Uma carta
de publicidade anuncia a Woody Grant que ganhou um milhão de dólares. Qualquer
pessoa reconhece o truque — letras grandes, letras pequenas, a promessa que é
só um convite a comprar assinaturas de revistas.
Woody não
reconhece. Tem a idade em que a cabeça começa a falhar, bebe há décadas, e
decide ir a pé de Billings, no Montana, até Lincoln, no Nebraska, reclamar o
prémio. Não há maneira de o demover. O filho mais novo, David, acaba por
levá-lo de carro, contra a vontade da mãe, que preferia ver o marido num lar. É
o ponto de partida de Nebraska, que Alexander Payne realizou em 2013 e
que a Arte me fez hoje recordar.
Os filmes
de Payne raramente ficam na memória. São competentes, bem escritos, um pouco
mornos — o tipo de cinema que se vê com agrado e se esquece com igual
facilidade. Nebraska é o seu filme mais singular, e por duas razões que
merecem que se volte a ele: o preto e branco, e Bruce Dern.
Payne
insistiu no preto e branco, e a escolha não é capricho de cinéfilo. A
fotografia de Phedon Papamichael estende as planícies do Midwest num cinzento
sem fim, campos rasos, céus vazios, vilas de uma rua só onde nada parece ter
mudado desde os anos cinquenta. A ausência de cor retira à paisagem qualquer
apelo turístico. Não há aqui a América dos postais, há uma América gasta,
desbotada, como uma fotografia antiga de família que ninguém pendura na parede.
O formato largo acentua o vazio: muito horizonte, pouca gente. O preto e branco
não serve a nostalgia; serve o diagnóstico. Aquele mundo já perdeu a cor.
E depois
há Dern, que recebeu em Cannes o prémio de interpretação e o mereceu inteiro. O
seu Woody quase não fala, arrasta os pés, olha para longe com uns olhos onde
não se sabe se há confusão ou obstinação. Dern não pede simpatia para a
personagem e não a caricatura. Mostra um homem que já perdeu muito — a lucidez,
a autoridade, o respeito da mulher — e que se agarra ao último projeto que lhe
resta com a teimosia de quem sabe, algures, que é o último. O que quer fazer
com o dinheiro? Comprar uma carrinha nova e um compressor de ar, que lhe
roubaram há anos. É tudo. O milhão de dólares não é ambição, é reparação: a
vontade de deixar alguma coisa, de ser alguém, antes do fim.
A viagem
leva pai e filho a Hawthorne, a terra natal de Woody, onde a família se reúne.
E é aí que o filme mostra o que vale. A notícia do prémio espalha-se, e o velho
esquecido torna-se de repente uma celebridade local. Os parentes que não o
visitavam há anos lembram-se de dívidas antigas. O antigo sócio, a quem Stacy
Keach dá uma cordialidade ameaçadora, reclama a sua parte. Os primos sentados
no sofá, a ver televisão em silêncio, ganham interesse súbito. Payne filma esta
ganância com uma comédia seca, quase cruel, e o retrato é implacável: uma
comunidade que não tem nada para fazer, nada para esperar, e que vê no milhão
imaginário de um velho a única oportunidade que lhe passou à porta em anos.
É aqui
que o filme diz mais do que talvez quisesse dizer. Nebraska estreou em
2013, cinco anos depois da crise financeira e três antes da primeira eleição de
Trump.
Vista
hoje, aquela América interior — envelhecida, despovoada, sem trabalho e sem
futuro, esquecida pelas costas ricas do país — é exatamente a que haveria de
mudar a política americana.
Payne não
fez um filme político. Fez o retrato de um ressentimento antes de este ter
encontrado quem o explorasse. Os homens sentados no bar de Hawthorne, que
acreditam num prémio que não existe porque não têm mais nada em que acreditar,
são os mesmos a quem pouco depois se prometeria devolver a grandeza perdida. A
carta da lotaria e a promessa política têm a mesma gramática: letras grandes,
um milhão para cada um, e as letras pequenas que ninguém lê.
A própria
carta, aliás, é uma pequena acusação. O negócio das falsas lotarias vive de
velhos confusos e de gente sem esperança, e o filme mostra-o sem sermão: em
Lincoln, quando finalmente chegam ao escritório, uma funcionária indiferente
verifica o número, confirma que Woody não ganhou nada e oferece-lhe um boné
onde se lê que é um vencedor. É o capitalismo na sua forma mais mesquinha — nem
sequer a exploração do trabalho, apenas a exploração da esperança, e o consolo
de um brinde.
Mas o
filme não acaba na humilhação. David, o filho, que passou a viagem a descobrir
quem foi o pai — o veterano da Coreia, o homem que emprestava dinheiro a quem
lho pedia e nunca o via de volta, o marido de uma mulher que o desprezava e o
defendia ao mesmo tempo —, faz o único gesto que o pai pode receber. Troca o
carro por uma carrinha, compra um compressor, e deixa Woody conduzir pela rua
principal de Hawthorne, devagar, diante dos que se riram dele. O filho
esconde-se no banco, para que o pai pareça sozinho ao volante. Os vizinhos veem
passar o vencedor.
É uma
mentira, claro. Mas é o reverso exato da carta do início. A carta mentia para
tirar; o filho mente para dar. Uma é a ficção do mercado, que promete tudo e
não entrega nada; a outra é a ficção do afeto, que não promete nada e entrega o
que pode. O filme termina nesse contraste, sem sublinhado, e é aí que Payne,
habitualmente morno, encontra uma emoção verdadeira.
June
Squibb, interpretando a mulher de Woody, merece uma nota antes de terminar. A
sua Kate é desbocada, impiedosa, capaz de dizer as piores coisas do marido e
dos mortos no cemitério da terra — e de enfrentar, sem hesitar, os parentes que
o tentam explorar. É ela quem queria o lar, e é ela quem o defende. A
contradição não é defeito de escrita. É o casamento longo, com todo o desgaste
e toda a lealdade que ele acumula, e que nenhum dos dois saberia explicar.
Nebraska não muda a opinião que tenho do
cinema de Payne. Mas tem um velho a conduzir uma carrinha numa rua vazia, a
cinzento, e um filho escondido a olhar para ele. Há filmes inteiros que não
chegam a um plano assim.













