Há contos
que permanecem connosco não porque os compreendemos, mas precisamente porque
resistem a ser compreendidos. Entre eles encontra-se O Homem da Multidão,
de Edgar Allan Poe.
A
história parece simples. Sentado à janela de um café londrino, um homem observa
o movimento incessante da cidade. Entre as centenas de rostos que passam diante
dele, um chama-lhe a atenção. É um velho de aparência indefinível,
simultaneamente vulgar e inquietante.
Movido
por uma curiosidade irresistível, o narrador abandona o seu lugar e começa a
segui-lo. A perseguição prolonga-se durante horas. O estranho percorre ruas
elegantes e bairros degradados, atravessa mercados, tabernas e artérias
apinhadas de gente. Caminha sem destino aparente. Nunca entra verdadeiramente
em lado nenhum. Nunca encontra ninguém. Nunca faz nada que revele quem é.
Quando a
madrugada se aproxima, o observador desiste.
A
conclusão é desconcertante. Depois de todo aquele esforço, nada descobriu.
Ou talvez
tenha descoberto mais do que julgava.
À
primeira leitura, o conto parece um fracasso. O narrador segue um homem durante
uma noite inteira e termina exatamente onde começou. Não conhece o seu nome, a
profissão, as intenções ou a história. O mistério permanece intacto.
Mas a
literatura raramente desperdiça uma noite inteira para chegar ao nada.
O século
XIX foi o grande século das cidades. Londres tornara-se uma concentração humana
sem precedentes. Milhões de pessoas viviam lado a lado sem se conhecerem. Pela
primeira vez na história, tornou-se possível passar toda uma vida rodeado de
estranhos.
Poe
percebeu algo que ainda hoje nos acompanha. A multidão aproxima os corpos mas
afasta as biografias.
Num
pequeno lugar, cada pessoa é uma história conhecida. Numa metrópole, cada
pessoa é uma incógnita. Cruzamo-nos com milhares de indivíduos sem saber quem
são, o que amam, receiam ou perderam. A cidade moderna multiplica os encontros
e reduz o conhecimento.
O velho
seguido pelo narrador talvez não represente um indivíduo em particular, mas uma
condição.
Ao longo
da perseguição, torna-se evidente que o homem não suporta a solidão. Sempre que
uma rua se esvazia, procura outra mais movimentada. Quando uma multidão
dispersa, dirige-se para outra. Como se necessitasse do contacto constante com
os outros sem estabelecer uma relação com ninguém.
É um
paradoxo profundamente moderno.
Vivemos
rodeados de pessoas e, ao mesmo tempo, sentimo-nos isolados. Procuramos
companhia mas evitamos intimidade. Queremos pertencer à multidão sem nos
expormos verdadeiramente ao olhar dos outros.
Talvez por
isso o conto continua atual numa época dominada pelas redes sociais. Nunca foi
tão fácil observar os outros e difícil conhecê-los.
O
narrador de Poe acredita que observar é compreender. Quanto mais segue o
desconhecido, mais espera descobrir a sua verdade. O resultado é o inverso.
Quanto mais o acompanha, mais insondável ele se torna.
Num tempo
em que quase tudo parece classificável, mensurável e explicável, a existência
de algo que resiste à interpretação causa desconforto. Queremos causas,
motivações, diagnósticos e explicações. Poe oferece-nos apenas uma sombra que
atravessa as ruas de Londres e desaparece entre os transeuntes.
Afinal,
talvez a questão não seja quem era aquele homem, mas até que ponto conhecemos
realmente os rostos que encontramos todos os dias e permanecemos nós próprios,
para os outros, apenas mais uma figura perdida na multidão?
O Funchal
vai acabar desmanchado a maçarico num estaleiro turco. Foi arrematado em leilão
por quem o comprou ao peso do aço, que é o preço a que se vendem no fim as
coisas que um dia foram belas. Conheci-o por dentro, como tripulante, nos anos
em que o armador Potamianos lhe devolveu o fulgor — depois de ter sido a joia
da Marinha Mercante e, antes disso, o iate de recreio que o almirante Thomaz e
a esposa julgavam seu. Um navio não escolhe quem transporta. Serve quem paga.
Foi numa
dessas viagens que assisti a um momento que só agora, ao rever A Ponte do
Rio Kwai, percebo por inteiro. O navio fora fretado por uma organização
alemã de nostálgicos do nazismo, que o levou aos lugares do Mar do Norte onde
os seus submarinos tinham sido afundados na guerra, para ali cumprirem
cerimónias de homenagem. Numa dessas noites, depois de um jantar opíparo, o
conjunto que animava o Salão Porto tocou a marcha do filme de David Lean. Caiu
sobre a sala um silêncio glacial. Os músicos não tinham intenção nenhuma:
tocavam o reportório que os levava de navio em navio. Mas a música sabia o que
eles não sabiam.
A marcha
que os prisioneiros ingleses assobiam no filme é a Colonel Bogey,
composta em 1914. Durante a Segunda Guerra, os soldados britânicos cantavam-na
com uma letra obscena que troçava da anatomia de Hitler. Lean não a pôs no
filme por acaso: os prisioneiros assobiam-na em vez de a cantar, e qualquer
espectador inglês de 1957 completava a letra de cabeça. Aqueles convivas
alemães, de uma certa idade e de uma certa memória, completaram-na também. O
assobio era um insulto, e quarenta anos depois continuava a sê-lo.
Revi o
filme com a distração de quem já o conhece, e a primeira hora aborreceu-me. O
coronel Nicholson de Alec Guinness, prisioneiro dos japoneses na selva
birmanesa, encontra na construção de uma ponte para o inimigo o sentido que a
derrota lhe tirou: mostrar que os ingleses fazem melhor, manter a disciplina,
deixar obra feita. Lean filma esta obstinação com uma paciência que hoje pesa.
O patriotismo que paira sobre as personagens, a honra do regimento, a
superioridade do engenheiro britânico — tudo isso envelheceu mal, e o filme
vê-se hoje sobretudo como documento do que era um grande sucesso popular do seu
tempo.
E no
entanto, enquanto me aborrecia, reparei que o filme falava do Funchal. E
dos músicos do Salão Porto.
O tema de
A Ponte do Rio Kwai não é o patriotismo. É a obra bem feita indiferente
ao fim que serve. Nicholson não é um traidor, é pior: é um profissional. A
ponte é boa, sólida, digna do orgulho de quem a construiu, e serve para
transportar as tropas japonesas. A tragédia está toda nessa dissociação, que o
filme percebe melhor do que eu lhe reconhecia: o homem que se orgulha do
trabalho sem perguntar para que serve o trabalho. Quando William Holden chega
para a destruir, o confronto não é entre duas nações, é entre duas éticas — a do
objeto bem feito e a do uso que lhe é dado. E Nicholson, no fim, quase defende
a ponte contra os seus próprios compatriotas, antes de perceber, tarde de mais,
o que andou a fazer.
O navio
era isso. Belo, bem construído, obra de engenheiros e operários que se
orgulharam dele, transportou um almirante de um regime, turistas de vários
países, e uma noite um grupo que ia homenagear os submarinos de Hitler. Nunca
perguntou nada. Os músicos também não: tocavam bem o que lhes mandavam tocar. A
diferença é que, naquela noite, a marcha rebentou-lhes nas mãos como a ponte
rebenta nas de Nicholson — o sentido que eles ignoravam impôs-se sozinho.
Há uma
ironia maior, que o filme não conta mas que a sua história conta por ele. O
argumento foi escrito por Carl Foreman e Michael Wilson, dois homens que
Hollywood pusera na lista negra durante a caça às bruxas de McCarthy, por se
recusarem a colaborar com a comissão de atividades antiamericanas. Não puderam
assiná-lo. O Óscar foi para Pierre Boulle, autor do romance, que não escrevera
uma linha do guião em inglês. Só em 1984 a Academia lhes devolveu os créditos.
