No
prefácio ao primeiro volume da Fundação, Jaime Nogueira Pinto afirma,
com evidente satisfação, que na ficção científica clássica não surgem
democracias, apenas regimes autoritários, como se a imaginação do futuro
confirmasse a tese de que o poder concentrado é norma e a democracia exceção. A
frase pretende ser constatação, mas é enviesamento: confunde cenário narrativo
com diagnóstico histórico, e sobretudo ignora que muitos desses mundos
autoritários existem precisamente para denunciar o que acontece quando a
democracia falha.
A ficção
científica não descreve inevitabilidades, mas advertências. Os impérios de
Asimov, as hierarquias rígidas de Herbert, as corporações totalitárias de
Philip K. Dick, os sistemas de vigilância de Bradbury ou Orwell não são
celebrações do autoritarismo — são críticas. São construções que mostram o que
acontece quando o poder se autonomiza, quando a tecnologia se transforma em
instrumento de controlo, quando a política abdica da responsabilidade e entrega
o futuro à eficiência sem escrutínio. O autoritarismo aparece porque é ameaça,
não porque é destino.
Além
disso, a tese ignora que a ficção científica sempre imaginou formas
alternativas de organização democrática, mesmo quando não lhes dá o nome
explícito. As federações cooperativas de Ursula K. Le Guin, os modelos
comunitários de Kim Stanley Robinson, as sociedades pós‑escassez de Iain M.
Banks, os sistemas deliberativos de Octavia Butler — todos estes universos
trabalham a ideia de democracia expandida, experimental, adaptada a escalas que
o presente ainda não consegue sustentar. Não são aberrações; são
possibilidades.
O
equívoco nasce de uma leitura que confunde cenário com desejo. O facto de
muitos autores escolherem mundos autoritários não significa que os considerem
naturais; significa que os consideram perigosos. A ficção científica, quando é
séria, não projeta o futuro como fatalidade, mas como aviso. E o aviso, quase
sempre, é o mesmo: quando a democracia é desvalorizada, o autoritarismo ocupa o
espaço.
A tese de
Nogueira Pinto não descreve a ficção científica; descreve apenas a sua própria
preferência política.
Há uma
genealogia que se apaga quando se fala de Villeneuve e dos orçamentos siderais,
do autor contratado por estúdios que o tratam como garantia de qualidade dentro
de uma lógica puramente industrial.
Antes de
ser essa marca, Villeneuve foi outra coisa: um cineasta quebequense que, nos
seus dois primeiros longas, Un 32 août sur terre (1998) e Maelström
(2000), procurava sobretudo uma linguagem — o acaso, a fábula, a voz off
que intervém e comenta, uma certa desconfiança perante o realismo direto. Eram
filmes de formação, mais preocupados com o existencial e o formal do que com
qualquer leitura do mundo social.
Entre Maelström
e o regresso de 2008 há um vazio de oito anos que a maior parte das cronologias
do cineasta atravessa em duas linhas, como se não merecesse delonga. É um
silêncio incómodo para quem gosta de reconstituir trajetórias como sequências
causais, cada filme a preparar o seguinte — porque aqui não há filme nenhum a
preparar coisa alguma. Há apenas a informação, escassa e quase pudica, de que
Villeneuve afastou-se para fazer publicidade e estudar o ofício, e o fez,
segundo a formulação que sobrevive, para "recentrar a sua vida".
Não há
grande utilidade em especular sobre o que essa frase esconde. Mas há um facto
que a acompanha e talvez diga mais do que qualquer biografia detalhada: quando
Villeneuve regressa, já não é o mesmo tipo de cineasta que partiu. Até Maelström,
tinha escrito e realizado tudo o que fizera — da conceção ao plano. Quando
volta, em 2008, é para dirigir argumentos escritos por outros.
A pausa
não separa apenas dois períodos cronológicos — separa duas formas de autoria. O
jovem cineasta que efabulava sobre si próprio cede lugar a um realizador que
aceita pôr o seu olhar ao serviço de matéria alheia, e é precisamente essa
disponibilidade que lhe permitirá, mais tarde, adaptar Mouawad em Incendies
sem que isso pareça uma traição a um projeto autoral.
Há ainda
um pormenor que a cronologia oficial regista quase em rodapé: a curta-metragem Next
Floor nasceu como interrupção dentro da própria rodagem de Polytechnique
— não como prenúncio, mas como escape simultâneo. Os dois filmes do regresso
não se sucederam um ao outro; foram gerados lado a lado, no mesmo fôlego de
retoma.
Next
Floor (2008)
é o momento em que Villeneuve deixa de pensar sobre o indivíduo perdido para o
fazer sobre a sua classe de pertença. A imagem central — um banquete burguês
que colapsa literalmente sob o seu próprio peso enquanto os comensais continuam
a devorar — é de uma literalidade quase brechtiana: o capitalismo como
voracidade que se autodestrói, mas arrasta consigo os que dele dependem para
servir. Não há subtileza a proteger a metáfora, e essa é, precisamente, a força
do filme.
Polytechnique (2009), no ano seguinte, parece à
primeira vista pertencer a outro registo — o do drama baseado em factos, a
reconstituição do massacre de 1989 na École Polytechnique de Montreal. Mas a
escolha formal é reveladora: o preto e branco, a fragmentação dos pontos de
vista, a recusa de qualquer psicologização fácil do assassino.
Villeneuve
filma um sistema, não um louco isolado — a violência de género como estrutura,
não como desvio — e fá-lo com um rigor que já não é o do fabulista de Maelström,
mas o de um cineasta que aprendeu a pôr a forma ao serviço de uma leitura
política do real, sem nunca degenerar em tese ilustrada.
