1. Há
memórias que regressam sem aviso, como se o tempo abrisse uma fenda por onde
irrompem imagens que julgávamos arrumadas. Não são acontecimentos decisivos;
são detalhes, gestos, atmosferas que, na altura, não tinham grandeza alguma.
Mas é precisamente essa insignificância que lhes dá força quando regressam:
lembram‑nos que a vida não se organiza segundo a hierarquia que tentamos impor‑lhe.
O passado insiste em voltar não para repetir factos, mas para devolver a
textura interior que fomos acumulando sem dar por isso.
E, no
entanto, há dias em que sinto que o corpo percebe antes da mente aquilo que
está a mudar à nossa volta. Uma fadiga difusa, não física, mas sensorial, como
se o excesso de estímulos e solicitações invisíveis criasse uma tensão
subterrânea que só se revela quando paramos. Não é cansaço: é saturação.
Vivemos como se fosse normal carregar esta sobrecarga silenciosa, enquanto o
pensamento se fragmenta antes de chegar a formar uma ideia inteira. Talvez seja
esta a marca do nosso tempo: sermos seres permanentemente interrompidos, mesmo
quando ninguém nos interrompe.
Por isso,
valorizo cada vez mais a capacidade de criar um intervalo — um espaço mental
onde o mundo não entra de rompante. Não se trata de isolamento, mas de
recuperação. Um gesto tão simples como fechar os olhos durante alguns segundos,
respirar fundo ou ouvir um trecho de música que me recentra torna‑se quase uma
forma de higiene interior. Não resolve nada, mas devolve a sensação de que
ainda posso escolher o próprio ritmo. A verdadeira luta do nosso tempo talvez
seja esta: preservar a continuidade do pensamento num mundo que insiste em
fragmentá‑lo.
3. Valha‑nos,
então, a lucidez de José Saramago, quando dizia que sabemos muito mais do que
julgamos e podemos muito mais do que imaginamos. E acrescento eu: tal é tanto
mais verdadeiro quanto mais nos associarmos a quem, como nós, acredita num
planeta sustentável e num ecossocialismo capaz de garantir justiça para a
maioria. A força não nasce do indivíduo isolado, mas da convergência dos que
partilham um horizonte comum. Porque, se sozinhos pouco podemos, juntos tornamo‑nos
noutra coisa: uma comunidade que recusa a resignação e insiste em pensar o
mundo para além da distopia que nos querem impor.
4. Valerá,
por isso, a pena recordar o que escreve José Gameiro quando confessa não ter
grande opinião sobre a raça humana, sentimento que se agrava com a idade. Não
quero chegar a esse ponto, embora me indigne a boçalidade que alguns deputados
da extrema‑direita exibem no parlamento português.
Se a
misoginia já era suficientemente repelente, a manosfera veio apenas
amplificar o que nela havia de mais tóxico. E, quando os relatórios policiais
dão conta do aumento de simpatizantes e propaganda neonazi, torna‑se difícil
não reconhecer que estamos, de facto, naquele passo atrás de que falava o
honorável Vladimir. Mas é precisamente por isso que importa não ceder ao
desencanto: outras gerações virão, outros carreiros se abrirão, outras formas
de estar poderão configurar o que se segue.
5. Por
ora, porém, damos com fenómenos absolutamente espantosos, protagonizados por
gente demasiado sugestionada pelo que lê nas redes sociais ou pelo que projeta
nos diálogos com a inteligência artificial.
Há
adolescentes a reforçar novas vagas de anorexias militantes; há quem se suicide
por desilusão com parceiros virtuais; há quem vença batalhas judiciais contra
as tecnológicas de Silicon Valley, acusando‑as de dependências tão tóxicas
quanto as drogas químicas.
Este
mundo anda estranho, e não está fácil conferir‑lhe uma racionalidade que o
torne definitivamente viável na sua sustentabilidade. Entre a vulnerabilidade
emocional amplificada pelos algoritmos e a erosão das referências coletivas,
parece que caminhamos num terreno demasiado poroso, demasiado disponível para
ser moldado por forças que ninguém controla verdadeiramente.
E, no
entanto, é precisamente neste cenário que se torna mais urgente recuperar algum
sentido de medida, de comunidade, de responsabilidade — para que a distopia não
se torne o único horizonte possível.













