Há filmes
que se recordam por uma imagem, outros por uma interpretação, e este por uma
banda sonora — o que não é pouco quando a banda sonora é Miles Davis a
improvisar em 1957 numa sessão noturna de estúdio, deixando a trompete seguir a
errância de Jeanne Moreau pelas ruas de Paris como se a estivesse a inventar em
tempo real. A improvisação era o seu método e aqui tornou-se também o método do
filme: música e imagem a descobrirem-se mutuamente, sem rede.
Jeanne
Moreau não vale elogios enumerados — todos em si a apoucariam. O que faz neste
filme é caminhar, olhar montras, fumar, esperar, e nesse aparente nada
construir um retrato de desejo e de angústia que dispensava qualquer diálogo
explicativo. A câmara seguia-a e bastava.
Maurice
Ronet cumpre o papel complementar com uma economia de meios que trai a escola —
Malle servira de assistente a Bresson, e aprendera com ele que os gestos que
manipulam objetos dizem mais do que os rostos que declaram sentimentos. Ronet
abre fechaduras, puxa cordas, acende cigarros, e nessa sucessão de gestos
constrói um homem que julgou ter cometido um crime perfeito e descobre que a
perfeição é uma ilusão cara.
O
elevador parado entre andares é a metáfora mais simples e mais eficaz do filme:
o crime que deveria libertar e aprisionou, o amante que deveria chegar e não
chega, Paris lá fora indiferente a tudo.
A
Trafaria foi território da minha infância. Não por acaso, mas por necessidade:
ali vivia uma amiga da minha mãe, que conheci já acamada, e a quem ela dava
algum apoio. Daí ter passado muitas tardes na praia, quase ao lado da casa da
Rua Heliodoro Salgado. Aquele pedaço de areia, ainda sem o terminal de cereais,
nem a poluição que hoje torna a água quase imunda, ficou como memória
agradável. Um lugar simples, sem artifícios, onde o tempo parecia correr
devagar.
Não
espanta, por isso, que tivesse alguma expectativa em relação ao documentário
que Pedro Florêncio rodou com alunos da Nova FCSH, recorrendo à participação
ativa de vários habitantes. A ideia era boa. O conceito, interessante. E o
resultado tem valor documental, sobretudo pela forma como dá voz a quem
raramente a tem.
Mas esta
não é, decerto, a minha Trafaria. A que guardo não cabe no ecrã. Não cabe na
narrativa escolhida. É feita de cheiros, de luz, de tardes longas, de uma
inocência que não se filma. É feita da presença da minha mãe, da amiga, da
praia que parecia imensa aos olhos de um miúdo. E é feita, sobretudo, de um
tempo anterior à degradação que hoje marca aquele território.
O
documentário mostra uma Trafaria real. A minha memória guarda outra. E não há
contradição nisso. Há apenas a distância inevitável entre o que vivemos e o que
o presente devolve. Entre o lugar que existiu e o lugar que existe. Entre o que
ficou em nós e o que ficou no mundo.
Vale a
pena pensar nesta fratura entre memória e realidade. Porque, muitas vezes, o
que perdemos não é o território — é o tempo que o habitava.
Pensar na
fratura entre memória e realidade é aceitar que vivemos sempre em dois lugares
ao mesmo tempo. O lugar que existiu. E o lugar que existe. Entre ambos abre‑se
uma fissura que não é defeito — é condição humana.
A memória
trabalha com luz própria. Seleciona. Atenua. Amplifica. Protege. E, às vezes,
inventa. Não por falsidade, mas por necessidade: precisamos de organizar o
passado para que ele não nos esmague.
A
realidade, pelo contrário, é indomável. Não se curva ao que sentimos. Não
preserva o que nos marcou. Não tem obrigação de coincidir com o que guardámos.
E é nesse desencontro que nasce a fratura.
Quando
regressamos a um lugar da infância, percebemos isso com nitidez. O território
mudou — mas fomos nós que mudámos mais. A memória guardou a luz, o cheiro, a
textura dos dias. A realidade devolve o desgaste, a transformação, a erosão. E
o choque entre ambas não é derrota: é revelação.
A fratura
entre memória e realidade é, no fundo, o espaço onde se forma a consciência. É
ali que percebemos que o passado não volta, o presente não se repete. E que o
que permanece não é o lugar — é o vínculo.