É esse
duplo percurso que prepara o salto para Incendies (2010), adaptação da
peça de Wajdi Mouawad — a passagem do social quebequense para o trágico
universal, da alegoria de classe para a tragédia geopolítica. E há uma frase de
Éluard que ancora bem esta leitura: "nous vivons dans l'oubli de nos
métamorphoses", de pertinência quase cirúrgica, porque Incendies
é precisamente a história de um esquecimento forçado que se torna, ao ser
desfeito, o único caminho possível para a redenção.
Nawal
metamorfoseia-se várias vezes ao longo da narrativa — a jovem apaixonada, a
estudante, a militante, a prisioneira violada e torturada, a mãe sobrevivente,
a mulher silenciosa que, décadas depois, exige através de um testamento que os
filhos reconstituam o que ela nunca lhes contou.
Villeneuve
filma essa sucessão não como progressão psicológica, mas em camadas geológicas
— cada versão de Nawal soterrada sob a seguinte, até que os gémeos, ao
escavarem, não encontram uma verdade redentora, mas a mais terrível das
coincidências: que o torturador temido pela mãe e o filho que ela perdeu são a
mesma pessoa.
É aqui
que a recusa do maniqueísmo se torna o verdadeiro projeto ético do filme, e não
apenas uma opção estética. Um cinema menor teria construído Nihad como monstro
absoluto. Villeneuve e Mouawad fazem algo mais perturbador: mostram-no também
como vítima, uma criança arrancada à mãe, franco-atirador formado pela guerra e
depois em torturador, sem que isso o absolva, ainda que a história não permita
ao espectador o conforto de o expulsar para fora da humanidade comum.
O
fanatismo, no filme, não é a essência de certos indivíduos ou certa fação
religiosa — é aquilo que a guerra fabrica sistematicamente, dos dois lados de
qualquer fação, cristã ou muçulmana. Essa equivalência é o gesto mais
radicalmente ateu e progressista do filme: recusa-se a conceder a qualquer
identidade religiosa ou étnica o estatuto de vítima ou agressor moralmente
puro.
Uma
leitura complementar pode ainda extrair algo mais preciso: a ausência total de
qualquer instância transcendente capaz de dar sentido ao sofrimento de Nawal.
Não há Deus a explicar o inexplicável, providência a redimir o horror do parto
na prisão nem o incesto involuntário que a estrutura da tragédia impõe aos
gémeos.
A única
forma de redenção disponível é inteiramente humana e material: a verdade dita,
o silêncio quebrado, o gesto de Nawal de nomear, no fim da vida, aquilo que a
violência tinha reduzido ao silêncio.
É uma
redenção sem graça divina, conquistada por meios inteiramente seculares — a
escrita, o testemunho, a transmissão através dos filhos. E há, nessa
arquitetura, uma dimensão que uma leitura progressista não pode ignorar: é uma
mulher, e apenas uma mulher, que carrega o peso de toda a história, e é ela a
única personagem com agência moral suficiente para orquestrar, décadas depois,
a possibilidade de uma verdade reparadora.
Há uma
continuidade entre Polytechnique e Incendies que vale a pena
tornar explícita, porque não é apenas temática — é uma mesma tese sobre a
natureza da violência, aplicada a dois teatros distintos.
Em Polytechnique,
Villeneuve já recusava a explicação fácil do "lobo solitário": o
assassino de 1989 não era filmado como anomalia psicológica, mas sintoma de uma
misoginia estrutural que o precedia e que lhe sobreviveria, disseminada,
difusa, presente em cada gesto quotidiano de desprezo que o filme regista antes
do massacre. A câmara não procurava as razões íntimas do atirador; procurava o
tecido social que tornava o seu gesto pensável.
Incendies desloca essa mesma operação para a
escala da guerra civil e do conflito sectário, mas o método interpretativo é
rigorosamente o mesmo: recusar a personalização do mal.
Não há,
no filme, um vilão que explique a atrocidade — há uma engrenagem. A milícia que
massacra o autocarro de civis age por lógica de vingança tribal, não por
maldade individual; os combatentes que capturam e violam Nawal na prisão
fazem-no como prática sistemática de guerra, não como desvio pessoal de um
sádico isolado; e o próprio Nihad, transformado de criança arrancada à mãe em
franco-atirador e depois em torturador ao serviço da fação oposta, é a prova
mais devastadora da tese: a violência não nasce de um carácter, fabrica-se em
corpos ainda em formação, e pode reproduzir-se indiferentemente em qualquer
lado da linha sectária, consoante quem captura a criança primeiro.
É esta
simetria entre o atirador de Montreal e o menino-soldado do Médio Oriente que
dá à obra de Villeneuve, já antes de Incendies se tornar o seu título
mais aclamado, uma coerência de pensamento que ultrapassa a mera escolha de
temas fortes. Em ambos os casos, o cineasta filma a violência não como evento,
mas como estrutura que precede e excede os indivíduos que a executam — e é precisamente
por isso que nenhum dos dois filmes oferece catarse fácil. Não há em Polytechnique
um momento de justiça restaurada, como não há em Incendies um ajuste de
contas que feche a ferida: há apenas, nos dois casos, sobreviventes que têm de
continuar a viver dentro de um mundo que a violência sistémica deixou
irreversivelmente alterado.
