Reconheço
alguma razão nos que apontam a Truffaut a contradição de ter atacado o chamado
cinema do papá e, três décadas depois, ter rodado Le Dernier Métro, em que
replicava muito do que censurara em Decoin e outros realizadores do pós-guerra.
A juventude tem dessas urgências que a maturidade vai temperando — às vezes até
demais.
Reconheço-lhe
igualmente o estatuto de burguês a léguas das preocupações ideológicas do
antigo parceiro da Nouvelle Vague, Jean-Luc Godard. Onde um pensava o cinema
como arma, o outro pensava-o como sentimento, e essa diferença de temperamento
explica tanto do que os separou.
Mas a
obra não se resume aos filmes que me foram maçadores na parte final do percurso
— o já citado Le Dernier Métro ou La Femme d'à Côté. Há os
outros, que me agradaram desde Jules et Jim até ao ciclo Doinel, de L'Enfant
Sauvage a La Chambre Verte, que reveria com gosto no Nimas se
tivesse disponibilidade para tal.
Um
cineasta inteiro não se mede pelos seus piores filmes nem pelos melhores
isoladamente, mas pela soma — e a de Truffaut, mesmo com as contradições
burguesas e os deslizes tardios, continua a justificar a retrospetiva e a
saudade de a rever completa.
Num
documentário de Carmen Castillo, José Saramago constata que, um dia, quando a
Via Láctea for engolida pelo buraco negro do centro da galáxia, tudo
desaparecerá — não apenas o que somos, mas o que fomos, o que escrevemos, o que
construímos, o que amámos. Será como se nada tivesse existido.
A frase
não é trágica, apenas lúcida. E talvez por isso incomode: porque retira à
memória o privilégio e devolve ao tempo a indiferença.
No mesmo
documentário, Saramago discute com um astrofísico a natureza do tempo, entidade
que não se deixa medir pela experiência humana. O tempo não é linha, sucessão ou
calendário. É campo, curvatura, dimensão que nos ultrapassa. E quando pensamos
nisso, percebemos que a obsessão por preservar arquivos, monumentos, histórias
ou fotografias, é apenas tentativa de contrariar o que o universo faz
naturalmente: dissolver.
Talvez
por isso a canção Avec le temps, de Léo Ferré, mantenha a pertinência.
Não porque fala de amor perdido, mas por reconhecer que o tempo nada devolve.
Com o tempo, tudo se apaga, até ele mesmo se torna irrelevante. Ferré não canta
a perda; canta a erosão. A mesma que Saramago imagina à escala cósmica.
Transitemos
então para os dois primeiros episódios de uma série holandesa sobre o que está
a desaparecer. Tuvalu, que será engolida pelo mar dentro de algumas décadas,
como se fosse ensaio antecipado daquilo que acontecerá à galáxia inteira. Uma
ilha que se dissolve não é apenas território perdido; é cultura, língua,
memória, infância, futuro. É a demonstração de o tempo não ser abstrato: é
físico, água a subir, chão a desaparecer.
E no
mesmo conjunto de episódios surgem pessoas que tentaram o suicídio, não por
fraqueza, mas por exaustão: vencidas pela bulimia, pelo vício do sexo, pela
incapacidade de suportar o peso da própria consciência. Não há romantismo,
apenas o reconhecimento de que o tempo interior também corrói, engole e
destrói. O que desaparece não é apenas o corpo; é a possibilidade de continuar.
Entre
Saramago, Ferré, Tuvalu e essas vidas suspensas, forma‑se uma constelação realista
de perdas. O mundo desaparece. As ilhas desaparecem. As pessoas desaparecem. As
galáxias desaparecem. E, no entanto, continuamos a escrever, a cantar, a
filmar, a contar. Não para vencer o tempo, mas para o habitar enquanto ele nos
permite.
Talvez
seja essa a única resposta possível: aceitar que tudo se dissolve e, ainda
assim, continua a criar sentido. Como quem acende uma luz sabendo que ela não
iluminará o fim, mas ilumina o agora — e isso basta.
Impressiona
sempre que se visita Veneza: aquela cidade tão leve na aparência, tão frágil na
sua geometria de canais, assenta afinal sobre estacas de carvalho e larício
que, ao longo dos séculos, se tornaram mais densas do que qualquer metal, como
se a própria matéria tivesse decidido contrariar o destino da ruína que todos
lhe previam. A explicação é simples, mas não deixa de ser assombro: enterradas
na lama, privadas de oxigénio, as madeiras mineralizaram‑se, transformando‑se
em colunas pétreas, quase fósseis, capazes de sustentar o peso da cidade sem
ceder ao tempo.
