A fratura
entre memória e realidade ganha outra espessura quando penso nos vinte e quatro
anos passados no mar, porque ali a distância entre o que acontece e poderia ter
acontecido é sempre mínima, quase impercetível, e cada tempestade, cada
incêndio, cada explosão lembra que a sobrevivência não é metáfora, é cálculo
fino, é atenção absoluta, é essa adaptação de que Darwin nunca escreveu mas que
a vida marítima confirma a cada minuto.
Recordo
noites em que o casco tremia como organismo vivo, aço a protestar contra a
força das ondas, e percebo como a memória transforma esse medo em narrativa,
como se o corpo, ao revisitar o perigo, precisasse de lhe dar forma para o
poder suportar, mas a realidade desses instantes era outra: não havia
simbolismo, não havia épica, apenas o som da água a bater, o cheiro do óleo, a
vibração das máquinas, a consciência de que bastava um erro, um acaso, um gesto
tardio para acabar no fundo de um dos oceanos que percorri.
Penso
também nos incêndios, na rapidez com que o fogo se espalha num navio, na forma
como o calor distorce o metal, na urgência de conter o avanço antes que a
estrutura ceda, e noto como a memória suaviza esses episódios, como se lhes
retirasse a violência para os tornar transmissíveis, mas a realidade era sempre
mais crua, imediata, física, exigindo decisões que não admitiam hesitação.
As
explosões, essas, deixaram marcas mais silenciosas: o estrondo que primeiro se
ouve, o silêncio que se segue, o inventário rápido do que ainda funciona, do
que se perdeu, do que pode ser reparado, e é nesse intervalo que a fratura
entre memória e realidade se abre, porque a memória tende a organizar o caos, a
dar-lhe sequência, enquanto a realidade se apresenta como fragmento, como
choque, como interrupção.
Talvez
por isso o mar seja território onde a consciência se afina: porque obriga a
aceitar que a vida pode mudar num segundo, que a segurança é sempre provisória,
que a adaptação não é virtude, é condição. E ao revisitar esses anos, percebo
que a memória não corrige a realidade, apenas a torna habitável, permitindo que
o que poderia ter sido fim se transforme em matéria de reflexão.



















