terça-feira, março 10, 2026

O silêncio que pensa, o ruído que destrói

 

1. Não me lembro de nenhuma das várias visitas à Tate Modern que não tivéssemos passado —e ficado longamente — na Sala Rothko, para sentir a pulsação silenciosa que os seus quadros sempre nos devolviam.

A Elza, que andara a ler os volumes da Taschen sobre dezenas de artistas, servia de guia: explicava o que mais lhe importava na obra de Rothko, sobretudo as razões que o levaram a abandonar o figurativismo inicial para abraçar os campos de cor, as texturas sobrepostas, as camadas verticais que pareciam respirar. Para mim, que nunca me distancio das preocupações políticas na arte, interessava‑me a militância marxista do pintor até ao fim dos anos 30 e a recusa, mais tarde, em servir o luxo capitalista — como quando rejeitou entregar os quadros encomendados pelo Four Seasons, horrorizado com o tipo de endinheirados que ali jantariam à sombra das suas telas.

Recordei tudo isto ao ver o documentário de Pascale Bouhénic, Mark Rothko, la peinture vous regarde. E, com ele, regressou a saudade das vivências londrinas: as idas frequentes à cidade quando a filha lá vivia e trabalhava; a sensação de a termos tão próxima, do outro lado do rio, na mítica Fleet Street; e os almoços no restaurante panorâmico do último andar da antiga central elétrica de Bankside — onde até nos permitimos, uma vez, o risco do horrível fish and chips. Tudo isso regressou, como se a memória tivesse também ela as próprias camadas de cor, sobrepostas e vibrantes, à maneira de Rothko.

2. Em Sirat, de Oliver Laxe, há um momento que parece feito para pensar o mundo contemporâneo: um homem maduro comenta que nada se ouve da música ao som da qual os corpos se movem hipnoticamente numa rave.

- Não é para ouvir, é para dançar! — responde‑lhe a jovem, quase ofendida.

A metáfora é imediata: uma sociedade onde os corpos se robotizam ao som de um ruído ensurdecedor que impede qualquer gesto de pensamento. Não é apenas a música — que funciona como fator de alucinação — mas a forma como ela replica os mecanismos de exploração de um sistema que precisa de indivíduos que não questionem nada. Corpos que dançam, mas não escutam; que se movem, mas não pensam; que se entregam ao ritmo, mas não ao sentido. E quando, já perto do final, Jade pede que aumentem o volume e explode sobre uma mina enquanto continuava a dançar, a metáfora torna‑se brutal: num mundo saturado de ruído, a incapacidade de ouvir pode ser fatal.

3. Forma de ruído semelhante é o do chamado cinema‑pipoca, que revisito apenas para confirmar as reservas — nada benignas — em relação ao género. E, no entanto, em Mundo Jurássico: Reino Caído há uma imagem que merece ser resgatada do chorrilho de clichés: quando a ilha está prestes a ser engolida pela lava de um vulcão avassalador, um enorme herbívoro de pescoço desmesurado — criatura mansa e simpática — observa, da margem, os últimos sobreviventes que se afastam no navio.

O animal fica para trás, condenado, olhando o barco como quem contempla uma última possibilidade de salvação que não lhe pertence e é difícil não ler ali uma metáfora do planeta em que vivemos: somos esses dinossauros indefesos, abandonados à beira de um cataclismo que outros humanos, por cupidez e irresponsabilidade, se apressam a tornar apocalíptico.

4. Francesa de nascimento e sueca por casamento, Johana Gustawsson acrescenta‑se à já longa lista de autoras de policiais nórdicos. Em Block 46, duas protagonistas — quase sempre em desacordo — investigam crimes que se repetem com inquietante semelhança: a traqueia seccionada, os globos oculares removidos, um misterioso “Y” gravado nos braços.

