Confesso uma resistência. Entre Camilo e Eça, a preferência é clara e antiga: Eça, sempre. Os temas, os valores, a ironia cortante sobre a hipocrisia burguesa — tudo isso me parece mais próximo e útil como instrumento de leitura do presente.
TEMPOS INTERESSANTES
Vemos, ouvimos, lemos e experimentamos. Tanto quanto possível pensamos pela nossa própria cabeça...
quarta-feira, março 18, 2026
Mistérios de Lisboa, de Raúl Ruiz (2010): quando o ultrarromantismo nos surpreende
Camilo pertence a outro
universo: o das paixões absolutas, dos destinos fatais, das identidades ocultas
sob o peso de segredos inconfessáveis. Um universo que fascina menos, exige um
esforço de simpatia que nem sempre estou disposto a fazer.
E no entanto.
Mistérios de Lisboa, realizado em 2010 pelo chileno Raúl Ruiz,
parte do romance homónimo de Camilo Castelo Branco de 1854 e constrói uma
narrativa de 272 minutos — com uma versão televisiva ainda mais longa — densa
em coincidências, múltiplos narradores, disfarces e flashbacks dentro de
flashbacks. Cada personagem principal possui pelo menos duas
identidades. Estamos em pleno território ultrarromântico. E, apesar de tudo,
não resisti.
A explicação começa pela
estética. Ruiz filma como se pintasse — com uma câmara que desliza pelos
espaços em planos-sequência de uma elegância perturbadora, e com uma fotografia
que replica, fotograma a fotograma, os quadros da primeira metade do século XIX.
As câmaras percorrem em espiral salões dourados e villas rococó, aristocratas
intrigam em trajes da época da Regência, e tudo isso cria uma espécie de museu
em movimento onde a beleza formal nunca é gratuita — é, ela própria, um
argumento. A iluminação parece deliberadamente natural: durante o dia a luz
entra pelas janelas, à noite os quartos mergulham numa escuridão espessa que as
velas mal perfuram.
Mas o que verdadeiramente me
reteve foi a questão dos arrivistas. É o que Kubrick fez de forma magistral em Barry
Lyndon: pegou numa história do século XVIII e transformou-a numa meditação
sobre a mobilidade social, a fraude identitária, a violência discreta das
hierarquias. Pois bem — Ruiz faz algo semelhante. A trama de Mistérios de
Lisboa é, acima de tudo, uma narrativa sobre a mecânica da identidade e da
imaginação. As personagens mudam de nome, de estatuto, de máscara, conforme as conveniências
e vicissitudes do destino. Por detrás de muitas máscaras esconde-se outro
disfarce, e há sempre um falso fundo onde menos se espera. Isto não é apenas
exuberância romanesca — é uma reflexão sobre como as pessoas constroem e
reconstroem a identidade social, sobre o quanto há de performativo em tudo
aquilo que julgamos ser.
O sentido da história de cada
personagem — o que Ruiz designou como o seu "nascimento, traição e
redenção" — vai sendo constantemente revisto à medida que novas
informações emergem. A narração passa de voz em voz, às vezes dentro da mesma
sequência. O espectador é mantido em estado de alerta, nunca completamente
seguro do que viu, nunca inteiramente certo de quem é quem. É uma vertigem
produtiva.
Críticos referiram a presença
de Visconti e de Kubrick no tom visual do filme, e a comparação não é
descabida. Não direi que Mistérios de Lisboa iguala Barry Lyndon
— seria excessivo. Mas aproxima-se, na medida em que partilham a capacidade de
transformar um período histórico distante num espelho do permanente. A
diferença está talvez no grau de frieza analítica: Kubrick é cirúrgico; Ruiz é labiríntico,
barroco, disposto a perder-se nos corredores da intriga para mostrar que o
labirinto é o fulcro.
Ruiz realizou este filme
enquanto enfrentava um cancro no fígado. A mestria e a complexidade sustentada
da obra tornam-na duplamente extraordinária. E talvez haja nisso uma última
lição: às vezes é preciso estar na proximidade do fim para fazer algo
verdadeiramente perfeito.
Resistência vencida, portanto.
Não pelo Camilo — continuo a preferir Eça. Mas pelo Ruiz, que soube encontrar
em Camilo aquilo que eu nunca lá tinha visto: a modernidade.
A distância que permite ver
1. Um texto de Margarida Davim, jornalista da Visão, relata o que encontrou numa escola secundária de Lisboa, onde foi convidada a palestrar. À pergunta sobre se “não seriam precisos três Salazares” e se “não seria melhor haver alguém que decidisse por todos para o bem comum”, juntaram‑se outras: o voto reservado apenas a quem tivesse “capacidade” para o merecer e a convicção de que nunca houve homens na Lua. Ideias que muitos julgariam definitivamente obsoletas, mas regressam, reavivadas pela desinformação das redes sociais. Para esses que ela designa como náufragos da mentira digital, só há uma solução: contrariar as mistificações sempre que houver oportunidade — e para isso são precisos muitos mais do que os que hoje se dedicam a fazê‑lo.
