O 60
Minutes da CNN sempre me pareceu a expressão canina dos interesses das
sucessivas administrações norte‑americanas. Um programa que muda de tom
conforme muda o poder. E onde apresentadores e equipas de suporte são
despedidos com a mesma naturalidade com que se muda de guarda num palácio. A
regra é simples: segue‑se a his master’s voice.
Por isso
quase sempre duvido das vantagens de continuar a acompanhar esse exercício
indecoroso. A propaganda ianque assume‑se com um maniqueísmo tão previsível que
já nem surpreende. O mundo dividido entre bons e maus, liberdade e tirania, luz
e trevas — sempre com os Estados Unidos no papel de árbitro moral. Uma
narrativa que se repete, independentemente da complexidade dos factos.
O
problema não é a existência de uma linha editorial. Todas as têm. O problema é
a ausência de pudor. A facilidade com que se transforma jornalismo em
catecismo. A forma como se embrulha interesse geopolítico em retórica
moralista. E como se espera que o espectador aceite tudo isso sem pestanejar.
A verdade
é que a informação precisa de desconfiança. Precisa de distância crítica.
Precisa de ser confrontada com outras vozes, contextos, leituras. E programas
como este, que se apresentam como investigação rigorosa, mas funcionam como
extensão narrativa do poder, tornam esse exercício ainda mais necessário.
Vale a
pena pensar no que significa consumir informação com lucidez. Não para rejeitar
tudo, mas para não aceitar tudo. E para lembrar que, num mundo saturado de
certezas fabricadas, a dúvida continua a ser um gesto de liberdade.



















