Há filmes
de cuja existência se sabe há décadas e se leva quase uma vida para o ver. Sete
Vezes Mulher foi um desses para mim — quase sessenta anos a saber que
existia antes de finalmente lhe dedicar a noite. O resultado não foi
entusiasmo, apesar do argumento de Zavattini e de tantos atores e atrizes a
contracenarem com a hiperpresente Shirley MacLaine.
Sabe-se o
quanto foi complicado para De Sica gerir obra decente a partir do momento em
que o vício do jogo o levou várias vezes à falência, obrigando-o a projetos
apressados e sem verdadeiro empenho — embora o talento nunca deixasse de se
manifestar em pequenos apontamentos, mesmo nos filmes menores. Este é um desses
casos: o talento está lá, disperso, incapaz de se organizar numa obra coerente.
MacLaine
em sete papéis para explicitar outros tantos estereótipos de mulher, tais quais
se imaginavam antes de maio de 1968, não escapa à tentação do overacting
em alguns deles — como se sentisse precisar de compensar a exiguidade de cada
episódio com um excesso de presença. Os comparsas de cada história parecem, por
seu lado, enfadados com o papel menor que lhes calhou, e isso transparece.
Não dou o
tempo por mal gasto — aprende-se sempre alguma coisa com os filmes menos bons,
e até nos maus filmes. Mas também nada perdi na minha cinefilia por só o ter
visto agora. Há filmes que a vida adia com justiça.
Ouço
Alexandre Delgado a explicar a Nona de Shostakovich com a insistência em
sublinhar a dissociação do compositor em relação ao estalinismo, como se cada
análise tivesse de reafirmar a tensão entre o artista e o regime, e noto como
essa preocupação, embora legítima, acaba por criar uma espécie de filtro
ideológico que condiciona a escuta, como se a música precisasse de ser
protegida da sombra política que a rodeou.
Percebo o
saber do musicólogo, a precisão com que lê a partitura, a atenção aos detalhes
que revelam ironia, contenção, sarcasmo, mas também percebo como essa leitura
parece prisioneira de um preconceito antigo: a ideia de que Shostakovich só
pode ser compreendido se o imaginarmos em permanente confronto com Estaline,
como se o facto de ser celebrado pelo regime anulasse a complexidade da sua
obra ou a ambiguidade da sua posição.
Por mim,
gosto de toda a música de Shostakovich, da grandeza da Sétima à secura
calculada da Nona, e não vejo contradição em reconhecer que Estaline o prezava,
mesmo quando rejeitava a Lady Macbeth ou desconfiava das sinfonias que
se seguiram.
Há
ditadores que não leem, que não escutam, que não compreendem o valor simbólico
da arte; Estaline, com a sua biblioteca vasta, lia, e essa leitura, embora não
o redima, ajuda a explicar a relação ambivalente que manteve com o compositor.
É isso
que me interessa: a coexistência de admiração e censura, de poder e
fragilidade, de criação e vigilância, porque essa tensão não diminui
Shostakovich, antes ilumina a coragem silenciosa com que escreveu, sabendo que
cada nota podia ser interpretada como gesto político, mas recusando transformar
a música em manifesto.
Termino
com a sensação de que a obra resiste a todas as leituras ideológicas, e que o
verdadeiro desafio não é libertá‑la de Estaline, mas libertar‑nos da
necessidade de explicar tudo através dele.
Há sinais
que anunciam o fim antes de ele chegar, e talvez seja isso que agora paira
sobre o Festival Internacional de Teatro de Almada, como já aconteceu com os
Dias da Música no CCB, que desapareceram sem grande alarme público, embora
fosse um dos raros momentos em que a Grande Lisboa respirava cultura com
alegria, e a música fosse capaz de suspender por instantes a rotina e devolver
alguma ordem interior.
Ouço
Rodrigo Francisco explicar que os preços dos hotéis, das viagens, dos
transportes, dos equipamentos, dos cenários, subiram de tal forma que o
festival só sobreviverá com aumento significativo do subsídio, e percebo como
esta frase, tão simples, contém a radiografia de um país onde a cultura é
sempre a primeira vítima dos cortes, como se fosse luxo dispensável e não parte
essencial da saúde pública, que não se mede apenas em corpos, mas também em
imaginação.
Vivemos
num tempo em que tudo encarece menos o discurso político sobre a importância da
cultura, sempre tão generoso, tão inflamado, tão pronto a proclamar que sem
arte não há democracia, mas incapaz de transformar essa retórica em orçamento,
como se a cultura fosse entidade abstrata que se alimenta de declarações e não
de condições materiais para existir.