2. A
História, porém, lembra‑nos que a insensatez juvenil não é novidade. Sócrates
chamava os jovens mandriões; Shakespeare achava prudente que dormissem durante
toda a adolescência. Mas, ainda assim, é difícil ignorar que uma parte
significativa da juventude portuguesa atual — demasiado permeável ao populismo
de extrema‑direita e ao ultraliberalismo — constitui uma deceção indesmentível.
Não se trata de condenar a juventude enquanto tal, mas de reconhecer que, num
tempo em que a informação é abundante, a capacidade crítica parece ter rareado.
E isso torna‑a presa fácil de discursos simplistas, autoritários ou
economicamente darwinistas.
3. Apesar
de ter estado diante de algumas das mais belas obras da arte universal, nunca
experimentei sequer uma aproximação ao chamado síndrome de Stendhal. Nunca
fiquei atordoado perante as coleções do Louvre, dos Uffizi ou do British
Museum. Espantou‑me a vastidão desses museus — sobretudo a dimensão quase
inabarcável do Metropolitan de Nova Iorque — mas mantive sempre uma
racionalidade admirativa, que condiz melhor com a minha personalidade. A beleza
comove‑me, mas não me desarma; a arte é, para mim, antes de mais, um exercício
de lucidez.
5. Quando
andei pela ponta sul da Patagónia sabia apenas, de forma vaga, que ali tinham
vivido ameríndios em número significativo, quase levados à extinção pelos
colonos chilenos e argentinos. Ainda não tinha visto O Botão de Nácar,
de Patricio Guzmán, que os transforma em protagonistas silenciosos, e por isso
as deambulações por Ushuaia, Punta Arenas e Puerto Williams não contaram com a
devida atenção a uma cultura e a uma língua que hoje tentam ser revalorizadas
pelos poucos descendentes que restam. Entre eles os yagans, nómadas do mar, que
Darwin descreveu — com o preconceito da época — como elo em falta entre macacos
e homens. Os missionários enviados para os “domesticar” conheceram à sua custa
a bravura com que se defendiam; mas foi quando os obrigaram à sedentarização
que ficaram expostos à violência colonial, num genocídio ainda pouco conhecido.
Enquanto
turista acidental, olhei para a paisagem, para a beleza azulada dos glaciares,
e ignorei a tragédia que ali se desenrolou ao longo do século XIX. A natureza
parecia intacta, majestosa, eterna — mas por baixo dela repousava a memória
apagada de um povo que o mundo quase deixou desaparecer.
sexta-feira, março 13, 2026
A coragem como forma de lucidez
1. Não é que tenha grandes dúvidas, mas pergunto‑me o que faria se estivesse na pele de Tomas, a personagem de Força Maior, o filme de Ruben Östlund em que um pai abandona a mulher e os filhos ao ver uma avalanche aproximar‑se do hotel alpino onde todos almoçam. A fuga instintiva expõe‑no àquilo que mais teme: não o desastre natural, mas a própria cobardia.
Penso nas vezes em que vi a vida
em perigo. Aconteceu sem a família por perto, mas não fugi: fiz o necessário
para sair indemne. Não recordo momentos de igual calibre com a Elza, com a
nossa filha ou com as netas. Mas acredito que, ao contrário de Tomas, não
revelaria a mesma falha moral. Não por heroísmo — nunca me iludi com isso — mas
porque há vínculos que suspendem o instinto e obrigam a ficar, mesmo quando
tudo em nós pede para correr.
2. Também
de Östlund é Involuntário, série de 2008 que expõe certas
idiossincrasias da sociedade sueca — e que continuam atuais entre nós. No
primeiro episódio, uma professora mostra a uma aluna duas linhas e pergunta
qual é mais comprida. A miúda responde corretamente, mas vê os colegas, um após
outro, apontarem para a outra linha. O exercício repete‑se, sempre com o mesmo
resultado, até que, no exemplo final, ela cede e acompanha a opinião do grupo.
Só então a professora revela ter combinado com a turma contradizê‑la.
A moral é
evidente: podemos ter convicções firmes, mas o efeito de manada leva muitos a
alinhar com a maioria, mesmo sabendo que ela está errada, apenas para não
correr o risco de se sentirem excluídos. Falta a muitos essa coragem de ir
contra a corrente, mesmo quando a maioria está eivada de preconceito ou de
erro.
3. Uma
reportagem impressionante de Gaël Turine e Pedro Brito da Fonseca, rodada nas
ruas de Port‑au‑Prince, mostra até que ponto uma sociedade pode deslizar para a
distopia. Com a polícia a executar sumariamente quem detém ao acaso e os
gangues a transformarem vastas zonas da cidade em feudos privados, a população
tenta sobreviver num clima de guerra para o qual não contribui e no qual nem
sequer conta.
É
assustador perceber como é fácil passar de uma cultura de regras para outra em
que elas são ostensivamente ignoradas. E, no entanto, não deveria surpreender‑nos:
quando o direito internacional é desprezado pelos poderosos, como esperar que
as normas básicas de convivência sobrevivam nas ruas onde manda apenas a lei do
mais forte? O Haiti torna‑se um laboratório extremo do que acontece quando a
legitimidade se evapora e o poder se reduz ao exercício da violência.
4. No
início de O Segundo Sexo, Simone de Beauvoir lembrava que nenhum homem
se daria ao trabalho de escrever sobre a sua condição — ao contrário dela,
consciente de que só se tornara mulher muito para além do nascimento.