A investigação conduz inevitavelmente a Buchenwald, em 1944, onde atrocidades desse género eram cometidas com uma frieza industrial. E a autora tem aqui uma ligação íntima: o avô esteve preso nesse campo. E é essa sombra herdada que dá ao romance espessura emocional, transformando o policial num exercício de arqueologia moral.

5. Seguindo o rasto desse avô paterno, descobri uma figura excecional. Simon Lagunas, republicano espanhol que integrou a Resistência francesa, foi enviado para Buchenwald — mas não se limitou a sobreviver ao campo da morte.

Desde o primeiro momento conspirou para dali se evadir, recusando a passividade que o sistema procurava impor. E quando, já no final da guerra, os Aliados se aproximavam, participou ativamente — e a partir de dentro — na libertação do campo.

Não foi apenas testemunha do horror: foi agente da própria libertação e da dos outros. A coragem que demonstrou naquele lugar extremo ilumina, retroativamente, a força subterrânea que percorre Block 46: a memória não é apenas arquivo de sofrimento, mas também reservatório de resistência.

sábado, março 07, 2026

A cultura contra os ventríloquos do medo

 

1. Há muito que aprecio o lied como uma das expressões maiores da História da Música. E mantenho uma devoção particular pelo que Dietrich Fischer‑Dieskau, acompanhado por Alfred Brendel ao piano, fez com as Viagens de Inverno (Winterreise) de Franz Schubert. E até consigo desculpar, até certo ponto, as simpatias nazis de Elisabeth Schwarzkopf, tal é a força icónica da sua interpretação de An die Musik.

Durante anos, porém, o parco alemão mal me permitia perceber o que cada canção dizia, mesmo quando a música me sugeria emoções tão profundas. Esse obstáculo ficou agora resolvido com a edição de As Palavras da Música. O Livro do Lied Clássico, onde João Barrento traduz mais de seiscentos poemas de Goethe, Müller, Heine, Bachmann e tantos outros, muitos deles tão bem vertidos para português que parecem ter sido escritos na nossa língua. E o prefácio de Rui Vieira Nery ilumina, com a clareza habitual, a origem e a natureza desta tradição musical que vive da cumplicidade íntima entre palavra e som.

2. Em maio do ano passado, Andris Nelsons surgiu à frente da Orquestra Sinfónica de Boston para dirigir a Sétima Sinfonia de Chostakovitch, no festival da Gewandhaus de Leipzig que assinalou os cinquenta anos da morte do compositor russo. Tratando‑se de uma obra genial — e raramente uso o adjetivo — concebida para incentivar a resistência soviética ao nazismo, surpreendeu a imagem do maestro: bastante mais magro do que a silhueta obesa que lhe conhecíamos. Daí nasceu a especulação: doença grave? Obituários iminentes?

Nelsons, cioso da sua vida privada, nada disse. Mas houve unanimidade quanto ao essencial: a sua direção foi enérgica, incisiva, rigorosa nos diálogos entre os naipes, devolvendo à Sétima uma leitura merecidamente canónica. Para os cultores da obra daquele que foi o compositor preferido de Estaline — facto que tantos anticomunistas primários tentam negar — a interpretação confirmou a vitalidade de uma música que continua a ser monumento histórico e grito humano.


3. Sobre a Inquisição em Portugal não faltam bons ensaios que documentam os crimes cometidos à sombra do fanatismo clerical. Nesse sentido, não se pode dizer que E Todos Façam Perfeita Música…, de Hugo Porto, agora publicado pela Humus, traga revelações totalmente inéditas. Mas o livro ilumina com precisão as circunstâncias em que a Inquisição se exerceu em Évora no final do século XVI, quando o Concílio de Trento acabava de traçar as linhas vermelhas dos comportamentos aceitáveis perante as tentações protestantes.

