O cinema
permite a identificação com corpos, numa idade e experiência que não são as
nossas, e provavelmente nunca poderiam ser.
Três
curtas-metragens portuguesas, premiadas em festivais internacionais entre 2023
e 2024, colocam uma questão pertinente: o que fazer perante realidades que nos
são estranhas, e o cinema permite espreitar sem as reduzir a curiosidades
turísticas ou distanciamentos condescendentes?
Corpos
Cintilantes,
de Inês Teixeira aborda o corpo sem nostalgia ou desconforto: uma rapariga de
dezasseis anos descobre, num fim de
semana em Leiria, que o olhar sobre um colega mudou de natureza sem aviso
prévio.
Na estreia
em ficção, ela filma esse território com uma discrição notável: quase tudo
acontece em close-up, em luz natural, no que Mariana sente e imagina mais do
que no que efetivamente sucede.
É um
cinema que recusa a explicitação, entendendo que a adolescência não se define
pelo acontecimento mas pela incerteza que o precede — a dúvida sobre se um
convite é amizade, desejo, ou qualquer coisa entre as duas, e até que ponto
aceitar esse convite é um gesto de autonomia ou vulnerabilidade.
O interesse
do filme assenta na forma como a realizadora consegue tornar universalmente
legível algo que é, por definição, intransmissível: a sensação de que o corpo,
de um dia para o outro, passou a significar outra coisa.
É um
filme que pede ao espectador mais velho a atenção genuína a um estado que só se
pode observar de fora, precisamente porque, de dentro, já não temos acesso a
ele.
Dildotectónica, de Paula Tomás Marques aborda uma distância
de outra natureza — não etária, mas de experiência e identidade. Para tal cruza
dois tempos: o de Rebeca, ceramista contemporânea a tentar a desconstrução do
objeto que fabrica — como criar um dildo que não reproduza a forma fálica que
estrutura, mesmo no prazer queer, uma lógica patriarcal? —, e o de Josefa,
mulher perseguida pela Inquisição por "motivos incertos de resistência e
insurreição", cujos amores ilícitos com Maria passavam também por um
objeto de cerâmica semelhante.
A ponte
entre as duas mulheres separadas por séculos é literal — o material, a forma, o
gesto artesanal — mas é também uma reivindicação: a de que existiu sempre,
mesmo quando a História oficial se recusou a registá-la, uma vida erótica
dissidente que a Inquisição perseguiu e o cinema pode agora restituir, com
humor e sem melancolia forçada.
Este é,
dos três filmes, aquele em que a distância é mais estrutural na experiência do
desejo que ali se representa. E é exatamente por isso que o encontro com o
filme se torna mais instrutivo: não cabe validar nem julgar aquilo que Rebeca e
Josefa procuram, apenas reconhecer, que a História é sempre incompleta, escrita
a partir de exclusões que só agora começam a ser reparadas.
E com Quando
M'eu For Desta Terra, de Francisco Moura Relvas e Rita Senra temos o corpo
da terra que se esvazia.
Na aldeia
de Dine, em Trás-os-Montes, Judite Lopes é uma das últimas habitantes de um
lugar que se esvazia — e o acontecimento que perturba as suas noites, a
ocupação de uma gruta próxima, funciona como metáfora de algo maior: a
desertificação do interior português, a solidão de quem fica quando todos os
outros partiram, o modo como os lugares e as suas histórias vão sendo tomados,
um a um, pelo silêncio.
É o tempo
que passa e deixa, atrás de si, cada vez menos gente para testemunhar aquilo
que passou. É talvez essa a distância mais universal das três, porque é a única
que, mais cedo ou mais tarde, se torna comum a todos — a de ficar, um dia, como
Judite Lopes, a ouvir os cães ladrar no escuro, sozinho perante um mundo que se
retirou.
O que
estas três curtas têm em comum, para além do ano de produção e do
reconhecimento em festivais internacionais, é a recusa de transformarem em espetáculo
aquilo que filmam. Nenhuma delas precisa de gritar para que a sua realidade
específica seja tomada a sério — o corpo adolescente que descobre o desejo, o
corpo queer que a História tentou silenciar, o corpo de uma aldeia que se apaga
devagar.
Perante
elas não faz sentido fingir uma proximidade que não existe, mas reconhecer a dignidade
de serem vistas com atenção e sem condescendência.
Há
viagens que se fazem por procuração, e esta é uma delas. Sei, com a certeza
tranquila que a idade traz a certas renúncias, que nunca descerei a um abismo.
Não chega
a ser fobia, que esta tem qualquer coisa de dramático e eu não gosto de
dramatizar os limites, mas é uma recusa do corpo que a razão subscreve sem
discutir.
Imagino a
corda, a pedra húmida, a escuridão que não é noite porque esta tem sempre um
céu por cima, e sobretudo imagino o instante em que a passagem se estreita, o
capacete raspa no teto, os ombros procuram um ângulo que talvez não exista, e o
pensamento, que até ali se portara bem, formula a única pergunta que importa: e
se eu ficar aqui?
Foi com
esse corpo relutante que vi Il Buco, de Michelangelo Frammartino, e
talvez por isso o filme me incomodou.
Em agosto
de 1961, um grupo de jovens espeleólogos do Piemonte atravessou a Itália para
explorar o Abisso del Bifurto, no maciço do Pollino, na Calábria. Chegaram a
cerca de 680 metros, uma das maiores profundidades então conhecidas.
É tudo o
que é preciso saber, e é quase tudo o que o filme diz, porque Frammartino
recusa a palavra como quem recusa um atalho. Não há diálogos que expliquem, nem
heróis que confessem o medo, nem uma música que diga quando devemos suster a
respiração. Há o som da água a escorrer, o eco de uma voz que chama lá em cima,
o tilintar metálico do equipamento, e sobretudo o silêncio, que não é ausência
de som, mas uma substância.
A
fotografia de Renato Berta merece um parágrafo inteiro. Lá em baixo, a única
luz é a que os homens levam consigo: lanternas de capacete, e folhas de papel
acesas que deixam cair no vazio para medir a profundidade do poço seguinte.
Essas chamas que descem, oscilando, iluminando por instantes paredes que nenhum
olho humano vira antes, e depois se apagam no fundo que não conseguimos ver,
são imagens sugestivas. O escuro não é o negro chapado de um ecrã avariado: tem
textura, profundidade, graus. Berta filma a escuridão como outros filmam a
paisagem, e percebemos que a gruta é uma paisagem que se recusa a ser vista por
inteiro.
E é aqui
que o medo encontra o seu lugar. Frammartino não filma a claustrofobia, que
seria o caminho fácil do cinema de género, com a câmara colada ao rosto em
pânico e a respiração ofegante na banda sonora. Testemunha a exploração com planos
longos, fixos, pacientes, e é precisamente essa calma que inquieta.
Os
espeleólogos esgueiram-se por passagens onde eu não passaria, e o filme não
sublinha nada, não pede aplauso, não pede sequer que tenhamos medo por eles.
Deixa-nos sozinhos com o nosso. Descobri, a ver Il Buco, que o medo de
ficar preso não precisa de ser encenado para ser sentido; basta que a câmara
não dê a saída.
