sábado, junho 20, 2026

Quando a Arte Recusa Esquecer

 


Enquanto a comunicação social vai dando espaço inqualificável à indigência argumentativa das direitas — sobretudo das mais extremas — o teatro e o cinema têm ocupado, quase sozinhos, o lugar da resistência. São eles que insistem em lembrar o que foi o fascismo. O sofrimento que engendrou. As famílias que resistiram como puderam à violência de um regime que oprimia quase toda a população e a deixava vegetar na miséria.

A Colónia, de Marco Martins, e Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, de Tiago Rodrigues, são dois marcos desse esforço. Não apenas obras artísticas, mas atos de memória. Peças que recusam o esquecimento confortável. Que devolvem ao presente a brutalidade de um passado que muitos preferem varrer para debaixo do tapete. E que surgem precisamente nos anos em que se verifica um refluxo ideológico e grande parte do eleitorado parece ter esquecido a alegria com que pais e avós celebraram a Revolução de Abril.

A arte, nestes momentos, torna‑se contracorrente. Não segue a maré — enfrenta‑a. E lembra que a democracia não é um dado adquirido, mas uma conquista frágil, sempre ameaçada por quem prefere a ordem à liberdade, a obediência ao pensamento, o medo à dignidade.

Como os ciclos das águas são mais do que os marinheiros, resta confiar no regresso da maré cheia. Que venha lavar os piores efeitos desta maré vaza. Que devolva ao país a memória que alguns tentam amputar. E lembre, com a força tranquila da arte, que a liberdade não se negocia.

Vale a pena pensar no papel da arte como resistência. Porque, quando tudo recua, é ela que avança.

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