Kazimir
Malevich ocupa um lugar raro na história da arte: seduz pela estética e afasta
pelo fundamento. O suprematismo, com a sua geometria depurada, economia de
forma e a recusa do mundo visível, produzia uma beleza que não dependia de
narrativa nem de objeto. O Quadrado Negro não era ausência, mas presença
absoluta. A superfície plana, o silêncio da composição, a suspensão de qualquer
referência exterior — tudo isto criava uma espécie de magnetismo visual que
funcionava mesmo quando se rejeitava o misticismo que lhe deu origem.
O
paradoxo estava aí: a obra convencia, a doutrina não. Malevich acreditava que
era possível apagar cinco milénios de cultura humana para regressar a um ponto
zero, uma escuridão primordial onde a luz surgiria não da experiência, mas da
revelação. Via no negro absoluto uma espécie de portal filosófico, talvez
religioso, como se o vazio fosse condição para uma verdade superior.
A ambição
era grandiosa, mas o fundamento escapava. O misticismo que o guiava nada acrescentava
à obra; apenas a rodeava de uma intenção que não era necessária para que funcionasse.
O gesto
suprematista era, no essencial, um assassínio do objeto. Malevich eliminava a
figura, recusava a representação, desligava a pintura do mundo. Procurava a
sensação pura, não adulterada por história, por contexto, por memória. A arte
deixava de ser janela e tornava‑se superfície. O olhar já não procurava o que
estava para lá da tela; confrontava apenas o que a tela era. Nesse confronto,
algo acontecia — não porque o artista tivesse encontrado uma verdade
metafísica, mas porque a redução extrema produzia uma intensidade que não
dependia da crença.
A força
do suprematismo estava na estética, não na teologia. O que permanecia não era a
doutrina, mas a forma. O negro absoluto não iluminava; concentrava. E essa
concentração, mesmo despojada de qualquer misticismo, continuava a ser uma das
experiências mais radicais que a pintura do século XX ofereceu.
1. Há um
fio comum entre duas curtas-metragens portuguesas, recentes e afins na duração,
que a partilha da direção de fotografia de Leonor Teles sublinha: ambas filmam
personagens colocadas à margem — pela pobreza, falta de horizontes, ausência de
qualquer rede de proteção social real — que identificam, na sua situação, uma
única porta de saída possível, e que ela revela-se, invariavelmente, uma nova
forma de captura.
Em "By
Flavio" (2022), de Pedro Cabeleira, é Márcia quem constrói a fantasia
de ascensão enquanto influencer, única rota disponível para escapar à
precariedade em que vive com o filho. A ilusão duplica-se quando a essa
estratégia se soma o envolvimento com um rapper cujo interesse nela é
puramente instrumental — a "horizontalização", para usar o termo
exato, é uma transação de proximidade e visibilidade que nada tem de afeto e
tudo de cálculo.
Cabeleira
filma essa dupla ilusão sem complacência para com as personagens, mas também
sem as tornar patéticas: Márcia não é ingénua, antes alguém que, perante a
ausência de qualquer alternativa estrutural, aposta no único capital que a
economia da visibilidade contemporânea parece oferecer aos que não têm mais
nada — a exposição do próprio corpo e do filho como mercadoria de likes e
seguidores. É uma crítica ácida à forma como as redes sociais vendem a
meritocracia da fama instantânea precisamente às classes que a estrutura social
mais eficazmente exclui de qualquer ascensão real.
"O
Tapete Voador" (2025), de Justin Amorim, radicaliza esse mesmo tema
levando-o a um território mais sombrio: baseado no maior escândalo de pedofilia
institucionalizada em Portugal, o filme segue Ricardo, que não vê no horizonte
outra via de sobrevivência que não seja prostituir-se junto de clientes de alta
condição social. E é nesse circuito que reencontra a irmã de quinze anos,
também ela absorvida pela mesma rede de exploração.
O filme
não precisa de explicitar o horror para o denunciar — a eficácia da crítica
está precisamente em mostrar como esse circuito de abuso depende da
cumplicidade silenciosa de uma classe alta que se protege atrás do estatuto e
da impunidade que esse estatuto historicamente lhe garantiu em casos deste tipo.
O título é de uma ironia amarga: não há tapete voador nenhum a elevar estas
crianças e adolescentes para fora da sua condição — há apenas homens poderosos
a explorar a promessa de ascensão para as manter ainda mais presas.
O que
aproxima as duas curtas, para além da fotografia partilhada, é esta arquitetura
comum: personagens sem outro capital que não o próprio corpo — seja para a
economia da visibilidade digital, seja para a economia mais antiga e mais
brutal da exploração sexual — que confundem a atenção que recebem com uma via
de saída, quando na realidade trata-se do mecanismo exato que as mantém
capturadas. Não há, em nenhum dos dois filmes, um momento de ilusão perdida que
traga alívio; há apenas a constatação de que as "soluções" oferecidas
a quem não tem recursos são quase sempre desenhadas por quem já os tem, e
servem, antes de mais, para preservar essa mesma desigualdade.
2. No
filme de Amorim Leonor Teles consegue um tipo de grão que faz imaginá-lo rodado
na época do caso Casa Pia.
Esse
detalhe não é apenas uma opção estética mas uma decisão que carrega significado
histórico e ético. Ao optar por uma textura de imagem do final dos anos noventa
e início dos anos 2000, período em que o caso Casa Pia decorreu e rebentou
publicamente, Teles está a ancorar o filme num tempo específico, a impedir que
o espectador o encare como ficção genérica sobre um problema abstrato e
intemporal. O grão funciona como se a imagem tivesse sido resgatada de um
arquivo daquela época, e não recriada décadas depois com todo o distanciamento
que essa recriação poderia permitir.
Esta
escolha tem uma consequência crítica importante: recusa ao espectador a
comodidade do "isso já não acontece assim" ou do "isso pertence
a um passado bem delimitado e encerrado". A textura de imagem colapsa a distância
temporal entre o caso real e a ficção que dele deriva, obrigando quem vê a
confrontar-se com uma proximidade incómoda, quase física, com os factos que inspiraram
o argumento. É uma estratégia que dialoga, ainda que por vias completamente
distintas, com a que Hou Hsiao-Hsien usava em "Um Verão em Casa do Avô"
— a de deixar a forma fazer o trabalho que a palavra explícita não precisa de
fazer.
