terça-feira, janeiro 23, 2024

Histórias Exemplares (III)

 

1. Da imperatriz Sissi ficou na História a ideia de uma mulher profundamente infeliz com uma vida marcada pelas tragédias, mormente a das mortes trágicas do primo Luis da Baviera, ou do próprio filho, culminadas no seu próprio assassinato em 1898. Romy Schneider, que a interpretou em registos díspares, consoante dirigida por Ernst Marischka ou Visconti, muito contribuiu para a criação de uma mistificação glamourosa da vida da personagem.

A confirmar essa tristeza permanente estão os retratos em que os lábios se lhe crispam fechados, completamente avessos à tentação do mais leve sorriso.

António Victorino de Almeida dá, porém, uma explicação menos romântica para tão sorumbáticas poses: a imperatriz tinha uma dentição horrível, que procurava esconder com a ocultação de tão notórias cáries.

Assim se demonstra quão útil lhe foi este lado comprometedor da sua beleza para melhor compor uma imagem idealizada, que não correspondia à realidade.

2. Confesso ter apreciado a atribuição do Nobel a Annie Ernaux, apesar de melhor terem-se justificado os anteriormente atribuídos a Le Clézio ou a Modiano, e os que, em alternativa, tivessem premiado Quignard ou Échenoz. Mas a postura cívica da escritora, amiúde na vanguarda de grandes lutas pelos direitos das mulheres e dos explorados, justificou esse agrado.

Ao ler-lhe agora O Jovem tenho de reconhecer que, apesar do estilo feito de parágrafos curtos a apresentarem evolutivamente a história numa sequência cronológica, existem razões para dar alguma razão aos críticos pela natureza umbiguista de um tipo de enredo cingido a variações repetitivas dos criados em obras anteriores.

Temos de volta os breves amores com quem não se chega a ter uma relação mais profunda do que a suscitada pelos prazeres canais porque, como a generalidade dos homens dos pretéritos romances, existe uma superficialidade congénita a que a natureza ciumenta não acrescenta encanto.

Daí alguma insatisfação com uma leitura que, de positiva, teve a virtude de ser breve, porque a novela esgota-se em menos de uma trintena de páginas.

3. Com inteira razão queixa-se Carmo Afonso da mistificação em curso por quem tenta dar do governo da Geringonça uma leitura deturpada, como se a generalidade dos portugueses o não tivesse apreciado e os resultados económico-sociais não tivessem desmentido todos os augúrios diabólicos, que lhe prenunciavam.

Eis mais um bom exemplo de como as direitas procuram subscrever a máxima goebbelsiana sobre as virtualidades de se repetir mil vezes a mesma mentira.

Embora com custos terríveis as falsidades nazis acabaram derrotadas. Assim o merecem ser as recorrentemente enunciadas pelos dos parlapatões das várias direitas  mais ou menos extremadas.

segunda-feira, janeiro 22, 2024

Histórias Exemplares (II)

 

1. Contou-o Fernando Rosas num dos seus programas sobre a História da África: as credenciais progressistas do general Norton de Matos, candidato da Oposição democrática em 1949 e, anteriormente, braço-direito de Afonso Costa durante a Primeira República, deixaram muito a desejar, mormente nas políticas coloniais da 1ª República. Se nos dedicarmos à leitura dos seus livros sobre Angola, onde foi governador-geral, é evidente a crença na congénita inferioridade dos “indígenas” a quem não reconhecia outro préstimo que não o de se deixarem civilizar pelos brancos através dos trabalhos forçados.

Muita fome terá decorrido da convocação desses escravos por colonos, que os impediam de cultivar as próprias terras, lhes não davam alimentação bastante e até não se privavam de lhes violar as mulheres.

Embora ainda subsistam muitos defensores dos mitos da «África Portuguesa» é evidente que a História colonial está pejada de sinistros crimes, que não se esgotam na ignomínia do tráfico de escravos...

2. Chandigarh é uma das cidades indianas de que nunca nos lembramos, quando queremos invocar as que são mais relevantes. E, no entanto, é a capital do Pendjab e, construída, depois da independência, teve origem num plano de Albert Mayer depois preparado por Le Corbusier. O que justifica a merecida reputação junto dos que se interessam por urbanismo.

