sexta-feira, agosto 13, 2021

Indiana Jones como sucedâneo do reaganismo

 

Comemoram-se este ano os 40 anos da estreia de Os Salteadores da Arca Perdida, que abriu as portas para uma série de réplicas por ele influenciadas, mas sobretudo radicado naquele cinema de aventuras dos anos 30 e 40, que estivera na mente dos dois cúmplices. Spielberg e George Lucas entravam nessa década de 80 a encabeçarem a rutura com um tipo de filmes orientado para um público adulto e em que se questionava criticamente a guerra do Vietname. A época das pipocas e da coca-cola conhecia o seu fulgor, desde então jamais esmorecido, com filmes de mero entretenimento consentâneos com a mudança política operada na Casa Branca quando Ronald Reagan sucedera a Jimmy Carter. Não admira que o herói saído da imaginação do realizador e do seu produtor refletisse a superioridade do homem branco perante os povos onde procurava achados arqueológicos e que, de passagem, criassem temáticas esotéricas de sabor ideologicamente controversas. Ameríndios, negros, indianos ou árabes estavam destinados a serem os maus da fita, mesmo que os nazis se lhes equivalessem em malignidade.

Com competência técnica e narrativa, Spielberg e Lucas serviram globalmente um daqueles apetitosos manjares de junkie food, que dão prazer a quem os come mas, na realidade, lhes faz extremamente mal. Sobretudo por não enjeitarem uma lógica profundamente reacionária.

Uma silenciosa Cordilheira

 

Está prevista para setembro a estreia de «A Cordilheira dos Sonhos», a terceira parte do tríptico rodado pelo chileno Patricio Guzman e de que já conhecêramos os excelentes «A Nostalgia da Luz» e «O Botão de Nacar».

O terceiro filme, que mereceu honras de abrir o Festival de Cannes em 2019, revela-se tão sedutor quanto os anteriores. Se o que era passado no deserto de Atacama estava focalizado nos céus prospetado pelos astrónomos dos observatórios aí localizados, mas também nas incansáveis mães dispostas a vasculharem todos os grãos de areia para encontrarem os restos dos filhos desaparecidos, e o segundo tinha na água o elemento dominante para lembrar o genocídio dos ameríndios da Terra do Fogo, este tem a Cordilheira dos Andes como omnipresença, mesmo que ignorada por quem vive no vale adjacente, aquele em que se localiza Santiago.

Guzman reconhece que, ele próprio, sentia a indiferença dessa presença enquanto vivia os entusiasmantes tempos da Unidade Popular liderados por Salvador Allende. Mas adivinha que aquelas pedras a tudo assistiram enquanto os militares assassinavam e torturavam milhares de presos políticos. Se elas falassem muito teriam a revelar sobre o quanto há ainda a aclarar sobre esses tempos terríveis. Perante o seu silêncio há que valorizar o esforço indómito de Pablo, um cineasta dotado de uma coleção de milhentos suportes de imagens colhidas antes, durante e depois da queda de Pinochet. A História chilena desses anos terá nessa vasta coleção um incontornável rol de testemunhos. Mesmo que os compatriotas de hoje pareçam alheios a esse passado que já lhes parece secundário perante as preocupações e reivindicações do presente. Na realidade elas radicam todas no neoliberalismo instituído pela ditadura e que impôs o primado da rentabilidade em todos os setores, mesmo naqueles que deveriam ser bens públicos. O cobre, recurso natural de que o país mais dispõe, foi transferido para mãos estrangeiras, de pouco valendo para quem dele mais deveria aproveitar.

Razão para o pessimismo de Guzman, que lamenta ter sido obrigado a viver muitos mais anos no exílio europeu do que no país, que nunca deixou de amar e de filmar. De alguma forma a Cordilheira é para ele esse Chile metaforizado pela praticante de escalada, que vai subindo esforçadamente uma falésia demasiado alta para conseguir chegar ao topo. 

quinta-feira, agosto 12, 2021

Uma exposição impensável entre nós

 

Havendo muitos historiadores, que vêm aprofundando a História do Colonialismo português em moldes científicos capazes de não deixarem qualquer dúvida sobre o seu carácter predatório das riquezas dos povos africanos, mormente com a lucrativa atividade do tráfico de escravos, ainda permanece quase incólume a perspetiva heroica e criminosamente falsa transmitida pelo salazarismo. Como se tem constatado com a história dos jardins de Belém logo aparecem indefetíveis defensores dos símbolos «ultramarinos», quando eles são postos em causa.