Comparado com "By Flavio",
onde a fotografia de Teles procura captar a textura contemporânea da vida
precária filmada através do ecrã do telemóvel e das redes sociais — uma
luminosidade mais fria, mais achatada, própria da estética de conteúdo digital
que o filme retrata —, em "O
Tapete Voador" a diretora de fotografia
parece ter optado pelo caminho inverso: uma imagem que envelhece deliberadamente
o presente da narrativa, empurrando-a para dentro de uma memória coletiva ainda
dolorosamente viva em Portugal.
Duas
estéticas opostas, portanto, mas movidas pela mesma inteligência: a de que a
textura da imagem não é neutra, mas uma forma de posicionar o espectador
perante o que vê — seja aproximando-o da imediata e asséptica reprodução do
ecrã, seja empurrando-o para dentro de uma memória histórica que o país ainda
não deixou de processar.
É essa
capacidade de Teles para tornar a fotografia um instrumento de argumentação, e
não apenas de composição visual, que faz destas duas curtas um caso de estudo
sobre o quanto a direção de fotografia pode, por si só, comunicar uma tese que
o argumento apenas sugere.
3. O que
estas curtas metragens - “By Flavio” e “O Tapete Voador”-, vistas em conjunto, acabam
por revelar é que a exploração das classes mais vulneráveis assume hoje, em
Portugal, formas contíguas e comunicantes: a exploração digital, que promete
visibilidade e vende dependência, e a exploração institucional, que promete
proteção e vende impunidade a quem a exerce. Que a mesma diretora de fotografia
tenha sido capaz de encontrar, para cada uma destas formas de captura, uma
linguagem visual distinta e igualmente precisa — a frieza clínica do ecrã de
telemóvel, o grão que devolve o presente a uma memória histórica por saldar —
diz muito sobre a maturidade de um cinema português jovem que já não precisa de
gritar para denunciar, porque aprendeu a deixar a própria imagem testemunhar
aquilo que as personagens não têm poder para mudar.
Walter
Dalrymple escreveu La Cité des Djinns depois de quatro anos em Nova
Deli, e o livro nasce dessa convivência com uma cidade que não se oferece de
imediato, exige tempo, errância, atenção ao detalhe.
As ruas
estreitas dos bairros antigos, as avenidas largas dos edifícios modernos, os
mercados onde o passado cruza-se com o presente sem se reconhecerem, tudo
compõe uma geografia que não se lê à superfície.
Dalrymple
percebe que cada passo assenta sobre camadas invisíveis, sete cidades
sobrepostas, cada uma construída sobre os restos da anterior, como se a
história insistisse em não desaparecer, apenas em mudar de lugar.
Os djinns
do título são os fantasmas que alguns acreditam habitarem esses estratos. Não
são figuras de terror, mas presenças discretas, ligadas às ocupações que se
sucederam ao longo dos séculos, sombras que se escondem nos recantos mais
antigos, nos pátios onde a luz chega com dificuldade, nos corredores onde o
tempo parece suspenso.
A crença
não é superstição; é forma de reconhecer que a cidade não é apenas o que se vê,
é também o que se perdeu, o que ficou enterrado, o que resiste sem nome.
O
interesse do livro está na perceção de que Nova Deli não é uma cidade, mas uma
acumulação de cidades. Cada camada guarda uma memória, cada ruína sustenta uma
narrativa, cada fantasma devolve uma pergunta.
Dalrymple
não procura decifrá‑los; limita‑se a escutar. E essa escuta, feita de passos
lentos e observação paciente, revela uma verdade que não é exclusiva da Índia:
todas as cidades são palimpsestos, todas escondem ocupações anteriores, todas
carregam fantasmas que não precisam de ser reais para serem significativos.
A
história, quando se acumula, transforma o espaço em arquivo. E o arquivo,
quando é lido com atenção, devolve sempre mais do que se esperava.
A música
contemporânea é pouco sedutora na renúncia aos modelos de repetição que o
Barroco inaugurou e Beethoven e Ravel sofisticaram, ao fazerem da repetição de
um motivo mais do que uma redundância: uma respiração.
A
dodecafonia, na sua lógica, pede compreensão racional, exige que o ouvido
aceite a ausência de centro tonal, e reconheça a intenção sem suscitar o
prazer. A razão consegue segui‑la; a emoção, menos.
O
problema não está na inovação, mas na perda de um eixo. A repetição barroca, no
seu desenho circular, cria expectativa, prepara o ouvido para o reencontro.
Beethoven transforma essa estrutura em tensão, Ravel em vertigem.
A música
contemporânea, ao recusar esse mecanismo, liberta‑se da tradição, mas também afasta-se
daquilo que permitia ao ouvinte entrar sem pedir licença. A inteligência
reconhece o gesto; a sensibilidade procura o que já lá não está.
A
dodecafonia é uma arquitetura: tem rigor, método, ausência de ornamento. Mas a
emoção não se alimenta de rigor. Alimenta‑se de repetição, de reconhecimento,
de pequenas permanências. A música que abdica desses elementos pode ser
admirada, mas dificilmente é habitada. E a diferença entre a admiração e
habitação é o que separa a razão da magia.
A sedução
musical, quando existe, não precisa de explicação. A ausência dela, mesmo
quando compreendida, não se resolve com análise.
A ficção
científica carrega sempre esta ambiguidade: alguns dos seus autores revelam
simpatias políticas duvidosas, outros enveredam por crenças que roçam o
delírio, mas o género, enquanto construção literária, mantém uma lógica
antiautoritária que não depende das convicções pessoais de quem escreve.
Frank
Herbert acabou por inspirar a Cientologia, com toda a sua arquitetura de poder
espiritual e vigilância simbólica; Philip K. Dick deixou‑se enredar numa
paranoia antissoviética que contaminou parte da sua obra. Mas estes desvios não
anulam o que os livros, lidos com atenção, realmente fazem: desmontam sistemas
fechados, expõem mecanismos de controlo, revelam o que acontece quando o poder se
autonomiza.
