Enquanto
a comunicação social vai dando espaço inqualificável à indigência argumentativa
das direitas — sobretudo das mais extremas — o teatro e o cinema têm ocupado,
quase sozinhos, o lugar da resistência. São eles que insistem em lembrar o que
foi o fascismo. O sofrimento que engendrou. As famílias que resistiram como
puderam à violência de um regime que oprimia quase toda a população e a deixava
vegetar na miséria.
A
Colónia, de
Marco Martins, e Catarina e a Beleza de Matar Fascistas, de Tiago
Rodrigues, são dois marcos desse esforço. Não apenas obras artísticas, mas atos
de memória. Peças que recusam o esquecimento confortável. Que devolvem ao
presente a brutalidade de um passado que muitos preferem varrer para debaixo do
tapete. E que surgem precisamente nos anos em que se verifica um refluxo
ideológico e grande parte do eleitorado parece ter esquecido a alegria com que
pais e avós celebraram a Revolução de Abril.
A arte,
nestes momentos, torna‑se contracorrente. Não segue a maré — enfrenta‑a. E
lembra que a democracia não é um dado adquirido, mas uma conquista frágil,
sempre ameaçada por quem prefere a ordem à liberdade, a obediência ao
pensamento, o medo à dignidade.
Como os
ciclos das águas são mais do que os marinheiros, resta confiar no regresso da
maré cheia. Que venha lavar os piores efeitos desta maré vaza. Que devolva ao
país a memória que alguns tentam amputar. E lembre, com a força tranquila da
arte, que a liberdade não se negocia.
Vale a
pena pensar no papel da arte como resistência. Porque, quando tudo recua, é ela
que avança.

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