segunda-feira, junho 15, 2026

Regressar ao Lugar Onde Fomos Tempo

Penso em Rumo ao Farol, de Virginia Woolf, sempre que surge um livro que tenta tocar o passado com a ponta dos dedos, como quem testa a temperatura de uma água antiga. E foi isso que veio a talhe de foice ao deparar com Que reviennent ceux qui sont loin, de Pierre Adrian.

Um narrador regressa à casa costeira onde passava os verões da infância. E tenta pressentir as memórias guardadas dos que ali viveram e já não existem.

A casa torna‑se corpo a respirar o que ficou e devolve ecos do nele perdido. E é nessa oscilação entre presença e ausência que o livro encontra o centro. Tal como em Woolf, o espaço não é cenário, mas consciência. O lugar onde o tempo se dobra.

O que está em causa é a fugacidade da vida, tema incontornável para quem guarda do passado mítico uma reminiscência idealizada. Não é nostalgia — é arqueologia íntima, tentativa de recuperar o que sentimos quando aconteceu. E isso, como Woolf sabia, é sempre impossível. Mas também o que nos move.

Há uma espécie de ternura melancólica nestes regressos. Uma vontade de reencontrar o que já não está. Uma esperança secreta de o lugar ter guardado aquilo que a memória deixou escapar. Mas, por mais fiel que seja, ele nada devolve. Apenas confirma que o tempo passou. E nós passámos com ele.

Vale a pena pensar neste gesto de regressar. Não para recuperar o que fomos, mas compreender o remanescente. E talvez para aceitar que a infância — essa pátria impossível — só existe porque a perdemos.

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