A viagem
de Jack London pela Polinésia, no início do século XX, foi uma travessia
interior. Partiu para o Pacífico movido por uma inquietação que não se resolvia
na vida urbana, nem no sucesso literário, procurando um lugar onde o mundo
ainda resistisse à velocidade industrial, o corpo pudesse medir o real sem
mediações, e a experiência tivesse espessura. A bordo do Snark,
acreditou que encontraria esse território. O que encontrou foi mais complexo:
beleza intensa, violência histórica, fragilidade humana — e uma transformação
silenciosa do seu olhar.
A
Polinésia começou por oferecer-lhe a evidência física: o calor que não concede
tréguas, o mar que organiza a vida, os corpos que se movem numa relação direta
com o ambiente. London observou essa harmonia com fascínio, mas depressa
percebeu que a paisagem escondia uma história de declínio. A presença colonial
tinha deixado marcas profundas: doenças, dependências, perda de autonomia
cultural.
O
viajante que procurava autenticidade encontrou um mundo em tensão — vitalidade
e ruína, liberdade e despossessão. E encontrou também o limite do próprio
corpo: a doença repetida, o desgaste, a vulnerabilidade que desmonta qualquer
ideal de força.
Essa
experiência alterou-lhe a escrita. Nos textos posteriores, o olhar torna-se
mais atento às estruturas sociais, aos rituais, às formas de convivência. A
observação ganha rigor etnográfico, sem perder a dimensão literária. A crítica
ao colonialismo surge com clareza: London percebe que o progresso técnico não tem
equivalência moral, e a expansão ocidental produz destruição tanto quanto
ordem.
A
consciência da finitude infiltra-se na sua obra: o herói voluntarioso dá lugar
a figuras que enfrentam limites, contingências, fragilidades. A viagem não lhe
deu apenas matéria narrativa; deu-lhe profundidade. London descobre que o
pensamento nasce do corpo — do calor, da fadiga, da doença, da resistência do
mundo.
A
Polinésia desmonta o mito da civilização como destino superior e revela outras
formas de tempo, de convivência, de estar no real. A viagem torna-se metáfora
da existência: avançar, adaptar-se, reconhecer limites, persistir. Nada é fixo;
tudo se transforma. A impermanência deixa de ser conceito e passa a ser
experiência.
O período
polinésio é ponto de viragem. A inquietação que o levou ao Pacífico
devolveu-lhe uma visão mais lúcida, crítica e humana. A obra que se segue
carrega essa metamorfose: menos idealização, mais verdade; menos força, mais
consciência.
A
Polinésia ensinou-lhe que compreender o mundo exige estar nele — com corpo, olhar,
vulnerabilidade. E que a escrita, quando se aproxima dessa verdade, ganha claridade.
Em Memórias
de um Corpo que Arde, de Antonella Sudasassi Furniss, três mulheres
costarriquenhas — Ana, Patricia e Mayela, entre os sessenta e oito e os setenta
e um anos — contam como descobriram, ou não descobriram, o próprio corpo numa
sociedade em que a sexualidade era assunto que não se nomeava.
O que
contam não surpreende ninguém que tenha vivido aquelas décadas, deste ou do
outro lado do Atlântico: casamentos sem prazer, o dever conjugal como quem
cumpre um horário, e, à margem, na solidão, a descoberta jubilosa de que o
corpo podia ser outra coisa.
É matéria
dada, mas há-as que é preciso dar outra vez, sobretudo quando não falta quem
queira apagá-las do programa.
A
realizadora diz que o filme é a conversa que nunca teve com as avós. A frase
explica a forma. As três mulheres não aparecem: ouvimo-las em voz off, e
encarnam num único corpo, o de Sol Carballo, atriz da mesma geração, que as
vive no ecrã como se fossem uma.
Atrizes
mais novas dão corpo à menina e à rapariga nos regressos ao passado, e a câmara
passa de uma época a outra sem cortes que as separem, como se a infância, a
juventude e a velhice coabitassem no mesmo espaço. Três biografias distintas
fundem-se numa só figura porque, no essencial, eram a mesma — o que lhes
aconteceu incluiu toda uma geração. O singular do título não é descuido. É
tese.
O filme
foi rodado numa casa de San José, e quase tudo passa-se entre aquelas paredes.
Houve quem achasse monótono ver a atriz a ela confinada durante boa parte da
hora e meia, mas a casa é o tema. Foi ali que estas vidas foram fechadas — a
cozinha, o quarto, a cama onde o prazer não entrava. E há um pormenor técnico
que agrava o efeito: o filme está em formato panorâmico, o mais largo do
cinema, aquele que nasceu para desertos e batalhas. Aplicado a um interior
doméstico, alarga o espaço à volta da mulher sem lhe dar saída. Muito ar,
nenhuma porta. O enquadramento diz da clausura o que nenhuma das vozes precisa
de dizer.
Sou um
homem de setenta anos a ouvir mulheres da minha geração falarem do desejo que
não tiveram. O desejo delas é-me, em rigor, alheio, e não vou fingir que o
filme mo revela de dentro. Mas a minha posição tem um lugar preciso nesta
história, e é desconfortável: os maridos ausentes do filme são da minha
geração. São os homens que não perguntaram, que não ouviram, que tomaram o
silêncio por consentimento e a rotina por harmonia. O filme não os acusa — mal
os mostra. É essa ausência que pesa.
Um
espectador masculino desta idade não pode ver o filme como observador neutro;
vê-o do outro lado da cama, e sabe que aquelas mulheres estão, finalmente, a
dizer em voz alta o que não disseram a quem estava ao lado.
Vale a
pena demorar no país. Na primeira vez que o vi, julguei-o espanhol, e o
paralelo impunha-se: franquismo e salazarismo partilharam uma moral conjugal e
familiar com coincidências sinistras — a mulher como guardiã do lar, o corpo
feminino como propriedade da família e da Igreja. Cá tivemos a Obra das Mães
pela Educação Nacional; lá, a Sección Femenina. Mas a Costa Rica destas décadas
não era uma ditadura. É o país que aboliu o exército em 1948, democracia
estável num continente de generais. E, no entanto, as alcovas de San José
parecem-se assustadoramente com as de Lisboa e de Madrid.
Essa
descoberta é o centro do filme. Diz-nos que a repressão do corpo feminino nunca
precisou de polícia política. Bastaram a Igreja, a família, a vizinhança, as
regras que ninguém escreveu e todos cumpriam.
Os
regimes autoritários da Península deram-lhe força de lei, mas não a inventaram
— encontraram-na pronta e serviram-se dela. Para um marxista, é lição a não
esquecer: a superestrutura moral tem uma vida própria, mais longa do que os
regimes que a usam. Salazar morreu, Franco morreu, e a mentalidade
sobreviveu-lhes em muitas casas durante décadas. Na Costa Rica nem foi preciso
um ditador para a instalar.