Ao contrário da narrativa assumida por grande parte da população, se os portugueses se fizeram ao mar e «descobriram» terras, que já tinham quem há muito as habitasse, não os movia o desejo de expansão da «Fé», mas a necessidade de sobrevivência perante uma terra pobre do ponto de vista agrícola e uma situação periférica relativamente aos fluxos comerciais dos finais da Idade Média.  Os nossos navegadores foram corajosos e a sua necessidade aguçou o engenho de quem lhes construiu as caravelas ou lhes inventou o balestilha para melhor se orientarem nos azimutes, mas movia-os a mesma cupidez que levou outros a enveredarem pela pirataria no mar ou as pilhagens em terra.

Estamos ainda longe de contarmos com uma exposição como a que o Rijksmuseum apresenta atualmente em Amesterdão: tomando por tema a escravatura não existem pudores nacionalistas a omitirem a realidade, que nela se explicita. Tal qual os outras principais potências marítimas dos séculos XVI e XVII os holandeses não se coibiram de explorar o trabalho escravo e de com ele enriquecerem. Existe nesse projeto museológico uma honestidade intelectual ainda difícil de ver replicada entre nós.  Por muito que o partido fascista o queira negar, ainda são muitos os portugueses, que votam de acordo com os seus preconceitos racistas e xenófobos.

quarta-feira, agosto 11, 2021

Os paradoxos da compaixão

 

O que de melhor tem a filosofia é desafiar-nos para perspetivas, que não tinham sido as nossas até no-las transmitirem. No caso deste livro de Paul Audi fica a da conotação do sentimento de compaixão pelo outro como prova da nossa humanidade, mas o singular paradoxo dela decorrer da nossa identificação com essa pessoa. Como se, condoendo-nos dela, fizéssemos a catarse do que sofreríamos se os seus males fossem também os nossos. E também outra ambiguidade: quem sofre quer livrar-se tão lestamente quanto possível dessa dor pelo que a deferência alheia a seu respeito pode ser sentida como uma provação, um incómodo a que gostaria de se poupar.

Outro das interrogações deixadas pelo autor é esta: a compaixão é explicada pelo amor ou pela justiça?

Convenhamos que nunca atentara tão detalhadamente sobre esse tipo de emoção e Audi dá-a a conhecer na forma como foi evoluindo com o pensamento humano desde Aristóteles a Levinas. 

terça-feira, agosto 10, 2021

Um nazi em perturbadora reabilitação

 

A traição também é tema incontornável, quando se trata do escritor francês: Louis Ferdinand Céline. Fervoroso antissemita era entusiástico apoiante da solução nazi para aquele que considerava ser o «problema judeu» e, por isso mesmo, só o exílio na Dinamarca, quando os Aliados preparavam-se para libertar o país, o livrou do pelotão de fuzilamento a que se sujeitaram Brasilach e outros notórios colaboracionistas com os ocupantes.

Daí que nunca tenha entendido o entusiasmo de alguns pela sua obra: o de Baptista Bastos, quando exaltava o valor literário de Viagem ao fim da noite. O de um ator talentoso - Fabrice Luchini - que faz espetáculos com textos do biltre. E, sobretudo, o de todo um meio intelectual, que faz por esquecer o homem por trás dos textos por si exaltados.

Agora as terras francesas andam em polvorosa não só pela agitação negacionista dos sucessores de Céline quanto a ideias de extrema-direita, mas também pela revelação de uns milhares de páginas inéditas, que estiveram resguardadas por um antigo jornalista do Libération, mas devolvidas à família por ordem dos tribunais. E há já quem se exalte com aquele que promove como o grande acontecimento literário do ano: a divulgação das páginas, que tenderão a promover essa imagem do nazi enquanto «escritor genial», decerto sonegando as reveladoras da sua verdadeira natureza.

Pessoalmente mantenho-me na minha: não separo o homem do criador e isso justifica o asco a que me poupo escusando-me a ler-lhe a mais inofensiva das frases. 

segunda-feira, agosto 09, 2021

Um traidor é sempre um traidor

 

O tema da traição merece-me sempre reticências quando tende a heroicizar a figura do delator e o dá como arrependido da organização de que saiu. O caso mais sinistro foi o de Elia Kazan e desse vómito de filme intitulado Há Lodo no Cais - que pena ver Marlon Brando associado a tal projeto! - pelo qual procurou explicar-se de ter destruído a vida de tantos antigos amigos e de suas famílias ao conotá-los com o Partido Comunista durante a caça às bruxas do início dos anos 50.