Por isso
vale a pena pensar na fratura entre memória e realidade como quem observa uma
cicatriz. Não para lamentar o que se perdeu, mas para reconhecer o que ficou. E
para aceitar que a memória, sendo imperfeita, é ainda assim o mais fiel dos
abrigos.
De
Nicholas Ray prefiro de longe o Johnny Guitar — politicamente incisivo, disposto
a usar o western como metáfora do macarthismo e da paranoia coletiva, corajoso
na sua subversão dos géneros.
Fúria
de Viver é
outra coisa: um drama sobre três adolescentes perdidos na entrada da idade
adulta, enredados nos conflitos da família e no confronto com um gangue
liderado pelo odioso Buzz — rebeldes sem causa numa América que vivia a ilusão
dos inícios do que seriam os Trinta Anos Gloriosos.
O que o
filme tem de imperecível é James Dean. Jim Stark demonstra o excelente ator que
era quando a morte precoce estava mesmo ali à beira de acontecer — essa
capacidade de habitar a vulnerabilidade masculina numa época em que a
masculinidade não admitia vulnerabilidade, tornando cada cena uma negociação
entre o que sente e o que lhe foi ensinado a não mostrar. É uma interpretação
que o tempo não envelheceu.
Em
contraponto, Natalie Wood era então pouco mais do que uma cara bonita de acordo
com os padrões da época — o filme não lhe pede mais do que isso e ela não
oferece mais do que isso, o que diz tanto sobre a atriz como sobre o modo como
Hollywood tratava as atrizes jovens.
Ray sabia
filmar a desorientação. Nem sempre sabia para quê.
No filme
"Fogo do Vento", de Marta Mateus, uma das vozes pertence a Maria
Catarina Sapata, octogenária de Estremoz que não sabe ler nem escrever e fala
um português que os da cidade chamariam poético e que é, apenas, o português de
quem trabalhou a terra a vida inteira. Ela dá conta de uma verdade que devia
doer mais do que dói: hoje somos ricos ao pé de antes, mas há quem se esqueça
de como foi pobre. E acrescenta o essencial — outros esquecem, são vaidosos e
não contam.
Não
contam. É a palavra exata. Esquecem-se de que carregaram pedra em padiolas de
madeira, um à frente e outro atrás, antes de a máquina passar a fazer o
trabalho. Esquecem-se dos pés descalços e geladinhos, da tontura da fome que
era pior do que a do vinho, dos eitos ao sol de agosto, do cante que era a
única coisa que se podia fazer à vontade porque o resto era proibido.
Esquecem-se e tornam-se disponíveis para votar em quem representa exatamente
aquilo contra o que os seus pais e avós lutaram.
O
Alentejo do latifúndio produziu o cante e produziu a consciência de classe. Uma
e outra nasceram da mesma raiz: a experiência partilhada da exploração, o saber
coletivo de que a terra era de poucos e o trabalho de muitos, a memória de que
só a união dos que nada tinham lhes dava alguma força perante os que tudo
possuíam. Era um saber duro, comprado a fome e a suor, mas era um saber que
orientava o voto sem hesitação.
Que esse
mesmo Alentejo dê hoje ao Chega votações crescentes é o sintoma de uma amnésia
que Maria Catarina diagnostica sem precisar de teoria. Para votar em quem
defende os latifundiários de hoje — os donos do capital, os que querem despedir
fácilmente e pagar menos —, é preciso ter perdido a consciência da classe a que
se pertence. É preciso ter esquecido de onde se vem. É preciso acreditar que já
não se é pobre, quando a verdade é que se continua a sê-lo, apenas com
eletrodomésticos.
O filme
de Marta Mateus faz o trabalho contrário ao do esquecimento: guarda as vozes,
eterniza as memórias, põe o passado a falar com o presente. É cinema como
resistência à amnésia — a mesma amnésia que a extrema-direita cultiva porque
dela se alimenta. Quem não se lembra de ter sido explorado vota facilmente em
quem o explorará de novo.
Maria Catarina lembra-se.
Lembra-se de todas as portas a que bateu. E dá valor ao que tem porque sabe, na
carne, o que é não ter nada. Essa memória é um ato político. Talvez o mais
importante de todos: o que impede que a história, esquecida, se repita como
farsa e depois como tragédia.
As
palavras de Björk sintetizam na perfeição a arte de Meredith Monk. As canções
são um passaporte intemporal para melodias ancestrais. Não porque imitem
tradições antigas, mas por nascerem de um lugar anterior à própria memória. Um
território onde a voz ainda não era linguagem, mas impulso, respiração,
chamamento.