O que o estudo sublinha, com particular interesse, é a vontade de muitos irreverentes — músicos, letrados, homens comuns — em adotarem lógicas racionais para questões quotidianas: o jejum de carne na Quaresma, os livros a ler ou a proibir, as práticas devocionais. Essa racionalidade incipiente foi reprimida pelos Torquemadas locais, zelosos guardiões da ortodoxia. E a criação de um clima de bufaria antecedeu em muito aquilo que, séculos depois, o salazarismo utilizaria com igual eficácia para sufocar os anseios de liberdade.

4. É neste ponto que Inventaire des peurs françaises, de Anne Muxel e Pascal Perrineau, se torna leitura indispensável. O ensaio fala da realidade francesa, mas poderia adaptar‑se plenamente à nossa. Lá como cá, ganham espaço os “ventríloquos do medo”: figuras políticas e mediáticas que inundam o espaço público com ameaças à identidade “cristã” e “branca”, alimentando a ideia de que esses fantasmas põem em causa os chamados anseios coletivos.

O medo é universal, lembram os autores, e muitas vezes essencial à sobrevivência. Mas hoje vive num ambiente desideologizado, onde se instalou o desânimo perante um futuro que parece sempre aquém do passado glorificado. A religião perdeu autoridade; a ciência tornou‑se ambivalente desde os anos 1970; o Estado‑Providência já não garante a proteção que prometia. O resultado é um espaço público onde só parecem ter voz os propagadores do medo — os que veem solução apenas em políticas autoritárias e em reformas que, entre nós, se imaginariam tomadas por Passos Coelho, caso tivéssemos de novo, para nossa repetida infelicidade, esse “homem do leme”. Daí faça todo o sentido a proposta final dos autores: se não faltam ventríloquos do medo, importa dar espaço e voz aos da esperança — aqueles que possam transformar anseios individuais em força coletiva, como outrora sindicatos e partidos de esquerda souberam fazer.

5. Mas há que ter cuidado com a forma como essas mensagens alternativas são construídas. A recente agressão a um ator durante o discurso final da peça Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, de Tiago Rodrigues, apresentada em Bochum, mostra como a literalidade primária se tornou dominante.

Incapazes de compreender que a personagem de extrema‑direita servia precisamente de denúncia — e não de apologia — alguns espectadores tomaram como literal aquilo que era, desde a origem, uma crítica frontal ao fascismo. Não vem grande mal ao mundo pelo equívoco, até porque a polémica deu nova visibilidade à peça. Mas o episódio revela algo inquietante: a ironia, a alegoria, a inversão retórica — tudo aquilo que exige distância crítica — corre hoje o risco de ser tomado como afirmação direta. Num tempo saturado de medo, até a denúncia pode ser confundida com a propaganda contrária. E isso obriga a repensar não apenas o que se diz, mas a forma como se diz — sem abdicar da complexidade que a arte e a política exigem.

quinta-feira, março 05, 2026

A lucidez como forma de resistência

 1. Qual é a importância de identificar os corpos dos milhares de emigrantes que dão à costa nas praias do Mediterrâneo, ou que morrem já em terra e são apressadamente enterrados sem que alguém se preocupe em saber quem eram, que histórias traziam consigo e que familiares deveriam ser avisados?

Para a maioria dos políticos ocidentais — e dos eleitores que os apoiam em agendas centradas na preservação do sistema capitalista ou, pior ainda, no agudizar das tensões xenófobas que lhes servem de alavanca para o poder — nem um cêntimo deveria ser gasto nesses esforços. Mortos sem nome são, para eles, problemas resolvidos. Mas para a médica legista Cristina Cattaneo há razões humanistas que justificam a persistência desse trabalho. A partir de Milão, onde leciona, transformou a identificação dos mortos em causa de vida, numa militância discreta, mas inabalável.

O documentário Puros Desconhecidos, rodado em 2023 por Valentina Cicogna e Mattia Colombo, acompanha esse esforço — condenado ao fracasso desde o início, dada a escala da tragédia e a indiferença institucional que a rodeia. Ainda assim, a cientista prossegue, movida pela convicção de que todos têm direito ao seu nome, mesmo depois de mortos, e de que alguém deve avisar os que os amavam ou conheciam sobre o seu fim infausto.