Vejo o
festival ameaçado pela mesma lógica que levou outros eventos ao
desaparecimento: a soma de custos que ninguém quer assumir, a falta de visão
que impede pensar a longo prazo, a ideia de que o público se adapta a qualquer
perda, como se a ausência não deixasse marcas, como se a cidade não ficasse
mais pobre quando um palco se apaga.
Termino
com a sensação de que estes tempos difíceis para a cultura não são conjuntura,
são sintoma, e que o verdadeiro risco não é perder um festival, mas habituar‑nos
a perdê‑los sem protesto, como quem aceita que o silêncio é inevitável.
A fratura
entre memória e realidade ganha outra espessura quando penso nos vinte e quatro
anos passados no mar, porque ali a distância entre o que acontece e poderia ter
acontecido é sempre mínima, quase impercetível, e cada tempestade, cada
incêndio, cada explosão lembra que a sobrevivência não é metáfora, é cálculo
fino, é atenção absoluta, é essa adaptação de que Darwin nunca escreveu mas que
a vida marítima confirma a cada minuto.
Recordo
noites em que o casco tremia como organismo vivo, aço a protestar contra a
força das ondas, e percebo como a memória transforma esse medo em narrativa,
como se o corpo, ao revisitar o perigo, precisasse de lhe dar forma para o
poder suportar, mas a realidade desses instantes era outra: não havia
simbolismo, não havia épica, apenas o som da água a bater, o cheiro do óleo, a
vibração das máquinas, a consciência de que bastava um erro, um acaso, um gesto
tardio para acabar no fundo de um dos oceanos que percorri.
Penso
também nos incêndios, na rapidez com que o fogo se espalha num navio, na forma
como o calor distorce o metal, na urgência de conter o avanço antes que a
estrutura ceda, e noto como a memória suaviza esses episódios, como se lhes
retirasse a violência para os tornar transmissíveis, mas a realidade era sempre
mais crua, imediata, física, exigindo decisões que não admitiam hesitação.
As
explosões, essas, deixaram marcas mais silenciosas: o estrondo que primeiro se
ouve, o silêncio que se segue, o inventário rápido do que ainda funciona, do
que se perdeu, do que pode ser reparado, e é nesse intervalo que a fratura
entre memória e realidade se abre, porque a memória tende a organizar o caos, a
dar-lhe sequência, enquanto a realidade se apresenta como fragmento, como
choque, como interrupção.
Talvez
por isso o mar seja território onde a consciência se afina: porque obriga a
aceitar que a vida pode mudar num segundo, que a segurança é sempre provisória,
que a adaptação não é virtude, é condição. E ao revisitar esses anos, percebo
que a memória não corrige a realidade, apenas a torna habitável, permitindo que
o que poderia ter sido fim se transforme em matéria de reflexão.
No
podcast do Público sobre cinema, a propósito do ciclo que a Cinemateca
prepara sobre Truffaut, aventa-se a contraposição inevitável com Godard.
Reconhece-se a este a intemporalidade da obra, sem se querer por isso
subestimar a do antigo parceiro dos Cahiers du Cinéma, mesmo sabendo-o
por demais datado em comparação.
Confesso
não repetir aqui a lógica de exclusão que assumo noutros campos — a que me leva
a depreciar Lobo Antunes, Camus ou Vargas Llosa em favor de Saramago, Sartre ou
García Márquez, respetivamente. Com Godard e Truffaut, a régua não funciona da
mesma maneira.
Gosto
muito, mesmo muito, de Godard. Le Mépris e Alphaville merecem
lugar no meu top 20 pessoal destes sessenta e muitos anos de vida a ver filmes.
Mas alguns Truffaut — Jules et Jim, L'Enfant Sauvage, La Nuit
Américaine — encaixam facilmente no top 50, e continuo a gostar deles
sempre que os revisito, o que não acontece com tudo o que envelhece.
Muito
diferentes enquanto cineastas, Godard e Truffaut são-me complementares e não
concorrentes. Gosto de ser desafiado pela inteligência do primeiro — esse
cinema que pensa sobre si próprio enquanto se filma. Mas deixo-me sensibilizar
pelo lado romanesco do segundo, que nunca teve vergonha de contar histórias com
o coração à vista.
Talvez
seja essa a diferença entre admirar e amar. Com Godard admiro. Com Truffaut, às
vezes, amo.
A
história de Fogo do Vento regressa à infância como quem abre uma porta
que nunca se fechou totalmente, porque a imagem dos trabalhadores a subir às
árvores para escapar ao touro bravo não é apenas cena de filme, é memória de um
território onde o risco fazia parte da paisagem e onde cada curva da azinhaga
podia esconder a surpresa que obrigava a pensar depressa, agir depressa,
sobreviver depressa.