Já
passaram uns bons anos desde que fomos ao CCB ver a artista e o seu ensemble.
Lembro‑me singularmente da sala do Grande Auditório apenas meia cheia. Para um
acontecimento que merecia lotação esgotada com grande antecedência, aquilo
tinha algo de injusto. Ou talvez apenas revelasse a dificuldade de reconhecer,
a tempo, o que é verdadeiramente singular.
Foram
duas horas de magia no sentido mais rigoroso: a capacidade de transformar o
espaço interior de quem escuta. A partir das vocalizações, Monk conduzia‑nos
por recônditos meandros da mente onde se albergam memórias legadas por aqueles
que nos antecederam. Que não sabemos nomear, mas reconhecemos como nossas.
A música
dela não conta histórias, desperta‑as. Não descreve emoções, convoca‑as. É uma
arte que trabalha antes da palavra, antes da cultura, antes da identidade. E
talvez por isso seja tão difícil de classificar — e tão fácil de sentir.
Björk
tinha razão. Há em Meredith Monk algo de intemporal, que nos devolve a uma
humanidade mais funda, mais antiga, mais silenciosa. E, por isso mesmo,
continua a ressoar muito depois do concerto terminar.
Vale a
pena pensar nesta ancestralidade que a voz pode convocar. Porque, às vezes, o
que ouvimos não é música — é herança.
Perante o
quadro de Max Ernst, L’Ange du Foyer (1937), é impossível não sentir a
atualidade inquietante da figura monstruosa, híbrida, em convulsão.
Ernst
pintou‑o nas vésperas da catástrofe. A Europa tremia. O fascismo avançava como
fogo subterrâneo. E o surrealismo, que sempre desconfiara da ordem burguesa,
via nessa ascensão a confirmação dos seus piores pressentimentos.
O “anjo”
de Ernst não é mensageiro de paz. É um aviso. Um corpo deformado pela violência
que se aproxima. Um ser que parece dançar e destruir ao mesmo tempo. A cor
vermelha, quase febril, anuncia o incêndio político que se preparava. E a
paisagem vazia, desolada, sugere que a civilização já começara a ruir antes
mesmo de a guerra ser declarada.
Ernst
sabia o que estava a pintar. Tinha vivido a Primeira Guerra e visto a burguesia
europeia entregar‑se ao autoritarismo com uma facilidade perturbadora. Era,
entre os surrealistas, um dos mais marcados pela crítica feroz aos valores que
sustentavam esse mundo: a moral hipócrita, o conformismo, a obediência
disfarçada de ordem.
Por isso L’Ange
du Foyer não é apenas um quadro. É um diagnóstico. Um retrato daquilo que
acontece quando o medo encontra um líder forte, a frustração aponta para um
inimigo conveniente e a sociedade abdica da liberdade em troca de uma promessa
de segurança. O fascismo, para Ernst, não era acidente — era sintoma.
E hoje,
quando volta a ser perigo iminente, o quadro ganha nova nitidez. A criatura ele
pintou parece regressar. Não com as mesmas cores e palavras, mas com a replicada
lógica: simplificar o mundo, dividir, punir, excluir, incendiar. O anjo do lar
transforma‑se, de novo, no da destruição.
Vale a
pena olhar para Ernst como quem lê um aviso antigo. Porque a arte, às vezes, vê
antes de nós. E porque, quando o perigo regressa, é útil lembrar que já houve
quem o tivesse pintado — e reconhecido — muito antes de ele se tornar
inevitável.
O cinema
tem uma predileção antiga pelo espetáculo da queda dos tiranos — Hitler
paranoico no bunker, Luís XIV apodrecido pela gangrena, Salazar demente a ser
enganado pelas criadas e a ter medo das galinhas. Não é sadismo: é a
necessidade humana de confirmar que o poder absoluto não poupa os seus
detentores do final que os espera, tão patético quanto o de qualquer outro
mortal, e por vezes mais.
Pai
Nosso, de
José Filipe Costa, espelha esse paradoxo com uma eficácia que não precisa de
forçar nada — a realidade histórica já era suficientemente cruel. O homem que
manteve Portugal na obscuridade durante décadas acabou os dias convencido de
que ainda governava, rodeado de criadas que lhe alimentavam a ilusão por medo
ou por hábito, incapaz de distinguir o poder real da sua sombra.