A força
da ficção científica não está na biografia dos autores, está na estrutura dos
mundos que constroem. Herbert pode ter alimentado uma religião problemática,
mas Dune é, no essencial, uma crítica à fusão entre misticismo e poder
político, uma análise da manipulação das massas, uma demonstração de como a
autoridade se sustenta em mitos fabricados. Dick pode ter desconfiado
obsessivamente do bloco soviético, mas os seus romances mostram o perigo dos
monopólios, da vigilância, da erosão da realidade quando o poder decide
controlar a perceção. O autor pode falhar; o texto, quando é bom, não falha.
A ficção
científica clássica recorre ao autoritarismo porque o autoritarismo é o
laboratório ideal para observar o que a democracia tenta impedir: concentração
de poder, ausência de escrutínio, submissão tecnológica, manipulação da
memória. Os impérios, as hierarquias, as distopias não são celebrações — são
advertências. Mesmo quando o autor não tem consciência plena disso, a narrativa
expõe o risco. A imaginação, ao exagerar, revela.
É por
isso que a lógica antiautoritária do género permanece intacta. Não depende da
pureza ideológica dos escritores, mas da função crítica das histórias. A ficção
científica, quando projeta futuros sombrios, não está a normalizar o
autoritarismo; está a mostrar o que acontece quando ele vence. E essa
demonstração, repetida ao longo de décadas, é o que mantém o género politicamente
relevante.
A
biografia pode ser falível. A imaginação, quando trabalha bem, não é.
Há uma
tentação que este filme evita com uma disciplina eficaz: a de transformar o
olhar infantil em filtro protetor, em véu que poupa o espectador ao que há de
mais duro no mundo dos adultos.
Hou
Hsiao-Hsien faz exatamente o contrário. Usa o ponto de vista de Tung-tung e
Ting-ting não para atenuar a violência que atravessa aquele verão rural, mas
para a tornar mais perturbadora — porque chega às crianças fragmentada, mal
compreendida, entrevista por trás de portas ou ouvida em conversas de adultos
que baixam a voz sem baixar o suficiente.
O
espectador sabe mais do que as crianças sabem, e é nesse desfasamento que
reside a verdadeira crueldade do filme: assistimos ao momento exato em que a
infância começa a perceber que o mundo tem um andar de baixo que os adultos
preferem não nomear.
A
construção serve inteiramente este propósito. Os planos fixos, a câmara que
observa a uma distância quase entomológica, sem panorâmicas explicativas nem
grandes planos que dirigissem a emoção — essa contenção que se aproxima tanto
de Ozu quanto de uma certa tradição documental — não é assinatura estética, mas
a tradução formal do ponto de vista infantil: a criança não interpreta o que
vê, regista-o. Não hierarquiza os acontecimentos segundo a sua gravidade moral
— a brincadeira com os primos, a descoberta tímida do pudor perante o corpo do
outro, o tio detido pela polícia por furto e a violação da mulher com
deficiência mental convivem no mesmo plano de importância aparente, porque para
uma criança de dez anos ainda não existe hierarquia entre o trivial e o
trágico. Tudo é, por igual, matéria de observação.
É essa
equivalência que torna o filme devastador na sua discrição. A violação da
indigente, em particular, é filmada — ou melhor, quase não é filmada — com um
pudor que é também uma forma de denúncia: Hou não precisa de mostrar o ato para
que o horror exista, basta-lhe mostrar a comunidade que o rodeia sem impedir,
os homens que riem, a mulher que grita e cuja loucura serve de álibi coletivo
para que ninguém se sinta responsável. É um retrato do mundo rural taiwanês
que, sob a superfície nostálgica de tardes de verão, bicicletas e cigarras, dá
a conhecer uma estrutura de poder muito precisa: a de uma comunidade patriarcal
que tolera a violência contra quem não tem meios de se defender — seja pela
pobreza, pela doença mental, pela pouca idade — e que confia no silêncio como
forma de autopreservação.
O avô,
médico e figura de autoridade moral da região, ocupa um lugar ambíguo nessa
estrutura. É ele quem trata os corpos doentes, quem os vizinhos procuram, quem
parece encarnar uma forma de ordem e de cuidado — mas é também, precisamente
por essa autoridade, alguém que pertence ao mesmo sistema que permite ao tio
ladrão ser uma vergonha familiar a gerir discretamente do que um problema
social a enfrentar, e que permite a violação da mulher indigente passar quase
sem consequência.
Não há,
da parte de Hou, uma acusação direta ao avô, mas uma lucidez sobre como a
bondade pessoal e a integração num sistema de silêncios coletivos podem
coexistir sem contradição aparente.
A
nostalgia que o filme evidentemente convoca — e que o título em português
sublinha, essa casa do avô que é também arquétipo de infância perdida — nunca
funciona como sentimentalismo redutor. É antes uma nostalgia consciente da sua
própria cegueira: o adulto em que Hou Hsiao-Hsien se tornou olha para aquele
verão sabendo já o que as crianças que ele filma ainda não sabem, e é esse
saber retrospetivo que dá ao filme a dupla temperatura — quente na textura
sensorial da memória, fria na lucidez com que reconhece o que essa memória
tentava, sem êxito completo, manter de fora.
No
prefácio ao primeiro volume da Fundação, Jaime Nogueira Pinto afirma,
com evidente satisfação, que na ficção científica clássica não surgem
democracias, apenas regimes autoritários, como se a imaginação do futuro
confirmasse a tese de que o poder concentrado é norma e a democracia exceção. A
frase pretende ser constatação, mas é enviesamento: confunde cenário narrativo
com diagnóstico histórico, e sobretudo ignora que muitos desses mundos
autoritários existem precisamente para denunciar o que acontece quando a
democracia falha.
A ficção
científica não descreve inevitabilidades, mas advertências. Os impérios de
Asimov, as hierarquias rígidas de Herbert, as corporações totalitárias de
Philip K. Dick, os sistemas de vigilância de Bradbury ou Orwell não são
celebrações do autoritarismo — são críticas. São construções que mostram o que
acontece quando o poder se autonomiza, quando a tecnologia se transforma em
instrumento de controlo, quando a política abdica da responsabilidade e entrega
o futuro à eficiência sem escrutínio. O autoritarismo aparece porque é ameaça,
não porque é destino.
