domingo, junho 28, 2026

A Beleza que Resiste na Imperfeição

 


Um episódio da Visita Guiada, conduzido por Paula Moura Pinheiro na Casa da Ásia, devolveu‑me uma das características mais admiráveis da identidade japonesa: a arte de conservar o património. Não apenas o que é perfeito, mas também o que falha. Peças defeituosas, desalinhadas, quebradas, que na não conformidade com o cânone ganham uma beleza própria. É o desvio à norma que as torna únicas.

A coleção de Francisco Capelo mostrava isso com clareza. A reverência pelo objeto não depende da sua integridade. Depende da história que carrega. Da marca do tempo. Da imperfeição que revela a mão humana.

E foi impossível não pensar na Elza. Na sua atividade ceramista. Na forma como olhava para as peças que iam ao forno e de lá saíam com problemas — uma fissura inesperada, uma queda acidental, uma temperatura mal calculada. Onde outros veriam falha, ela via possibilidade. Uma beleza nova, nascida do imprevisto. Uma estética da imperfeição que não era teorizada — era vivida.

Essa atenção ao que não corre como previsto sensibiliza‑me sempre. Porque permite compreender melhor uma civilização que fascina na sua espiritualidade —paradoxal, vindo de um ateu convicto. E porque vinca um dos traços mais luminosos da personalidade da Elza: a capacidade de acolher o que não corresponde ao plano, de encontrar sentido no que se desvia, de transformar o acidente em forma.

Há meio século que tenho o privilégio de partilhar a vida com alguém assim. E talvez por isso o episódio da Visita Guiada tenha ressoado tanto. A imperfeição, quando vista com atenção, não é falha — é assinatura. É o que torna cada peça, cada gesto, cada vida, irrepetível.

Vale a pena pensar na beleza que nasce do desvio. Porque, no fundo, é nela que se reconhece o que mais amamos.

Sem comentários: