Tomando como referências preferenciais Fernando Pessoa, Jorge Luís Borges e Tarkovski, tomou por temas os bispos, as sereias sorridentes, os labirintos e as paisagens melancólicas da Viagem no Inverno compostas em lieds por Schubert.
Quanto ao antigo diretor da Cinemateca houve quem lembrasse as tardes de quarta-feira no Liceu Pedro Nunes, onde era professor, onde conseguia prender a atenção dos miúdos (entre os quais o citado Jorge Silva Melo) ao falar.lhes de filmes, que eles nunca tinham visto. Já então estava em causa a preocupação com o ensino da forma de olhar imagens que, longe de constituírem um divertimento, deveriam servir para fazer pensar. Por exemplo as que viriam a ser muitos anos depois criadas pelo realizador Gabriel Axel a partir do romance da sua compatriota Karen Blixen. «A Festa de Babette», memorável filme, trazido à colação num oportuno zapping, demonstrava como o cinema pode - e deve! - realçar certas realidades cristalizadas, potencialmente abanáveis por quem as sujeite a inteligentes modelos de contestação. Na novela, e no filme correspondente, uma austera comunidade protestante confrontava-se com a tentação do pecado através da lauta refeição confecionada em sua intenção pela estrangeira, que com eles viera viver durante uma temporada. Um bom exemplo de como as certezas enquistadas de uns quantos podem ser desafiadas por quem ouse questioná-las...
12/11/2019

Diário de Leituras: Um livro sobre o fracasso e a saudade


«Tous les hommes n’habitent pas le monde de la même façon» valeu a Jean-Paul Dubois o Prémio Goncourt deste ano, cujo merecimento defendi num texto aqui postado alguns dias atrás.

O protagonista é Paul Hansen, nascido em Toulouse e emigrado no Canadá onde assegurou, anos a fio, a manutenção de um grande edifício até se ver condenado a dois anos de prisão por agredir quem viera perturbar-lhe a tranquila existência, vivenciada com a mulher e a sua cadela.
Numa entrevista à «Diacritik», Dubois apresenta-o, bem como ao desafio que o levara ao espaço concentracionário donde faz o balanço de tudo quanto fizera até então : “é um homem bom que vai ser confrontado a um administrador extremamente cínico, capaz de lhe tornar a vida insuportável. É um administrador do mundo moderno que racionaliza e se marimba para a história, desprezando os sentimentos existentes no interior do edifício, os elos humanos tecidos durante anos. É um «cost killer», uma espécie que emerge de uma cultura capitalista, apostada em cortar nos custos. Está-lhe na essência, na natureza. Há, pois, um crápula disposto a cortar cabeças, hábitos e relações humanas, que para nada servem e custam caro, até por serem desnecessárias num edifício. E tudo vai abanar: é o fim de um mundo e o nascimento de outro, que desregula todas as ligações sociais no interior de um espaço com sessenta e oito apartamentos.”
Ao descobrirmos a vida de Paul Hansen concluímos que ela decorreu maioritariamente entre dois espaços fechados - o da prisão e o do edifício. Se conhecera e casara com Winona, fora através da prestação de um serviço a um dos moradores do condomínio. Mas as fragmentadas memórias coincidem com o contexto histórico em que se situam: o pós-guerra, as revoluções de 1968, a crise dos subprimes, o escândalo do amianto. Eventos que constituíram momentos de charneira para o mundo ocidental. Mas vêm à colação as características dos precedentes romances de Dubois: o questionamento das opções estratégicas da América do Norte, o peso do passado e a forma como vamo-nos fazendo acompanhar pelos nossos mortos...

Auditórios: Recordar Alexander Borodin no dia do seu aniversário.

Diário das Imagens em Movimento: «Made in Italy» de Luciano Ligabue (2018)


À exceção do que Nani Moretti vai realizando - convenhamos que cada vez mais esporadicamente! - o cinema italiano não tem produzido obras de particular interesse nos últimos anos. A geração de grandes realizadores que nos davam a ver filmes memoráveis parece ter-se extinguido com Ettore Scola. O que, no fundo, se interrelaciona com a evolução política de um país em que, primeiro com Berlusconi, e mais recentemente com Salvini, se fizeram emergir o que de pior andava recalcado no âmago dos seus habitantes. Se nos anos 60 Dino Risi mostrou esses «Monstros» de forma a que servissem de argumentos para as suas comédias  - a eles voltando no final dos anos 70 com Scola e Monicelli nos «Novos Monstros»! - eles saltaram dos filmes bem humorados para surgirem como personagens assustadoras.
Luciano Ligabue, que assina a realização deste «Made in Italy», é um cantor de sucesso no seu país. Segundo os jornais não é fácil vê-lo em concertos, porque esgotam com inusitada rapidez. Mas se me escuso a comentar-lheos dotes canoros, não me senti nada impressionado pelos investidos na concretização deste projeto. Porque, tomando por protagonista, um desnorteado membro da classe operária, esta surge completamente incapaz de ir além do alinhamento dos sintomas, que a deixam insatisfeita, sem agir consequentemente para lhes dar expedita solução. Pelo contrário Ligabue deixa uma mensagem específica aos revoltados operários do seu país: se estão assim tão insatisfeitos tratem de emigrar, porque poderão ganhar bom dinheiro como empregados de mesa em restaurantes italianos numa qualquer cidade alemã.
Stefano Accorsi, a quem Maria de Medeiros deu o papel de Salgueiro Maia no filme sobre a Revolução de Abril, é esse operário de uma fábrica de salame que, ao fim de trinta anos de trabalho, vive miseravelmente com os 1200 euros de ordenado. Ao melhor amigo confessa o medo de, depois do avô ter construído a casa onde mora e o pai a ter ampliado, caber-lhe a triste missão de a vender por já não ter a capacidade de a manter. Estamos perante uma óbvia metáfora da própria Itália, também ela em progressiva degradação política, económica e social.
Os amigos servem-lhe de paliativo para lhe sossegarem as frustrações, assim como a amante, que acaba por repudiar. Mas ele, que nunca se privara de saltar a cerca, fica possesso quando se sabe traído por Sara a quem já mal dirigia a palavra. A revolta dá-lhe alento para ir a Roma, integrar-se numa manifestação e ver-se brutalmente agredido por um polícia de choque.
Herói nacional por umas horas já que as imagens desse momento tornam-se virais, Riccardo dececiona o jornalista, que o entrevista à saída do hospital, não lhe dando as respostas expectáveis em quem suposera agir contra quem o explorava e lhe cerceava os direitos fundamentais. A entrevista para a televisão é um momento confrangedor, porque ele escusa-se a entender quanto a aposta nas cumplicidades coletivas dos seus parceiros de infortúnio poderia contrariar a impotente manifestação do seu espúrio individualismo. Mas reflete, afinal, esta época em que os explorados viraram costas aos sindicatos e aos partidos mais à esquerda para, fazendo gala da sua condição apolítica, transformarem em atos de vandalismo a insatisfação dos seus sonhos nenhuns.
«Made in Italy» acaba por ser daquelas propostas cinematográficas, que poderiam ter escolhido trilhos diferentes e com outra consistência em vez da embrulhada narrativa, que alterna entre o confuso e o incoerente...