quinta-feira, outubro 25, 2018

(DL) Quando o ar fica irrespirável


Se em anos recentes tornou-se moda o policial de origem escandinava, outras geografias andam a propiciar alternativas interessantes para os cultores do género, tanto mais que, como reparava uma autora nórdica, em entrevista recente a João Céu e Silva, já andamos saturados de histórias que começam, invariavelmente, pela morte de uma mulher ou de uma criança.
Qiu Xiaolong revela-se interessante alternativa tanto mais que ainda não lhe conhecemos tradução portuguesa, que no-lo torne mais reconhecível.  Exilado nos Estados Unidos, onde se instalou depois dos acontecimentos de Tian’anmen, não devemos esquecer a ideologia subjacente à sua forma de ver o país natal, nem de ser-lhe difícil contornar as memórias do o pai a ser supliciado pelos Guardas Vermelhos no final dos anos sessenta e dele próprio ter passado pelo processo de «reeducação», mas a prosa é escorreita, servida por uma narrativa bem carpinteirada.
O inspetor Chen, protagonista dos seus romances, não está bem visto pelos responsáveis do Partido: levando muito a sério o trabalho ele só pretende identificar os autores dos crimes graves, que é chamado a esclarecer, independentemente dos prejuízos, que as conclusões possam suscitar para quem possui da autoridade uma conceção mais própria dos tempos do Império do que de um regime dito comunista. Por isso este romance começa com ele mais ou menos colocado na prateleira, só não sendo dela removido para o despedimento, porque o prestígio ganho com casos anteriores, tornaria impopular essa decisão.
Em «Chine, retiens ton soufflé» temos a grande metrópole de Xangai tão acossada pela poluição, quanto a já conhecida em Pequim. Apesar da instalação de ineficientes purificadores de ar a população sofre os efeitos das partículas inaladas quase sem delas se dar conta. Ora, a par de uma sucessão de crimes perpetrados por um serial killer a coberto do nevoeiro engendrado nas primeiras horas matinais por essa crise ambiental. Chen é, igualmente, incumbido de investigar as atividades de uma ecologista com crescente apoio na net e que insurge-se contra a inoperância governamental para resolver o problema.
Temos, assim, duas investigações, que correm em paralelo e, obviamente, acabam por se cruzar...