É por
isso que esta revisão de matéria dada chega na altura certa. A extrema-direita faz
hoje da família tradicional uma bandeira, e sabemos o que ela foi para as
mulheres que a viveram por dentro: o filme mostra-o com o rigor de quem dá a
palavra às testemunhas. E o exemplo costarriquenho tira-nos uma ilusão
confortável. Julgamos que aquele modelo só regressaria com o regresso de um
regime, com censura e polícia. Não. Pode regressar pelo voto, pelos costumes,
pela escola, pelo púlpito, pela pressão social — exatamente como se instalou na
Costa Rica, sem precisar de ditadura nenhuma. A democracia não é vacina contra
a moral que oprime; é apenas o espaço onde ainda se pode combatê-la.
Há,
apesar de tudo, alegria no filme, e é justo terminar incidir. Estas mulheres
falam hoje com uma liberdade que lhes custou a vida inteira a conquistar, e
falam numa idade em que o mundo as dá como ausentes do desejo. A sua coragem
não está no que fizeram aos vinte anos, quando pouco podiam mas no que afirmam
aos setenta, quando já não teriam de dizer nada.
O filme
não ensinou o que não sabia. Lembrou que saber não chega, e há coisas que cada
geração tem de voltar a ouvir da boca de quem as viveu — antes que outros as
contem de outra maneira.
Uns
filmes vejo pelo realizador, outros pela época, outros porque sim sem razão que
não a da oportunidade. Deste Lado da Ressurreição vi-o pelo lugar. O
Guincho não é para mim cenário: é caminho feito a dois, durante décadas, com a
Elza — o vento que nos empurrava de lado, a areia a bater nas pernas, o mar que
nunca está calmo. Conheço aquele lugar de dentro, e foi por isso que reparei
logo que o filme de Joaquim Sapinho lhe pede outra coisa. Pede-lhe que seja
sinal. Que por trás da rocha e da onda haja alguém.
O filme,
de 2011, junta três mundos que à partida não se tocam: o surf, um convento
franciscano e uma escola secundária. Rafael, surfista que conhece como poucos
as águas do Guincho, não encontra no mar o que procura e sobe a serra de Sintra
até ao Convento dos Capuchos, em busca de fé e de remissão para uma dor e uma
culpa que nunca chegamos a conhecer. Cá em baixo ficam uma irmã que insiste em
trazê-lo de volta, uma mãe, uma adolescência que não sabe o que fazer de si.
Lá fora
foi recebido com entusiasmo — Toronto, São Paulo, as listas da Film Comment,
uma retrospetiva em Harvard. Cá dentro chegou com essa aura, que é sempre um
mau ponto de partida: o espectador já não vê o filme, vê a expectativa.
E, no
entanto, a primeira parte merece que nos demoremos nela. Sapinho filma apenas
com luz natural, e quando a noite cai fica a luz das velas. Recusa o
contracampo: quem fala, fá-lo para um espaço que não nos é mostrado. A câmara
mantém a distância, e os grandes planos só acontecem porque os atores se
aproximam da objetiva — nunca porque a objetiva avança sobre eles.
É um
programa moral: não violar, não explicar, deixar que as personagens se mostrem
quando querem. Sapinho disse que o filme é sobre o não saber — não saber para
onde se vai, quem se é, como se descobre. A culpa de Rafael, que nunca nos é
revelada, pertence a essa mesma recusa, e a forma corresponde-lhe comcoerência.
Há nesta
recusa do contracampo uma ideia que vai mais longe do que talvez o próprio
realizador pretendesse. O plano sem resposta é a figura exata da oração: alguém
fala, e do outro lado não aparece ninguém. Para um crente, esse silêncio é
presença velada. Para um ateu, é apenas silêncio. O filme, nos melhores
momentos, deixa as duas leituras em aberto, e é aí que um espectador como eu
ainda o consegue acompanhar.
O
problema é que o filme não aguenta a regra. Na última hora, o programa
desfaz-se peça a peça. Os contracampos regressam sem necessidade. Um travelling
lento avança sobre os rostos de mãe e filha a meio de uma discussão — a câmara,
que tinha prometido não se aproximar, fà-lo precisamente quando a cena pedia
pudor. E a luz natural, que era ética, torna-se simples escuridão: há momentos
em que não se percebe o que se passa, em que as relações entre as personagens
se tornam ilegíveis, e a ambiguidade deixa de ser procurada para passar a ser
sofrida. A ironia é cruel para um filme sobre a fé: a meio do caminho, perde a
fé na própria forma.
Sapinho
explicou que a cola entre os seus três mundos seria a natureza: os franciscanos
procuram Deus através dela, a escola procura compreendê-la através da ciência.
O argumento tem a simetria das coisas pensadas no papel. No ecrã, não cola, e
percebe-se porquê — as duas atitudes não se completam, opõem-se. A ciência olha
a natureza e não lhe pede sentido; o místico olha a mesma natureza e vê nela
uma linguagem. Entre uma e outra não há ponte, há uma escolha.
E aqui a distância
deixa de ser desinteresse para passar a ser leitura. O filme filma bem o
Guincho e a serra — a luz natural faz-lhes justiça, o mar tem peso e a pedra
tem tempo. Mas quanto melhor os filma, mais eles resistem ao que o filme lhes
quer impor. A paisagem não se deixa converter. O mar não responde. E o que eu
levo daquele areal — o que lá vivemos, o que lá dissemos, os dias concretos de
uma vida partilhada — é a única transcendência que conheço, e não precisa de
além nenhum.
O mesmo
vale para o surf, tribo que me é alheia e que o filme também não me tornou
próxima. Havia ali matéria para outra coisa: a onda como experiência do
absoluto sem Deus, a entrega do corpo a uma força que não se domina, uma
mística laica que os surfistas conhecem melhor do que os teólogos. O filme não
confia nela. Precisa de a batizar. Daí uma figura de Cristo debaixo de água,
vestida de neopreno, imagem onde o surf e a fé deviam encontrar-se e onde só se
encontra o embaraço.
E daí,
sobretudo, a sequência que desmorona tudo: em montagem paralela com a discussão
entre mãe e filha, Rafael entrega-se ao jejum e à autoflagelação, longamente,
acompanhado pelos irmãos num ritual que a câmara regista sem qualquer
distância.
Não é o
tema que incomoda — o sofrimento voluntário tem uma longa história e o cinema
pode interrogá-la. É a maneira. O filme que começou por respeitar as
personagens acaba a pedir ao espectador uma adesão que não conquistou: quem não
partilha a fé fica a ver um rapaz a ferir-se durante demasiado tempo, sem que
nada no plano lhe dê outra coisa para pensar.
O
paradoxo agrava-se quando se sabe de onde o filme diz partir. O distribuidor
anunciava como premissa a reflexão de Karl Barth sobre o sentido do
cristianismo, e a leitura que daí se tira é a da fé contra a religião — a fé
como relação nua, a religião como aparato humano que se interpõe. Ora o filme
entrega precisamente o aparato: o hábito, o ritual, o jejum, o chicote. Filma
tudo o que Barth punha em causa e nada do que defendia, porque a fé, se existe,
não tem forma visível, e a religião tem-na de sobra.