Lá em
cima, entretanto, corre outro filme por outro caminho. Um velho pastor, que
Frammartino foi buscar à própria região e que não é ator, observa os
forasteiros de longe, chama o gado pelo vale com gritos que ecoam como se a
montanha lhe respondesse, e adoece. A morte aproxima-se ao mesmo ritmo a que os
jovens se afundam nas profundezas. As duas linhas nunca se tocam de forma
explícita, e a montagem tem a inteligência de não as forçar. Uma desce ao fundo
da terra, a outra desce ao fundo da vida, e nenhuma delas é comentada.
O pastor
morre como viveu, sem testemunhas que lhe deem importância histórica. Os
espeleólogos cartografam um abismo que ninguém lhes pedira para medir. Ambos os
movimentos são, à sua maneira, inúteis, mas também essenciais.
Há, logo
no início, um momento que funciona como chave. Na aldeia, os habitantes veem na
televisão imagens do arranha-céus Pirelli, acabado de erguer em Milão. É a
Itália do milagre económico, a que sobe, a que se mostra, a que olha para o
futuro de baixo para cima. E os rapazes do Norte industrial vêm ao Sul pobre
não para construir, mas para descer. Frammartino não faz disto uma tese, deixa
a imagem da torre pousada no filme como uma pedra no caminho, e cabe-nos a nós
tropeçar nela.
Pergunto
o que diz este filme ao nosso tempo, e a resposta parece clara. Vivemos numa
época que só concede valor ao que se vê, se partilha e se mede em números de
visualizações. Tudo sobe: torres, gráficos, vozes.
Il
Buco propõe o
gesto inverso, o de descer ao que não se vê, sem plateia, sem transmissão em
direto, pelo simples desejo de saber o que está lá em baixo. E propõe também
uma atenção ao que morre em silêncio nesse mundo rural que continua a
esvaziar-se no Sul de Itália - como no interior português -, sem que nenhuma
câmara lhe preste a homenagem de um plano demorado. O filme é essa homenagem.
Não
descerei nunca a um abismo, mas passei hora e meia dentro de um, guiado por
homens que não conheço e por uma luz que eles próprios carregavam E conclui-o
com a sensação estranha de ter estado muito fundo e regressado inteiro. É o que
o cinema às vezes faz por nós: leva o corpo que temos aonde ele não quer ir.
Carl Orff
ocupa um lugar desconfortável na história da música: foi celebrado pela força
imediata de Carmina Burana, mas também se viu envolto numa zona cinzenta
ética que nunca se dissipou.
No pós‑nazismo,
escapou ao castigo não por inocência, mas por omissão. Escondeu do tribunal a
denúncia que fizera de um colega judeu — facto hoje documentado — e construiu
para si uma narrativa de resistência que não corresponde ao que realmente
aconteceu. A absolvição não foi justiça; foi habilidade.
O regime
nazi, por seu lado, acolheu Carmina Burana com entusiasmo. Via nela um
exemplo de “música moderna” que podia ser apropriada: vigor rítmico,
monumentalidade coral, paganismo estilizado, ausência de qualquer traço judaico
ou dodecafónico. A obra, com a sua energia quase tribal, encaixava na estética
de exaltação física que o regime promovia.
Orff não se opôs; beneficiou. E esse
benefício, mesmo que não implique adesão ideológica plena, deixa uma sombra que
não se apaga.
O
paradoxo é que, apesar desse acolhimento político, Carmina Burana não é
unanimemente respeitada no campo da musicologia. Muitos consideram a obra pobre
quando comparada com os modelos que Orff pretendia alcançar — sobretudo
Stravinski, cuja revolução rítmica e formal em Les Noces ou Le Sacre
du Printemps opera numa complexidade que Orff nunca atingiu. Onde
Stravinski trabalha a dissonância, a polirritmia, a estrutura como tensão, Orff
opta por uma simplicidade deliberada, quase primitiva, que seduz o público mas
deixa os especialistas desconfiados.
A verdade
é que Carmina Burana vive deste duplo movimento: acessível, poderosa,
imediata — e, ao mesmo tempo, limitada. A força está na superfície, não na
profundidade. É obra que conquista pela energia, não pela invenção. E talvez
seja por isso que os nazis a acolheram com tanta facilidade: não exige escuta
complexa, apenas entrega.
Orff
permanece, assim, numa posição ambígua: autor de uma obra incontornável, mas
não de uma obra maior; figura que navegou o regime sem coragem, mas com
astúcia; compositor cuja popularidade não coincide com a sua estatura
artística. A história não o condena totalmente, mas também não o absolve.
Sempre
que a RTP Memória repete os dois episódios de Vejam Bem dedicados a José
Mário Branco, assinados por Edgar Fonseca e Nuno Galopim, volto a eles como
quem regressa a uma casa antiga onde tudo permanece no sítio certo.
Não é
novidade o que se conta — conheço cada episódio da sua vida, ouvi‑os da sua
boca na rádio, na televisão, em palco, em conversas que atravessaram décadas.
Mas a repetição não cansa; devolve. E o que devolve não é apenas a figura, é o
conjunto de valores que ele encarnava com uma coerência rara, quase impossível
de encontrar hoje.
José
Mário Branco não precisava de construir personagem: era o que dizia. A lucidez
política, a exigência ética, a recusa de qualquer forma de complacência, a
atenção ao detalhe humano — tudo isto atravessa os dois episódios como se
fossem uma aula. A vida que se revisita não é apenas biografia; é método. Um
modo de estar no mundo que não separava criação de responsabilidade, música de
consciência, militância de inquietação.
O que prende
sempre, mesmo sabendo tudo de cor, é essa integridade que praticava. A forma
como falava do exílio, da clandestinidade, das derrotas, das esperanças, nunca
com heroísmo, sempre com precisão. A forma como desmontava ilusões sem perder a
capacidade de imaginar. A forma como defendia que a arte serve para confrontar
o mundo. E, apesar de tudo, mantinha uma ternura funda, quase escondida, que só
se revelava quando falava dos outros.
Ver Vejam
Bem é reencontrar um conjunto de valores que não envelhecem: rigor,
coragem, inquietação, decência. Num tempo em que tudo parece negociável, José
Mário Branco lembra que há coisas que não se negoceiam. E talvez seja por isso
que volto sempre: não para ouvir histórias, mas para recuperar uma medida.
Há uma
tradição literária que o filme de Tarik Saleh convoca sem necessidade de a
nomear explicitamente, e que a descrição que traz — a de um Cândido muçulmano —
capta com precisão: a do jovem inocente lançado num mundo cuja lógica de poder
lhe é inteiramente estranha, e que só vai compreendendo à medida que essa
lógica o esmaga. Adam, filho de pescadores do delta do Nilo, chega a Al-Azhar
imaginando ter recebido uma dádiva divina — a bolsa de estudo é, para ele, a
antecâmara do paraíso. O que encontra, em vez disso, é um tabuleiro de xadrez
em que ele próprio é peão, movido por mãos que nem sequer se dão ao trabalho de
se apresentar.
É essa
desproporção entre a ingenuidade da personagem e a sofisticação do jogo que a
envolve que dá ao filme o seu interesse maior, ainda que também revele o seu
limite mais evidente. Saleh constrói, com competência mas sem grande
originalidade formal, um thriller de espionagem que se declara devedor tanto de
"O Nome da Rosa" de Umberto Eco — a instituição religiosa fechada
sobre si própria, os corredores onde se cruzam fé e crime — quanto do cinema
paranoico americano dos anos setenta, com a sua desconfiança sistemática
perante qualquer instituição de poder.