quarta-feira, outubro 24, 2018

(AV) Egon Schiele: a provocação introspetiva


Quando esteve preso Egon Schiele escreveu que a arte não pode ser moderna. E, de facto, se a considerarmos  por padrões ideológicos, que estavam tão subjacentes à vida intelectual desses primeiros anos do século XX, a «modernidade» da Escola Vienense nada tem a ver com amanhãs que cantem, ou outras expetativas de transformações sociais, porque, fundamentalmente introspetiva, acentua a individualidade do ser em detrimento da sua condição social.
Artista esquecido durante décadas, a importância da obra de Schiele só viria a ser resgatada a partir dos anos 50 graças a um colecionador, que conseguira criar uma rica pinacoteca nela especializada.
Schiele era um perturbador, que só trabalhava para si mesmo, mas cujos quadros e desenhos obrigam qualquer observador a questionar-se sobre a nudez ou a sexualidade. Com um talento natural para o desenho conseguia em poucos minutos completar um registo do que se lhe deparava como motivo artístico, normalmente o corpo feminino.  Não tinha preocupações em embelezá-lo. Pelo contrário distorcia a figura humana, levando alguns a depreciarem-lhe a obra como feia, senão mesmo horrível.
Na infância crescera numa casa, que tremia constantemente, ou não fosse a do chefe de estação de Tulln, que era o seu pai. Foi ele a detetar muito cedo o talento do filho para o desenho. Julgando cometer um ato de bom educador decidiu comprar-lhe  um caderno estipulando-lhe a tarefa de preencher quotidianamente uma página. Ora, quando nesse mesmo dia foi almoçar, já o caderno fora integralmente preenchido, estando as folhas desagregadas, espalhadas pela casa.
Embora vislumbrasse um futuro artístico para esse rebento, o sr. Schiele não poderia confirmá-lo: a partir de 1900 a sífilis, contraída com prostitutas,  foi-se agravando sucessivamente levando-o a crises de loucura, que culminariam no gesto trágico de queimar na lareira as ações, que constituíam a razoável riqueza da família.
Já órfãos, Egon e a irmã mais nova - Gerti - apanharam o comboio e viajaram até Trieste para refazerem a viagem de núpcias dos pais. É por essa altura, quando tem 15 anos, que Egon frequenta a casa de um parente radiologista. A imagem das,  então ainda raras, radiografias irão fascina-lo ao ponto de ser óbvia a sua influência na representação das mãos em muitos dos quadros posteriores.
Nesse ano de 1906 entra na Academia de Belas Artes de Viena, tendo sucesso onde outro candidato, Adolf Hitler, falhara tão estrondosamente que nem mesmo repetindo o exame conseguiu ver-se aprovado.
A reação de alguns dos professores à naturalidade com que, em minutos, despacha desenhos, que aos colegas levam horas, não o tornam popular e, em 1909, ele acaba por abandonar o estabelecimento sem o diploma. O retrato da irmã anuncia o expressionismo vienense, mas a representação da sexualidade infantil ainda hoje causa engulhos nos defensores do politicamente correto.
Em 1909 consegue vender alguns quadros e passa a viver com a sulfurosa Wally, que ganhara reputação como modelo de Gustav Klimt. Durante uns anos, além de modelo ela será a sua criada e protetora.  Vão viver para Krumlov, na Boémia, mas a experiência revela-se desastrosa: os vizinhos escandalizam-se com a libertinagem do casal e acabam por pressionar as autoridades a prendê-lo, acusando-o de rapto e violação de uma miúda de treze anos.  A inexistência de provas não o livram do julgamento em que a acusação incide sobre a suposta obscenidade das suas obras.
Regressado a Viena e rompendo com Wally, Schiele instala o seu novo ateliê junto do de Klimt, ligando-se a Edith Harms com quem casa. Ela torna-se doravante a modelo quase exclusiva da sua obra, que ganha grande reconhecimento comercial e crítico.
Ambos vivem três anos de relativa felicidade, tendo em conta que a guerra grassa à sua volta. Em outubro de 1918, quando era lícito esperar por um mundo bem mais bonançoso, a gripe espanhola invade todo o continente. Edith, grávida de seis meses, morre a 28. Egon não lhe resiste mais do que três dias...

terça-feira, outubro 23, 2018

(DIM) «Sonata de Outono» de Ingmar Bergman (1978)