O que
distingue Incendies, e o torna um avanço em relação a Polytechnique,
é que Villeneuve já não se limita a expor a estrutura da violência — arrisca
também mostrar a possibilidade, por mínima que seja, de a linguagem e o
testemunho a interromperem, ainda que apenas geração após geração, através da
transmissão de uma verdade que os filhos herdam e os obriga, finalmente, a
nomear o que os pais não puderam.
Um livro
e um filme – percorridos por estes dias! - mostram como a vida tantas vezes se
organiza em torno de promessas que não se cumprem.
Em O
Quarto de Giovanni, James Baldwin acompanha a travessia de um homem que
abandona os Estados Unidos para escapar ao racismo que o sufocava. Paris surge
como possibilidade de reinício, cidade onde a diferença poderia ser menos
punida. Mas a cidade devolve‑lhe o mesmo preconceito, apenas noutra forma, noutra
língua, noutra cortesia. A mudança de lugar não altera a estrutura que o
acompanha. O oceano, afinal, não é fronteira moral.
No filme On
Falling, de Leonor Carreira, a trajetória de Aurora repete esse desengano
noutra escala. A ida para a Escócia nasce da expectativa de uma vida mais
respirável, mas a precariedade instala‑se com a rapidez de quem não precisa de
pedir licença. Uma avaria no telemóvel transforma‑se em ameaça direta à
sobrevivência, porque o custo da reparação implica fome nos dias seguintes e
uma gestão financeira que se faz como quem equilibra o corpo sobre um fio. O
trabalho num armazém consome tudo: o tempo, o sono, a energia. Nada sobra para
o que não seja estritamente necessário.
Entre o
romance e o filme, a constatação é a mesma: a ideia de que mudar de lugar é
suficiente para mudar de vida raramente resiste ao primeiro embate com o real.
O preconceito viaja. A pobreza instala‑se onde houver brecha. A esperança,
quando não encontra estrutura que a sustente, transforma‑se em rotina exausta.
E o beco sem saída não é metáfora: é condição.
A arte,
quando se aproxima desta verdade, não oferece fuga. Oferece reconhecimento. E
esse reconhecimento, mesmo duro, é o que permite ver com alguma clareza o que
tantas vezes se prefere não enfrentar.
Há filmes
que a história do cinema engoliu e depois devolveu, e Soy Cuba é um dos
casos mais extraordinários desse fenómeno: rodado em 1964 por Mikhail
Kalatozov, coprodução soviético-cubana que celebrava a revolução de Castro, foi
ignorado à época por soviéticos e cubanos — demasiado experimental para uns,
demasiado estetizante para outros — e só ressurgiu nos anos 90, quando Coppola
e Scorsese o redescobriram e o relançaram.
Que Pedro
Borges o estreasse na sala do Ideal Paraíso é acontecimento digno da atenção para
os cinéfilos. Porque Soy Cuba é, antes de qualquer consideração política
ou histórica, um prodígio técnico que continua a suscitar discussão: como é que
Kalatozov e o seu diretor de fotografia Sergei Urusevsky criaram certos planos
sem os recursos que hoje os tornariam fáceis?
O plano
de abertura é o mais célebre — a câmara desce por um hotel de luxo, atravessa
uma piscina subaquática, emerge do outro lado e continua sem corte aparente.
Outro acompanha um cortejo fúnebre pelas ruas de Havana em travelling
contínuo, subindo e descendo edifícios com uma fluidez que desafia a física.
Numa época sem steadicam, drones, ou efeitos digitais, o que se vê é
trabalho humano levado ao limite — engenho puro, gruas improvisadas, operadores
de câmara pendurados em situações que hoje nenhum seguro cobriria.
Michael Cousins
referencia-o nos seus documentários sobre a história do cinema com a justiça
que merece: não como curiosidade histórica mas como obra que alargou o que era
possível imaginar dentro de um plano.
Em 1961 Godard
chegou a Berlim com Uma Mulher é uma Mulher, um filme a cores, em CinemaScope,
filmado num apartamento parisiense e nas ruas do bairro de Pigalle, e o júri da
Berlinale ficou surpreendido com a frescura e a inventividade de tudo aquilo —
dando-lhe o prémio que ajudava a consagrar a Nouvelle Vague como o
movimento mais estimulante do cinema europeu do momento.
A
pergunta que o próprio filme faz — tragédia ou comédia? — é a chave de leitura.
As personagens interrogam-se em voz alta, dirigem-se à câmara, interrompem a
ficção para a comentar, e Godard deixa a questão sem resposta porque ela não
importa tanto como o facto de a pergunta existir. O cinema clássico separava os
géneros; a Nouvelle Vague misturava-os até à indistinção.
Angela —
Anna Karina filmada em todas as cores, em grandes planos ou panorâmicas,
"infame" ou une femme conforme o ângulo — quer engravidar.
Emile não quer. A solução é fazer-lhe ciúmes com Alfred, que não a larga com
vontade de a conquistar. A história é simples na complexidade — porque o
triângulo é apenas a superfície, e o que o filme realmente filma é Angela a existir,
a mover-se, sendo olhada, respondendo ao olhar.
Karina e
Godard casariam pouco depois. O filme é também um homem a filmar a mulher de
quem está a apaixonar-se — e essa intimidade atravessa cada plano.
A
inteligência artificial tornou‑se presença constante, não pela novidade
técnica, mas pela velocidade com que se insinuou em todos os domínios, como se
o mundo tivesse decidido avançar sem perguntar se o avanço era sustentável.
