Há um
filme que Pasolini realizou em 1966, com Totò no seu derradeiro papel, que
parece ter sido escrito para ser reencontrado precisamente agora — não porque
preveja com exatidão o presente, mas porque diagnostica um mal que se revela,
sessenta anos depois, ainda por resolver: o divórcio entre a esquerda que pensa
e o povo que deveria ser o seu sujeito histórico.
A
estrutura do filme é, à primeira vista, uma fábula simples: Totò e Ninetto, pai
e filho, percorrem uma estrada que atravessa tanto o espaço quanto o tempo — os
subúrbios pobres de Roma, mas também, nalguns momentos, a Idade Média —,
acompanhados por um corvo falante que se apresenta, sem ironia disfarçada, como
intelectual marxista. O corvo comenta, interpreta, teoriza sobre tudo o que
veem, num fluxo verbal constante que Pasolini filma com um misto de ternura e
exasperação crescente. É essa ambivalência que torna a personagem tão
interessante: o corvo não é ridicularizado por estar errado — as suas análises
são, em grande parte, lúcidas —, mas por falar uma língua que os dois
vagabundos que o acompanham não partilham verdadeiramente. Ele fala sobre o povo;
não fala com o povo. E essa distância, mínima mas intransponível, é exatamente
o problema que hoje se reconhece, com dolorosa atualidade, numa esquerda que
continua a produzir análises corretas sobre a exploração de classe enquanto vê
essa mesma classe, cada vez mais, procurar respostas — erradas, mas
emocionalmente eficazes — na extrema-direita.
A
parábola que o corvo narra dentro do próprio filme é, nesse sentido, o núcleo
teórico de toda a obra. Totò e Ninetto tornam-se frades franciscanos
encarregados de evangelizar os pássaros — primeiro os passarinhos, depois os
gaviões — com a mensagem do amor universal. Conseguem-no, com esforço e
dedicação genuína: aprendem a língua de cada espécie, transmitem a mensagem, e
por um instante parece que a fraternidade evangélica triunfou sobre a natureza.
O instante dura pouco. Mal a pregação termina, os gaviões voltam a caçar e a
devorar os passarinhos, porque é essa a sua natureza, porque a lei da
sobrevivência não se dobra perante o sermão, por mais sincero que seja. É a
luta de classes traduzida para a ordem natural, e é também, cruamente, uma
alegoria sobre os limites de qualquer discurso — religioso ou ideológico — que
pretenda alterar estruturas de poder apenas através da persuasão moral, sem
tocar nas condições materiais que produzem a predação.
E é isso,
precisamente, que o final do filme literaliza com uma violência quase cómica:
Totò e Ninetto, esfomeados, acabam por matar e comer o corvo. A teoria é
devorada pela necessidade do estômago. Não há gesto mais exato para descrever o
que Pasolini via já em 1966 como o risco fatal de todo o intelectualismo de
esquerda: pode ter razão em tudo o que diz, mas se não responde à fome imediata
de quem o escuta, acaba por ser consumido — silenciado, descartado —
precisamente por aqueles a quem pretendia servir. É difícil não ler nisto um
espelho antecipado da esquerda contemporânea, que continua a apresentar
análises rigorosas sobre precariedade, desigualdade e exploração, enquanto
grandes parcelas da classe trabalhadora, cansadas de esperar por uma redenção
material que tarda, se deixam seduzir pelos prazeres imediatos e ilusórios que
a extrema-direita lhes oferece — um inimigo simples de apontar, uma identidade
a defender, uma promessa de dignidade recuperada que não exige esperar por
nenhuma revolução.
O funeral
de Togliatti, cuja filmagem de arquivo Pasolini insere no meio da ficção,
funciona como a segunda grande imagem-tese do filme. Ao mostrar as multidões
reais que se despedem do fundador do Partido Comunista Italiano, com sinais da
cruz misturados a punhos erguidos, Pasolini não está apenas a documentar um
acontecimento histórico — está a enterrar, com ele, uma certa forma de marxismo
ortodoxo italiano, deixando as massas subitamente sem guia claro. É uma imagem
de luto genuíno, mas também de um vazio que o filme não finge poder preencher.
Sessenta anos depois, esse vazio não apenas persiste como se aprofundou: a
esquerda que deveria renascer das cinzas daquele funeral continua, em larga
medida, incapaz de recuperar a relevância que perdeu, presa entre um
intelectualismo que fala uma língua cada vez mais distante da vida quotidiana
de quem devia representar, e uma incapacidade estrutural de oferecer, com a
mesma eficácia emocional da extrema-direita, algo que pareça uma solução
imediata para o sofrimento imediato.
O que
torna "Passarinhos e Passarões" mais do que um documento de época é
justamente esta recusa de conforto ideológico. Pasolini não poupa o marxismo
que o formou — filma-o a morrer, filma o seu porta-voz a ser devorado por fome,
filma a sua pregação a fracassar perante a natureza predatória do poder — mas
também não oferece qualquer alternativa consoladora. O filme termina, como
Chaplin em "Tempos Modernos", com os dois vagabundos a continuar a
caminhar pela estrada fora, sem corvo, sem teoria, sem certezas, apenas com a
obrigação de continuar a viver e a procurar, sem garantias, um sentido que a
ideologia sozinha já não lhes consegue dar. É talvez essa imagem final — a
estrada que continua, vazia de guias, cheia de necessidade — o retrato mais
honesto que o cinema alguma vez ofereceu da crise que a esquerda ainda hoje
atravessa: não a falta de razão, mas a falta de uma língua capaz de alimentar,
e não apenas de explicar, a fome de quem devia ouvi-la.



