No ciclo, que o Cineclube Gandaia tem promovido durante este mês de outubro, temos podido constatar que os filmes de Ingmar Bergman são magníficos, mas incómodos. Deparamo-nos com diálogos inteligentes, atores dirigidos com rigor, personagens construídos com sensibilidade e uma montagem virtuosa a valorizar a fotografia irrepreensível de Sven Nykvist.
Bergman começou a construir este filme quando, numa noite de insónia, imaginou o reencontro de uma mãe e de uma filha em torno de um piano. Deveria começar como uma sesta agradável após o almoço, estendendo os efeitos benfazejos até à noite, altura para desencadear insólito pesadelo, antes da manhã devolver a oportunidade de um  aparente recomeço.
Abordando quase sempre conflitos entre personagens, os aqui expressos envolvem uma mulher frágil e disciplinada face a uma mãe tão livre quanto explosiva, a quem não via há sete anos. Ingrid Bergman encontrou aqui uma personagem à medida da sua capacidade para a ilustrar com enorme talento.
Um fim-de-semana, que se previa tranquilo, transforma-se num ajuste de contas  com balanços do passado partilhado, muitas lágrimas e não menos olhares assassinos.
Bergman nega neste filme aqueles que, a exemplo de Godard, lhe classificaram a obra como a da arte do instante. De facto, em títulos anteriores, o presente parecia sobrepor-se ao passado por muito que o revisitasse na forma de recordações, já que era assumido sem constrangimentos morais, indiferente à desordem do mundo em redor e resignado quanto à inexistência de Deus.
«Sonata de Outono» desvia-se convictamente dessa constância: o passado torna-se aqui bem mais forte do que o presente com as aparentes alegrias de hoje a mascararem o sofrimento do desamor passado. Curiosamente, quer o filme anterior, «O Ovo da Serpente», sobre a ascensão do nazismo, quer o seguinte, «Fanny e Alexandre», dão a esses tempos idos a importância, que parecia subalternizada nas preocupações narrativas do realizador.  Entre 1977 e 1982, data dos dois filmes com este de permeio, Bergman parece esquecer-se do presente para interrogar tudo quanto do passado subsiste por resolver. No fundo é a definição do presente do passado, ou seja da memória.
Esteticamente é filme de raros movimentos de câmara que, quando acontecem, mais servem de raccord, e de enquadramentos soberbos, sobretudo nos flash backs, que remetem para as pinturas de Degas.
A cor, a que o realizador só se rendera em 1969, com a «Paixão» - desistindo assim de um expressionismo favorecido pelo preto-e-branco - ganha dimensão metafórica: o verde feio é o da filha inibida e austera, enquanto a mãe subjugadora veste, sobretudo, de vermelho.
Em noventa e nove minutos assistimos a um duelo do qual as contentoras saem praticamente iguais ao que eram, quando o encetaram.

segunda-feira, outubro 22, 2018

(DIM) «Sud» de Chantal Akerman (1999)


A realizadora explicou em texto o que pretendera com «Sud»: “Este filme duro, heterogéneo, rodado no Sul dos Estados Unidos, é, á sua maneira, um eco e um contraponto de um outro filme que rodara no início dos anos 90 na Europa do Leste. É uma viagem durante um verão quente e húmido, às vezes capaz de nos desorientar. Nessa viagem, e assombrando-a, há o crime cometido contra James Bird Jr.
Não se trata da autópsia desse linchamento de um Negro por três jovens suprematistas brancos, mas antes como ele se insere numa paisagem tanto mental, como física. Como o silêncio pode parecer pesado e ameaçador. Como as árvores e toda a natureza podem evocar a morte, o sangue, a maiúscula História e a que se inscreve na sua minúscula.
Como é que o presente evoca o passado? Como é que esse passado pode assustar, quando se dá com um campo de algodão deserto ao virar de uma curva na estrada? Como é que um gesto ou um olhar ainda podem suscitar calafrios?”
Num filme com longos travellings pela paisagem de uma zona rural do Texas ficamos a conhecer as circunstâncias de um crime hediondo. O que o causou? O racismo larvar do passado dos tempos anteriores ao Movimento pelos Direitos Cívicos ainda está enraizado? Ou porque as indústrias, que a quase todos empregava, se deslocalizaram, deixando como lastro as frustrações dos que. nessas alturas, apontam como bodes expiatórios os que ainda são mais miseráveis? O filme de Akerman mostra o problema, deixa em aberto as causas e os efeitos...

(DIM) «Their own Republic» de Aliona Polunina (2018)


No conflito entre o governo de Kiev e os separatistas de Donbass a minha simpatia vai toda para os segundos, que mantém uma perspetiva assumidamente antifascista ao contrário dos seus oponentes, conhecidos por simpatias extremistas filiadas nas forças que, há quase oitenta anos aliaram-se aos exércitos nazis na agressão à União Soviética..
Julgando que Portugal é uma república das bananas a embaixada ucraniana procurou que este filme de Aliona Polunina fosse retirado da programação do DOC Lisboa. Por mais que o queiram disfarçar os representantes do governo de Kiev são iguais a si mesmos, encontrando na censura, uma forma de silenciarem as palavras e apagarem as imagens, que lhes não convenham.
Obviamente que a tentativa não surtiu efeito e, melhor ainda, estimulou a vontade de mais espectadores conhecerem este filme sobre o dia-a-dia dos que cuidam em manter incólume o território, que segregaram do resto do país, garantindo às populações russófonas os direitos, que veriam perigados se deixassem exprimir-se o primário racismo, que contra elas se anunciava.
Embora observador imparcial não intua o mesmo, esses homens do Donbass inserem-se na linha dos antigos heróis soviéticos, que impediam a pátria russa de ser ocupada pelos nazis.

