Parece
ser tendência viral nas redes sociais. Influencers que acumulam milhares
de visualizações com viagens “turísticas” a zonas perigosas, como se o risco
fosse apenas mais um filtro para a fotografia perfeita. O Afeganistão tornou-se
um desses destinos. E o que mostram? Paisagens “paradisíacas”, ruínas fotogénicas,
mercados coloridos, a suposta simpatia dos talibãs — apresentados como gente
afável, nada façanhuda.
O que não
mostram é mais eloquente. As mulheres, sobretudo, na sua desdita, ausência
forçada do espaço público, e a violência estrutural que as impede de estudar,
trabalhar, circular. Não mostram o regime de terror que os talibãs impõem desde
que retomaram o poder. A câmara vira-se sempre para o lado mais conveniente.
O que
está em causa é simples: branqueamento. Um regime assente na sharia mais rígida
percebeu que também precisa de dólares. E descobriu que estes viajantes
ingénuos — ou cúmplices, dependendo da generosidade do nosso vocabulário —
podem funcionar como embaixadores involuntários. A hospitalidade torna-se
estratégia. O sorriso, moeda de troca. A selfie, propaganda.
É o
turismo transformado em instrumento político. E é também a prova de que as
redes sociais criaram uma nova forma de irresponsabilidade: a de viajar sem
contexto, sem ética, sem memória. Como se bastasse pousar o pé num território
para o compreender. Como se a realidade pudesse ser editada até caber num vídeo
de trinta segundos.
Vale a
pena pensar no que significa viajar com consciência. Não para moralizar, mas
para lembrar o óbvio: há lugares onde a beleza existe, sim — mas existe ao lado
do sofrimento. E ignorar isso é uma forma de colaborar com quem o produz.

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