sábado, junho 13, 2026

Turismo no Fim do Mundo

 


Parece ser tendência viral nas redes sociais. Influencers que acumulam milhares de visualizações com viagens “turísticas” a zonas perigosas, como se o risco fosse apenas mais um filtro para a fotografia perfeita. O Afeganistão tornou-se um desses destinos. E o que mostram? Paisagens “paradisíacas”, ruínas fotogénicas, mercados coloridos, a suposta simpatia dos talibãs — apresentados como gente afável, nada façanhuda.

O que não mostram é mais eloquente. As mulheres, sobretudo, na sua desdita, ausência forçada do espaço público, e a violência estrutural que as impede de estudar, trabalhar, circular. Não mostram o regime de terror que os talibãs impõem desde que retomaram o poder. A câmara vira-se sempre para o lado mais conveniente.

O que está em causa é simples: branqueamento. Um regime assente na sharia mais rígida percebeu que também precisa de dólares. E descobriu que estes viajantes ingénuos — ou cúmplices, dependendo da generosidade do nosso vocabulário — podem funcionar como embaixadores involuntários. A hospitalidade torna-se estratégia. O sorriso, moeda de troca. A selfie, propaganda.

É o turismo transformado em instrumento político. E é também a prova de que as redes sociais criaram uma nova forma de irresponsabilidade: a de viajar sem contexto, sem ética, sem memória. Como se bastasse pousar o pé num território para o compreender. Como se a realidade pudesse ser editada até caber num vídeo de trinta segundos.

Vale a pena pensar no que significa viajar com consciência. Não para moralizar, mas para lembrar o óbvio: há lugares onde a beleza existe, sim — mas existe ao lado do sofrimento. E ignorar isso é uma forma de colaborar com quem o produz.

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