segunda-feira, maio 10, 2021

Sylvia Scarlett, um clássico com defeitos mas muitas qualidades

 

Sylvia Scarlett foi um tremendo fracasso comercial, quando se estreou em 1935. Tão rotundo, que Katharine Hepburn até pediu desculpa aos produtores da RKO comprometendo-se a entrar num filme subsequente sem cobrar salário. Mas confirmava-se aí a condição de «veneno de bilheteira», que a fez purgar breve pena na Broadway antes de voltar a Hollywood para se consagrar como uma das suas atrizes mais bem sucedidas.

Remetido para o limbo dos flops o filme viria a ser redescoberto e valorizado pela comunidade LGBT, que se encantou com a ideia da protagonista passar quase todo o filme travestizada num homem e até passar pela situação de ser beijada por outra mulher. O que espanta é como os censores do código Hayes deixaram passar essa cena explicitamente lésbica!!

Nem bem comédia, mas sem chegar a melodrama (mesmo que o personagem interpretado por Edmund Gwenn morra tragicamente à beira-mar!) o filme demonstra que, apesar de ser reconhecido como um excelente realizador de filmes com mulheres nos papéis principais, George Cukor não chegava aos calcanhares de Lubitsch ou Howard Hawks. Mas vale sobretudo pelos maravilhosos desempenhos de todos os atores, os principais e os secundários, nenhum deles interpretando personagens que correspondam a qualquer estereotipado modelo de virtudes. Pelo contrário existe uma ambivalência amoral, que explica por que os espectadores desses anos 30 não encontraram motivos para se identificarem com a complexidade de todos eles: porque há o velho trafulha sem jeito para as trafulhices, o jovem vigarista sem escrúpulos, a rapariga inocente mas capaz de se disfarçar de rapaz para livrar o pai da perseguição policial, a antiga criada promovida a atriz de cabaré e compulsivamente adúltera, o pintor burguês cujo dandismo justifica que não perca de vista o umbigo ou a refugiada russa meio perdida nas suas estratégias de sobrevivência.

Embora desequilibrado e com uma montagem, que acentua essa sensação, Sylvia Scarlett merece ser visto como exemplo do tipo de filmes em que  realizador e os atores iam tirocinando nos primeiros anos do cinema sonoro para almejarem obras futuras mais interessantes. Enquanto objeto museológico revela-se incontornável até pela forma como procurava abordar temas tabus da época contornando-os com uma subtileza, que ainda surpreende. 

domingo, maio 09, 2021

Uma prodigiosa aula de filosofia de mais de três horas

 

Três horas e vinte minutos para ser exato. É quanto dura Malmkrog, a sexta longa-metragem de Cristi Puiu, que foi considerado um dos melhores filmes do ano passado.

À partida os temas das discussões intermináveis entre Nikolai, Ingrida, Edouard, Madeleine e Olga pouco interesse me merecem: a decadência dos ideais militaristas, as guerras justas ou as que o não são, a dialética entre o bem e o mal, a civilização ocidental como utopia superior perante a “barbárie” das suas periferias, a existência de Deus ou do Diabo com o Anticristo pelo meio. Para um assumido ateu essas discussões nenhum sentido fazem a não ser no desiderato para que tendem no final: a da finitude das vidas, que obriga crentes e não crentes a convergirem nas inquietações.

Puiu regressou a um filósofo russo da viragem do século XIX para o século XX - Vladimir Soloviov - que se inscreve no universo cultural de um Dostoievski, de um Tolstoi ou de um Tchekov, e olha para os tempos vindouros, os da consagração de novas ideias, com pessimismo e incerteza.

É aí que começa a explicar-se o fascínio, quase hipnótico, do filme, capaz de se deixar ver em tão longa extensão sem o mínimo enfado. Porque os convidados da alta sociedade, alojados na mansão de um general na Transilvânia, estão numa situação semelhante à dos nossos sucessivos confinamentos neste último ano.