Um filme sobre um homem que colabora com o inimigo por orgulho profissional foi
escrito por dois homens punidos por se recusarem a colaborar. Nicholson
construiu a ponte; Foreman e Wilson recusaram-se a construí-la, e pagaram por
isso.
E há
outra ausência, que pesa mais. A ferrovia da Birmânia, a que os sobreviventes
chamaram a Ferrovia da Morte, matou cerca de doze mil prisioneiros aliados e
muitas dezenas de milhares de trabalhadores asiáticos, recrutados à força. No
filme de Lean, estes últimos praticamente não existem. A tragédia é inglesa, o
heroísmo é inglês, a loucura é inglesa. Os mortos que mais morreram ficaram
fora do quadro. É também por isso que o filme envelheceu mal: não por causa do
patriotismo, mas por causa de quem o patriotismo deixa de fora.
Que nos
diz o filme agora? Que a pergunta de Nicholson nunca deixou de ser feita.
Vivemos rodeados de engenheiros, gestores, técnicos que se orgulham do que
fazem e não perguntam para que serve — e de obras bem feitas ao serviço de quem
as paga. E vivemos num tempo em que os nostálgicos que fretaram o Funchal
já não precisam de um navio para as suas cerimónias: têm partidos, têm votos,
têm assento em parlamentos europeus. A marcha que os gelou numa noite do Mar do
Norte continuava a dizer a verdade. Talvez valha a pena voltar a assobiá-la.
O filme
termina com um médico a olhar para os destroços e a repetir uma só palavra:
loucura. Mais do que o patriotismo, é essa palavra que fica, e é ela que salva
o filme do tempo. O Funchal não terá direito a epitáfio nenhum. Fica-lhe
este, de um antigo tripulante: serviu toda a gente, e uma noite, sem querer,
serviu a verdade.
Em 1970,
quando publicou Ambas as Mãos sobre o Corpo e Minha Senhora de Mim,
Maria Teresa Horta descreveu o que se seguiu como um «cataclismo». A palavra
não parece excessiva. No Portugal de então, escrever sobre o corpo feminino, o
desejo e a autonomia das mulheres não era apenas um gesto literário. Era um
desafio à ordem moral que sustentava o regime.
Visto à
distância de mais de meio século, é por vezes difícil compreender a dimensão
desse gesto. A ditadura portuguesa encontrava-se já nos seus últimos anos, mas
continuava suficientemente segura de si para vigiar livros, censurar jornais e
controlar a esfera pública. O fascismo português não exigia apenas obediência
política, mas também conformidade moral. Havia um modelo de mulher aceite pelo
regime: discreta, submissa, dedicada à família e afastada dos espaços da
decisão e da criação. Quem recusasse esse papel arriscava tornar-se um
problema.
Os livros
de Maria Teresa Horta tornaram-se num.
A editora
Snu Abecassis, responsável pela Dom Quixote, foi chamada ao gabinete do
ministro Moreira Baptista. A ameaça era clara: se voltasse a publicar obras da
autora, a editora poderia sofrer consequências graves. A pressão não se limitou
às instituições. Maria Teresa Horta foi insultada na rua, atacada nos jornais e
sujeita a uma campanha de intimidação que ultrapassava o terreno literário. Em
determinado momento, três homens esperaram-na na rua e agrediram-na
violentamente.
A
história revela uma das características mais persistentes dos regimes
autoritários. Estes raramente se contentam em controlar as ideias. Procuram
humilhar quem as exprime. A punição serve para advertir todas as outras.
É
provável que Maria Teresa Horta tenha conhecido a solidão que acompanha as
minorias resistentes. Os grandes momentos históricos são frequentemente
recordados através das multidões. Mas, antes das multidões, existem quase
sempre indivíduos isolados. Pessoas que dizem não quando a maioria se cala,
continuam a escrever quando tem consequências, persistindo sem qualquer
garantia de vitória.
Em 1970,
nada permitia prever com certeza o que aconteceria quatro anos depois. O Estado
Novo parecia envelhecido, mas permanecia de pé. Como tantas estruturas
históricas em declínio, aparentava uma solidez superior à real. Contudo, por
detrás da fachada acumulavam-se fissuras que a guerra colonial, a estagnação
económica e o desgaste político tornavam cada vez mais visíveis.
Quando
chegou o 25 de Abril de 1974, o regime caiu com uma rapidez que continua a
surpreender. Muitas das instituições que pareciam eternas revelaram a sua
fragilidade. Aquilo que durante décadas parecera inamovível desmoronou-se em
poucos dias. Para quem tinha vivido anos de censura, perseguição e intimidação,
a sensação só poderia ser de libertação. Abriam-se portas que pareciam
definitivamente fechadas.
A
história, porém, raramente concede vitórias definitivas.
Meio
século depois da Revolução, os livros de Maria Teresa Horta e das outras duas
Marias conservam uma atualidade inesperada. Não porque o país seja o mesmo, mas
porque as conquistas democráticas nunca deixam de ser provisórias. Cada geração
tende a considerar naturais os direitos que recebeu da anterior. Só quando
esses direitos são postos em causa se torna visível o trabalho histórico que os
tornou possíveis.
O voto
feminino, a igualdade jurídica, o acesso das mulheres à educação, à profissão e
à independência económica parecem hoje elementos normais da vida democrática. E
são. Mas a normalidade pode ser enganadora. O que hoje parece inevitável foi,
durante muito tempo, impensável. E o conquistado pode sempre ser contestado por
novas formas de conservadorismo, de autoritarismo ou de nostalgia social.
Talvez
seja por isso que a obra de Maria Teresa Horta continua a falar ao presente.
Não apenas pela qualidade literária, nem pelo seu papel na luta das mulheres,
porque a liberdade nunca é herdada em definitivo. Cada geração recebe-a como
legado, mas também como responsabilidade.
Quando
olhamos para fotografias da escritora durante aqueles anos difíceis, é tentador
admirar apenas a coragem individual. No entanto, o que verdadeiramente
impressiona não é o heroísmo. É a persistência. A recusa tranquila em recuar. A
convicção de que escrever podia ser uma forma de resistência.
Há livros
que mudam a literatura, outros que ajudam a mudar a sociedade, e há os raros em
que uma obra é simultaneamente criação artística e testemunho histórico.
As mãos
que Maria Teresa Horta colocou sobre o corpo eram uma reivindicação de
soberania. E talvez seja essa a razão por que continuam a incomodar alguns e a
inspirar muitos outros. Porque certas lutas pertencem ao seu tempo, mas certas
palavras pertencem a todos os tempos.
Em 1889,
Paris celebrava a Exposição Universal. A recém-inaugurada Torre Eiffel
erguia-se sobre a cidade como símbolo de uma nova era. O ferro, a técnica e a
confiança no progresso ocupavam o centro do palco. A poucas centenas de
quilómetros dali, porém, havia quem procurasse algo bastante diferente. Não o
futuro, mas a luz fugidia de um vale remoto.
Claude
Monet tinha quarenta e oito anos quando partiu para a região da Creuse. A
viagem não era simples. Depois de deixar Paris, chegava-se a Fresselines ao fim
de cerca de sete horas de comboio, partindo da Estação de Orsay, então ainda
uma gare ferroviária e não o museu que hoje conhecemos. O destino contrastava
com a agitação da capital. Ali não havia multidões internacionais nem
maravilhas industriais. Havia apenas rios, ravinas, rochedos e uma paisagem que
parecia conservar uma relação mais antiga com o tempo.