No campo
científico, sobretudo na medicina, a aceleração é evidente: modelos capazes de
analisar milhões de combinações químicas em dias, prever interações, sugerir
moléculas, encurtar processos que antes exigiam anos. A promessa é real. A
possibilidade de encontrar soluções farmacêuticas para doenças persistentes
deixou de depender apenas da intuição dos laboratórios; depende agora da
capacidade de cálculo que nenhum humano poderia replicar.
Noutras
áreas, a produtividade cresce com a mesma rapidez. Certas atividades descobrem
que a automação não elimina apenas tarefas repetitivas, mas cria espaço para
funções que antes não existiam. Em alguns setores, surgem empregos novos,
especializados, ligados à supervisão, à curadoria, à interpretação dos
resultados que a máquina produz. Mas a maioria das atividades não tem essa
margem.
A
eficiência, quando se torna argumento absoluto, substitui pessoas. E a
substituição, mesmo quando inevitável, não deixa de produzir uma erosão
silenciosa no tecido social.
O lado
negativo não se esconde. A poluição sonora das infraestruturas, o consumo
desmesurado de água e energia, a necessidade de manter centros de dados que
funcionam como cidades subterrâneas, tudo isto compõe um custo que dificilmente
se concilia com a ideia de rentabilidade.
As
empresas que lideram o setor apresentam prejuízos sucessivos, números que não
se explicam apenas pela fase de investimento, mas pela própria escala do que
tentam sustentar. Fala‑se de bolha especulativa, e a palavra não é exagero: há
uma distância evidente entre o valor bolsista e a realidade material das
operações.
A
inteligência artificial vive neste paradoxo: promessa científica
extraordinária, impacto económico ambíguo, custo ambiental difícil de
justificar. A tecnologia avança, mas o mundo que a suporta hesita. E essa
hesitação não é conservadorismo; é apenas a consciência de que nenhum salto é
gratuito.
O cinema
tem uma relação incómoda com a representação das classes. Ettore Scola mostrou
os de baixo feios, porcos e maus — e ficou a dever uma explicação. O coreano
Bong Joon-ho, em Parasitas, deu-os habilidosos e sem escrúpulos,
enquanto os ricos eram apenas ingénuos — e também ficou a dever.
Karim
Aïnouz em Rosebush Pruning inverte o ângulo: aqui são os ricos a não
terem valores, a não ser o da cupidez e o da preservação dos privilégios.
A família
privilegiada que o filme retrata é bela, malcriada e gananciosa — e Aïnouz não
lhes concede a ingenuidade que Bong Joon-ho oferecia aos seus. São conscientes
do que são e do que fazem, o que os torna mais perturbadores e menos
simpáticos. A denúncia é clara e o realizador brasileiro não a disfarça.
Fica,
porém, a questão a que o filme não responde inteiramente: para além da
denúncia, o que tem este retrato a dizer-nos neste momento?
A crítica
aos ricos sem escrúpulos é um tema tão antigo como o cinema social, e a
eficácia de um filme sobre ela mede-se não pela justeza da acusação — que aqui
é inquestionável — mas pela complexidade com que a desenvolve. Personagens
reduzidas à sua função de classe, sejam ricas ou pobres, tendem a confirmar o
que o espectador já sabia antes de entrar na sala.
O melhor
cinema de denúncia não nos dá razão — perturba-nos.
Não é dos
títulos mais representativos da obra de João Botelho, mas “Aqui na Terra” dá-nos
algo que vale por si: o reencontro com Pedro Hestnes, um dos rostos mais
injustamente esquecidos do cinema português.
Há atores
que o cinema absorve e depois larga sem explicação, e Hestnes é um desses casos
— presença magnética, contenção expressiva, aquela qualidade rara de habitar o
plano sem o solicitar.
O filme
conta duas histórias em contraponto. Na paisagem beirã, um jovem casal vê o
anseio de felicidade dificultado por um crime e pela consequente expiação — uma
narrativa de culpa e redenção filmada com o rigor formal que Botelho nunca
abandona, mesmo quando o argumento hesita.
Na
cidade, Luís Miguel Cintra oferece a habitual qualidade de quem nunca desilude,
fazendo render ao máximo uma personagem perturbada pela morte do pai de um modo
que o filme não explica inteiramente.
É aí que
o filme desarticula em ambas as direções: por que razão um administrador de
empresas fica tão transtornado pela morte paterna? Porque há-de o casal do
campo passar por tão grandes trabalhos para conquistar o direito à felicidade?
Botelho
propõe sem demonstrar, e há momentos em que a elipse é mistério e outros em que
é simplesmente lacuna.
E fica
ainda Inês de Medeiros, fazendo prova de competência cinematográfica que poderia
ter consolidado se não enveredasse pelo percurso político.
O
primeiro volume das Histórias da Pide, de José Pedro Castanheira,
devolve ao presente o período em que Salazar mandava sem contestação, e a
leitura ganha peso numa altura em que há quem suspire pela ditadura como quem
suspira por uma ordem perdida, esquecendo sustentar-se essa ordem na violência
metódica de uma polícia política que não hesitava em transformar suspeita em
culpa e culpa em sentença.
O livro
não dramatiza; expõe. E essa exposição basta para desmontar qualquer nostalgia.
Alguns
episódios são conhecidos, como o assassinato de Humberto Delgado, que permanece
como ferida aberta na memória democrática. Outros surgem com a estranheza do
improvável, como a noite em que Agostinho Lourenço decidiu prender Calouste
Gulbenkian na António Maria Cardoso, gesto de birra que quase fez a fortuna do
milionário arménio abandonar o país.