A frase “On
ne naît pas femme, on le devient” tornou‑se síntese de uma realidade
indesmentível. E, para minha própria vergonha, devo confessar o gáudio do miúdo
que fui — algures pelos cinco ou seis anos — quando compreendi as vantagens de
ter nascido rapaz. E a má sorte das meninas, que não encaravam o futuro com as
mesmas facilidades que eu julgava garantidas. Mesmo ouvindo, amiúde, a previsão
de que um dia iria para a guerra, ainda assim me parecia que o destino
masculino era mais leve, mais aberto, mais cheio de possibilidades. A infância
absorve a desigualdade como se fosse natureza; só mais tarde percebemos que
aquilo que tomámos por privilégio natural era construção social.
5. Vejo
agora a série de Jacinto Godinho sobre A Televisão dos Militares e fica‑me
o gosto amargo de nunca ter sido feita uma série equivalente sobre as
atividades da CIA em Portugal — sobretudo naquele período em que as lutas
políticas iam muito além das que se desenhavam nas grandes capitais. De um
lado, os que não queriam ver o país sair da órbita do capitalismo ocidental; do
outro, os que olhavam com desinteresse para as guerras ideológicas entre
partidos e grupúsculos que invocavam, cada um à sua maneira, os princípios
supostamente respeitados mais a oeste ou mais a leste do continente
euroasiático.
No meio
da barafunda que se seguiu ao 25 de Abril houve, de um lado, muita gente
voluntariosa a acreditar possível a utopia — Vasco Gonçalves, Otelo, Duran
Clemente — enquanto, do outro, surgiam os que queriam restaurar a ordem do
capital. Ramalho Eanes tornou‑se o seu ícone decisivo, embora o Grupo dos Nove
também tenha desempenhado papel essencial. Na série, Mário Soares e Manuel
Alegre não ficam bem: vergaram‑se ao conluio com a CIA e impuseram como
presidente da RTP um militar, Tomás Rosa, cujas ligações a Fort Langley eram
evidentes. A televisão pública foi, naquele momento, um campo de batalha
estratégico — e quem controlasse a narrativa controlava, em larga medida, o
rumo político do país.
É
evidente que as circunstâncias acabariam por redundar na negação célere da
promessa de um caminho para o socialismo inscrita na Constituição de 1975. Mas
não deixo de sentir uma nostalgia amarga por aquilo que poderia ter sido. Teria
sido tão gratificante que, por uma vez, a História tivesse ousado saltar vários
degraus e imposto aquilo que continua a ser, no horizonte, a sua mais bela
esperança: uma sociedade verdadeiramente emancipada, onde a justiça social não
fosse apenas palavra de ordem, mas prática quotidiana.
terça-feira, março 10, 2026
O silêncio que pensa, o ruído que destrói
1. Não me
lembro de nenhuma das várias visitas à Tate Modern que não tivéssemos passado —e
ficado longamente — na Sala Rothko, para sentir a pulsação silenciosa que os
seus quadros sempre nos devolviam.
Recordei
tudo isto ao ver o documentário de Pascale Bouhénic, Mark Rothko, la
peinture vous regarde. E, com ele, regressou a saudade das vivências
londrinas: as idas frequentes à cidade quando a filha lá vivia e trabalhava; a
sensação de a termos tão próxima, do outro lado do rio, na mítica Fleet Street;
e os almoços no restaurante panorâmico do último andar da antiga central
elétrica de Bankside — onde até nos permitimos, uma vez, o risco do horrível fish
and chips. Tudo isso regressou, como se a memória tivesse também ela as próprias
camadas de cor, sobrepostas e vibrantes, à maneira de Rothko.
2. Em Sirat,
de Oliver Laxe, há um momento que parece feito para pensar o mundo
contemporâneo: um homem maduro comenta que nada se ouve da música ao som da
qual os corpos se movem hipnoticamente numa rave.
- Não
é para ouvir, é para dançar! — responde‑lhe a jovem, quase ofendida.
A
metáfora é imediata: uma sociedade onde os corpos se robotizam ao som de um
ruído ensurdecedor que impede qualquer gesto de pensamento. Não é apenas a
música — que funciona como fator de alucinação — mas a forma como ela replica
os mecanismos de exploração de um sistema que precisa de indivíduos que não
questionem nada. Corpos que dançam, mas não escutam; que se movem, mas não
pensam; que se entregam ao ritmo, mas não ao sentido. E quando, já perto do
final, Jade pede que aumentem o volume e explode sobre uma mina enquanto
continuava a dançar, a metáfora torna‑se brutal: num mundo saturado de ruído, a
incapacidade de ouvir pode ser fatal.
3. Forma
de ruído semelhante é o do chamado cinema‑pipoca, que revisito apenas para
confirmar as reservas — nada benignas — em relação ao género. E, no entanto, em
Mundo Jurássico: Reino Caído há uma imagem que merece ser resgatada do
chorrilho de clichés: quando a ilha está prestes a ser engolida pela lava de um
vulcão avassalador, um enorme herbívoro de pescoço desmesurado — criatura mansa
e simpática — observa, da margem, os últimos sobreviventes que se afastam no
navio.