(S) "La biondina in gondoletta" - canção tradicional italiana

(EdH) Selvagens em Jardins Zoológicos (2): da extinção dos fuegianos à apresentação de aborígenes no Circo Barnum


Após a exibição de Paris os ameríndios da Terra do Fogo são levados de comboio para a Alemanha em carruagens habitualmente utilizadas para o transporte do gado. Para as autoridades é o que eles são: mercadorias sem direitos  pelos quais o empresário paga taxas alfandegárias nas fronteiras. Este, Carl Hagenbeck, recebe-os em Hamburgo e exibe-os com grande sucesso no seu circo: em seis semanas consegue dois milhões de visitantes, ou seja o dobro dos que se tinham verificado em Paris.
Hagenbeck começara a carreira em 1874 com o negócio de animais exóticos, mas tão-só constatou o interesse público pelos povos de terras longínquas, viu nessa diversificação a forma de exponenciar o lucro dos seus negócios. Em 1906 a fortuna já crescera-lhe tão significativamente, que empreendeu a construção de um gigantesco jardim zoológico em Hamburgo.
Sempre que trazia um novo grupo de «selvagens» para serem exibidos, contava com a presença de cientistas ansiosos por os examinarem. Ora os índios da Terra do Fogo provinham de uma região cuja população era quase totalmente desconhecida dos europeus. Razão para serem submetidos a medições antropométricas, que confirmassem a teoria da sua subalternidade no quadro geral da evolução humana, justificativa afinal dos pressupostos ideológicos do colonialismo. Aqueles «espécimes» eram apresentados como sub-humanos.
Bischoff, que liderava a Sociedade Berlinense de Antropologia, queixava-se do excessivo cansaço dos «indígenas» para se manterem de pé, enquanto os mostrava nas suas aulas. E exasperou-se por ver recusado pelo grupo uma inspeção minuciosa do sexo das meninas e das mulheres. Só quando duas delas morrerem é que viu satisfeito o desejo de lhes estudar o corpo, dissecando-lhes os cadáveres.
A tournée prossegue: depois da Alemanha os fuegianos são enviados para a Suíça apesar dos efeitos neles suscitados pelo desespero, exaustão, frio e vírus com que jamais haviam contactado. Um a um vão adoecendo e as mortes sucedem-se, dando oportunidade aos cientistas para contarem com mais cadáveres nas mesas de trabalho.
Carl Hagenbeck foi forçado a dar por finda a digressão em 1882 com os sobreviventes em estado calamitoso, a suscitarem reações negativas dos espectadores quanto a tão notória degenerescência. Perdendo valor comercial são devolvidos à procedência: tinham sido onze à partida, apenas dois regressariam a casa. Levados para uma missão anglicana, que se incumbia do apoio a outros ameríndios sobreviventes do genocídio perpetrado pelos colonizadores, traziam não só reminiscências terríveis do que haviam passado na Europa, mas sobretudo doenças pulmonares com que contaminaram os restantes, contribuindo para a sua mais acelerada extinção. Em 1970 morria o último sobrevivente das outrora numerosas tribos do cone sul da América Latina.
Por essa mesma época, nos Estados Unidos, o rei das exibições humanas era Phileas Taylor Barnum. Desde 1841, que enriquecera graças à sua especialização na exibição de aberrações. No mesmo palco mostrava os fenómenos mais incomuns: anões, sereias, casais siameses, a mulher barbuda, o gigante - todos compondo uma galeria do bizarro, do fantástico. Revolucionara o mundo do circo com o que designava «O Maior Espetáculo na Terra», para um público de cinco mil pessoas por espetáculo. A ideia de acrescentar «selvagens» ao seu naipe de espécimes levou-o a contactar com agências e consulados de todo o planeta, exigindo-lhes autenticidade em quem lhe enviariam. Um irlandês, Robert Cunningham, satisfar-lhe-ia os intentos. Em 1883, quando soube do pretendido por Barnum, estava em Queensland no nordeste da Austrália, e logo concluiu quão potencial seria o negócio de exportação de aborígenes, a população local desprovida dos mais básicos direitos humanos pelos colonizadores britânicos.
Numa «aldeia negra», como se chamavam os espaços circunscritos onde eram obrigados a viver, Cunningham conheceu um jovem aborígene a que deu um nome artístico: Tambo. Os que o acompanhariam foram, igualmente, «rebatizados»: Toby, Jenny e o filho, Toby Jr., Billy, Susie, Jimmy e Bob.
Segundo a pseudociência da época os Aborígenes estavam no nível mais baixo da escala da evolução, tornando-se particularmente atrativos para os espetáculos «etnográficos». Dizia-se que constituíam espécies subdesenvolvidas, inadaptáveis aos tempos modernos, e como tal passíveis de extinção.
Quando Cunningham os fez embarcar em Townsville, viu-se confrontado com a revolta desses passageiros, decididos a voltarem à sua aldeia. Para os impedir o irlandês retirou-lhes as roupas à força. O que não impediu dois deles de escaparem na escala em Sidney, com um juiz a mandar libertá-los depois de capturados pela polícia. Os restantes prosseguiram viagem para serem integrados no Circo Barnum em Nova Iorque, interpretando os papéis impostos pelo empresário: Billy tornava-se o terrível caçador, com cicatrizes impressionantes e um osso a perfurar-lhe as narinas. Susie é apresentada como uma princesa do Queensland. Tambo é o guerreiro capaz de impressionar com a sua agressiva dança ritual. E pretende-se apimentar o espetáculo com o suposto canibalismo do grupo que suscitaria efetivo perigo para o público. Que se divertiria, igualmente, com a habilidade dos «atores» no uso do boomerang.