Monet
instalou-se na casa do poeta Maurice Rollinat, cuja amizade lhe abriu as portas
daquele território. A região impressionou-o imediatamente. Nas cartas que
escreveu durante a estadia descreveu a sua beleza selvagem, recordando-lhe por
vezes as falésias de Belle-Île. O ponto onde a Petite Creuse se junta à Grande
Creuse oferecia uma sucessão de perspetivas, escarpas e reflexos que pareciam
alterar-se a cada hora. Era precisamente essa instabilidade que o atraía.
Pode
parecer estranho que um pintor procure um motivo e, após encontrá-lo, passe
meses a lutar contra ele. Mas foi isso que aconteceu. A meteorologia mostrou-se
implacável. Chuva, neve tardia, nevoeiros, tempestades e bruscas alterações de
luminosidade impediam qualquer continuidade. Monet queixava-se da
impossibilidade de encontrar três dias favoráveis seguidos. Quando pensava ter
compreendido uma determinada combinação de água, rocha e luz, o céu mudava e o
quadro deixava de corresponder à realidade diante dos olhos. Não era apenas o
pintor a observar a paisagem. Era a paisagem a resistir à observação.
O seu
lema permanecia simples: suivre la nature. Seguir a natureza. Não
dominá-la nem corrigir-lhe os caprichos. A tarefa consistia em aproximar-se
tanto quanto possível da sua verdade. Mas ela não estava escondida num objeto
mas na relação instável entre distância, enquadramento e luminosidade. Onde
deveria ficar o observador? Qual a proporção exata entre rio, encosta e céu?
Que luz deveria existir entre o motivo e o olhar?
Um
pequeno afluente revelou-se mais dócil do que o cenário principal e
permitiu-lhe concluir um conjunto de telas, porque a primavera chegou, As
árvores começaram a cobrir-se de folhas, os verdes alteraram-se, as sombras
mudaram de lugar.
O artista
viu-se subitamente rodeado por dezenas de quadros começados. Pensa-se que tenha
chegado a trabalhar simultaneamente em cerca de trinta telas. O problema já não
era encontrar novos motivos. Era decidir quais deveriam ser levados até ao fim
antes que a estação transformasse novamente o mundo.
A
dificuldade acabou por revelar-se fecunda. O que Monet descobriu na Creuse não
foi apenas uma paisagem, mas um método.
Até
então, a repetição de um mesmo motivo existia já na sua obra, mas em
Fresselines essa prática ganhou uma coerência nova. Em vez de procurar a imagem
definitiva, começou a explorar sistematicamente as múltiplas possibilidades de
uma mesma vista. A paisagem deixava de ser um objeto fixo para se tornar um
campo de variações. O tema não era o vale, mas a sua contínua mutação sob
diferentes condições de luz, atmosfera e tempo.
Dessa
experiência nasceu a primeira grande série plenamente concebida como tal. Os
catorze quadros que Monet apresentou em Paris nesse mesmo ano despertaram o
entusiasmo dos colecionadores, incluindo muitos norte-americanos que visitavam
a Exposição Universal. A receção confirmou-lhe que tinha encontrado um caminho
novo. Mais importante ainda, que a repetição podia ser uma forma de descoberta.
A partir
daí surgiriam as medas de feno, os choupos, a Catedral de Rouen e, finalmente,
os nenúfares de Giverny. Obras aparentemente distintas mas unidas por uma mesma
pergunta: o que acontece quando olhamos muitas vezes para a mesma coisa?
Talvez a
importância da estadia na Creuse resida precisamente aí. Num século que
começava a medir o mundo através da velocidade, da máquina e da inovação
técnica, Monet escolheu a demora. Enquanto Paris celebrava a altura da Torre
Eiffel, ele procurava a distância certa entre um rio e um olhar.
A
modernidade costuma ser associada à descoberta do novo. Monet parece ter
intuído que compreender exige não avançar para outro lugar, mas permanecer
diante do mesmo cenário até perceber que ele nunca é verdadeiramente o mesmo.
Talvez seja essa a lição mais duradoura do vale da Creuse: o mundo muda menos
por aquilo que observamos do que pela forma como aprendemos a olhar para ele.
Uma carta
de publicidade anuncia a Woody Grant que ganhou um milhão de dólares. Qualquer
pessoa reconhece o truque — letras grandes, letras pequenas, a promessa que é
só um convite a comprar assinaturas de revistas.
Woody não
reconhece. Tem a idade em que a cabeça começa a falhar, bebe há décadas, e
decide ir a pé de Billings, no Montana, até Lincoln, no Nebraska, reclamar o
prémio. Não há maneira de o demover. O filho mais novo, David, acaba por
levá-lo de carro, contra a vontade da mãe, que preferia ver o marido num lar. É
o ponto de partida de Nebraska, que Alexander Payne realizou em 2013 e
que a Arte me fez hoje recordar.
Os filmes
de Payne raramente ficam na memória. São competentes, bem escritos, um pouco
mornos — o tipo de cinema que se vê com agrado e se esquece com igual
facilidade. Nebraska é o seu filme mais singular, e por duas razões que
merecem que se volte a ele: o preto e branco, e Bruce Dern.
Payne
insistiu no preto e branco, e a escolha não é capricho de cinéfilo. A
fotografia de Phedon Papamichael estende as planícies do Midwest num cinzento
sem fim, campos rasos, céus vazios, vilas de uma rua só onde nada parece ter
mudado desde os anos cinquenta. A ausência de cor retira à paisagem qualquer
apelo turístico. Não há aqui a América dos postais, há uma América gasta,
desbotada, como uma fotografia antiga de família que ninguém pendura na parede.
O formato largo acentua o vazio: muito horizonte, pouca gente. O preto e branco
não serve a nostalgia; serve o diagnóstico. Aquele mundo já perdeu a cor.
E depois
há Dern, que recebeu em Cannes o prémio de interpretação e o mereceu inteiro. O
seu Woody quase não fala, arrasta os pés, olha para longe com uns olhos onde
não se sabe se há confusão ou obstinação. Dern não pede simpatia para a
personagem e não a caricatura. Mostra um homem que já perdeu muito — a lucidez,
a autoridade, o respeito da mulher — e que se agarra ao último projeto que lhe
resta com a teimosia de quem sabe, algures, que é o último. O que quer fazer
com o dinheiro? Comprar uma carrinha nova e um compressor de ar, que lhe
roubaram há anos. É tudo. O milhão de dólares não é ambição, é reparação: a
vontade de deixar alguma coisa, de ser alguém, antes do fim.
A viagem
leva pai e filho a Hawthorne, a terra natal de Woody, onde a família se reúne.
E é aí que o filme mostra o que vale. A notícia do prémio espalha-se, e o velho
esquecido torna-se de repente uma celebridade local. Os parentes que não o
visitavam há anos lembram-se de dívidas antigas. O antigo sócio, a quem Stacy
Keach dá uma cordialidade ameaçadora, reclama a sua parte. Os primos sentados
no sofá, a ver televisão em silêncio, ganham interesse súbito. Payne filma esta
ganância com uma comédia seca, quase cruel, e o retrato é implacável: uma
comunidade que não tem nada para fazer, nada para esperar, e que vê no milhão
imaginário de um velho a única oportunidade que lhe passou à porta em anos.
É aqui
que o filme diz mais do que talvez quisesse dizer. Nebraska estreou em
2013, cinco anos depois da crise financeira e três antes da primeira eleição de
Trump.
Vista
hoje, aquela América interior — envelhecida, despovoada, sem trabalho e sem
futuro, esquecida pelas costas ricas do país — é exatamente a que haveria de
mudar a política americana.
Payne não
fez um filme político. Fez o retrato de um ressentimento antes de este ter
encontrado quem o explorasse. Os homens sentados no bar de Hawthorne, que
acreditam num prémio que não existe porque não têm mais nada em que acreditar,
são os mesmos a quem pouco depois se prometeria devolver a grandeza perdida. A
carta da lotaria e a promessa política têm a mesma gramática: letras grandes,
um milhão para cada um, e as letras pequenas que ninguém lê.
