Há uma
distinção que importa fazer antes de entrar neste filme: Putin não é Trump. É
uma evidência que a geopolítica corrente tende a esbater, colocando os dois no
mesmo saco do autoritarismo populista. Mas a confusão é enganosa. Trump é um
narcísico infantil, movido pelo ego e pelo espetáculo, sem arquitetura
ideológica consistente. Putin é outra coisa: um homem de lógica fria, racional
até à crueldade, capaz de acusar Zelensky de protonazismo com a mesma
serenidade com que financia alguns dos mais sinistros partidos de
extrema-direita europeus.
A
contradição não o perturba — é instrumental. E é precisamente essa
racionalidade dissociada de qualquer escrúpulo que torna Putin uma figura
politicamente mais perigosa e intelectualmente mais interessante do que o seu
congénere americano.
É para
responder à questão de quem é Putin, como apareceu na paisagem política russa e
quem o ajudou a instalar-se no Kremlin, que o consultor político italo-suíço
Giuliano da Empoli escreveu O Mago do Kremlin, obra de ficção com
alicerces na realidade, publicada em 2022, pouco antes do início da guerra na
Ucrânia. Da Empoli é também autor de Os Engenheiros do Caos, ensaio
sobre como certos operadores políticos manipulam e controlam as emoções
coletivas em proveito do poder — um tema que atravessa igualmente este romance
e a sua adaptação cinematográfica.
É um
retrato que interessa precisamente porque não é de um monstro — é de um
intelectual que escolheu servir o poder com a mesma dedicação com que poderia
ter feito teatro.
O filme
não impõe uma leitura ao espectador. O próprio Assayas, em entrevista no
Festival de Roterdão, recusou fazê-lo: "O máximo que um realizador pode
fazer é colocar as questões certas." É uma postura honesta, que se traduz
numa abordagem onde Putin surge inicialmente como um funcionário
"normal", que precisa de muita persuasão para "salvar o
país" — e é nessa humanização controlada que reside tanto a força como a
polémica do filme. O realizador alterou o final em relação ao livro, optando
por um fecho moralmente mais convencional, que tranquiliza o espetador mas
enfraquece a ambiguidade original — a que tornava o romance verdadeiramente
perturbador.
O filme
peca por ser longo e por vezes inerte. A crítica convergiu nesse ponto: ritmo
pesado, personagens pouco desenvolvidos, e um Jude Law que é perturbadoramente
eficaz sempre que aparece — mas de menos para justificar a duração. Paul Dano,
por seu lado, é reduzido pelo argumento a mais testemunha do que participante,
o que empobrece a figura de Baranov face à sua complexidade no livro.
Mas há um
mérito que não se pode recusar ao filme de Assayas: alimenta a reflexão sobre
como, ao implodir, a União Soviética não gerou democracias — gerou vazios de
poder que figuras como Putin e os seus mágicos souberam preencher com os
instrumentos do caos, da manipulação e do espetáculo. A Rússia de hoje não é
uma aberração histórica: é o produto lógico de uma transição que o Ocidente
celebrou sem perceber o que estava a nascer nas suas ruínas.