(DL) Alaa el-Aswany, a consciência moral do Egito


Alaa El Aswany é o justo herdeiro de Naguib Mahfouz enquanto escritor mais interessante de quantos escrevem no Egito. Socialista confesso e comprometido com as mudanças sociais, ele esteve bastante ativo a dinamizar os revoltosos da Praça Tahrir em 2011, quando estava em causa derrubar Moubarak, e insurgiu-se contra o seu sucessor, esse Mohammed Morsi, que quis transformar a revolução democrática numa nova ditadura religiosa. Obviamente que, hoje em dia, Aswany é uma referência intelectual contra a ditadura fascista de Sisi, que lhe proíbe a difusão dos livros e textos, embora não possa impedi-lo de os publicar no estrangeiro, como sucedeu agora em França, onde «J’ai couru vers le Nil» é um dos maiores sucessos da rentrée littéraire. Mas, porque tem de garantir o sustento da família, Aswany continua a exercer medicina dentária na sua pequena cidade a trinta quilómetros do Cairo.
O primeiro romance dele publicado entre nós foi »Os Pequenos Mundos do  Edifício Yacoubian», datado de 2002, que tomava esse espaço como ilustrativo da época num Cairo moderno, onde se cruzavam diferentes personagens capazes de interagirem e darem o retrato social de uma sociedade em grande transformação: um velho playboy aristocrata, um jornalista homossexual ou uma mulher forçada a prostituir-se para assegurar a sobrevivência dos seus. Estavam explícitos temas incómodos para os poderes políticos e religiosos, como a corrupção e a sexualidade, o fanatismo religioso e as desigualdades sociais.
Com esse romance Aswany confirmava a sua dimensão de consciência revolucionária no país, que almejava transformar radicalmente. Por isso mesmo, nos anos noventa, fundara um movimento político chamado «kifaya» ou seja, «Basta!»
De 2007 conhecemos «Chicago» em que aborda a vida de emigrantes atraídos pelo sonho americano, que constituem outro painel muito forte de personagens representativos de várias gerações. Há aquele que há mais tempo está nos States e alimenta um desprezo arrogante pelo atraso do seu país de origem. Relevante, igualmente, um professor de história casado com uma norte-americana e dela se sentindo diferente o bastante para questionar a mútua compatibilidade. Ou uma estudante brilhante, mas afetivamente inepta. Ou ainda o presidente da união de estudantes, que compromete-se com a policia politica do seu país a troco de lhe arranjarem casamento com uma mulher de famílias abonadas. A distância geográfica facilitava o relacionamento entre homens e mulheres sem os preconceitos da terra natal.
Quatro anos depois Aswany publicava «O Estado do Egito - o que tornou a revolução possível», ensaio sobre os principais problemas do seu país, desde a estagnação económica à brutalidade policial, da pobreza ao assédio das mulheres, ou ainda os crimes de ódio contra a minoria cristã. Datado o bastante para que os acontecimentos posteriores o tornassem obsoleto, o livro não deixa de levantar questões, que a atual ditadura continua incapaz de resolver.