A própria
carta, aliás, é uma pequena acusação. O negócio das falsas lotarias vive de
velhos confusos e de gente sem esperança, e o filme mostra-o sem sermão: em
Lincoln, quando finalmente chegam ao escritório, uma funcionária indiferente
verifica o número, confirma que Woody não ganhou nada e oferece-lhe um boné
onde se lê que é um vencedor. É o capitalismo na sua forma mais mesquinha — nem
sequer a exploração do trabalho, apenas a exploração da esperança, e o consolo
de um brinde.
Mas o
filme não acaba na humilhação. David, o filho, que passou a viagem a descobrir
quem foi o pai — o veterano da Coreia, o homem que emprestava dinheiro a quem
lho pedia e nunca o via de volta, o marido de uma mulher que o desprezava e o
defendia ao mesmo tempo —, faz o único gesto que o pai pode receber. Troca o
carro por uma carrinha, compra um compressor, e deixa Woody conduzir pela rua
principal de Hawthorne, devagar, diante dos que se riram dele. O filho
esconde-se no banco, para que o pai pareça sozinho ao volante. Os vizinhos veem
passar o vencedor.
É uma
mentira, claro. Mas é o reverso exato da carta do início. A carta mentia para
tirar; o filho mente para dar. Uma é a ficção do mercado, que promete tudo e
não entrega nada; a outra é a ficção do afeto, que não promete nada e entrega o
que pode. O filme termina nesse contraste, sem sublinhado, e é aí que Payne,
habitualmente morno, encontra uma emoção verdadeira.
June
Squibb, interpretando a mulher de Woody, merece uma nota antes de terminar. A
sua Kate é desbocada, impiedosa, capaz de dizer as piores coisas do marido e
dos mortos no cemitério da terra — e de enfrentar, sem hesitar, os parentes que
o tentam explorar. É ela quem queria o lar, e é ela quem o defende. A
contradição não é defeito de escrita. É o casamento longo, com todo o desgaste
e toda a lealdade que ele acumula, e que nenhum dos dois saberia explicar.
Nebraska não muda a opinião que tenho do
cinema de Payne. Mas tem um velho a conduzir uma carrinha numa rua vazia, a
cinzento, e um filho escondido a olhar para ele. Há filmes inteiros que não
chegam a um plano assim.
Em alguns
artistas a obra nasce da relação direta com a matéria; noutros, de uma relação
direta com o lugar. Barbara Hepworth pertence às duas categorias. A pedra, para
ela, não era apenas substância, mas em potência. E a Cornualha, onde viveu
grande parte da vida, era horizonte que moldava o olhar. A sua escultura
resulta desse encontro — entre o que a mão procurava e o que o mundo oferecia.
A vocação
surgiu cedo, aos sete anos, diante da escultura egípcia. Não foi o conteúdo que
a impressionou, mas a forma: a clareza das linhas, a economia dos gestos e a
evidência de que a matéria podia guardar uma ideia sem a explicar. Essa
descoberta inicial não constituiu detalhe biográfico, mas chave estética.
Hepworth percebeu que a forma é pensamento. E que a escultura, quando verdadeira,
revela.
O
percurso que a levou ao Movimento Biomórfico nasceu dessa intuição. A natureza
não era tema, mas estrutura. As formas curvas, os vazios, as tensões internas
das peças não imitavam o mundo natural: dialogavam com ele. Pelagos,
talvez a obra mais emblemática desse período, condensou essa lógica. A madeira
curvada, o interior tensionado por cordas, o espaço aberto no centro — tudo ali
sugeriu movimento. A peça respirava como linguagem da natureza.
A
Cornualha acrescentou outra camada. Em St Ives, onde ainda se pressentia a presença
de Virginia Woolf, Hepworth encontrou uma paisagem que resistia: vento
constante, luz oblíqua, rochedos que guardavam séculos de erosão. A artista
percebeu que a escultura podia nascer dessa resistência.
Não se
tratava de copiar a pedra moldada pelos elementos, mas de compreender o tempo
inscrito nela. A última fase da sua obra, inspirada nos megálitos da região,
revelou essa atenção ao que permanecia. As peças tornaram-se mais densas, verticais,
silenciosas. Não procuravam beleza, mas permanência.
Houve,
nesse percurso, uma dimensão filosófica que merece ser sublinhada. Hepworth
trabalhou a matéria como quem interrogou o mundo. A forma como resposta a uma
pergunta: o que resiste? O que permanece? O que se transforma?
A
escultura tornou-se no modo de pensar a relação entre o humano e o tempo. O
vazio — tão presente na sua obra — não era ausência, mas espaço de respiração.
A pedra perfurada não perdia força, ganhava um interior que era metáfora de uma
ética: o que importava não era a superfície, mas o que se abria dentro dela.
Tal como
Henry Moore, cuja obra ocupou os jardins da Gulbenkian e deixou memória de
monumentalidade serena, Hepworth trabalhou a escala humana sem perder a ligação
ao mundo natural. Mas o seu gesto foi mais contido, silencioso e atento ao
interior das formas. Se Moore dialogou com o corpo, Hepworth dialogou com o
espaço. E esse diálogo foi sempre rigoroso, claro e fiel à ideia de que a arte
não deve explicar, mas iluminar.
A obra de
Barbara Hepworth foi uma meditação sobre a forma como o tempo esculpe o mundo.
E como o artista, ao esculpir a matéria, tentou compreender esse mesmo tempo.
A
Cornualha deu-lhe o horizonte; a pedra deu-lhe a linguagem; a vida deu-lhe a
pergunta. A escultura, essa, foi a resposta.
Uma
autoestrada passou por cima da ilha onde a família de Athina Rachel Tsangari
semeou e colheu durante gerações. Ela própria o conta, quando lhe perguntam
como é que uma realizadora grega foi parar a uma aldeia escocesa de tempo
incerto, num romance inglês sobre camponeses expulsos da terra. A resposta
desfaz a pergunta: a história não lhe era estranha, era a sua. O asfalto sobre
os campos dos avós e as cercas nos campos de Crace são a mesma ameaça, com
séculos de intervalo.
Colheita adapta o romance que Jim Crace
publicou em 2013, e é o primeiro filme de Tsangari em inglês, longe da Atenas
de Attenberg e de Chevalier. Numa pequena comunidade agrícola,
algures nas ilhas britânicas, a vida segue o ciclo das estações, das ceifas e
dos rituais noturnos que lhes pertencem — até que chegam de fora os que querem
a terra para si.
Walter
Thirsk, camponês de poucas palavras a quem Caleb Landry Jones dá um corpo
inquieto, assiste ao fim de um mundo. Nem o romance nem o filme dizem onde nem
quando: talvez o século XVII, talvez mais tarde. A imprecisão é deliberada, e é
a chave. A privatização dos baldios durou trezentos anos, e quem os viveu não
sabia que estava a viver a História — apenas que a terra deixava de ser sua.
Vi o
filme com a sensação de estar diante de um quadro de Bruegel posto em
movimento. Não por acaso. Os Ceifeiros, de 1565, mostra exatamente isto:
o trigo dourado, os homens a cortar, outros a comer e a dormir à sombra de uma
árvore, a paisagem a perder-se até ao horizonte. É uma imagem de harmonia entre
o trabalho humano e a terra, e foi lida durante séculos como retrato do eterno
— o ciclo dos meses, sempre igual a si mesmo.
A
fotografia de Colheita recupera essa luz, essas cores de terra e palha,
esses corpos dobrados sobre o campo. Mas fá-lo para dizer o contrário do que se
lia em Bruegel. O eterno não o era. Aquele mundo tinha data de validade, e o
filme mostra-o na véspera de expirar. A beleza da imagem não consola: é o
retrato de algo já condenado, e quanto mais bela, mais dói.
