segunda-feira, junho 22, 2026

Wenders e a Censura Consentida

 


Wim Wenders entrou nos oitenta anos carregando duas deceções recentes para quem lhe admira a obra. A primeira foi política — a dissociação incompreensível entre o cineasta que filmou Paris, Texas e As Asas do Desejo e o cidadão capaz de posições que não vale a pena detalhar. A segunda chegou agora, e é de outra natureza: a aceitação de um ato censório injustificável, rendendo-se à chantagem de Nastassja Kinski para retirar de circulação um filme rodado quando ela tinha treze anos e onde aparecia numa cena de cerca de dois minutos.

A cena em si nem sequer dela me lembrava — o filme ficou na memória pela qualidade, não pelo episódio em causa. Mas a questão não é a cena: é o princípio. A censura não se torna aceitável por ser exercida em nome da proteção retroativa de quem dela é objeto, e Wenders deveria sabê-lo.

Há ainda outra dimensão que incomoda: uma certa ingratidão de Kinski para com o realizador que lhe deu dois dos poucos papéis em que valeu a pena vê-la. Se a atriz considerou que alguém a deveria ter protegido da exposição a que se sujeitou, a responsabilidade recai sobre quem a meteu no casting e assinou o contrato, não sobre o cineasta que filmou o que lhe foi contratualmente permitido filmar.

Wenders cedeu. E ao ceder tornou-se cúmplice do apagamento da própria obra.

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