Do filme
guardei apenas um rosto: o de Mathieu Amalric, olhos salientes, sorriso de
contabilista, a fazer de vilão num filme de James Bond como quem entrou no
plateau errado. Tudo o resto se tinha evaporado em dezassete anos — os carros,
as perseguições, os cenários, a própria história.
Revi Quantum
of Solace para confirmar a justiça desse esquecimento, e confirmei-a. Mas
descobri, pelo caminho, que o filme mais esquecível da série tem o vilão mais
lúcido de todos, e que essa contradição merece mais do que a pastilha elástica
que lhe dediquei.
O filme
nasceu em más condições, e nota-se. Continuação direta de Casino Royale,
onde Daniel Craig se estreara como Bond, devia dar corpo à vingança do agente
pela morte de Vesper. Mas a greve dos argumentistas de Hollywood apanhou a
produção a meio, e o guião ficou por acabar. Durante uma rodagem que se
arrastou por longos meses, o próprio Craig e o realizador Marc Forster tiveram
de se sentar à mesa e escrever as cenas que lhes permitissem continuar a
filmar. Forster, aliás, era escolha estranha: vinha de O Menino de Cabul,
filme pequeno e celebrado, e de um cinema de autor que pouco o preparava para
máquinas desta dimensão.
O
resultado é o Bond mais curto de todos, menos de cento e dez minutos, e o que
mais se escora nos anteriores. As citações sucedem-se, e a mais evidente é a de
Goldfinger: em vez da mulher coberta de ouro, uma mulher coberta de
petróleo. A homenagem tem graça, mas denuncia o problema — quando um filme não
sabe bem o que quer dizer, recorre ao que os outros já disseram.
A
montagem agrava tudo. Na esteira dos filmes de Jason Bourne, as cenas de ação
cortam-se em fragmentos tão rápidos que deixa de se perceber quem bate em quem,
onde, e porquê. O que devia ser energia é confusão. A coerência da narrativa
sofre do mesmo mal: as peças não encaixam, as motivações saltam, e no fim fica
a sensação de ter sabido a pouco.
Há um
momento, apenas um, em que Forster mostra o que poderia ter sido. Durante uma
récita da Tosca no palco flutuante do festival de Bregenz, sobre o lago
de Constança, Bond descobre os membros da organização secreta Quantum sentados
entre o público, a conspirar por auriculares enquanto Puccini se desenrola. A
ação e a ópera fundem-se numa montagem paralela em que a violência no átrio
acompanha o drama no palco, e por uns minutos o filme encontra um ritmo, uma
ideia, uma forma. É o realizador de autor a espreitar por entre as engrenagens
do blockbuster. Depois a máquina volta a engoli-lo.
E, no
entanto, aquilo que o filme diz — por baixo da confusão, quase contra si
próprio — é surpreendentemente certeiro. Os vilões de Bond queriam
tradicionalmente destruir o mundo, roubar bombas atómicas, controlar o espaço.
Dominic Greene quer outra coisa. Apresenta-se como filantropo ecologista, dono
de uma fundação dedicada a salvar o planeta, e prepara um golpe de Estado na
Bolívia que instale no poder um general dócil. O preço que exige não é petróleo
nem ouro. É a água. Greene quer o monopólio do abastecimento de água de um país
inteiro, para a vender a quem dela precisa ao preço que lhe aprouver.
Não é
fantasia. Oito anos antes, em 2000, Cochabamba, na Bolívia, vivera uma
verdadeira guerra da água contra a privatização do abastecimento entregue a um
consórcio estrangeiro — e a população venceu. O argumento, escrito às três
pancadas, tropeçou numa verdade histórica e não soube o que fazer com ela. Mas
a verdade está lá. O vilão de Quantum of Solace não é um louco de gato
ao colo; é um homem de negócios, sorridente e ecológico, que transforma um bem
comum em mercadoria. E os serviços secretos ocidentais, ingleses e americanos,
sabem do que se passa e preferem não interferir, porque os negócios falam mais
alto. Bond, o patriota, descobre que o seu próprio lado faz negócios com o
inimigo.
Greene é
o vilão perfeito precisamente porque não parece vilão. Não ameaça ninguém com
raios laser. Fala de sustentabilidade, financia causas verdes, veste-se como um
professor universitário. O mal que encarna é sem espetáculo: o do capital que
se apropria do que é de todos e lhe dá um rosto simpático. Amalric percebeu-o
melhor do que o argumento — interpretou-o sem ameaça física, como um pequeno
burocrata do lucro, e é por isso que é a única coisa que se lembra do filme.
O filme
estreou no outono de 2008, semanas depois da falência do Lehman Brothers,
quando o sistema financeiro mundial desabava. Ninguém reparou, mas aquele Bond
descrevia um mundo onde os governos democráticos submetiam-se aos interesses
privados e onde a ética desaparecia diante do negócio.
Dezoito
anos depois, a lição tornou-se mais nítida. Vivemos rodeados de Greenes. Algumas
das empresas que mais destroem são as que mais falam de planeta; o ecologismo
de fachada tornou-se linguagem corrente de qualquer conselho de administração;
e a água, com o clima a mudar, deixou de ser assunto de filme de espiões para
entrar nos mercados de futuros. O vilão de 2008 era profeta.
No fim,
Bond abandona Greene no deserto com uma lata de óleo de motor e deixa-o à sua
sorte. A cena tem uma justiça poética que o filme não merecia: o homem que
queria vender a água fica a morrer de sede, com petróleo como única bebida. É a
melhor ideia de todo o argumento, e talvez tenha sido escrita por acaso, numa
daquelas noites em que Craig e Forster improvisavam o dia seguinte.
Quantum
of Solace continua
a ser um mau filme, e nada nesta revisão faz mudar de opinião. Esquecê-lo foi
justo. Mas há filmes que valem menos do que aquilo que dizem, e este é um
deles.