A cidade estava dividida em setores retangulares com 800 e 1200 metros como medidas dos respetivos lados, ficando ao centro aquele onde se concentrava o comércio, a restauração, os hotéis e os bares. Os demais contam com zonas de habitação (burguesa e social), um centro comercial, zonas de trabalho, equipamentos desportivos, templos e espaços verdes.

Le Corbusier também renovou na criação de um sistema de circulação hierarquizado em sete vias, que garantiu a fluidez do tráfico, de tal forma que, ainda hoje, apesar de contar mais de um milhão de habitantes - ou seja o dobro dos previstos nos planos do arquiteto franco-suíço! - demonstra a sua eficácia.

E ainda é possível atravessar a cidade de norte para sul, apenas atravessando os jardins do Leisure Valley.

3. Sociedad Española de Automóviles de Turismo foi o nome escolhido pela ditadura de Franco para lançar uma marca de automóveis, que adotaria a letra inicial de cada uma das palavras, que crismavam a fábrica de Martorell e contava com o beneplácito tecnológico da Fiat.

Em 1950 deu substância à estratégia do regime em sacudir o isolacionismo em que se sentia condicionado depois de derrotado nazi-fascismo com que se identificara de forma tão óbvia. 

Aproveitando o anticomunismo da Guerra Fria, e sempre mantendo a beata ideologia nacionalista, lançava-se uma estratégia de desenvolvimento económico que, aqui ao lado, Salazar só pretenderia replicar mais tarde, mas sempre duvidando dos benefícios de uma modernização capaz de pôr em causa os fundamentos da sua embotada crença num Portugal rural e de “bons costumes”...

domingo, janeiro 21, 2024

Histórias Exemplares (I)

 

1. O primeiro dos filósofos, Tales de Mileto, era um homem tão distraído, que passeava-se pelos campos sem atender ao sítio onde punha os pés. Foi assim que, num nesses dias de íntimas elucubrações, caiu num poço de onde não se salvaria não fosse a providência de uma escrava, que lhe acompanhava os movimentos, porventura já imaginando os riscos em que incorria.

Se ponderarmos na metáfora do poço, enquanto portal para uma realidade mais profunda, não há, porém, que estranhar essa singular atração do pensador pelas profundas variantes da realidade.

2. Grande foi a deceção de Pablo Picasso, quando conheceu enfim a casa, absolutamente convencional, de Nathalie Sarraute que, em palavras ditas, mas sobretudo escritas sob a égide do nouveau roman, ela descrevia como se de castelo ou palácio se tratasse.

Estranho foi que o pintor de Guernica acreditasse no estrito significado da descrição, esquecendo o quanto a realidade que, para uns, é prosaica, consegue ser idealizada por quem a vê enriquecida pela magia dos sentimentos...

3. Pode-se fazer o belo com o que feio é? Eis uma questão pertinente, quando se olha para a fotografia tirada por Tom Hegen oitocentos metros acima do lago Searles na Califórnia. Desse leito seco extraem-se minerais para as indústrias, uma atividade poluente, porém traduzida num quadro em tons magenta com contornos indefinidos num fundo bege-esbranquiçado.

Se se ampliar a imagem começam a ver-se estradas, canalizações, hangares, que permitem uma melhor compreensão do que vemos. As zonas brancas são depósitos de sal, que rodeiam as bacias de extração donde potentes bombas retiram o fluxo de minerais com a ajuda da injeção de uma bactéria responsável pela tal cor magenta. Esse fluxo é depois encaminhado para refinação numa fábrica química ali adjacente. Vidro, detergentes ou componentes eletrónicos são as linhas de produção para onde são enviados esses minerais.

Captada na perpendicular a imagem não tem relevo, nem perspetiva, lembrando  obras de Nicolas de Stäel, Mark Rothko ou mesmo Piet Mondrian. Se o lago Searles lhe pareceu o mais triste, que alguma vez vira, Tom Hegen tornou-o belo sem o motivar um propósito político, porque assume interessar-lhe o que possa ser comercializado sem estados de alma complementares.

As imagens ampliadas a partir do céu tornaram-se comuns desde o início deste milénio, quando a tecnologia as facilitou, logo ganhando popularidade junto de quem as considerou esteticamente interessantes.