Penso
nisto e noto como a resistência raramente coincide com a aparência. Veneza
parece frágil, mas é dura; parece prestes a afundar, mas insiste em permanecer;
parece obra de delicadeza, mas repousa sobre uma engenharia que só a paciência
dos séculos permite compreender. Há algo de simbólico nesta transformação lenta
da madeira em mineral: uma espécie de pacto entre o humano e o ambiente, pacto
que não se renova por decreto, mas por continuidade, por atenção, por essa
forma de cuidado que não se vê, mas sustenta.
E talvez
seja isso que mais fascina: a ideia de que a cidade vive graças ao que está
escondido, não se mostra, não se celebra. As estacas não têm monumento, placa,
nem narrativa heroica. São apenas matéria que resiste, silenciosa, invisível,
indispensável. E essa invisibilidade diz muito sobre o que mantém o mundo de pé
—nunca o que brilha, sempre o que permanece enterrado.
Veneza,
mais do que cidade, é lição: aquilo que parece vulnerável pode ser o que mais
resiste, e aquilo que julgamos sólido pode ser o que primeiro cede.
Sendo
ateu e marxista, aprecio as histórias de Lovecraft, passadas num universo
saturado de presságios, ruínas, criaturas que não pedem fé mas exigem
imaginação. Porque ele criou um mundo onde o sobrenatural não é religioso, mas
geológico, cósmico, quase científico, como se a ameaça viesse não de deuses,
mas da própria matéria do universo, indiferente ao humano.
Lovecraft
era conservador e racista, e não há como suavizar isso, mas a ficção operava
num plano que escapava à moralidade do autor, porque não dependia da crença, mas
da constatação de um medo sem conotação com um qualquer castigo: o mundo era
maior do que nós, mais antigo, estranho e indiferente.
Para quem
cresceu politicamente na crítica ao idealismo, há algo de curioso nesta
literatura que recusa transcendência e, ao mesmo tempo, a substitui por forças
que não pedem devoção, apenas reconhecimento da nossa insignificância.
Talvez
seja isso que atrai em Lovecraft: não oferece redenção, sentido ou conforto. A ficção
é materialista, porque tudo o que assusta é físico — mares, rochas, fungos,
criaturas que emergem de camadas profundas do tempo — e essa fisicalidade,
mesmo envolta em fantasia, aproxima‑se mais da ciência do que da religião. Não
há providência, moral, ou destino: apenas a vastidão do cosmos e a fragilidade
humana.
E depois
há a capacidade de sugerir mais do que mostrar, de construir terror pela
subtração, pela sombra, pela descrição incompleta, técnica, próxima da ética
narrativa que procuro: observar antes de julgar, insinuar antes de declarar,
deixar que o leitor habite o intervalo entre o que vê e o que imagina.
Lovecraft
deu azo a muita ambiguidade nas suas contradições, mas a obra, separada do
autor, oferece território onde o ateísmo não é obstáculo e o marxismo não é
desconforto: apenas leitura de um mundo onde o humano é pequeno e, ainda assim,
persiste.
A lenda
de Obélix a destruir o nariz da esfinge é daquelas invenções que a cultura
popular adota com entusiasmo, talvez porque a ficção oferece explicações mais
cómodas do que a história, mas a verdade é menos divertida e mais reveladora:
foi um pregador muçulmano, tomado por zelo fanático, quem decidiu atacar o
monumento, convencido de que os aldeões das redondezas lhe prestavam culto ao
deixarem legumes na base da estátua, gesto que ele interpretou como idolatria
intolerável.
Começou
pelo nariz, porque acreditava que era por ali que a esfinge respirava, como se
o rosto de pedra guardasse ainda algum sopro de vida, e preparava‑se para
destruir as orelhas quando o céu mudou de súbito, anunciando tempestade,
fenómeno que a tradição atribuía à própria esfinge, capaz de convocar ventos e
castigos. Religioso, mas também supersticioso, o pregador recuou, fugindo antes
que o céu lhe confirmasse o erro.
A
história não termina aí, porque a maldição que ele temeu acabou por encontrá‑lo
anos depois, já sob a dinastia mameluca, quando o poder político percebeu que
os monumentos seriam fulcro de interesse turístico e, portanto, fonte de
prestígio e riqueza. Identificado como autor do ataque, foi preso e executado,
não por razões teológicas, mas por crime contra o património, como se a pedra
tivesse finalmente reclamado justiça.
A relação
com os símbolos é sempre ambígua: ora se destrói por medo, ora se protege por
interesse, ora se inventam lendas para suavizar o que a história não consegue
esconder. E talvez seja essa oscilação que torna a esfinge tão persistente —
não como ruína, mas enquanto espelho das obsessões humanas.
