Numa
entrevista a Luís Osório, Joana Barrios contava o seu imperativo íntimo: não
alimentar preconceitos. E, se algum lhe surge ao caminho — porque surge, a
todos — tentar perceber de onde vem. Qual a raiz dessa reserva. Que medo, que
automatismo, que sombra antiga se esconde por trás de algo que, racionalmente,
não faz sentido ter.
É um
gesto simples. Mas é também um gesto raro. E, sobretudo, um gesto educativo. Um
exercício que valeria a pena ensinar às crianças desde cedo, como quem lhes dá
uma bússola moral para a vida inteira. Aprender a desconfiar do próprio
preconceito. Aprender a interrogá-lo. Aprender a desmontá-lo.
Mas
depois olhamos para os pais. E percebemos que o problema começa aí. Pense-se
nos de Famalicão, que armaram uma guerra ao governo de António Costa por não
quererem que os filhos frequentassem aulas de Educação Cívica. A disciplina não
lhes feria a liberdade — feria-lhes a ignorância. E isso, para alguns, é
intolerável.
Como
evitar às crianças a malignidade congénita que muitos adultos nunca conseguiram
largar? Como impedir que a escola seja sabotada por quem teme que os filhos
aprendam a pensar, a questionar, a reconhecer o outro como igual? A resposta é
dura: não há vacina infalível. Mas há resistência. Há professores que insistem.
Há jovens que escapam. Há ideias que sobrevivem apesar de tudo.
Vale a
pena pensar a educação como combate ao preconceito. Não como doutrina, mas como
prática quotidiana. E lembrar que, às vezes, a maior coragem é esta: admitir
que o preconceito está em nós — e que é aí que tem de ser desmontado.


