Vejo o
capataz do filme a receber as marradas furiosas do animal enquanto os outros
observam de cima, protegidos pela altura, e reconheço nesse gesto coletivo uma
espécie de ritual antigo, momento em que o medo se transforma em narrativa, em
catarse, em troca de histórias que ligam o presente ao passado, como se cada
investida do touro convocasse todas as outras que já tinham acontecido.
Comigo
foi diferente, porque não havia grupo, apenas a minha tia Margarida e eu, dois
corpos apanhados de surpresa ao dobrarmos a curva entre Montenhoso e Costas de
Cão, e ainda hoje me impressiona a rapidez com que ela percebeu o perigo,
empurrando‑me para a figueira mais próxima, subindo logo atrás, sem hesitação,
como se a árvore fosse extensão natural da nossa defesa, abrigo improvisado
contra a fúria que vinha pela azinhaga.
Lá em
baixo, frustrado por não nos alcançar, o touro investiu contra o tronco com
violência que a figueira suportou graças à sua firmeza, e passámos ali parte da
manhã, pendurados nos ramos, atentos ao silêncio que sucedeu às marradas,
tentando adivinhar se o animal ainda rondava, se tinha desistido, se nos
esperava fora do nosso campo de visão.
Quando
finalmente descemos e alcançámos a aldeia, levávamos a história pronta para ser
contada, mas os ouvintes tinham as suas próprias versões, cada um com o seu
medo, cada um com a sua fuga, cada um com a sua árvore, e percebi então que a
aventura não era exceção, era parte de uma memória comum, território onde o
perigo circulava como personagem habitual e onde cada relato servia para
aliviar o susto e reforçar a pertença.
Não tenho
curiosidade por O Dia da Revelação — e ouvindo o Vasco Câmara e a
Alexandra Prado Coelho falarem da experiência enquanto espectadores vi
confirmado o que há muito sinto sobre a obra de Spielberg: as primeiras são de
um prazer inesgotável, e ele vai minguando à medida que os anos se lhe foram
acrescentando na biografia.
Duel e Tubarão têm a tensão pura
de quem ainda não sabe que é um génio e por isso filma com fome. Depois veio o
sucesso e com ele a solenidade — Schindler foi-me indiferente, Os
Fabelmans um enfado. Há realizadores que crescem com a maturidade e há os
que precisavam da urgência da juventude para serem grandes. Spielberg é dos
segundos.
Quanto à
tese dos extraterrestres entre nós, ela faz lembrar o que os anarquistas
espanhóis pichavam nas paredes há meio século a respeito da existência de Deus:
se andarem por aí o problema é deles. E pelos vistos também do Colin Firth, que
assume o papel de vilão-mor na história — o que é, convenhamos, uma forma
bastante inglesa de gerir uma invasão alienígena.
O cinema
de Spielberg envelheceu ao contrário do bom vinho. O que resta é rever o
tubarão de vez em quando e lembrar como era bom quando ainda havia dentes.
Sete anos
depois continuo a não apreciar Parasitas na dimensão que o transformou
em fenómeno mediático e potenciou os muitos prémios atribuídos. O desconforto
que sinto não é com a ambição do projeto mas com as escolhas que o realizam.
A família
de fura-vidas que se instala em casa dos ricos e descobre outra já lá escondida
clandestinamente é uma premissa com potencial — mas o que Bong Joon Ho faz com
ela incomoda-me pela ambiguidade moral com que traduz as relações de classe. Os
ricos são ingénuos até à caricatura, os pobres são sem escrúpulos até à
animalidade, e esta simetria é precisamente o problema: porque a realidade
social não é simétrica. A violência dos que detêm o poder no uso e usufruto
dele raramente aparece assim — normalmente é estrutural, invisível, exercida
através das instituições e das regras que fabricaram para si próprios.
Reduzi-la à ingenuidade é uma forma de a absolver.
O
incómodo é semelhante ao sentido há muito com Ettore Scola, esse suposto
realizador de esquerda que quis mostrar os de baixo como feios, porcos e maus —
título que era já um programa. Há um certo cinema que se proclama crítico e
acaba por confirmar os preconceitos que deveria desmontar, servindo ao público
a ilusão de uma reflexão social sem lhe exigir nenhuma.
Um filme
verdadeiramente incómodo sobre classes não faria rir a plateia tão
confortavelmente.
As
estampas japonesas sempre pareceram exercícios de serenidade perante o
inevitável, não por celebrarem a catástrofe, mas por a integrarem na paisagem reconhecendo
que a terra tem o próprio ritmo, por vezes violento, sem se deixar domesticar. É essa aceitação que distingue a cultura
japonesa, consciência antiga de concomitância entre a beleza e a ameaça sem que
uma anule a outra.