A
referência funciona bem como coordenada, mas talvez seja também o sintoma do
problema: o filme aplica moldes narrativos já testados a um contexto — a
Universidade de Al-Azhar, bastião do Islão sunita fundado pelos Fatímidas no
século X — que teria matéria de sobra para gerar uma linguagem própria, e Saleh
parece preferir a segurança da fórmula reconhecível à exploração mais arriscada
dessa singularidade.
Onde o
filme ganha verdadeira densidade é na tese política que deixa implícita, nunca
sublinhada em excesso: a de que o confronto entre correntes religiosas —
moderados contra a linha mais dura, próxima dos Irmãos Muçulmanos — é, no
fundo, uma fachada manobrada pelo poder político do Estado egípcio, que
pretende colocar à frente da instituição o candidato que melhor lhe sirva os
interesses, independentemente de quantos corpos caiam pelo caminho.
É aqui
que "A Conspiração do Cairo" ultrapassa o mero exercício de género
para se tornar um comentário lúcido sobre o Egito pós-Primavera Árabe: a queda
de Mubarak mudou o rosto do regime sem alterar a substância. A intimidação, a
censura, a prisão arbitrária, o ostracismo, o exílio — todos os instrumentos de
controlo sobrevivem intactos, apenas reformulados para uma nova gramática de
legitimidade religiosa que o Estado manipula sem nunca sujar diretamente as
mãos.
Adam,
nesse tabuleiro, nunca chega a ser um agente com vontade própria — e é essa,
precisamente, a sua verdade mais dolorosa. O rapaz que partira do delta do Nilo
convencido de estar mais perto do paraíso passa o filme inteiro a correr de um
lado para o outro, não em busca de nenhum ideal, mas simplesmente a tentar
sobreviver a um jogo cujas regras nunca lhe foram explicadas e cujos jogadores
mais fortes mal reparam nele exceto quando lhes é útil sacrificá-lo. É um
retrato eficaz, ainda que sem grande entusiasmo formal, de como as revoluções
que prometem libertar acabam por gerar novas hierarquias de opacidade — e de
como os mais vulneráveis, os Adams de cada geração, continuam a pagar o preço
de jogos que nunca foram seus.
Há um
filme que Pasolini realizou em 1966, com Totò no seu derradeiro papel, que
parece ter sido escrito para ser reencontrado precisamente agora — não porque
preveja com exatidão o presente, mas porque diagnostica um mal que se revela,
sessenta anos depois, ainda por resolver: o divórcio entre a esquerda que pensa
e o povo que deveria ser o seu sujeito histórico.
A
estrutura do filme é, à primeira vista, uma fábula simples: Totò e Ninetto, pai
e filho, percorrem uma estrada que atravessa tanto o espaço quanto o tempo — os
subúrbios pobres de Roma, mas também, nalguns momentos, a Idade Média —,
acompanhados por um corvo falante que se apresenta, sem ironia disfarçada, como
intelectual marxista. O corvo comenta, interpreta, teoriza sobre tudo o que
veem, num fluxo verbal constante que Pasolini filma com um misto de ternura e
exasperação crescente. É essa ambivalência que torna a personagem tão
interessante: o corvo não é ridicularizado por estar errado — as suas análises
são, em grande parte, lúcidas —, mas por falar uma língua que os dois
vagabundos que o acompanham não partilham verdadeiramente. Ele fala sobre o povo;
não fala com o povo. E essa distância, mínima mas intransponível, é exatamente
o problema que hoje se reconhece, com dolorosa atualidade, numa esquerda que
continua a produzir análises corretas sobre a exploração de classe enquanto vê
essa mesma classe, cada vez mais, procurar respostas — erradas, mas
emocionalmente eficazes — na extrema-direita.
A
parábola que o corvo narra dentro do próprio filme é, nesse sentido, o núcleo
teórico de toda a obra. Totò e Ninetto tornam-se frades franciscanos
encarregados de evangelizar os pássaros — primeiro os passarinhos, depois os
gaviões — com a mensagem do amor universal. Conseguem-no, com esforço e
dedicação genuína: aprendem a língua de cada espécie, transmitem a mensagem, e
por um instante parece que a fraternidade evangélica triunfou sobre a natureza.
O instante dura pouco. Mal a pregação termina, os gaviões voltam a caçar e a
devorar os passarinhos, porque é essa a sua natureza, porque a lei da
sobrevivência não se dobra perante o sermão, por mais sincero que seja. É a
luta de classes traduzida para a ordem natural, e é também, cruamente, uma
alegoria sobre os limites de qualquer discurso — religioso ou ideológico — que
pretenda alterar estruturas de poder apenas através da persuasão moral, sem
tocar nas condições materiais que produzem a predação.
E é isso,
precisamente, que o final do filme literaliza com uma violência quase cómica:
Totò e Ninetto, esfomeados, acabam por matar e comer o corvo. A teoria é
devorada pela necessidade do estômago. Não há gesto mais exato para descrever o
que Pasolini via já em 1966 como o risco fatal de todo o intelectualismo de
esquerda: pode ter razão em tudo o que diz, mas se não responde à fome imediata
de quem o escuta, acaba por ser consumido — silenciado, descartado —
precisamente por aqueles a quem pretendia servir. É difícil não ler nisto um
espelho antecipado da esquerda contemporânea, que continua a apresentar
análises rigorosas sobre precariedade, desigualdade e exploração, enquanto
grandes parcelas da classe trabalhadora, cansadas de esperar por uma redenção
material que tarda, se deixam seduzir pelos prazeres imediatos e ilusórios que
a extrema-direita lhes oferece — um inimigo simples de apontar, uma identidade
a defender, uma promessa de dignidade recuperada que não exige esperar por
nenhuma revolução.
O funeral
de Togliatti, cuja filmagem de arquivo Pasolini insere no meio da ficção,
funciona como a segunda grande imagem-tese do filme. Ao mostrar as multidões
reais que se despedem do fundador do Partido Comunista Italiano, com sinais da
cruz misturados a punhos erguidos, Pasolini não está apenas a documentar um
acontecimento histórico — está a enterrar, com ele, uma certa forma de marxismo
ortodoxo italiano, deixando as massas subitamente sem guia claro. É uma imagem
de luto genuíno, mas também de um vazio que o filme não finge poder preencher.
Sessenta anos depois, esse vazio não apenas persiste como se aprofundou: a
esquerda que deveria renascer das cinzas daquele funeral continua, em larga
medida, incapaz de recuperar a relevância que perdeu, presa entre um
intelectualismo que fala uma língua cada vez mais distante da vida quotidiana
de quem devia representar, e uma incapacidade estrutural de oferecer, com a
mesma eficácia emocional da extrema-direita, algo que pareça uma solução
imediata para o sofrimento imediato.