É aqui
que a forma se faz argumento. O filme tem a reconstituição cuidada de um filme
de época, mas recusa ser a sua moldura. Tsangari diz ter ido buscar inspiração
aos anti westerns dos anos setenta, ao cinema checo, a Kurosawa, a Altman — a
uma linguagem crua, caótica, sem redenção.
A escolha
faz sentido. O western é o género da terra tomada: a fronteira, as cercas, os
que chegam com papéis e armas para dizer que aquilo agora lhes pertence. A
Escócia de Crace é uma fronteira como o Oeste americano foi, e a tragédia é a
mesma vista do lado dos que perdem. O anti western acrescenta o essencial: não
há herói que salve a aldeia, não há xerife do lado certo. Há apenas o fim, e a
maneira como cada um o atravessa.
Os
rituais noturnos, com o seu quê de lascivo, merecem uma palavra. Há pouco tempo
escrevi aqui sobre um filme em que a fé de um surfista o levava a um convento e
ao chicote, e confessei a minha indiferença perante essa religião do além. Os
ritos de Colheita são de outra natureza. São pagãos, terrenos, do corpo
e da colheita — não pedem nada a nenhum céu, celebram o que a terra deu. Um
ateu entende-os sem dificuldade, porque não são transcendência, são comunidade.
E é isso que o filme mostra a desaparecer com as cercas: não uma fé, mas um
laço. Quando a terra deixa de ser comum, o ritual perde a razão de ser. A festa
da colheita não sobrevive à propriedade privada.
Um
marxista não precisa de forçar a leitura. Marx dedicou ao tema o capítulo de O
Capital sobre a chamada acumulação primitiva, e mostrou que o capitalismo
não nasceu de uma poupança virtuosa, mas do roubo da terra comum e expulsão de
quem nela vivia. Thomas More já o tinha visto um século antes, quando escreveu
que na Inglaterra as ovelhas devoravam os homens. É esse o momento que o filme
encena: o instante em que os camponeses deixam de o ser para se tornarem força
de trabalho sem património que possuíssem. A colheita do título é a última que
pertenceu a quem a fez.
Os muros
nos baldios prejudica os que foram separados da terra. A Grécia de Tsangari
conhece-o bem — e permito-me prolongar a leitura por minha conta, porque não é
ela quem o diz: a Grécia da última década, posta sob a tutela dos credores, viu
muito do que era comum ser vendido. Nós também conhecemos o padrão. Os novos muros
já não se fazem com sebes e valas mas com fundos imobiliários, alojamento
turístico, rendas que expulsam os moradores dos bairros onde nasceram. Lisboa,
Atenas, uma aldeia escocesa sem data: a mesma lógica, que transforma o lugar
onde se vive num ativo que se explora.
É isso
que dá ao filme a atualidade, e Tsangari não o esconde: diz que as referências
ao presente são deliberadas. Mas o filme tem a inteligência de não fazer da
aldeia um paraíso perdido. A comunidade é fechada, patriarcal, desconfiada do
estrangeiro, capaz de crueldade. O que se perde não é o Éden; é apenas uma
forma de vida que, com todos os seus defeitos, pertencia a quem a vivia. É uma
lição que a esquerda nem sempre aprendeu: defender o comum não obriga a
idealizá-lo.
O quadro
de Bruegel continua pendurado no Metropolitan, em Nova Iorque, e continua a
parecer eterno a quem o vê. Colheita devolve-lhe a História. Depois de
ver o filme, já não consigo olhar para aqueles ceifeiros a dormir sob a árvore
sem pensar no que vem a seguir.
A viagem
de Jack London pela Polinésia, no início do século XX, foi uma travessia
interior. Partiu para o Pacífico movido por uma inquietação que não se resolvia
na vida urbana, nem no sucesso literário, procurando um lugar onde o mundo
ainda resistisse à velocidade industrial, o corpo pudesse medir o real sem
mediações, e a experiência tivesse espessura. A bordo do Snark,
acreditou que encontraria esse território. O que encontrou foi mais complexo:
beleza intensa, violência histórica, fragilidade humana — e uma transformação
silenciosa do seu olhar.
A
Polinésia começou por oferecer-lhe a evidência física: o calor que não concede
tréguas, o mar que organiza a vida, os corpos que se movem numa relação direta
com o ambiente. London observou essa harmonia com fascínio, mas depressa
percebeu que a paisagem escondia uma história de declínio. A presença colonial
tinha deixado marcas profundas: doenças, dependências, perda de autonomia
cultural.
O
viajante que procurava autenticidade encontrou um mundo em tensão — vitalidade
e ruína, liberdade e despossessão. E encontrou também o limite do próprio
corpo: a doença repetida, o desgaste, a vulnerabilidade que desmonta qualquer
ideal de força.
Essa
experiência alterou-lhe a escrita. Nos textos posteriores, o olhar torna-se
mais atento às estruturas sociais, aos rituais, às formas de convivência. A
observação ganha rigor etnográfico, sem perder a dimensão literária. A crítica
ao colonialismo surge com clareza: London percebe que o progresso técnico não tem
equivalência moral, e a expansão ocidental produz destruição tanto quanto
ordem.
A
consciência da finitude infiltra-se na sua obra: o herói voluntarioso dá lugar
a figuras que enfrentam limites, contingências, fragilidades. A viagem não lhe
deu apenas matéria narrativa; deu-lhe profundidade. London descobre que o
pensamento nasce do corpo — do calor, da fadiga, da doença, da resistência do
mundo.
A
Polinésia desmonta o mito da civilização como destino superior e revela outras
formas de tempo, de convivência, de estar no real. A viagem torna-se metáfora
da existência: avançar, adaptar-se, reconhecer limites, persistir. Nada é fixo;
tudo se transforma. A impermanência deixa de ser conceito e passa a ser
experiência.
O período
polinésio é ponto de viragem. A inquietação que o levou ao Pacífico
devolveu-lhe uma visão mais lúcida, crítica e humana. A obra que se segue
carrega essa metamorfose: menos idealização, mais verdade; menos força, mais
consciência.
A
Polinésia ensinou-lhe que compreender o mundo exige estar nele — com corpo, olhar,
vulnerabilidade. E que a escrita, quando se aproxima dessa verdade, ganha claridade.
Em Memórias
de um Corpo que Arde, de Antonella Sudasassi Furniss, três mulheres
costarriquenhas — Ana, Patricia e Mayela, entre os sessenta e oito e os setenta
e um anos — contam como descobriram, ou não descobriram, o próprio corpo numa
sociedade em que a sexualidade era assunto que não se nomeava.
O que
contam não surpreende ninguém que tenha vivido aquelas décadas, deste ou do
outro lado do Atlântico: casamentos sem prazer, o dever conjugal como quem
cumpre um horário, e, à margem, na solidão, a descoberta jubilosa de que o
corpo podia ser outra coisa.
É matéria
dada, mas há-as que é preciso dar outra vez, sobretudo quando não falta quem
queira apagá-las do programa.
A
realizadora diz que o filme é a conversa que nunca teve com as avós. A frase
explica a forma. As três mulheres não aparecem: ouvimo-las em voz off, e
encarnam num único corpo, o de Sol Carballo, atriz da mesma geração, que as
vive no ecrã como se fossem uma.
Atrizes
mais novas dão corpo à menina e à rapariga nos regressos ao passado, e a câmara
passa de uma época a outra sem cortes que as separem, como se a infância, a
juventude e a velhice coabitassem no mesmo espaço. Três biografias distintas
fundem-se numa só figura porque, no essencial, eram a mesma — o que lhes
aconteceu incluiu toda uma geração. O singular do título não é descuido. É
tese.
O filme
foi rodado numa casa de San José, e quase tudo passa-se entre aquelas paredes.
