O médico
Nelson Olim, com experiência em zonas de conflito, aprendeu algo que custa
admitir. A fronteira entre um quotidiano tranquilo — pessoas a conviverem
pacificamente, a cumprirem rotinas, a acreditarem na normalidade — e a barbárie
é mais fina do que gostaríamos de imaginar.
Ele viu
isso repetidamente. Comunidades inteiras que, num dia, partilhavam pão e
conversa. E no dia seguinte, com a declaração de guerra, rendiam‑se à violência
como se ela estivesse apenas à espera de autorização para emergir.
A
transformação é rápida. Quase instantânea. E profundamente perturbadora.
Essa
constatação deu-lhe uma perspetiva pouco abonatória sobre os seres humanos. Não
por pessimismo — mas por observação. Olim percebeu que a civilização é um
verniz. Uma película frágil que se estala ao primeiro impacto. E, por baixo
dela, continuam a existir medos, ódios, impulsos primários que nunca
desapareceram realmente.
É uma
visão difícil de aceitar. Preferimos acreditar sermos melhores do que isso. Que
aprendemos com a História. Que a barbárie é exceção, não possibilidade latente.
Mas quem esteve no terreno sabe que basta um empurrão — político, religioso,
identitário — para o pior se tornar prática quotidiana.
Vale a
pena pensar nesta fragilidade da condição humana. Não para nos resignarmos, mas
para percebermos que a paz exige vigilância. E a humanidade, para existir,
precisa de ser escolhida todos os dias.

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