O que justifica outra questão não menos paradoxal: até que ponto o estético pode ignorar o significado político do que toma por tema, sobretudo se - como é este o caso! - está em causa um crime ecológico. Fará sentido falar de um “tóxico sublime”?

domingo, janeiro 14, 2024

Águas Passadas, João Tordo, 2021

 

Este é o típico romance, que reconheço bem escrito, com uma trama consistente e alguma complexidade na gestão no recurso aos diversos narradores, mas tende-me a suscitar algumas objeções, que relativizam o agrado com que o li.

Perspetivado na lógica de entretenimento inteligente o romance segue os cânones do género com uma subcomissária, Pilar Benamor, a ser peça esdrúxula de uma engrenagem preconceituosa, irreverente perante a generalizada ambição quanto a medianos resultados, e insatisfeita por a ver sem escrúpulos em dar alimento aos títulos sensacionalistas dos tabloides.

A morte horrível de dois adolescentes - Charlie devolvida sem olhos pelo mar para onde fora lançada, Adriano a quem fora removido o coração antes de amarrado a uma árvore - associa banqueiros cúpidos, pedófilos e psicopatas, que usam e abusam de cúmplices amorais para executarem os seus crimes. E neles se conta um motorista, que execra quem abusa de crianças, mas “por lealdade” lhes serve de carrasco, uma professora tão desejosa em ser mãe, que predispõe-se a usar os alunos para filmagens sinistras, ou até uma criada capaz de ministrar drogas na água da subcomissária como forma de corresponder às ordens do patrão.

As objeções prendem-se com a exploração da adição masoquista da protagonista, que se dá a improvável amante por quem é abusada numa mescla de amor-ódio, que só parece servir para lhe acentuar a personalidade fora da caixa.

Talvez sejam os meus próprios preconceitos a falar, mas desagradaram-me essas partes em que Pilar parece sentir inexplicável gáudio em ser violada. E elas condicionaram-me até a leitura até à derradeira página...

sábado, janeiro 13, 2024

A busca dos sonhos perdidos

The Virgin Suicides (1999), Lost in Translation (2003), Marie Antoinette (2005), Somewhere (2010), The Bling Ring (2013), The beguiled (2017), On The Rocks (2020), Priscilla (2023).

A partir de cenas destes oito filmes Johanna Vaude recorda em nove impressivos minutos as características das personagens de Sofia Coppola: esforçadas na libertação das grilhetas dos seus quotidianos cinzentos, acabam por concluir existirem tantas mudanças de pormenor sem nada alterarem no essencial. Elas bem cuidam da aparência, que as torna sedutoras a quem as admira, mas não lhes consegue aceder, porque não faltam adeuses sem promessas de futuro.

Todas esgotam-se na mal sucedida busca dos sonhos perdidos.

quarta-feira, janeiro 10, 2024

Das vantagens de não ir à escola

 

Poucos devem ter sido os que não leram pelo menos um dos muitos romances de Agatha Christie, ou não viram uma das adaptações deles produzidos para o pequeno ou o grande ecrã. Com tantos títulos disponíveis, pode-se dizer fácil dar com um deles nas mais improváveis ocasiões. Só a Bíblia ou as peças de Shakespeare (pelo menos no Reino Unido!) parecem rivalizar com o sucesso comercial das suas díspares edições.

O meu encontro com os seus livros deu-se na adolescência, quando as férias de verão pareciam não ter fim e as horas soalheiras aconselhavam o recato caseiro antes das grandes “futeboladas” do fim da tarde.

Sentado na marquise, diante de um campo com árvores e relva, avançava nos pequenos volumes da coleção Vampiro, alternando-os com os de ficção científica da que integravam a Argonauta. Mais tarde, nas errâncias oceânicas, também levava um dos volumes das Obras Completas para os ir digerindo a par de títulos de outra ambição literária.

A fórmula utilizada pela autora para consubstanciar as suas intrigas continuam a ser muito eficazes nos dias de hoje. O sentido de observação de Hercule Poirot ou de Miss Marple continuam a estimular-nos porque, ao mesmo tempo, são acompanhadas de um refinado tipo de elegância e sólida inteligência. Por muito que seja paradoxal que um belga baixote e bigodud, ou uma velha senhora tenham integrado o reduzido círculo de detetives famosos deste género literário.

