Certas
experiências não se limitam a acrescentar uma recordação à nossa vida.
Dividem-na. Existe o homem que éramos antes delas e aquele que regressa depois.
É assim
que começa Uma Descida ao Maelström, de Edgar Allan Poe: um homem de
cabelos brancos conduz o narrador até uma elevação nas ilhas Lofoten, diante da
costa norueguesa. Parece velho, mas explica que não o é. Uma única experiência embranqueceu-lhe
os cabelos e deixou o corpo e os nervos como se muitos anos tivessem passado.
Sobreviveu ao Maelström que agora ambos contemplam de longe.
O recurso
narrativo é engenhoso. Antes de contar o acontecimento extraordinário, Poe
coloca-nos perante as consequências. Vemos primeiro o sobrevivente e só depois
aquilo a que sobreviveu.
O homem
fora pescador. Costumava aventurar-se com os dois irmãos por aquelas águas
perigosas, onde conhecia os ritmos das correntes suficientemente bem para
acreditar que podia contorná-las. Até ao dia em que uma tempestade os
surpreendeu e arrastou o barco até ao grande redemoinho.
Os dois
irmãos acabariam por morrer. Ele seria o único sobrevivente.
Poderíamos
estar apenas perante uma extraordinária história de aventuras marítimas. Mas
Poe introduz no conto qualquer coisa que o torna mais inquietante.
Quando
percebe que está condenado, o pescador sente inicialmente aquilo que
esperaríamos: terror. Depois, porém, acontece algo estranho. No interior do
perigo, quando já parece não existir nenhuma esperança possível, começa a
observar.
É talvez
o momento decisivo do conto.
À sua
volta, homens e destroços são precipitados para o abismo. Mas ele começa a
reparar que nem todos os objetos descem da mesma maneira. Compara dimensões e
formas. Percebe regularidades. E dessa observação nasce uma hipótese. Agarra-se
a um barril cilíndrico, abandona o barco condenado e acaba por sobreviver
quando a violência do redemoinho diminui.
Pouco
antes, em Os Crimes da Rua Morgue, Poe apresentara Dupin, o homem capaz
de intuir a lógica do caos aparente de um crime. Também aqui há raciocínio. Mas
a situação mudou radicalmente. Dupin observa o mistério a partir de fora. O
pescador observa-o a partir de dentro. Talvez esteja aí uma diferença
essencial.
É
relativamente confortável acreditar na razão quando estamos sentados numa
biblioteca, examinando depoimentos e vestígios. Muito diferente é continuar a
pensar enquanto o mundo parece desabar à nossa volta.
O
pescador não derrota o Maelström. Não o domina e nem sequer o compreende
completamente. Só aprende o suficiente para sobreviver.
Há nesta
diferença uma ideia moderna. Durante muito tempo, uma determinada conceção do
progresso apresentou o conhecimento como processo de conquista. Conhecer a
natureza seria gradualmente submetê-la. Medir os rios, prever as marés,
atravessar oceanos, dominar doenças, transformar matérias, organizar
territórios.
Mas a
natureza conserva sempre uma reserva de indiferença perante os nossos projetos.
O
Maelström não é malévolo. Isso talvez seja ainda mais perturbador. Não pretende
matar aqueles homens. Não conhece sequer a sua existência. Simplesmente
acontece.
Perante
forças dessa dimensão, a condição humana fica reduzida à sua escala.
O que
salva aquele homem é uma capacidade humana extraordinária: observar mesmo
quando tem medo.
A certa
altura, o terror transforma-se em contemplação. Aquilo que deveria horrorizá-lo
começa também a fasciná-lo. Algumas leituras críticas do conto chamaram a
atenção para esta passagem do terror para uma perceção estética da natureza,
vendo nela algo que ultrapassa o cálculo racional.
É um
momento estranho, porque esperaríamos o contrário. Quanto maior o perigo, menos
espaço deveria existir para a curiosidade. Poe sugere que pode acontecer o
inverso.
Quando já
não pode fugir, o homem começa a olhar. E talvez seja essa atenção que o salva.
Não a coragem no sentido heroico, nem uma força física extraordinária. Muito
menos a esperança. Salva-o a capacidade de suspender por instantes o pânico e
perguntar: o que está a acontecer aqui?
Voltamos ao
Poe que encontrámos em Dupin, mas com uma diferença importante: perante forças
dessa dimensão, a condição humana fica reduzida à sua escala. O conhecimento
não elimina o abismo, permite apenas encontrar uma possibilidade no seu
interior.
E há
ainda outro elemento perturbador. Depois de regressar, o pescador tenta contar
aquilo que viveu. Os outros homens não acreditam nele. Sobreviveu à
experiência, mas não consegue transmiti-la.
Há
acontecimentos assim. Podemos descrevê-los com precisão, enumerar
circunstâncias, reconstruir acontecimentos e, no entanto, alguma coisa
permanece incomunicável. Quem esteve lá sabe que as palavras não chegam. Quem
não esteve dispõe apenas delas.
O homem
trouxe consigo uma prova, difícil de mostrar: aquele em que se transformou. Os
cabelos brancos como marca exterior dessa passagem.
Por isso,
o Maelström acaba por ser mais do que um fenómeno marítimo. Pode ser lido como
aquilo que por vezes irrompe na existência e destrói a ilusão de estabilidade
sobre a qual construímos a vida. Uma guerra, uma doença, uma catástrofe, uma
perda. Tudo aquilo que, em poucas horas, cria uma fronteira entre um antes e um
depois.
Não
escolhemos essas descidas. Podemos, porém, escolher alguma coisa enquanto
descemos. Observar. Compreender aquilo que ainda pode ser compreendido. Não
confundir inteligência com omnipotência. Procurar, no meio da desordem, a
pequena regularidade que talvez permita continuar.
O homem
de Poe regressou do Maelström, mas não regressou ao lugar de onde partira. Talvez
ninguém regresse.
Certas
experiências não nos ensinam alguma coisa sobre o mundo. Alteram antes a
distância a partir da qual passamos a observá-lo.
E é
possível que, muitos anos depois, continuemos como aquele homem no alto das
Lofoten: suficientemente longe do abismo para podermos contemplá-lo, mas nunca
tão longe que consigamos esquecer que um dia estivemos lá dentro.