Houve quem achasse monótono ver a atriz a ela confinada durante boa parte da
hora e meia, mas a casa é o tema. Foi ali que estas vidas foram fechadas — a
cozinha, o quarto, a cama onde o prazer não entrava. E há um pormenor técnico
que agrava o efeito: o filme está em formato panorâmico, o mais largo do
cinema, aquele que nasceu para desertos e batalhas. Aplicado a um interior
doméstico, alarga o espaço à volta da mulher sem lhe dar saída. Muito ar,
nenhuma porta. O enquadramento diz da clausura o que nenhuma das vozes precisa
de dizer.
Sou um
homem de setenta anos a ouvir mulheres da minha geração falarem do desejo que
não tiveram. O desejo delas é-me, em rigor, alheio, e não vou fingir que o
filme mo revela de dentro. Mas a minha posição tem um lugar preciso nesta
história, e é desconfortável: os maridos ausentes do filme são da minha
geração. São os homens que não perguntaram, que não ouviram, que tomaram o
silêncio por consentimento e a rotina por harmonia. O filme não os acusa — mal
os mostra. É essa ausência que pesa.
Um
espectador masculino desta idade não pode ver o filme como observador neutro;
vê-o do outro lado da cama, e sabe que aquelas mulheres estão, finalmente, a
dizer em voz alta o que não disseram a quem estava ao lado.
Vale a
pena demorar no país. Na primeira vez que o vi, julguei-o espanhol, e o
paralelo impunha-se: franquismo e salazarismo partilharam uma moral conjugal e
familiar com coincidências sinistras — a mulher como guardiã do lar, o corpo
feminino como propriedade da família e da Igreja. Cá tivemos a Obra das Mães
pela Educação Nacional; lá, a Sección Femenina. Mas a Costa Rica destas décadas
não era uma ditadura. É o país que aboliu o exército em 1948, democracia
estável num continente de generais. E, no entanto, as alcovas de San José
parecem-se assustadoramente com as de Lisboa e de Madrid.
Essa
descoberta é o centro do filme. Diz-nos que a repressão do corpo feminino nunca
precisou de polícia política. Bastaram a Igreja, a família, a vizinhança, as
regras que ninguém escreveu e todos cumpriam.
Os
regimes autoritários da Península deram-lhe força de lei, mas não a inventaram
— encontraram-na pronta e serviram-se dela. Para um marxista, é lição a não
esquecer: a superestrutura moral tem uma vida própria, mais longa do que os
regimes que a usam. Salazar morreu, Franco morreu, e a mentalidade
sobreviveu-lhes em muitas casas durante décadas. Na Costa Rica nem foi preciso
um ditador para a instalar.
É por
isso que esta revisão de matéria dada chega na altura certa. A extrema-direita faz
hoje da família tradicional uma bandeira, e sabemos o que ela foi para as
mulheres que a viveram por dentro: o filme mostra-o com o rigor de quem dá a
palavra às testemunhas. E o exemplo costarriquenho tira-nos uma ilusão
confortável. Julgamos que aquele modelo só regressaria com o regresso de um
regime, com censura e polícia. Não. Pode regressar pelo voto, pelos costumes,
pela escola, pelo púlpito, pela pressão social — exatamente como se instalou na
Costa Rica, sem precisar de ditadura nenhuma. A democracia não é vacina contra
a moral que oprime; é apenas o espaço onde ainda se pode combatê-la.
Há,
apesar de tudo, alegria no filme, e é justo terminar incidir. Estas mulheres
falam hoje com uma liberdade que lhes custou a vida inteira a conquistar, e
falam numa idade em que o mundo as dá como ausentes do desejo. A sua coragem
não está no que fizeram aos vinte anos, quando pouco podiam mas no que afirmam
aos setenta, quando já não teriam de dizer nada.
O filme
não ensinou o que não sabia. Lembrou que saber não chega, e há coisas que cada
geração tem de voltar a ouvir da boca de quem as viveu — antes que outros as
contem de outra maneira.
Uns
filmes vejo pelo realizador, outros pela época, outros porque sim sem razão que
não a da oportunidade. Deste Lado da Ressurreição vi-o pelo lugar. O
Guincho não é para mim cenário: é caminho feito a dois, durante décadas, com a
Elza — o vento que nos empurrava de lado, a areia a bater nas pernas, o mar que
nunca está calmo. Conheço aquele lugar de dentro, e foi por isso que reparei
logo que o filme de Joaquim Sapinho lhe pede outra coisa. Pede-lhe que seja
sinal. Que por trás da rocha e da onda haja alguém.
O filme,
de 2011, junta três mundos que à partida não se tocam: o surf, um convento
franciscano e uma escola secundária. Rafael, surfista que conhece como poucos
as águas do Guincho, não encontra no mar o que procura e sobe a serra de Sintra
até ao Convento dos Capuchos, em busca de fé e de remissão para uma dor e uma
culpa que nunca chegamos a conhecer. Cá em baixo ficam uma irmã que insiste em
trazê-lo de volta, uma mãe, uma adolescência que não sabe o que fazer de si.
Lá fora
foi recebido com entusiasmo — Toronto, São Paulo, as listas da Film Comment,
uma retrospetiva em Harvard. Cá dentro chegou com essa aura, que é sempre um
mau ponto de partida: o espectador já não vê o filme, vê a expectativa.
E, no
entanto, a primeira parte merece que nos demoremos nela. Sapinho filma apenas
com luz natural, e quando a noite cai fica a luz das velas. Recusa o
contracampo: quem fala, fá-lo para um espaço que não nos é mostrado. A câmara
mantém a distância, e os grandes planos só acontecem porque os atores se
aproximam da objetiva — nunca porque a objetiva avança sobre eles.
É um
programa moral: não violar, não explicar, deixar que as personagens se mostrem
quando querem. Sapinho disse que o filme é sobre o não saber — não saber para
onde se vai, quem se é, como se descobre. A culpa de Rafael, que nunca nos é
revelada, pertence a essa mesma recusa, e a forma corresponde-lhe comcoerência.
Há nesta
recusa do contracampo uma ideia que vai mais longe do que talvez o próprio
realizador pretendesse. O plano sem resposta é a figura exata da oração: alguém
fala, e do outro lado não aparece ninguém. Para um crente, esse silêncio é
presença velada. Para um ateu, é apenas silêncio. O filme, nos melhores
momentos, deixa as duas leituras em aberto, e é aí que um espectador como eu
ainda o consegue acompanhar.
O
problema é que o filme não aguenta a regra. Na última hora, o programa
desfaz-se peça a peça. Os contracampos regressam sem necessidade. Um travelling
lento avança sobre os rostos de mãe e filha a meio de uma discussão — a câmara,
que tinha prometido não se aproximar, fà-lo precisamente quando a cena pedia
pudor. E a luz natural, que era ética, torna-se simples escuridão: há momentos
em que não se percebe o que se passa, em que as relações entre as personagens
se tornam ilegíveis, e a ambiguidade deixa de ser procurada para passar a ser
sofrida. A ironia é cruel para um filme sobre a fé: a meio do caminho, perde a
fé na própria forma.
Sapinho
explicou que a cola entre os seus três mundos seria a natureza: os franciscanos
procuram Deus através dela, a escola procura compreendê-la através da ciência.
O argumento tem a simetria das coisas pensadas no papel. No ecrã, não cola, e
percebe-se porquê — as duas atitudes não se completam, opõem-se. A ciência olha
a natureza e não lhe pede sentido; o místico olha a mesma natureza e vê nela
uma linguagem. Entre uma e outra não há ponte, há uma escolha.