Sem arriscarem ir ao exterior, quase sempre só espreitado pelas janelas, vão-se entretendo em prolongadas refeições, quase não dando pelos criados que os servem, e discutindo todas as hipóteses virando-as do direito e do avesso. A época tem semelhanças com a nossa: nesse final do século XIX não é preciso ser adivinho para compreender que se anunciam mudanças imprevisíveis, mesmo que os protagonistas não levem a imaginação à hipótese de pouco faltar para decrépitos impérios ruírem com fragor e muito sangue. Talvez seja essa sugestão de paralelismo entre esse passado e o nosso presente a explicar porque se torna tão fascinante uma obra, que rivaliza com o nosso Manoel Oliveira na escassez de planos (pouco mais de sessenta!) e de movimentos de câmara. Mas Malmkrog demonstra que não é incontornável a regra do cinema ser sobretudo ação. Porque os atores são irrepreensíveis e os diálogos de uma subtileza que surpreende até o menos metafísico dos seus espectadores. Reconheço que, há muito tempo, um filme não me deixava tão agradavelmente desconcertado. 

quinta-feira, maio 06, 2021

Pode-se ser feliz onde já se foi?

 

Nada mais paradoxal do que este título, porque exprime o exato contrário da minha condição de espectador de cinema e o dos personagens do filme a que reporta. Porque, em alturas muito particulares da vida - e esta é-o! - preciso de coisas bonitas, que me sirvam de algum consolo. Porque o Belo e a Consolação continuam a ser moeda de duas faces, que convém ter de reserva quando as dificuldades apertam. Razão para revisitar In the Mood for Love, o filme que Wong Kar-Wai estreou no ano zero do novo milénio, que me serve esse propósito na perfeição. Porque há essa Hong Kong do início dos anos sessenta, que já não encontrei quando aí aterrei trinta anos depois, porque era cidade escura, feita de esquinas e recantos onde os amores clandestinos poderiam germinar. Há a banda sonora belíssima, que tanto me acompanhou desde então, apenas enquanto tal. Ou a elegância encantatória de Tony Leung e, sobretudo a de Maggie Leung, que avança como se movida por força evanescente.

No incipit do filme - sim!, defendo o uso da expressão também para as imagens em movimento, mesmo que a queiram cingir aos textos literários ou às partituras musicais - uma legenda, sintetiza-o na perfeição:

“É um momento de inquietação. Ela manteve a cabeça baixa para possibilitar que ele se aproximasse mais. Mas ele não foi capaz por falta de coragem. Ela volta-se e afasta-se!”

Temos assim um homem e uma mulher, que sabem-se traídos pelos respetivos conjugues e se aproximam até faltar o pequeno clique que os faça cair nos braços um do outro. Porque dão demasiada importância à coscuvilhice dos vizinhos, que se entretém interminavelmente nas partidas do mahjong, mas sobretudo mantém os sentidos alerta para tudo quanto possa servir a sua curiosidade alcoviteira. Choe e Su tocam-se subtilmente, mas as mãos logo se afastam, assustadas com a ousadia, que temem assumir. E nós ali a perguntarmo-nos, porquê tanta prudência, se não mesmo pudor. Ou talvez seja apenas a tal questão de coragem da legenda inicial ou a falta dela.

E o paradoxo é este: eu gosto de regressar a este filme, porque me faz bem revê-lo. É a certeza de regressar a um lugar onde me sei sempre feliz e onde o voltarei sempre a ser. E, no entanto, os dois personagens, Chow e Su, não só não o são, como o continuarão a não ser muitos anos depois, Porque ele volta ali à procura de um passado, que sabe improvável encontrar, sem imaginar o quanto dela se desencontra porque ali continuou a morar.