O que
torna "Passarinhos e Passarões" mais do que um documento de época é
justamente esta recusa de conforto ideológico. Pasolini não poupa o marxismo
que o formou — filma-o a morrer, filma o seu porta-voz a ser devorado por fome,
filma a sua pregação a fracassar perante a natureza predatória do poder — mas
também não oferece qualquer alternativa consoladora. O filme termina, como
Chaplin em "Tempos Modernos", com os dois vagabundos a continuar a
caminhar pela estrada fora, sem corvo, sem teoria, sem certezas, apenas com a
obrigação de continuar a viver e a procurar, sem garantias, um sentido que a
ideologia sozinha já não lhes consegue dar. É talvez essa imagem final — a
estrada que continua, vazia de guias, cheia de necessidade — o retrato mais
honesto que o cinema alguma vez ofereceu da crise que a esquerda ainda hoje
atravessa: não a falta de razão, mas a falta de uma língua capaz de alimentar,
e não apenas de explicar, a fome de quem devia ouvi-la.
Zygmunt
Bauman descreveu o amor contemporâneo como líquido, não pela fragilidade
sentimental, mas pela lógica que o organiza: relações surgidas com rapidez, usadas
enquanto funcionam e descartadas quando exigem mais do que se está disposto a
dar.
A
metáfora não é moralista; é estrutural. O capitalismo ensinou que tudo é
substituível, o valor depende da utilidade, a permanência é custo. O amor,
nesse contexto, deixa de ser promessa e passa a ser gestão.
A
liquidez não significa ausência de afeto, significa ausência de garantias. As
relações tornam‑se leves porque o mundo que as sustenta é instável: trabalho
precário, mobilidade constante, redes sociais que oferecem alternativas
infinitas, plataformas que transformam o encontro numa sucessão de
possibilidades.
O
vínculo, quando surge, compete com a ideia de que talvez exista alguém mais
adequado, mais disponível, mais fácil. A dúvida não nasce da pessoa; nasce da
estrutura.
Bauman
observa que esta lógica produz um paradoxo: quanto maior a liberdade para
escolher, mais difícil fica permanecer. A relação líquida evita o peso, evita o
compromisso, evita a lentidão. Mas ao evitar tudo isto, evita também a
construção. O amor transforma‑se em experiência, não em percurso. E a
experiência, por definição, termina.
Ainda
assim, a pertinência da análise não depende de nostalgia por modelos antigos.
Depende da capacidade de reconhecer que a liquidez não é destino, é contexto.
Mesmo num mundo que incentiva o descartável, há quem procure densidade; mesmo
num tempo que valoriza a velocidade, há quem escolha permanecer. A liquidez
descreve o ambiente, não determina o gesto.
O amor
contemporâneo vive nesta tensão: entre o impulso de proteger a liberdade
individual e o desejo de encontrar alguém que resista ao fluxo.
Bauman
não condena; descreve. E ao descrever, revela que a dificuldade não está nas
pessoas, está no tempo em que vivem.
O amor na
Geração Z vive num território novo, onde a tecnologia altera não apenas a forma
como se comunica, mas a própria expectativa do que é um relacionamento. A
convivência prolongada com parceiros artificiais — modelos de IA treinados para
responder com paciência infinita, atenção constante, disponibilidade emocional
sem falhas — cria um padrão impossível de replicar na realidade. A perfeição
simulada torna‑se hábito, e o hábito transforma‑se em critério. Quando o
encontro acontece fora do ecrã, o outro surge com arestas, hesitações,
contradições, ritmos próprios. A desilusão não nasce da pessoa; nasce da
comparação.
Ao mesmo
tempo, a vida material dos potenciais parceiros tornou‑se mais estreita. A
precariedade habitacional empurra muitos para casas partilhadas, quartos
alugados, regressos prolongados à casa dos pais. A intimidade, que antes
dependia apenas de vontade, depende agora de logística. Encontrar um espaço
recatado exige coordenação, silêncio, oportunidade. O amor, que sempre foi
encontro, passa a ser também gestão. E essa gestão, tantas vezes frustrada,
altera o próprio impulso de procurar alguém.
Entre a
idealização digital e a limitação física, forma‑se uma nova realidade amorosa.
A Geração Z vive num mundo onde o desejo se exprime com facilidade, mas se
concretiza com dificuldade; onde a fantasia está sempre disponível, mas o corpo
nem sempre tem lugar; onde a perfeição artificial cria expectativas que a
imperfeição humana não consegue cumprir. O amor não desaparece — adapta‑se. Mas
adapta‑se num cenário que o torna mais exigente, mais frágil, mais dependente
de condições que não controla.
O que
permanece é a mesma pergunta de sempre: como encontrar o outro num tempo que
oferece substitutos perfeitos e espaços imperfeitos. A resposta, quando surge,
é sempre parcial. Mas talvez seja essa parcialidade que ainda permite que o
encontro seja real.
Há uma
justiça histórica na redescoberta deste filme, apresentado em Cannes quase meio
século depois de realizado: Sumitra Peries foi a primeira mulher a assinar um
longa-metragem no Sri Lanka, e "Gehenu Lamai" — As
Raparigas, ou, na designação com que chegou à distribuição internacional, "Les
Filles" — é uma estreia que já revelava a sensibilidade que lhe
valeria o epíteto de poetisa do cinema cingalês.
É um
filme de uma delicadeza formal pouco comum, construído por uma câmara que se
aproxima menos do drama social explícito do que da pintura de género — planos
que fixam-se na textura da vida rural, nos gestos contidos, no não-dito — e é
precisamente essa delicadeza que torna a sua denúncia mais eficaz do que
qualquer explicitação panfletária.
A
história de Kusum, criada humilde que trabalha em casa de Nimal e se apaixona
por ele, poderia facilmente resvalar para o melodrama de classes que o cinema
já tantas vezes filmou — o amor impossível entre a serva e o senhor, o
obstáculo social a vencer ou a sucumbir.
Peries
recusa esse caminho previsível. O que verdadeiramente importa no filme não é
tanto a distância de classe entre os dois jovens — embora ela seja real e
determinante — mas o facto de que, mesmo dentro dessa história de amor, é a
rapariga quem carece de qualquer poder para definir os termos da própria vida.
Kusum não
decide o seu destino; recebe-o. A sua condição de serviçal duplica-se, e
agrava-se, pela condição de mulher — dupla subalternidade que o filme entende
com uma lucidez que nunca precisa de se anunciar como tese.
É aqui
que reside o verdadeiro projeto do filme, mais do que na crónica sentimental
que a sinopse sugere: a demonstração de como uma sociedade patriarcal organiza
o amor de raparigas como Kusum em função da obediência, não da liberdade.
O afeto
que ela sente por Nimal não lhe pertence inteiramente — está sujeito a códigos
de conveniência social, a expectativas familiares, a uma economia de casamentos
que decide por ela antes de poder decidir por si.
Peries
filma essa secundarização não com indignação retórica, mas através de uma
acumulação de pequenos gestos de silenciamento — olhares, palavras, decisões
tomadas por terceiros em conversas de onde as raparigas estão ausentes — que,
somados, compõem um retrato social mais devastador do que qualquer discurso
explícito conseguiria ser.
Há ainda
uma dimensão histórica que atravessa o filme discretamente, situando essa
história íntima num momento preciso da nação: um Sri Lanka que discute, através
das personagens jovens e das conversas políticas, o que significa a
independência recém-conquistada e se essa liberdade nacional é real ou apenas
condicional, sujeita a outras formas de sujeição — económicas, sociais, de
género. É uma sobreposição inteligente: a pergunta que o filme faz sobre a
autonomia de Kusum, mulher sem poder de decidir a própria vida, ecoa a pergunta
mais vasta que o país fazia a si próprio sobre a sua própria soberania.
