Uns
filmes vejo pelo realizador, outros pela época, outros porque sim sem razão que
não a da oportunidade. Deste Lado da Ressurreição vi-o pelo lugar. O
Guincho não é para mim cenário: é caminho feito a dois, durante décadas, com a
Elza — o vento que nos empurrava de lado, a areia a bater nas pernas, o mar que
nunca está calmo. Conheço aquele lugar de dentro, e foi por isso que reparei
logo que o filme de Joaquim Sapinho lhe pede outra coisa. Pede-lhe que seja
sinal. Que por trás da rocha e da onda haja alguém.
O filme,
de 2011, junta três mundos que à partida não se tocam: o surf, um convento
franciscano e uma escola secundária. Rafael, surfista que conhece como poucos
as águas do Guincho, não encontra no mar o que procura e sobe a serra de Sintra
até ao Convento dos Capuchos, em busca de fé e de remissão para uma dor e uma
culpa que nunca chegamos a conhecer. Cá em baixo ficam uma irmã que insiste em
trazê-lo de volta, uma mãe, uma adolescência que não sabe o que fazer de si.
Lá fora
foi recebido com entusiasmo — Toronto, São Paulo, as listas da Film Comment,
uma retrospetiva em Harvard. Cá dentro chegou com essa aura, que é sempre um
mau ponto de partida: o espectador já não vê o filme, vê a expectativa.
E, no
entanto, a primeira parte merece que nos demoremos nela. Sapinho filma apenas
com luz natural, e quando a noite cai fica a luz das velas. Recusa o
contracampo: quem fala, fá-lo para um espaço que não nos é mostrado. A câmara
mantém a distância, e os grandes planos só acontecem porque os atores se
aproximam da objetiva — nunca porque a objetiva avança sobre eles.
É um
programa moral: não violar, não explicar, deixar que as personagens se mostrem
quando querem. Sapinho disse que o filme é sobre o não saber — não saber para
onde se vai, quem se é, como se descobre. A culpa de Rafael, que nunca nos é
revelada, pertence a essa mesma recusa, e a forma corresponde-lhe comcoerência.
Há nesta
recusa do contracampo uma ideia que vai mais longe do que talvez o próprio
realizador pretendesse. O plano sem resposta é a figura exata da oração: alguém
fala, e do outro lado não aparece ninguém. Para um crente, esse silêncio é
presença velada. Para um ateu, é apenas silêncio. O filme, nos melhores
momentos, deixa as duas leituras em aberto, e é aí que um espectador como eu
ainda o consegue acompanhar.
O
problema é que o filme não aguenta a regra. Na última hora, o programa
desfaz-se peça a peça. Os contracampos regressam sem necessidade. Um travelling
lento avança sobre os rostos de mãe e filha a meio de uma discussão — a câmara,
que tinha prometido não se aproximar, fà-lo precisamente quando a cena pedia
pudor. E a luz natural, que era ética, torna-se simples escuridão: há momentos
em que não se percebe o que se passa, em que as relações entre as personagens
se tornam ilegíveis, e a ambiguidade deixa de ser procurada para passar a ser
sofrida. A ironia é cruel para um filme sobre a fé: a meio do caminho, perde a
fé na própria forma.
Sapinho
explicou que a cola entre os seus três mundos seria a natureza: os franciscanos
procuram Deus através dela, a escola procura compreendê-la através da ciência.
O argumento tem a simetria das coisas pensadas no papel. No ecrã, não cola, e
percebe-se porquê — as duas atitudes não se completam, opõem-se. A ciência olha
a natureza e não lhe pede sentido; o místico olha a mesma natureza e vê nela
uma linguagem. Entre uma e outra não há ponte, há uma escolha.
E aqui a distância
deixa de ser desinteresse para passar a ser leitura. O filme filma bem o
Guincho e a serra — a luz natural faz-lhes justiça, o mar tem peso e a pedra
tem tempo. Mas quanto melhor os filma, mais eles resistem ao que o filme lhes
quer impor. A paisagem não se deixa converter. O mar não responde. E o que eu
levo daquele areal — o que lá vivemos, o que lá dissemos, os dias concretos de
uma vida partilhada — é a única transcendência que conheço, e não precisa de
além nenhum.
O mesmo
vale para o surf, tribo que me é alheia e que o filme também não me tornou
próxima. Havia ali matéria para outra coisa: a onda como experiência do
absoluto sem Deus, a entrega do corpo a uma força que não se domina, uma
mística laica que os surfistas conhecem melhor do que os teólogos. O filme não
confia nela. Precisa de a batizar. Daí uma figura de Cristo debaixo de água,
vestida de neopreno, imagem onde o surf e a fé deviam encontrar-se e onde só se
encontra o embaraço.
E daí,
sobretudo, a sequência que desmorona tudo: em montagem paralela com a discussão
entre mãe e filha, Rafael entrega-se ao jejum e à autoflagelação, longamente,
acompanhado pelos irmãos num ritual que a câmara regista sem qualquer
distância.