Vale a
pena notar que nem a agência noticiosa da própria Igreja se deixou convencer:
reconheceu a sugestão poética, lamentou a falta de músculo, e despediu-se com a
esperança de que aquele fosse apenas o começo de um caminho. Se o crente sai da
sala a pedir mais, a reserva do ateu não é surdez. É diagnóstico partilhado.
Por
coincidência, no mesmo período, Fernando Lopes filmou no seu último filme, Em
Câmara Lenta, o mesmo mar e o mesmo confronto com as ondas — e até a mesma
figura em neopreno. Mas Lopes filmava sem qualquer desejo do divino. A
comparação diz o essencial: o mar de Lopes é só mar, e basta-lhe; o de Sapinho
tem de ser mais do que mar, e por isso nunca chega a sê-lo inteiramente.
Ao
preparar este texto, dei com outro, meu, de 2012, de que já não me lembrava.
Escrevi-o antes de ver o filme, a partir de uma entrevista de Sapinho ao Expresso,
e nele admitia que um surfista tentado pela vida monástica talvez me fizesse
reconsiderar o desinteresse pelo surf — que então despachava, com pouca
caridade, como divertimento de betinhos e de quem aspirava a sê-lo, réplica
fútil da roleta russa.
Releio-me
e não gosto do que leio. Julgava uma prática pela classe que lhe atribuía, e
não pelo que ela é; e o que ela é, já então o reconhecia de passagem, é coragem
diante de uma força que não se domina. Um marxista devia saber que o mar não
pede certidão de origem a quem nele entra. O surf continua a ser tribo que me é
alheia, mas não desprezível, e essa diferença aprendi-a com o tempo, não com o
filme. Sapinho dizia nessa entrevista que não escolhia os lugares, eram os
lugares que o escolhiam a ele; que o Guincho e o convento o punham à prova, e
que o filme era o trabalho de sobreviver a essa posse. A promessa cumpre-se em
parte: os lugares falam, de facto, mais do que as personagens. Mas quem os ouve
sou eu, e o que me dizem não é o que Sapinho queria ouvir.
Na mesma
entrevista, Sapinho explicava o que queria realmente filmar: uma sociedade que
proíbe a solidão, que nos obriga a estar sempre em comunicação e com isso
destrói a vida interior; uma sociedade de consumo que põe os adolescentes nus
diante do nada, com perguntas sobre a morte que chegam cedo demais para a
capacidade de lhes responder.
Em 2012
objetei-lhe que a história sempre empurrou rapazes de rosto imberbe para
guerras onde morriam de corpo ou de alma — que a juventude diante da morte não
era invenção do consumo. Releio a objeção e mantenho-a. Mas tenho de reconhecer
que o diagnóstico de Sapinho envelheceu melhor do que o seu filme. O ecrã que
hoje trazemos no bolso ainda não tinha tomado conta de tudo; a solidão proibida
de que ele falava tornou-se condição geral, e os adolescentes de agora vivem
dentro de um ruído que então era só ameaça. E a guerra, que eu lhe lembrava
como velha companheira da juventude, voltou à Europa. Uma coisa não exclui a
outra: o nada do consumo e o fogo da história convivem.
O filme
foi feito no ano em que o país entregava aos credores o governo da sua vida
comum, e procura o sentido longe da história — no convento, na onda, no corpo
mortificado. O que me separa de Sapinho não é o diagnóstico, é a cura: ele
procura a resposta fora do mundo; eu continuo a achar que a vida interior se
reconquista dentro dele, no trabalho comum, na política, no amor que dura.
Marx
escreveu que a religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo
sem coração. A frase costuma ser citada como desprezo, e é o contrário:
reconhece a fome antes de recusar o alimento. Deste Lado da Ressurreição
é, sem o querer, documento dessa fome. A resposta parece-me errada. A pergunta,
não.
O filme
não perturbou as minhas certezas, e as melhores obras costumam fazê-lo. Mas
deixou-me uma coisa que não esperava: a prova, filmada com luz natural, de que
o Guincho é mais convincente do que qualquer milagre que se lhe queira
sobrepor. Voltarei lá. Não à procura de Deus.
O cinema
permite a identificação com corpos, numa idade e experiência que não são as
nossas, e provavelmente nunca poderiam ser.
Três
curtas-metragens portuguesas, premiadas em festivais internacionais entre 2023
e 2024, colocam uma questão pertinente: o que fazer perante realidades que nos
são estranhas, e o cinema permite espreitar sem as reduzir a curiosidades
turísticas ou distanciamentos condescendentes?
Corpos
Cintilantes,
de Inês Teixeira aborda o corpo sem nostalgia ou desconforto: uma rapariga de
dezasseis anos descobre, num fim de
semana em Leiria, que o olhar sobre um colega mudou de natureza sem aviso
prévio.
Na estreia
em ficção, ela filma esse território com uma discrição notável: quase tudo
acontece em close-up, em luz natural, no que Mariana sente e imagina mais do
que no que efetivamente sucede.
É um
cinema que recusa a explicitação, entendendo que a adolescência não se define
pelo acontecimento mas pela incerteza que o precede — a dúvida sobre se um
convite é amizade, desejo, ou qualquer coisa entre as duas, e até que ponto
aceitar esse convite é um gesto de autonomia ou vulnerabilidade.
O interesse
do filme assenta na forma como a realizadora consegue tornar universalmente
legível algo que é, por definição, intransmissível: a sensação de que o corpo,
de um dia para o outro, passou a significar outra coisa.
É um
filme que pede ao espectador mais velho a atenção genuína a um estado que só se
pode observar de fora, precisamente porque, de dentro, já não temos acesso a
ele.
Dildotectónica, de Paula Tomás Marques aborda uma distância
de outra natureza — não etária, mas de experiência e identidade. Para tal cruza
dois tempos: o de Rebeca, ceramista contemporânea a tentar a desconstrução do
objeto que fabrica — como criar um dildo que não reproduza a forma fálica que
estrutura, mesmo no prazer queer, uma lógica patriarcal? —, e o de Josefa,
mulher perseguida pela Inquisição por "motivos incertos de resistência e
insurreição", cujos amores ilícitos com Maria passavam também por um
objeto de cerâmica semelhante.
A ponte
entre as duas mulheres separadas por séculos é literal — o material, a forma, o
gesto artesanal — mas é também uma reivindicação: a de que existiu sempre,
mesmo quando a História oficial se recusou a registá-la, uma vida erótica
dissidente que a Inquisição perseguiu e o cinema pode agora restituir, com
humor e sem melancolia forçada.
Este é,
dos três filmes, aquele em que a distância é mais estrutural na experiência do
desejo que ali se representa. E é exatamente por isso que o encontro com o
filme se torna mais instrutivo: não cabe validar nem julgar aquilo que Rebeca e
Josefa procuram, apenas reconhecer, que a História é sempre incompleta, escrita
a partir de exclusões que só agora começam a ser reparadas.