Tudo nele
inspira comiseração — esse sentimento frio que reconhece o sofrimento sem lhe
conceder a dignidade da compaixão. E há qualquer coisa de particularmente
amargo em constatar que não teve consciência de quanto o país celebraria em
festa o fim do seu projeto político. Morreu sem saber. Talvez seja esse o único
privilégio que o destino lhe reservou.
Perante
este retrato resta a pergunta que o filme implicitamente coloca e que a
história portuguesa não respondeu ainda satisfatoriamente: como pode haver quem
suspire por três Salazares? A resposta diz mais sobre quem suspira do que sobre
o homem que apodreceu entre as galinhas.
Numa das
suas recentes edições, o 60 Minutes abordava várias investigações sobre
demências. Experiências feitas em cães, modelos animais que permitem observar
comportamentos, testar moléculas, medir progressões. E, como sempre, surgiam
medicamentos apresentados como avanços promissores. Mas não eram a solução tão
desejada para travar a degenerescência cerebral. Eram apenas paliativos. Capazes,
talvez, de retardar o que já se conhece — mas incapazes de o evitar.
Para quem
está diretamente interessado no assunto, como acontece com quem faz ofício de
cuidador, cada uma destas reportagens começa com um sobressalto de esperança. A
sensação de, finalmente, haver ali uma novidade relevante. Um fio de luz. Uma
hipótese concreta de mudança.
Mas segue‑se
a desilusão, mais do mesmo. Uma molécula que abranda, mas não impede. Um estudo
que promete, mas não transforma. Um avanço que não chega ao ponto onde mais se
precisa dele.
É duro
reconhecer isso. Porque a ciência avança devagar. E quem cuida vive noutro
tempo. No tempo da urgência. No do quotidiano que não espera pela próxima
publicação científica.
Ainda
assim, estes estudos têm valor. Não resolvem. Mas iluminam. Ajudam a
compreender melhor o que está em causa. E, mesmo que não tragam a cura, podem
trazer pequenas melhorias, pequenos atrasos, pequenas margens de manobra que,
na vida real, contam.
Vale a
pena pensar nesta distância entre esperança e realidade. Porque é nela que vive
quem cuida — e é nela que a ciência, por mais lenta que seja, continua a
trabalhar.
Há um
Brasil que as telenovelas apagaram — ou tentaram apagar — por baixo de camadas
de melodrama fabricado e de beleza plastificada. O documentário Cinema Novo,
que Eryk Rocha rodou em 2016 sobre o movimento que o pai, Glauber Rocha, ajudou
a fundar nos anos 50 e 60, é um convite a regressar a esse outro Brasil,
autêntico e áspero e luminoso, que uma geração de cineastas soube filmar antes
que a indústria decidisse o que o país deveria parecer.
O prazer
de rever esses filmes é o prazer do reconhecimento: reconhecer atores e atrizes
brilhantes que muitas vezes tiveram de pactuar com o outro lado da produção
brasileira — a telenovela que pagava as contas e embotava o talento — mas que
quando dirigidos pelos cineastas do Cinema Novo revelavam uma verdade que o
formato televisivo sistematicamente recusava.
A câmara
na mão, a luz natural, os rostos sem maquilhagem de estúdio: era Rossellini a
falar para uns, Eisenstein para outros, e essa divisão interna entre o
neorrealismo italiano e o construtivismo soviético dava ao movimento uma tensão
produtiva que se sentia nos filmes.
Glauber
Rocha pertencia claramente a uma das margens desse rio — a mais tempestuosa, a
mais política, a mais disposta a incomodar. Que o filho tenha escolhido
documentar esse legado é um gesto de fidelidade que o cinema raramente se dá ao
trabalho de fazer. E que o tenha feito bem é razão suficiente para rever os
filmes que o inspiraram.
O 60
Minutes da CNN sempre me pareceu a expressão canina dos interesses das
sucessivas administrações norte‑americanas. Um programa que muda de tom
conforme muda o poder. E onde apresentadores e equipas de suporte são
despedidos com a mesma naturalidade com que se muda de guarda num palácio. A
regra é simples: segue‑se a his master’s voice.
Por isso
quase sempre duvido das vantagens de continuar a acompanhar esse exercício
indecoroso. A propaganda ianque assume‑se com um maniqueísmo tão previsível que
já nem surpreende. O mundo dividido entre bons e maus, liberdade e tirania, luz
e trevas — sempre com os Estados Unidos no papel de árbitro moral. Uma
narrativa que se repete, independentemente da complexidade dos factos.
