
Da biografia da autora de «False River» fica-se a saber que cresceu num enorme latifúndio perto de Vals River, no centro da África do Sul. Depois de se diplomar pela universidade de Witwatersrand, radicou-se em Joanesburgo onde está ligada a diversas associações de carácter cultural.
Neste seu primeiro romance surgem dois personagens principais: ela e o irmão, Paul Botha, que define como alguém apostado em escapar aos constrangimentos familiares e a qualquer fórmula de disciplina. O exato contrário da irmã, que só anseia em ser uma rapariga bem comportada (na aceção beauvoiriana) e uma futura esposa exemplar.
Vive-se então o crepúsculo do regime de segregação social e a narradora constata que os pais, embora militando pela igualdade entre Negros e Brancos e antecipando tais relações para com os empregados da quinta, continuam a manter uma perspetiva muito conservadora nos valores familiares. Razão para que Paul, depois de expulso da Universidade, deserte do serviço militar. Tanto mais que, segundo escreve à irmã, eles “marimbam-se para a nossa cura. Querem-nos só fazer bestas sedentas de sangue, capazes de massacrar quem quer que seja. E quem não cooperar é considerado maluco”.
O tema do romance é, pois, a contradição entre uma postura política progressista e a radicalmente oposta na educação dos filhos. Mas, também, lá constam as belíssimas paisagens africanas ou os usos e costumes da comunidade afrikander. Por isso constitui leitura ajustada para compreender melhor as condições em que se verificou a transição de poder entre o regime racista e o que viria a ser liderado por Nelson Mandela.
Tudo aponta, até pelos prémios que anda a conquistar, que voltemos a ouvir falar de Dominique Botha como um dos expoentes da nova literatura sul-africana.
Sem comentários:
Enviar um comentário