O animal
fica para trás, condenado, olhando o barco como quem contempla uma última
possibilidade de salvação que não lhe pertence e é difícil não ler ali uma
metáfora do planeta em que vivemos: somos esses dinossauros indefesos,
abandonados à beira de um cataclismo que outros humanos, por cupidez e
irresponsabilidade, se apressam a tornar apocalíptico.
4. Francesa
de nascimento e sueca por casamento, Johana Gustawsson acrescenta‑se à já longa
lista de autoras de policiais nórdicos. Em Block 46, duas protagonistas
— quase sempre em desacordo — investigam crimes que se repetem com inquietante
semelhança: a traqueia seccionada, os globos oculares removidos, um misterioso
“Y” gravado nos braços.
A
investigação conduz inevitavelmente a Buchenwald, em 1944, onde atrocidades
desse género eram cometidas com uma frieza industrial. E a autora tem aqui uma
ligação íntima: o avô esteve preso nesse campo. E é essa sombra herdada que dá
ao romance espessura emocional, transformando o policial num exercício de
arqueologia moral.
5. Seguindo
o rasto desse avô paterno, descobri uma figura excecional. Simon Lagunas,
republicano espanhol que integrou a Resistência francesa, foi enviado para
Buchenwald — mas não se limitou a sobreviver ao campo da morte.
Desde o
primeiro momento conspirou para dali se evadir, recusando a passividade que o
sistema procurava impor. E quando, já no final da guerra, os Aliados se
aproximavam, participou ativamente — e a partir de dentro — na libertação do
campo.
Não foi
apenas testemunha do horror: foi agente da própria libertação e da dos outros.
A coragem que demonstrou naquele lugar extremo ilumina, retroativamente, a
força subterrânea que percorre Block 46: a memória não é apenas arquivo
de sofrimento, mas também reservatório de resistência.
sábado, março 07, 2026
A cultura contra os ventríloquos do medo
1. Há
muito que aprecio o lied como uma das expressões maiores da História da
Música. E mantenho uma devoção particular pelo que Dietrich Fischer‑Dieskau,
acompanhado por Alfred Brendel ao piano, fez com as Viagens de Inverno (Winterreise)
de Franz Schubert. E até consigo desculpar, até certo ponto, as simpatias nazis
de Elisabeth Schwarzkopf, tal é a força icónica da sua interpretação de An
die Musik.
Durante
anos, porém, o parco alemão mal me permitia perceber o que cada canção dizia,
mesmo quando a música me sugeria emoções tão profundas. Esse obstáculo ficou
agora resolvido com a edição de As Palavras da Música. O Livro do Lied
Clássico, onde João Barrento traduz mais de seiscentos poemas de Goethe,
Müller, Heine, Bachmann e tantos outros, muitos deles tão bem vertidos para
português que parecem ter sido escritos na nossa língua. E o prefácio de Rui
Vieira Nery ilumina, com a clareza habitual, a origem e a natureza desta
tradição musical que vive da cumplicidade íntima entre palavra e som.
2. Em
maio do ano passado, Andris Nelsons surgiu à frente da Orquestra Sinfónica de
Boston para dirigir a Sétima Sinfonia de Chostakovitch, no festival da
Gewandhaus de Leipzig que assinalou os cinquenta anos da morte do compositor
russo. Tratando‑se de uma obra genial — e raramente uso o adjetivo — concebida
para incentivar a resistência soviética ao nazismo, surpreendeu a imagem do
maestro: bastante mais magro do que a silhueta obesa que lhe conhecíamos. Daí
nasceu a especulação: doença grave? Obituários iminentes?
Nelsons,
cioso da sua vida privada, nada disse. Mas houve unanimidade quanto ao
essencial: a sua direção foi enérgica, incisiva, rigorosa nos diálogos entre os
naipes, devolvendo à Sétima uma leitura merecidamente canónica. Para os
cultores da obra daquele que foi o compositor preferido de Estaline — facto que
tantos anticomunistas primários tentam negar — a interpretação confirmou a
vitalidade de uma música que continua a ser monumento histórico e grito humano.
O que o
estudo sublinha, com particular interesse, é a vontade de muitos irreverentes —
músicos, letrados, homens comuns — em adotarem lógicas racionais para questões
quotidianas: o jejum de carne na Quaresma, os livros a ler ou a proibir, as
práticas devocionais. Essa racionalidade incipiente foi reprimida pelos
Torquemadas locais, zelosos guardiões da ortodoxia. E a criação de um clima de
bufaria antecedeu em muito aquilo que, séculos depois, o salazarismo utilizaria
com igual eficácia para sufocar os anseios de liberdade.
4. É
neste ponto que Inventaire des peurs françaises, de Anne Muxel e Pascal
Perrineau, se torna leitura indispensável. O ensaio fala da realidade francesa,
mas poderia adaptar‑se plenamente à nossa. Lá como cá, ganham espaço os “ventríloquos
do medo”: figuras políticas e mediáticas que inundam o espaço público com
ameaças à identidade “cristã” e “branca”, alimentando a ideia de que esses
fantasmas põem em causa os chamados anseios coletivos.
