Os
Balouch têm um provérbio que reduz a existência ao essencial: nascer, vaguear,
morrer, apodrecer e ser esquecido. A frase não pede interpretação, não oferece
consolo, não promete continuidade; limita‑se a enunciar o percurso com a
sobriedade de quem conhece a terra, o tempo e a erosão que ambos exercem sobre
tudo o que vive. Há nesta síntese uma lucidez que não precisa de metafísica,
porque não procura sentido fora do que acontece, e talvez seja isso que a torna
tão desconfortável para quem acredita que a vida exige prolongamento para ser
suportável.
O
paradoxo está na origem: um povo considerado primitivo formula uma visão que
desmonta, com uma linha, a arquitetura elaborada das religiões que prometem
vários modelos de Além. A simplicidade do provérbio não é ignorância; é recusa
de fantasia. A ideia de que a morte é apenas fim, e não passagem, contraria
séculos de construção simbólica que tentaram transformar o desaparecimento em
trânsito, como se a finitude fosse defeito e não condição.
A soberba
do ateísmo, se existe, nasce deste confronto. Não é superioridade moral, é
apenas a convicção de que a vida não precisa de ser prolongada para ser
compreendida. A metafísica oferece continuidade porque teme o vazio; o
provérbio Balouch aceita o vazio como parte do ciclo. A diferença é de postura:
uns procuram eternidade, outros aceitam dissolução. E nessa aceitação há uma
forma de inteligência que não depende de livros sagrados, apenas de observação.
A
existência, reduzida a estes cinco verbos, ganha uma clareza que dispensa
consolo. Talvez por isso incomode. Talvez por isso permaneça.



