A
arbitrariedade não era exceção; era método. E este traduziu-se em números que
não se diluem: quase trinta mil interrogados, torturados ou mortos só no
continente, vidas esmagadas por uma máquina que se alimentava da ideia de que se
protege o Estado perseguindo.
A
importância deste tipo de livro cresce quando a memória pública começa a
falhar. Não porque falte informação, mas porque falta atenção.
A
ditadura regressa sempre primeiro como fantasia: a promessa de disciplina, de
estabilidade, de silêncio. Castanheira mostra o que esse silêncio custava, o
que significava viver num país onde a polícia política não era rumor, era
presença. E lembra que Spínola, no dia seguinte ao 25 de Abril, ainda tentou
manter essa estrutura, convencido de que a repressão podia sobreviver à
Revolução.
Não
sobreviveu. O ódio popular era demasiado fundo, antigo e justo.
A leitura
devolve proporção ao debate contemporâneo. Não há ditadura benigna, não há
repressão pedagógica, não há nostalgia inocente. Há apenas esquecimento — e o
esquecimento é sempre o primeiro passo para a repetição.
Os
Balouch têm um provérbio que reduz a existência ao essencial: nascer, vaguear,
morrer, apodrecer e ser esquecido. A frase não pede interpretação, não oferece
consolo, não promete continuidade; limita‑se a enunciar o percurso com a
sobriedade de quem conhece a terra, o tempo e a erosão que ambos exercem sobre
tudo o que vive. Há nesta síntese uma lucidez que não precisa de metafísica,
porque não procura sentido fora do que acontece, e talvez seja isso que a torna
tão desconfortável para quem acredita que a vida exige prolongamento para ser
suportável.
O
paradoxo está na origem: um povo considerado primitivo formula uma visão que
desmonta, com uma linha, a arquitetura elaborada das religiões que prometem
vários modelos de Além. A simplicidade do provérbio não é ignorância; é recusa
de fantasia. A ideia de que a morte é apenas fim, e não passagem, contraria
séculos de construção simbólica que tentaram transformar o desaparecimento em
trânsito, como se a finitude fosse defeito e não condição.
A soberba
do ateísmo, se existe, nasce deste confronto. Não é superioridade moral, é
apenas a convicção de que a vida não precisa de ser prolongada para ser
compreendida. A metafísica oferece continuidade porque teme o vazio; o
provérbio Balouch aceita o vazio como parte do ciclo. A diferença é de postura:
uns procuram eternidade, outros aceitam dissolução. E nessa aceitação há uma
forma de inteligência que não depende de livros sagrados, apenas de observação.
A
existência, reduzida a estes cinco verbos, ganha uma clareza que dispensa
consolo. Talvez por isso incomode. Talvez por isso permaneça.
Godard
partia de uma convicção que poucos realizadores tiveram a coragem de levar até
às últimas consequências: o cinema não serve para contar histórias, mas para
pensar. Cada imagem é um pensamento, cada corte uma articulação lógica ou
ilógica entre dois pensamentos, e o espectador que espera narrativa encontra
filosofia, o que é simultaneamente uma exigência e uma libertação.
Valha-me
Deus começa
com um conto hassídico que diz tudo sobre o que Godard entendia ser a condição
da cultura moderna: o pai do pai do pai sabia acender o fogo sagrado, conhecia
o lugar na floresta e a oração. O filho do filho do filho já só conhece a
história — e conta-a. É a perda em cascata do conhecimento ritual, da diferença
que tornava cada gesto único, até restar apenas a narrativa sem o ato.
Godard
via o cinema da mesma forma: cada geração afastando-se mais do momento em que a
imagem e o pensamento eram a mesma coisa.
Há neste
filme, como em toda a obra tardia de Godard, uma filiação no Primeiro
Romantismo — essa tradição que recusava a separação entre arte, filosofia e
política, que via na forma estética uma via de conhecimento que a razão pura
não alcançava. Novalis, Schlegel, Hölderlin — Godard lia-os e filmava-os sem o
declarar.
E há a
empatia constante com os vencidos — a Palestina, os povos sem Estado, os que a
história oficial apaga. Godard nunca filmou do lado do poder. Era uma posição
incómoda e coerente, como toda a sua obra.
Na
Etiópia dos anos 30 surgiu o primeiro sinal de que a Europa caminhava para um
abismo que ainda não sabia nomear. A invasão ordenada por Mussolini funciona como
ensaio geral da violência perpetrada pela arrogância imperial de quem confiava
na superioridade das armas e na fragilidade dos povos que pretendia subjugar,
como se a força pudesse substituir a legitimidade e a conquista pudesse
disfarçar a decadência interna de um regime que só respirava graças à
propaganda.
Antes da
Guerra Civil de Espanha e da marcha para a catástrofe global, a Etiópia tornou‑se
o laboratório de uma ideologia que precisava de provar a si própria que podia
dominar, e é essa necessidade de demonstração que revela o mecanismo íntimo dos
fascismos — a convicção de que o mundo se dobra perante quem o ameaça, os
recursos dos outros são matéria disponível, e a violência é argumento
suficiente para justificar qualquer ambição.
A
comunidade internacional hesitou, como se a distância geográfica pudesse
justificar a da moral, e ela ecoa no presente, quando regimes que se julgam
militarmente inquebrantáveis repetem o mesmo padrão: escolher alvos que
consideram mais fracos, explorar recursos que não lhes pertencem, transformar
fronteiras em pretextos, e tudo isto sob a mesma retórica de inevitabilidade
que já ouvimos antes, como se a história não tivesse deixado provas suficientes
do que acontece quando a força se torna método.
