O Funchal
vai acabar desmanchado a maçarico num estaleiro turco. Foi arrematado em leilão
por quem o comprou ao peso do aço, que é o preço a que se vendem no fim as
coisas que um dia foram belas. Conheci-o por dentro, como tripulante, nos anos
em que o armador Potamianos lhe devolveu o fulgor — depois de ter sido a joia
da Marinha Mercante e, antes disso, o iate de recreio que o almirante Thomaz e
a esposa julgavam seu. Um navio não escolhe quem transporta. Serve quem paga.
Foi numa
dessas viagens que assisti a um momento que só agora, ao rever A Ponte do
Rio Kwai, percebo por inteiro. O navio fora fretado por uma organização
alemã de nostálgicos do nazismo, que o levou aos lugares do Mar do Norte onde
os seus submarinos tinham sido afundados na guerra, para ali cumprirem
cerimónias de homenagem. Numa dessas noites, depois de um jantar opíparo, o
conjunto que animava o Salão Porto tocou a marcha do filme de David Lean. Caiu
sobre a sala um silêncio glacial. Os músicos não tinham intenção nenhuma:
tocavam o reportório que os levava de navio em navio. Mas a música sabia o que
eles não sabiam.
A marcha
que os prisioneiros ingleses assobiam no filme é a Colonel Bogey,
composta em 1914. Durante a Segunda Guerra, os soldados britânicos cantavam-na
com uma letra obscena que troçava da anatomia de Hitler. Lean não a pôs no
filme por acaso: os prisioneiros assobiam-na em vez de a cantar, e qualquer
espectador inglês de 1957 completava a letra de cabeça. Aqueles convivas
alemães, de uma certa idade e de uma certa memória, completaram-na também. O
assobio era um insulto, e quarenta anos depois continuava a sê-lo.
Revi o
filme com a distração de quem já o conhece, e a primeira hora aborreceu-me. O
coronel Nicholson de Alec Guinness, prisioneiro dos japoneses na selva
birmanesa, encontra na construção de uma ponte para o inimigo o sentido que a
derrota lhe tirou: mostrar que os ingleses fazem melhor, manter a disciplina,
deixar obra feita. Lean filma esta obstinação com uma paciência que hoje pesa.
O patriotismo que paira sobre as personagens, a honra do regimento, a
superioridade do engenheiro britânico — tudo isso envelheceu mal, e o filme
vê-se hoje sobretudo como documento do que era um grande sucesso popular do seu
tempo.
E no
entanto, enquanto me aborrecia, reparei que o filme falava do Funchal. E
dos músicos do Salão Porto.
O tema de
A Ponte do Rio Kwai não é o patriotismo. É a obra bem feita indiferente
ao fim que serve. Nicholson não é um traidor, é pior: é um profissional. A
ponte é boa, sólida, digna do orgulho de quem a construiu, e serve para
transportar as tropas japonesas. A tragédia está toda nessa dissociação, que o
filme percebe melhor do que eu lhe reconhecia: o homem que se orgulha do
trabalho sem perguntar para que serve o trabalho. Quando William Holden chega
para a destruir, o confronto não é entre duas nações, é entre duas éticas — a do
objeto bem feito e a do uso que lhe é dado. E Nicholson, no fim, quase defende
a ponte contra os seus próprios compatriotas, antes de perceber, tarde de mais,
o que andou a fazer.
O navio
era isso. Belo, bem construído, obra de engenheiros e operários que se
orgulharam dele, transportou um almirante de um regime, turistas de vários
países, e uma noite um grupo que ia homenagear os submarinos de Hitler. Nunca
perguntou nada. Os músicos também não: tocavam bem o que lhes mandavam tocar. A
diferença é que, naquela noite, a marcha rebentou-lhes nas mãos como a ponte
rebenta nas de Nicholson — o sentido que eles ignoravam impôs-se sozinho.
Há uma
ironia maior, que o filme não conta mas que a sua história conta por ele. O
argumento foi escrito por Carl Foreman e Michael Wilson, dois homens que
Hollywood pusera na lista negra durante a caça às bruxas de McCarthy, por se
recusarem a colaborar com a comissão de atividades antiamericanas. Não puderam
assiná-lo. O Óscar foi para Pierre Boulle, autor do romance, que não escrevera
uma linha do guião em inglês. Só em 1984 a Academia lhes devolveu os créditos.
Um filme sobre um homem que colabora com o inimigo por orgulho profissional foi
escrito por dois homens punidos por se recusarem a colaborar. Nicholson
construiu a ponte; Foreman e Wilson recusaram-se a construí-la, e pagaram por
isso.
E há
outra ausência, que pesa mais. A ferrovia da Birmânia, a que os sobreviventes
chamaram a Ferrovia da Morte, matou cerca de doze mil prisioneiros aliados e
muitas dezenas de milhares de trabalhadores asiáticos, recrutados à força. No
filme de Lean, estes últimos praticamente não existem. A tragédia é inglesa, o
heroísmo é inglês, a loucura é inglesa. Os mortos que mais morreram ficaram
fora do quadro. É também por isso que o filme envelheceu mal: não por causa do
patriotismo, mas por causa de quem o patriotismo deixa de fora.
Que nos
diz o filme agora? Que a pergunta de Nicholson nunca deixou de ser feita.
Vivemos rodeados de engenheiros, gestores, técnicos que se orgulham do que
fazem e não perguntam para que serve — e de obras bem feitas ao serviço de quem
as paga. E vivemos num tempo em que os nostálgicos que fretaram o Funchal
já não precisam de um navio para as suas cerimónias: têm partidos, têm votos,
têm assento em parlamentos europeus. A marcha que os gelou numa noite do Mar do
Norte continuava a dizer a verdade. Talvez valha a pena voltar a assobiá-la.
O filme
termina com um médico a olhar para os destroços e a repetir uma só palavra:
loucura. Mais do que o patriotismo, é essa palavra que fica, e é ela que salva
o filme do tempo. O Funchal não terá direito a epitáfio nenhum. Fica-lhe
este, de um antigo tripulante: serviu toda a gente, e uma noite, sem querer,
serviu a verdade.