A
liberdade, sugere Peries, nunca é uma conquista abstrata — mede-se sempre pela
liberdade concreta que concede, ou nega, às vidas mais vulneráveis dentro dela,
e não há independência nacional que baste enquanto a metade feminina da
população continua a ser tratada como propriedade a transmitir, não como
sujeito a escutar.
Kazimir
Malevich ocupa um lugar raro na história da arte: seduz pela estética e afasta
pelo fundamento. O suprematismo, com a sua geometria depurada, economia de
forma e a recusa do mundo visível, produzia uma beleza que não dependia de
narrativa nem de objeto. O Quadrado Negro não era ausência, mas presença
absoluta. A superfície plana, o silêncio da composição, a suspensão de qualquer
referência exterior — tudo isto criava uma espécie de magnetismo visual que
funcionava mesmo quando se rejeitava o misticismo que lhe deu origem.
O
paradoxo estava aí: a obra convencia, a doutrina não. Malevich acreditava que
era possível apagar cinco milénios de cultura humana para regressar a um ponto
zero, uma escuridão primordial onde a luz surgiria não da experiência, mas da
revelação. Via no negro absoluto uma espécie de portal filosófico, talvez
religioso, como se o vazio fosse condição para uma verdade superior.
A ambição
era grandiosa, mas o fundamento escapava. O misticismo que o guiava nada acrescentava
à obra; apenas a rodeava de uma intenção que não era necessária para que funcionasse.
O gesto
suprematista era, no essencial, um assassínio do objeto. Malevich eliminava a
figura, recusava a representação, desligava a pintura do mundo. Procurava a
sensação pura, não adulterada por história, por contexto, por memória. A arte
deixava de ser janela e tornava‑se superfície. O olhar já não procurava o que
estava para lá da tela; confrontava apenas o que a tela era. Nesse confronto,
algo acontecia — não porque o artista tivesse encontrado uma verdade
metafísica, mas porque a redução extrema produzia uma intensidade que não
dependia da crença.
A força
do suprematismo estava na estética, não na teologia. O que permanecia não era a
doutrina, mas a forma. O negro absoluto não iluminava; concentrava. E essa
concentração, mesmo despojada de qualquer misticismo, continuava a ser uma das
experiências mais radicais que a pintura do século XX ofereceu.
1. Há um
fio comum entre duas curtas-metragens portuguesas, recentes e afins na duração,
que a partilha da direção de fotografia de Leonor Teles sublinha: ambas filmam
personagens colocadas à margem — pela pobreza, falta de horizontes, ausência de
qualquer rede de proteção social real — que identificam, na sua situação, uma
única porta de saída possível, e que ela revela-se, invariavelmente, uma nova
forma de captura.
Em "By
Flavio" (2022), de Pedro Cabeleira, é Márcia quem constrói a fantasia
de ascensão enquanto influencer, única rota disponível para escapar à
precariedade em que vive com o filho. A ilusão duplica-se quando a essa
estratégia se soma o envolvimento com um rapper cujo interesse nela é
puramente instrumental — a "horizontalização", para usar o termo
exato, é uma transação de proximidade e visibilidade que nada tem de afeto e
tudo de cálculo.
Cabeleira
filma essa dupla ilusão sem complacência para com as personagens, mas também
sem as tornar patéticas: Márcia não é ingénua, antes alguém que, perante a
ausência de qualquer alternativa estrutural, aposta no único capital que a
economia da visibilidade contemporânea parece oferecer aos que não têm mais
nada — a exposição do próprio corpo e do filho como mercadoria de likes e
seguidores. É uma crítica ácida à forma como as redes sociais vendem a
meritocracia da fama instantânea precisamente às classes que a estrutura social
mais eficazmente exclui de qualquer ascensão real.
"O
Tapete Voador" (2025), de Justin Amorim, radicaliza esse mesmo tema
levando-o a um território mais sombrio: baseado no maior escândalo de pedofilia
institucionalizada em Portugal, o filme segue Ricardo, que não vê no horizonte
outra via de sobrevivência que não seja prostituir-se junto de clientes de alta
condição social. E é nesse circuito que reencontra a irmã de quinze anos,
também ela absorvida pela mesma rede de exploração.
O filme
não precisa de explicitar o horror para o denunciar — a eficácia da crítica
está precisamente em mostrar como esse circuito de abuso depende da
cumplicidade silenciosa de uma classe alta que se protege atrás do estatuto e
da impunidade que esse estatuto historicamente lhe garantiu em casos deste tipo.
O título é de uma ironia amarga: não há tapete voador nenhum a elevar estas
crianças e adolescentes para fora da sua condição — há apenas homens poderosos
a explorar a promessa de ascensão para as manter ainda mais presas.
O que
aproxima as duas curtas, para além da fotografia partilhada, é esta arquitetura
comum: personagens sem outro capital que não o próprio corpo — seja para a
economia da visibilidade digital, seja para a economia mais antiga e mais
brutal da exploração sexual — que confundem a atenção que recebem com uma via
de saída, quando na realidade trata-se do mecanismo exato que as mantém
capturadas. Não há, em nenhum dos dois filmes, um momento de ilusão perdida que
traga alívio; há apenas a constatação de que as "soluções" oferecidas
a quem não tem recursos são quase sempre desenhadas por quem já os tem, e
servem, antes de mais, para preservar essa mesma desigualdade.
2. No
filme de Amorim Leonor Teles consegue um tipo de grão que faz imaginá-lo rodado
na época do caso Casa Pia.
Esse
detalhe não é apenas uma opção estética mas uma decisão que carrega significado
histórico e ético. Ao optar por uma textura de imagem do final dos anos noventa
e início dos anos 2000, período em que o caso Casa Pia decorreu e rebentou
publicamente, Teles está a ancorar o filme num tempo específico, a impedir que
o espectador o encare como ficção genérica sobre um problema abstrato e
intemporal. O grão funciona como se a imagem tivesse sido resgatada de um
arquivo daquela época, e não recriada décadas depois com todo o distanciamento
que essa recriação poderia permitir.
Esta
escolha tem uma consequência crítica importante: recusa ao espectador a
comodidade do "isso já não acontece assim" ou do "isso pertence
a um passado bem delimitado e encerrado". A textura de imagem colapsa a distância
temporal entre o caso real e a ficção que dele deriva, obrigando quem vê a
confrontar-se com uma proximidade incómoda, quase física, com os factos que inspiraram
o argumento. É uma estratégia que dialoga, ainda que por vias completamente
distintas, com a que Hou Hsiao-Hsien usava em "Um Verão em Casa do Avô"
— a de deixar a forma fazer o trabalho que a palavra explícita não precisa de
fazer.
Comparado com "By Flavio",
onde a fotografia de Teles procura captar a textura contemporânea da vida
precária filmada através do ecrã do telemóvel e das redes sociais — uma
luminosidade mais fria, mais achatada, própria da estética de conteúdo digital
que o filme retrata —, em "O
Tapete Voador" a diretora de fotografia
parece ter optado pelo caminho inverso: uma imagem que envelhece deliberadamente
o presente da narrativa, empurrando-a para dentro de uma memória coletiva ainda
dolorosamente viva em Portugal.
