Há romances que constroem a tensão pelo segredo; outros, mais raros, pela revelação imediata. Chanson douce pertence a esta segunda espécie. Desde as primeiras páginas sabemos o essencial — que as crianças morrerão às mãos da ama. O que se segue não é, portanto, um enigma policial, mas uma dissecação moral. A pergunta deixa de ser quem? ou como? e passa a ser porquê? — e, mais incómodo ainda, com que cumplicidades invisíveis?
O casal que contrata Louise (nome que depressa adquire uma ressonância inquietante) encarna uma modernidade urbana reconhecível: duas carreiras exigentes, uma parentalidade desejada mas comprimida pelo tempo, uma confiança depositada na profissionalização do cuidado. Não há negligência ostensiva, nem desamor. Há, isso sim, a convicção — profundamente contemporânea — de que o afeto pode ser delegado sem que se dilua.
Slimani instala aí o seu primeiro desconforto. A ama surge como solução perfeita: disponível, meticulosa, devotada até ao excesso. Torna-se indispensável, infiltra-se na intimidade doméstica, aprende os ritmos da casa melhor do que os próprios pais. A harmonia aparente constrói-se sobre uma transferência silenciosa de autoridade: quem cuida conhece; quem conhece decide; quem decide exerce poder.
O romance recusa, contudo, a simplificação psicológica. Louise não é um monstro súbito, nem uma figura unívoca da loucura. A autora vai revelando as fissuras: precariedade económica, solidão, humilhações acumuladas, invisibilidade social. O que se insinua é menos a patologia individual do que uma forma de esmagamento estrutural. A ama vive num limbo de classe — íntima sem ser igual, indispensável sem ser reconhecida.
É nesse território que o livro se torna politicamente incómodo. A relação entre patroa e empregada é atravessada por uma cordialidade tensa, feita de gratidão, paternalismo e distância. O amor pelos filhos dos outros convive com a consciência amarga de não possuir nada. O cuidado, que deveria humanizar, converte-se em instrumento de alienação.
Ler Chanson douce hoje é inevitavelmente lê-lo à luz do debate sobre o trabalho feminino. O romance parece suspenso entre dois discursos que raramente se escutam. Por um lado, a exaltação da realização profissional das mulheres — a conquista legítima do espaço público, da autonomia económica, da identidade para além da maternidade. Por outro, a nostalgia conservadora que as reinscreve no lar como destino “natural”, desvalorizando qualquer delegação do cuidado.
Slimani não valida nenhum destes polos. Limita-se a expor a fricção. A emancipação de umas depende, muitas vezes, do serviço mal pago de outras. A liberdade profissional pode coexistir com novas formas de desigualdade feminina. A casa, longe de ser refúgio, torna-se palco de relações de poder subtis, onde afeto e hierarquia se confundem.
O mais perturbador é que o romance nunca absolve inteiramente ninguém. Nem os pais, absorvidos pelo trabalho mas genuinamente amorosos; nem a ama, vítima de um sistema mas autora do irreparável. O crime final, já anunciado, deixa de ser apenas um ato individual para adquirir uma dimensão quase alegórica: o colapso de uma confiança social fundada na desigualdade.
A escrita de Slimani é seca, contida, quase clínica. Não procura a comoção fácil. Observa, disseca, aproxima-se dos gestos mínimos — uma refeição, um banho, uma canção sussurrada — até que o quotidiano se torna opressivo. A doçura do título funciona como ironia sombria: a canção que embala é a mesma que conduz ao abismo.
No fim, fica uma inquietação que ultrapassa o enredo. Chanson douce não é apenas a história de um crime doméstico; é uma reflexão sobre o preço invisível da organização contemporânea do cuidado, sobre a solidão nas grandes cidades, sobre a maternidade partilhada e as hierarquias que a sustentam. Um romance breve, mas de ressonância longa — desses que não acusam, mas deixam o leitor a interrogar-se sobre a arquitetura moral do seu próprio quotidiano.


