Há sinais
que anunciam o fim antes de ele chegar, e talvez seja isso que agora paira
sobre o Festival Internacional de Teatro de Almada, como já aconteceu com os
Dias da Música no CCB, que desapareceram sem grande alarme público, embora
fosse um dos raros momentos em que a Grande Lisboa respirava cultura com
alegria, e a música fosse capaz de suspender por instantes a rotina e devolver
alguma ordem interior.
Ouço
Rodrigo Francisco explicar que os preços dos hotéis, das viagens, dos
transportes, dos equipamentos, dos cenários, subiram de tal forma que o
festival só sobreviverá com aumento significativo do subsídio, e percebo como
esta frase, tão simples, contém a radiografia de um país onde a cultura é
sempre a primeira vítima dos cortes, como se fosse luxo dispensável e não parte
essencial da saúde pública, que não se mede apenas em corpos, mas também em
imaginação.
Vivemos
num tempo em que tudo encarece menos o discurso político sobre a importância da
cultura, sempre tão generoso, tão inflamado, tão pronto a proclamar que sem
arte não há democracia, mas incapaz de transformar essa retórica em orçamento,
como se a cultura fosse entidade abstrata que se alimenta de declarações e não
de condições materiais para existir.
Vejo o
festival ameaçado pela mesma lógica que levou outros eventos ao
desaparecimento: a soma de custos que ninguém quer assumir, a falta de visão
que impede pensar a longo prazo, a ideia de que o público se adapta a qualquer
perda, como se a ausência não deixasse marcas, como se a cidade não ficasse
mais pobre quando um palco se apaga.
Termino com a sensação de que estes tempos difíceis para a cultura não são conjuntura, são sintoma, e que o verdadeiro risco não é perder um festival, mas habituar‑nos a perdê‑los sem protesto, como quem aceita que o silêncio é inevitável.



