A ambição
territorial continua a vestir-se de discursos de proteção, de tradição, de
destino, e o verdadeiro ponto de viragem não foi apenas a invasão da Etiópia,
mas a incapacidade de reconhecer que aquele gesto anunciava uma lógica que não
se esgotaria ali, e que regressa sempre que o poder se convence de que a
fragilidade dos outros é oportunidade e não alerta.
Revisitar
este episódio da História não é exercício de memória, é exercício de
vigilância: perceber como ela se repete quando não é lida com atenção, os
sinais surgem antes das tragédias a violência começa sempre por testar limites,
e a indiferença é, muitas vezes, o primeiro aliado dos que acreditam que podem
dobrar o mundo à força.
Há
críticos que informam e há críticos que convencem — e a distinção não é menor.
José Vieira Mendes pertence ao segundo grupo, que é o mais raro, e é por isso
que a sua crítica na Visão sobre Dia D — Sob Pressão, de Anthony
Maras, me fez ganhar interesse por um filme que, a priori, consideraria mais do
mesmo sobre o desembarque na Normandia, um momento que o cinema americano já
tratou tantas vezes que a novidade parecia improvável.
O que
Vieira Mendes faz — e é o sinal dos críticos que muito prezo — não é alinhar
informações sobre a produção e a forma como ela se traduziu no ecrã. É elencar
argumentos que tornam aliciante a descoberta. Ao enfatizar o lado de thriller
meteorológico, desloca o filme do território do épico bélico para outro
registo: o da decisão tomada sob pressão de tempo, de informação incompleta e
de condições atmosféricas que podiam desfazer tudo. Eisenhower a aguardar uma
janela de tempo favorável enquanto milhares de vidas dependiam da leitura
correta de um céu instável — há aí uma tensão que nenhuma batalha filmada
consegue igualar, porque é a tensão do momento anterior, quando tudo ainda pode
não acontecer.
É o tipo
de ângulo que transforma um tema gasto numa entrada nova. E é o tipo de crítica
que cumpre a sua função mais nobre: não substituir a experiência do filme, mas
torná-la necessária.
Volto aos
documentários de Jacinto Godinho sobre Os Últimos Dias da Pide, não pela
nostalgia de um tempo que não merece regresso, mas pela precisão com que expõem
o intervalo entre o desmoronar de um regime e a tentativa imediata de o
recompor, como se a história tivesse deixado uma fresta aberta por onde pudesse
entrar, de novo, a velha sombra. É nela que se percebe o gesto calculado de
Spínola, atento ao cansaço dos que tinham conduzido a Revolução e convencido de
que o dia seguinte lhe oferecia terreno para reinstalar, com outra máscara, a
mesma arquitetura de poder.
Essa
ambição revela-se no detalhe: a nomeação apressada de um novo diretor para a
Pide, a crença de que a máquina repressiva podia sobreviver ao colapso
político, a ilusão de que bastaria substituir Silva Pais para que o edifício se
mantivesse de pé, e esta tentativa de continuidade diz mais sobre o instinto
autoritário do que sobre qualquer estratégia, porque pressupunha que o país,
exausto mas atento, aceitaria a reciclagem da violência desde que embrulhada
numa retórica de ordem.
Houve
então a reação imediata dos capitães de Abril como reflexo de lucidez:
perceberam que a sobrevivência da Pide significaria a sobrevivência da noite, e
que permitir-lhe a reconfiguração equivaleria a aceitar que a Revolução fosse
apenas um parêntesis. É essa consciência que impede e desmonta o plano, força
Spínola a recuar, primeiro no discurso, depois no próprio país, até à fuga para
Espanha que sela o fracasso do golpe que imaginara como continuação natural do
poder.
Este
episódio muito importa na memória democrática: não apenas significou o fim
formal da polícia política, mas o da sua respiração subterrânea, da capacidade
de infiltrar o quotidiano, de transformar o medo em método, e talvez seja por
isso que estes documentários continuam a ser necessários, porque lembram que a
liberdade não se consolida por decreto, mas por vigilância crítica, e que cada
tentativa de regressão começa sempre com a promessa de que nada mudará
demasiado.
Revisitar
estes dias não é exercício histórico, mas de atenção atenção: perceber como o
autoritarismo tenta sempre sobreviver ao seu próprio colapso, como procura
brechas, se disfarça, espera, e depende, sobretudo, da distração dos que
acreditam que a democracia está garantida.
Três
filmes apenas — O Segredo de um Polícia, O Círculo Vermelho e O
Samurai — e no entanto a cumplicidade entre Jean-Pierre Melville e Alain
Delon é das mais intensas que o cinema francês produziu. O documentário La
Solitude de deux samouraïs aborda essa relação como a de dois irmãos, ou de
um pai e um filho — e as duas leituras são igualmente verdadeiras, porque havia
entre eles a rivalidade fraternal e a transmissão geracional ao mesmo tempo.
Melville
tinha criado um mundo próprio — o do polar francês filtrado pelo cinema negro
americano, com homens de gabardina e chapéu de abas largas, códigos de honra em
universos dela isentos, o silêncio como linguagem preferencial.
Delon era
o rosto perfeito para esse mundo: belo com uma frieza que não era ausência de
sentimento mas contenção absoluta dele, capaz de dizer mais com um olhar do que
outros com um monólogo.
O Samurai
de 1967 é o melhor exemplo dessa cumplicidade: Jef Costello é uma personagem
quase sem palavras, sem passado, nem futuro — e Delon habita-a com uma precisão
que só é possível quando o ator e realizador confiam inteiramente um no noutro.
