1. Meteorito
— assim classifica um documentário a obra de Yves Klein, atendendo à brevidade
da sua carreira artística, apenas oito anos, e à morte precocíssima aos trinta
e quatro, embora esse período tenha bastado para inventar uma cor, aquele azul
intenso que viria a ser o de um dos vestidos mais usados pela Elza durante a
gravidez e que permaneceu no seu guarda‑roupa daí em diante como uma espécie de
assinatura silenciosa.
Ficaram
também para a posteridade as polémicas em torno das performances, sobretudo as
que transformaram o corpo feminino em pincel com que compôs muitos dos seus
quadros, gesto que continua a suscitar leituras contraditórias entre a ousadia
conceptual e a objetificação evidente.
Menos
convincente é a explicação da sua criatividade como radicada numa busca
metafísica destinada a preencher o vazio dos céus de Nice, que ele entendia
como um absoluto assimilável ao Paraíso bíblico, mas terei de, na racionalidade
dogmática, enfrentar esse lado místico que tantos artistas alegaram ser fonte
de inspiração para obras cuja estética, apesar de tudo, aprecio.
2. Nunca
fui a Gant, na parte flamenga da Bélgica, mas, a ter acontecido, gostaria que
tivesse sido numa das celebrações dedicadas ao passado têxtil da cidade no
século XIX, quando as lutas operárias eram intensas e acompanhadas de soluções
imaginativas para melhorar a vida dos mais desfavorecidos.
Cooperativas,
piscina pública, iniciativas de solidariedade e de autogestão compunham esse
acervo que não dispensou, obviamente, confrontos violentos com quem defendia a
ordem social imposta pela classe patronal. Talvez por isso essas comemorações
não prescindam da Internacional, interpretada por dezenas de músicos que
desfilam pelas ruas como se a memória de um tempo de combate ainda pudesse
encontrar ressonância no presente.
E volta
então uma informação curiosa: se as letras do hino foram escritas no calor dos
acontecimentos por Eugène Pottier, figura envolvida nas lutas da Comuna de
Paris, a música foi composta por Pierre De Geyter, operário precisamente
oriundo de Gant, que lhe deu forma final em 1888.
Sendo essa uma das composições musicais da minha vida, associá‑la à cidade e ao seu passado lutador justificaria que a visitasse precisamente quando esse legado é celebrado.
3. O tema do desaparecimento
de pessoas próximas, cuja sorte permanece desconhecida, é um dos mais
recorrentes no trabalho do fotojornalista mexicano Yael Martínez, cuja
exposição em Lisboa confirma a pertinência de uma obra que a Magnum reconheceu
ao integrá‑lo no seu coletivo. Ele sabe bem do que fala, porque na própria
família há quem tenha desaparecido sem que se saiba se foi vítima do crime
organizado ou sucumbiu ao fascínio de uma emigração clandestina para a outra
margem do Rio Grande, onde tantos acreditam encontrar uma vida mais fácil.
A verdade
é que inúmeras famílias mexicanas vivem na inquietação, quando não mesmo no
desespero, perante este flagelo que transforma a ausência em ferida permanente,
e é essa dor que as imagens do fotógrafo procuram fixar como tema incontornável
dos nossos dias, como se a fotografia tentasse dar forma ao que não tem forma —
o vazio deixado por quem não volta.
4. O tema
dos desaparecimentos por explicar é universal e intemporal, e ocorreu também
com muitos dos trabalhadores escravizados que os alemães levaram para a
retaguarda das suas invasões, destinados a fábricas e quintas que garantissem o
aprovisionamento dos exércitos. Se o regime nazi mobilizou catorze milhões de
alemães para a Wehrmacht, forçou treze milhões de pessoas, capturadas nos
territórios ocupados, a substituí‑los na manutenção de uma economia que
sustentava a ambição imperialista, e muitos desses escravos nunca regressaram,
nem se sabe o que lhes aconteceu.
Essa é
uma das realidades menos abordadas do século XX europeu: no seu próprio seio, a
Alemanha submeteu milhões de seres humanos a condições de trabalho que, em
direitos inexistentes e na relação com os patrões, pouco se distinguiam das
impostas aos negros das plantações do sul dos Estados Unidos no século
anterior.
Há algo
de profundamente perturbador nesta equivalência histórica, como se a
modernidade europeia tivesse preferido esquecer que, por detrás da sua fachada
civilizacional, persistiram práticas cuja violência continua a ecoar no
silêncio daqueles que nunca voltaram.
5. Um
documentário sobre Carmen Miranda lembra, ainda assim, um lado mais luminoso da
presença forçada de populações africanas no outro lado do Atlântico: a cantora
oriunda de Marco de Canaveses teve a notável intuição de adaptar a tradição
musical dessas comunidades, incorporando ritmos e expressões que nasceram da
dor da escravização nas canções que a tornaram famosa e dando assim um impulso
decisivo ao samba.
Na
transposição dessa influência para o glamour hollywoodiano, a opção pelo
exagero visual teve uma intenção bem conseguida, porque sem ele tudo soaria a
falso na interpretação de temas manifestamente alheios à sua cultura de origem;
com esse kitsch alcançou uma dimensão de performance que resultaria num sucesso
notável, apenas ensombrado pelo devir com laivos de tragédia que não poupou a
cantora e atriz.
Há algo
de comovente nessa trajetória: uma artista que, ao mesmo tempo que se deixava
moldar por uma indústria voraz, conseguia preservar um núcleo de autenticidade
que fazia ressoar, por detrás do artifício, a memória de uma música que não lhe
pertencia por nascimento, mas soube acolher com uma generosidade rara.