E aqui a distância
deixa de ser desinteresse para passar a ser leitura. O filme filma bem o
Guincho e a serra — a luz natural faz-lhes justiça, o mar tem peso e a pedra
tem tempo. Mas quanto melhor os filma, mais eles resistem ao que o filme lhes
quer impor. A paisagem não se deixa converter. O mar não responde. E o que eu
levo daquele areal — o que lá vivemos, o que lá dissemos, os dias concretos de
uma vida partilhada — é a única transcendência que conheço, e não precisa de
além nenhum.
O mesmo
vale para o surf, tribo que me é alheia e que o filme também não me tornou
próxima. Havia ali matéria para outra coisa: a onda como experiência do
absoluto sem Deus, a entrega do corpo a uma força que não se domina, uma
mística laica que os surfistas conhecem melhor do que os teólogos. O filme não
confia nela. Precisa de a batizar. Daí uma figura de Cristo debaixo de água,
vestida de neopreno, imagem onde o surf e a fé deviam encontrar-se e onde só se
encontra o embaraço.
E daí,
sobretudo, a sequência que desmorona tudo: em montagem paralela com a discussão
entre mãe e filha, Rafael entrega-se ao jejum e à autoflagelação, longamente,
acompanhado pelos irmãos num ritual que a câmara regista sem qualquer
distância.
Não é o
tema que incomoda — o sofrimento voluntário tem uma longa história e o cinema
pode interrogá-la. É a maneira. O filme que começou por respeitar as
personagens acaba a pedir ao espectador uma adesão que não conquistou: quem não
partilha a fé fica a ver um rapaz a ferir-se durante demasiado tempo, sem que
nada no plano lhe dê outra coisa para pensar.
O
paradoxo agrava-se quando se sabe de onde o filme diz partir. O distribuidor
anunciava como premissa a reflexão de Karl Barth sobre o sentido do
cristianismo, e a leitura que daí se tira é a da fé contra a religião — a fé
como relação nua, a religião como aparato humano que se interpõe. Ora o filme
entrega precisamente o aparato: o hábito, o ritual, o jejum, o chicote. Filma
tudo o que Barth punha em causa e nada do que defendia, porque a fé, se existe,
não tem forma visível, e a religião tem-na de sobra.
Vale a
pena notar que nem a agência noticiosa da própria Igreja se deixou convencer:
reconheceu a sugestão poética, lamentou a falta de músculo, e despediu-se com a
esperança de que aquele fosse apenas o começo de um caminho. Se o crente sai da
sala a pedir mais, a reserva do ateu não é surdez. É diagnóstico partilhado.
Por
coincidência, no mesmo período, Fernando Lopes filmou no seu último filme, Em
Câmara Lenta, o mesmo mar e o mesmo confronto com as ondas — e até a mesma
figura em neopreno. Mas Lopes filmava sem qualquer desejo do divino. A
comparação diz o essencial: o mar de Lopes é só mar, e basta-lhe; o de Sapinho
tem de ser mais do que mar, e por isso nunca chega a sê-lo inteiramente.
Ao
preparar este texto, dei com outro, meu, de 2012, de que já não me lembrava.
Escrevi-o antes de ver o filme, a partir de uma entrevista de Sapinho ao Expresso,
e nele admitia que um surfista tentado pela vida monástica talvez me fizesse
reconsiderar o desinteresse pelo surf — que então despachava, com pouca
caridade, como divertimento de betinhos e de quem aspirava a sê-lo, réplica
fútil da roleta russa.
Releio-me
e não gosto do que leio. Julgava uma prática pela classe que lhe atribuía, e
não pelo que ela é; e o que ela é, já então o reconhecia de passagem, é coragem
diante de uma força que não se domina. Um marxista devia saber que o mar não
pede certidão de origem a quem nele entra. O surf continua a ser tribo que me é
alheia, mas não desprezível, e essa diferença aprendi-a com o tempo, não com o
filme. Sapinho dizia nessa entrevista que não escolhia os lugares, eram os
lugares que o escolhiam a ele; que o Guincho e o convento o punham à prova, e
que o filme era o trabalho de sobreviver a essa posse. A promessa cumpre-se em
parte: os lugares falam, de facto, mais do que as personagens. Mas quem os ouve
sou eu, e o que me dizem não é o que Sapinho queria ouvir.
Na mesma
entrevista, Sapinho explicava o que queria realmente filmar: uma sociedade que
proíbe a solidão, que nos obriga a estar sempre em comunicação e com isso
destrói a vida interior; uma sociedade de consumo que põe os adolescentes nus
diante do nada, com perguntas sobre a morte que chegam cedo demais para a
capacidade de lhes responder.
Em 2012
objetei-lhe que a história sempre empurrou rapazes de rosto imberbe para
guerras onde morriam de corpo ou de alma — que a juventude diante da morte não
era invenção do consumo. Releio a objeção e mantenho-a. Mas tenho de reconhecer
que o diagnóstico de Sapinho envelheceu melhor do que o seu filme. O ecrã que
hoje trazemos no bolso ainda não tinha tomado conta de tudo; a solidão proibida
de que ele falava tornou-se condição geral, e os adolescentes de agora vivem
dentro de um ruído que então era só ameaça. E a guerra, que eu lhe lembrava
como velha companheira da juventude, voltou à Europa. Uma coisa não exclui a
outra: o nada do consumo e o fogo da história convivem.
O filme
foi feito no ano em que o país entregava aos credores o governo da sua vida
comum, e procura o sentido longe da história — no convento, na onda, no corpo
mortificado. O que me separa de Sapinho não é o diagnóstico, é a cura: ele
procura a resposta fora do mundo; eu continuo a achar que a vida interior se
reconquista dentro dele, no trabalho comum, na política, no amor que dura.
Marx
escreveu que a religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo
sem coração. A frase costuma ser citada como desprezo, e é o contrário:
reconhece a fome antes de recusar o alimento. Deste Lado da Ressurreição
é, sem o querer, documento dessa fome. A resposta parece-me errada. A pergunta,
não.
O filme
não perturbou as minhas certezas, e as melhores obras costumam fazê-lo. Mas
deixou-me uma coisa que não esperava: a prova, filmada com luz natural, de que
o Guincho é mais convincente do que qualquer milagre que se lhe queira
sobrepor. Voltarei lá. Não à procura de Deus.
O cinema
permite a identificação com corpos, numa idade e experiência que não são as
nossas, e provavelmente nunca poderiam ser.
Três
curtas-metragens portuguesas, premiadas em festivais internacionais entre 2023
e 2024, colocam uma questão pertinente: o que fazer perante realidades que nos
são estranhas, e o cinema permite espreitar sem as reduzir a curiosidades
turísticas ou distanciamentos condescendentes?
Corpos
Cintilantes,
de Inês Teixeira aborda o corpo sem nostalgia ou desconforto: uma rapariga de
dezasseis anos descobre, num fim de
semana em Leiria, que o olhar sobre um colega mudou de natureza sem aviso
prévio.
Na estreia
em ficção, ela filma esse território com uma discrição notável: quase tudo
acontece em close-up, em luz natural, no que Mariana sente e imagina mais do
que no que efetivamente sucede.
É um
cinema que recusa a explicitação, entendendo que a adolescência não se define
pelo acontecimento mas pela incerteza que o precede — a dúvida sobre se um
convite é amizade, desejo, ou qualquer coisa entre as duas, e até que ponto
aceitar esse convite é um gesto de autonomia ou vulnerabilidade.
O interesse
do filme assenta na forma como a realizadora consegue tornar universalmente
legível algo que é, por definição, intransmissível: a sensação de que o corpo,
de um dia para o outro, passou a significar outra coisa.
É um
filme que pede ao espectador mais velho a atenção genuína a um estado que só se
pode observar de fora, precisamente porque, de dentro, já não temos acesso a
ele.