O medo é
universal, lembram os autores, e muitas vezes essencial à sobrevivência. Mas
hoje vive num ambiente desideologizado, onde se instalou o desânimo perante um
futuro que parece sempre aquém do passado glorificado. A religião perdeu
autoridade; a ciência tornou‑se ambivalente desde os anos 1970; o Estado‑Providência
já não garante a proteção que prometia. O resultado é um espaço público onde só
parecem ter voz os propagadores do medo — os que veem solução apenas em
políticas autoritárias e em reformas que, entre nós, se imaginariam tomadas por
Passos Coelho, caso tivéssemos de novo, para nossa repetida infelicidade, esse
“homem do leme”. Daí faça todo o sentido a proposta final dos autores: se não
faltam ventríloquos do medo, importa dar espaço e voz aos da esperança —
aqueles que possam transformar anseios individuais em força coletiva, como
outrora sindicatos e partidos de esquerda souberam fazer.
5. Mas há
que ter cuidado com a forma como essas mensagens alternativas são construídas.
A recente agressão a um ator durante o discurso final da peça Catarina e a
Beleza de Matar Fascistas, de Tiago Rodrigues, apresentada em Bochum,
mostra como a literalidade primária se tornou dominante.
Incapazes
de compreender que a personagem de extrema‑direita servia precisamente de
denúncia — e não de apologia — alguns espectadores tomaram como literal aquilo
que era, desde a origem, uma crítica frontal ao fascismo. Não vem grande mal ao
mundo pelo equívoco, até porque a polémica deu nova visibilidade à peça. Mas o
episódio revela algo inquietante: a ironia, a alegoria, a inversão retórica —
tudo aquilo que exige distância crítica — corre hoje o risco de ser tomado como
afirmação direta. Num tempo saturado de medo, até a denúncia pode ser
confundida com a propaganda contrária. E isso obriga a repensar não apenas o
que se diz, mas a forma como se diz — sem abdicar da complexidade que a arte e
a política exigem.
quinta-feira, março 05, 2026
A lucidez como forma de resistência
1. Qual é a importância de identificar os corpos dos milhares de emigrantes que dão à costa nas praias do Mediterrâneo, ou que morrem já em terra e são apressadamente enterrados sem que alguém se preocupe em saber quem eram, que histórias traziam consigo e que familiares deveriam ser avisados?
Para a
maioria dos políticos ocidentais — e dos eleitores que os apoiam em agendas
centradas na preservação do sistema capitalista ou, pior ainda, no agudizar das
tensões xenófobas que lhes servem de alavanca para o poder — nem um cêntimo
deveria ser gasto nesses esforços. Mortos sem nome são, para eles, problemas
resolvidos. Mas para a médica legista Cristina Cattaneo há razões humanistas
que justificam a persistência desse trabalho. A partir de Milão, onde leciona,
transformou a identificação dos mortos em causa de vida, numa militância discreta,
mas inabalável.
O
documentário Puros Desconhecidos, rodado em 2023 por Valentina Cicogna e
Mattia Colombo, acompanha esse esforço — condenado ao fracasso desde o início,
dada a escala da tragédia e a indiferença institucional que a rodeia. Ainda
assim, a cientista prossegue, movida pela convicção de que todos têm direito ao
seu nome, mesmo depois de mortos, e de que alguém deve avisar os que os amavam
ou conheciam sobre o seu fim infausto.
2. Kisunla
e Leqembi são os nomes de dois novos medicamentos atualmente em estudo para
doentes com Alzheimer em fase inicial. Trazem novas expectativas para quem
ainda não entrou no território mais profundo da degenerescência cognitiva, mas
não oferecem qualquer efeito prático para quem, como a Elza, já vai muito
avançada nesse processo.
Durante
anos — e apesar de termos passado por experiências semelhantes com a geração
anterior, o meu pai e a mãe da Elza — sempre confiei que, quando chegássemos a
esta idade, a Medicina já teria encontrado soluções eficazes para a cura.
Tragicamente para a Elza, enganei‑me. E custa aceitar que, na roleta russa
aleatoriamente distribuída pela doença, lhe tenha calhado a bala fatal. Uma
bala que também atinge cerca de 3% dos portugueses vivos hoje.
Acreditasse
eu num qualquer deus (com minúscula, como sempre) e não me faltaria vernáculo
para lhe atribuir tão triste sina. Mas, não tendo sido contemplado com essa
suposta fé, só encontro na própria doença a explicação possível — e,
paradoxalmente, mais um argumento para confirmar o meu ateísmo. Porque, se há
pessoa que, pelo feitio, pela sensibilidade, pela delicadeza de carácter, não
mereceria de todo este “castigo”, seria ela.
3. Não
sou sensível às mensagens dos muitos influencers que invadem as redes
sociais e nelas disseminam conteúdos mentirosos ou, no mínimo, interesseiros,
sempre embalados pela expectativa de um ganho financeiro para quem os produz.