O
problema não é a existência de uma linha editorial. Todas as têm. O problema é
a ausência de pudor. A facilidade com que se transforma jornalismo em
catecismo. A forma como se embrulha interesse geopolítico em retórica
moralista. E como se espera que o espectador aceite tudo isso sem pestanejar.
A verdade
é que a informação precisa de desconfiança. Precisa de distância crítica.
Precisa de ser confrontada com outras vozes, contextos, leituras. E programas
como este, que se apresentam como investigação rigorosa, mas funcionam como
extensão narrativa do poder, tornam esse exercício ainda mais necessário.
Vale a
pena pensar no que significa consumir informação com lucidez. Não para rejeitar
tudo, mas para não aceitar tudo. E para lembrar que, num mundo saturado de
certezas fabricadas, a dúvida continua a ser um gesto de liberdade.
Há ciclos
no cinema como os há na natureza — temas que regressam em vaga, sem concerto
aparente, como se os realizadores de diferentes países e línguas tivessem
acordado na mesma inquietação sem se terem consultado. Nos últimos tempos tenho
visto passar pelos olhos, entre longas e curtas, vários filmes em que o tema é
a distância entre uma filha e o pai — o pai que deriva, o pai que desaparece, o
pai que se torna criança enquanto a filha se torna adulta antes de tempo.
At
Home I Feel Like Leaving, do austríaco Simon Maria Kubiena, é mais um desses: uma
jovem regressa à aldeia natal no sopé dos Alpes porque o pai, de comportamento
cada vez mais infantil e imprevisível, desapareceu nos bosques.
A noite
de São João prepara-se, a fogueira tradicional vai ser acesa, e ela debate-se
entre o peso da responsabilidade familiar e o desejo de recuperar a leveza de
outrora com uma amiga de infância —microcosmo simultaneamente amoroso e
sufocante que é a terra de onde se fugiu e a que se é sempre convocado a
regressar.
O que
estes filmes em ciclo nos propõem, sem o declarar, é uma dupla reflexão: sobre
a nossa condição de filhos, que um dia descobrimos não conhecer os pais tão bem
quanto julgávamos; e sobre a nossa condição de pais, perguntando-nos que
distâncias criámos sem o perceber, que quartos fechámos sem deixar chave.
São
perguntas que o cinema faz melhor do que a filosofia, porque encarna-as em
rostos e em bosques noturnos e em fogueiras de São João.
Georgia
O’Keeffe passou a vida a negar que as suas flores fossem metáforas eróticas.
Dizia que eram apenas flores, ampliadas até ao limite, vistas tão de perto que
deixavam de ser botânica e chegavam à forma pura. Mas o olhar do público — e o
da crítica — viu sempre outra coisa. Viu curvas que lembravam pele. Viu
aberturas que sugeriam intimidade. Viu um corpo onde ela dizia haver apenas
pétalas.
O que
importa, porém, não é decidir quem tem razão. É perceber o que acontece quando
alguém olha o mundo com tamanha intensidade que o mundo começa a devolver-lhe
outra coisa. O’Keeffe aproximava-se das flores como quem se aproxima de um
segredo. Elas abriam-se, não por provocação, mas por revelação. E, nesse gesto,
mostravam uma energia vital que é também corporal.
O
erotismo das suas pinturas não está no tema. Está na escala. Na proximidade. Na
forma como a flor ocupa todo o quadro, expulsando o contexto, obrigando o olhar
a entrar nela. É um erotismo da atenção, não da sugestão. Um erotismo que nasce
do espanto, não da intenção.
Há algo
de profundamente moderno nessa abordagem. O corpo não está representado — está
insinuado pela própria natureza. E a flor, ampliada até ao limite, deixa de ser
flor para tornar-se experiência. Uma vibração. Um pulso. Uma espécie de
respiração silenciosa que atravessa a tela.
O’Keeffe
dizia que pintava o que via. Mas talvez pintasse o que sentia ao ver. E é isso
que torna as suas flores tão perturbadoras: não são metáforas explícitas, mas
encontros. Entre o olhar e a forma. Entre a matéria e o desejo de compreender a
matéria. Entre a natureza e a interioridade de quem a contempla.