2. Kisunla e Leqembi são os nomes de dois novos medicamentos atualmente em estudo para doentes com Alzheimer em fase inicial. Trazem novas expectativas para quem ainda não entrou no território mais profundo da degenerescência cognitiva, mas não oferecem qualquer efeito prático para quem, como a Elza, já vai muito avançada nesse processo.

Durante anos — e apesar de termos passado por experiências semelhantes com a geração anterior, o meu pai e a mãe da Elza — sempre confiei que, quando chegássemos a esta idade, a Medicina já teria encontrado soluções eficazes para a cura. Tragicamente para a Elza, enganei‑me. E custa aceitar que, na roleta russa aleatoriamente distribuída pela doença, lhe tenha calhado a bala fatal. Uma bala que também atinge cerca de 3% dos portugueses vivos hoje.

Acreditasse eu num qualquer deus (com minúscula, como sempre) e não me faltaria vernáculo para lhe atribuir tão triste sina. Mas, não tendo sido contemplado com essa suposta fé, só encontro na própria doença a explicação possível — e, paradoxalmente, mais um argumento para confirmar o meu ateísmo. Porque, se há pessoa que, pelo feitio, pela sensibilidade, pela delicadeza de carácter, não mereceria de todo este “castigo”, seria ela.

3. Não sou sensível às mensagens dos muitos influencers que invadem as redes sociais e nelas disseminam conteúdos mentirosos ou, no mínimo, interesseiros, sempre embalados pela expectativa de um ganho financeiro para quem os produz.

Como me passam ao largo, só posso espantar‑me com as notícias de escolas que abriram as portas a essa gente, permitindo que contaminassem ainda mais as já degradadas mentes juvenis que se confessam suas seguidoras. Ou com o sucesso de uma campanha publicitária que convenceu multidões de que o cortisol seria a causa da obesidade abdominal e do mal‑estar geral do corpo — e que tudo se resolveria com a banha da cobra que esses vendedores de ilusões se propunham divulgar.

Não tenho dúvidas quanto às razões da minha própria obesidade: como mal (demasiados doces, queijos e enchidos), faço pouco exercício (para além dos pesos e halteres que implica cuidar da Elza) e durmo bem menos do que as recomendadas oito horas seguidas. Tivesse determinação suficiente para corrigir estas três causas e, mesmo sem me transformar num novo Adónis, ao menos poderia aspirar a uma silhueta menos rotunda. Mas, pelos vistos, para muitos é mais fácil embarcar na publicidade enganosa e acreditar que, combatendo a “hormona do stress”, lá chegariam…

4. Não sei se as frases de Valter Hugo Mãe — agora proferidas no contexto das Correntes d’Escrita — “Toda a minha vida tive a impressão de ser de lugar nenhum, nenhuma terra me deixa inteiro. Estarei sempre à deriva” — ainda se lhe mantêm atuais, tendo em conta a inconstância com que ajusta opiniões ao sabor das circunstâncias e das experiências. Mas não as subscrevo, de modo algum, como minhas. Tendo percorrido todos os oceanos e aportado a terras de todos os continentes — Antártida à parte — nunca perdi o cordão umbilical a este sítio onde nasci. Não por patriotismo (que execro, como reduto dos canalhas, Samuel Johnson dixit), mas porque aqui ficou quase sempre quem mais me importava afetivamente.

O meu lugar, aquele que me deixa inteiro, não é uma abstração geográfica nem uma construção identitária: é o lugar onde tenho vivido uma relação amorosa com mais de meio século.

