segunda-feira, junho 29, 2026

Os Filmes Cometa

 


Há filmes que nascem com má estrela, não por culpa própria mas do momento em que chegam ao mundo.

Perguntem à Lua, da realizadora grega Jacqueline Lentzou, é um desses casos: lançado na época da pandemia, sobre ele tombou a maldição do contexto — salas fechadas, atenção dispersa, o mundo demasiado ocupado com a sobrevivência para se sentar no escuro a deixar-se atravessar por uma história de amor difícil entre uma filha e um pai.

Ficou clandestino. E como os filmes clandestinos, regressa de vez em quando como cometa — um relâmpago numa programação televisiva, uma janela fugaz num catálogo de streaming — antes de voltar ao algures donde veio, deixando apenas em quem o viu a sensação de ter assistido a algo que merecia mais mundo do que este lhe deu.

A história é a de uma filha que regressa a Atenas depois de longa ausência para cuidar do pai com degenerescência muscular. Entre os dois nunca houve empatia — ela sempre o recordou frio, distante, e a família pôs-lhe o encargo como uma carga, sabendo que ela não teria como recusar. A íntima revolta que sente é legítima e o filme não a julga, deixando-a respirar sem a resolver demasiado depressa.

E então uma fotografia muda tudo. Um único objeto, uma única imagem, e a perspetiva sobre o pai reorganiza-se inteiramente — lembrando-nos que as pessoas que julgamos conhecer guardam sempre um quarto fechado que só o acaso ou a perda nos deixa entreabrir.

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