Vale a
pena pensar neste erotismo que nasce da atenção. Porque, no fundo, O’Keeffe
mostrou que a intimidade não está no corpo — está no olhar que o mundo nos
devolve quando o vemos de perto.
Sete
minutos de animação sérvia bastam para dizer o que muitos romances não
conseguem: cuidar de alguém à deriva para longe da realidade é uma forma
particular de solidão, porque a pessoa está presente e ausente em simultâneo, e
essa concomitância é mais difícil de suportar do que a ausência simples.
Floating, de Jelena Milunović, mostra um pai
com doença mental que flutua literalmente pelo apartamento como um balão —
metáfora visual tão precisa que dispensa explicação. A filha tenta alcançá-lo,
trazê-lo de volta ao chão, e enquanto o tenta os papéis invertem-se: ela
torna-se cuidadora antes de ter idade para isso, carregando um peso que não
pediu e para o qual ninguém a preparou.
O filme
usa o preto e branco claustrofóbico para as fases de depressão e o desenho
colorido e livre para as de euforia — e é nessa alternância que reside a
crueldade específica de certas doenças, o facto de o cuidador nunca saber com
qual das versões vai acordar.
O desafio
do cuidado não é apenas físico nem apenas emocional — é também epistemológico:
como cuidar de alguém que habita uma realidade diferente da nossa, como manter
o contacto com quem deriva, como não derivar também.
A filha
de Floating aprende isso cedo demais. E quem cuida, em qualquer forma e
circunstância, reconhece nela algo de verdadeiro e pesado — a consciência de
que o cuidado exige uma presença constante precisamente quando o outro está
cada vez mais ausente.
Há filmes
que nascem com má estrela, não por culpa própria mas do momento em que chegam
ao mundo.
Perguntem
à Lua, da
realizadora grega Jacqueline Lentzou, é um desses casos: lançado na época da
pandemia, sobre ele tombou a maldição do contexto — salas fechadas, atenção
dispersa, o mundo demasiado ocupado com a sobrevivência para se sentar no
escuro a deixar-se atravessar por uma história de amor difícil entre uma filha
e um pai.
Ficou
clandestino. E como os filmes clandestinos, regressa de vez em quando como
cometa — um relâmpago numa programação televisiva, uma janela fugaz num
catálogo de streaming — antes de voltar ao algures donde veio, deixando apenas
em quem o viu a sensação de ter assistido a algo que merecia mais mundo do que este
lhe deu.
A
história é a de uma filha que regressa a Atenas depois de longa ausência para
cuidar do pai com degenerescência muscular. Entre os dois nunca houve empatia —
ela sempre o recordou frio, distante, e a família pôs-lhe o encargo como uma
carga, sabendo que ela não teria como recusar. A íntima revolta que sente é
legítima e o filme não a julga, deixando-a respirar sem a resolver demasiado
depressa.
E então
uma fotografia muda tudo. Um único objeto, uma única imagem, e a perspetiva
sobre o pai reorganiza-se inteiramente — lembrando-nos que as pessoas que
julgamos conhecer guardam sempre um quarto fechado que só o acaso ou a perda
nos deixa entreabrir.
O pintor
Samal Joensen‑Mikines viveu com um dilema moral que nunca conseguiu resolver.
Era filho das Ilhas Faroé. E aí, o ritual da morte das baleias — o grindadráp
— fazia parte da paisagem cultural, da economia local, da memória coletiva. Mas
ele não conseguia olhar para aquilo sem desconforto.
A baía
enchia‑se de homens. E, pouco depois, enchia‑se de sangue. A água tornava‑se
vermelha, espessa, quase imóvel, como se o mar tivesse parado para assistir ao
próprio sofrimento. Mikines via tudo isso. E, mesmo assim, pintava.
Não
pintava por celebração. Pintava por inquietação. Porque a arte não era um
refúgio mas o espelho capaz de devolver um espetáculo terrível, que o
incomodava profundamente. Mas fazia parte da verdade do lugar onde nascera.
As suas
telas mostram homens pequenos diante de animais gigantescos. E também a
violência ritualizada, a baía transformada em ferida. Ou, sobretudo, a
ambiguidade de quem ama uma terra mas não consegue aceitar tudo o que ela faz.
Infelizmente,
o ritual ainda perdura e a causar reprovação internacional. Há imagens que
circulam todos os anos. E sabe-se mais sobre a inteligência das baleias, a sua
comunicação, a sua vulnerabilidade. A tradição resiste — e a crítica também.