Há filmes
de cuja existência se sabe há décadas e se leva quase uma vida para o ver. Sete
Vezes Mulher foi um desses para mim — quase sessenta anos a saber que
existia antes de finalmente lhe dedicar a noite. O resultado não foi
entusiasmo, apesar do argumento de Zavattini e de tantos atores e atrizes a
contracenarem com a hiperpresente Shirley MacLaine.
Sabe-se o
quanto foi complicado para De Sica gerir obra decente a partir do momento em
que o vício do jogo o levou várias vezes à falência, obrigando-o a projetos
apressados e sem verdadeiro empenho — embora o talento nunca deixasse de se
manifestar em pequenos apontamentos, mesmo nos filmes menores. Este é um desses
casos: o talento está lá, disperso, incapaz de se organizar numa obra coerente.
MacLaine
em sete papéis para explicitar outros tantos estereótipos de mulher, tais quais
se imaginavam antes de maio de 1968, não escapa à tentação do overacting
em alguns deles — como se sentisse precisar de compensar a exiguidade de cada
episódio com um excesso de presença. Os comparsas de cada história parecem, por
seu lado, enfadados com o papel menor que lhes calhou, e isso transparece.
Não dou o
tempo por mal gasto — aprende-se sempre alguma coisa com os filmes menos bons,
e até nos maus filmes. Mas também nada perdi na minha cinefilia por só o ter
visto agora. Há filmes que a vida adia com justiça.
Ouço
Alexandre Delgado a explicar a Nona de Shostakovich com a insistência em
sublinhar a dissociação do compositor em relação ao estalinismo, como se cada
análise tivesse de reafirmar a tensão entre o artista e o regime, e noto como
essa preocupação, embora legítima, acaba por criar uma espécie de filtro
ideológico que condiciona a escuta, como se a música precisasse de ser
protegida da sombra política que a rodeou.
Percebo o
saber do musicólogo, a precisão com que lê a partitura, a atenção aos detalhes
que revelam ironia, contenção, sarcasmo, mas também percebo como essa leitura
parece prisioneira de um preconceito antigo: a ideia de que Shostakovich só
pode ser compreendido se o imaginarmos em permanente confronto com Estaline,
como se o facto de ser celebrado pelo regime anulasse a complexidade da sua
obra ou a ambiguidade da sua posição.
Por mim,
gosto de toda a música de Shostakovich, da grandeza da Sétima à secura
calculada da Nona, e não vejo contradição em reconhecer que Estaline o prezava,
mesmo quando rejeitava a Lady Macbeth ou desconfiava das sinfonias que
se seguiram.
Há
ditadores que não leem, que não escutam, que não compreendem o valor simbólico
da arte; Estaline, com a sua biblioteca vasta, lia, e essa leitura, embora não
o redima, ajuda a explicar a relação ambivalente que manteve com o compositor.
É isso
que me interessa: a coexistência de admiração e censura, de poder e
fragilidade, de criação e vigilância, porque essa tensão não diminui
Shostakovich, antes ilumina a coragem silenciosa com que escreveu, sabendo que
cada nota podia ser interpretada como gesto político, mas recusando transformar
a música em manifesto.
Termino
com a sensação de que a obra resiste a todas as leituras ideológicas, e que o
verdadeiro desafio não é libertá‑la de Estaline, mas libertar‑nos da
necessidade de explicar tudo através dele.
Há sinais
que anunciam o fim antes de ele chegar, e talvez seja isso que agora paira
sobre o Festival Internacional de Teatro de Almada, como já aconteceu com os
Dias da Música no CCB, que desapareceram sem grande alarme público, embora
fosse um dos raros momentos em que a Grande Lisboa respirava cultura com
alegria, e a música fosse capaz de suspender por instantes a rotina e devolver
alguma ordem interior.
Ouço
Rodrigo Francisco explicar que os preços dos hotéis, das viagens, dos
transportes, dos equipamentos, dos cenários, subiram de tal forma que o
festival só sobreviverá com aumento significativo do subsídio, e percebo como
esta frase, tão simples, contém a radiografia de um país onde a cultura é
sempre a primeira vítima dos cortes, como se fosse luxo dispensável e não parte
essencial da saúde pública, que não se mede apenas em corpos, mas também em
imaginação.
Vivemos
num tempo em que tudo encarece menos o discurso político sobre a importância da
cultura, sempre tão generoso, tão inflamado, tão pronto a proclamar que sem
arte não há democracia, mas incapaz de transformar essa retórica em orçamento,
como se a cultura fosse entidade abstrata que se alimenta de declarações e não
de condições materiais para existir.
Vejo o
festival ameaçado pela mesma lógica que levou outros eventos ao
desaparecimento: a soma de custos que ninguém quer assumir, a falta de visão
que impede pensar a longo prazo, a ideia de que o público se adapta a qualquer
perda, como se a ausência não deixasse marcas, como se a cidade não ficasse
mais pobre quando um palco se apaga.