O romance agora publicado em França toma a revolução de 2011 como pano de fundo, desmascarando as estratégias conjugadas dos militares e religiosos para frustrarem os anseios democráticos da juventude. Passado entre janeiro e novembro é construído como um folhetim do século XIX, recheado de episódios movimentados e frequentemente divertidos. Como de costume há personagens fortes: o casal de namorados, Asma e Mazen, ambos convictos da bondade do ideário socialista; uma perversa apresentadora televisiva; a filha de um general dos serviços de segurança; ou ainda um estudante, que lembra o que foi assassinado em Alexandria pelos esbirros de Moubarak num confronto, que deu origem ao levantamento popular de há sete anos. A exemplo dos títulos anteriores, Aswany expõe a hipocrisia dos poderes políticos e religiosos, mormente no que diz respeito à sexualidade.

(DIM) «Mea Maxima Culpa: Silêncio na Casa de Deus» de Alex Gibney (2012)


O documentário já tem seis anos, mas, apesar de demasiado longo para quanto pretende demonstrar, mantém a atualidade, porque nada de substantivo mudou na forte probabilidade de crianças inocentes serem vitimadas por predadores sexuais, escondidos nos seus respeitáveis hábitos de padres, bispos, quiçá mesmo cardeais. Porque, mesmo não sendo culpadas efetivas de violações, as mais altas autoridades da Igreja Católica têm imposto o silêncio e o encobrimento como regra ao longo de mais de dezassete séculos.
O filme é protagonizado por quatro dessas vítimas, decididas a, em adultos, denunciarem as agressões sexuais a que foram sujeitas num internato para crianças surdas - a St John’s School for the Deaf no Milwaukee - e cujo diretor, o padre Murphy, agia como um lobo a rondar o redil das indefesas ovelhas. 
Apesar das denúncias sobre o caso datarem do início dos anos sessenta, o clero norte-americano cuidou de poupar o criminoso ao justo castigo, desvalorizando os testemunhos das suas vítimas. Mesmo quando o caso chegou à secretária do cardeal Ratzinger ou ao conhecimento de João Paulo II, qualquer deles revelou pérfida indiferença para com o sofrimento dos que deveriam defender.
O documentário vai mais além e, através dos exemplos de outros casos ocorridos na Irlanda, em Itália ou em França, demonstra ser essa a «cultura» da Igreja Católica de acordo com as orientações do Vaticano. Embora não o explicitando o filme deixa a dúvida quanto à possibilidade da resignação de Bento XVI ter tido a ver com a iminência de um escândalo, que ele sabia estar prestes a rebentar e de que fora um dos principais responsáveis.
Ao assistir a este filme só me sinto ainda mais firme no ateísmo, que me dissocia de uma instituição manifestamente delinquente...

