A
entrevista de Luís Caetano a Abdulrazak Gurnah trouxe‑me de volta as
recordações da passagem por Zanzibar no início dos anos 90, quando a ilha ainda
estava distante do boom turístico que a transformou, e lembro como as ruas, em
grande parte sem alcatrão, se estendiam entre casas de pedra coralina onde o
tempo parecia mover‑se devagar, sem passeios definidos e com atividade
económica reduzida ao pequeno comércio que sobrevivia entre portas abertas para
a rua; estavam lá os edifícios de arquitetura árabe que distinguiam Stone Town
das cidades que ia conhecendo na costa oriental do continente, até mesmo em
Mombaça, onde a presença católica diluíra a marca deixada durante séculos pelo
comércio marítimo vindo dos portos do mar Vermelho e do Golfo Pérsico, herança
que em Zanzibar permanecia visível nas portas talhadas, nos pátios interiores,
nos minaretes que se insinuavam entre telhados gastos, e no porto cruzavam‑se
os dhows de madeira, propulsionados à vela, que durante anos asseguraram
o essencial das trocas comerciais na região, como se o Índico ainda guardasse a
memória de rotas antigas que o turismo viria a apagar; ao ouvir Gurnah falar de
Gente da Casa, tive a impressão de que pouco resta hoje do que ali
conheci há trinta e cinco anos, lembrando que a memória de um lugar raramente
coincide com o que o lugar se torna e que o exercício de reconhecer o passado
exige sempre distância e atenção.
No
podcast de Ana Sá Lopes no Público, Ana Bárbara Pedrosa refletiu sobre
as esquerdas enquanto trincheira política onde ainda se reconhece, embora a
militância ativa no Bloco de Esquerda pertença ao passado, e apesar de
concordar no essencial com o que diz, sobretudo quanto à crise de identidade
que atravessa essa trincheira, saí da conversa com a mesma sensação que Nanni
Moretti descreveu ao ouvir D’Alema na televisão, não tanto porque não se diga
nada de esquerda, mas porque falta aquilo que nesta altura procuro: respostas
eficazes para enfrentar e derrotar as direitas algorítmicas, que constroem o
seu poder a partir de mentiras, manipulações e da fabricação primária de
inimigos transformados em ódios de estimação por quem vive frustrado com o que
é e com as aspirações intangíveis que alimentam a inveja; a análise é lúcida,
mas fica aquém do que o momento exige, porque diagnosticar já não basta quando
o adversário opera com ferramentas que moldam perceções, emoções e medos em
escala industrial, e o que falta é a coragem de pensar estratégias que devolvam
às esquerdas capacidade de disputar o imaginário e não apenas comentar a
derrota, tarefa que implica reformular a ação política num tempo em que a
disputa se trava menos no parlamento e mais nos circuitos invisíveis onde se
fabricam certezas.
É também
daquelas histórias que John Ford não hesitaria em escolher como exemplo da sua
tese sobre as escolhas possíveis entre a verdade e a lenda, porque quando
Gabriel García Márquez soube da publicação de A Festa do Chibo de Vargas
Llosa sobre Trujillo, ditador feroz da República Dominicana, terá reagido com a
galhardia que lhe era conhecida, dizendo que o peruano lhe roubara o tema,
frase que parece saída de um dos seus próprios contos e que ilumina a
rivalidade silenciosa entre dois escritores que partilharam admiração e
conflito; e, de facto, é fácil imaginar o que García Márquez poderia ter feito
com um romance sobre Trujillo, ele que transformava violência e poder em
matéria de fábula, mas pela pena de Vargas Llosa, que passou a segunda metade
da vida a renegar as escolhas ideológicas da primeira, o romance lê‑se com o
agrado de quem encontra obra bem escrita, embora marcada por distância
analítica que contrasta com a intensidade emocional que o autor de Cem Anos
de Solidão teria certamente procurado, e fica‑se com a impressão de que a
disputa entre ambos é tão só mais um capítulo da longa história de como a
literatura latino‑americana se debate com o peso dos seus próprios fantasmas
políticos; quanto à veracidade da reação atribuída a García Márquez, se não
aconteceu, é pelo menos saborosa de aceitar como lenda, lembrando que a
literatura, quando se aproxima do poder, obriga sempre a escolher entre a
verdade e a lenda, e que cada escolha diz mais sobre quem escreve do que sobre
o ditador que se pretende retratar.











