Há filmes
que ensinam cinema sem o pretenderem. O Comboio Apitou Três Vezes, de
Fred Zinnemann, rodado em 1952, é um desses: uma demonstração quase perfeita da
unidade aristotélica de tempo, lugar e ação — tudo decorre em tempo real, numa
única cidade, em torno de uma única questão. O xerife Will Kane tem de
enfrentar sozinho, ao meio-dia, os pistoleiros que vêm cobrar vinganças
antigas. A cidade deveria estar com ele. Não está. E é nessa ausência que o
filme vive.
A unidade
formal não é virtuosismo gratuito — é argumento. A contagem regressiva dos
relógios que Zinnemann intercala ao longo do filme torna o tempo físico,
palpável, quase insuportável. O espectador sente o meio-dia aproximar-se como
uma ameaça pessoal. É um dos mais eficazes usos do tempo no cinema clássico
americano.
Mas o
filme é também outra coisa. Carl Foreman, o argumentista, estava a ser
investigado pelo Comité das Atividades Antiamericanas quando escreveu o guião —
e a alegoria é tão transparente que surpreende ter passado. A comunidade que
abandona o indivíduo justo por medo ou conveniência, os vizinhos que fecham
portas e baixam persianas, os amigos que encontram mil razões para não se
comprometer — era o retrato da América do macarthismo, da caça às bruxas que
varria Hollywood e silenciava quem ousasse ter opiniões inconvenientes.
Foreman
foi obrigado a emigrar para Inglaterra antes de o filme estrear. John Wayne,
que recusou o papel de Kane por achar o filme "não americano", nunca
compreendeu ter rejeitado a personagem mais americana que o western já
produziu: a do homem que faz o que deve porque é o que deve ser feito, mesmo
abandonado por todos.



