5. Sou um assíduo leitor de jornais, que me chegam diariamente online através das assinaturas que mantenho. Já não é o sortilégio do papel — nem as mãos escurecidas pela tinta — mas permanece aquilo que Hegel definiu no início do século XIX: “o jornal é a oração matinal do homem moderno”. A substituição de um rito religioso pelo hábito de acompanhar o estado do mundo — mesmo quando ele nos traz mais aflições do que consolo — continua a ser uma das melhores formas de iniciar cada dia. Há, nesse gesto, uma disciplina de atenção e de responsabilidade: saber onde estamos, o que se passa, o que ameaça, o que muda, o que permanece. Uma liturgia laica, mas não menos necessária.

quarta-feira, março 04, 2026

Contra as Ilusões, a Lucidez

 

1. Olhando para as manifestações da extrema‑direita nos vários países europeus, percebe‑se uma inquietante consonância de coreografia, que confirma estarem todas a seguir uma cartilha superiormente definida por quem instrumentaliza os grupúsculos encarregues de as organizar e propagar.

Nas redes sociais, os vídeos repetem a iconografia: bandeiras idênticas, símbolos replicados nos tambores, nas faixas e nas tatuagens dos participantes — muitos deles de rosto tapado, conscientes do ostracismo que merecem. A uniformização é tão evidente que se torna impossível não reconhecer, nessa estética, a inspiração de Leni Riefenstahl, copiada e adaptada às novas circunstâncias, como se o passado tivesse encontrado novas máscaras para regressar ao espaço público.

2. Quem era Rainer Maria Rilke e porque conseguiu envolver tantos leitores na persuasiva magia das suas palavras? Porque foram as Cartas a um Jovem Poeta tão importantes para a minha geração de adolescentes, inclinados a curvar‑se sobre si mesmos na busca da “verdadeira vida”, distraindo‑se do que mais lhes deveria importar: contestar a guerra colonial para onde os queriam enviar para matar e morrer, e pôr em causa uma ditadura que já dava sinais de incurável degenerescência?

A introspeção rilkeana oferecia um refúgio sedutor, mas também um risco: o de substituir a ação pela contemplação, a urgência política pela autoanálise. Tantos anos depois, a busca espiritual de Rilke parece‑me fútil, ou pelo menos insuficiente perante a violência histórica que então nos cercava. Mas o seu conceito de “vida boa” — uma vida íntegra, coerente, vivida com sentido — ressoaria mais tarde, talvez voluntária ou involuntariamente, no discurso de Mariana Mortágua ao concluir o seu ciclo de liderança no Bloco de Esquerda.

3. Ser‑me‑ia hoje — como sempre me foi — inimaginável essa perspetiva de dialogar com deus (assumidamente com minúscula), mesmo tratando‑o como igual, como se a religiosidade pudesse ter para Rilke uma dimensão meramente poética. Muitos leram As Elegias de Duíno com a mesma disposição com que se deixaram iludir pelas filosofias orientais de ocasião: com a leveza acrítica de quem aceita mistificações desde que embaladas em linguagem elevada. Mas essas construções têm a consistência vazia de quem praticou espiritismo e chegou a acreditar‑se médium. E, ao contrário da imagem de génio espontâneo que cultivava de si próprio, os manuscritos das Elegias denunciam o labor intenso: correções sucessivas, frases riscadas, hesitações que desmentem a ideia de uma “alma” que ditaria diretamente ao papel.

Ciente de que não teria resposta das entidades invisíveis a quem se dirigia, Rilke contentava‑se com as suas perguntas, como se bastassem para conferir algum sentido à vida. Essa rendição ao enigma, tomada como profundidade, parece‑me hoje pífia — e, no entanto, continua a haver quem se dobre a essa moda, confundindo nebulosidade com transcendência.

4. Uma das preocupações que mais me acompanham nesta caminhada crepuscular para o fim da vida é encontrar a melhor forma de preservar o imenso arquivo de vivências acumulado ao longo de quase setenta anos — um arquivo que é meu e da Elza, e que em boa parte partilhamos desde a infância até este culminar de meio século de casamento oficializado. Como guardar tudo isto? Como transmitir, sem peso nem solenidade, aquilo que fomos, aquilo que vimos, aquilo que nos fez?

