Kandinsky
sempre me foi particularmente interessante, não apenas pelo que representa na
história da arte, mas porque foi o artista de cujas obras a Elza mais gostou,
chegando a criar painéis de azulejos inspirados nele, trabalho paciente e
luminoso que ainda hoje sobrevive num tabuleiro onde toma as refeições,
vestígio material de um tempo em que a doença ainda não lhe roubara a
capacidade de apreciar o que via.
Há uma
melancolia serena neste contraste entre o que permanece e o que se perdeu, como
se a memória tivesse ficado presa na superfície vidrada do azulejo enquanto o
olhar se foi tornando mais distante.
Uma das
obras que mais a fascinou foi a Composição VI, concluída em 1913 depois
de longa gestação e hoje exposta numa das salas do Hermitage.
Não é pintura
inteiramente abstrata, porque Kandinsky, ao contrário do que tantas vezes se
repete, nunca abandonou por completo a relação com o mundo visível, preferindo
antes segmentar o seu trabalho em três categorias: as impressões, que
refletem a realidade exterior; as improvisações, que traduzem impulsos
interiores; e as composições, que resultam de elaboração lenta e
rigorosa, como se a música se tivesse transformado em cor.
Composição
VI pertence a
este último grupo e talvez por isso tenha tocado tão fundo a Elza, porque nela
se reconhece esse equilíbrio raro entre o que vem de fora e o que nasce de
dentro, equilíbrio que a arte alcança quando se liberta da obrigação de
explicar e se limita a existir.
Razão para
revisitar Kandinsky com olhos demorados, mesmo quando o mundo insiste em correr
depressa demais.

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