Um
pequeno filme lançado pelo município de Tóquio, três minutos de simulação que
mostram o Monte Fuji a despertar, não como figura poética, mas como força
geológica capaz de redesenhar a cidade num instante, surpreende-me por, das
vezes em que ali estive, sempre ter olhado para aquele cone perfeito como
presença tranquila, quase decorativa, sem imaginar um magma inquieto, ainda
vivo, capaz de romper a superfície com violência.
O que
mais impressiona, porém, não é a possibilidade da erupção, mas a diferença de
leitura entre quem produz o filme e quem o comenta à distância, porque enquanto
a imprensa internacional reage com alarmismo, como se cada imagem fosse
prenúncio de desastre iminente, o município de Tóquio apresenta o vídeo como
gesto de prevenção, exercício de cidadania, tentativa de preparar os habitantes
para o que pode acontecer sem transformar essa possibilidade em pânico.
Há aqui
uma ética da atenção que contrasta com o nosso hábito de dramatizar tudo, como
se a realidade só ganhasse importância quando amplificada. Talvez seja por isso
que o filme parece exemplar, não pela tecnologia usada, mas pela sobriedade com
que trata o risco, lembrando que a preparação não precisa de medo, apenas de
lucidez.
O Monte
Fuji, visto de longe, sempre foi símbolo de estabilidade, mas ela está na
capacidade de olhá-lo sabendo que pode mudar, e ainda assim continuar a viver
sem ceder ao alarmismo que tanto seduz quem prefere o espetáculo à compreensão.
A frase
não é de Darwin, mas tornou‑se tão repetida que já ninguém se preocupa com a
origem, como acontece com muitas ideias que a cultura transforma em evidência,
e talvez seja essa transformação que mais importa, porque o que nela se afirma
— a sobrevivência como arte de adaptação — descreve melhor o nosso tempo do que
qualquer tratado de biologia.
As
sociedades reagem às mudanças rápidas, quase sempre com atraso, resistência e a
esperança infantil de que o mundo volte ao estado anterior, como se a
estabilidade fosse um direito natural e não uma construção frágil, mantida à
custa de atenção, esforço e alguma coragem para aceitar o que não escolhemos.
Esta
dificuldade em adaptar‑se abre espaço para discursos que prometem regressos
impossíveis, como se a história pudesse ser rebobinada até um ponto
confortável, e é precisamente aí que os movimentos autoritários ganham força,
oferecendo simplicidade onde existe complexidade, ordem onde existe incerteza,
segurança onde existe apenas a necessidade de aprender a viver com o que muda.
A
adaptação não é submissão, é leitura lúcida do real, capacidade de ajustar o
gesto sem perder o sentido, e talvez seja isso que falta ao debate público,
sempre tão preso à retórica da força, da identidade, da pureza, como se a vida
fosse uma competição entre essências e não um exercício contínuo de
transformação.
A
verdadeira inteligência não está em resistir ao novo, mas em perceber o que
nele pode ser habitado sem perder a dignidade, e que esta arte discreta de
adaptação é, afinal, o que nos permite continuar sem nos tornarmos cúmplices
daquilo que sabemos ser perigoso.
Entro nos
setentas com o parlamento a discutir o estado da nação, cada gesto público suspenso
entre a promessa de mudança e a repetição cansada do que já vimos demasiadas
vezes, como se a história tivesse perdido o ímpeto e se limitasse a rodar em
círculos discretos, quase impercetíveis, mas suficientes para lembrar que nada
está garantido.
No rádio
do carro ouço um comentário político que transforma a realidade em espetáculo,
reduzindo a complexidade a slogans que se esgotam no instante em que são
proferidos, e noto como esta simplificação contínua cria terreno fértil para os
que preferem o ruído à análise, a fúria à responsabilidade, a certeza fácil ao
trabalho lento de compreender o mundo.
É nesse
terreno que os discursos autoritários encontram espaço para crescer, sempre com
a mesma máscara de novidade que engana quem já esqueceu o que custou aprender.
Recordo Max Ernst e o seu anjo doméstico,
criatura disforme que atravessou 1937 como aviso de que a violência pode nascer
do interior da casa, do quotidiano, da normalidade aparente, e percebo como a
imagem regressa - não como metáfora distante -, mas presença nos noticiários,
nas conversas, nos gestos de impaciência que criam hábito, e talvez seja essa infiltração
silenciosa o verdadeiro perigo, mais do que qualquer grito explícito.
Termino o
dia com a sensação de a vigilância não ser apenas política, mas também íntima,
exercício de atenção ao modo como pensamos, reagimos e deixamos que o medo ou a
exaustão nos tornem permissivos perante o inaceitável. Talvez seja esta
consciência, frágil mas persistente, a única forma de manter alguma clareza no
meio do nevoeiro.