Além
disso, a tese ignora que a ficção científica sempre imaginou formas
alternativas de organização democrática, mesmo quando não lhes dá o nome
explícito. As federações cooperativas de Ursula K. Le Guin, os modelos
comunitários de Kim Stanley Robinson, as sociedades pós‑escassez de Iain M.
Banks, os sistemas deliberativos de Octavia Butler — todos estes universos
trabalham a ideia de democracia expandida, experimental, adaptada a escalas que
o presente ainda não consegue sustentar. Não são aberrações; são
possibilidades.
O
equívoco nasce de uma leitura que confunde cenário com desejo. O facto de
muitos autores escolherem mundos autoritários não significa que os considerem
naturais; significa que os consideram perigosos. A ficção científica, quando é
séria, não projeta o futuro como fatalidade, mas como aviso. E o aviso, quase
sempre, é o mesmo: quando a democracia é desvalorizada, o autoritarismo ocupa o
espaço.
A tese de
Nogueira Pinto não descreve a ficção científica; descreve apenas a sua própria
preferência política.
Há uma
genealogia que se apaga quando se fala de Villeneuve e dos orçamentos siderais,
do autor contratado por estúdios que o tratam como garantia de qualidade dentro
de uma lógica puramente industrial.
Antes de
ser essa marca, Villeneuve foi outra coisa: um cineasta quebequense que, nos
seus dois primeiros longas, Un 32 août sur terre (1998) e Maelström
(2000), procurava sobretudo uma linguagem — o acaso, a fábula, a voz off
que intervém e comenta, uma certa desconfiança perante o realismo direto. Eram
filmes de formação, mais preocupados com o existencial e o formal do que com
qualquer leitura do mundo social.
Entre Maelström
e o regresso de 2008 há um vazio de oito anos que a maior parte das cronologias
do cineasta atravessa em duas linhas, como se não merecesse delonga. É um
silêncio incómodo para quem gosta de reconstituir trajetórias como sequências
causais, cada filme a preparar o seguinte — porque aqui não há filme nenhum a
preparar coisa alguma. Há apenas a informação, escassa e quase pudica, de que
Villeneuve afastou-se para fazer publicidade e estudar o ofício, e o fez,
segundo a formulação que sobrevive, para "recentrar a sua vida".
Não há
grande utilidade em especular sobre o que essa frase esconde. Mas há um facto
que a acompanha e talvez diga mais do que qualquer biografia detalhada: quando
Villeneuve regressa, já não é o mesmo tipo de cineasta que partiu. Até Maelström,
tinha escrito e realizado tudo o que fizera — da conceção ao plano. Quando
volta, em 2008, é para dirigir argumentos escritos por outros.
A pausa
não separa apenas dois períodos cronológicos — separa duas formas de autoria. O
jovem cineasta que efabulava sobre si próprio cede lugar a um realizador que
aceita pôr o seu olhar ao serviço de matéria alheia, e é precisamente essa
disponibilidade que lhe permitirá, mais tarde, adaptar Mouawad em Incendies
sem que isso pareça uma traição a um projeto autoral.
Há ainda
um pormenor que a cronologia oficial regista quase em rodapé: a curta-metragem Next
Floor nasceu como interrupção dentro da própria rodagem de Polytechnique
— não como prenúncio, mas como escape simultâneo. Os dois filmes do regresso
não se sucederam um ao outro; foram gerados lado a lado, no mesmo fôlego de
retoma.
Next
Floor (2008)
é o momento em que Villeneuve deixa de pensar sobre o indivíduo perdido para o
fazer sobre a sua classe de pertença. A imagem central — um banquete burguês
que colapsa literalmente sob o seu próprio peso enquanto os comensais continuam
a devorar — é de uma literalidade quase brechtiana: o capitalismo como
voracidade que se autodestrói, mas arrasta consigo os que dele dependem para
servir. Não há subtileza a proteger a metáfora, e essa é, precisamente, a força
do filme.
Polytechnique (2009), no ano seguinte, parece à
primeira vista pertencer a outro registo — o do drama baseado em factos, a
reconstituição do massacre de 1989 na École Polytechnique de Montreal. Mas a
escolha formal é reveladora: o preto e branco, a fragmentação dos pontos de
vista, a recusa de qualquer psicologização fácil do assassino.
Villeneuve
filma um sistema, não um louco isolado — a violência de género como estrutura,
não como desvio — e fá-lo com um rigor que já não é o do fabulista de Maelström,
mas o de um cineasta que aprendeu a pôr a forma ao serviço de uma leitura
política do real, sem nunca degenerar em tese ilustrada.
É esse
duplo percurso que prepara o salto para Incendies (2010), adaptação da
peça de Wajdi Mouawad — a passagem do social quebequense para o trágico
universal, da alegoria de classe para a tragédia geopolítica. E há uma frase de
Éluard que ancora bem esta leitura: "nous vivons dans l'oubli de nos
métamorphoses", de pertinência quase cirúrgica, porque Incendies
é precisamente a história de um esquecimento forçado que se torna, ao ser
desfeito, o único caminho possível para a redenção.
Nawal
metamorfoseia-se várias vezes ao longo da narrativa — a jovem apaixonada, a
estudante, a militante, a prisioneira violada e torturada, a mãe sobrevivente,
a mulher silenciosa que, décadas depois, exige através de um testamento que os
filhos reconstituam o que ela nunca lhes contou.
Villeneuve
filma essa sucessão não como progressão psicológica, mas em camadas geológicas
— cada versão de Nawal soterrada sob a seguinte, até que os gémeos, ao
escavarem, não encontram uma verdade redentora, mas a mais terrível das
coincidências: que o torturador temido pela mãe e o filho que ela perdeu são a
mesma pessoa.
É aqui
que a recusa do maniqueísmo se torna o verdadeiro projeto ético do filme, e não
apenas uma opção estética. Um cinema menor teria construído Nihad como monstro
absoluto. Villeneuve e Mouawad fazem algo mais perturbador: mostram-no também
como vítima, uma criança arrancada à mãe, franco-atirador formado pela guerra e
depois em torturador, sem que isso o absolva, ainda que a história não permita
ao espectador o conforto de o expulsar para fora da humanidade comum.