Termino
com a sensação de que estes tempos difíceis para a cultura não são conjuntura,
são sintoma, e que o verdadeiro risco não é perder um festival, mas habituar‑nos
a perdê‑los sem protesto, como quem aceita que o silêncio é inevitável.
A fratura
entre memória e realidade ganha outra espessura quando penso nos vinte e quatro
anos passados no mar, porque ali a distância entre o que acontece e poderia ter
acontecido é sempre mínima, quase impercetível, e cada tempestade, cada
incêndio, cada explosão lembra que a sobrevivência não é metáfora, é cálculo
fino, é atenção absoluta, é essa adaptação de que Darwin nunca escreveu mas que
a vida marítima confirma a cada minuto.
Recordo
noites em que o casco tremia como organismo vivo, aço a protestar contra a
força das ondas, e percebo como a memória transforma esse medo em narrativa,
como se o corpo, ao revisitar o perigo, precisasse de lhe dar forma para o
poder suportar, mas a realidade desses instantes era outra: não havia
simbolismo, não havia épica, apenas o som da água a bater, o cheiro do óleo, a
vibração das máquinas, a consciência de que bastava um erro, um acaso, um gesto
tardio para acabar no fundo de um dos oceanos que percorri.
Penso
também nos incêndios, na rapidez com que o fogo se espalha num navio, na forma
como o calor distorce o metal, na urgência de conter o avanço antes que a
estrutura ceda, e noto como a memória suaviza esses episódios, como se lhes
retirasse a violência para os tornar transmissíveis, mas a realidade era sempre
mais crua, imediata, física, exigindo decisões que não admitiam hesitação.
As
explosões, essas, deixaram marcas mais silenciosas: o estrondo que primeiro se
ouve, o silêncio que se segue, o inventário rápido do que ainda funciona, do
que se perdeu, do que pode ser reparado, e é nesse intervalo que a fratura
entre memória e realidade se abre, porque a memória tende a organizar o caos, a
dar-lhe sequência, enquanto a realidade se apresenta como fragmento, como
choque, como interrupção.
Talvez
por isso o mar seja território onde a consciência se afina: porque obriga a
aceitar que a vida pode mudar num segundo, que a segurança é sempre provisória,
que a adaptação não é virtude, é condição. E ao revisitar esses anos, percebo
que a memória não corrige a realidade, apenas a torna habitável, permitindo que
o que poderia ter sido fim se transforme em matéria de reflexão.
No
podcast do Público sobre cinema, a propósito do ciclo que a Cinemateca
prepara sobre Truffaut, aventa-se a contraposição inevitável com Godard.
Reconhece-se a este a intemporalidade da obra, sem se querer por isso
subestimar a do antigo parceiro dos Cahiers du Cinéma, mesmo sabendo-o
por demais datado em comparação.
Confesso
não repetir aqui a lógica de exclusão que assumo noutros campos — a que me leva
a depreciar Lobo Antunes, Camus ou Vargas Llosa em favor de Saramago, Sartre ou
García Márquez, respetivamente. Com Godard e Truffaut, a régua não funciona da
mesma maneira.
Gosto
muito, mesmo muito, de Godard. Le Mépris e Alphaville merecem
lugar no meu top 20 pessoal destes sessenta e muitos anos de vida a ver filmes.
Mas alguns Truffaut — Jules et Jim, L'Enfant Sauvage, La Nuit
Américaine — encaixam facilmente no top 50, e continuo a gostar deles
sempre que os revisito, o que não acontece com tudo o que envelhece.
Muito
diferentes enquanto cineastas, Godard e Truffaut são-me complementares e não
concorrentes. Gosto de ser desafiado pela inteligência do primeiro — esse
cinema que pensa sobre si próprio enquanto se filma. Mas deixo-me sensibilizar
pelo lado romanesco do segundo, que nunca teve vergonha de contar histórias com
o coração à vista.
Talvez
seja essa a diferença entre admirar e amar. Com Godard admiro. Com Truffaut, às
vezes, amo.
A
história de Fogo do Vento regressa à infância como quem abre uma porta
que nunca se fechou totalmente, porque a imagem dos trabalhadores a subir às
árvores para escapar ao touro bravo não é apenas cena de filme, é memória de um
território onde o risco fazia parte da paisagem e onde cada curva da azinhaga
podia esconder a surpresa que obrigava a pensar depressa, agir depressa,
sobreviver depressa.
Vejo o
capataz do filme a receber as marradas furiosas do animal enquanto os outros
observam de cima, protegidos pela altura, e reconheço nesse gesto coletivo uma
espécie de ritual antigo, momento em que o medo se transforma em narrativa, em
catarse, em troca de histórias que ligam o presente ao passado, como se cada
investida do touro convocasse todas as outras que já tinham acontecido.
