Wim
Wenders entrou nos oitenta anos carregando duas deceções recentes para quem lhe
admira a obra. A primeira foi política — a dissociação incompreensível entre o
cineasta que filmou Paris, Texas e As Asas do Desejo e o cidadão
capaz de posições que não vale a pena detalhar. A segunda chegou agora, e é de
outra natureza: a aceitação de um ato censório injustificável, rendendo-se à
chantagem de Nastassja Kinski para retirar de circulação um filme rodado quando
ela tinha treze anos e onde aparecia numa cena de cerca de dois minutos.
A cena em
si nem sequer dela me lembrava — o filme ficou na memória pela qualidade, não
pelo episódio em causa. Mas a questão não é a cena: é o princípio. A censura
não se torna aceitável por ser exercida em nome da proteção retroativa de quem
dela é objeto, e Wenders deveria sabê-lo.
Há ainda
outra dimensão que incomoda: uma certa ingratidão de Kinski para com o
realizador que lhe deu dois dos poucos papéis em que valeu a pena vê-la. Se a
atriz considerou que alguém a deveria ter protegido da exposição a que se
sujeitou, a responsabilidade recai sobre quem a meteu no casting e assinou o
contrato, não sobre o cineasta que filmou o que lhe foi contratualmente
permitido filmar.
Wenders
cedeu. E ao ceder tornou-se cúmplice do apagamento da própria obra.

Sem comentários:
Enviar um comentário