O
fanatismo, no filme, não é a essência de certos indivíduos ou certa fação
religiosa — é aquilo que a guerra fabrica sistematicamente, dos dois lados de
qualquer fação, cristã ou muçulmana. Essa equivalência é o gesto mais
radicalmente ateu e progressista do filme: recusa-se a conceder a qualquer
identidade religiosa ou étnica o estatuto de vítima ou agressor moralmente
puro.
Uma
leitura complementar pode ainda extrair algo mais preciso: a ausência total de
qualquer instância transcendente capaz de dar sentido ao sofrimento de Nawal.
Não há Deus a explicar o inexplicável, providência a redimir o horror do parto
na prisão nem o incesto involuntário que a estrutura da tragédia impõe aos
gémeos.
A única
forma de redenção disponível é inteiramente humana e material: a verdade dita,
o silêncio quebrado, o gesto de Nawal de nomear, no fim da vida, aquilo que a
violência tinha reduzido ao silêncio.
É uma
redenção sem graça divina, conquistada por meios inteiramente seculares — a
escrita, o testemunho, a transmissão através dos filhos. E há, nessa
arquitetura, uma dimensão que uma leitura progressista não pode ignorar: é uma
mulher, e apenas uma mulher, que carrega o peso de toda a história, e é ela a
única personagem com agência moral suficiente para orquestrar, décadas depois,
a possibilidade de uma verdade reparadora.
Há uma
continuidade entre Polytechnique e Incendies que vale a pena
tornar explícita, porque não é apenas temática — é uma mesma tese sobre a
natureza da violência, aplicada a dois teatros distintos.
Em Polytechnique,
Villeneuve já recusava a explicação fácil do "lobo solitário": o
assassino de 1989 não era filmado como anomalia psicológica, mas sintoma de uma
misoginia estrutural que o precedia e que lhe sobreviveria, disseminada,
difusa, presente em cada gesto quotidiano de desprezo que o filme regista antes
do massacre. A câmara não procurava as razões íntimas do atirador; procurava o
tecido social que tornava o seu gesto pensável.
Incendies desloca essa mesma operação para a
escala da guerra civil e do conflito sectário, mas o método interpretativo é
rigorosamente o mesmo: recusar a personalização do mal.
Não há,
no filme, um vilão que explique a atrocidade — há uma engrenagem. A milícia que
massacra o autocarro de civis age por lógica de vingança tribal, não por
maldade individual; os combatentes que capturam e violam Nawal na prisão
fazem-no como prática sistemática de guerra, não como desvio pessoal de um
sádico isolado; e o próprio Nihad, transformado de criança arrancada à mãe em
franco-atirador e depois em torturador ao serviço da fação oposta, é a prova
mais devastadora da tese: a violência não nasce de um carácter, fabrica-se em
corpos ainda em formação, e pode reproduzir-se indiferentemente em qualquer
lado da linha sectária, consoante quem captura a criança primeiro.
É esta
simetria entre o atirador de Montreal e o menino-soldado do Médio Oriente que
dá à obra de Villeneuve, já antes de Incendies se tornar o seu título
mais aclamado, uma coerência de pensamento que ultrapassa a mera escolha de
temas fortes. Em ambos os casos, o cineasta filma a violência não como evento,
mas como estrutura que precede e excede os indivíduos que a executam — e é precisamente
por isso que nenhum dos dois filmes oferece catarse fácil. Não há em Polytechnique
um momento de justiça restaurada, como não há em Incendies um ajuste de
contas que feche a ferida: há apenas, nos dois casos, sobreviventes que têm de
continuar a viver dentro de um mundo que a violência sistémica deixou
irreversivelmente alterado.
O que
distingue Incendies, e o torna um avanço em relação a Polytechnique,
é que Villeneuve já não se limita a expor a estrutura da violência — arrisca
também mostrar a possibilidade, por mínima que seja, de a linguagem e o
testemunho a interromperem, ainda que apenas geração após geração, através da
transmissão de uma verdade que os filhos herdam e os obriga, finalmente, a
nomear o que os pais não puderam.
Um livro
e um filme – percorridos por estes dias! - mostram como a vida tantas vezes se
organiza em torno de promessas que não se cumprem.
Em O
Quarto de Giovanni, James Baldwin acompanha a travessia de um homem que
abandona os Estados Unidos para escapar ao racismo que o sufocava. Paris surge
como possibilidade de reinício, cidade onde a diferença poderia ser menos
punida. Mas a cidade devolve‑lhe o mesmo preconceito, apenas noutra forma, noutra
língua, noutra cortesia. A mudança de lugar não altera a estrutura que o
acompanha. O oceano, afinal, não é fronteira moral.
No filme On
Falling, de Leonor Carreira, a trajetória de Aurora repete esse desengano
noutra escala. A ida para a Escócia nasce da expectativa de uma vida mais
respirável, mas a precariedade instala‑se com a rapidez de quem não precisa de
pedir licença. Uma avaria no telemóvel transforma‑se em ameaça direta à
sobrevivência, porque o custo da reparação implica fome nos dias seguintes e
uma gestão financeira que se faz como quem equilibra o corpo sobre um fio. O
trabalho num armazém consome tudo: o tempo, o sono, a energia. Nada sobra para
o que não seja estritamente necessário.
Entre o
romance e o filme, a constatação é a mesma: a ideia de que mudar de lugar é
suficiente para mudar de vida raramente resiste ao primeiro embate com o real.
O preconceito viaja. A pobreza instala‑se onde houver brecha. A esperança,
quando não encontra estrutura que a sustente, transforma‑se em rotina exausta.
E o beco sem saída não é metáfora: é condição.
A arte,
quando se aproxima desta verdade, não oferece fuga. Oferece reconhecimento. E
esse reconhecimento, mesmo duro, é o que permite ver com alguma clareza o que
tantas vezes se prefere não enfrentar.
Há filmes
que a história do cinema engoliu e depois devolveu, e Soy Cuba é um dos
casos mais extraordinários desse fenómeno: rodado em 1964 por Mikhail
Kalatozov, coprodução soviético-cubana que celebrava a revolução de Castro, foi
ignorado à época por soviéticos e cubanos — demasiado experimental para uns,
demasiado estetizante para outros — e só ressurgiu nos anos 90, quando Coppola
e Scorsese o redescobriram e o relançaram.