Não é o
tema que incomoda — o sofrimento voluntário tem uma longa história e o cinema
pode interrogá-la. É a maneira. O filme que começou por respeitar as
personagens acaba a pedir ao espectador uma adesão que não conquistou: quem não
partilha a fé fica a ver um rapaz a ferir-se durante demasiado tempo, sem que
nada no plano lhe dê outra coisa para pensar.
O
paradoxo agrava-se quando se sabe de onde o filme diz partir. O distribuidor
anunciava como premissa a reflexão de Karl Barth sobre o sentido do
cristianismo, e a leitura que daí se tira é a da fé contra a religião — a fé
como relação nua, a religião como aparato humano que se interpõe. Ora o filme
entrega precisamente o aparato: o hábito, o ritual, o jejum, o chicote. Filma
tudo o que Barth punha em causa e nada do que defendia, porque a fé, se existe,
não tem forma visível, e a religião tem-na de sobra.
Vale a
pena notar que nem a agência noticiosa da própria Igreja se deixou convencer:
reconheceu a sugestão poética, lamentou a falta de músculo, e despediu-se com a
esperança de que aquele fosse apenas o começo de um caminho. Se o crente sai da
sala a pedir mais, a reserva do ateu não é surdez. É diagnóstico partilhado.
Por
coincidência, no mesmo período, Fernando Lopes filmou no seu último filme, Em
Câmara Lenta, o mesmo mar e o mesmo confronto com as ondas — e até a mesma
figura em neopreno. Mas Lopes filmava sem qualquer desejo do divino. A
comparação diz o essencial: o mar de Lopes é só mar, e basta-lhe; o de Sapinho
tem de ser mais do que mar, e por isso nunca chega a sê-lo inteiramente.
Ao
preparar este texto, dei com outro, meu, de 2012, de que já não me lembrava.
Escrevi-o antes de ver o filme, a partir de uma entrevista de Sapinho ao Expresso,
e nele admitia que um surfista tentado pela vida monástica talvez me fizesse
reconsiderar o desinteresse pelo surf — que então despachava, com pouca
caridade, como divertimento de betinhos e de quem aspirava a sê-lo, réplica
fútil da roleta russa.
Releio-me
e não gosto do que leio. Julgava uma prática pela classe que lhe atribuía, e
não pelo que ela é; e o que ela é, já então o reconhecia de passagem, é coragem
diante de uma força que não se domina. Um marxista devia saber que o mar não
pede certidão de origem a quem nele entra. O surf continua a ser tribo que me é
alheia, mas não desprezível, e essa diferença aprendi-a com o tempo, não com o
filme. Sapinho dizia nessa entrevista que não escolhia os lugares, eram os
lugares que o escolhiam a ele; que o Guincho e o convento o punham à prova, e
que o filme era o trabalho de sobreviver a essa posse. A promessa cumpre-se em
parte: os lugares falam, de facto, mais do que as personagens. Mas quem os ouve
sou eu, e o que me dizem não é o que Sapinho queria ouvir.
Na mesma
entrevista, Sapinho explicava o que queria realmente filmar: uma sociedade que
proíbe a solidão, que nos obriga a estar sempre em comunicação e com isso
destrói a vida interior; uma sociedade de consumo que põe os adolescentes nus
diante do nada, com perguntas sobre a morte que chegam cedo demais para a
capacidade de lhes responder.
Em 2012
objetei-lhe que a história sempre empurrou rapazes de rosto imberbe para
guerras onde morriam de corpo ou de alma — que a juventude diante da morte não
era invenção do consumo. Releio a objeção e mantenho-a. Mas tenho de reconhecer
que o diagnóstico de Sapinho envelheceu melhor do que o seu filme. O ecrã que
hoje trazemos no bolso ainda não tinha tomado conta de tudo; a solidão proibida
de que ele falava tornou-se condição geral, e os adolescentes de agora vivem
dentro de um ruído que então era só ameaça. E a guerra, que eu lhe lembrava
como velha companheira da juventude, voltou à Europa. Uma coisa não exclui a
outra: o nada do consumo e o fogo da história convivem.
O filme
foi feito no ano em que o país entregava aos credores o governo da sua vida
comum, e procura o sentido longe da história — no convento, na onda, no corpo
mortificado. O que me separa de Sapinho não é o diagnóstico, é a cura: ele
procura a resposta fora do mundo; eu continuo a achar que a vida interior se
reconquista dentro dele, no trabalho comum, na política, no amor que dura.
Marx
escreveu que a religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo
sem coração. A frase costuma ser citada como desprezo, e é o contrário:
reconhece a fome antes de recusar o alimento. Deste Lado da Ressurreição
é, sem o querer, documento dessa fome. A resposta parece-me errada. A pergunta,
não.
O filme
não perturbou as minhas certezas, e as melhores obras costumam fazê-lo. Mas
deixou-me uma coisa que não esperava: a prova, filmada com luz natural, de que
o Guincho é mais convincente do que qualquer milagre que se lhe queira
sobrepor. Voltarei lá. Não à procura de Deus.
