A fratura
entre memória e realidade torna-se pertinente quando penso nos vinte e quatro
anos passados no mar, porque ali a distância entre o que acontece e o que
poderia ter acontecido é sempre mínima, quase impercetível, e cada tempestade,
cada incêndio, cada explosão lembra que a sobrevivência não é metáfora, é
cálculo fino, atenção absoluta, adaptação de que Darwin nunca escreveu mas que
a vida marítima confirma a cada minuto.
Recordo
noites em que o casco tremia como organismo vivo, aço a protestar contra a
força das ondas, e percebo como a memória transforma esse medo em narrativa,
como se o corpo, ao revisitar o perigo, precisasse de lhe dar forma para o
poder suportar, mas a realidade desses instantes era outra: não havia
simbolismo, não havia épica, apenas o som da água a bater, o cheiro do óleo, a
vibração das máquinas, a consciência de que bastava um erro, um acaso, um gesto
tardio para que acabasse no fundo de um dos oceanos que percorri.
Penso
também nos incêndios, na rapidez com que o fogo se espalha num navio, na forma
como o calor distorce o metal, na urgência de conter o avanço antes que a
estrutura ceda, e noto como a memória suaviza esses episódios, como se lhes
retirasse a violência para os tornar transmissíveis, mas a realidade era sempre
mais crua, imediata e física, exigindo decisões que não admitiam hesitação.
As
explosões, essas, deixaram marcas mais silenciosas: o estrondo que primeiro se
ouve, o silêncio que se segue, o inventário rápido do que ainda funciona, do
que se perdeu, do que pode ser reparado, e é nesse intervalo que a fratura
entre memória e realidade se abre, porque a memória tende a organizar o caos, a
dar-lhe sequência, enquanto a realidade apresenta-se como fragmento, choque, interrupção.
Talvez
por isso o mar seja território onde a consciência se afina: porque obriga a
aceitar que a vida pode mudar num segundo, a segurança é sempre provisória, a
adaptação não é virtude, é condição. E ao revisitar esses anos, percebo que a
memória não corrige a realidade, apenas a torna habitável, permitindo que o que
poderia ter sido fim se transforme em matéria de reflexão.
Como
dizem os italianos: se non è vero, è ben trovato. A história do
lavagante que vai alimentando o preguiçoso safio na sua toca, engordando‑o até ficar
ali encurralado e ser altura dele avançar, é uma dessas metáforas perfeitas.
José Cardoso Pires usou‑a com mestria. E António‑Pedro Vasconcelos queria fazer
dela o seu último filme —que já não teve tempo de rodar, incumbindo-se Mário
Barroso do projeto...
Tanto
tempo passou desde que o escritor congeminou essa imagem, e continua a fazer
pleno sentido. Ou não estivéssemos novamente ameaçados por uma ideologia que
julgávamos prescrita para nunca mais. O lavagante continua paciente e o safio distraído.
E o desfecho, se nada mudar, repete‑se.
Por estes
dias, o genocídio dos gastrópodes — acompanhado de muitos litros de cerveja —
prosseguiu alegremente à conta do “patrioteirismo” estúpido que se alimentou da
seleção nacional em terras americanas. Antes disso, era a beatice da
peregrinação anual a Fátima. O futebol e a Cova da Iria funcionam como
anestésicos sociais. Amolecem as mentes. Desviam a atenção. Criam a ilusão de
pertença enquanto o essencial se perde.
E, assim
distraídas, as pessoas permitem os avanços dos vampiros cantados por Zeca
Afonso. Eles não desapareceram. Apenas mudaram de roupa. A metáfora do
lavagante e do safio continua a ser aviso, diagnóstico, retrato de um país que,
demasiadas vezes, prefere o ritual à vigilância.
Pensar no
que esta metáfora diz é reconhecer que o essencial não mudou. O lavagante
continua a existir. O safio também. E o mecanismo que os une permanece intacto:
um alimenta, o outro adormece.
A força
da metáfora está na simplicidade. O predador não ataca de imediato. Cria
conforto. Oferece alimento. Garante rotina. E, quando o safio já não distingue
cuidado de captura, fecha a toca.
É assim
que o poder autoritário avança. Não com violência inicial, mas com sedução. Com
distrações. Com rituais que ocupam o espaço mental. Com entusiasmos que parecem
inofensivos. Com pertenças que dispensam pensamento.
O safio representa
a sociedade quando abdica da vigilância, confunde estabilidade com segurança, aceita
que o essencial seja decidido por outros e se deixa embalar por festividades,
por patriotismos de ocasião, por devoções que substituem a reflexão.
A
metáfora diz que o perigo não se anuncia como tal. Chega mascarado de
normalidade. De festa. De tradição. De identidade. E, quando damos por isso, já
estamos encurralados na toca que julgávamos nossa.
