Sabe bem ler
a entrevista de José Teixeira na Visão de algumas semanas atrás.
Empresário
de um grande grupo económico de Braga, onde há pouco inaugurou um museu de arte
contemporânea, não tem receio de dizer o que muitos pensam e poucos afirmam, a
saber, que a tentativa das direitas de reverem as leis laborais não passa de
mais um capítulo da velha história em que o capital tenta recuperar o que
considera seu por direito natural, como se o trabalho fosse mera variável de
ajuste e não a base de tudo o que existe.
É raro
encontrar quem, vindo do mundo empresarial, fale com esta clareza, talvez porque
costuma ser malvista quando atravessa fronteiras ideológicas.
Melhor
ainda é a conclusão a que chega, dita com a simplicidade de quem não carece de
adornos: “A Europa precisa de um novo iluminismo, onde a dimensão social tem
de ter outro tipo de beleza, porque não pode haver uns gaps tão grandes entre
pobres e ricos, entre salários baixos e muito altos, com relações classistas
nas empresas.”
A frase surge
como constatação serena, lembrando que a desigualdade não é acidente mas
construção, e a beleza social de que fala não se alcança com discursos, mas escolhas,
razão pela qual convém revisitar a ideia de justiça antes que a Europa se
esqueça de si própria.
Outra
frase que ficou a ecoar, talvez por tocar num ponto que todos reconhecemos mas
poucos enunciam, é quando cita quem afirmara impossível um povo habituado à
leitura aceitar a escravidão.
À
escravidão moderna chama obediência. A experiência ensinou‑lhe que, numa
empresa, o trabalhador obediente, acrítico, é quem mais facilmente introduz o
caos, por dispensar o pensamento, abrindo caminho ao erro. E este, quando não é
visto nem questionado, alastra como erva daninha.
Há aqui
uma ironia que não passa despercebida: o capitalismo, que tanto gosta de
disciplina, descobre que sem consciência ela é ameaça, e talvez por isso valha
a pena revisitar a ideia de autonomia, não como slogan, mas enquanto condição
mínima para que o trabalho não se transforme na forma moderna da servidão.

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