Comigo
foi diferente, porque não havia grupo, apenas a minha tia Margarida e eu, dois
corpos apanhados de surpresa ao dobrarmos a curva entre Montenhoso e Costas de
Cão, e ainda hoje me impressiona a rapidez com que ela percebeu o perigo,
empurrando‑me para a figueira mais próxima, subindo logo atrás, sem hesitação,
como se a árvore fosse extensão natural da nossa defesa, abrigo improvisado
contra a fúria que vinha pela azinhaga.
Lá em
baixo, frustrado por não nos alcançar, o touro investiu contra o tronco com
violência que a figueira suportou graças à sua firmeza, e passámos ali parte da
manhã, pendurados nos ramos, atentos ao silêncio que sucedeu às marradas,
tentando adivinhar se o animal ainda rondava, se tinha desistido, se nos
esperava fora do nosso campo de visão.
Quando
finalmente descemos e alcançámos a aldeia, levávamos a história pronta para ser
contada, mas os ouvintes tinham as suas próprias versões, cada um com o seu
medo, cada um com a sua fuga, cada um com a sua árvore, e percebi então que a
aventura não era exceção, era parte de uma memória comum, território onde o
perigo circulava como personagem habitual e onde cada relato servia para
aliviar o susto e reforçar a pertença.
Não tenho
curiosidade por O Dia da Revelação — e ouvindo o Vasco Câmara e a
Alexandra Prado Coelho falarem da experiência enquanto espectadores vi
confirmado o que há muito sinto sobre a obra de Spielberg: as primeiras são de
um prazer inesgotável, e ele vai minguando à medida que os anos se lhe foram
acrescentando na biografia.
Duel e Tubarão têm a tensão pura
de quem ainda não sabe que é um génio e por isso filma com fome. Depois veio o
sucesso e com ele a solenidade — Schindler foi-me indiferente, Os
Fabelmans um enfado. Há realizadores que crescem com a maturidade e há os
que precisavam da urgência da juventude para serem grandes. Spielberg é dos
segundos.
Quanto à
tese dos extraterrestres entre nós, ela faz lembrar o que os anarquistas
espanhóis pichavam nas paredes há meio século a respeito da existência de Deus:
se andarem por aí o problema é deles. E pelos vistos também do Colin Firth, que
assume o papel de vilão-mor na história — o que é, convenhamos, uma forma
bastante inglesa de gerir uma invasão alienígena.
O cinema
de Spielberg envelheceu ao contrário do bom vinho. O que resta é rever o
tubarão de vez em quando e lembrar como era bom quando ainda havia dentes.
Sete anos
depois continuo a não apreciar Parasitas na dimensão que o transformou
em fenómeno mediático e potenciou os muitos prémios atribuídos. O desconforto
que sinto não é com a ambição do projeto mas com as escolhas que o realizam.
A família
de fura-vidas que se instala em casa dos ricos e descobre outra já lá escondida
clandestinamente é uma premissa com potencial — mas o que Bong Joon Ho faz com
ela incomoda-me pela ambiguidade moral com que traduz as relações de classe. Os
ricos são ingénuos até à caricatura, os pobres são sem escrúpulos até à
animalidade, e esta simetria é precisamente o problema: porque a realidade
social não é simétrica. A violência dos que detêm o poder no uso e usufruto
dele raramente aparece assim — normalmente é estrutural, invisível, exercida
através das instituições e das regras que fabricaram para si próprios.
Reduzi-la à ingenuidade é uma forma de a absolver.
O
incómodo é semelhante ao sentido há muito com Ettore Scola, esse suposto
realizador de esquerda que quis mostrar os de baixo como feios, porcos e maus —
título que era já um programa. Há um certo cinema que se proclama crítico e
acaba por confirmar os preconceitos que deveria desmontar, servindo ao público
a ilusão de uma reflexão social sem lhe exigir nenhuma.
Um filme
verdadeiramente incómodo sobre classes não faria rir a plateia tão
confortavelmente.
As
estampas japonesas sempre pareceram exercícios de serenidade perante o
inevitável, não por celebrarem a catástrofe, mas por a integrarem na paisagem reconhecendo
que a terra tem o próprio ritmo, por vezes violento, sem se deixar domesticar. É essa aceitação que distingue a cultura
japonesa, consciência antiga de concomitância entre a beleza e a ameaça sem que
uma anule a outra.
Um
pequeno filme lançado pelo município de Tóquio, três minutos de simulação que
mostram o Monte Fuji a despertar, não como figura poética, mas como força
geológica capaz de redesenhar a cidade num instante, surpreende-me por, das
vezes em que ali estive, sempre ter olhado para aquele cone perfeito como
presença tranquila, quase decorativa, sem imaginar um magma inquieto, ainda
vivo, capaz de romper a superfície com violência.