A morte
súbita de Melville em 1973, com 55 anos, penalizou Delon de um modo que a
carreira subsequente acabaria por confirmar. Sem o pai, sem o irmão, sem o
espelho que sabia exatamente o que nele havia de melhor, o ator entraria numa
nova fase — mais comercial, menos protegida pelo rigor de quem o compreendia.
Alguns dos filmes que se seguiram foram bons. Nenhum foi O Samurai.
A
cumplicidade entre Melville e Delon tinha um reverso que o documentário não
esconde e que importa nomear: ambos eram gaulistas convictos, crentes numa
França de valores que julgavam em vias de desaparecimento — uma França de
ordem, de hierarquia, de identidade nacional forte, de nostalgia de uma
grandeza que o mundo moderno ia corroendo.
Melville
combateu na Resistência, o que lhe dava uma autoridade moral que usava com
naturalidade — mas a Resistência produziu tanto gaulistas de direita como
comunistas, e Melville pertencia inequivocamente ao primeiro campo. Delon foi
mais longe e mais explícito, declarando ao longo dos anos simpatias pela
extrema-direita francesa que acabariam por manchar a imagem pública do ator,
culminando no apoio aberto a Marine Le Pen.
O
paradoxo é que o cinema de Melville — precisamente o que Delon melhor incarnou
— não tem nada de ideologicamente tranquilizador para a direita. Os heróis são
criminosos, os polícias são ambíguos, o código de honra que os governa é
paralelo à lei e frequentemente oposto a ela. É um cinema que desconfia das
instituições tanto quanto das multidões — uma anarquia aristocrática que se
veste de conservadorismo mas no fundo não serve nenhuma ordem estabelecida.
O que
Melville e Delon queriam preservar era uma França que talvez nunca tivesse
existido fora dos seus filmes — e é irónico que seja precisamente a
extrema-direita de hoje a reivindicar esse ideal, sem perceber que estes
samurais não serviriam nenhum partido.
A
biografia de um compositor pode iluminar a obra com uma nitidez inesperada. As
Sinfonias n.º 6, 7 e 8 de Haydn — Le Matin, Le Midi e Le Soir
— são disso exemplo perfeito: a chamada Trilogia das Horas, escrita em
1761, quando Haydn ainda vivia com estatuto de criado na corte do príncipe
Esterházy, revela não apenas o talento musical, mas também a condição humana de
quem compunha sem possuir o que escrevia.
Haydn era
apreciado pelo patrão, mas continuava a ser, formalmente, um servidor. A
pequena orquestra estava sempre à disposição do príncipe, pronta para tocar ao
menor capricho, e as obras que Haydn criava pertenciam ao empregador, não ao
autor. A música era serviço, não propriedade. Criatividade subordinada ao
protocolo. Talento domesticado pela etiqueta.
E, no
entanto, é nesse contexto de dependência que surge uma trilogia famosa da
história sinfónica. Le Matin abre com um nascer do sol que parece
anunciar não apenas o dia, mas a própria juventude do compositor — uma
claridade que se ergue apesar da servidão. Le Midi é o auge, o calor, o
brilho, quase uma afirmação de vitalidade num ambiente onde a liberdade era
escassa. Le Soir encerra com uma melancolia discreta, como se Haydn pensasse
que o dia termina sempre antes de o artista poder reclamar o próprio tempo.
Estas
três sinfonias, compostas para agradar ao príncipe, revelam a autonomia
interior de Haydn. Mesmo sem direitos sobre a sua obra, nem independência
profissional, ele escreve música que não é servil — é radiosa. Música que não
obedece ao estatuto de criado, mas ao impulso criador. Música que, sem o saber,
prepara o caminho para a revisão contratual que lhe permitirá, anos depois,
publicar partituras em seu nome e trabalhar para outros.
Hoje, num
tempo em que os motivos de inquietação são mais que muitos, estas sinfonias
oferecem uma lição inesperada: a arte pode florescer mesmo em circunstâncias
apertadas. Haydn não esperou pela liberdade para ser brilhante — foi-o antes
que ela chegasse. E talvez seja isso que nos consola: a ideia de que, mesmo
quando o mundo parece estreito, a música abre espaço.
A Trilogia
das Horas não é apenas metáfora do dia — é a da vida de Haydn. E, por
extensão, da nossa: o talento não escolhe o momento; escolhe a persistência.
Rever Identificação
de uma Mulher, quarenta e poucos anos depois da estreia em 1982, é
reencontrar Antonioni num momento de charneira — três anos antes do AVC que lhe
roubaria a palavra e condicionaria a expressão produtiva, obrigando-o a
depender de colaboradores para concretizar o que o corpo já não conseguia dizer
sozinho.
O filme é
um espelho do próprio processo criativo: um realizador, Niccolò, procura a
mulher que lhe sirva de protagonista para o próximo projeto. No entretanto
vai-se relacionando com duas amantes — Mavi e Ida —, por quem sempre sentirá
contenção em confessar que as ama. A incapacidade de nomear o sentimento é
antonioniana até ao tutano: as personagens circulam em torno do que sentem sem
nunca o atingir, como planetas em órbita de um sol que não conseguem alcançar.
Carlo Di
Palma, o diretor de fotografia, explora a profundidade de campo de forma
impressiva — planos onde o primeiro e o último plano coexistem em tensão, onde
o espaço entre as personagens é ele próprio uma personagem. E os espelhos
substituem o campo e contracampo convencional: em vez do corte entre dois
rostos, o mesmo plano contém ambos, refletidos, como se Antonioni recusasse a
separação que a gramática clássica do cinema impõe.
