Numa
conversa com Luís Caetano, Carmen Maria Machado falava do impressionante
exemplo daquelas pessoas que nada esquecem. Gente que conserva tudo na memória,
como se cada detalhe da vida ficasse gravado com nitidez absoluta, sem falhas, nem
sombras, muito menos o esquecimento.
À
primeira vista, a ideia parece tentadora. Quem não desejaria recordar tudo?
Quem não gostaria de ter acesso imediato a cada momento vivido, como se a vida
fosse um arquivo perfeito, sempre disponível?
Mas Carmen,
que conhece bem o peso da memória — sobretudo a memória do corpo e do trauma —
depressa chegou à conclusão contrária. Percebeu que essa capacidade, longe de
ser privilégio, roça a maldição. Viver sem esquecer é viver sem descanso. É
carregar o passado inteiro às costas, sem a trégua que o tempo costuma
oferecer.
No dia‑a‑dia,
o passado surge caótico. Mistura datas, confunde episódios, troca lugares,
altera sequências. E, no entanto, é dessa desordem que nasce a nossa versão
mais íntima da memória. Não é cronológica, nem rigorosa, nem “realista” no
sentido documental. Mas é pessoal. E talvez seja isso que importa.
A memória
perfeita seria uma prisão. A imperfeita, essa que nos trai e nos protege ao
mesmo tempo, permite‑nos continuar. Permite‑nos escolher o que fica e o que se
dissolve, mesmo quando não sabemos que estamos a escolher.
Por isso
vale a pena pensar no valor do esquecimento. Não como falha, mas como forma de
sobrevivência. Afinal, lembrar tudo seria insuportável. E esquecer um pouco é,
muitas vezes, a única maneira de seguir em frente.


