Mikines,
ao pintá‑la, não a legitimou. Expô‑la. Trouxe‑a para o domínio da consciência.
Transformou o que era costume em questão. E, ao fazê‑lo, deixou um testemunho
que continua a interpelar quem olha para aquelas telas hoje.
Vale a
pena pensar no papel da arte diante da violência. Porque, às vezes, o que um
pintor faz não é justificar — é impedir que se esqueça.
Um
episódio da Visita Guiada, conduzido por Paula Moura Pinheiro na Casa da
Ásia, devolveu‑me uma das características mais admiráveis da identidade
japonesa: a arte de conservar o património. Não apenas o que é perfeito, mas
também o que falha. Peças defeituosas, desalinhadas, quebradas, que na não
conformidade com o cânone ganham uma beleza própria. É o desvio à norma que as
torna únicas.
A coleção
de Francisco Capelo mostrava isso com clareza. A reverência pelo objeto não
depende da sua integridade. Depende da história que carrega. Da marca do tempo.
Da imperfeição que revela a mão humana.
E foi
impossível não pensar na Elza. Na sua atividade ceramista. Na forma como olhava
para as peças que iam ao forno e de lá saíam com problemas — uma fissura
inesperada, uma queda acidental, uma temperatura mal calculada. Onde outros
veriam falha, ela via possibilidade. Uma beleza nova, nascida do imprevisto.
Uma estética da imperfeição que não era teorizada — era vivida.
Essa
atenção ao que não corre como previsto sensibiliza‑me sempre. Porque permite
compreender melhor uma civilização que fascina na sua espiritualidade —paradoxal,
vindo de um ateu convicto. E porque vinca um dos traços mais luminosos da
personalidade da Elza: a capacidade de acolher o que não corresponde ao plano,
de encontrar sentido no que se desvia, de transformar o acidente em forma.
Há meio
século que tenho o privilégio de partilhar a vida com alguém assim. E talvez
por isso o episódio da Visita Guiada tenha ressoado tanto. A
imperfeição, quando vista com atenção, não é falha — é assinatura. É o que
torna cada peça, cada gesto, cada vida, irrepetível.
Vale a
pena pensar na beleza que nasce do desvio. Porque, no fundo, é nela que se
reconhece o que mais amamos.
A Ciência
tem levado a investigação dos ventos até às camadas mais altas da atmosfera.
Não por curiosidade abstrata, mas para compreender melhor os mecanismos das
alterações climáticas que explicam secas prolongadas, tempestades tropicais e
furacões cada vez mais devastadores.
Os ventos
são mais do que movimento de ar. São consequência direta das diferenças de
temperatura entre zonas próximas. E são moldados pela força de Coriolis, a
rotação da Terra que encurva trajetórias, desvia correntes, reorganiza o clima.
Sem ela, o planeta seria outro.
Mas há um
detalhe ainda mais surpreendente. Os ventos funcionam como corredores
biológicos. Transportam microrganismos, esporos, partículas minúsculas que
percorrem milhares de quilómetros e chegam a regiões onde se pensava ser
impossível chegarem. A atmosfera é menos barreira e mais ponte.
Nesta
altura em que o clima muda aceleradamente, estes estudos não alteram a
realidade. Não travam a seca. Não impedem o furacão. Não restauram o equilíbrio
perdido. Mas ajudam-nos a resistir. A antecipar. A compreender o que está em
jogo. E, talvez, a preparar respostas mais inteligentes para um planeta que já
não se comporta como antes.
Vale a
pena pensar no que os ventos nos dizem. Porque, às vezes, é no ar — invisível,
impalpável — que se anuncia o futuro.
Um
documentário sobre Saint‑Malo levou‑me de volta a um dos últimos grandes
passeios de carro que fizemos além‑Pirenéus, antes da doença da Elza. Tínhamos
ido ao Monte Saint‑Michel numa visita há muito planeada e, antes de descermos
para sul, decidimos espreitar Saint‑Malo, onde pernoitaríamos.
Foi uma
passagem breve. Não tivemos tempo para passear ao longo das muralhas, nem para
perceber como estavam pensadas para resistir tanto a quem atacasse a cidade
pelo mar como a quem, de dentro, fizesse da fortaleza o seu alvo. Ficou tudo
por ver. Por sentir. Por compreender.