E com Quando
M'eu For Desta Terra, de Francisco Moura Relvas e Rita Senra temos o corpo
da terra que se esvazia.
Na aldeia
de Dine, em Trás-os-Montes, Judite Lopes é uma das últimas habitantes de um
lugar que se esvazia — e o acontecimento que perturba as suas noites, a
ocupação de uma gruta próxima, funciona como metáfora de algo maior: a
desertificação do interior português, a solidão de quem fica quando todos os
outros partiram, o modo como os lugares e as suas histórias vão sendo tomados,
um a um, pelo silêncio.
É o tempo
que passa e deixa, atrás de si, cada vez menos gente para testemunhar aquilo
que passou. É talvez essa a distância mais universal das três, porque é a única
que, mais cedo ou mais tarde, se torna comum a todos — a de ficar, um dia, como
Judite Lopes, a ouvir os cães ladrar no escuro, sozinho perante um mundo que se
retirou.
O que
estas três curtas têm em comum, para além do ano de produção e do
reconhecimento em festivais internacionais, é a recusa de transformarem em espetáculo
aquilo que filmam. Nenhuma delas precisa de gritar para que a sua realidade
específica seja tomada a sério — o corpo adolescente que descobre o desejo, o
corpo queer que a História tentou silenciar, o corpo de uma aldeia que se apaga
devagar.
Perante
elas não faz sentido fingir uma proximidade que não existe, mas reconhecer a dignidade
de serem vistas com atenção e sem condescendência.
Há
viagens que se fazem por procuração, e esta é uma delas. Sei, com a certeza
tranquila que a idade traz a certas renúncias, que nunca descerei a um abismo.
Não chega
a ser fobia, que esta tem qualquer coisa de dramático e eu não gosto de
dramatizar os limites, mas é uma recusa do corpo que a razão subscreve sem
discutir.
Imagino a
corda, a pedra húmida, a escuridão que não é noite porque esta tem sempre um
céu por cima, e sobretudo imagino o instante em que a passagem se estreita, o
capacete raspa no teto, os ombros procuram um ângulo que talvez não exista, e o
pensamento, que até ali se portara bem, formula a única pergunta que importa: e
se eu ficar aqui?
Foi com
esse corpo relutante que vi Il Buco, de Michelangelo Frammartino, e
talvez por isso o filme me incomodou.
Em agosto
de 1961, um grupo de jovens espeleólogos do Piemonte atravessou a Itália para
explorar o Abisso del Bifurto, no maciço do Pollino, na Calábria. Chegaram a
cerca de 680 metros, uma das maiores profundidades então conhecidas.
É tudo o
que é preciso saber, e é quase tudo o que o filme diz, porque Frammartino
recusa a palavra como quem recusa um atalho. Não há diálogos que expliquem, nem
heróis que confessem o medo, nem uma música que diga quando devemos suster a
respiração. Há o som da água a escorrer, o eco de uma voz que chama lá em cima,
o tilintar metálico do equipamento, e sobretudo o silêncio, que não é ausência
de som, mas uma substância.
A
fotografia de Renato Berta merece um parágrafo inteiro. Lá em baixo, a única
luz é a que os homens levam consigo: lanternas de capacete, e folhas de papel
acesas que deixam cair no vazio para medir a profundidade do poço seguinte.
Essas chamas que descem, oscilando, iluminando por instantes paredes que nenhum
olho humano vira antes, e depois se apagam no fundo que não conseguimos ver,
são imagens sugestivas. O escuro não é o negro chapado de um ecrã avariado: tem
textura, profundidade, graus. Berta filma a escuridão como outros filmam a
paisagem, e percebemos que a gruta é uma paisagem que se recusa a ser vista por
inteiro.
E é aqui
que o medo encontra o seu lugar. Frammartino não filma a claustrofobia, que
seria o caminho fácil do cinema de género, com a câmara colada ao rosto em
pânico e a respiração ofegante na banda sonora. Testemunha a exploração com planos
longos, fixos, pacientes, e é precisamente essa calma que inquieta.
Os
espeleólogos esgueiram-se por passagens onde eu não passaria, e o filme não
sublinha nada, não pede aplauso, não pede sequer que tenhamos medo por eles.
Deixa-nos sozinhos com o nosso. Descobri, a ver Il Buco, que o medo de
ficar preso não precisa de ser encenado para ser sentido; basta que a câmara
não dê a saída.
Lá em
cima, entretanto, corre outro filme por outro caminho. Um velho pastor, que
Frammartino foi buscar à própria região e que não é ator, observa os
forasteiros de longe, chama o gado pelo vale com gritos que ecoam como se a
montanha lhe respondesse, e adoece. A morte aproxima-se ao mesmo ritmo a que os
jovens se afundam nas profundezas. As duas linhas nunca se tocam de forma
explícita, e a montagem tem a inteligência de não as forçar. Uma desce ao fundo
da terra, a outra desce ao fundo da vida, e nenhuma delas é comentada.
O pastor
morre como viveu, sem testemunhas que lhe deem importância histórica. Os
espeleólogos cartografam um abismo que ninguém lhes pedira para medir. Ambos os
movimentos são, à sua maneira, inúteis, mas também essenciais.
Há, logo
no início, um momento que funciona como chave. Na aldeia, os habitantes veem na
televisão imagens do arranha-céus Pirelli, acabado de erguer em Milão. É a
Itália do milagre económico, a que sobe, a que se mostra, a que olha para o
futuro de baixo para cima. E os rapazes do Norte industrial vêm ao Sul pobre
não para construir, mas para descer. Frammartino não faz disto uma tese, deixa
a imagem da torre pousada no filme como uma pedra no caminho, e cabe-nos a nós
tropeçar nela.
Pergunto
o que diz este filme ao nosso tempo, e a resposta parece clara. Vivemos numa
época que só concede valor ao que se vê, se partilha e se mede em números de
visualizações. Tudo sobe: torres, gráficos, vozes.
Il
Buco propõe o
gesto inverso, o de descer ao que não se vê, sem plateia, sem transmissão em
direto, pelo simples desejo de saber o que está lá em baixo. E propõe também
uma atenção ao que morre em silêncio nesse mundo rural que continua a
esvaziar-se no Sul de Itália - como no interior português -, sem que nenhuma
câmara lhe preste a homenagem de um plano demorado. O filme é essa homenagem.
Não
descerei nunca a um abismo, mas passei hora e meia dentro de um, guiado por
homens que não conheço e por uma luz que eles próprios carregavam E conclui-o
com a sensação estranha de ter estado muito fundo e regressado inteiro. É o que
o cinema às vezes faz por nós: leva o corpo que temos aonde ele não quer ir.
Carl Orff
ocupa um lugar desconfortável na história da música: foi celebrado pela força
imediata de Carmina Burana, mas também se viu envolto numa zona cinzenta
ética que nunca se dissipou.
No pós‑nazismo,
escapou ao castigo não por inocência, mas por omissão. Escondeu do tribunal a
denúncia que fizera de um colega judeu — facto hoje documentado — e construiu
para si uma narrativa de resistência que não corresponde ao que realmente
aconteceu. A absolvição não foi justiça; foi habilidade.