Duas
estéticas opostas, portanto, mas movidas pela mesma inteligência: a de que a
textura da imagem não é neutra, mas uma forma de posicionar o espectador
perante o que vê — seja aproximando-o da imediata e asséptica reprodução do
ecrã, seja empurrando-o para dentro de uma memória histórica que o país ainda
não deixou de processar.
É essa
capacidade de Teles para tornar a fotografia um instrumento de argumentação, e
não apenas de composição visual, que faz destas duas curtas um caso de estudo
sobre o quanto a direção de fotografia pode, por si só, comunicar uma tese que
o argumento apenas sugere.
3. O que
estas curtas metragens - “By Flavio” e “O Tapete Voador”-, vistas em conjunto, acabam
por revelar é que a exploração das classes mais vulneráveis assume hoje, em
Portugal, formas contíguas e comunicantes: a exploração digital, que promete
visibilidade e vende dependência, e a exploração institucional, que promete
proteção e vende impunidade a quem a exerce. Que a mesma diretora de fotografia
tenha sido capaz de encontrar, para cada uma destas formas de captura, uma
linguagem visual distinta e igualmente precisa — a frieza clínica do ecrã de
telemóvel, o grão que devolve o presente a uma memória histórica por saldar —
diz muito sobre a maturidade de um cinema português jovem que já não precisa de
gritar para denunciar, porque aprendeu a deixar a própria imagem testemunhar
aquilo que as personagens não têm poder para mudar.
Walter
Dalrymple escreveu La Cité des Djinns depois de quatro anos em Nova
Deli, e o livro nasce dessa convivência com uma cidade que não se oferece de
imediato, exige tempo, errância, atenção ao detalhe.
As ruas
estreitas dos bairros antigos, as avenidas largas dos edifícios modernos, os
mercados onde o passado cruza-se com o presente sem se reconhecerem, tudo
compõe uma geografia que não se lê à superfície.
Dalrymple
percebe que cada passo assenta sobre camadas invisíveis, sete cidades
sobrepostas, cada uma construída sobre os restos da anterior, como se a
história insistisse em não desaparecer, apenas em mudar de lugar.
Os djinns
do título são os fantasmas que alguns acreditam habitarem esses estratos. Não
são figuras de terror, mas presenças discretas, ligadas às ocupações que se
sucederam ao longo dos séculos, sombras que se escondem nos recantos mais
antigos, nos pátios onde a luz chega com dificuldade, nos corredores onde o
tempo parece suspenso.
A crença
não é superstição; é forma de reconhecer que a cidade não é apenas o que se vê,
é também o que se perdeu, o que ficou enterrado, o que resiste sem nome.
O
interesse do livro está na perceção de que Nova Deli não é uma cidade, mas uma
acumulação de cidades. Cada camada guarda uma memória, cada ruína sustenta uma
narrativa, cada fantasma devolve uma pergunta.
Dalrymple
não procura decifrá‑los; limita‑se a escutar. E essa escuta, feita de passos
lentos e observação paciente, revela uma verdade que não é exclusiva da Índia:
todas as cidades são palimpsestos, todas escondem ocupações anteriores, todas
carregam fantasmas que não precisam de ser reais para serem significativos.
A
história, quando se acumula, transforma o espaço em arquivo. E o arquivo,
quando é lido com atenção, devolve sempre mais do que se esperava.
A música
contemporânea é pouco sedutora na renúncia aos modelos de repetição que o
Barroco inaugurou e Beethoven e Ravel sofisticaram, ao fazerem da repetição de
um motivo mais do que uma redundância: uma respiração.
A
dodecafonia, na sua lógica, pede compreensão racional, exige que o ouvido
aceite a ausência de centro tonal, e reconheça a intenção sem suscitar o
prazer. A razão consegue segui‑la; a emoção, menos.
O
problema não está na inovação, mas na perda de um eixo. A repetição barroca, no
seu desenho circular, cria expectativa, prepara o ouvido para o reencontro.
Beethoven transforma essa estrutura em tensão, Ravel em vertigem.
A música
contemporânea, ao recusar esse mecanismo, liberta‑se da tradição, mas também afasta-se
daquilo que permitia ao ouvinte entrar sem pedir licença. A inteligência
reconhece o gesto; a sensibilidade procura o que já lá não está.
A
dodecafonia é uma arquitetura: tem rigor, método, ausência de ornamento. Mas a
emoção não se alimenta de rigor. Alimenta‑se de repetição, de reconhecimento,
de pequenas permanências. A música que abdica desses elementos pode ser
admirada, mas dificilmente é habitada. E a diferença entre a admiração e
habitação é o que separa a razão da magia.
A sedução
musical, quando existe, não precisa de explicação. A ausência dela, mesmo
quando compreendida, não se resolve com análise.
A ficção
científica carrega sempre esta ambiguidade: alguns dos seus autores revelam
simpatias políticas duvidosas, outros enveredam por crenças que roçam o
delírio, mas o género, enquanto construção literária, mantém uma lógica
antiautoritária que não depende das convicções pessoais de quem escreve.
Frank
Herbert acabou por inspirar a Cientologia, com toda a sua arquitetura de poder
espiritual e vigilância simbólica; Philip K. Dick deixou‑se enredar numa
paranoia antissoviética que contaminou parte da sua obra. Mas estes desvios não
anulam o que os livros, lidos com atenção, realmente fazem: desmontam sistemas
fechados, expõem mecanismos de controlo, revelam o que acontece quando o poder se
autonomiza.
A força
da ficção científica não está na biografia dos autores, está na estrutura dos
mundos que constroem. Herbert pode ter alimentado uma religião problemática,
mas Dune é, no essencial, uma crítica à fusão entre misticismo e poder
político, uma análise da manipulação das massas, uma demonstração de como a
autoridade se sustenta em mitos fabricados. Dick pode ter desconfiado
obsessivamente do bloco soviético, mas os seus romances mostram o perigo dos
monopólios, da vigilância, da erosão da realidade quando o poder decide
controlar a perceção. O autor pode falhar; o texto, quando é bom, não falha.
A ficção
científica clássica recorre ao autoritarismo porque o autoritarismo é o
laboratório ideal para observar o que a democracia tenta impedir: concentração
de poder, ausência de escrutínio, submissão tecnológica, manipulação da
memória. Os impérios, as hierarquias, as distopias não são celebrações — são
advertências. Mesmo quando o autor não tem consciência plena disso, a narrativa
expõe o risco. A imaginação, ao exagerar, revela.
É por
isso que a lógica antiautoritária do género permanece intacta. Não depende da
pureza ideológica dos escritores, mas da função crítica das histórias. A ficção
científica, quando projeta futuros sombrios, não está a normalizar o
autoritarismo; está a mostrar o que acontece quando ele vence. E essa
demonstração, repetida ao longo de décadas, é o que mantém o género politicamente
relevante.
A
biografia pode ser falível. A imaginação, quando trabalha bem, não é.
Há uma
tentação que este filme evita com uma disciplina eficaz: a de transformar o
olhar infantil em filtro protetor, em véu que poupa o espectador ao que há de
mais duro no mundo dos adultos.
Hou
Hsiao-Hsien faz exatamente o contrário. Usa o ponto de vista de Tung-tung e
Ting-ting não para atenuar a violência que atravessa aquele verão rural, mas
para a tornar mais perturbadora — porque chega às crianças fragmentada, mal
compreendida, entrevista por trás de portas ou ouvida em conversas de adultos
que baixam a voz sem baixar o suficiente.