domingo, outubro 21, 2018

(DL) De bilhete marcado para Lanzarote


Não comecei ainda a ler o último caderno, que José Saramago escreveu em Lanzarote porque, ao contrário, do que era meu hábito, quando saía um novo livro seu, desta feita reservei para a encomenda do Círculo de Leitores a sua aquisição. Mas decerto irei lê-lo com tanta atenção, quanto a que costumava dedicar a outros títulos seus e ciente de colher idêntica satisfação. Porque permito-me citar um pequeno trecho do belo texto escrito por Lídia Jorge para comemorar o vigésimo aniversário do Nobel, poupando-me a caracterizar com bem mais pobres expressões o que ele significou, quer antes, quer depois dessa consagração: “Saramago interpretou, como poucos, no final do século XX, a batalha do homem moderno, ao contrário de outros Nobel que se sentam à sombra do loureiro, foi à luta. Depois desse Outono de 1998, continuou a escrever livros belos, sempre polémicos, e ele mesmo, como  cidadão do seu país e do mundo, voltou a colocar as mãos sem luvas na realidade circundante, disse em voz alta o que muitos só dizem em voz baixa, enfrentou as verdades feitas, ajustou contas, ofereceu-se ao debate e à controvérsia, foi fiel a um temperamento indomável, a uma vida irrequieta e a um talento transbordante. Nunca se sentou.”
Até chegar a Estocolmo e proferir esse belíssimo discurso intitulado «De como a personagem foi mestre e o autor seu aprendiz» - que deveria ser de leitura obrigatória para todos os estudantes do nosso Ensino Secundário - Saramago foi sempre um homem socialmente comprometido e genuinamente humilde no relacionamento com os outros. Quando ele disse que o homem mais sábio, que conhecera em toda a sua vida, não sabia ler, nem escrever, sabemos que é verdade, porque as lições da vida sempre lhe foram mais queridas, que as dos catedráticos, muitos dos quais lhe mereciam desprezo por quanto aparentavam um conhecimento sem proveito para quantos na vida labutam e procuram ser felizes.
Por fazer dos livros uma ferramenta muito útil para quem quiser do mundo ter uma visão que se não esgote no respetivo umbigo (desculpem lá, mas nunca me consigo livrar das bicadas no invejoso!), Saramago terá um reconhecimento duradouro, muito para lá do boicote, que muitos insistem em fazer-lhe apenas porque ideologicamente jamais se quis neutro...