É um
filme sobre a dificuldade de ver — as mulheres, o amor, o próximo projeto, a si
mesmo. Antonioni filmava já a sua própria condição sem o saber.
Quase
meio século depois de Don Siegel e Clint Eastwood terem rodado A Fuga de
Alcatraz, em 1979, o caso real que inspirou o filme continua a justificar
especulações: houve quem apostasse no afogamento dos três fugitivos nas águas
geladas da baía de São Francisco, houve quem asseverasse terem-se salvado, e o
FBI só encerrou oficialmente o processo em 1979 — precisamente o ano do filme —
por falta de provas conclusivas em qualquer sentido. O mistério permanece, e é
parte do fascínio.
Siegel e
Eastwood eram uma parceria de convicções ideológicas que hoje lemos com o
distanciamento que o tempo permite: um cinema de lei e ordem, de indivíduos
duros em mundos hostis, pouco dado a questionar as instituições que os seus
heróis habitualmente serviam. A Fuga de Alcatraz é, curiosamente, uma
exceção parcial a essa regra — porque aqui as instituições são a prisão, e o
herói é quem lhes escapa.
Mas o que
importa reconhecer, sem condescendência, é a eficácia com que desenvolviam o
seu produto. O filme continha uma tensão mediante economia de meios que muitos
realizadores com pretensões mais elevadas não atingiam: a rotina prisional
observada com paciência, os detalhes da fuga elencados em camadas, Eastwood
contido e preciso no papel de Frank Morris. Havia uma integridade artesanal
neste cinema que merece respeito independentemente da perspetiva ideológica de
quem o fez.
Os
melhores filmes de género sabem o que são e fazem-no bem. Este é um deles.
O
Manifesto do Partido Comunista e Alice no País das Maravilhas nasceram no mesmo ano,
coincidência que um ateu socialista não pode deixar de saborear: no mesmo
calendário em que Marx e Engels anunciaram a luta de classes como motor da
história, Lewis Carroll abriu uma porta para um mundo onde a lógica se desfazia,
o absurdo governava, hierarquias se dissolviam como cartas de baralho ao vento.
É como se
1848 tivesse decidido mostrar, num só gesto, as duas faces da consciência
moderna: a que quer transformar o mundo, e a que quer escapar dele.
O Manifesto
antecipava que “tudo o que é sólido se dilui no ar”; e Carroll, sem o saber,
oferecia o laboratório imaginário onde isso ficava visível — não com a
revolução, mas com a fantasia.
Marx
descrevia a alienação; Alice vivia-a. Marx denunciava a arbitrariedade
do poder; Alice tropeçava nela a cada página. Marx desmontava a lógica
burguesa; Carroll mostrava que, quando levada ao extremo, ela implodia.
Esta
coincidência não é um acaso editorial: é metáfora. O século XIX percebeu que o
mundo precisava ser reinventado — política e imaginativamente. E que nenhuma
transformação social se faz sem transformação do olhar.
O Manifesto
oferecia o diagnóstico, Alice o método. Um dizia: o mundo é injusto. O
outro respondia: o mundo é absurdo. E ambos, cada um à sua maneira, convidavam
à insubmissão.
Talvez
por isso esta coincidência fascine: por mostrar que a crítica ao real e a fuga
ao real nasceram juntas, como se a imaginação fosse irmã da política, e a luta
pela emancipação exigisse também a capacidade de imaginar mundos impossíveis.
1848 não
foi apenas ano de revoluções: foi aquele em que a literatura e a política convergiram
para dizer que a realidade, tal como está, não basta. E, para a transformar, tanto
precisamos de Marx como de Alice — tanto do rigor da análise como da
vertigem do sonho.
Há filmes
que ensinam cinema sem o pretenderem. O Comboio Apitou Três Vezes, de
Fred Zinnemann, rodado em 1952, é um desses: uma demonstração quase perfeita da
unidade aristotélica de tempo, lugar e ação — tudo decorre em tempo real, numa
única cidade, em torno de uma única questão. O xerife Will Kane tem de
enfrentar sozinho, ao meio-dia, os pistoleiros que vêm cobrar vinganças
antigas. A cidade deveria estar com ele. Não está. E é nessa ausência que o
filme vive.
A unidade
formal não é virtuosismo gratuito — é argumento. A contagem regressiva dos
relógios que Zinnemann intercala ao longo do filme torna o tempo físico,
palpável, quase insuportável. O espectador sente o meio-dia aproximar-se como
uma ameaça pessoal. É um dos mais eficazes usos do tempo no cinema clássico
americano.
Mas o
filme é também outra coisa. Carl Foreman, o argumentista, estava a ser
investigado pelo Comité das Atividades Antiamericanas quando escreveu o guião —
e a alegoria é tão transparente que surpreende ter passado. A comunidade que
abandona o indivíduo justo por medo ou conveniência, os vizinhos que fecham
portas e baixam persianas, os amigos que encontram mil razões para não se
comprometer — era o retrato da América do macarthismo, da caça às bruxas que
varria Hollywood e silenciava quem ousasse ter opiniões inconvenientes.
Foreman
foi obrigado a emigrar para Inglaterra antes de o filme estrear. John Wayne,
que recusou o papel de Kane por achar o filme "não americano", nunca
compreendeu ter rejeitado a personagem mais americana que o western já
produziu: a do homem que faz o que deve porque é o que deve ser feito, mesmo
abandonado por todos.