Uma
autoestrada passou por cima da ilha onde a família de Athina Rachel Tsangari
semeou e colheu durante gerações. Ela própria o conta, quando lhe perguntam
como é que uma realizadora grega foi parar a uma aldeia escocesa de tempo
incerto, num romance inglês sobre camponeses expulsos da terra. A resposta
desfaz a pergunta: a história não lhe era estranha, era a sua. O asfalto sobre
os campos dos avós e as cercas nos campos de Crace são a mesma ameaça, com
séculos de intervalo.
Colheita adapta o romance que Jim Crace
publicou em 2013, e é o primeiro filme de Tsangari em inglês, longe da Atenas
de Attenberg e de Chevalier. Numa pequena comunidade agrícola,
algures nas ilhas britânicas, a vida segue o ciclo das estações, das ceifas e
dos rituais noturnos que lhes pertencem — até que chegam de fora os que querem
a terra para si.
Walter
Thirsk, camponês de poucas palavras a quem Caleb Landry Jones dá um corpo
inquieto, assiste ao fim de um mundo. Nem o romance nem o filme dizem onde nem
quando: talvez o século XVII, talvez mais tarde. A imprecisão é deliberada, e é
a chave. A privatização dos baldios durou trezentos anos, e quem os viveu não
sabia que estava a viver a História — apenas que a terra deixava de ser sua.
Vi o
filme com a sensação de estar diante de um quadro de Bruegel posto em
movimento. Não por acaso. Os Ceifeiros, de 1565, mostra exatamente isto:
o trigo dourado, os homens a cortar, outros a comer e a dormir à sombra de uma
árvore, a paisagem a perder-se até ao horizonte. É uma imagem de harmonia entre
o trabalho humano e a terra, e foi lida durante séculos como retrato do eterno
— o ciclo dos meses, sempre igual a si mesmo.
A
fotografia de Colheita recupera essa luz, essas cores de terra e palha,
esses corpos dobrados sobre o campo. Mas fá-lo para dizer o contrário do que se
lia em Bruegel. O eterno não o era. Aquele mundo tinha data de validade, e o
filme mostra-o na véspera de expirar. A beleza da imagem não consola: é o
retrato de algo já condenado, e quanto mais bela, mais dói.
É aqui
que a forma se faz argumento. O filme tem a reconstituição cuidada de um filme
de época, mas recusa ser a sua moldura. Tsangari diz ter ido buscar inspiração
aos anti westerns dos anos setenta, ao cinema checo, a Kurosawa, a Altman — a
uma linguagem crua, caótica, sem redenção.
A escolha
faz sentido. O western é o género da terra tomada: a fronteira, as cercas, os
que chegam com papéis e armas para dizer que aquilo agora lhes pertence. A
Escócia de Crace é uma fronteira como o Oeste americano foi, e a tragédia é a
mesma vista do lado dos que perdem. O anti western acrescenta o essencial: não
há herói que salve a aldeia, não há xerife do lado certo. Há apenas o fim, e a
maneira como cada um o atravessa.
Os
rituais noturnos, com o seu quê de lascivo, merecem uma palavra. Há pouco tempo
escrevi aqui sobre um filme em que a fé de um surfista o levava a um convento e
ao chicote, e confessei a minha indiferença perante essa religião do além. Os
ritos de Colheita são de outra natureza. São pagãos, terrenos, do corpo
e da colheita — não pedem nada a nenhum céu, celebram o que a terra deu. Um
ateu entende-os sem dificuldade, porque não são transcendência, são comunidade.
E é isso que o filme mostra a desaparecer com as cercas: não uma fé, mas um
laço. Quando a terra deixa de ser comum, o ritual perde a razão de ser. A festa
da colheita não sobrevive à propriedade privada.
Um
marxista não precisa de forçar a leitura. Marx dedicou ao tema o capítulo de O
Capital sobre a chamada acumulação primitiva, e mostrou que o capitalismo
não nasceu de uma poupança virtuosa, mas do roubo da terra comum e expulsão de
quem nela vivia. Thomas More já o tinha visto um século antes, quando escreveu
que na Inglaterra as ovelhas devoravam os homens. É esse o momento que o filme
encena: o instante em que os camponeses deixam de o ser para se tornarem força
de trabalho sem património que possuíssem. A colheita do título é a última que
pertenceu a quem a fez.
Os muros
nos baldios prejudica os que foram separados da terra. A Grécia de Tsangari
conhece-o bem — e permito-me prolongar a leitura por minha conta, porque não é
ela quem o diz: a Grécia da última década, posta sob a tutela dos credores, viu
muito do que era comum ser vendido. Nós também conhecemos o padrão. Os novos muros
já não se fazem com sebes e valas mas com fundos imobiliários, alojamento
turístico, rendas que expulsam os moradores dos bairros onde nasceram. Lisboa,
Atenas, uma aldeia escocesa sem data: a mesma lógica, que transforma o lugar
onde se vive num ativo que se explora.
É isso
que dá ao filme a atualidade, e Tsangari não o esconde: diz que as referências
ao presente são deliberadas. Mas o filme tem a inteligência de não fazer da
aldeia um paraíso perdido. A comunidade é fechada, patriarcal, desconfiada do
estrangeiro, capaz de crueldade. O que se perde não é o Éden; é apenas uma
forma de vida que, com todos os seus defeitos, pertencia a quem a vivia. É uma
lição que a esquerda nem sempre aprendeu: defender o comum não obriga a
idealizá-lo.
O quadro
de Bruegel continua pendurado no Metropolitan, em Nova Iorque, e continua a
parecer eterno a quem o vê. Colheita devolve-lhe a História. Depois de
ver o filme, já não consigo olhar para aqueles ceifeiros a dormir sob a árvore
sem pensar no que vem a seguir.















