1. Há
muito que aprecio o lied como uma das expressões maiores da História da
Música. E mantenho uma devoção particular pelo que Dietrich Fischer‑Dieskau,
acompanhado por Alfred Brendel ao piano, fez com as Viagens de Inverno (Winterreise)
de Franz Schubert. E até consigo desculpar, até certo ponto, as simpatias nazis
de Elisabeth Schwarzkopf, tal é a força icónica da sua interpretação de An
die Musik.
Durante
anos, porém, o parco alemão mal me permitia perceber o que cada canção dizia,
mesmo quando a música me sugeria emoções tão profundas. Esse obstáculo ficou
agora resolvido com a edição de As Palavras da Música. O Livro do Lied
Clássico, onde João Barrento traduz mais de seiscentos poemas de Goethe,
Müller, Heine, Bachmann e tantos outros, muitos deles tão bem vertidos para
português que parecem ter sido escritos na nossa língua. E o prefácio de Rui
Vieira Nery ilumina, com a clareza habitual, a origem e a natureza desta
tradição musical que vive da cumplicidade íntima entre palavra e som.
2. Em
maio do ano passado, Andris Nelsons surgiu à frente da Orquestra Sinfónica de
Boston para dirigir a Sétima Sinfonia de Chostakovitch, no festival da
Gewandhaus de Leipzig que assinalou os cinquenta anos da morte do compositor
russo. Tratando‑se de uma obra genial — e raramente uso o adjetivo — concebida
para incentivar a resistência soviética ao nazismo, surpreendeu a imagem do
maestro: bastante mais magro do que a silhueta obesa que lhe conhecíamos. Daí
nasceu a especulação: doença grave? Obituários iminentes?
Nelsons,
cioso da sua vida privada, nada disse. Mas houve unanimidade quanto ao
essencial: a sua direção foi enérgica, incisiva, rigorosa nos diálogos entre os
naipes, devolvendo à Sétima uma leitura merecidamente canónica. Para os
cultores da obra daquele que foi o compositor preferido de Estaline — facto que
tantos anticomunistas primários tentam negar — a interpretação confirmou a
vitalidade de uma música que continua a ser monumento histórico e grito humano.
O que o
estudo sublinha, com particular interesse, é a vontade de muitos irreverentes —
músicos, letrados, homens comuns — em adotarem lógicas racionais para questões
quotidianas: o jejum de carne na Quaresma, os livros a ler ou a proibir, as
práticas devocionais. Essa racionalidade incipiente foi reprimida pelos
Torquemadas locais, zelosos guardiões da ortodoxia. E a criação de um clima de
bufaria antecedeu em muito aquilo que, séculos depois, o salazarismo utilizaria
com igual eficácia para sufocar os anseios de liberdade.
4. É
neste ponto que Inventaire des peurs françaises, de Anne Muxel e Pascal
Perrineau, se torna leitura indispensável. O ensaio fala da realidade francesa,
mas poderia adaptar‑se plenamente à nossa. Lá como cá, ganham espaço os “ventríloquos
do medo”: figuras políticas e mediáticas que inundam o espaço público com
ameaças à identidade “cristã” e “branca”, alimentando a ideia de que esses
fantasmas põem em causa os chamados anseios coletivos.
O medo é
universal, lembram os autores, e muitas vezes essencial à sobrevivência. Mas
hoje vive num ambiente desideologizado, onde se instalou o desânimo perante um
futuro que parece sempre aquém do passado glorificado. A religião perdeu
autoridade; a ciência tornou‑se ambivalente desde os anos 1970; o Estado‑Providência
já não garante a proteção que prometia. O resultado é um espaço público onde só
parecem ter voz os propagadores do medo — os que veem solução apenas em
políticas autoritárias e em reformas que, entre nós, se imaginariam tomadas por
Passos Coelho, caso tivéssemos de novo, para nossa repetida infelicidade, esse
“homem do leme”. Daí faça todo o sentido a proposta final dos autores: se não
faltam ventríloquos do medo, importa dar espaço e voz aos da esperança —
aqueles que possam transformar anseios individuais em força coletiva, como
outrora sindicatos e partidos de esquerda souberam fazer.
5. Mas há
que ter cuidado com a forma como essas mensagens alternativas são construídas.
A recente agressão a um ator durante o discurso final da peça Catarina e a
Beleza de Matar Fascistas, de Tiago Rodrigues, apresentada em Bochum,
mostra como a literalidade primária se tornou dominante.
Incapazes
de compreender que a personagem de extrema‑direita servia precisamente de
denúncia — e não de apologia — alguns espectadores tomaram como literal aquilo
que era, desde a origem, uma crítica frontal ao fascismo. Não vem grande mal ao
mundo pelo equívoco, até porque a polémica deu nova visibilidade à peça. Mas o
episódio revela algo inquietante: a ironia, a alegoria, a inversão retórica —
tudo aquilo que exige distância crítica — corre hoje o risco de ser tomado como
afirmação direta. Num tempo saturado de medo, até a denúncia pode ser
confundida com a propaganda contrária. E isso obriga a repensar não apenas o
que se diz, mas a forma como se diz — sem abdicar da complexidade que a arte e
a política exigem.