Não tenho
dúvidas quanto às razões da minha própria obesidade: como mal (demasiados
doces, queijos e enchidos), faço pouco exercício (para além dos pesos e
halteres que implica cuidar da Elza) e durmo bem menos do que as recomendadas
oito horas seguidas. Tivesse determinação suficiente para corrigir estas três
causas e, mesmo sem me transformar num novo Adónis, ao menos poderia aspirar a
uma silhueta menos rotunda. Mas, pelos vistos, para muitos é mais fácil
embarcar na publicidade enganosa e acreditar que, combatendo a “hormona do
stress”, lá chegariam…
4. Não
sei se as frases de Valter Hugo Mãe — agora proferidas no contexto das
Correntes d’Escrita — “Toda a minha vida tive a impressão de ser de lugar
nenhum, nenhuma terra me deixa inteiro. Estarei sempre à deriva” — ainda se lhe
mantêm atuais, tendo em conta a inconstância com que ajusta opiniões ao sabor
das circunstâncias e das experiências. Mas não as subscrevo, de modo algum,
como minhas. Tendo percorrido todos os oceanos e aportado a terras de todos os
continentes — Antártida à parte — nunca perdi o cordão umbilical a este sítio
onde nasci. Não por patriotismo (que execro, como reduto dos canalhas, Samuel
Johnson dixit), mas porque aqui ficou quase sempre quem mais me importava
afetivamente.
O meu
lugar, aquele que me deixa inteiro, não é uma abstração geográfica nem uma
construção identitária: é o lugar onde tenho vivido uma relação amorosa com
mais de meio século.
quarta-feira, março 04, 2026
Contra as Ilusões, a Lucidez
1. Olhando
para as manifestações da extrema‑direita nos vários países europeus, percebe‑se
uma inquietante consonância de coreografia, que confirma estarem todas a seguir
uma cartilha superiormente definida por quem instrumentaliza os grupúsculos
encarregues de as organizar e propagar.
2. Quem
era Rainer Maria Rilke e porque conseguiu envolver tantos leitores na
persuasiva magia das suas palavras? Porque foram as Cartas a um Jovem Poeta
tão importantes para a minha geração de adolescentes, inclinados a curvar‑se
sobre si mesmos na busca da “verdadeira vida”, distraindo‑se do que mais lhes
deveria importar: contestar a guerra colonial para onde os queriam enviar para
matar e morrer, e pôr em causa uma ditadura que já dava sinais de incurável
degenerescência?
A
introspeção rilkeana oferecia um refúgio sedutor, mas também um risco: o de
substituir a ação pela contemplação, a urgência política pela autoanálise.
Tantos anos depois, a busca espiritual de Rilke parece‑me fútil, ou pelo menos
insuficiente perante a violência histórica que então nos cercava. Mas o seu
conceito de “vida boa” — uma vida íntegra, coerente, vivida com sentido —
ressoaria mais tarde, talvez voluntária ou involuntariamente, no discurso de
Mariana Mortágua ao concluir o seu ciclo de liderança no Bloco de Esquerda.
3. Ser‑me‑ia
hoje — como sempre me foi — inimaginável essa perspetiva de dialogar com deus
(assumidamente com minúscula), mesmo tratando‑o como igual, como se a
religiosidade pudesse ter para Rilke uma dimensão meramente poética. Muitos
leram As Elegias de Duíno com a mesma disposição com que se deixaram
iludir pelas filosofias orientais de ocasião: com a leveza acrítica de quem
aceita mistificações desde que embaladas em linguagem elevada. Mas essas
construções têm a consistência vazia de quem praticou espiritismo e chegou a
acreditar‑se médium. E, ao contrário da imagem de génio espontâneo que
cultivava de si próprio, os manuscritos das Elegias denunciam o labor
intenso: correções sucessivas, frases riscadas, hesitações que desmentem a
ideia de uma “alma” que ditaria diretamente ao papel.
Ciente de
que não teria resposta das entidades invisíveis a quem se dirigia, Rilke
contentava‑se com as suas perguntas, como se bastassem para conferir algum
sentido à vida. Essa rendição ao enigma, tomada como profundidade, parece‑me
hoje pífia — e, no entanto, continua a haver quem se dobre a essa moda,
confundindo nebulosidade com transcendência.
4. Uma
das preocupações que mais me acompanham nesta caminhada crepuscular para o fim
da vida é encontrar a melhor forma de preservar o imenso arquivo de vivências
acumulado ao longo de quase setenta anos — um arquivo que é meu e da Elza, e
que em boa parte partilhamos desde a infância até este culminar de meio século
de casamento oficializado. Como guardar tudo isto? Como transmitir, sem peso
nem solenidade, aquilo que fomos, aquilo que vimos, aquilo que nos fez?
Défilement, a curta‑metragem de Francisca
Miranda, interessou‑me como metodologia possível. Em pouco mais de uma dúzia de
minutos, a realizadora recorre às fotografias de aniversário da família e, em
voz off, reconstrói a respetiva história. Estão ali os adultos vivos, os que já
partiram e, sobretudo, essa nova geração que recebe o testemunho de uns e de
outros. Não é uma obra‑prima, mas sim um trabalho sensível e competente, que
mostra como a memória pode ser convocada com simplicidade, sem artifícios,
deixando que as imagens falem e que a voz apenas as acompanhe.