Convenhamos que, entre o arrependimento de um ex-comunista e o de um mafioso a distância é de monta, podendo aceitar-se neste aquilo que ao outro sempre repudiaremos. Um denunciou quem era «criminoso» pelas suas ideias, o segundo pelos seus atos. Daí ter começado a ver O Traidor de Marco Bellocchio (2019) com algumas reservas, apesar de o reconhecer como um dos mais estimáveis cineastas de quantos se mantêm em atividade no cinema transalpino.

As reticências foram-se esboroando à medida que a história se desenvolveu, remetendo-me para uma época terrível em que os juízes italianos - Giovanni Falcone e Paolo Borsellini - conseguiram dar forte machadada na Cosa Nostra, mas alguns colegas seus (mormente Di Pietro) muito contribuíram para favorecer a ascensão de Berlusconi ao lançarem uma campanha anticorrupção capaz de destruir os partidos tradicionais - nomeadamente o Socialista - mas de premiar os que mais a personificavam.

Embora Tommaso Buscetta nos surja, amiúde, como um “homem de honra” - e esse é o argumento, que o leva a entregar os antigos cúmplices a quem não reconhece igual mérito, é o próprio Falcone quem lhe destrói essa imagem ao conotá-lo com aquilo que sempre foi: um assassino sem escrúpulos. E, se tivéssemos dúvidas sobre o pensamento de Bellocchio a respeito do seu protagonista a cena final tira qualquer dúvida remanescente. Ou seja um traidor é sempre um crápula, mesmo quando a sua perfídia acaba por favorecer o interesse social. 

sexta-feira, agosto 06, 2021

A História e os romances que a abordam

 

Que a realidade é muito mais complexa do que parece demostram-no algumas coisas, que venho lendo ou vendo nos dias mais recentes. Por exemplo a ideia falsa de um Condado Portucalense em permanente guerra com os vizinhos mouros, depois agudizada pelas incursões de Afonso Henriques por esse Mondego abaixo. O tetravô do primeiro rei português, que liderou esse território entre 997 e 1008, não se inibiu de encomendar a artesãos de Córdova alguns objetos pessoais ainda hoje existentes na coleção da Sé de Braga. E, nesta, a Capela de Nossa Senhora da Glória ostenta nas paredes uns frescos de inspiração mudéjar, que demonstra como, um século depois da anexação do Algarve ao território português, a influência cultural mourisca ainda pesava nas construções mesmo quando elas se subordinavam ao culto católico.

Sobre esse período da (pré)História portuguesa nunca me poupo a tecer grandes elogios ao romance Os Anais de Pena Ventosa  de Pedro Eiras que, publicado há vinte anos, bem mereceria reedição perante o facto de, há muito estar esgotado: se adquiri uma noção muito aproximada do que terá sido a vida entre os rios Mondego e Minho nessa época a essa ficção a devo.

Mas a História deve ser olhada com cautelas tendo em conta ser a invariável tradução do ponto de vista dos vencedores. Por isso há que olhar com desconfiança para as fontes de que nos socorremos para chegarmos a muitas das conclusões. Por exemplo em entrevista muito interessante numa das edições do «Público» desta semana, o historiador Valentim Alexandre alertou para os perigos de aceitar como boas as «informações» colhidas nos arquivos da Pide, muitas delas resultantes de tortura e, por isso mesmo, apenas coincidentes com as «conclusões» pretendidas pelos torcionários. No dia seguinte Fernando Rosas contrariava a perspetiva de Marcelo Rebelo de Sousa quanto à necessidade de aprofundar o conhecimento da Guerra Colonial sem abrir feridas, porque fazer História com rigor implica precisamente vê-las sangrar, mormente quanto aos massacres cometidos pelos portugueses contra as populações africanas, que tantos procuram silenciar.

Outro escritor fundamental para, através dos seus romances, conhecermos a realidade do Nordeste brasileiro, dominado por coronéis e jagunços, foi Jorge Amado. Também ele mostrou como a História pode ser revelada através de personagens inesquecíveis. Fica o registo dele nos ter deixado faz hoje vinte anos e continuar-nos a encantar com muitos dos seus romances.