Défilement, a curta‑metragem de Francisca Miranda, interessou‑me como metodologia possível. Em pouco mais de uma dúzia de minutos, a realizadora recorre às fotografias de aniversário da família e, em voz off, reconstrói a respetiva história. Estão ali os adultos vivos, os que já partiram e, sobretudo, essa nova geração que recebe o testemunho de uns e de outros. Não é uma obra‑prima, mas sim um trabalho sensível e competente, que mostra como a memória pode ser convocada com simplicidade, sem artifícios, deixando que as imagens falem e que a voz apenas as acompanhe.

5. Uma reportagem sobre a população idosa nas cadeias portuguesas repete o que há muito se sabe: as condições são indignas e deveriam envergonhar quem insiste em descrevê‑las como uma espécie de hotel gratuito, com cama, comida e roupa lavada. Essa caricatura só poderia ser desmontada se quem a propaga tivesse de sentir na pele o que é viver num espaço exíguo, degradado, sem privacidade, sem cuidados adequados e sem dignidade. E há ainda o resto, talvez mais perturbador: que sentido faz manter enjauladas pessoas incapazes de repetir a conduta que as levou à condenação e que, em muitos casos, só graças à solidariedade dos outros reclusos conseguem deslocar‑se, tomar banho, mudar de roupa, porque já não têm forças nem discernimento para o fazer sozinhas? E que hipótese de reinserção tem quem é libertado sem emprego, sem subsídio, sem rede de apoio, obrigado a recorrer a expedientes ilegais para escapar à fome e à falta de um lugar onde sobreviver?

Sem espaço de reinserção, nem respeito mínimo pelos que passam os últimos anos de vida atrás de grades, as prisões portuguesas continuam a espelhar o subdesenvolvimento estrutural deste país à beira‑mar plantado — um país que fala de direitos humanos, mas hesita em reconhecê‑los onde são mais necessários. 

terça-feira, março 03, 2026

O importante é acreditar

 

1. O processo de paz entre as FARC e o governo colombiano foi um bom exemplo de como duas partes ideologicamente separadas por mundividências opostas podem sentar‑se à mesa e chegar a mínimos denominadores comuns capazes de estancar décadas de violência política.

Um documentário sobre a ação dos negociadores — não só nesse conflito, mas também nos do Sudão, na antiga Jugoslávia ou no drama dos desaparecidos no México — mostra o papel decisivo da diplomacia na redução do impacto da violência sobre populações indefesas, sujeitas às vontades aleatórias de quem domina os territórios onde vivem.

Duas dificuldades maiores surgem sempre como pano de fundo: para muitos jovens, a guerra é a atividade mais “promissora”, seja porque nela se alistam voluntariamente, seja porque são forçados a fazê‑lo; e o nepotismo dos chefes locais obriga quem vem de fora a prodígios de negociação, aceitando o que é apenas razoável quando, racionalmente, o que se justificaria seria o bom — ou mesmo o ótimo.

Paira sempre a ameaça de que tudo possa ruir a qualquer momento. E, ao substituir a dissuasão diplomática por ataques diretos contra os seus “inimigos de estimação”, Trump colocou entre parêntesis a diplomacia enquanto ferramenta essencial para a paz global.

2. Uma reportagem sobre o Chaâbi devolve‑me os sentimentos distanciados que o fado ainda hoje me suscita, apesar de José Mário Branco — e Camané, a ele associado — ou Carlos do Carmo terem atenuado a antipatia da juventude, quando o situava entre os três “éfes” tão acarinhados pelo Estado Novo.

Com a música tradicional argelina passou‑se o contrário: sendo uma emanação popular da antiga música clássica de origem andaluz, e sonoridade dominante nas casbahs, desempenhou um papel determinante na luta anticolonial. Não só forneceu os hinos agregadores das multidões em resistência, como facilitou logisticamente a distribuição da propaganda independentista, graças aos passes concedidos pelas autoridades coloniais aos músicos tradicionais.