O que
mais impressiona, porém, não é a possibilidade da erupção, mas a diferença de
leitura entre quem produz o filme e quem o comenta à distância, porque enquanto
a imprensa internacional reage com alarmismo, como se cada imagem fosse
prenúncio de desastre iminente, o município de Tóquio apresenta o vídeo como
gesto de prevenção, exercício de cidadania, tentativa de preparar os habitantes
para o que pode acontecer sem transformar essa possibilidade em pânico.
Há aqui
uma ética da atenção que contrasta com o nosso hábito de dramatizar tudo, como
se a realidade só ganhasse importância quando amplificada. Talvez seja por isso
que o filme parece exemplar, não pela tecnologia usada, mas pela sobriedade com
que trata o risco, lembrando que a preparação não precisa de medo, apenas de
lucidez.
O Monte
Fuji, visto de longe, sempre foi símbolo de estabilidade, mas ela está na
capacidade de olhá-lo sabendo que pode mudar, e ainda assim continuar a viver
sem ceder ao alarmismo que tanto seduz quem prefere o espetáculo à compreensão.
A frase
não é de Darwin, mas tornou‑se tão repetida que já ninguém se preocupa com a
origem, como acontece com muitas ideias que a cultura transforma em evidência,
e talvez seja essa transformação que mais importa, porque o que nela se afirma
— a sobrevivência como arte de adaptação — descreve melhor o nosso tempo do que
qualquer tratado de biologia.
As
sociedades reagem às mudanças rápidas, quase sempre com atraso, resistência e a
esperança infantil de que o mundo volte ao estado anterior, como se a
estabilidade fosse um direito natural e não uma construção frágil, mantida à
custa de atenção, esforço e alguma coragem para aceitar o que não escolhemos.
Esta
dificuldade em adaptar‑se abre espaço para discursos que prometem regressos
impossíveis, como se a história pudesse ser rebobinada até um ponto
confortável, e é precisamente aí que os movimentos autoritários ganham força,
oferecendo simplicidade onde existe complexidade, ordem onde existe incerteza,
segurança onde existe apenas a necessidade de aprender a viver com o que muda.
A
adaptação não é submissão, é leitura lúcida do real, capacidade de ajustar o
gesto sem perder o sentido, e talvez seja isso que falta ao debate público,
sempre tão preso à retórica da força, da identidade, da pureza, como se a vida
fosse uma competição entre essências e não um exercício contínuo de
transformação.
A
verdadeira inteligência não está em resistir ao novo, mas em perceber o que
nele pode ser habitado sem perder a dignidade, e que esta arte discreta de
adaptação é, afinal, o que nos permite continuar sem nos tornarmos cúmplices
daquilo que sabemos ser perigoso.
Entro nos
setentas com o parlamento a discutir o estado da nação, cada gesto público suspenso
entre a promessa de mudança e a repetição cansada do que já vimos demasiadas
vezes, como se a história tivesse perdido o ímpeto e se limitasse a rodar em
círculos discretos, quase impercetíveis, mas suficientes para lembrar que nada
está garantido.
No rádio
do carro ouço um comentário político que transforma a realidade em espetáculo,
reduzindo a complexidade a slogans que se esgotam no instante em que são
proferidos, e noto como esta simplificação contínua cria terreno fértil para os
que preferem o ruído à análise, a fúria à responsabilidade, a certeza fácil ao
trabalho lento de compreender o mundo.
É nesse
terreno que os discursos autoritários encontram espaço para crescer, sempre com
a mesma máscara de novidade que engana quem já esqueceu o que custou aprender.
Recordo Max Ernst e o seu anjo doméstico,
criatura disforme que atravessou 1937 como aviso de que a violência pode nascer
do interior da casa, do quotidiano, da normalidade aparente, e percebo como a
imagem regressa - não como metáfora distante -, mas presença nos noticiários,
nas conversas, nos gestos de impaciência que criam hábito, e talvez seja essa infiltração
silenciosa o verdadeiro perigo, mais do que qualquer grito explícito.
Termino o
dia com a sensação de a vigilância não ser apenas política, mas também íntima,
exercício de atenção ao modo como pensamos, reagimos e deixamos que o medo ou a
exaustão nos tornem permissivos perante o inaceitável. Talvez seja esta
consciência, frágil mas persistente, a única forma de manter alguma clareza no
meio do nevoeiro.
