segunda-feira, junho 15, 2026

A Linha Ténue da Civilização

 


O médico Nelson Olim, com experiência em zonas de conflito, aprendeu algo que custa admitir. A fronteira entre um quotidiano tranquilo — pessoas a conviverem pacificamente, a cumprirem rotinas, a acreditarem na normalidade — e a barbárie é mais fina do que gostaríamos de imaginar.

Ele viu isso repetidamente. Comunidades inteiras que, num dia, partilhavam pão e conversa. E no dia seguinte, com a declaração de guerra, rendiam‑se à violência como se ela estivesse apenas à espera de autorização para emergir.

A transformação é rápida. Quase instantânea. E profundamente perturbadora.

Essa constatação deu-lhe uma perspetiva pouco abonatória sobre os seres humanos. Não por pessimismo — mas por observação. Olim percebeu que a civilização é um verniz. Uma película frágil que se estala ao primeiro impacto. E, por baixo dela, continuam a existir medos, ódios, impulsos primários que nunca desapareceram realmente.

É uma visão difícil de aceitar. Preferimos acreditar sermos melhores do que isso. Que aprendemos com a História. Que a barbárie é exceção, não possibilidade latente. Mas quem esteve no terreno sabe que basta um empurrão — político, religioso, identitário — para o pior se tornar prática quotidiana.

Vale a pena pensar nesta fragilidade da condição humana. Não para nos resignarmos, mas para percebermos que a paz exige vigilância. E a humanidade, para existir, precisa de ser escolhida todos os dias.

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