Por isso
vale a pena pensar no que esta metáfora diz como quem observa um aviso antigo
que continua a funcionar. Não para viver em sobressalto, mas para evitar a
anestesia. Porque, se não reconhecermos o lavagante, acabamos ser sempre o
safio.
Há filmes
que se recordam por uma imagem, outros por uma interpretação, e este por uma
banda sonora — o que não é pouco quando a banda sonora é Miles Davis a
improvisar em 1957 numa sessão noturna de estúdio, deixando a trompete seguir a
errância de Jeanne Moreau pelas ruas de Paris como se a estivesse a inventar em
tempo real. A improvisação era o seu método e aqui tornou-se também o método do
filme: música e imagem a descobrirem-se mutuamente, sem rede.
Jeanne
Moreau não vale elogios enumerados — todos em si a apoucariam. O que faz neste
filme é caminhar, olhar montras, fumar, esperar, e nesse aparente nada
construir um retrato de desejo e de angústia que dispensava qualquer diálogo
explicativo. A câmara seguia-a e bastava.
Maurice
Ronet cumpre o papel complementar com uma economia de meios que trai a escola —
Malle servira de assistente a Bresson, e aprendera com ele que os gestos que
manipulam objetos dizem mais do que os rostos que declaram sentimentos. Ronet
abre fechaduras, puxa cordas, acende cigarros, e nessa sucessão de gestos
constrói um homem que julgou ter cometido um crime perfeito e descobre que a
perfeição é uma ilusão cara.
O
elevador parado entre andares é a metáfora mais simples e mais eficaz do filme:
o crime que deveria libertar e aprisionou, o amante que deveria chegar e não
chega, Paris lá fora indiferente a tudo.
A
Trafaria foi território da minha infância. Não por acaso, mas por necessidade:
ali vivia uma amiga da minha mãe, que conheci já acamada, e a quem ela dava
algum apoio. Daí ter passado muitas tardes na praia, quase ao lado da casa da
Rua Heliodoro Salgado. Aquele pedaço de areia, ainda sem o terminal de cereais,
nem a poluição que hoje torna a água quase imunda, ficou como memória
agradável. Um lugar simples, sem artifícios, onde o tempo parecia correr
devagar.
Não
espanta, por isso, que tivesse alguma expectativa em relação ao documentário
que Pedro Florêncio rodou com alunos da Nova FCSH, recorrendo à participação
ativa de vários habitantes. A ideia era boa. O conceito, interessante. E o
resultado tem valor documental, sobretudo pela forma como dá voz a quem
raramente a tem.
Mas esta
não é, decerto, a minha Trafaria. A que guardo não cabe no ecrã. Não cabe na
narrativa escolhida. É feita de cheiros, de luz, de tardes longas, de uma
inocência que não se filma. É feita da presença da minha mãe, da amiga, da
praia que parecia imensa aos olhos de um miúdo. E é feita, sobretudo, de um
tempo anterior à degradação que hoje marca aquele território.
O
documentário mostra uma Trafaria real. A minha memória guarda outra. E não há
contradição nisso. Há apenas a distância inevitável entre o que vivemos e o que
o presente devolve. Entre o lugar que existiu e o lugar que existe. Entre o que
ficou em nós e o que ficou no mundo.
Vale a
pena pensar nesta fratura entre memória e realidade. Porque, muitas vezes, o
que perdemos não é o território — é o tempo que o habitava.
Pensar na
fratura entre memória e realidade é aceitar que vivemos sempre em dois lugares
ao mesmo tempo. O lugar que existiu. E o lugar que existe. Entre ambos abre‑se
uma fissura que não é defeito — é condição humana.
A memória
trabalha com luz própria. Seleciona. Atenua. Amplifica. Protege. E, às vezes,
inventa. Não por falsidade, mas por necessidade: precisamos de organizar o
passado para que ele não nos esmague.
A
realidade, pelo contrário, é indomável. Não se curva ao que sentimos. Não
preserva o que nos marcou. Não tem obrigação de coincidir com o que guardámos.
E é nesse desencontro que nasce a fratura.
Quando
regressamos a um lugar da infância, percebemos isso com nitidez. O território
mudou — mas fomos nós que mudámos mais. A memória guardou a luz, o cheiro, a
textura dos dias. A realidade devolve o desgaste, a transformação, a erosão. E
o choque entre ambas não é derrota: é revelação.
A fratura
entre memória e realidade é, no fundo, o espaço onde se forma a consciência. É
ali que percebemos que o passado não volta, o presente não se repete. E que o
que permanece não é o lugar — é o vínculo.