Existem exemplos, noutras latitudes, de músicas populares com participação ativa nas lutas emancipadoras — sobretudo na América Latina — mas o Chaâbi envergonha o fado naquilo em que este foi voz do que o autor de A Cantiga é uma Arma descreveu como “o faduncho choradinho de tabernas e salões semeia só desalento, misticismo e ilusões. Canto mole em letra dura nunca fez revoluções.”

Cinquenta anos depois, vou ouvindo fado sem grande empatia, sendo‑me bem mais interessante quando se mistura com outros estilos e se metamorfoseia noutra coisa — como acontece com Ricardo Ribeiro, ora enlaçado com a música erudita na colaboração com os Músicos do Tejo, ora em cumplicidade com o libanês Rabih Abou‑Khalil.

3. O zydeco, swing crioulo da Luisiana nascido da mistura entre negros e francófonos cajuns relegados para as periferias do estado, funcionou como catarse para a exploração sofrida por quem o praticava e divulgava — quase sempre operários agrícolas mal pagos nos latifúndios locais.

Associando instrumentos tão básicos como uma prancha de lavar roupa ao acordeão, reivindicavam momentos de liberdade nos bailes movimentados, onde por instantes se libertavam das humilhações impostas pela ordem social que os oprimia.

E, no entanto, esse estilo musical nunca deu o passo natural de se transformar em canção de intervenção. Mitigou frustrações, mas não as converteu naquilo que seria expectável: ferramentas de consciencialização, motores de uma atitude que recusasse a aceitação passiva da desordem estabelecida. A energia libertadora do zydeco ficou circunscrita ao instante festivo, sem se prolongar numa crítica organizada ou num impulso transformador.

4. No documentário Nature: The Call of Reconciliation, o cineasta Yann Arthus‑Bertrand começa por mostrar uma lagoa em forma de coração num mangal da Nova Caledónia. A imagem, quase improvável, demonstra como a natureza pode ser particularmente impressiva na sua beleza metafórica. Essa mesma capacidade de espanto está, por exemplo, nos Pilares da Criação, tal como o telescópio James Webb os revelou ao olhar para os confins do universo. E, perante tais visões, torna‑se evidente o quanto, feitos de poeira estelar, somos minúsculos quando comparados com a vastidão do Cosmos.

nsciência deveria bastar para nos levar a prezar a sustentabilidade deste planeta azul, cuja biosfera dá sinais de colapso, como o demonstram as sucessivas catástrofes naturais. A cada nova tempestade, incêndio ou seca extrema, o aviso repete‑se: a Terra não é infinita, nem indestrutível, e a margem de erro estreita‑se. Por isso se torna ainda mais inquietante ver como certos interesses — e as figuras políticas que lhes dão voz — persistem no negacionismo climático, recusando a evidência científica e bloqueando qualquer esforço de reconciliação com o planeta que habitamos.

5. “O importante é acreditar”, proclama o Stalker no final do filme de Tarkovski. Acreditar que os nossos sonhos são realizáveis, mesmo quando não são acessíveis naquele quarto onde tantos procuram a promessa de concretização. Porque, dissipando‑se as ilusões dos caminhos que afinal são becos sem saída, não se deve desistir do outro caminho — aquele que pode abrir‑se para as avenidas largas de que falava Salvador Allende no último discurso dirigido aos seus concidadãos, minutos antes de morrer.

Acreditar, aqui, não é ingenuidade: é fidelidade à possibilidade de futuro, mesmo quando tudo à volta parece ruir. É o gesto final que resiste à violência, à resignação e ao colapso — e que mantém aberta a hipótese de um mundo diferente.

segunda-feira, fevereiro 23, 2026

Uma canção doce? Deveras?!

