Hoje, no primeiro dia de junho, Marilyn Monroe faria cem anos, e há qualquer coisa de
melancólico em constatar que o mundo continua a saber-lhe mais do corpo do que da
cabeça, o que é, em si mesmo, o resumo mais exato da tragédia que foi a sua
vida.
Já não
faz sentido discutir o símbolo sexual — essa construção que Hollywood fabricou
com a cumplicidade de uma América que precisava de um objeto de desejo simples
e sem complicações. À distância de décadas sobre a sua morte, importa olhar
para a pessoa que estava por detrás do símbolo e reconhecer nela uma
inteligência que o sistema fez tudo para sufocar.
Norma
Jeane Mortenson era mais esperta do que qualquer das loiras que interpretou,
incluindo as dos filmes de qualidade inquestionável — e Some like it hot
é um desses, capaz de me fazer rir sempre que o revejo — mas a esperteza, numa
mulher do seu tempo e da sua condição, era uma qualidade perigosa que convinha
disfarçar.
A
infância e a adolescência tinham-na já preparado para a queda: a mãe internada,
os orfanatos, os abusos, a precaridade que se instalou tão cedo e donde nunca saiu
completamente. Sobre estas fundações frágeis construiu-se o edifício mais
improvável — a mulher mais fotografada do século — e é talvez por isso que o
edifício ruiu, nunca tendo sido sólidas as fundações e ninguém tratando de as
consolidar, antes pelo contrário.
O que resta
é a compaixão — não a piedade condescendente- , mas o reconhecimento de que
Marilyn Monroe foi vítima de uma tragédia americana que o cinema ajudou a
fabricar e não soube impedir.

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