Um órgão
de tubos sobe do chão envolto em luz roxa. Um homem de capa e capuz toca-o com
fúria. Atrás dele, uma orquestra de bonecos mecânicos marca o compasso, de
olhos de vidro e sorriso pintado. Ainda não se passou nada, e o filme já disse
quase tudo: haverá música, máquinas, luto, e ninguém o levará demasiado a
sério.
Vincent
Price é Anton Phibes, organista e doutor em música e em teologia. Desfigurou-se
num desastre de automóvel a caminho da cabeceira da mulher, Victoria, morta na
mesa de operações. Dado também como morto, regressa para castigar a equipa
médica, um a um, segundo as pragas do Egito: morcegos, rãs, gafanhotos,
granizo, sangue. A vingança é bíblica, e a encenação é de cabaré.
Joseph
Cotten, o cirurgião-chefe, traz consigo uma memória de outro cinema, de Welles
e de Hitchcock, e passeia-a entre os cenários art déco com a dignidade de um
convidado enganado na festa. A presença dele dá ao filme um peso involuntário.
Price joga em sentido contrário: sabe estar num disparate e eleva-o à categoria
de estilo.
O
orçamento era curto e via-se. Fuest transformou a falta em programa. Os
cenários de espelhos, as salas geométricas e os figurinos dos anos vinte criam
um mundo fechado, sem rua nem céu, onde a artificialidade dispensa a
verosimilhança. O filme não procura assustar. Diverte-se a montar armadilhas
com a paciência de um relojoeiro.
Phibes
não tem rosto nem voz. Fala ligando um fio ao pescoço, e as palavras saem de um
gramofone, desfasadas dos lábios imóveis. Price representa um homem reduzido à
máquina, e consegue torná-lo comovente sem largar a ironia. A mulher morta
sorri numa fotografia. A assistente, Vulnavia, nunca abre a boca. A orquestra é
feita de autómatos. Em toda a casa, só o luto é humano.
O “Génio do Crime”, segundo filme da série, que
se ficou por ele no ano seguinte, leva Phibes ao Egito, em busca do rio da vida
eterna, para devolver Victoria ao mundo dos vivos. A vingança deu lugar à
ressurreição, e o desespero deu lugar à expedição arqueológica. Robert Quarry
corre atrás do mesmo segredo, um rival imortal com pressa de continuar a sê-lo.
Peter Cushing passa por lá, ao leme de um navio.
O
fracasso do segundo filme tem uma explicação simples. À primeira vez, o
disparate tinha um motor: a raiva de um homem contra quem lhe falhou. Sem
culpados para castigar, Phibes fica reduzido ao desejo de vencer a morte num
programa de viagem. A piada repete-se e a dor evapora-se. Um terceiro filme
chegou a ser anunciado e nunca se fez.
Meio
século depois, o abominável doutor parece menos excêntrico. Fala-se hoje
através de vozes sintéticas, ouve-se música tocada por máquinas, e há quem
prometa conversar com os mortos a partir das mensagens deixadas em vida. Phibes
queria apenas uma noite mais com Victoria. Bastou-lhe um gramofone, um órgão e
muita persistência.
Talvez a
parte mais sensata de tudo isto esteja no gesto de Price. Perante o absurdo de
querer ressuscitar os mortos, escolheu tocar mais alto.