Razão, que justifica o interesse por conhecer o método criativo de Agatha Christie para alcançar um tal sucesso. Porque foi manifesta a sua capacidade para enfiar o leitor num labirinto, dando-lhe aí a mão para o levar de regresso até à saída numa surpreendente cena final em que todas as peças do puzzle intelectual, entretanto criado, se juntam e ganham sentido. Atónito, ele mal dá pelo percurso que faz, mas saboreia com gosto a viagem, que o fez distrair-se com pistas falsa num cenário o mais das vezes tranquilo.

Numa entrevista ouvimo-la explicar a principal razão de tal sucesso: o nunca ter frequentado a escola. E eis uma boa explicação para ter explorado a imaginação, que a disciplina das salas de aula coarta. Porque foi com ela que criou um universo próprio que ganha a atratividade de um bem sucedido buraco negro...

segunda-feira, janeiro 08, 2024

Os Quatro Filhos de Katie Elder, Henry Hathaway, 1965

 

Algo de semelhante acontece-me com John Wayne e Clint Eastwood: antipatizo com a atitude de canastrões que não têm dúvidas e raramente se enganam, situando-os no espectro político mais reacionário de Hollywood, mas tenho de reconhecer quão bons atores foram.  Por isso não os estigmatizo, continuando a ver muitos dos filmes em que entraram.

No caso do que fora batizado com um nome algo equivoco, prefiro os que interpretou sob as ordens do mestre Ford, mas Hathaway foi tarimbeiro suficientemente competente para justificar a atenção ao que assinou.

Neste caso temos a ação a passar-se em Clearwater, no Texas, com quatro irmãos - todos com feitios diferentes! -  a unirem forças para vingarem a miséria em que morrera a mãe, recentemente sepultada, muito por culpa de um cacique local, que ludibriara-lhe o marido ganhando às cartas o rancho familiar recorrendo a óbvia trapaça.

O desenvolvimento da história é convencional dentro do género, mas uma boa coboiada pode ser distração adequada, quando as meninges merecem descanso com as atribulações quotidianas. Até porque dele ressoa uma melancolia, que condiz com um estado de alma assim predisposto... 

Samuel Barbosa, A Távola de Rocha, 2021

 

Muito interessante o documentário que Samuel Barbosa fez na primeira pessoa sobre um cineasta com quem trabalhou. Realizado quase dez anos depois da morte de Paulo Rocha, abundam os testemunhos dos amigos e colegas de ofício e os extratos de alguns dos seus filmes, mormente de Os Verdes Anos que, em 1963, inaugurou o moderno cinema português.

Ascético e rigoroso no seu trabalho, Paulo Rocha muito deveu à influência de Wenceslau de Moraes, sobre quem rodou um filme memorável, que reflete a observação detalhada dos gestos e costumes de uma cultura, a japonesa, tão consonante com o seu carácter.

Como Luís Miguel Cintra confessa algumas soluções implementadas por Paulo Rocha nos seus filmes podem não parecer convincentes—quiçá roçam o ridículo! - mas inserem-se numa coerência, que deve ser respeitosamente compreendida... 

domingo, janeiro 07, 2024

A fotografia e o canto enquanto armas

 

1. A fotografia pode ser uma arma:  é uma evidência que, desde cedo, se associa à arte de que Daguerre foi um dos mais notáveis criadores. Nestes quase dois séculos desde o seu surgimento não têm faltado exemplos de fotógrafos decididos a captarem instantes da realidade e apostados em, pela sua exibição, transformarem-lhes o fundamento.

Manit Sriwanichapoom é tailandês e criou a personagem de Mr. Pink, um homem vestido de cor-de-rosa a passear um carro de compras de supermercado pelas manifestações do consumismo exacerbado dos nossos dias. Paradoxalmente os que morreram em prol da Democracia parecem não ter conseguido melhor do que a predominância da sensação de só se ser feliz se capaz de adquirir algo e assemelhar-se a uma ilusão de estereotipo ocidental. E, no entanto, com o olhar vago perdido algures, o miúdo que come um hambúrguer do McDonald’s não tem um ar particularmente exultante enquanto deglute a sua refeição...

A imagem apela para o que de mais essencial pode ter a vida e escapa às quimeras do consumismo acéfalo.

2. O canto também pode ser subversivo e essa é constatação verificável em todas as latitudes. A ayla, que pode traduzir-se por grito, é uma arte marroquina particularmente importante durante a luta contra a colonização, quando serviu de apelo à luta contra a repressão do ocupante. Porque, sendo na origem um canto dos campos que emitiria mensagens religiosas ou cantara as alegrias e os sofrimentos do amor, foi oportunamente desviado para versos transgressores entoados num dialeto inacessível à compreensão dos franceses.

