A ficção
científica carrega sempre esta ambiguidade: alguns dos seus autores revelam
simpatias políticas duvidosas, outros enveredam por crenças que roçam o
delírio, mas o género, enquanto construção literária, mantém uma lógica
antiautoritária que não depende das convicções pessoais de quem escreve.
Frank
Herbert acabou por inspirar a Cientologia, com toda a sua arquitetura de poder
espiritual e vigilância simbólica; Philip K. Dick deixou‑se enredar numa
paranoia antissoviética que contaminou parte da sua obra. Mas estes desvios não
anulam o que os livros, lidos com atenção, realmente fazem: desmontam sistemas
fechados, expõem mecanismos de controlo, revelam o que acontece quando o poder se
autonomiza.
A força
da ficção científica não está na biografia dos autores, está na estrutura dos
mundos que constroem. Herbert pode ter alimentado uma religião problemática,
mas Dune é, no essencial, uma crítica à fusão entre misticismo e poder
político, uma análise da manipulação das massas, uma demonstração de como a
autoridade se sustenta em mitos fabricados. Dick pode ter desconfiado
obsessivamente do bloco soviético, mas os seus romances mostram o perigo dos
monopólios, da vigilância, da erosão da realidade quando o poder decide
controlar a perceção. O autor pode falhar; o texto, quando é bom, não falha.
A ficção
científica clássica recorre ao autoritarismo porque o autoritarismo é o
laboratório ideal para observar o que a democracia tenta impedir: concentração
de poder, ausência de escrutínio, submissão tecnológica, manipulação da
memória. Os impérios, as hierarquias, as distopias não são celebrações — são
advertências. Mesmo quando o autor não tem consciência plena disso, a narrativa
expõe o risco. A imaginação, ao exagerar, revela.
É por
isso que a lógica antiautoritária do género permanece intacta. Não depende da
pureza ideológica dos escritores, mas da função crítica das histórias. A ficção
científica, quando projeta futuros sombrios, não está a normalizar o
autoritarismo; está a mostrar o que acontece quando ele vence. E essa
demonstração, repetida ao longo de décadas, é o que mantém o género politicamente
relevante.
A
biografia pode ser falível. A imaginação, quando trabalha bem, não é.