5. Uma
reportagem sobre a população idosa nas cadeias portuguesas repete o que há
muito se sabe: as condições são indignas e deveriam envergonhar quem insiste em
descrevê‑las como uma espécie de hotel gratuito, com cama, comida e roupa
lavada. Essa caricatura só poderia ser desmontada se quem a propaga tivesse de
sentir na pele o que é viver num espaço exíguo, degradado, sem privacidade, sem
cuidados adequados e sem dignidade. E há ainda o resto, talvez mais
perturbador: que sentido faz manter enjauladas pessoas incapazes de repetir a
conduta que as levou à condenação e que, em muitos casos, só graças à
solidariedade dos outros reclusos conseguem deslocar‑se, tomar banho, mudar de
roupa, porque já não têm forças nem discernimento para o fazer sozinhas? E que
hipótese de reinserção tem quem é libertado sem emprego, sem subsídio, sem rede
de apoio, obrigado a recorrer a expedientes ilegais para escapar à fome e à
falta de um lugar onde sobreviver?
Sem
espaço de reinserção, nem respeito mínimo pelos que passam os últimos anos de
vida atrás de grades, as prisões portuguesas continuam a espelhar o
subdesenvolvimento estrutural deste país à beira‑mar plantado — um país que
fala de direitos humanos, mas hesita em reconhecê‑los onde são mais
necessários.
terça-feira, março 03, 2026
O importante é acreditar
1. O
processo de paz entre as FARC e o governo colombiano foi um bom exemplo de como
duas partes ideologicamente separadas por mundividências opostas podem sentar‑se
à mesa e chegar a mínimos denominadores comuns capazes de estancar décadas de
violência política.
Um
documentário sobre a ação dos negociadores — não só nesse conflito, mas também
nos do Sudão, na antiga Jugoslávia ou no drama dos desaparecidos no México —
mostra o papel decisivo da diplomacia na redução do impacto da violência sobre
populações indefesas, sujeitas às vontades aleatórias de quem domina os
territórios onde vivem.
Duas
dificuldades maiores surgem sempre como pano de fundo: para muitos jovens, a
guerra é a atividade mais “promissora”, seja porque nela se alistam
voluntariamente, seja porque são forçados a fazê‑lo; e o nepotismo dos chefes
locais obriga quem vem de fora a prodígios de negociação, aceitando o que é
apenas razoável quando, racionalmente, o que se justificaria seria o bom — ou
mesmo o ótimo.
Paira
sempre a ameaça de que tudo possa ruir a qualquer momento. E, ao substituir a
dissuasão diplomática por ataques diretos contra os seus “inimigos de
estimação”, Trump colocou entre parêntesis a diplomacia enquanto ferramenta
essencial para a paz global.
2. Uma
reportagem sobre o Chaâbi devolve‑me os sentimentos distanciados que o
fado ainda hoje me suscita, apesar de José Mário Branco — e Camané, a ele
associado — ou Carlos do Carmo terem atenuado a antipatia da juventude, quando
o situava entre os três “éfes” tão acarinhados pelo Estado Novo.
Com a
música tradicional argelina passou‑se o contrário: sendo uma emanação popular
da antiga música clássica de origem andaluz, e sonoridade dominante nas
casbahs, desempenhou um papel determinante na luta anticolonial. Não só
forneceu os hinos agregadores das multidões em resistência, como facilitou
logisticamente a distribuição da propaganda independentista, graças aos passes
concedidos pelas autoridades coloniais aos músicos tradicionais.
Existem exemplos,
noutras latitudes, de músicas populares com participação ativa nas lutas
emancipadoras — sobretudo na América Latina — mas o Chaâbi envergonha o
fado naquilo em que este foi voz do que o autor de A Cantiga é uma Arma
descreveu como “o faduncho choradinho de tabernas e salões semeia só desalento,
misticismo e ilusões. Canto mole em letra dura nunca fez revoluções.”
Cinquenta
anos depois, vou ouvindo fado sem grande empatia, sendo‑me bem mais
interessante quando se mistura com outros estilos e se metamorfoseia noutra
coisa — como acontece com Ricardo Ribeiro, ora enlaçado com a música erudita na
colaboração com os Músicos do Tejo, ora em cumplicidade com o libanês Rabih
Abou‑Khalil.
3. O zydeco,
swing crioulo da Luisiana nascido da mistura entre negros e francófonos cajuns
relegados para as periferias do estado, funcionou como catarse para a
exploração sofrida por quem o praticava e divulgava — quase sempre operários
agrícolas mal pagos nos latifúndios locais.
Associando
instrumentos tão básicos como uma prancha de lavar roupa ao acordeão,
reivindicavam momentos de liberdade nos bailes movimentados, onde por instantes
se libertavam das humilhações impostas pela ordem social que os oprimia.
E, no
entanto, esse estilo musical nunca deu o passo natural de se transformar em
canção de intervenção. Mitigou frustrações, mas não as converteu naquilo que
seria expectável: ferramentas de consciencialização, motores de uma atitude que
recusasse a aceitação passiva da desordem estabelecida. A energia libertadora
do zydeco ficou circunscrita ao instante festivo, sem se prolongar numa
crítica organizada ou num impulso transformador.
4. No
documentário Nature: The Call of Reconciliation, o cineasta Yann Arthus‑Bertrand
começa por mostrar uma lagoa em forma de coração num mangal da Nova Caledónia.