(G) Julião Sarmento, a inesperada ausência

 

O desaparecimento de Julião Sarmento foi uma surpresa, porque não o sabia doente. Daí ter replicado a surpresa de José Guimarães a quem foi pedido testemunho a respeito do colega de profissão, que tanto de si se diferenciava, mas também encontrara forma de se afirmar internacionalmente à escala global. E, se nunca me entusiasmei, particularmente com as obras do artista nos seus diversos suportes, sempre lhe reconheci uma identidade, que facilmente me levava a identificar-lhes a autoria ainda antes de a confirmar como tal. Essa genuinidade muito sua acaba por ser a melhor bitola para se aferir a importância de uma obra no seu todo.

A exemplo de Ângela Ferreira que confessou tê-la incomodado, inicialmente, o aparente machismo com que fazia uso do corpo feminino, também passei por essa desconfiança. Era pela nudez do corpo da mulher, que mais facilmente concluía tratar-se de obra do artista, mas sobreveio o que ia para além dessa intuição e se dispersou por leituras várias, que sempre tiveram o condão de me desafiar, mesmo quase sempre esgotando na formulação a inevitabilidade não ter respostas para as muitas perguntas.

Nas entrevistas fascinava-me a agilidade do pensamento, a pluralidade de sugestões que mereciam reflexão ampla depois de as ouvir. E não duvido de quanto terá sido encantatória a convivência com ele, que era assumidamente hedonista e generoso na forma como dava a mão aos artistas das gerações, que agora lhe tomam o testemunho.

segunda-feira, maio 03, 2021

(DIM) Um grande melodrama do grande mestre que viria a ser David Lean

 

Esta noite o canal ARTE possibilita-nos o reencontro com Breve Encontro, o excelente filme que David Lean rodou no rescaldo da Segunda Guerra e continua a ser um dos mais memoráveis melodramas dessa época, se não mesmo de toda a História do Cinema. Com uma subtileza, depois diluída quando se incumbiu das enormes superproduções, que o tornaram mais conhecido dos cinéfilos, David Lean aborda os amores impossíveis entre um homem e uma mulher casados, que se encontram numa estação de comboios e se apaixonam. Noel Coward é um dos nomes da equipa de argumentistas responsável pelo script e, quer Trevor Howard, quer Celia Johnson, têm aqui os papéis das respetivas vidas. A fotografia é lindíssima e o realismo poético na versão britânica consegue aliar a realidade prosaica com a magia dos sonhos muito desejados, mas não menos intensamente reprimidos.

Há também o concerto nº 2 de Rachmaninov a pontuar os dilemas por que passam os protagonistas, divididos entre os anseios  e as convenções e uma certa noção do dever, que tende a enredá-los no mais do mesmo, momentaneamente posto em causa.

O filme fica ainda para a História como tendo sido o premiado na primeira edição do Festival de Cannes. Com inteiro merecimento, continuam-no a afiançar todos quantos o continuam a ver com rendido prazer.

sábado, maio 01, 2021

(DIM) Invisibilidades

 

É bem conhecida a imagem caricatural que uma boa parte dos brasileiros tem dos portugueses. Infelizmente os nossos compatriotas que emigraram para o outro lado do oceano  ao longo do século XX muito contribuíram para essa imagem, porque levaram consigo muito do que de pior faz a «Arte de ser português», deixando aqui as possíveis virtudes.

O casal português cujas filhas protagonizam A Vida Invisível de Karim Aïnouz, é mesmo assim: ele dono de uma panificadora e com um código de valores que coincide com o do Portugal ultramontano. A mulher, submissa e incapaz de dar apoio às filhas quando elas mais dela precisam.

Conhecemos Guida e Eurídice, quando têm respetivamente 20 e 18 anos. A primeira anseia por viver um Amor maiúsculo e por isso não hesita em fugir com um marinheiro grego, Yorgos, que depressa se revela um canalha. A segunda tem grande talento para a música e só pensa em ser pianista.

