Um
episódio da Visita Guiada, conduzido por Paula Moura Pinheiro na Casa da
Ásia, devolveu‑me uma das características mais admiráveis da identidade
japonesa: a arte de conservar o património. Não apenas o que é perfeito, mas
também o que falha. Peças defeituosas, desalinhadas, quebradas, que na não
conformidade com o cânone ganham uma beleza própria. É o desvio à norma que as
torna únicas.
A coleção
de Francisco Capelo mostrava isso com clareza. A reverência pelo objeto não
depende da sua integridade. Depende da história que carrega. Da marca do tempo.
Da imperfeição que revela a mão humana.
E foi
impossível não pensar na Elza. Na sua atividade ceramista. Na forma como olhava
para as peças que iam ao forno e de lá saíam com problemas — uma fissura
inesperada, uma queda acidental, uma temperatura mal calculada. Onde outros
veriam falha, ela via possibilidade. Uma beleza nova, nascida do imprevisto.
Uma estética da imperfeição que não era teorizada — era vivida.
Essa
atenção ao que não corre como previsto sensibiliza‑me sempre. Porque permite
compreender melhor uma civilização que fascina na sua espiritualidade —paradoxal,
vindo de um ateu convicto. E porque vinca um dos traços mais luminosos da
personalidade da Elza: a capacidade de acolher o que não corresponde ao plano,
de encontrar sentido no que se desvia, de transformar o acidente em forma.
Há meio
século que tenho o privilégio de partilhar a vida com alguém assim. E talvez
por isso o episódio da Visita Guiada tenha ressoado tanto. A
imperfeição, quando vista com atenção, não é falha — é assinatura. É o que
torna cada peça, cada gesto, cada vida, irrepetível.
Vale a
pena pensar na beleza que nasce do desvio. Porque, no fundo, é nela que se
reconhece o que mais amamos.

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