A fratura
entre memória e realidade torna-se pertinente quando penso nos vinte e quatro
anos passados no mar, porque ali a distância entre o que acontece e o que
poderia ter acontecido é sempre mínima, quase impercetível, e cada tempestade,
cada incêndio, cada explosão lembra que a sobrevivência não é metáfora, é
cálculo fino, atenção absoluta, adaptação de que Darwin nunca escreveu mas que
a vida marítima confirma a cada minuto.
Recordo
noites em que o casco tremia como organismo vivo, aço a protestar contra a
força das ondas, e percebo como a memória transforma esse medo em narrativa,
como se o corpo, ao revisitar o perigo, precisasse de lhe dar forma para o
poder suportar, mas a realidade desses instantes era outra: não havia
simbolismo, não havia épica, apenas o som da água a bater, o cheiro do óleo, a
vibração das máquinas, a consciência de que bastava um erro, um acaso, um gesto
tardio para que acabasse no fundo de um dos oceanos que percorri.
Penso
também nos incêndios, na rapidez com que o fogo se espalha num navio, na forma
como o calor distorce o metal, na urgência de conter o avanço antes que a
estrutura ceda, e noto como a memória suaviza esses episódios, como se lhes
retirasse a violência para os tornar transmissíveis, mas a realidade era sempre
mais crua, imediata e física, exigindo decisões que não admitiam hesitação.
As
explosões, essas, deixaram marcas mais silenciosas: o estrondo que primeiro se
ouve, o silêncio que se segue, o inventário rápido do que ainda funciona, do
que se perdeu, do que pode ser reparado, e é nesse intervalo que a fratura
entre memória e realidade se abre, porque a memória tende a organizar o caos, a
dar-lhe sequência, enquanto a realidade apresenta-se como fragmento, choque, interrupção.
Talvez
por isso o mar seja território onde a consciência se afina: porque obriga a
aceitar que a vida pode mudar num segundo, a segurança é sempre provisória, a
adaptação não é virtude, é condição. E ao revisitar esses anos, percebo que a
memória não corrige a realidade, apenas a torna habitável, permitindo que o que
poderia ter sido fim se transforme em matéria de reflexão.
Como
dizem os italianos: se non è vero, è ben trovato. A história do
lavagante que vai alimentando o preguiçoso safio na sua toca, engordando‑o até ficar
ali encurralado e ser altura dele avançar, é uma dessas metáforas perfeitas.
José Cardoso Pires usou‑a com mestria. E António‑Pedro Vasconcelos queria fazer
dela o seu último filme —que já não teve tempo de rodar, incumbindo-se Mário
Barroso do projeto...
Tanto
tempo passou desde que o escritor congeminou essa imagem, e continua a fazer
pleno sentido. Ou não estivéssemos novamente ameaçados por uma ideologia que
julgávamos prescrita para nunca mais. O lavagante continua paciente e o safio distraído.
E o desfecho, se nada mudar, repete‑se.
Por estes
dias, o genocídio dos gastrópodes — acompanhado de muitos litros de cerveja —
prosseguiu alegremente à conta do “patrioteirismo” estúpido que se alimentou da
seleção nacional em terras americanas. Antes disso, era a beatice da
peregrinação anual a Fátima. O futebol e a Cova da Iria funcionam como
anestésicos sociais. Amolecem as mentes. Desviam a atenção. Criam a ilusão de
pertença enquanto o essencial se perde.
E, assim
distraídas, as pessoas permitem os avanços dos vampiros cantados por Zeca
Afonso. Eles não desapareceram. Apenas mudaram de roupa. A metáfora do
lavagante e do safio continua a ser aviso, diagnóstico, retrato de um país que,
demasiadas vezes, prefere o ritual à vigilância.
Pensar no
que esta metáfora diz é reconhecer que o essencial não mudou. O lavagante
continua a existir. O safio também. E o mecanismo que os une permanece intacto:
um alimenta, o outro adormece.
A força
da metáfora está na simplicidade. O predador não ataca de imediato. Cria
conforto. Oferece alimento. Garante rotina. E, quando o safio já não distingue
cuidado de captura, fecha a toca.
É assim
que o poder autoritário avança. Não com violência inicial, mas com sedução. Com
distrações. Com rituais que ocupam o espaço mental. Com entusiasmos que parecem
inofensivos. Com pertenças que dispensam pensamento.
O safio representa
a sociedade quando abdica da vigilância, confunde estabilidade com segurança, aceita
que o essencial seja decidido por outros e se deixa embalar por festividades,
por patriotismos de ocasião, por devoções que substituem a reflexão.
A
metáfora diz que o perigo não se anuncia como tal. Chega mascarado de
normalidade. De festa. De tradição. De identidade. E, quando damos por isso, já
estamos encurralados na toca que julgávamos nossa.