Que Pedro
Borges o estreasse na sala do Ideal Paraíso é acontecimento digno da atenção para
os cinéfilos. Porque Soy Cuba é, antes de qualquer consideração política
ou histórica, um prodígio técnico que continua a suscitar discussão: como é que
Kalatozov e o seu diretor de fotografia Sergei Urusevsky criaram certos planos
sem os recursos que hoje os tornariam fáceis?
O plano
de abertura é o mais célebre — a câmara desce por um hotel de luxo, atravessa
uma piscina subaquática, emerge do outro lado e continua sem corte aparente.
Outro acompanha um cortejo fúnebre pelas ruas de Havana em travelling
contínuo, subindo e descendo edifícios com uma fluidez que desafia a física.
Numa época sem steadicam, drones, ou efeitos digitais, o que se vê é
trabalho humano levado ao limite — engenho puro, gruas improvisadas, operadores
de câmara pendurados em situações que hoje nenhum seguro cobriria.
Michael Cousins
referencia-o nos seus documentários sobre a história do cinema com a justiça
que merece: não como curiosidade histórica mas como obra que alargou o que era
possível imaginar dentro de um plano.
Em 1961 Godard
chegou a Berlim com Uma Mulher é uma Mulher, um filme a cores, em CinemaScope,
filmado num apartamento parisiense e nas ruas do bairro de Pigalle, e o júri da
Berlinale ficou surpreendido com a frescura e a inventividade de tudo aquilo —
dando-lhe o prémio que ajudava a consagrar a Nouvelle Vague como o
movimento mais estimulante do cinema europeu do momento.
A
pergunta que o próprio filme faz — tragédia ou comédia? — é a chave de leitura.
As personagens interrogam-se em voz alta, dirigem-se à câmara, interrompem a
ficção para a comentar, e Godard deixa a questão sem resposta porque ela não
importa tanto como o facto de a pergunta existir. O cinema clássico separava os
géneros; a Nouvelle Vague misturava-os até à indistinção.
Angela —
Anna Karina filmada em todas as cores, em grandes planos ou panorâmicas,
"infame" ou une femme conforme o ângulo — quer engravidar.
Emile não quer. A solução é fazer-lhe ciúmes com Alfred, que não a larga com
vontade de a conquistar. A história é simples na complexidade — porque o
triângulo é apenas a superfície, e o que o filme realmente filma é Angela a existir,
a mover-se, sendo olhada, respondendo ao olhar.
Karina e
Godard casariam pouco depois. O filme é também um homem a filmar a mulher de
quem está a apaixonar-se — e essa intimidade atravessa cada plano.
A
inteligência artificial tornou‑se presença constante, não pela novidade
técnica, mas pela velocidade com que se insinuou em todos os domínios, como se
o mundo tivesse decidido avançar sem perguntar se o avanço era sustentável.
No campo
científico, sobretudo na medicina, a aceleração é evidente: modelos capazes de
analisar milhões de combinações químicas em dias, prever interações, sugerir
moléculas, encurtar processos que antes exigiam anos. A promessa é real. A
possibilidade de encontrar soluções farmacêuticas para doenças persistentes
deixou de depender apenas da intuição dos laboratórios; depende agora da
capacidade de cálculo que nenhum humano poderia replicar.
Noutras
áreas, a produtividade cresce com a mesma rapidez. Certas atividades descobrem
que a automação não elimina apenas tarefas repetitivas, mas cria espaço para
funções que antes não existiam. Em alguns setores, surgem empregos novos,
especializados, ligados à supervisão, à curadoria, à interpretação dos
resultados que a máquina produz. Mas a maioria das atividades não tem essa
margem.
A
eficiência, quando se torna argumento absoluto, substitui pessoas. E a
substituição, mesmo quando inevitável, não deixa de produzir uma erosão
silenciosa no tecido social.
O lado
negativo não se esconde. A poluição sonora das infraestruturas, o consumo
desmesurado de água e energia, a necessidade de manter centros de dados que
funcionam como cidades subterrâneas, tudo isto compõe um custo que dificilmente
se concilia com a ideia de rentabilidade.
As
empresas que lideram o setor apresentam prejuízos sucessivos, números que não
se explicam apenas pela fase de investimento, mas pela própria escala do que
tentam sustentar. Fala‑se de bolha especulativa, e a palavra não é exagero: há
uma distância evidente entre o valor bolsista e a realidade material das
operações.
A
inteligência artificial vive neste paradoxo: promessa científica
extraordinária, impacto económico ambíguo, custo ambiental difícil de
justificar. A tecnologia avança, mas o mundo que a suporta hesita. E essa
hesitação não é conservadorismo; é apenas a consciência de que nenhum salto é
gratuito.
O cinema
tem uma relação incómoda com a representação das classes. Ettore Scola mostrou
os de baixo feios, porcos e maus — e ficou a dever uma explicação. O coreano
Bong Joon-ho, em Parasitas, deu-os habilidosos e sem escrúpulos,
enquanto os ricos eram apenas ingénuos — e também ficou a dever.
Karim
Aïnouz em Rosebush Pruning inverte o ângulo: aqui são os ricos a não
terem valores, a não ser o da cupidez e o da preservação dos privilégios.
A família
privilegiada que o filme retrata é bela, malcriada e gananciosa — e Aïnouz não
lhes concede a ingenuidade que Bong Joon-ho oferecia aos seus. São conscientes
do que são e do que fazem, o que os torna mais perturbadores e menos
simpáticos. A denúncia é clara e o realizador brasileiro não a disfarça.
Fica,
porém, a questão a que o filme não responde inteiramente: para além da
denúncia, o que tem este retrato a dizer-nos neste momento?
A crítica
aos ricos sem escrúpulos é um tema tão antigo como o cinema social, e a
eficácia de um filme sobre ela mede-se não pela justeza da acusação — que aqui
é inquestionável — mas pela complexidade com que a desenvolve. Personagens
reduzidas à sua função de classe, sejam ricas ou pobres, tendem a confirmar o
que o espectador já sabia antes de entrar na sala.