A imagem, quase improvável, demonstra como a natureza pode ser particularmente
impressiva na sua beleza metafórica. Essa mesma capacidade de espanto está, por
exemplo, nos Pilares da Criação, tal como o telescópio James Webb os revelou ao
olhar para os confins do universo. E, perante tais visões, torna‑se evidente o
quanto, feitos de poeira estelar, somos minúsculos quando comparados com a
vastidão do Cosmos.
5. “O
importante é acreditar”, proclama o Stalker no final do filme de Tarkovski.
Acreditar que os nossos sonhos são realizáveis, mesmo quando não são acessíveis
naquele quarto onde tantos procuram a promessa de concretização. Porque,
dissipando‑se as ilusões dos caminhos que afinal são becos sem saída, não se
deve desistir do outro caminho — aquele que pode abrir‑se para as avenidas
largas de que falava Salvador Allende no último discurso dirigido aos seus
concidadãos, minutos antes de morrer.
Acreditar,
aqui, não é ingenuidade: é fidelidade à possibilidade de futuro, mesmo quando
tudo à volta parece ruir. É o gesto final que resiste à violência, à resignação
e ao colapso — e que mantém aberta a hipótese de um mundo diferente.
segunda-feira, fevereiro 23, 2026
Uma canção doce? Deveras?!
Há romances que constroem a tensão pelo segredo; outros, mais raros, pela revelação imediata. Chanson douce pertence a esta segunda espécie. Desde as primeiras páginas sabemos o essencial — que as crianças morrerão às mãos da ama. O que se segue não é, portanto, um enigma policial, mas uma dissecação moral. A pergunta deixa de ser quem? ou como? e passa a ser porquê? — e, mais incómodo ainda, com que cumplicidades invisíveis?
O casal que contrata Louise (nome que depressa adquire uma ressonância inquietante) encarna uma modernidade urbana reconhecível: duas carreiras exigentes, uma parentalidade desejada mas comprimida pelo tempo, uma confiança depositada na profissionalização do cuidado. Não há negligência ostensiva, nem desamor. Há, isso sim, a convicção — profundamente contemporânea — de que o afeto pode ser delegado sem que se dilua.
Slimani instala aí o seu primeiro desconforto. A ama surge como solução perfeita: disponível, meticulosa, devotada até ao excesso. Torna-se indispensável, infiltra-se na intimidade doméstica, aprende os ritmos da casa melhor do que os próprios pais. A harmonia aparente constrói-se sobre uma transferência silenciosa de autoridade: quem cuida conhece; quem conhece decide; quem decide exerce poder.
O romance recusa, contudo, a simplificação psicológica. Louise não é um monstro súbito, nem uma figura unívoca da loucura. A autora vai revelando as fissuras: precariedade económica, solidão, humilhações acumuladas, invisibilidade social. O que se insinua é menos a patologia individual do que uma forma de esmagamento estrutural. A ama vive num limbo de classe — íntima sem ser igual, indispensável sem ser reconhecida.
É nesse território que o livro se torna politicamente incómodo. A relação entre patroa e empregada é atravessada por uma cordialidade tensa, feita de gratidão, paternalismo e distância. O amor pelos filhos dos outros convive com a consciência amarga de não possuir nada. O cuidado, que deveria humanizar, converte-se em instrumento de alienação.
Ler Chanson douce hoje é inevitavelmente lê-lo à luz do debate sobre o trabalho feminino. O romance parece suspenso entre dois discursos que raramente se escutam. Por um lado, a exaltação da realização profissional das mulheres — a conquista legítima do espaço público, da autonomia económica, da identidade para além da maternidade. Por outro, a nostalgia conservadora que as reinscreve no lar como destino “natural”, desvalorizando qualquer delegação do cuidado.
Slimani não valida nenhum destes polos. Limita-se a expor a fricção. A emancipação de umas depende, muitas vezes, do serviço mal pago de outras. A liberdade profissional pode coexistir com novas formas de desigualdade feminina. A casa, longe de ser refúgio, torna-se palco de relações de poder subtis, onde afeto e hierarquia se confundem.
O mais perturbador é que o romance nunca absolve inteiramente ninguém. Nem os pais, absorvidos pelo trabalho mas genuinamente amorosos; nem a ama, vítima de um sistema mas autora do irreparável. O crime final, já anunciado, deixa de ser apenas um ato individual para adquirir uma dimensão quase alegórica: o colapso de uma confiança social fundada na desigualdade.
A escrita de Slimani é seca, contida, quase clínica. Não procura a comoção fácil. Observa, disseca, aproxima-se dos gestos mínimos — uma refeição, um banho, uma canção sussurrada — até que o quotidiano se torna opressivo. A doçura do título funciona como ironia sombria: a canção que embala é a mesma que conduz ao abismo.
No fim, fica uma inquietação que ultrapassa o enredo. Chanson douce não é apenas a história de um crime doméstico; é uma reflexão sobre o preço invisível da organização contemporânea do cuidado, sobre a solidão nas grandes cidades, sobre a maternidade partilhada e as hierarquias que a sustentam. Um romance breve, mas de ressonância longa — desses que não acusam, mas deixam o leitor a interrogar-se sobre a arquitetura moral do seu próprio quotidiano.








