A
Trafaria foi território da minha infância. Não por acaso, mas por necessidade:
ali vivia uma amiga da minha mãe, que conheci já acamada, e a quem ela dava
algum apoio. Daí ter passado muitas tardes na praia, quase ao lado da casa da
Rua Heliodoro Salgado. Aquele pedaço de areia, ainda sem o terminal de cereais,
nem a poluição que hoje torna a água quase imunda, ficou como memória
agradável. Um lugar simples, sem artifícios, onde o tempo parecia correr
devagar.
Não
espanta, por isso, que tivesse alguma expectativa em relação ao documentário
que Pedro Florêncio rodou com alunos da Nova FCSH, recorrendo à participação
ativa de vários habitantes. A ideia era boa. O conceito, interessante. E o
resultado tem valor documental, sobretudo pela forma como dá voz a quem
raramente a tem.
Mas esta
não é, decerto, a minha Trafaria. A que guardo não cabe no ecrã. Não cabe na
narrativa escolhida. É feita de cheiros, de luz, de tardes longas, de uma
inocência que não se filma. É feita da presença da minha mãe, da amiga, da
praia que parecia imensa aos olhos de um miúdo. E é feita, sobretudo, de um
tempo anterior à degradação que hoje marca aquele território.
O
documentário mostra uma Trafaria real. A minha memória guarda outra. E não há
contradição nisso. Há apenas a distância inevitável entre o que vivemos e o que
o presente devolve. Entre o lugar que existiu e o lugar que existe. Entre o que
ficou em nós e o que ficou no mundo.
Vale a
pena pensar nesta fratura entre memória e realidade. Porque, muitas vezes, o
que perdemos não é o território — é o tempo que o habitava.
Pensar na
fratura entre memória e realidade é aceitar que vivemos sempre em dois lugares
ao mesmo tempo. O lugar que existiu. E o lugar que existe. Entre ambos abre‑se
uma fissura que não é defeito — é condição humana.
A memória
trabalha com luz própria. Seleciona. Atenua. Amplifica. Protege. E, às vezes,
inventa. Não por falsidade, mas por necessidade: precisamos de organizar o
passado para que ele não nos esmague.
A
realidade, pelo contrário, é indomável. Não se curva ao que sentimos. Não
preserva o que nos marcou. Não tem obrigação de coincidir com o que guardámos.
E é nesse desencontro que nasce a fratura.
Quando
regressamos a um lugar da infância, percebemos isso com nitidez. O território
mudou — mas fomos nós que mudámos mais. A memória guardou a luz, o cheiro, a
textura dos dias. A realidade devolve o desgaste, a transformação, a erosão. E
o choque entre ambas não é derrota: é revelação.
A fratura
entre memória e realidade é, no fundo, o espaço onde se forma a consciência. É
ali que percebemos que o passado não volta, o presente não se repete. E que o
que permanece não é o lugar — é o vínculo.
Por isso
vale a pena pensar na fratura entre memória e realidade como quem observa uma
cicatriz. Não para lamentar o que se perdeu, mas para reconhecer o que ficou. E
para aceitar que a memória, sendo imperfeita, é ainda assim o mais fiel dos
abrigos.



