O melhor
cinema de denúncia não nos dá razão — perturba-nos.
Não é dos
títulos mais representativos da obra de João Botelho, mas “Aqui na Terra” dá-nos
algo que vale por si: o reencontro com Pedro Hestnes, um dos rostos mais
injustamente esquecidos do cinema português.
Há atores
que o cinema absorve e depois larga sem explicação, e Hestnes é um desses casos
— presença magnética, contenção expressiva, aquela qualidade rara de habitar o
plano sem o solicitar.
O filme
conta duas histórias em contraponto. Na paisagem beirã, um jovem casal vê o
anseio de felicidade dificultado por um crime e pela consequente expiação — uma
narrativa de culpa e redenção filmada com o rigor formal que Botelho nunca
abandona, mesmo quando o argumento hesita.
Na
cidade, Luís Miguel Cintra oferece a habitual qualidade de quem nunca desilude,
fazendo render ao máximo uma personagem perturbada pela morte do pai de um modo
que o filme não explica inteiramente.
É aí que
o filme desarticula em ambas as direções: por que razão um administrador de
empresas fica tão transtornado pela morte paterna? Porque há-de o casal do
campo passar por tão grandes trabalhos para conquistar o direito à felicidade?
Botelho
propõe sem demonstrar, e há momentos em que a elipse é mistério e outros em que
é simplesmente lacuna.
E fica
ainda Inês de Medeiros, fazendo prova de competência cinematográfica que poderia
ter consolidado se não enveredasse pelo percurso político.
O
primeiro volume das Histórias da Pide, de José Pedro Castanheira,
devolve ao presente o período em que Salazar mandava sem contestação, e a
leitura ganha peso numa altura em que há quem suspire pela ditadura como quem
suspira por uma ordem perdida, esquecendo sustentar-se essa ordem na violência
metódica de uma polícia política que não hesitava em transformar suspeita em
culpa e culpa em sentença.
O livro
não dramatiza; expõe. E essa exposição basta para desmontar qualquer nostalgia.
Alguns
episódios são conhecidos, como o assassinato de Humberto Delgado, que permanece
como ferida aberta na memória democrática. Outros surgem com a estranheza do
improvável, como a noite em que Agostinho Lourenço decidiu prender Calouste
Gulbenkian na António Maria Cardoso, gesto de birra que quase fez a fortuna do
milionário arménio abandonar o país.
A
arbitrariedade não era exceção; era método. E este traduziu-se em números que
não se diluem: quase trinta mil interrogados, torturados ou mortos só no
continente, vidas esmagadas por uma máquina que se alimentava da ideia de que se
protege o Estado perseguindo.
A
importância deste tipo de livro cresce quando a memória pública começa a
falhar. Não porque falte informação, mas porque falta atenção.
A
ditadura regressa sempre primeiro como fantasia: a promessa de disciplina, de
estabilidade, de silêncio. Castanheira mostra o que esse silêncio custava, o
que significava viver num país onde a polícia política não era rumor, era
presença. E lembra que Spínola, no dia seguinte ao 25 de Abril, ainda tentou
manter essa estrutura, convencido de que a repressão podia sobreviver à
Revolução.
Não
sobreviveu. O ódio popular era demasiado fundo, antigo e justo.
A leitura
devolve proporção ao debate contemporâneo. Não há ditadura benigna, não há
repressão pedagógica, não há nostalgia inocente. Há apenas esquecimento — e o
esquecimento é sempre o primeiro passo para a repetição.
Os
Balouch têm um provérbio que reduz a existência ao essencial: nascer, vaguear,
morrer, apodrecer e ser esquecido. A frase não pede interpretação, não oferece
consolo, não promete continuidade; limita‑se a enunciar o percurso com a
sobriedade de quem conhece a terra, o tempo e a erosão que ambos exercem sobre
tudo o que vive. Há nesta síntese uma lucidez que não precisa de metafísica,
porque não procura sentido fora do que acontece, e talvez seja isso que a torna
tão desconfortável para quem acredita que a vida exige prolongamento para ser
suportável.
O
paradoxo está na origem: um povo considerado primitivo formula uma visão que
desmonta, com uma linha, a arquitetura elaborada das religiões que prometem
vários modelos de Além. A simplicidade do provérbio não é ignorância; é recusa
de fantasia. A ideia de que a morte é apenas fim, e não passagem, contraria
séculos de construção simbólica que tentaram transformar o desaparecimento em
trânsito, como se a finitude fosse defeito e não condição.
A soberba
do ateísmo, se existe, nasce deste confronto. Não é superioridade moral, é
apenas a convicção de que a vida não precisa de ser prolongada para ser
compreendida. A metafísica oferece continuidade porque teme o vazio; o
provérbio Balouch aceita o vazio como parte do ciclo. A diferença é de postura:
uns procuram eternidade, outros aceitam dissolução. E nessa aceitação há uma
forma de inteligência que não depende de livros sagrados, apenas de observação.
A
existência, reduzida a estes cinco verbos, ganha uma clareza que dispensa
consolo. Talvez por isso incomode. Talvez por isso permaneça.
Godard
partia de uma convicção que poucos realizadores tiveram a coragem de levar até
às últimas consequências: o cinema não serve para contar histórias, mas para
pensar. Cada imagem é um pensamento, cada corte uma articulação lógica ou
ilógica entre dois pensamentos, e o espectador que espera narrativa encontra
filosofia, o que é simultaneamente uma exigência e uma libertação.
Valha-me
Deus começa
com um conto hassídico que diz tudo sobre o que Godard entendia ser a condição
da cultura moderna: o pai do pai do pai sabia acender o fogo sagrado, conhecia
o lugar na floresta e a oração. O filho do filho do filho já só conhece a
história — e conta-a. É a perda em cascata do conhecimento ritual, da diferença
que tornava cada gesto único, até restar apenas a narrativa sem o ato.
Godard
via o cinema da mesma forma: cada geração afastando-se mais do momento em que a
imagem e o pensamento eram a mesma coisa.
