Vincent
Price passa quase todo o filme de óculos escuros. A personagem, Verden Fell,
diz não suportar a luz do dia, e a explicação serve a intriga. Mas há outra
leitura, que o filme não faz e se impõe a quem o vê hoje: é o próprio cinema
gótico de Roger Corman a proteger-se da luz, um género que vivera de
interiores, de nevoeiro de estúdio e de velas, e em O Túmulo de Ligeia é
obrigado, pela primeira vez, a sair à rua.
Foi o
último dos oito filmes que Corman adaptou de Edgar Allan Poe, entre 1960 e
1964, e o único a abrir-se verdadeiramente ao exterior. Rodado em
Inglaterra, troca os cenários de cartão pintado pelas ruínas de um priorado
medieval, pelos campos de uma caçada à raposa, pela pedra antiga de Stonehenge.
A luz
natural entra no género como uma intrusa. É ela que torna o filme singular na
série, e o desequilibra: o terror de Corman alimentava-se do artifício
assumido, da cor saturada e do espaço fechado, e à luz do dia o sobrenatural
parece mais frágil, e exposto ao ridículo. O filme hesita entre dois mundos, e
essa hesitação é o verdadeiro assunto.
A
história é a de Poe, alargada. Rowena, numa caçada, cai do cavalo junto ao
túmulo de Ligeia, a primeira mulher de Fell, e acaba casada com o viúvo. A lua
de mel é feliz; o regresso à mansão não. A morta, que na vida jurara não se
render ao inevitável, não cede o lugar, e a casa enche-se dela — num gato
negro, num olhar, num ciúme que atravessa o túmulo. Elizabeth Shepherd
interpreta as duas mulheres, e a escolha tem lógica: Rowena não é uma rival de
Ligeia, é o corpo que ela quer recuperar.
Poe abriu
o conto com uma epígrafe que atribuiu a Joseph Glanvill: o homem só se entrega
aos anjos, e à morte, pela fraqueza da sua vontade. É a chave de tudo. Ligeia
não regressa por intervenção divina nem por maldição, mas porque quer. É a
vontade, e não a fé, que vence a morte — ideia estranhamente laica para um
conto de fantasmas. Um ateu pode ler Poe sem esforço, porque o sobrenatural
dele não pede crença em nenhum além: é a imaginação de uma força humana levada
ao absurdo.
Os
surrealistas perceberam-no, e não foi por acaso que Baudelaire o traduziu para
francês. Poe constrói lógicas perfeitas a partir de premissas impossíveis, e
pede ao leitor que aceite a premissa.
O filme
pede o mesmo, e é aqui que se separa a razão de quem vê. A lógica de O
Túmulo de Ligeia é rigorosa dentro de si mesma e absurda fora dela. Gatos
possuídos, hipnotismo, uma morta que vigia os vivos — a razão recusa, e tem
razão. Mas o pacto que o cinema fantástico propõe não é de fé, mas o de jogo. O
espectador suspende a descrença como suspende a gravidade ao ver uma fita de
Méliès: sabe que é mentira, e consente nela pelo prazer da forma. Corman nunca
pediu mais do que isso. Não há a solenidade de quem quer converter. Há o
divertimento de um artesão que sabia sê-lo.
E Price,
como sempre, é o homem certo para esse pacto. A sua interpretação flutua entre
o trágico e o burlesco, com a voz que transforma cada frase numa ameaça e numa
piscadela de olho. Nunca se percebe inteiramente se está a sofrer ou a
divertir-se, e é por isso que funciona: o terror de Corman e Price tem a
consciência da sua própria teatralidade.
O que dá
ao filme o lugar na história não está, porém, no ecrã, mas nos créditos. O
argumento é de Robert Towne, que dez anos depois escreveria Chinatown. A
mansão em ruínas, o passado que não deixa o presente viver, o segredo enterrado
que corrompe tudo à sua volta — Towne levará estas obsessões para Los Angeles e
para Polanski, e o gótico de Poe tornar-se-á o noir da água roubada e do
incesto. É uma linhagem que não se suspeita ao ver Ligeia, mas está lá
em germe.
Corman
foi isso: um produtor e realizador de baixos orçamentos, rápidos e rentáveis,
que deu a primeira oportunidade a quase toda uma geração. Coppola, Scorsese,
Bogdanovich, Demme, Jack Nicholson passaram pelas suas produções antes de
mudarem o cinema americano nos anos setenta. Corman ensinava a filmar barato,
depressa e com liberdade, e deixava que os jovens experimentassem dentro das
regras do género. O filme de série B era uma escola, e foi dela que saiu a Nova
Hollywood.
É aqui
que o filme fala ao presente. Corman morreu em 2024, e com ele terminou um
modelo que já não existia há muito. A indústria de hoje não forma ninguém:
produz franquias caríssimas, entregues a realizadores escolhidos pela segurança
e não pelo talento, e os filmes pequenos ou desaparecem nas plataformas ou
nunca chegam a fazer-se. Não há onde aprender fazendo filmes. O cinema de baixo
orçamento sobrevive, mas já não é a antecâmara de nada. Corman fazia fitas
medianas que alimentavam génios; a indústria atual faz fitas milionárias que
não formam ninguém.
Ligeia
não se rendia à morte pela força da vontade. O cinema de Corman, esse,
rendeu-se — e talvez seja a única morta deste filme que valeria a pena ver
regressar.