De comum
acordo, dissemos que seria apenas uma espreitadela. Voltaríamos com outra
disponibilidade. As férias aproximavam‑se do fim e a segunda‑feira obrigava a
regressar ao trabalho. Compreendia‑se a pressa: França inteira por atravessar,
depois Espanha, depois Portugal. A estrada chamava mais do que a cidade.
O
problema foi não termos tido oportunidade de voltar. Quando planeámos
concretizar esse retorno, apareceu a pandemia. E, durante ela, a situação que
condicionaria a Elza desde então. Saint‑Malo ficou suspensa nesse intervalo
entre o desejo e a impossibilidade. Um projeto de melhor conhecimento que nunca
partilharemos.
O
documentário carrega essa nostalgia. A do que queríamos fazer e as
circunstâncias não permitiram. A do que ficou por cumprir. A do que não
voltará.
E, no
entanto, há uma espécie de ternura nesse reconhecimento. Porque a memória não
precisa de completude para ser verdadeira. Basta o instante vivido — e o que
ele prometia.
Vale a
pena pensar nos lugares que ficaram por cumprir. São eles que, muitas vezes,
guardam a parte mais íntima da nossa história.
Só agora,
uma dúzia de anos depois da rodagem, vi o documentário de Sofia Marques sobre o
projeto do Teatro da Cornucópia de montar uma peça a partir de textos de
Federico García Lorca, recorrendo a atores amadores.
Ilusão fica como uma espécie de testamento.
Não apenas de um espetáculo, mas de um modo de fazer teatro que tinha em Luís
Miguel Cintra e Cristina Reis o seu eixo vital — e, noutros tempos, também se
concebeu com Jorge Silva Melo.
Testamento
porquê? Porque já ali se prenunciava o fim. A companhia parecia condenada desde
o momento em que os criadores deixariam de ter saúde para a dirigir. A
Cornucópia era um organismo vivo, mas dependente de dois corpos. E quando começaram
a fraquejar, o destino estava traçado.
O
documentário é, por isso, mais do que registo. É uma lição de teatro que
mostra, da cenografia à direção de atores, quanto trabalho invisível sustenta o
posto em cena. A preparação, a conceção, os ensaios, as dúvidas, os gestos
mínimos que constroem um espetáculo. A paciência artesanal que sempre distanciou
a Cornucópia do ruído à sua volta.
Para mim e
para a Elza, cornucopianos militantes, o filme devolve uma memória intensa. As
muitas horas em que saímos dali tão estimulados, tão despertos, tão tocados por
uma inteligência artística que não se repetia noutro lugar. Era um teatro que pedia
atenção. E, em troca, nos devolvia mundo.
Hoje, Ilusão
funciona como cápsula. Um fragmento de tempo preservado. O testemunho de que o
teatro, quando é verdadeiro, não morre — transforma‑se em memória ativa. E
continua a trabalhar dentro de nós.
Vale a
pena revisitar a Cornucópia com esta consciência do fim. Porque, às vezes, o
que desaparece é apenas o edifício que a abrigava.
Há filmes
de cuja existência se sabe há décadas e que se levam quase uma vida a ver. Sete
Vezes Mulher foi um desses para mim — quase sessenta anos a saber que
existia antes de finalmente lhe dedicar a noite. O resultado não foi
entusiasmo, apesar do argumento de Zavattini e de tantos atores e atrizes a
contracenarem com a hiperpresente Shirley MacLaine.
Sabe-se o
quanto foi complicado para De Sica gerir obra decente a partir do momento em
que o vício do jogo o levou várias vezes à falência, obrigando-o a projetos
apressados e sem verdadeiro empenho — embora o talento nunca deixasse de se
manifestar em pequenos apontamentos, mesmo nos filmes menores. Este é um desses
casos: o talento está lá, disperso, incapaz de se organizar numa obra coerente.
MacLaine
em sete papéis para explicitar outros tantos estereótipos de mulher, tais quais
se imaginavam antes de maio de 1968, não escapa à tentação do overacting em
alguns deles — como se sentisse precisar de compensar pela exiguidade de cada
episódio com um excesso de presença. Os comparsas de cada história parecem, por
seu lado, enfadados com o papel menor que lhes calhou, e esse enfado
transparece.
Não dou o
tempo por mal gasto — aprende-se sempre alguma coisa com os filmes menos bons,
e até nos maus filmes. Mas também nada perdi na minha cinefilia por só o ter
visto agora. Há filmes que a vida adia com justiça.