Há
viagens que se fazem por procuração, e esta é uma delas. Sei, com a certeza
tranquila que a idade traz a certas renúncias, que nunca descerei a um abismo.
Não chega
a ser fobia, que esta tem qualquer coisa de dramático e eu não gosto de
dramatizar os limites, mas é uma recusa do corpo que a razão subscreve sem
discutir.
Imagino a
corda, a pedra húmida, a escuridão que não é noite porque esta tem sempre um
céu por cima, e sobretudo imagino o instante em que a passagem se estreita, o
capacete raspa no teto, os ombros procuram um ângulo que talvez não exista, e o
pensamento, que até ali se portara bem, formula a única pergunta que importa: e
se eu ficar aqui?
Foi com
esse corpo relutante que vi Il Buco, de Michelangelo Frammartino, e
talvez por isso o filme me incomodou.
Em agosto
de 1961, um grupo de jovens espeleólogos do Piemonte atravessou a Itália para
explorar o Abisso del Bifurto, no maciço do Pollino, na Calábria. Chegaram a
cerca de 680 metros, uma das maiores profundidades então conhecidas.
É tudo o
que é preciso saber, e é quase tudo o que o filme diz, porque Frammartino
recusa a palavra como quem recusa um atalho. Não há diálogos que expliquem, nem
heróis que confessem o medo, nem uma música que diga quando devemos suster a
respiração. Há o som da água a escorrer, o eco de uma voz que chama lá em cima,
o tilintar metálico do equipamento, e sobretudo o silêncio, que não é ausência
de som, mas uma substância.
A
fotografia de Renato Berta merece um parágrafo inteiro. Lá em baixo, a única
luz é a que os homens levam consigo: lanternas de capacete, e folhas de papel
acesas que deixam cair no vazio para medir a profundidade do poço seguinte.
Essas chamas que descem, oscilando, iluminando por instantes paredes que nenhum
olho humano vira antes, e depois se apagam no fundo que não conseguimos ver,
são imagens sugestivas. O escuro não é o negro chapado de um ecrã avariado: tem
textura, profundidade, graus. Berta filma a escuridão como outros filmam a
paisagem, e percebemos que a gruta é uma paisagem que se recusa a ser vista por
inteiro.
E é aqui
que o medo encontra o seu lugar. Frammartino não filma a claustrofobia, que
seria o caminho fácil do cinema de género, com a câmara colada ao rosto em
pânico e a respiração ofegante na banda sonora. Testemunha a exploração com planos
longos, fixos, pacientes, e é precisamente essa calma que inquieta.
Os
espeleólogos esgueiram-se por passagens onde eu não passaria, e o filme não
sublinha nada, não pede aplauso, não pede sequer que tenhamos medo por eles.
Deixa-nos sozinhos com o nosso. Descobri, a ver Il Buco, que o medo de
ficar preso não precisa de ser encenado para ser sentido; basta que a câmara
não dê a saída.
Lá em
cima, entretanto, corre outro filme por outro caminho. Um velho pastor, que
Frammartino foi buscar à própria região e que não é ator, observa os
forasteiros de longe, chama o gado pelo vale com gritos que ecoam como se a
montanha lhe respondesse, e adoece. A morte aproxima-se ao mesmo ritmo a que os
jovens se afundam nas profundezas. As duas linhas nunca se tocam de forma
explícita, e a montagem tem a inteligência de não as forçar. Uma desce ao fundo
da terra, a outra desce ao fundo da vida, e nenhuma delas é comentada.
O pastor
morre como viveu, sem testemunhas que lhe deem importância histórica. Os
espeleólogos cartografam um abismo que ninguém lhes pedira para medir. Ambos os
movimentos são, à sua maneira, inúteis, mas também essenciais.
Há, logo
no início, um momento que funciona como chave. Na aldeia, os habitantes veem na
televisão imagens do arranha-céus Pirelli, acabado de erguer em Milão. É a
Itália do milagre económico, a que sobe, a que se mostra, a que olha para o
futuro de baixo para cima. E os rapazes do Norte industrial vêm ao Sul pobre
não para construir, mas para descer. Frammartino não faz disto uma tese, deixa
a imagem da torre pousada no filme como uma pedra no caminho, e cabe-nos a nós
tropeçar nela.
Pergunto
o que diz este filme ao nosso tempo, e a resposta parece clara. Vivemos numa
época que só concede valor ao que se vê, se partilha e se mede em números de
visualizações. Tudo sobe: torres, gráficos, vozes.
Il
Buco propõe o
gesto inverso, o de descer ao que não se vê, sem plateia, sem transmissão em
direto, pelo simples desejo de saber o que está lá em baixo. E propõe também
uma atenção ao que morre em silêncio nesse mundo rural que continua a
esvaziar-se no Sul de Itália - como no interior português -, sem que nenhuma
câmara lhe preste a homenagem de um plano demorado. O filme é essa homenagem.
Não
descerei nunca a um abismo, mas passei hora e meia dentro de um, guiado por
homens que não conheço e por uma luz que eles próprios carregavam E conclui-o
com a sensação estranha de ter estado muito fundo e regressado inteiro. É o que
o cinema às vezes faz por nós: leva o corpo que temos aonde ele não quer ir.

