O regime
nazi, por seu lado, acolheu Carmina Burana com entusiasmo. Via nela um
exemplo de “música moderna” que podia ser apropriada: vigor rítmico,
monumentalidade coral, paganismo estilizado, ausência de qualquer traço judaico
ou dodecafónico. A obra, com a sua energia quase tribal, encaixava na estética
de exaltação física que o regime promovia.
Orff não se opôs; beneficiou. E esse
benefício, mesmo que não implique adesão ideológica plena, deixa uma sombra que
não se apaga.
O
paradoxo é que, apesar desse acolhimento político, Carmina Burana não é
unanimemente respeitada no campo da musicologia. Muitos consideram a obra pobre
quando comparada com os modelos que Orff pretendia alcançar — sobretudo
Stravinski, cuja revolução rítmica e formal em Les Noces ou Le Sacre
du Printemps opera numa complexidade que Orff nunca atingiu. Onde
Stravinski trabalha a dissonância, a polirritmia, a estrutura como tensão, Orff
opta por uma simplicidade deliberada, quase primitiva, que seduz o público mas
deixa os especialistas desconfiados.
A verdade
é que Carmina Burana vive deste duplo movimento: acessível, poderosa,
imediata — e, ao mesmo tempo, limitada. A força está na superfície, não na
profundidade. É obra que conquista pela energia, não pela invenção. E talvez
seja por isso que os nazis a acolheram com tanta facilidade: não exige escuta
complexa, apenas entrega.
Orff
permanece, assim, numa posição ambígua: autor de uma obra incontornável, mas
não de uma obra maior; figura que navegou o regime sem coragem, mas com
astúcia; compositor cuja popularidade não coincide com a sua estatura
artística. A história não o condena totalmente, mas também não o absolve.
Sempre
que a RTP Memória repete os dois episódios de Vejam Bem dedicados a José
Mário Branco, assinados por Edgar Fonseca e Nuno Galopim, volto a eles como
quem regressa a uma casa antiga onde tudo permanece no sítio certo.
Não é
novidade o que se conta — conheço cada episódio da sua vida, ouvi‑os da sua
boca na rádio, na televisão, em palco, em conversas que atravessaram décadas.
Mas a repetição não cansa; devolve. E o que devolve não é apenas a figura, é o
conjunto de valores que ele encarnava com uma coerência rara, quase impossível
de encontrar hoje.
José
Mário Branco não precisava de construir personagem: era o que dizia. A lucidez
política, a exigência ética, a recusa de qualquer forma de complacência, a
atenção ao detalhe humano — tudo isto atravessa os dois episódios como se
fossem uma aula. A vida que se revisita não é apenas biografia; é método. Um
modo de estar no mundo que não separava criação de responsabilidade, música de
consciência, militância de inquietação.
O que prende
sempre, mesmo sabendo tudo de cor, é essa integridade que praticava. A forma
como falava do exílio, da clandestinidade, das derrotas, das esperanças, nunca
com heroísmo, sempre com precisão. A forma como desmontava ilusões sem perder a
capacidade de imaginar. A forma como defendia que a arte serve para confrontar
o mundo. E, apesar de tudo, mantinha uma ternura funda, quase escondida, que só
se revelava quando falava dos outros.
Ver Vejam
Bem é reencontrar um conjunto de valores que não envelhecem: rigor,
coragem, inquietação, decência. Num tempo em que tudo parece negociável, José
Mário Branco lembra que há coisas que não se negoceiam. E talvez seja por isso
que volto sempre: não para ouvir histórias, mas para recuperar uma medida.
Há uma
tradição literária que o filme de Tarik Saleh convoca sem necessidade de a
nomear explicitamente, e que a descrição que traz — a de um Cândido muçulmano —
capta com precisão: a do jovem inocente lançado num mundo cuja lógica de poder
lhe é inteiramente estranha, e que só vai compreendendo à medida que essa
lógica o esmaga. Adam, filho de pescadores do delta do Nilo, chega a Al-Azhar
imaginando ter recebido uma dádiva divina — a bolsa de estudo é, para ele, a
antecâmara do paraíso. O que encontra, em vez disso, é um tabuleiro de xadrez
em que ele próprio é peão, movido por mãos que nem sequer se dão ao trabalho de
se apresentar.
É essa
desproporção entre a ingenuidade da personagem e a sofisticação do jogo que a
envolve que dá ao filme o seu interesse maior, ainda que também revele o seu
limite mais evidente. Saleh constrói, com competência mas sem grande
originalidade formal, um thriller de espionagem que se declara devedor tanto de
"O Nome da Rosa" de Umberto Eco — a instituição religiosa fechada
sobre si própria, os corredores onde se cruzam fé e crime — quanto do cinema
paranoico americano dos anos setenta, com a sua desconfiança sistemática
perante qualquer instituição de poder.
A
referência funciona bem como coordenada, mas talvez seja também o sintoma do
problema: o filme aplica moldes narrativos já testados a um contexto — a
Universidade de Al-Azhar, bastião do Islão sunita fundado pelos Fatímidas no
século X — que teria matéria de sobra para gerar uma linguagem própria, e Saleh
parece preferir a segurança da fórmula reconhecível à exploração mais arriscada
dessa singularidade.
Onde o
filme ganha verdadeira densidade é na tese política que deixa implícita, nunca
sublinhada em excesso: a de que o confronto entre correntes religiosas —
moderados contra a linha mais dura, próxima dos Irmãos Muçulmanos — é, no
fundo, uma fachada manobrada pelo poder político do Estado egípcio, que
pretende colocar à frente da instituição o candidato que melhor lhe sirva os
interesses, independentemente de quantos corpos caiam pelo caminho.
É aqui
que "A Conspiração do Cairo" ultrapassa o mero exercício de género
para se tornar um comentário lúcido sobre o Egito pós-Primavera Árabe: a queda
de Mubarak mudou o rosto do regime sem alterar a substância. A intimidação, a
censura, a prisão arbitrária, o ostracismo, o exílio — todos os instrumentos de
controlo sobrevivem intactos, apenas reformulados para uma nova gramática de
legitimidade religiosa que o Estado manipula sem nunca sujar diretamente as
mãos.
Adam,
nesse tabuleiro, nunca chega a ser um agente com vontade própria — e é essa,
precisamente, a sua verdade mais dolorosa. O rapaz que partira do delta do Nilo
convencido de estar mais perto do paraíso passa o filme inteiro a correr de um
lado para o outro, não em busca de nenhum ideal, mas simplesmente a tentar
sobreviver a um jogo cujas regras nunca lhe foram explicadas e cujos jogadores
mais fortes mal reparam nele exceto quando lhes é útil sacrificá-lo. É um
retrato eficaz, ainda que sem grande entusiasmo formal, de como as revoluções
que prometem libertar acabam por gerar novas hierarquias de opacidade — e de
como os mais vulneráveis, os Adams de cada geração, continuam a pagar o preço
de jogos que nunca foram seus.