Ainda hoje é celebrada a memória da cantora Kharboucha enquanto mártir de tal luta.

quinta-feira, janeiro 04, 2024

O quadro fundador do Impressionismo

 

Há a silhueta do barqueiro a remar no mar azul esverdeado, acompanhada de outras, mais indistintas e distantes, a produzirem o efeito de profundidade. O vermelho alaranjado do sol é a única cor quente do quadro a refletir-se na superfície líquida. E, mais longe, mergulhada na bruma cinzento-azulada, está o porto do Havre com linhas verticais feitas de mastros de barcos, chaminés de fábricas e gruas.

Monet reflete a influência das obras de Turner, que estudara durante a estadia em Londres no ano anterior, mas também a das estampas japonesas, que definiram a regra do quadro dividido em três partes: o terço superior dedicado ao céu e os outros dois consagrados ao porto. Mas a composição, quase abstrata, capta o fugidio instante em que a luz do dia está a impor-se na paisagem.

Impressão, Sol Nascente, provavelmente pintado em 1872 a partir da janela do quarto de hotel onde Monet se instalara com a mulher durante uma das suas muitas visitas à cidade natal, é a obra anunciadora do Impressionismo, termo que começou por ter conotação pejorativa pela pena do jornalista Louis Leroy, que sobre ele escreveu a propósito da visita ao Salão dos pintores, escultores e gravadores no Boulevard des Capucines, em abril e maio de 1874, e o escandalizou por romper com os cânones académicos dos artistas prezados pelo gosto conservador da época.

Não tardou que outros críticos adotassem o termo num sentido positivo nele abarcando as obras que Monet e outros jovens artistas estavam a criar com a obsessão de cristalizarem na tela a magia de um instante... 

segunda-feira, janeiro 01, 2024

Uma certa má consciência norte-americana

 

Uma enésima oportunidade para rever E Tudo o Vento Levou no magnifico Technicolor da versão restaurada de 1998 - esta noite no canal franco-alemão Arte! - dá-nos a possibilidade de recordar como foram tantos os excelentes filmes da colheita hollywoodiana de 1939, que se viram preteridos dos óscares por este filme assinado por Victor Fleming, mas muito da lavra de George Cukor ou Sam Wood enquanto o par de protagonistas não cuidou de os fazer despedir.

Se o filme em que o amor entre Scarlett O’Hara e Rhett Butler se revela, sobretudo, uma história de desejo, envolvendo Ashley como terceiro vértice do triângulo escaleno, vale a pena recordar que esse foi o ano em que John Ford assinou Cavalgada Heroica e A Grande Esperança, Frank Capra pôs o inocente Deeds a pedir a palavra em Washington, o mesmo Victor Fleming - qual cuco oportunista! - também assumiu a autoria de O Feiticeiro de Oz em que outros já tinham dado importante contributo, ou ainda de Wyler surgira a fascinante versão de O Monte dos Vendavais.

Há cenas, que já conhecemos de cor - o incêndio de Atlanta, a fuga para Tara ou o travelling que começa em Scarlett e avança até à panorâmica sobre o campo de batalha pejado de mortos e feridos, culminando na bandeira da Confederação. E, se é certo que subsiste um cheirinho a racismo, a força da natureza, que era Hattie McDaniel - que ganharia um envergonhado óscar pelo feito! - permite reconhecer alguma má consciência por todo o crime, que a escravatura constituiu.

A aparência poderia justificar os enganosos comentários

 

A fotografia de Cliff Endsley, captada numa praia da Califórnia, foi intensamente partilhada nas redes sociais e suscitou comentários sobre o carácter ameaçador de um grupo de golfinhos apostados em atacarem os surfistas contra quem estão prestes a chocar. Não faltaram suspeitas de uma revolta da natureza contra o carácter predador de uma espécie humana, que tanto tem feito por a destruir.

A realidade não se ajusta ao efetivamente sucedido, porque os cetáceos apenas terão vindo brincar com quem lhes suscita genuína e benigna curiosidade. Mas não deixam de ser pertinentes as preocupações com os efeitos gravosos de um capitalismo, que tem justificado a extinção em massa de tantas espécies animais.