O
espectador sabe mais do que as crianças sabem, e é nesse desfasamento que
reside a verdadeira crueldade do filme: assistimos ao momento exato em que a
infância começa a perceber que o mundo tem um andar de baixo que os adultos
preferem não nomear.
A
construção serve inteiramente este propósito. Os planos fixos, a câmara que
observa a uma distância quase entomológica, sem panorâmicas explicativas nem
grandes planos que dirigissem a emoção — essa contenção que se aproxima tanto
de Ozu quanto de uma certa tradição documental — não é assinatura estética, mas
a tradução formal do ponto de vista infantil: a criança não interpreta o que
vê, regista-o. Não hierarquiza os acontecimentos segundo a sua gravidade moral
— a brincadeira com os primos, a descoberta tímida do pudor perante o corpo do
outro, o tio detido pela polícia por furto e a violação da mulher com
deficiência mental convivem no mesmo plano de importância aparente, porque para
uma criança de dez anos ainda não existe hierarquia entre o trivial e o
trágico. Tudo é, por igual, matéria de observação.
É essa
equivalência que torna o filme devastador na sua discrição. A violação da
indigente, em particular, é filmada — ou melhor, quase não é filmada — com um
pudor que é também uma forma de denúncia: Hou não precisa de mostrar o ato para
que o horror exista, basta-lhe mostrar a comunidade que o rodeia sem impedir,
os homens que riem, a mulher que grita e cuja loucura serve de álibi coletivo
para que ninguém se sinta responsável. É um retrato do mundo rural taiwanês
que, sob a superfície nostálgica de tardes de verão, bicicletas e cigarras, dá
a conhecer uma estrutura de poder muito precisa: a de uma comunidade patriarcal
que tolera a violência contra quem não tem meios de se defender — seja pela
pobreza, pela doença mental, pela pouca idade — e que confia no silêncio como
forma de autopreservação.
O avô,
médico e figura de autoridade moral da região, ocupa um lugar ambíguo nessa
estrutura. É ele quem trata os corpos doentes, quem os vizinhos procuram, quem
parece encarnar uma forma de ordem e de cuidado — mas é também, precisamente
por essa autoridade, alguém que pertence ao mesmo sistema que permite ao tio
ladrão ser uma vergonha familiar a gerir discretamente do que um problema
social a enfrentar, e que permite a violação da mulher indigente passar quase
sem consequência.
Não há,
da parte de Hou, uma acusação direta ao avô, mas uma lucidez sobre como a
bondade pessoal e a integração num sistema de silêncios coletivos podem
coexistir sem contradição aparente.
A
nostalgia que o filme evidentemente convoca — e que o título em português
sublinha, essa casa do avô que é também arquétipo de infância perdida — nunca
funciona como sentimentalismo redutor. É antes uma nostalgia consciente da sua
própria cegueira: o adulto em que Hou Hsiao-Hsien se tornou olha para aquele
verão sabendo já o que as crianças que ele filma ainda não sabem, e é esse
saber retrospetivo que dá ao filme a dupla temperatura — quente na textura
sensorial da memória, fria na lucidez com que reconhece o que essa memória
tentava, sem êxito completo, manter de fora.
No
prefácio ao primeiro volume da Fundação, Jaime Nogueira Pinto afirma,
com evidente satisfação, que na ficção científica clássica não surgem
democracias, apenas regimes autoritários, como se a imaginação do futuro
confirmasse a tese de que o poder concentrado é norma e a democracia exceção. A
frase pretende ser constatação, mas é enviesamento: confunde cenário narrativo
com diagnóstico histórico, e sobretudo ignora que muitos desses mundos
autoritários existem precisamente para denunciar o que acontece quando a
democracia falha.
A ficção
científica não descreve inevitabilidades, mas advertências. Os impérios de
Asimov, as hierarquias rígidas de Herbert, as corporações totalitárias de
Philip K. Dick, os sistemas de vigilância de Bradbury ou Orwell não são
celebrações do autoritarismo — são críticas. São construções que mostram o que
acontece quando o poder se autonomiza, quando a tecnologia se transforma em
instrumento de controlo, quando a política abdica da responsabilidade e entrega
o futuro à eficiência sem escrutínio. O autoritarismo aparece porque é ameaça,
não porque é destino.
Além
disso, a tese ignora que a ficção científica sempre imaginou formas
alternativas de organização democrática, mesmo quando não lhes dá o nome
explícito. As federações cooperativas de Ursula K. Le Guin, os modelos
comunitários de Kim Stanley Robinson, as sociedades pós‑escassez de Iain M.
Banks, os sistemas deliberativos de Octavia Butler — todos estes universos
trabalham a ideia de democracia expandida, experimental, adaptada a escalas que
o presente ainda não consegue sustentar. Não são aberrações; são
possibilidades.
O
equívoco nasce de uma leitura que confunde cenário com desejo. O facto de
muitos autores escolherem mundos autoritários não significa que os considerem
naturais; significa que os consideram perigosos. A ficção científica, quando é
séria, não projeta o futuro como fatalidade, mas como aviso. E o aviso, quase
sempre, é o mesmo: quando a democracia é desvalorizada, o autoritarismo ocupa o
espaço.
A tese de
Nogueira Pinto não descreve a ficção científica; descreve apenas a sua própria
preferência política.
Há uma
genealogia que se apaga quando se fala de Villeneuve e dos orçamentos siderais,
do autor contratado por estúdios que o tratam como garantia de qualidade dentro
de uma lógica puramente industrial.
Antes de
ser essa marca, Villeneuve foi outra coisa: um cineasta quebequense que, nos
seus dois primeiros longas, Un 32 août sur terre (1998) e Maelström
(2000), procurava sobretudo uma linguagem — o acaso, a fábula, a voz off
que intervém e comenta, uma certa desconfiança perante o realismo direto. Eram
filmes de formação, mais preocupados com o existencial e o formal do que com
qualquer leitura do mundo social.
Entre Maelström
e o regresso de 2008 há um vazio de oito anos que a maior parte das cronologias
do cineasta atravessa em duas linhas, como se não merecesse delonga. É um
silêncio incómodo para quem gosta de reconstituir trajetórias como sequências
causais, cada filme a preparar o seguinte — porque aqui não há filme nenhum a
preparar coisa alguma. Há apenas a informação, escassa e quase pudica, de que
Villeneuve afastou-se para fazer publicidade e estudar o ofício, e o fez,
segundo a formulação que sobrevive, para "recentrar a sua vida".
Não há
grande utilidade em especular sobre o que essa frase esconde. Mas há um facto
que a acompanha e talvez diga mais do que qualquer biografia detalhada: quando
Villeneuve regressa, já não é o mesmo tipo de cineasta que partiu. Até Maelström,
tinha escrito e realizado tudo o que fizera — da conceção ao plano. Quando
volta, em 2008, é para dirigir argumentos escritos por outros.
A pausa
não separa apenas dois períodos cronológicos — separa duas formas de autoria. O
jovem cineasta que efabulava sobre si próprio cede lugar a um realizador que
aceita pôr o seu olhar ao serviço de matéria alheia, e é precisamente essa
disponibilidade que lhe permitirá, mais tarde, adaptar Mouawad em Incendies
sem que isso pareça uma traição a um projeto autoral.