Há um
filme que Pasolini realizou em 1966, com Totò no seu derradeiro papel, que
parece ter sido escrito para ser reencontrado precisamente agora — não porque
preveja com exatidão o presente, mas porque diagnostica um mal que se revela,
sessenta anos depois, ainda por resolver: o divórcio entre a esquerda que pensa
e o povo que deveria ser o seu sujeito histórico.
A
estrutura do filme é, à primeira vista, uma fábula simples: Totò e Ninetto, pai
e filho, percorrem uma estrada que atravessa tanto o espaço quanto o tempo — os
subúrbios pobres de Roma, mas também, nalguns momentos, a Idade Média —,
acompanhados por um corvo falante que se apresenta, sem ironia disfarçada, como
intelectual marxista. O corvo comenta, interpreta, teoriza sobre tudo o que
veem, num fluxo verbal constante que Pasolini filma com um misto de ternura e
exasperação crescente. É essa ambivalência que torna a personagem tão
interessante: o corvo não é ridicularizado por estar errado — as suas análises
são, em grande parte, lúcidas —, mas por falar uma língua que os dois
vagabundos que o acompanham não partilham verdadeiramente. Ele fala sobre o povo;
não fala com o povo. E essa distância, mínima mas intransponível, é exatamente
o problema que hoje se reconhece, com dolorosa atualidade, numa esquerda que
continua a produzir análises corretas sobre a exploração de classe enquanto vê
essa mesma classe, cada vez mais, procurar respostas — erradas, mas
emocionalmente eficazes — na extrema-direita.
A
parábola que o corvo narra dentro do próprio filme é, nesse sentido, o núcleo
teórico de toda a obra. Totò e Ninetto tornam-se frades franciscanos
encarregados de evangelizar os pássaros — primeiro os passarinhos, depois os
gaviões — com a mensagem do amor universal. Conseguem-no, com esforço e
dedicação genuína: aprendem a língua de cada espécie, transmitem a mensagem, e
por um instante parece que a fraternidade evangélica triunfou sobre a natureza.
O instante dura pouco. Mal a pregação termina, os gaviões voltam a caçar e a
devorar os passarinhos, porque é essa a sua natureza, porque a lei da
sobrevivência não se dobra perante o sermão, por mais sincero que seja. É a
luta de classes traduzida para a ordem natural, e é também, cruamente, uma
alegoria sobre os limites de qualquer discurso — religioso ou ideológico — que
pretenda alterar estruturas de poder apenas através da persuasão moral, sem
tocar nas condições materiais que produzem a predação.
E é isso,
precisamente, que o final do filme literaliza com uma violência quase cómica:
Totò e Ninetto, esfomeados, acabam por matar e comer o corvo. A teoria é
devorada pela necessidade do estômago. Não há gesto mais exato para descrever o
que Pasolini via já em 1966 como o risco fatal de todo o intelectualismo de
esquerda: pode ter razão em tudo o que diz, mas se não responde à fome imediata
de quem o escuta, acaba por ser consumido — silenciado, descartado —
precisamente por aqueles a quem pretendia servir. É difícil não ler nisto um
espelho antecipado da esquerda contemporânea, que continua a apresentar
análises rigorosas sobre precariedade, desigualdade e exploração, enquanto
grandes parcelas da classe trabalhadora, cansadas de esperar por uma redenção
material que tarda, se deixam seduzir pelos prazeres imediatos e ilusórios que
a extrema-direita lhes oferece — um inimigo simples de apontar, uma identidade
a defender, uma promessa de dignidade recuperada que não exige esperar por
nenhuma revolução.
O funeral
de Togliatti, cuja filmagem de arquivo Pasolini insere no meio da ficção,
funciona como a segunda grande imagem-tese do filme. Ao mostrar as multidões
reais que se despedem do fundador do Partido Comunista Italiano, com sinais da
cruz misturados a punhos erguidos, Pasolini não está apenas a documentar um
acontecimento histórico — está a enterrar, com ele, uma certa forma de marxismo
ortodoxo italiano, deixando as massas subitamente sem guia claro. É uma imagem
de luto genuíno, mas também de um vazio que o filme não finge poder preencher.
Sessenta anos depois, esse vazio não apenas persiste como se aprofundou: a
esquerda que deveria renascer das cinzas daquele funeral continua, em larga
medida, incapaz de recuperar a relevância que perdeu, presa entre um
intelectualismo que fala uma língua cada vez mais distante da vida quotidiana
de quem devia representar, e uma incapacidade estrutural de oferecer, com a
mesma eficácia emocional da extrema-direita, algo que pareça uma solução
imediata para o sofrimento imediato.
O que
torna "Passarinhos e Passarões" mais do que um documento de época é
justamente esta recusa de conforto ideológico. Pasolini não poupa o marxismo
que o formou — filma-o a morrer, filma o seu porta-voz a ser devorado por fome,
filma a sua pregação a fracassar perante a natureza predatória do poder — mas
também não oferece qualquer alternativa consoladora. O filme termina, como
Chaplin em "Tempos Modernos", com os dois vagabundos a continuar a
caminhar pela estrada fora, sem corvo, sem teoria, sem certezas, apenas com a
obrigação de continuar a viver e a procurar, sem garantias, um sentido que a
ideologia sozinha já não lhes consegue dar. É talvez essa imagem final — a
estrada que continua, vazia de guias, cheia de necessidade — o retrato mais
honesto que o cinema alguma vez ofereceu da crise que a esquerda ainda hoje
atravessa: não a falta de razão, mas a falta de uma língua capaz de alimentar,
e não apenas de explicar, a fome de quem devia ouvi-la.
Zygmunt
Bauman descreveu o amor contemporâneo como líquido, não pela fragilidade
sentimental, mas pela lógica que o organiza: relações surgidas com rapidez, usadas
enquanto funcionam e descartadas quando exigem mais do que se está disposto a
dar.
A
metáfora não é moralista; é estrutural. O capitalismo ensinou que tudo é
substituível, o valor depende da utilidade, a permanência é custo. O amor,
nesse contexto, deixa de ser promessa e passa a ser gestão.
A
liquidez não significa ausência de afeto, significa ausência de garantias. As
relações tornam‑se leves porque o mundo que as sustenta é instável: trabalho
precário, mobilidade constante, redes sociais que oferecem alternativas
infinitas, plataformas que transformam o encontro numa sucessão de
possibilidades.
O
vínculo, quando surge, compete com a ideia de que talvez exista alguém mais
adequado, mais disponível, mais fácil. A dúvida não nasce da pessoa; nasce da
estrutura.
Bauman
observa que esta lógica produz um paradoxo: quanto maior a liberdade para
escolher, mais difícil fica permanecer. A relação líquida evita o peso, evita o
compromisso, evita a lentidão. Mas ao evitar tudo isto, evita também a
construção. O amor transforma‑se em experiência, não em percurso. E a
experiência, por definição, termina.
Ainda
assim, a pertinência da análise não depende de nostalgia por modelos antigos.