 


Há romances que constroem a tensão pelo segredo; outros, mais raros, pela revelação imediata. Chanson douce pertence a esta segunda espécie. Desde as primeiras páginas sabemos o essencial — que as crianças morrerão às mãos da ama. O que se segue não é, portanto, um enigma policial, mas uma dissecação moral. A pergunta deixa de ser quem? ou como? e passa a ser porquê? — e, mais incómodo ainda, com que cumplicidades invisíveis?

O casal que contrata Louise (nome que depressa adquire uma ressonância inquietante) encarna uma modernidade urbana reconhecível: duas carreiras exigentes, uma parentalidade desejada mas comprimida pelo tempo, uma confiança depositada na profissionalização do cuidado. Não há negligência ostensiva, nem desamor. Há, isso sim, a convicção — profundamente contemporânea — de que o afeto pode ser delegado sem que se dilua.

Slimani instala aí o seu primeiro desconforto. A ama surge como solução perfeita: disponível, meticulosa, devotada até ao excesso. Torna-se indispensável, infiltra-se na intimidade doméstica, aprende os ritmos da casa melhor do que os próprios pais. A harmonia aparente constrói-se sobre uma transferência silenciosa de autoridade: quem cuida conhece; quem conhece decide; quem decide exerce poder.

O romance recusa, contudo, a simplificação psicológica. Louise não é um monstro súbito, nem uma figura unívoca da loucura. A autora vai revelando as fissuras: precariedade económica, solidão, humilhações acumuladas, invisibilidade social. O que se insinua é menos a patologia individual do que uma forma de esmagamento estrutural. A ama vive num limbo de classe — íntima sem ser igual, indispensável sem ser reconhecida.

É nesse território que o livro se torna politicamente incómodo. A relação entre patroa e empregada é atravessada por uma cordialidade tensa, feita de gratidão, paternalismo e distância. O amor pelos filhos dos outros convive com a consciência amarga de não possuir nada. O cuidado, que deveria humanizar, converte-se em instrumento de alienação.

Ler Chanson douce hoje é inevitavelmente lê-lo à luz do debate sobre o trabalho feminino. O romance parece suspenso entre dois discursos que raramente se escutam. Por um lado, a exaltação da realização profissional das mulheres — a conquista legítima do espaço público, da autonomia económica, da identidade para além da maternidade. Por outro, a nostalgia conservadora que as reinscreve no lar como destino “natural”, desvalorizando qualquer delegação do cuidado.

Slimani não valida nenhum destes polos. Limita-se a expor a fricção. A emancipação de umas depende, muitas vezes, do serviço mal pago de outras. A liberdade profissional pode coexistir com novas formas de desigualdade feminina. A casa, longe de ser refúgio, torna-se palco de relações de poder subtis, onde afeto e hierarquia se confundem.

O mais perturbador é que o romance nunca absolve inteiramente ninguém. Nem os pais, absorvidos pelo trabalho mas genuinamente amorosos; nem a ama, vítima de um sistema mas autora do irreparável. O crime final, já anunciado, deixa de ser apenas um ato individual para adquirir uma dimensão quase alegórica: o colapso de uma confiança social fundada na desigualdade.

A escrita de Slimani é seca, contida, quase clínica. Não procura a comoção fácil. Observa, disseca, aproxima-se dos gestos mínimos — uma refeição, um banho, uma canção sussurrada — até que o quotidiano se torna opressivo. A doçura do título funciona como ironia sombria: a canção que embala é a mesma que conduz ao abismo.

No fim, fica uma inquietação que ultrapassa o enredo. Chanson douce não é apenas a história de um crime doméstico; é uma reflexão sobre o preço invisível da organização contemporânea do cuidado, sobre a solidão nas grandes cidades, sobre a maternidade partilhada e as hierarquias que a sustentam. Um romance breve, mas de ressonância longa — desses que não acusam, mas deixam o leitor a interrogar-se sobre a arquitetura moral do seu próprio quotidiano.