Um rapaz
de olhos parados toca banjo num alpendre. Um homem da cidade, de guitarra ao
colo, responde-lhe. Durante uns minutos o duelo é uma festa, os acordes
encontram-se, alguém dança. Depois a música acaba, e o rapaz vira a cara sem um
sorriso. Em Deliverance (1972), de John Boorman, este gesto chega para
os quatro visitantes perceberem, demasiado tarde, onde estão.
O cinema
gosta de mandar gente da cidade ao campo e de a castigar por isso. O esquema
repete-se de década para década e de país para país: o carro avariado, a
estrada sem placas, a estalagem de poucas palavras, os olhares demorados na
mercearia. A natureza deixa de ser paisagem e torna-se cerco. Quem lá vive sabe
coisas ignoradas pelo forasteiro, e uma delas é matar.
O medo tem uma história. Raramente o filme a diz, quase sempre a mostra.
Em The Texas Chain Saw Massacre (1974), de Tobe Hooper, a família de canibais trabalhava num matadouro. A modernização trocou-lhes o martelo por uma pistola de ar comprimido e mandou-os embora. Despedidos, continuam o ofício em casa, com outra matéria-prima. O filme foi rodado com pouco dinheiro, em película granulosa, sob um sol de queimar, e essa sujidade da imagem acompanha a sujidade do assunto: a carne, o trabalho, o desperdício humano de uma economia sem uso para certas pessoas.
O campo assassino é, muitas vezes, o que foi abandonado.
Sam Peckinpah complica a lição. Em Straw
Dogs (1971), um matemático americano instala-se numa aldeia da Cornualha
com a mulher, nascida ali. Os homens da terra provocam-no, humilham-no,
fazem-lhe da mulher uma vítima. Quando o cerco chega à casa, o homem pacato
descobre em si uma ferocidade metódica, maior do que a dos sitiantes. Peckinpah
não absolve a aldeia, mas recusa-se a absolver o intelectual. A violência não
mora no campo; estava à espera, no estudioso de óculos, de uma ocasião.
O filme diverte um espectador ateu de duas
maneiras. Nenhuma das religiões em presença sai bem, e a mais simpática é a
mais mortífera. A ilha funciona com uma lógica impecável: só lhe falta a
premissa. O sargento morre a rezar, os ilhéus cantam, e a câmara olha para o
sol a pôr-se como quem olha para um deus indiferente a todos.
Por fim, As bestas (2022), de Rodrigo
Sorogoyen, devolve o tema ao presente e à vizinhança. Um casal francês
instala-se numa aldeia galega quase vazia, cultiva hortícolas biológicas e
recupera casas em ruínas. Uma empresa eólica oferece dinheiro pelas terras. Os
franceses recusam vender, os vizinhos querem aceitar. Dois irmãos, sem mulher,
sem futuro, sem nada além da terra e do vinho, começam a odiar o estrangeiro.
Sorogoyen não escolhe lados com facilidade. O
francês tem razão sobre a paisagem e não percebe a pobreza. Os irmãos têm razão
sobre a pobreza e tornam-se monstros. A longa cena da taberna, filmada quase
toda num só plano, deixa o espectador preso à mesa como o protagonista: ninguém
levanta a voz e tudo se ameaça. A fotografia dá à Galiza uma beleza enorme,
nevoeiros, montes, cavalos selvagens, e essa beleza não protege ninguém.
O mais
perturbador destes filmes não está no sangue. Está no olhar da cidade.
O cinema
nasceu urbano e continua a sê-lo. Filma o campo com olhos de quem partiu e leva
consigo uma culpa sem nome: a barragem, o matadouro mecanizado, as aldeias
esvaziadas, os velhos deixados para trás. O medo do homem do mato é, em boa
parte, o medo da conta por pagar. Os melhores filmes do género sabem disto e
mostram-no. Os piores limitam-se a transformar o rural em monstro, e repetem,
com mais sangue, o desprezo de sempre.
Hoje o
interior despovoado arde nos verões, vota zangado e é visitado ao fim de
semana. A cidade descobre aí o ressentimento e espanta-se. Os filmes estavam a
avisar há meio século.
O rapaz
do banjo continua no alpendre, à espera de quem saiba responder-lhe sem se ir
embora.











