1. É uma das minhas contradições mais assumidas: por muito que preze a racionalidade, não consigo evitar uma reação profundamente empática diante da beleza artística do romantismo. Gosto de Mendelssohn e de Schubert, embora Chopin me deixe indiferente; aprecio Goethe e os romances góticos; e, na pintura, rendo‑me a Turner e, sobretudo, a Caspar David Friedrich. Se tivesse de escolher o quadro da minha vida, seria sem hesitações o Viajante sobre um Mar de Névoa.
A
religiosidade do artista não me diz nada, mas a força simbólica daquela figura
solitária, erguida sobre o precipício, continua a falar‑me como poucas imagens
o fazem. Para lá do véu quase branco, onde apenas se adivinham montanhas, estão
as promessas de tudo quanto ainda não se alcança, mas pode vir a ser abarcado.
E esse é, afinal, um programa de vida: permanecer de pé diante do desconhecido,
com a coragem tranquila de quem sabe que a razão não exclui o assombro.
2. Há,
porém, hábitos que me ancoram ao real com igual intensidade. A leitura diária
dos jornais — ritual que repito há décadas — funciona como uma cartografia
moral. Não leio apenas para me informar, mas para impedir que o mundo se
dissolva em ruído. É um exercício de vigilância e de humildade: recordar que a
realidade é sempre maior do que a nossa experiência imediata. Mesmo quando a
imprensa cede à superficialidade, encontro aqui e ali uma frase, uma análise,
um gesto de lucidez que justifica a persistência. Talvez seja isso que me
prende a este hábito: a consciência de que, num tempo saturado de distração,
ainda existem pequenas ilhas de clareza.
3. É
também nos jornais que encontro, com inquietação crescente, notícias sobre o
aumento da filiação de jovens europeus em grupos neonazis ou seitas de
inspiração satânica. Explica‑se o fenómeno pela frustração com um presente sem
horizonte e com um futuro que lhes parece inacessível — sobretudo quando a
ameaça difusa da Inteligência Artificial paira sobre os empregos que poderiam
vir a desempenhar. Estes jovens não nasceram monstros; tornaram‑se monstros
dentro de sociedades que exaltam a concorrência, proclamam a meritocracia e
depois os abandonam quando percebem que não têm os “argumentos” necessários
para se sentirem realizados. A frustração transforma‑se em ressentimento, este
em identidade negativa, e esta em pertença a grupos que oferecem aquilo que a
sociedade lhes negou: um sentido, mesmo que perverso.
4. A memória histórica também regressa, por vezes, sob a forma de polémicas que a Revolução de Abril dispensava bem. Num livro de memórias, Vasco Lourenço afirma que, em pleno PREC, os militares do Grupo dos Nove chegaram a considerar a possibilidade de se articularem com forças adversárias para travar os camaradas mais à esquerda. Pezarat Correia reagiu de imediato, garantindo que tal hipótese nunca foi sequer ponderada pelos restantes membros do Grupo.
A controvérsia revela como o
PREC continua a ser um território sensível, onde cada protagonista reivindica a
sua verdade e onde a fronteira entre interpretação e acusação permanece frágil.
Quase meio século depois, ainda há feridas que não cicatrizaram — e talvez
nunca venham a cicatrizar.
5. E, no
entanto, o mundo não se esgota nestas tensões. Uma fotografia de Alessandro
Gandolfi, colhida em Chongqing e publicada num dossier do Guardian,
condensa numa única imagem a vertigem da modernidade chinesa. Na metade
superior, as torres iluminadas, unidas por uma plataforma suspensa; na metade
inferior, cinco pessoas junto ao rio, uma delas erguendo o telemóvel como se
tentasse capturar o impossível.
Chongqing
— 34 milhões de habitantes, uma área comparável à da Áustria — nasceu para
acolher os operários da Barragem das Três Gargantas e tornou‑se, desde então,
um laboratório de arquitetura ciberpunk. A coexistência entre a escala
desmedida da engenharia e a pequenez humana, entre o brilho tecnológico e a
necessidade de o fixar num ecrã, transforma a cidade num símbolo do nosso
tempo: um futuro que já não é promessa, mas vertigem.
Assim se desenha este dia: entre o assombro e a vigilância, entre a contemplação e a responsabilidade. Um dia que pensa, sente e observa — e que, no fundo, reafirma a necessidade de olhar o mundo com lucidez, mas sem desistir da capacidade de maravilhamento.