Por isso
vale a pena pensar na fratura entre memória e realidade como quem observa uma
cicatriz. Não para lamentar o que se perdeu, mas para reconhecer o que ficou. E
para aceitar que a memória, sendo imperfeita, é ainda assim o mais fiel dos
abrigos.
De
Nicholas Ray prefiro de longe o Johnny Guitar — politicamente incisivo, disposto
a usar o western como metáfora do macarthismo e da paranoia coletiva, corajoso
na sua subversão dos géneros.
Fúria
de Viver é
outra coisa: um drama sobre três adolescentes perdidos na entrada da idade
adulta, enredados nos conflitos da família e no confronto com um gangue
liderado pelo odioso Buzz — rebeldes sem causa numa América que vivia a ilusão
dos inícios do que seriam os Trinta Anos Gloriosos.
O que o
filme tem de imperecível é James Dean. Jim Stark demonstra o excelente ator que
era quando a morte precoce estava mesmo ali à beira de acontecer — essa
capacidade de habitar a vulnerabilidade masculina numa época em que a
masculinidade não admitia vulnerabilidade, tornando cada cena uma negociação
entre o que sente e o que lhe foi ensinado a não mostrar. É uma interpretação
que o tempo não envelheceu.
Em
contraponto, Natalie Wood era então pouco mais do que uma cara bonita de acordo
com os padrões da época — o filme não lhe pede mais do que isso e ela não
oferece mais do que isso, o que diz tanto sobre a atriz como sobre o modo como
Hollywood tratava as atrizes jovens.
Ray sabia
filmar a desorientação. Nem sempre sabia para quê.
No filme
"Fogo do Vento", de Marta Mateus, uma das vozes pertence a Maria
Catarina Sapata, octogenária de Estremoz que não sabe ler nem escrever e fala
um português que os da cidade chamariam poético e que é, apenas, o português de
quem trabalhou a terra a vida inteira. Ela dá conta de uma verdade que devia
doer mais do que dói: hoje somos ricos ao pé de antes, mas há quem se esqueça
de como foi pobre. E acrescenta o essencial — outros esquecem, são vaidosos e
não contam.
Não
contam. É a palavra exata. Esquecem-se de que carregaram pedra em padiolas de
madeira, um à frente e outro atrás, antes de a máquina passar a fazer o
trabalho. Esquecem-se dos pés descalços e geladinhos, da tontura da fome que
era pior do que a do vinho, dos eitos ao sol de agosto, do cante que era a
única coisa que se podia fazer à vontade porque o resto era proibido.
Esquecem-se e tornam-se disponíveis para votar em quem representa exatamente
aquilo contra o que os seus pais e avós lutaram.
O
Alentejo do latifúndio produziu o cante e produziu a consciência de classe. Uma
e outra nasceram da mesma raiz: a experiência partilhada da exploração, o saber
coletivo de que a terra era de poucos e o trabalho de muitos, a memória de que
só a união dos que nada tinham lhes dava alguma força perante os que tudo
possuíam. Era um saber duro, comprado a fome e a suor, mas era um saber que
orientava o voto sem hesitação.
Que esse
mesmo Alentejo dê hoje ao Chega votações crescentes é o sintoma de uma amnésia
que Maria Catarina diagnostica sem precisar de teoria. Para votar em quem
defende os latifundiários de hoje — os donos do capital, os que querem despedir
fácilmente e pagar menos —, é preciso ter perdido a consciência da classe a que
se pertence. É preciso ter esquecido de onde se vem. É preciso acreditar que já
não se é pobre, quando a verdade é que se continua a sê-lo, apenas com
eletrodomésticos.
O filme
de Marta Mateus faz o trabalho contrário ao do esquecimento: guarda as vozes,
eterniza as memórias, põe o passado a falar com o presente. É cinema como
resistência à amnésia — a mesma amnésia que a extrema-direita cultiva porque
dela se alimenta. Quem não se lembra de ter sido explorado vota facilmente em
quem o explorará de novo.
Maria Catarina lembra-se.
Lembra-se de todas as portas a que bateu. E dá valor ao que tem porque sabe, na
carne, o que é não ter nada. Essa memória é um ato político. Talvez o mais
importante de todos: o que impede que a história, esquecida, se repita como
farsa e depois como tragédia.
As
palavras de Björk sintetizam na perfeição a arte de Meredith Monk. As canções
são um passaporte intemporal para melodias ancestrais. Não porque imitem
tradições antigas, mas por nascerem de um lugar anterior à própria memória. Um
território onde a voz ainda não era linguagem, mas impulso, respiração,
chamamento.
Já
passaram uns bons anos desde que fomos ao CCB ver a artista e o seu ensemble.