Dildotectónica, de Paula Tomás Marques aborda uma distância
de outra natureza — não etária, mas de experiência e identidade. Para tal cruza
dois tempos: o de Rebeca, ceramista contemporânea a tentar a desconstrução do
objeto que fabrica — como criar um dildo que não reproduza a forma fálica que
estrutura, mesmo no prazer queer, uma lógica patriarcal? —, e o de Josefa,
mulher perseguida pela Inquisição por "motivos incertos de resistência e
insurreição", cujos amores ilícitos com Maria passavam também por um
objeto de cerâmica semelhante.
A ponte
entre as duas mulheres separadas por séculos é literal — o material, a forma, o
gesto artesanal — mas é também uma reivindicação: a de que existiu sempre,
mesmo quando a História oficial se recusou a registá-la, uma vida erótica
dissidente que a Inquisição perseguiu e o cinema pode agora restituir, com
humor e sem melancolia forçada.
Este é,
dos três filmes, aquele em que a distância é mais estrutural na experiência do
desejo que ali se representa. E é exatamente por isso que o encontro com o
filme se torna mais instrutivo: não cabe validar nem julgar aquilo que Rebeca e
Josefa procuram, apenas reconhecer, que a História é sempre incompleta, escrita
a partir de exclusões que só agora começam a ser reparadas.
E com Quando
M'eu For Desta Terra, de Francisco Moura Relvas e Rita Senra temos o corpo
da terra que se esvazia.
Na aldeia
de Dine, em Trás-os-Montes, Judite Lopes é uma das últimas habitantes de um
lugar que se esvazia — e o acontecimento que perturba as suas noites, a
ocupação de uma gruta próxima, funciona como metáfora de algo maior: a
desertificação do interior português, a solidão de quem fica quando todos os
outros partiram, o modo como os lugares e as suas histórias vão sendo tomados,
um a um, pelo silêncio.
É o tempo
que passa e deixa, atrás de si, cada vez menos gente para testemunhar aquilo
que passou. É talvez essa a distância mais universal das três, porque é a única
que, mais cedo ou mais tarde, se torna comum a todos — a de ficar, um dia, como
Judite Lopes, a ouvir os cães ladrar no escuro, sozinho perante um mundo que se
retirou.
O que
estas três curtas têm em comum, para além do ano de produção e do
reconhecimento em festivais internacionais, é a recusa de transformarem em espetáculo
aquilo que filmam. Nenhuma delas precisa de gritar para que a sua realidade
específica seja tomada a sério — o corpo adolescente que descobre o desejo, o
corpo queer que a História tentou silenciar, o corpo de uma aldeia que se apaga
devagar.
Perante
elas não faz sentido fingir uma proximidade que não existe, mas reconhecer a dignidade
de serem vistas com atenção e sem condescendência.
Há
viagens que se fazem por procuração, e esta é uma delas. Sei, com a certeza
tranquila que a idade traz a certas renúncias, que nunca descerei a um abismo.
Não chega
a ser fobia, que esta tem qualquer coisa de dramático e eu não gosto de
dramatizar os limites, mas é uma recusa do corpo que a razão subscreve sem
discutir.
Imagino a
corda, a pedra húmida, a escuridão que não é noite porque esta tem sempre um
céu por cima, e sobretudo imagino o instante em que a passagem se estreita, o
capacete raspa no teto, os ombros procuram um ângulo que talvez não exista, e o
pensamento, que até ali se portara bem, formula a única pergunta que importa: e
se eu ficar aqui?
Foi com
esse corpo relutante que vi Il Buco, de Michelangelo Frammartino, e
talvez por isso o filme me incomodou.
Em agosto
de 1961, um grupo de jovens espeleólogos do Piemonte atravessou a Itália para
explorar o Abisso del Bifurto, no maciço do Pollino, na Calábria. Chegaram a
cerca de 680 metros, uma das maiores profundidades então conhecidas.
É tudo o
que é preciso saber, e é quase tudo o que o filme diz, porque Frammartino
recusa a palavra como quem recusa um atalho. Não há diálogos que expliquem, nem
heróis que confessem o medo, nem uma música que diga quando devemos suster a
respiração. Há o som da água a escorrer, o eco de uma voz que chama lá em cima,
o tilintar metálico do equipamento, e sobretudo o silêncio, que não é ausência
de som, mas uma substância.
A
fotografia de Renato Berta merece um parágrafo inteiro. Lá em baixo, a única
luz é a que os homens levam consigo: lanternas de capacete, e folhas de papel
acesas que deixam cair no vazio para medir a profundidade do poço seguinte.
Essas chamas que descem, oscilando, iluminando por instantes paredes que nenhum
olho humano vira antes, e depois se apagam no fundo que não conseguimos ver,
são imagens sugestivas. O escuro não é o negro chapado de um ecrã avariado: tem
textura, profundidade, graus. Berta filma a escuridão como outros filmam a
paisagem, e percebemos que a gruta é uma paisagem que se recusa a ser vista por
inteiro.
E é aqui
que o medo encontra o seu lugar. Frammartino não filma a claustrofobia, que
seria o caminho fácil do cinema de género, com a câmara colada ao rosto em
pânico e a respiração ofegante na banda sonora. Testemunha a exploração com planos
longos, fixos, pacientes, e é precisamente essa calma que inquieta.
Os
espeleólogos esgueiram-se por passagens onde eu não passaria, e o filme não
sublinha nada, não pede aplauso, não pede sequer que tenhamos medo por eles.
Deixa-nos sozinhos com o nosso. Descobri, a ver Il Buco, que o medo de
ficar preso não precisa de ser encenado para ser sentido; basta que a câmara
não dê a saída.
Lá em
cima, entretanto, corre outro filme por outro caminho. Um velho pastor, que
Frammartino foi buscar à própria região e que não é ator, observa os
forasteiros de longe, chama o gado pelo vale com gritos que ecoam como se a
montanha lhe respondesse, e adoece. A morte aproxima-se ao mesmo ritmo a que os
jovens se afundam nas profundezas. As duas linhas nunca se tocam de forma
explícita, e a montagem tem a inteligência de não as forçar. Uma desce ao fundo
da terra, a outra desce ao fundo da vida, e nenhuma delas é comentada.
O pastor
morre como viveu, sem testemunhas que lhe deem importância histórica. Os
espeleólogos cartografam um abismo que ninguém lhes pedira para medir. Ambos os
movimentos são, à sua maneira, inúteis, mas também essenciais.
Há, logo
no início, um momento que funciona como chave. Na aldeia, os habitantes veem na
televisão imagens do arranha-céus Pirelli, acabado de erguer em Milão. É a
Itália do milagre económico, a que sobe, a que se mostra, a que olha para o
futuro de baixo para cima. E os rapazes do Norte industrial vêm ao Sul pobre
não para construir, mas para descer. Frammartino não faz disto uma tese, deixa
a imagem da torre pousada no filme como uma pedra no caminho, e cabe-nos a nós
tropeçar nela.
Pergunto
o que diz este filme ao nosso tempo, e a resposta parece clara. Vivemos numa
época que só concede valor ao que se vê, se partilha e se mede em números de
visualizações. Tudo sobe: torres, gráficos, vozes.
Il
Buco propõe o
gesto inverso, o de descer ao que não se vê, sem plateia, sem transmissão em
direto, pelo simples desejo de saber o que está lá em baixo. E propõe também
uma atenção ao que morre em silêncio nesse mundo rural que continua a
esvaziar-se no Sul de Itália - como no interior português -, sem que nenhuma
câmara lhe preste a homenagem de um plano demorado. O filme é essa homenagem.
Não
descerei nunca a um abismo, mas passei hora e meia dentro de um, guiado por
homens que não conheço e por uma luz que eles próprios carregavam E conclui-o
com a sensação estranha de ter estado muito fundo e regressado inteiro. É o que
o cinema às vezes faz por nós: leva o corpo que temos aonde ele não quer ir.