Há ainda
um pormenor que a cronologia oficial regista quase em rodapé: a curta-metragem Next
Floor nasceu como interrupção dentro da própria rodagem de Polytechnique
— não como prenúncio, mas como escape simultâneo. Os dois filmes do regresso
não se sucederam um ao outro; foram gerados lado a lado, no mesmo fôlego de
retoma.
Next
Floor (2008)
é o momento em que Villeneuve deixa de pensar sobre o indivíduo perdido para o
fazer sobre a sua classe de pertença. A imagem central — um banquete burguês
que colapsa literalmente sob o seu próprio peso enquanto os comensais continuam
a devorar — é de uma literalidade quase brechtiana: o capitalismo como
voracidade que se autodestrói, mas arrasta consigo os que dele dependem para
servir. Não há subtileza a proteger a metáfora, e essa é, precisamente, a força
do filme.
Polytechnique (2009), no ano seguinte, parece à
primeira vista pertencer a outro registo — o do drama baseado em factos, a
reconstituição do massacre de 1989 na École Polytechnique de Montreal. Mas a
escolha formal é reveladora: o preto e branco, a fragmentação dos pontos de
vista, a recusa de qualquer psicologização fácil do assassino.
Villeneuve
filma um sistema, não um louco isolado — a violência de género como estrutura,
não como desvio — e fá-lo com um rigor que já não é o do fabulista de Maelström,
mas o de um cineasta que aprendeu a pôr a forma ao serviço de uma leitura
política do real, sem nunca degenerar em tese ilustrada.
É esse
duplo percurso que prepara o salto para Incendies (2010), adaptação da
peça de Wajdi Mouawad — a passagem do social quebequense para o trágico
universal, da alegoria de classe para a tragédia geopolítica. E há uma frase de
Éluard que ancora bem esta leitura: "nous vivons dans l'oubli de nos
métamorphoses", de pertinência quase cirúrgica, porque Incendies
é precisamente a história de um esquecimento forçado que se torna, ao ser
desfeito, o único caminho possível para a redenção.
Nawal
metamorfoseia-se várias vezes ao longo da narrativa — a jovem apaixonada, a
estudante, a militante, a prisioneira violada e torturada, a mãe sobrevivente,
a mulher silenciosa que, décadas depois, exige através de um testamento que os
filhos reconstituam o que ela nunca lhes contou.
Villeneuve
filma essa sucessão não como progressão psicológica, mas em camadas geológicas
— cada versão de Nawal soterrada sob a seguinte, até que os gémeos, ao
escavarem, não encontram uma verdade redentora, mas a mais terrível das
coincidências: que o torturador temido pela mãe e o filho que ela perdeu são a
mesma pessoa.
É aqui
que a recusa do maniqueísmo se torna o verdadeiro projeto ético do filme, e não
apenas uma opção estética. Um cinema menor teria construído Nihad como monstro
absoluto. Villeneuve e Mouawad fazem algo mais perturbador: mostram-no também
como vítima, uma criança arrancada à mãe, franco-atirador formado pela guerra e
depois em torturador, sem que isso o absolva, ainda que a história não permita
ao espectador o conforto de o expulsar para fora da humanidade comum.
O
fanatismo, no filme, não é a essência de certos indivíduos ou certa fação
religiosa — é aquilo que a guerra fabrica sistematicamente, dos dois lados de
qualquer fação, cristã ou muçulmana. Essa equivalência é o gesto mais
radicalmente ateu e progressista do filme: recusa-se a conceder a qualquer
identidade religiosa ou étnica o estatuto de vítima ou agressor moralmente
puro.
Uma
leitura complementar pode ainda extrair algo mais preciso: a ausência total de
qualquer instância transcendente capaz de dar sentido ao sofrimento de Nawal.
Não há Deus a explicar o inexplicável, providência a redimir o horror do parto
na prisão nem o incesto involuntário que a estrutura da tragédia impõe aos
gémeos.
A única
forma de redenção disponível é inteiramente humana e material: a verdade dita,
o silêncio quebrado, o gesto de Nawal de nomear, no fim da vida, aquilo que a
violência tinha reduzido ao silêncio.
É uma
redenção sem graça divina, conquistada por meios inteiramente seculares — a
escrita, o testemunho, a transmissão através dos filhos. E há, nessa
arquitetura, uma dimensão que uma leitura progressista não pode ignorar: é uma
mulher, e apenas uma mulher, que carrega o peso de toda a história, e é ela a
única personagem com agência moral suficiente para orquestrar, décadas depois,
a possibilidade de uma verdade reparadora.
Há uma
continuidade entre Polytechnique e Incendies que vale a pena
tornar explícita, porque não é apenas temática — é uma mesma tese sobre a
natureza da violência, aplicada a dois teatros distintos.
Em Polytechnique,
Villeneuve já recusava a explicação fácil do "lobo solitário": o
assassino de 1989 não era filmado como anomalia psicológica, mas sintoma de uma
misoginia estrutural que o precedia e que lhe sobreviveria, disseminada,
difusa, presente em cada gesto quotidiano de desprezo que o filme regista antes
do massacre. A câmara não procurava as razões íntimas do atirador; procurava o
tecido social que tornava o seu gesto pensável.
Incendies desloca essa mesma operação para a
escala da guerra civil e do conflito sectário, mas o método interpretativo é
rigorosamente o mesmo: recusar a personalização do mal.
Não há,
no filme, um vilão que explique a atrocidade — há uma engrenagem. A milícia que
massacra o autocarro de civis age por lógica de vingança tribal, não por
maldade individual; os combatentes que capturam e violam Nawal na prisão
fazem-no como prática sistemática de guerra, não como desvio pessoal de um
sádico isolado; e o próprio Nihad, transformado de criança arrancada à mãe em
franco-atirador e depois em torturador ao serviço da fação oposta, é a prova
mais devastadora da tese: a violência não nasce de um carácter, fabrica-se em
corpos ainda em formação, e pode reproduzir-se indiferentemente em qualquer
lado da linha sectária, consoante quem captura a criança primeiro.
É esta
simetria entre o atirador de Montreal e o menino-soldado do Médio Oriente que
dá à obra de Villeneuve, já antes de Incendies se tornar o seu título
mais aclamado, uma coerência de pensamento que ultrapassa a mera escolha de
temas fortes. Em ambos os casos, o cineasta filma a violência não como evento,
mas como estrutura que precede e excede os indivíduos que a executam — e é precisamente
por isso que nenhum dos dois filmes oferece catarse fácil. Não há em Polytechnique
um momento de justiça restaurada, como não há em Incendies um ajuste de
contas que feche a ferida: há apenas, nos dois casos, sobreviventes que têm de
continuar a viver dentro de um mundo que a violência sistémica deixou
irreversivelmente alterado.
O que
distingue Incendies, e o torna um avanço em relação a Polytechnique,
é que Villeneuve já não se limita a expor a estrutura da violência — arrisca
também mostrar a possibilidade, por mínima que seja, de a linguagem e o
testemunho a interromperem, ainda que apenas geração após geração, através da
transmissão de uma verdade que os filhos herdam e os obriga, finalmente, a
nomear o que os pais não puderam.