Lembro‑me singularmente da sala do Grande Auditório apenas meia cheia. Para um
acontecimento que merecia lotação esgotada com grande antecedência, aquilo
tinha algo de injusto. Ou talvez apenas revelasse a dificuldade de reconhecer,
a tempo, o que é verdadeiramente singular.
Foram
duas horas de magia no sentido mais rigoroso: a capacidade de transformar o
espaço interior de quem escuta. A partir das vocalizações, Monk conduzia‑nos
por recônditos meandros da mente onde se albergam memórias legadas por aqueles
que nos antecederam. Que não sabemos nomear, mas reconhecemos como nossas.
A música
dela não conta histórias, desperta‑as. Não descreve emoções, convoca‑as. É uma
arte que trabalha antes da palavra, antes da cultura, antes da identidade. E
talvez por isso seja tão difícil de classificar — e tão fácil de sentir.
Björk
tinha razão. Há em Meredith Monk algo de intemporal, que nos devolve a uma
humanidade mais funda, mais antiga, mais silenciosa. E, por isso mesmo,
continua a ressoar muito depois do concerto terminar.
Vale a
pena pensar nesta ancestralidade que a voz pode convocar. Porque, às vezes, o
que ouvimos não é música — é herança.
Perante o
quadro de Max Ernst, L’Ange du Foyer (1937), é impossível não sentir a
atualidade inquietante da figura monstruosa, híbrida, em convulsão.
Ernst
pintou‑o nas vésperas da catástrofe. A Europa tremia. O fascismo avançava como
fogo subterrâneo. E o surrealismo, que sempre desconfiara da ordem burguesa,
via nessa ascensão a confirmação dos seus piores pressentimentos.
O “anjo”
de Ernst não é mensageiro de paz. É um aviso. Um corpo deformado pela violência
que se aproxima. Um ser que parece dançar e destruir ao mesmo tempo. A cor
vermelha, quase febril, anuncia o incêndio político que se preparava. E a
paisagem vazia, desolada, sugere que a civilização já começara a ruir antes
mesmo de a guerra ser declarada.
Ernst
sabia o que estava a pintar. Tinha vivido a Primeira Guerra e visto a burguesia
europeia entregar‑se ao autoritarismo com uma facilidade perturbadora. Era,
entre os surrealistas, um dos mais marcados pela crítica feroz aos valores que
sustentavam esse mundo: a moral hipócrita, o conformismo, a obediência
disfarçada de ordem.
Por isso L’Ange
du Foyer não é apenas um quadro. É um diagnóstico. Um retrato daquilo que
acontece quando o medo encontra um líder forte, a frustração aponta para um
inimigo conveniente e a sociedade abdica da liberdade em troca de uma promessa
de segurança. O fascismo, para Ernst, não era acidente — era sintoma.
E hoje,
quando volta a ser perigo iminente, o quadro ganha nova nitidez. A criatura ele
pintou parece regressar. Não com as mesmas cores e palavras, mas com a replicada
lógica: simplificar o mundo, dividir, punir, excluir, incendiar. O anjo do lar
transforma‑se, de novo, no da destruição.
Vale a
pena olhar para Ernst como quem lê um aviso antigo. Porque a arte, às vezes, vê
antes de nós. E porque, quando o perigo regressa, é útil lembrar que já houve
quem o tivesse pintado — e reconhecido — muito antes de ele se tornar
inevitável.
O cinema
tem uma predileção antiga pelo espetáculo da queda dos tiranos — Hitler
paranoico no bunker, Luís XIV apodrecido pela gangrena, Salazar demente a ser
enganado pelas criadas e a ter medo das galinhas. Não é sadismo: é a
necessidade humana de confirmar que o poder absoluto não poupa os seus
detentores do final que os espera, tão patético quanto o de qualquer outro
mortal, e por vezes mais.
Pai
Nosso, de
José Filipe Costa, espelha esse paradoxo com uma eficácia que não precisa de
forçar nada — a realidade histórica já era suficientemente cruel. O homem que
manteve Portugal na obscuridade durante décadas acabou os dias convencido de
que ainda governava, rodeado de criadas que lhe alimentavam a ilusão por medo
ou por hábito, incapaz de distinguir o poder real da sua sombra.
Tudo nele
inspira comiseração — esse sentimento frio que reconhece o sofrimento sem lhe
conceder a dignidade da compaixão. E há qualquer coisa de particularmente
amargo em constatar que não teve consciência de quanto o país celebraria em
festa o fim do seu projeto político. Morreu sem saber. Talvez seja esse o único
privilégio que o destino lhe reservou.
Perante
este retrato resta a pergunta que o filme implicitamente coloca e que a
história portuguesa não respondeu ainda satisfatoriamente: como pode haver quem
suspire por três Salazares? A resposta diz mais sobre quem suspira do que sobre
o homem que apodreceu entre as galinhas.