Depende da capacidade de reconhecer que a liquidez não é destino, é contexto.
Mesmo num mundo que incentiva o descartável, há quem procure densidade; mesmo
num tempo que valoriza a velocidade, há quem escolha permanecer. A liquidez
descreve o ambiente, não determina o gesto.
O amor
contemporâneo vive nesta tensão: entre o impulso de proteger a liberdade
individual e o desejo de encontrar alguém que resista ao fluxo.
Bauman
não condena; descreve. E ao descrever, revela que a dificuldade não está nas
pessoas, está no tempo em que vivem.
O amor na
Geração Z vive num território novo, onde a tecnologia altera não apenas a forma
como se comunica, mas a própria expectativa do que é um relacionamento. A
convivência prolongada com parceiros artificiais — modelos de IA treinados para
responder com paciência infinita, atenção constante, disponibilidade emocional
sem falhas — cria um padrão impossível de replicar na realidade. A perfeição
simulada torna‑se hábito, e o hábito transforma‑se em critério. Quando o
encontro acontece fora do ecrã, o outro surge com arestas, hesitações,
contradições, ritmos próprios. A desilusão não nasce da pessoa; nasce da
comparação.
Ao mesmo
tempo, a vida material dos potenciais parceiros tornou‑se mais estreita. A
precariedade habitacional empurra muitos para casas partilhadas, quartos
alugados, regressos prolongados à casa dos pais. A intimidade, que antes
dependia apenas de vontade, depende agora de logística. Encontrar um espaço
recatado exige coordenação, silêncio, oportunidade. O amor, que sempre foi
encontro, passa a ser também gestão. E essa gestão, tantas vezes frustrada,
altera o próprio impulso de procurar alguém.
Entre a
idealização digital e a limitação física, forma‑se uma nova realidade amorosa.
A Geração Z vive num mundo onde o desejo se exprime com facilidade, mas se
concretiza com dificuldade; onde a fantasia está sempre disponível, mas o corpo
nem sempre tem lugar; onde a perfeição artificial cria expectativas que a
imperfeição humana não consegue cumprir. O amor não desaparece — adapta‑se. Mas
adapta‑se num cenário que o torna mais exigente, mais frágil, mais dependente
de condições que não controla.
O que
permanece é a mesma pergunta de sempre: como encontrar o outro num tempo que
oferece substitutos perfeitos e espaços imperfeitos. A resposta, quando surge,
é sempre parcial. Mas talvez seja essa parcialidade que ainda permite que o
encontro seja real.
Há uma
justiça histórica na redescoberta deste filme, apresentado em Cannes quase meio
século depois de realizado: Sumitra Peries foi a primeira mulher a assinar um
longa-metragem no Sri Lanka, e "Gehenu Lamai" — As
Raparigas, ou, na designação com que chegou à distribuição internacional, "Les
Filles" — é uma estreia que já revelava a sensibilidade que lhe
valeria o epíteto de poetisa do cinema cingalês.
É um
filme de uma delicadeza formal pouco comum, construído por uma câmara que se
aproxima menos do drama social explícito do que da pintura de género — planos
que fixam-se na textura da vida rural, nos gestos contidos, no não-dito — e é
precisamente essa delicadeza que torna a sua denúncia mais eficaz do que
qualquer explicitação panfletária.
A
história de Kusum, criada humilde que trabalha em casa de Nimal e se apaixona
por ele, poderia facilmente resvalar para o melodrama de classes que o cinema
já tantas vezes filmou — o amor impossível entre a serva e o senhor, o
obstáculo social a vencer ou a sucumbir.
Peries
recusa esse caminho previsível. O que verdadeiramente importa no filme não é
tanto a distância de classe entre os dois jovens — embora ela seja real e
determinante — mas o facto de que, mesmo dentro dessa história de amor, é a
rapariga quem carece de qualquer poder para definir os termos da própria vida.
Kusum não
decide o seu destino; recebe-o. A sua condição de serviçal duplica-se, e
agrava-se, pela condição de mulher — dupla subalternidade que o filme entende
com uma lucidez que nunca precisa de se anunciar como tese.
É aqui
que reside o verdadeiro projeto do filme, mais do que na crónica sentimental
que a sinopse sugere: a demonstração de como uma sociedade patriarcal organiza
o amor de raparigas como Kusum em função da obediência, não da liberdade.
O afeto
que ela sente por Nimal não lhe pertence inteiramente — está sujeito a códigos
de conveniência social, a expectativas familiares, a uma economia de casamentos
que decide por ela antes de poder decidir por si.
Peries
filma essa secundarização não com indignação retórica, mas através de uma
acumulação de pequenos gestos de silenciamento — olhares, palavras, decisões
tomadas por terceiros em conversas de onde as raparigas estão ausentes — que,
somados, compõem um retrato social mais devastador do que qualquer discurso
explícito conseguiria ser.
Há ainda
uma dimensão histórica que atravessa o filme discretamente, situando essa
história íntima num momento preciso da nação: um Sri Lanka que discute, através
das personagens jovens e das conversas políticas, o que significa a
independência recém-conquistada e se essa liberdade nacional é real ou apenas
condicional, sujeita a outras formas de sujeição — económicas, sociais, de
género. É uma sobreposição inteligente: a pergunta que o filme faz sobre a
autonomia de Kusum, mulher sem poder de decidir a própria vida, ecoa a pergunta
mais vasta que o país fazia a si próprio sobre a sua própria soberania.
A
liberdade, sugere Peries, nunca é uma conquista abstrata — mede-se sempre pela
liberdade concreta que concede, ou nega, às vidas mais vulneráveis dentro dela,
e não há independência nacional que baste enquanto a metade feminina da
população continua a ser tratada como propriedade a transmitir, não como
sujeito a escutar.
Kazimir
Malevich ocupa um lugar raro na história da arte: seduz pela estética e afasta
pelo fundamento. O suprematismo, com a sua geometria depurada, economia de
forma e a recusa do mundo visível, produzia uma beleza que não dependia de
narrativa nem de objeto. O Quadrado Negro não era ausência, mas presença
absoluta. A superfície plana, o silêncio da composição, a suspensão de qualquer
referência exterior — tudo isto criava uma espécie de magnetismo visual que
funcionava mesmo quando se rejeitava o misticismo que lhe deu origem.
O
paradoxo estava aí: a obra convencia, a doutrina não. Malevich acreditava que
era possível apagar cinco milénios de cultura humana para regressar a um ponto
zero, uma escuridão primordial onde a luz surgiria não da experiência, mas da
revelação. Via no negro absoluto uma espécie de portal filosófico, talvez
religioso, como se o vazio fosse condição para uma verdade superior.
A ambição
era grandiosa, mas o fundamento escapava. O misticismo que o guiava nada acrescentava
à obra; apenas a rodeava de uma intenção que não era necessária para que funcionasse.