Apesar da enorme amizade que as une, a fuga de Guida para a Europa provoca um tal corte entre ambas, que nunca mais se irão reencontrar, embora façam os possíveis por o conseguir. Mas a mentira de Manuel Gusmão, que sobrepõe o desejo de punição ao eventual amor que sentisse pela primogénita, irá impedir esse anseio de ambas.

Só demasiado tarde Euridice descobre as cartas que a irmã lhe escrevera durante anos a fio, quando o Tempo já cuidara de inviabilizar definitivamente esse reencontro.

O Tempo é, de facto, um dos personagens deste filme, que adapta o romance de uma escritora pernambucana - Marta Batalha - embora os temas mais pertinentes sejam o das mulheres dos anos 50 não terem a mínima hipótese de escaparem aos ditames masculinos ou as das dores inerentes às separações familiares, que já tinham surgido em obras anteriores do mesmo realizador.

A invisibilidade do título tem a ver com isso: como se fez ausente aquele que tão presente sempre esteve (e como isto me diz tanto nesta altura da vida!) e de como, numa sociedade formatada de acordo com a vontade masculina, a das mulheres está condenada a apagar-se. 

(EdH) Há cem anos a emancipação feminina parecia estar iminente

 

Quando se pensa na emancipação feminina são as décadas de sessenta e de setenta do século transato, que nos vêm logo à mente. As grandes lutas e manifestações pela igualdade de direitos ou pela legalização do aborto foram intensas e com resultados incertos, porque se nalguns casos traduziram-se em alterações legislativas coincidentes com esses objetivos, noutros verificaram-se recuos, que tardam em ser novamente corrigidos.

E, no entanto, há cem anos  aconteceu um breve período em que tudo pareceu possível para as mulheres: os homens regressaram estropiados das trincheiras da Primeira Guerra e elas, que tinham mantido as economias a funcionar na sua ausência, sentiram que os poderiam dispensar. Ademais a moral associada à religião levou forte abanão, quando a gripe espanhola matou mais do que a própria guerra, demonstrando a efemeridade de um presente em que tudo podia acabar de um momento para o outro. Sem que servissem de alguma coisa os insondáveis desígnios divinos.

Hollywood e a publicidade criaram novos ícones femininos, que as trabalhadoras dos escritórios ou dos grandes armazéns adotaram como modelos. Clara Bow ou Louise Brooks sugerem o estilo garçonne, próprio dos seus caracteres desenvoltos e orgulhosos pela sua emancipação. A moda começou a transformar-se numa indústria, os Ford T tanto mostraram homens como mulheres ao volante e na União Soviética a comissária Alexandra Kollontai não só fez legalizar a interrupção voluntária de gravidez como criou uma rede de cantinas e creches públicas destinadas a transferirem para o Estado algumas das principais tarefas da mulher trabalhadora.

Foi também a época em que raparigas ambiciosas exigiram o acesso às universidades para se graduarem em cursos até então a elas vedados. Mudaram os padrões de beleza com Man Ray a contribuir para a sua redefinição com as fotografias feitas  a Lee Miller, com esta a não se contentar em ficar desse lado da câmara, passando para o outro e tornando-se numa das mais audaciosas correspondentes de Guerra.

Mantivesse-se essa dinâmica e os anos trinta poderiam ter sido promissores para as aspirações femininas quanto a essa almejada igualdade. Só que aconteceu a Grande Depressão, surgiu o desemprego para milhões de pessoas com os demagogos a verem no regresso das mulheres trabalhadoras ao lar uma alternativa incontornável. Os regimes fascistas impuseram legislações, que as voltaram a secundarizar em direitos e a maximizar nos deveres.  Na URSS de Estaline toda a arquitetura legislativa de Kollontai evaporou-se, equiparando-a à das ditaduras ocidentais.

As mulheres teriam de esperar mais quatro ou cinco décadas para poderem sair do sufoco que lhes voltavam a impor. Embora ainda quase tudo esteja por fazer...