(S) A Orquestra afegã Zohra

sábado, outubro 20, 2018

(EdH) “Selvagens” em Jardins Zoológicos (1): uma miúda da Terra do Fogo


“O bárbaro é , em primeiro lugar, o homem que crê na barbárie» (Claude Lévi-Strauss)
Foram-nos buscar ao fim do mundo durante mais de cem anos, desde meados do século XIX até à Segunda Guerra Mundial. reduziram-nos à condição de curiosidades, totalizando-se trinta e cinco mil os indivíduos exibidos, observados por quase 1,5 mil milhões de visitantes. Seres humanos exibidos para gáudio de outros seres humanos em zoos, circos, teatros, salas de anatomia, em exposições coloniais e universais. Foram homens e mulheres equiparados a animais, incluindo as crianças, apenas para promover a hierarquização das raças e, sobretudo, dar fundamento à colonização do mundo.
Qual o motivo para  suscitarem tanto sucesso? Porque foram descritos como selvagens provenientes de longínquas e extraordinárias terras, consideradas exóticas, e cujos habitantes poderiam ser vistos em carne e osso.
Exigiram-lhes que aparentassem ser canibais, quando nunca o tinham sido. Banalizava-se assim um racismo primário através da teatralização de imagens preconceituosas, que pouco ou nada coincidiam com a realidade. Conhecemo-los pelas fotografias, mas não nos chegaram os nomes das suas identidades pervertidas.
A intenção de hoje os recordarmos não implica culpabilizar os descendentes de quem assumiu esses crimes contra a Humanidade.  Trata-se, sobretudo, de compreender o que se passou e o porquê, ao mesmo tempo entendendo os efeitos duradouros dessa lamentável história.
Em 1881 a miúda de olhar aterrorizado da fotografia ao lado - apenas com dois anos e meio -, foi capturada na Patagónia com a respetiva mãe. Pertencia a um povo nativo da Terra do Fogo, que se vira espoliado das terras pelos colonos europeus cuja avidez traduzira-se em assassínios em massa. A extinção desse povo foi rápida e na maior das indiferenças.
O empresário alemão Carl Hagenbeck, especializado na exibição de «espécimes primitivas«, ou seja de seres anormais, disformes ou com costumes peculiares (o canibalismo, por exemplo), estava convicto dos lucros potenciais garantidos pelo fascínio dos putativos espectadores.  Foi ele quem encomendou a um rico comerciante de Punta Arenas a captura de um grupo desses já raros ameríndios, logo enviados para a Europa num barco afretado para o efeito.
Nessa viagem por mar a miúda deve ter visto transformados em realidade os piores pesadelos infantis. Eram horríveis as condições dessa navegação de mais de um mês em que a tripulação olhava para ela e seus acompanhantes como valendo menos do que nada. Desembarcados no Havre em agosto de 1881 foram recebidos por Albert Saint-Hilaire, o diretor do Jardim da Aclimatação, que embora os saiba em escala para a Alemanha, compreende o potencial de os ter na sua instituição.
Na realidade não era o primeiro grupo de populações primitivas a serem trazidas para diversão das populações europeias: desde 1877 que lapões, esquimós e núbios tinham vindo exibir-se no Jardim de Saint-Hilaire, suscitando sempre um enorme sucesso. E há que ir mais atrás, ao século XVI, quando tinham acontecido as primeiras exibições de povos longínquos nas cortes europeias. Porém, só no início do século XIX é que as exibições etnográficas tinham aparecido nas feiras populares, nas tabernas e teatros, alcançando um público mais vasto. Sarah Bartman, desafortunada pigmeia , também conhecida como a «Vénus Hotentote», fora trazida da África Austral e exposta como uma aberração. Tal como ela os homens, mulheres e crianças, trazidos da Terra do Fogo, eram vistos como sub-humanos.
Era o arranque de uma experiência humilhante: passavam o dia num recinto fechado sob o olhar curioso de uma multidão atraída pela que interpretavam como extravagante. Reunidos em torno de uma fogueira nada lhes restava fazer senão deixarem-se observar. Para lhes suscitarem reações os visitantes atiravam-lhes moedas ou amendoins, como fariam a um macaco. A miúda não é vista como a criança que é. Consideram-na exemplo de um nível de evolução muito básico.
Os organizadores apresentam-nos como canibais e a imprensa publica artigos delirantes sobre os seus «costumes». É nessa travestida «realidade» que são vistos pelos visitantes.
Saint-Hilaire exulta: a exemplo do pai, que criara o Jardim, ou do avô, que estudara a Vénus Hotentote», considera-se um cientista brilhante. Ademais, em poucas semanas, quatrocentos mil visitantes enchem-lhe os cofres.
As condições de exibição são terríveis. Os ameríndios não estão adaptados ao clima de Paris, e muito menos ao barulho ensurdecedor da multidão. É certo que os vacinam por temerem que a mercadoria se perca, mas a miúda adoece com uma broncopneumonia. O organismo muito frágil não consegue combater a doença  e, em poucos dias, ela morre nos braços da mãe no recinto em que as fecharam.
É a primeira vez que morre uma criança exibida num zoo humano. Estava-se a 30 de setembro de  1881 e o espetáculo nem por isso deixaria de prosseguir no dia seguinte.