O gesto
suprematista era, no essencial, um assassínio do objeto. Malevich eliminava a
figura, recusava a representação, desligava a pintura do mundo. Procurava a
sensação pura, não adulterada por história, por contexto, por memória. A arte
deixava de ser janela e tornava‑se superfície. O olhar já não procurava o que
estava para lá da tela; confrontava apenas o que a tela era. Nesse confronto,
algo acontecia — não porque o artista tivesse encontrado uma verdade
metafísica, mas porque a redução extrema produzia uma intensidade que não
dependia da crença.
A força
do suprematismo estava na estética, não na teologia. O que permanecia não era a
doutrina, mas a forma. O negro absoluto não iluminava; concentrava. E essa
concentração, mesmo despojada de qualquer misticismo, continuava a ser uma das
experiências mais radicais que a pintura do século XX ofereceu.
1. Há um
fio comum entre duas curtas-metragens portuguesas, recentes e afins na duração,
que a partilha da direção de fotografia de Leonor Teles sublinha: ambas filmam
personagens colocadas à margem — pela pobreza, falta de horizontes, ausência de
qualquer rede de proteção social real — que identificam, na sua situação, uma
única porta de saída possível, e que ela revela-se, invariavelmente, uma nova
forma de captura.
Em "By
Flavio" (2022), de Pedro Cabeleira, é Márcia quem constrói a fantasia
de ascensão enquanto influencer, única rota disponível para escapar à
precariedade em que vive com o filho. A ilusão duplica-se quando a essa
estratégia se soma o envolvimento com um rapper cujo interesse nela é
puramente instrumental — a "horizontalização", para usar o termo
exato, é uma transação de proximidade e visibilidade que nada tem de afeto e
tudo de cálculo.
Cabeleira
filma essa dupla ilusão sem complacência para com as personagens, mas também
sem as tornar patéticas: Márcia não é ingénua, antes alguém que, perante a
ausência de qualquer alternativa estrutural, aposta no único capital que a
economia da visibilidade contemporânea parece oferecer aos que não têm mais
nada — a exposição do próprio corpo e do filho como mercadoria de likes e
seguidores. É uma crítica ácida à forma como as redes sociais vendem a
meritocracia da fama instantânea precisamente às classes que a estrutura social
mais eficazmente exclui de qualquer ascensão real.
"O
Tapete Voador" (2025), de Justin Amorim, radicaliza esse mesmo tema
levando-o a um território mais sombrio: baseado no maior escândalo de pedofilia
institucionalizada em Portugal, o filme segue Ricardo, que não vê no horizonte
outra via de sobrevivência que não seja prostituir-se junto de clientes de alta
condição social. E é nesse circuito que reencontra a irmã de quinze anos,
também ela absorvida pela mesma rede de exploração.
O filme
não precisa de explicitar o horror para o denunciar — a eficácia da crítica
está precisamente em mostrar como esse circuito de abuso depende da
cumplicidade silenciosa de uma classe alta que se protege atrás do estatuto e
da impunidade que esse estatuto historicamente lhe garantiu em casos deste tipo.
O título é de uma ironia amarga: não há tapete voador nenhum a elevar estas
crianças e adolescentes para fora da sua condição — há apenas homens poderosos
a explorar a promessa de ascensão para as manter ainda mais presas.
O que
aproxima as duas curtas, para além da fotografia partilhada, é esta arquitetura
comum: personagens sem outro capital que não o próprio corpo — seja para a
economia da visibilidade digital, seja para a economia mais antiga e mais
brutal da exploração sexual — que confundem a atenção que recebem com uma via
de saída, quando na realidade trata-se do mecanismo exato que as mantém
capturadas. Não há, em nenhum dos dois filmes, um momento de ilusão perdida que
traga alívio; há apenas a constatação de que as "soluções" oferecidas
a quem não tem recursos são quase sempre desenhadas por quem já os tem, e
servem, antes de mais, para preservar essa mesma desigualdade.
2. No
filme de Amorim Leonor Teles consegue um tipo de grão que faz imaginá-lo rodado
na época do caso Casa Pia.
Esse
detalhe não é apenas uma opção estética mas uma decisão que carrega significado
histórico e ético. Ao optar por uma textura de imagem do final dos anos noventa
e início dos anos 2000, período em que o caso Casa Pia decorreu e rebentou
publicamente, Teles está a ancorar o filme num tempo específico, a impedir que
o espectador o encare como ficção genérica sobre um problema abstrato e
intemporal. O grão funciona como se a imagem tivesse sido resgatada de um
arquivo daquela época, e não recriada décadas depois com todo o distanciamento
que essa recriação poderia permitir.
Esta
escolha tem uma consequência crítica importante: recusa ao espectador a
comodidade do "isso já não acontece assim" ou do "isso pertence
a um passado bem delimitado e encerrado". A textura de imagem colapsa a distância
temporal entre o caso real e a ficção que dele deriva, obrigando quem vê a
confrontar-se com uma proximidade incómoda, quase física, com os factos que inspiraram
o argumento. É uma estratégia que dialoga, ainda que por vias completamente
distintas, com a que Hou Hsiao-Hsien usava em "Um Verão em Casa do Avô"
— a de deixar a forma fazer o trabalho que a palavra explícita não precisa de
fazer.
Comparado com "By Flavio",
onde a fotografia de Teles procura captar a textura contemporânea da vida
precária filmada através do ecrã do telemóvel e das redes sociais — uma
luminosidade mais fria, mais achatada, própria da estética de conteúdo digital
que o filme retrata —, em "O
Tapete Voador" a diretora de fotografia
parece ter optado pelo caminho inverso: uma imagem que envelhece deliberadamente
o presente da narrativa, empurrando-a para dentro de uma memória coletiva ainda
dolorosamente viva em Portugal.
Duas
estéticas opostas, portanto, mas movidas pela mesma inteligência: a de que a
textura da imagem não é neutra, mas uma forma de posicionar o espectador
perante o que vê — seja aproximando-o da imediata e asséptica reprodução do
ecrã, seja empurrando-o para dentro de uma memória histórica que o país ainda
não deixou de processar.
É essa
capacidade de Teles para tornar a fotografia um instrumento de argumentação, e
não apenas de composição visual, que faz destas duas curtas um caso de estudo
sobre o quanto a direção de fotografia pode, por si só, comunicar uma tese que
o argumento apenas sugere.
3. O que
estas curtas metragens - “By Flavio” e “O Tapete Voador”-, vistas em conjunto, acabam
por revelar é que a exploração das classes mais vulneráveis assume hoje, em
Portugal, formas contíguas e comunicantes: a exploração digital, que promete
visibilidade e vende dependência, e a exploração institucional, que promete
proteção e vende impunidade a quem a exerce. Que a mesma diretora de fotografia
tenha sido capaz de encontrar, para cada uma destas formas de captura, uma
linguagem visual distinta e igualmente precisa — a frieza clínica do ecrã de
telemóvel, o grão que devolve o presente a uma memória histórica por saldar —
diz muito sobre a maturidade de um cinema português jovem que já não precisa de
gritar para denunciar, porque aprendeu a deixar a própria imagem testemunhar
aquilo que as personagens não têm poder para mudar.