Há neste
filme, como em toda a obra tardia de Godard, uma filiação no Primeiro
Romantismo — essa tradição que recusava a separação entre arte, filosofia e
política, que via na forma estética uma via de conhecimento que a razão pura
não alcançava. Novalis, Schlegel, Hölderlin — Godard lia-os e filmava-os sem o
declarar.
E há a
empatia constante com os vencidos — a Palestina, os povos sem Estado, os que a
história oficial apaga. Godard nunca filmou do lado do poder. Era uma posição
incómoda e coerente, como toda a sua obra.
Na
Etiópia dos anos 30 surgiu o primeiro sinal de que a Europa caminhava para um
abismo que ainda não sabia nomear. A invasão ordenada por Mussolini funciona como
ensaio geral da violência perpetrada pela arrogância imperial de quem confiava
na superioridade das armas e na fragilidade dos povos que pretendia subjugar,
como se a força pudesse substituir a legitimidade e a conquista pudesse
disfarçar a decadência interna de um regime que só respirava graças à
propaganda.
Antes da
Guerra Civil de Espanha e da marcha para a catástrofe global, a Etiópia tornou‑se
o laboratório de uma ideologia que precisava de provar a si própria que podia
dominar, e é essa necessidade de demonstração que revela o mecanismo íntimo dos
fascismos — a convicção de que o mundo se dobra perante quem o ameaça, os
recursos dos outros são matéria disponível, e a violência é argumento
suficiente para justificar qualquer ambição.
A
comunidade internacional hesitou, como se a distância geográfica pudesse
justificar a da moral, e ela ecoa no presente, quando regimes que se julgam
militarmente inquebrantáveis repetem o mesmo padrão: escolher alvos que
consideram mais fracos, explorar recursos que não lhes pertencem, transformar
fronteiras em pretextos, e tudo isto sob a mesma retórica de inevitabilidade
que já ouvimos antes, como se a história não tivesse deixado provas suficientes
do que acontece quando a força se torna método.
A ambição
territorial continua a vestir-se de discursos de proteção, de tradição, de
destino, e o verdadeiro ponto de viragem não foi apenas a invasão da Etiópia,
mas a incapacidade de reconhecer que aquele gesto anunciava uma lógica que não
se esgotaria ali, e que regressa sempre que o poder se convence de que a
fragilidade dos outros é oportunidade e não alerta.
Revisitar
este episódio da História não é exercício de memória, é exercício de
vigilância: perceber como ela se repete quando não é lida com atenção, os
sinais surgem antes das tragédias a violência começa sempre por testar limites,
e a indiferença é, muitas vezes, o primeiro aliado dos que acreditam que podem
dobrar o mundo à força.
Há
críticos que informam e há críticos que convencem — e a distinção não é menor.
José Vieira Mendes pertence ao segundo grupo, que é o mais raro, e é por isso
que a sua crítica na Visão sobre Dia D — Sob Pressão, de Anthony
Maras, me fez ganhar interesse por um filme que, a priori, consideraria mais do
mesmo sobre o desembarque na Normandia, um momento que o cinema americano já
tratou tantas vezes que a novidade parecia improvável.
O que
Vieira Mendes faz — e é o sinal dos críticos que muito prezo — não é alinhar
informações sobre a produção e a forma como ela se traduziu no ecrã. É elencar
argumentos que tornam aliciante a descoberta. Ao enfatizar o lado de thriller
meteorológico, desloca o filme do território do épico bélico para outro
registo: o da decisão tomada sob pressão de tempo, de informação incompleta e
de condições atmosféricas que podiam desfazer tudo. Eisenhower a aguardar uma
janela de tempo favorável enquanto milhares de vidas dependiam da leitura
correta de um céu instável — há aí uma tensão que nenhuma batalha filmada
consegue igualar, porque é a tensão do momento anterior, quando tudo ainda pode
não acontecer.
É o tipo
de ângulo que transforma um tema gasto numa entrada nova. E é o tipo de crítica
que cumpre a sua função mais nobre: não substituir a experiência do filme, mas
torná-la necessária.
Volto aos
documentários de Jacinto Godinho sobre Os Últimos Dias da Pide, não pela
nostalgia de um tempo que não merece regresso, mas pela precisão com que expõem
o intervalo entre o desmoronar de um regime e a tentativa imediata de o
recompor, como se a história tivesse deixado uma fresta aberta por onde pudesse
entrar, de novo, a velha sombra. É nela que se percebe o gesto calculado de
Spínola, atento ao cansaço dos que tinham conduzido a Revolução e convencido de
que o dia seguinte lhe oferecia terreno para reinstalar, com outra máscara, a
mesma arquitetura de poder.
Essa
ambição revela-se no detalhe: a nomeação apressada de um novo diretor para a
Pide, a crença de que a máquina repressiva podia sobreviver ao colapso
político, a ilusão de que bastaria substituir Silva Pais para que o edifício se
mantivesse de pé, e esta tentativa de continuidade diz mais sobre o instinto
autoritário do que sobre qualquer estratégia, porque pressupunha que o país,
exausto mas atento, aceitaria a reciclagem da violência desde que embrulhada
numa retórica de ordem.
Houve
então a reação imediata dos capitães de Abril como reflexo de lucidez:
perceberam que a sobrevivência da Pide significaria a sobrevivência da noite, e
que permitir-lhe a reconfiguração equivaleria a aceitar que a Revolução fosse
apenas um parêntesis. É essa consciência que impede e desmonta o plano, força
Spínola a recuar, primeiro no discurso, depois no próprio país, até à fuga para
Espanha que sela o fracasso do golpe que imaginara como continuação natural do
poder.
Este
episódio muito importa na memória democrática: não apenas significou o fim
formal da polícia política, mas o da sua respiração subterrânea, da capacidade
de infiltrar o quotidiano, de transformar o medo em método, e talvez seja por
isso que estes documentários continuam a ser necessários, porque lembram que a
liberdade não se consolida por decreto, mas por vigilância crítica, e que cada
tentativa de regressão começa sempre com a promessa de que nada mudará
demasiado.
Revisitar
estes dias não é exercício histórico, mas de atenção atenção: perceber como o
autoritarismo tenta sempre sobreviver ao seu próprio colapso, como procura
brechas, se disfarça, espera, e depende, sobretudo, da distração dos que
acreditam que a democracia está garantida.