Por isso
vale a pena pensar no que esta metáfora diz como quem observa um aviso antigo
que continua a funcionar. Não para viver em sobressalto, mas para evitar a
anestesia. Porque, se não reconhecermos o lavagante, acabamos ser sempre o
safio.
Há filmes
que se recordam por uma imagem, outros por uma interpretação, e este por uma
banda sonora — o que não é pouco quando a banda sonora é Miles Davis a
improvisar em 1957 numa sessão noturna de estúdio, deixando a trompete seguir a
errância de Jeanne Moreau pelas ruas de Paris como se a estivesse a inventar em
tempo real. A improvisação era o seu método e aqui tornou-se também o método do
filme: música e imagem a descobrirem-se mutuamente, sem rede.
Jeanne
Moreau não vale elogios enumerados — todos em si a apoucariam. O que faz neste
filme é caminhar, olhar montras, fumar, esperar, e nesse aparente nada
construir um retrato de desejo e de angústia que dispensava qualquer diálogo
explicativo. A câmara seguia-a e bastava.
Maurice
Ronet cumpre o papel complementar com uma economia de meios que trai a escola —
Malle servira de assistente a Bresson, e aprendera com ele que os gestos que
manipulam objetos dizem mais do que os rostos que declaram sentimentos. Ronet
abre fechaduras, puxa cordas, acende cigarros, e nessa sucessão de gestos
constrói um homem que julgou ter cometido um crime perfeito e descobre que a
perfeição é uma ilusão cara.
O
elevador parado entre andares é a metáfora mais simples e mais eficaz do filme:
o crime que deveria libertar e aprisionou, o amante que deveria chegar e não
chega, Paris lá fora indiferente a tudo.
A
Trafaria foi território da minha infância. Não por acaso, mas por necessidade:
ali vivia uma amiga da minha mãe, que conheci já acamada, e a quem ela dava
algum apoio. Daí ter passado muitas tardes na praia, quase ao lado da casa da
Rua Heliodoro Salgado. Aquele pedaço de areia, ainda sem o terminal de cereais,
nem a poluição que hoje torna a água quase imunda, ficou como memória
agradável. Um lugar simples, sem artifícios, onde o tempo parecia correr
devagar.
Não
espanta, por isso, que tivesse alguma expectativa em relação ao documentário
que Pedro Florêncio rodou com alunos da Nova FCSH, recorrendo à participação
ativa de vários habitantes. A ideia era boa. O conceito, interessante. E o
resultado tem valor documental, sobretudo pela forma como dá voz a quem
raramente a tem.
Mas esta
não é, decerto, a minha Trafaria. A que guardo não cabe no ecrã. Não cabe na
narrativa escolhida. É feita de cheiros, de luz, de tardes longas, de uma
inocência que não se filma. É feita da presença da minha mãe, da amiga, da
praia que parecia imensa aos olhos de um miúdo. E é feita, sobretudo, de um
tempo anterior à degradação que hoje marca aquele território.
O
documentário mostra uma Trafaria real. A minha memória guarda outra. E não há
contradição nisso. Há apenas a distância inevitável entre o que vivemos e o que
o presente devolve. Entre o lugar que existiu e o lugar que existe. Entre o que
ficou em nós e o que ficou no mundo.
Vale a
pena pensar nesta fratura entre memória e realidade. Porque, muitas vezes, o
que perdemos não é o território — é o tempo que o habitava.
Pensar na
fratura entre memória e realidade é aceitar que vivemos sempre em dois lugares
ao mesmo tempo. O lugar que existiu. E o lugar que existe. Entre ambos abre‑se
uma fissura que não é defeito — é condição humana.
A memória
trabalha com luz própria. Seleciona. Atenua. Amplifica. Protege. E, às vezes,
inventa. Não por falsidade, mas por necessidade: precisamos de organizar o
passado para que ele não nos esmague.
A
realidade, pelo contrário, é indomável. Não se curva ao que sentimos. Não
preserva o que nos marcou. Não tem obrigação de coincidir com o que guardámos.
E é nesse desencontro que nasce a fratura.
Quando
regressamos a um lugar da infância, percebemos isso com nitidez. O território
mudou — mas fomos nós que mudámos mais. A memória guardou a luz, o cheiro, a
textura dos dias. A realidade devolve o desgaste, a transformação, a erosão. E
o choque entre ambas não é derrota: é revelação.
A fratura
entre memória e realidade é, no fundo, o espaço onde se forma a consciência. É
ali que percebemos que o passado não volta, o presente não se repete. E que o
que permanece não é o lugar — é o vínculo.
Por isso
vale a pena pensar na fratura entre memória e realidade como quem observa uma
cicatriz. Não para lamentar o que se perdeu, mas para reconhecer o que ficou. E
para aceitar que a memória, sendo imperfeita, é ainda assim o mais fiel dos
abrigos.